SLOPPY COLLAGE / Mariana Benevides

Bora fazer um zine?

Uma forma autônoma de comunicar. Uma mídia de baixo custo e maior liberdade de expressão. Numa era pré-internet, o zine foi um objeto que serviu para cortar caminhos, horizontalizar informações e unir grupos com gostos e ideias semelhantes. O formato pode ter mil possibilidades, mas a caraterística comum é a de que o zine é uma publicação impressa independente que não depende de ninguém além de quem tá por trás criando.

Mas qual o papel do zine hoje, em um tempo explosivo de milhares informações por segundo? Batemos um papo rápido com Estelle Flores sobre o quanto o zine, hoje em dia, é a mistura de um fazer manual às novas formas de pensar e produzir informação da nossa era pós-internet e desse momento de insurgência de outras formas de fazer arte, ativismo e empoderamento. Estelle é artista gráfica e co-fundadora da Selva Press, primeiro estúdio de risografia de Curitiba.

SLOPPY COLLAGE / Mariana Benevides

Qual era o papel do zine antes da web?

Antes da internet, os zines tinham um papel muito específico… Eles informavam sobre assuntos que não apareciam em revistas mainstream, uniam um grupo de pessoas que gostava daquela mesma coisa e dava um canal de comunicação para que elas pudessem encontrar ainda mais pessoas afim de discutir o mesmo assunto.

Os zines, nessa época ainda chamados de fanzines, por serem produzidos por pessoas que eram “fãs” de alguma coisa (uma banda, um movimento social, etc), eram quase sempre atrelados a um assunto, à divulgação de uma ideia, e seguiam um pouco o formato de revista, sendo composto por imagens e texto, diagramados como uma revista underground.

E como você vê o modo que a internet transformou a produção de zines?

Nos anos 90, quando a internet começou a se tornar o que é hoje, o fanzine como era se tornou obsoleto. Com a internet, ganhamos novas ferramentas que possibilitaram a troca de informação e a autoexpressão e muita gente achou uma maneira mais prática de veicular suas ideias através de um blog ou portal, acessível para qualquer pessoa do mundo com um computador.

Começar a pensar em um zine é pensar em uma ideia que pode ser levada por algumas páginas.

Mas claro que, por outro lado, muita gente também usou a internet pra achar outras pessoas que faziam zines, trocar e conhecer. A internet desafiou o formato e a existência de qualquer outra mídia anterior a ela. E com o zine não foi diferente. O zine nunca morreu de verdade, mas depois da internet, ele perdeu o caráter puramente informativo e foi atingindo um estatuto de fetiche.

Da relação com a música independente às manifestações políticas do fim dos anos 60, o zine sempre serviu como voz de movimentos à margem, não é?

O zine é uma ferramenta historicamente empoderadora. Ao longo da história ele deu voz pra inúmeros movimentos marginalizados, como o punk, o movimento feminista, o ativismo queer, etc. Hoje em dia, essa tendência continua, mas acredito que um pouco menos forte do que foi no passado.

Na verdade, o que acontece hoje é que existe muito mais gente pensando de maneira política. Hoje eu diria que o grupo marginalizado ao qual o zine dá voz são os próprios artistas e esse tema “político” é o tom da nossa época.

Tem muito artista usando os zines para divulgar suas ideias e seus trabalhos, ou até mesmo fazerem da plataforma do zine uma obra de arte. Como você vê esse movimento acontecendo?

Não sei exatamente como o formato se popularizou entre os artistas, mas acredito que venha de muitos lados, da proximidade com o livro de artista, da “onda-forte” que é a negação da tecnologia, do escape do padrão de autoexpressão comum na internet e, principalmente, da dificuldade de ser publicado de maneiras convencionais hoje em dia.

O mercado editorial tradicional só volta sua atenção para aquilo que pode ser vendido em muita quantidade, que é inegavelmente bom e que será consumido com certeza. Ali não há espaço para riscos. Já no mercado editorial independente, tudo é um risco. Tudo é feito sem pensar se haverá ou não um leitor interessado… E a internet também nos ajuda a encontrar esse leitor.

E o que o zine tem a ver com o nosso tempo, essa era em que a produção de informação de certa forma se horizontalizou e se desfragmentou internet afora?

Fazer um zine hoje em dia, acho que é muito parecido com fazer um livro, só que menor. Talvez antigamente fazer um zine fosse mais parecido com fazer uma revista, mas o zine que é mais facilmente encontrado hoje em dia não tem o mesmo tom informativo que tinha antes da internet.

O zine que você encontra em feiras como a Plana são muito mais comparáveis com livros de arte, de imagem, livros de artista do que com revistas. Começar a pensar em um zine é começar a pensar em uma ideia que pode ser levada por algumas páginas.

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