Se design não é sobre fazer a diferença, é sobre o quê?

Uma reflexão sobre o poder do que fazemos.

Pare e pense comigo

Você aí, que trabalha com produtos digitais, já parou pra pensar no poder do que fazemos? Nosso ofício é potencializar os objetivos de alguém, de algum negócio na imensa maioria das vezes. Projetamos para escala. E é nesse ponto que começa a reflexão: quando esses objetivos não são tão benéficos para nosso mundão ou para nossa sociedade, o que fazemos? Simplesmente ajudamos a causar um estrago ainda maior?

Alternativa A: “Estou sendo pago pra fazer isso, não é problema meu.”

Se você acha que seu papel no mundo é “fazer o seu” e dorme tranquilo com isso, esqueça esse texto. Segue o baile! :)

Alternativa B: “Se o desafio for interessante…”

Tudo bem. Ele pode ser tecnicamente desafiador, dar aquele up no seu portfólio e muitas outras coisas. Entendo. Refletir é o primeiro passo, por mais que você não encontre razões para pular fora.

Alternativa C: “Reflito sobre o impacto do projeto e posso dizer não.”

Caso essa seja a opção correta pra você, parabéns. Você provavelmente faz o que ama e aposto que deve ser um profissional incrível (ou vai se tornar um muito em breve, tá no caminho certo).

Realmente acredito que o que fazemos é muito poderoso, por isso reflito sobre as mãos que iremos entregar nosso conhecimento. E faço isso pensando em mim, não quero viver a decepção de ver algo que ajudei a projetar causando estrago. Guardadas as devidas proporções, uma coisa meio “Santos Dummont e seu avião sendo usado como arma de guerra”.

Impacto positivo? Vamo que vamo :)

Nosso filtro

Aqui na Meiuca, um laboratório de design em escala, refletimos sobre o impacto de absolutamente tudo.

E fazemos isso a partir de um critério MUITO simples: a empresa gera um impacto negativo? Não topamos. E não adianta colocar um caminhão de dinheiro na mesa. Tá mais para um impacto neutro? Opa, sentamos para conversar (essa é a maioria dos casos). Agora, se gerar impacto positivo… Não só topamos, como flexibilizamos nossos custos para viabilizar o projeto. \o/

PS.: infelizmente as empresas mais engajadas não são as com cofres mais gordos e, evidentemente, isso parece não ser uma coincidência.

Já negamos alguns projetos (bem grandes e rentáveis) em nome dos nossos ideais, contrariando muita gente que dizia ser “utopia”.

E os boletos? É claro que eles não param de chegar, essa não é uma decisão fácil. O que precisa ficar claro é o que você está disposto a vender: seu conhecimento ou sua ética? Nossa opinião é de que a segunda não tem preço.

Empatia + ética: a base de um bom designer

Design é sobre empatia, se colocar no lugar do outro, entender a dor dos nossos semelhantes (inclusive aqueles não tão parecidos assim com a gente). Mas isso você já deve saber… O problema é que não pode ser só “quando convém”! Empatia precisa ser um exercício diário. Pratique com o motorista do Uber, com absolutamente todas as pessoas que fazem parte da sua rotina. Converse, se interesse, se conecte. É divertido! :)

Conhecer e se conectar com pessoas é o que nos permite projetar soluções desejáveis e, principalmente, nos oferece um filtro mágico sobre a diferença que aquilo vai fazer na vida delas. Pro bem e pro mal!

Design também é sobre ética, sobre saber nossos limites. Cada decisão que tomamos afeta vidas. E isso vai muito além de aceitar ou não um projeto (talvez até um emprego). Absolutamente tudo o que fazemos precisa passar por esse nosso maravilhoso filtro. Vale tudo pra melhorar aquela métrica? Pense bem.

E muito cuidado para não mentir para você mesmo amparado por desculpas do tipo “o usuário não sabe, mas isso é o melhor pra ele”.

Para resumir: exercitar sua capacidade de empatia vai levar seus conceitos de ética para outro nível. Quanto mais conhecer o ser humano (em especial os com opiniões e realidades diferentes das suas) maior será sua capacidade de refletir sobre “certo e errado”. E conhecer quem sofreria as consequência das nossas escolhas faz a gente pensar um milhão de vezes antes de agir.

Imagine um cenário: um certo político corta a verba da merenda dizendo que as crianças não “precisam repetir”. Ele atingiu seu objetivo de “negócio” que era reduzir custos, correto? Mas agora pense se ele tivesse se preocupado em viver UM DIA ao lado dessas crianças e descoberto que essa é a única refeição diária de muitas delas, será que ainda sim tomaria essa decisão? #reflitaDoria

Acredito e, propago, a opinião de que ética evolui. Acredito que está diretamente relacionada a seu momento de vida, carreira, posição na sociedade e experiência (sim, os cabelos grisalhos trazem muita coisa boa).

