Os treinadores também precisam amadurecer a ideia de projetos longos

Leonardo Erys
Jul 23, 2017 · 4 min read

Geninho pediu demissão na quarta-feira passada (20) do comando técnico do ABC após sete derrotas consecutivas. A diretoria do clube havia reafirmado a confiança no trabalho dele após a quarta e sexta derrotas dessa série. Mesmo assim, ele deixou o Alvinegro, que hoje está na penúltima colocação da Série B. A decisão foi dele, apenas dele.

Dia após dia se debate o quão efêmero é o tempo de trabalho de um técnico no Brasil e como a cultura de demissões de treinadores, imposta geralmente pelas diretorias, prejudica o desenvolvimento de uma equipe. A pergunta que fica é: os treinadores também estão preparados para os projetos a longo prazo que tanto pedem?

Geninho pediu demissão do ABC após um ano e cinco meses de trabalho com o time na zona de rebaixamento da Série B (Foto: Assessoria do ABC)

No último mês, Abel Braga, técnico do Fluminense, reacendeu a questão ao sugerir uma greve geral dos treinadores após demissão de nove técnicos em 12 rodadas do Brasileirão.

“O cara que contrata, faz um projeto… é mentiroso. Manda embora dois meses depois. Que projeto é esse? Enquanto não parar, não tiver rodada, não vai mudar nada. É deprimente, vergonhoso. Isso tem que acabar.” (Abel Braga)

Abel, em partes, tem razão. De todas as quedas na Série A, nenhuma foi escolha do treinador - todas das direções. A de Geninho tem outro contexto. Nem a diretoria e nem os torcedores queriam que ele saísse do clube. Ele tinha a confiança de dentro do vestiário e das arquibancadas (que inclusive o isentou de uma goleada sofrida por 6 a 0 que o eliminou da Série C em 2016). Mesmo assim, ele pulou fora do barco.

Geninho nunca foi um dedo em riste pelo fim dessa cultura, como hoje se manifestam Paulo Autuori, Eduardo Baptista, Roger Machado, Muricy Ramalho e tantos outros nomes importantes do futebol brasileiro. Até por isso, é impossível cobrá-lo dessa forma. E a decisão, claro, é pessoal.

Mas nas entrevistas pós-saída, ele disse acreditar que “um novo treinador poderia mexer com o grupo” para a equipe voltar a vencer na competição. E é essa a cultura que também não se desprendeu de alguns treinadores que por vezes cobram continuidade.

Não dá para saber se Geninho teve medo de ter seu nome manchado com um rebaixamento. Mas o fato é que, depois de sete derrotas seguidas, ele mesmo acreditou que não conseguiria reagir na Série B, mesmo com a diretoria o garantindo no cargo.

ABC vive momento delicado na Série B do Brasileirão (Foto: Andrei Torres/ABC FC)

Até nesta má fase e no pedido de demissão, a torcida o isentou. Os culpados? A diretoria e os jogadores. De fato, houve erros de avaliação na montagem do elenco por parte da direção, que acreditou na base vencedora do Estadual e não buscou no mercado principalmente médios de organização, laterais e atacantes de lado de campo que dessem mais criatividade à equipe. Além disso, não pesou a péssima campanha jogando fora de Natal do time nesta temporada — ainda antes da Série B.

É verdade também que o potencial de mercado do ABC não é dos maiores numa Série B para contratações. A questão é que Geninho também sabia de tudo isso. E topou o “projeto” ainda assim. Tanto é que o elenco tem vários nomes indicados por ele, como Anderson Pedra, Oswaldo, Eltinho, Bocão, Felipe Guedes e Caio Mancha, por exemplo, titulares nas últimas partidas.


Confiança dos dois lados. Jürgen Klopp passou por maus bocados na sua última temporada como treinador do Borussia Dortmund na temporada 2014/2015. O clube aurinegro esteve durante quase todo o primeiro turno do Campeonato Alemão na zona de rebaixamento.

Klopp seguiu no Borussia, quando equipe lutou contra o rebaixamento (Foto: Divulgação)

A pressão era grande, já que a equipe era recheada de estrelas e havia sido vice-campeã europeia em 2013. Mas ele sequer teve a demissão cogitada pela diretoria. E sequer ameaçou pedir para sair. Só com o time longe de perigo no final do segundo turno, anunciou que deixaria o clube ao final da temporada, cumprindo um ciclo que durou sete anos.

Ele, além da diretoria, também confiava no seu próprio trabalho para sair da zona de rebaixamento.

Às vezes a receita também dá errado. Renê Simões, por exemplo, foi técnico do Vitória durante todo 2005. Conquistou o Campeonato Baiano daquele ano e foi mantido no cargo até o final da temporada. Acabou num rebaixamento histórico do clube para a Série C do Brasileirão.


As diretorias precisam, de fato, entender melhor o quanto a busca por uma identidade de jogo passa pela manutenção de uma comissão técnica e pela seleção fundamentada de jogadores que se encontrem nesse plano.

Mas até que ponto os técnicos também estão preparados para seguirem a qualquer custo - mesmo que caindo pelas tabelas ou manchando currículos - defendendo seu trabalho a longo prazo e sua implantação na maneira de jogar?

No atual cenário brasileiro, quando a coisa anda mal em campo, não são apenas as direções que tem o ímpeto da mudança: os técnicos também são reféns dessa cultura.

Meião Baixo

Análise de desempenho no futebol potiguar

Leonardo Erys

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Meião Baixo

Análise de desempenho no futebol potiguar

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