Casagrande e a coragem para comemorar as vitórias

O final da Copa do Mundo na Rússia não foi como a gente quis. O hexacampeonato não veio, mas isso não quer dizer que tudo foi em vão. A safra de memes foi de primeira, vários debates envolvendo política e futebol, torcidas e jogos emocionantes que fizeram valer o churras e os chopps. Mas, o que eu mais gostei nessa final foi ver um Casagrande comemorando sua vitória de passar uma Copa do Mundo totalmente sóbrio.

Pra quem não conhece, Walter Casagrande Jr. foi atacante do Corinthians nos anos 80 e atualmente é comentarista de futebol. Dentre muitos gols e lances incríveis, Casagrande (ou Casão) enfrenta um sério problema com drogas. Hoje, aos 55 anos, esse ariano foi corajoso ao falar sobre a sua vitória.

Pra mim, essa é a Copa mais importante da minha vida. Porque eu tive uma proposta pra vir pra cá, quando eu saí do Brasil que era chegar aqui, numa Copa do Mundo sóbrio, permanecer sóbrio e voltar pra minha casa sóbrio. E eu tô muito feliz (choro)

Digo coragem pois para quem não está na situação, conquistas como a do Casão podem não significar nada. E se tratando de uma vitória como ficar sóbrio, nem sempre a empatia se faz presente. Mas, você já parou para pensar quantas vezes você deixou de comemorar algo por saber que isso só teria significado para si mesmo?

Casão falou para milhares de pessoas sobre a sua vitória e ainda chorou. Falou na tv aberta sobre como estava feliz por ter conseguido ficar sóbrio em uma Copa do Mundo. Quantas vezes você se permitiu chorar ou explodir de felicidade para comemorar suas pequenas vitórias? Tenho certeza que foram poucas. E é compreensível, já que as pequenas vitórias não são valorizadas como deveriam ser.

O foco no objetivo final nos bloqueia para ver as pequenas vitórias que nos conduzem até lá. A luta de Casagrande contra a dependência química é antiga. Semanas atrás ele falou numa entrevista que muita gente fazia piada por ele ser dependente químico e ainda completou “ninguém sabe o esforço que eu faço pra não usar droga”. O esforço ser reconhecido somente no final — quando o grande objetivo é atingido é um ato bastante cruel e prejudicial.

Todos os dias, estamos em lutas diárias. Contra nossos medos, nossas angústias, nossos vícios. Nem todos os dias ganhamos, mas nem todos os dias perdemos. Dias de luta, dias de glória,não é mesmo? Talvez você aí do outro lado não seja dependente químico, mas sei que você tem seus enfrentamentos. Uma das coisas que aprendi com a separação foi ver meus pequenos passos. Uma noite, eu tava péssima por conta da separação e fiquei no chão chorando desesperada. Liguei pra minha terapeuta aos prantos e tivemos o seguinte diálogo:

“Ana, o que você consegue fazer agora?
Levantar e deitar na minha cama.
Então, faça isso.
(5 minutos depois)
Conseguiu, Ana?
Sim.
Então, apague a luz e durma. Dormir na sua cama é a sua vitória”

Pra muita gente, dormir bem é uma rotina. Para outras, é uma vitória. Foi a minha vitória nesse fatídico dia. Eu precisei desta vitória para seguir em frente e encarar tudo que veio depois. Casagrande precisou da sobriedade na Copa como vitória. Isso não vai fazer dele uma pessoa curada do vício, assim como eu não estou 100% bem com a minha separação. Mas, já estou melhor. E sei que só estou melhor por que aprendi a celebrar minhas pequenas vitórias.

Que tenhamos a coragem de Casagrande pra comemorar as vitórias pessoais. Mesmo que não faça sentido pra mais ninguém, mesmo que soe bobo. Se pra você não é, comemore! Muito mais que aprender com os nossos erros, precisamos também reconhecer nossos acertos. Numa sociedade que os erros não são sequer mencionados, assumir e lidar com eles de peito aberto como o Casagrande fez no domingo é corajoso e muito inspirador. Tenhamos empatia e respeito pelas lutas e conquistas alheias.

Ao Casão, deixo aqui a minha admiração e a minha torcida sempre! Que esta tenha sido a primeira de muitas copas com sobriedade e superação. Que venham outros desafios e outras conquistas. Você merece, Casão!

Like what you read? Give AnaLu Oliveira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.