
Moda sustentável: Quando o fim de uma peça é o começo de outra
Falar de roupa é falar de história. Toda peça carrega uma narrativa, um caminho que conta como ela chegou em quem a está vestindo. Basta pensar naquela sua camisa favorita e você provavelmente vai se lembrar da lojinha em que a achou ou do brechó em que a garimpou.
Só que além da memória afetiva que cada um de nós atribui à roupa, toda peça também traz em sua história um passado que diz respeito ao modo em que ela foi produzida e um futuro em relação ao destino que daremos a ela.
Pensar não só no valor afetivo da roupa, mas também na possibilidade sustentável do fim de uma peça ser apenas o começo de uma outra, foi o que nos levou ao Re-Roupa, um projeto conduzido pela estilista Gabriela Mazepa e desenvolvido na Malha, uma plataforma coletiva de moda que fica no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.



Quebrar o ciclo de descarte massivo tão comum ao nosso tempo é uma forma de nadar contra a tendência do desperdício que ainda marca a produção têxtil no Brasil e no mundo. A cada cinco minutos, 10mil peças de roupa vão parar em aterros no Reino Unido. No Brasil, segundo o Sinditêxtil, as 1200 confecções da região do Bom Retiro (SP) produzem cerca de 12 toneladas de resíduos têxteis por dia.
Paralelo ao impacto da indústria, nessa conta pesa também a forma como agimos enquanto consumidores. Os britânicos, por exemplo, somam aproximadamente 30bilhões de libras só em peças que compraram e nunca usaram. Nos Estados Unidos, 80bilhões de itens de moda são comprados anualmente (400% a mais do que 20 anos atrás, segundo o documentário The True Cost), enquanto cada consumidor tende a descartar 32kg de roupa e têxteis anualmente.
Felizmente, no Brasil, repensar os fins das roupas que usamos tem sido uma característica cada vez mais comum na nossa geração. Entre 2009 e 2014, o mercado de brechós cresceu 210% no nosso país, por exemplo. É importante, então, se aproximar cada vez mais de iniciativas que dão outro fim às pontas soltas deixadas pela produção e pelo consumo.





Inspirados pelo espírito de mistura, nossa visita ao Re-Roupa foi uma forma de valorizar o processo de ressignificar o fim de uma roupa. Partindo da simples tarefa de deixar um pouco de cada um e cada uma de nós através de uma peça que não usamos mais, reunimos um conjunto de roupas que se tornaram a matéria-prima para a criação de peças novas. Isso tudo, é claro, com o apoio das costureiras do ateliê que ajudaram a concretizar tantas vontades criativas.
Esse, aliás, é um dos pontos mais interessantes de pensar a sustentabilidade pra além do senso comum que a atribui somente a uma questão ambiental. Em um país que conta com cerca de 155mil trabalhadores em situação de escravidão na indústria têxtil (número estimado pela Walk Free Foundation), é indispensável entender os meios de produção e reconhecer a importância e o valor de cada atribuição no fazer de uma roupa.
Ou seja, além do papel ecológico, a sustentabilidade na moda propõe também uma transformação econômica, social e cultural.


Além de fazer “roupa a partir de roupa”, o Re-Roupa produz oficinas e projetos sociais a partir da sustentabilidade. Dá uma olhada no site para saber mais!