Ando desenvolvendo uma teoria nas mesas de bar sobre a relação da “Pirâmide de Maslow” com nossa ética e o nascimento de uma “elite ética” (que não necessariamente é a mesma da intelectual e muito menos da financeira).

Mas isso é assunto para um próximo post. Em breve, prometo! ;)

Tudo isso, para dizer que o primeiro passo é exercitar nossa habilidade de empatia, para assim evoluirmos nossa ética e, só então, entendermos a profundidade do conceito “fazer a diferença”.

Diferencinha, diferença ou BAITA diferença?

Sim, esse é um conceito bem amplo.

Ajudar seu usuário a alcançar uma segunda via de boleto pode sim fazer uma diferença danada no dia dele. Entretenimento? Claro, todo mundo gosta de rir. Enfim, podemos sim levar pequenas “pílulas de diferença” às pessoas. Mas a questão é: como seria o mundo ou a sociedade se esse produto ou projeto simplesmente não existisse?

Seria melhor sem ele? Xiiii, tá na hora de repensar. Não mudaria em nada? Talvez seja o que chamamos por aqui de neutro (e nenhum pecado nisso). Agora se chegar a conclusão sincera de que faz de fato o mundo um lugar melhor, então comemore. E se doe para fazer isso acontecer! :)

“Tá, tá, tá. Mas se eu nego projeto 
ou emprego, como pago meu aluguel?”

Cultura de pro bono

Trabalhar com algo que você realmente acredita é um privilégio. O primeiro passo é entender que você deve sim perseguir esse sonho, é possível conciliar desafio técnico com propósito, por mais que pareça utopia em alguns momentos.

Mas e até lá?

Na Meiuca a gente instaurou (na verdade está lutando bastante pra isso) uma cultura de pro bono. Ou seja, nos dedicarmos por algumas horas para projetos sem fins lucrativos.

Essa cultura é muito comum no mercado de advocacia. E, para o mercado de design, entendo que possa ter muitos benefícios (mesmo ninguém falando disso).

Eu explico! :)

Dividimos a Meiuca em três grandes pilares:

Processos

Somos um laboratório de Design em Escala, lembra? Por isso buscar hacks para criar formas mais eficientes de trabalhar é nossa missão diária. Unir ferramentas e gatilhos de cultura em um workflow perfeito é nosso maior desafio.

Pessoas
A magia de se alcançar produtividade está em arranjar tempo para fazer aquilo que um bom designer sabe que é realmente capaz de revolucionar o negócio: conhecer profundamente nossos usuários. Por aqui investigamos públicos extremos e formas de entender melhor para quem projetamos.

Tecnologia
Tecnologia é o fio condutor de tudo o que fazemos. Investigamos maneiras de usar ela a nosso favor na busca pelo Design em Escala, mas nesse processo acabamos descobrindo também coisas capazes de ajudar o produto/negócio de outras formas.

“Mas qual a ligação disso com os probonos, Thiagão?”

Por aqui usamos eles (esses projetos que fazemos por amor) como nosso grande laboratório. Buscamos ajudar uma causa enquanto testamos abordagens diferentes nesses 03 pilares!

A gente ganha, a instituição ou iniciativa ganha e, o melhor de tudo, fazemos aquela BAITA diferença. Sem contar o efeito positivo no time! \o/

Logo quando começamos fizemos o SOMAI, um app para índio em parceria com o IPAM( Instituto de Pesquisa da Amazônia) ganhador do Google Impact Challenge 2016.

Pra isso passei uma semana no Xingu vivendo como índio, a experiência mais incrível da minha vida. Esse projeto nos desafiou a esquecer todos os padrões de usabilidade e aprendi, de uma vez por todas, o valor da empatia.

Ps.: falei sobre ele no Interaction South America 2017 e também na UX Conf 2018 (o resumo está no nosso Behance e nesse artigo aqui).

Agora estamos tentando ajudar o Projeto Viela, uma inciativa fantástica para crianças de uma comunidade da região sul de São Paulo, focada em fazer com que se mantenha vivo o direito de sonhar e aprender brincando. A lista de aprendizados já está gigante! \o/

Agora sinceramente falando: não, não é nada fácil.

Trabalhar com o terceiro setor exige carinho e dedicação. Mais do que você já precisou em qualquer outro projeto! Agora, se vale a pena? Não tenha dúvida. A recompensa é diretamente proporcional ao tamanho do desafio.

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