A orelha de Van Gogh

Rodrigo Ferreira
Feb 13, 2020 · 4 min read

Ou a intersecção entre arte e saúde da mente

Em meados de 1888, numa história controversa até hoje, Van Gogh aproveitava uma noite estrelada para arrancar a própria orelha. E não apenas um pedacinho. Relatos falam de um corte transversal que mutilou o órgão inteiro (!). Que tipo de desordem mental levou a esse desfecho? Van Gogh, e sua orelha, são um tópico recorrente quando o tema é arte ou loucura. Pois aqui vamos falar dos dois.

A história da arte tenta as vezes encontrar a fragilidade mental do pintor em suas pinceladas vanguardistas, mas existe uma relação direta? Mais fácil dizer que sua genialidade o isolou do seu próprio tempo, e essa incompreensão piorou seu quadro — o clínico — os girassóis continuaram belíssimos.

Para ser contemporâneo, podemos falar também de Yayoi Kusama, a artista plástica japonesa famosa por sua obsessão em padrões de bolinhas. Ela sofre de transtorno obsessivo compulsivo e alucinações desde a infância. Seu diagnóstico influencia diretamente sua produção, seus padrões obsessivos são, segundo ela, sua cura. Uma cura muito rentável: ela está entre as artistas mulheres que mais faturou com suas obras em vida. Negócios à parte, já em idade avançada, a artista vive em uma clínica psiquiátrica perto de uma de suas galerias onde continua produzindo, se curando e convivendo com suas obsessões.

Retrato de Yayoi Kusama, 2017. © Yayoi Kusama. Fonte: artsy.net

Van Gogh, sua orelha e Kusama são expressões fortes da influência das doenças mentais na produção artística. Mas eu quero falar aqui do oposto: a arte como influenciadora do tema saúde da mente.

A arte na história sempre participa dos processos de revolução e transformação social, num tipo de relação recíproca, tanto influenciando como sendo influenciada¹. Ela é uma poderosa ferramenta de impacto. Acreditando nisso estamos experimentando na Meiuca.org um projeto de reflexão e difusão de temas e causas relevantes através da arte, a Galeria Meiuca.

Faz sentido? Acreditamos que sim, vê se você concorda:

A imagem não segue a lógica binária do verdadeiro ou falso, é quase uma terceira via dialética². Ela não cai na arrogância de alguns discursos ou na superficialidade de outros. Ela também é aberta à leitura do interlocutor, pode-se dizer que ela ganha significado quando alguém se entende nela. É aquele ditado: se uma árvore cai no meio da floresta, mas não tem ninguém pra ouvir (preferencialmente alguém cuja orelha não foi mutilada), ela faz barulho? Podemos questionar: se uma obra de arte é produzida mas nunca visualizada, ela é mensagem? Não to aqui pra inventar umas regras, mas fico confortável em sugerir que a interpretação individual empodera e reforça o significado de uma obra visual.

Podemos ser mais subjetivos também. Van Gogh produziu cerca de 35 autorretratos, o que daria um belo feed de instagram, e cada um transmite uma mensagem própria já que expressões faciais sempre comunicam muito e com muita sutileza. Mas um desses quadros fala mais alto: produzido em 1889 ele retrata nosso pintor com uma grande atadura passando na lateral do rosto e cobrindo a área da orelha já mutilada. A mensagem está toda lá, a epítome da sua crise mental, a ferocidade da automutilação, sem argumentos verbais nem detalhes textuais (desnecessários). Enquanto a gente ainda começaria a explicar o que rolou a imagem já falava com sensações que outros meios de argumentação não conseguem nem tocar.

E posso dizer que Van Gogh é mestre nisso. A primeira obra que me emocionou ao vivo foi justamente um autorretrato dele no MoMA. Arrepiou e deixou o olhinho marejado. Em outra oportunidade, no museu Van Gogh, eu vi uma menina chorando pesado enquanto observava o clássico Os Girassóis. A visualidade é poderosa.

Nesse conjunto então, parece justo concluir que arte é uma eficiente propagadora de mensagens de impacto, nela ninguém é excluído e não há verdades absolutas. Ela é um universo sinestésico de reflexão coletiva e um convite aberto à reflexões individuais. Ela é desenhada sob influência do seu entorno mas também a própria influenciadora dele. Ela é o Van Gogh cortando a orelha e o retrato da orelha cortada de Van Gogh.

Vivenciamos um pouco disso aqui nos dias da exposição “Sociedade de Vidro” da Galeria Meiuca. O projeto une artistas, uma causa relevante e uma instituição com trabalho reconhecido sobre o tema. Na primeira edição unimos 19 artistas voluntários que produziram 27 obras exclusivas. Levantamos uma exposição que em três dias recebeu cerca de 300 visitantes. As obras todas estão à venda e o valor arrecadado vai ser revertido para um projeto social.

As mensagens expressadas pelos artistas incentivaram a reflexão sobre os temas da saúde da mente. E o convite à reflexão continua aqui, dá uma olhada na produção dos nossos vanguardistas de orelha intacta: galeria.meiuca.org.

E que a arte continue nos revolucionando.

¹ HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. São Paulo: Mestre Jou, 1982. ² DURAND, Gilbert. O Imaginário — Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. Rio de Janeiro: DIFEL, 2011.

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