Os Justiceiros
6
Quando o General Taveira, Comandante da Escola, retirou-se do Salão Osório naquela fria manhã de julho, o silêncio era absoluto. Nenhum pigarro; nenhuma cadeira sendo arrastada. O Major Del Mônaco, Comandante do Corpo de Alunos, sentado no centro da mesa diretora e nos observava atentamente. Apenas o bater da caneta na mesa denunciava o seu nervosismo. Os oficiais estavam tensos e somente anos mais tarde, quando fui instrutor na AMAN, tive a compreensão de como uma alteração grave de alunos colocava o comando em cheque diante de seus superiores. Com certeza a orientação ao General Taveira fora na linha de encontre os responsáveis e puna-os exemplarmente. No nível oficial general nem era necessário explicar os efeitos do fracasso. Portanto, a única opção era identificar os culpados e com rapidez.
Hoje entendo porque fomos todos os 700 alunos conduzidos para o salão. Era preciso impedir a comunicação entre os alunos, para que não combinassem uma versão. Por não ter participado dos acontecimentos da noite anterior, e não ser da Companhia onde eles ocorreram, naquele momento eu pouco sabia e mesmo hoje não tenho todos os fatos. Só sei que alguém comentara no café que tinham espancado um aluno e que o comando já estava sabendo.
Era uma sexta-feira, dia que entraríamos de férias de meio de ano; aquelas duas semanas tão aguardadas e quase sagradas. Agora tudo estava em risco. O General fora claro: não haveria férias até que os responsáveis se apresentassem. Mais ainda; passaríamos as duas semanas naquele auditório se preciso fosse. Eu tinha dúvidas se ele poderia fazer aquilo, punir 700 alunos de uma só vez. Não sabia. Apenas observava o que iria acontecer. Eles se entregariam?
Há muitos acontecimentos que terminam por nos afetar, direta ou indiretamente, que só tomamos conhecimento por relatos de terceiros, através de narrativas em geral contraditórias, mesmo que sejam de pessoas que participaram efetivamente de um fato. Temos um trabalho quase de detetive de harmonizar estas narrativas e tentar formar um quadro razoável do que não tivemos acesso de primeira mão. Assim foi aquela noite de quinta-feira, véspera das férias.
Na minha Companha, houve um show de rock, em um palco improvisado no próprio alojamento, onde se apresentou uma banda formada pelo Edilson, Cortes, Noveleto, Cristiano, Vinícius Barriga Branca e outros que não recordo. Lembro apenas que tocaram Sweet Child O´Mine em algum momento. Como costume, fomos dormir perto da meia noite, excitados com o dia seguinte, em que uma frota de ônibus fretados encostariam as oito horas para realizar os deslocamentos para nossas cidades, de norte a sul do país. O que eu não sabia é que um grupo de alunos, de madrugada, resolveu tomar satisfações com um certo aluno que era perseguido desde o início do ano. Não vou citar o nome dele, pois certas coisas pertencem ao âmbito da nossa turma e faz parte de nossa história.
Eu mesmo não lembro de jamais ter tido um contato pessoal com ele, embora todos na Escola soubessem quem ele era. Lembro de tê-lo visto algumas vezes no Colégio Militar do Rio de Janeiro e que tinha uma fama de arrogante. Entrou conosco na Prep e a estória que fiquei sabendo era que teria feito uma lista de veteranos que estavam dando trote, os bichos que estavam aceitando, e entregue aos oficiais, gerando punições a todos os envolvidos. Ficara marcado e os veteranos faziam de tudo para forçá-lo a pedir desligamento.
__ Sabe, Guerson __ confidenciou-me um dia um destes veteranos __ quando vejo esta questão no Fantástico de bullying nas escolas, penso que é justamente o que fazíamos com ele. Tenho vergonha hoje de algumas coisas que fiz. O pior é que nem o conhecia! Só escutava a turma falando dele e ajudei a transformar sua vida em um inferno. Éramos muito cruéis. Eu estava naquela noite do espancamento e confesso que bati muito. E por que? Por nada. Poxa, poderia ser um filho meu, né? Não tenho orgulho nenhum de meu papel nesse dia.
O curioso é que não foi este aluno que foi espancado naquela noite, foi outro. Há duas narrativas que tomei conhecimento. A primeira é que simplesmente erraram a cama e começaram a bater no aluno errado. A segunda é que sabendo que ia ser agredido, o aluno teria pedido a um colega, com desculpa que iria dar uma saída não autorizada e estava punido, para dormir na sua cama e enganar o rondante. O fato é que o chá de manta foi na pessoa errada, o que por si só seria ruim, mas que se transformou rapidamente em um desastre. Um outro aluno, que dormia ao lado, acordou com a confusão e resolveu proteger o amigo. Para azar de todos, e dele mesmo, era um boxeador amador, o que o colocou em condições iniciais de encarar a turba. Consta que já tinha derrubado dois quando, diante da reação inesperada, resolveram partir para a briga de fato e o chá de manta virou um espancamento. Por mais forte que fosse, não teve como enfrentar 30 alunos que acreditavam estar enfrentando alguém que odiavam.
__ Quando escutei alguém gritar que ele estava reagindo, não pensei direito. Só partir para cima e bati do jeito que dava. Nunca fiz isso com ninguém! Era todo mundo batendo. Foi surreal.
Foi assim que chegamos naquele salão, naquela manhã. Acho que ficamos sentados perto de uma hora, com os oficiais nos vigiando. Aos poucos cochichávamos, nervosos. Os ponteiros do relógio que ficava em cima do quadro negro, geralmente para marcar o tempo de prova, giravam implacáveis. O que aconteceria a seguir? Escutei um arrastar de cadeiras. Alguém se levantava. Escutei passos, mas não tive coragem de olhar para trás. Era alguém da minha coluna. Só quando ele passou por mim reconheci o Bacalhau. Ele foi até o Tenente Drawanz e disse algo que não conseguimos escutar. O Tenente, um antigo preposo, colocou a mão no seu ombro e saíram da sala. A seguir, vários começaram a se levantar e procurar os respectivos comandantes.
Vinte e três anos depois, eu e Bacalhau participamos de um exercício de Missão de Paz, em Miami. Numa noite que jantávamos em um restaurante na beira-mar ele comentou comigo.
__ Eu não sabia o que fazer. Entregava-me ou não? Escutei alguém falando. Faz seis meses que não vejo minha família, se não for para casa eu vou ficar um ano sem vê-los. Pensei, caramba, o maluco vai ficar um ano sem ver a família por minha causa. Aí outro falou, se eu descobrir quem foi, vou matar! pronto, agora o outro maluco ia me matar. Resolvi acabar com aquilo logo. Levantei e me entreguei. Fui o primeiro; depois veio o resto. Hoje lamento muito o que fiz, me arrependo mesmo, mas naquela época agimos em bando, sem pensar direito no que estávamos fazendo.
Esse grupo de alunos, que ficou conhecido como os justiceiros, passaram as férias presos na escola. Exceto três, que foram expulsos por já terem outras alterações de mesma natureza nas suas fichas. No ano seguinte houve até um pouco de resquício na AMAN, com os Aspirantes querendo saber quem eram esses alunos, mas o importante é que um fato desses jamais se repetiu. O aluno que deveria estar naquela cama continuou sendo perseguido até o fim, mas sem violência física, na base da pressão psicológica. Quase conseguiu se formar, mas essa é outra estória. Naquele dia, o General cumpriu a orientação que recebeu.
Descubra quem foi e puna-os exemplarmente!
Assim foi feito.


