Qual é a cor do seu dinheiro?

Quando as lutas são cooptadas, as práticas se distanciam dos discursos – e recorremos à metonímia e à metáfora para explicar isso
Existe uma explosão do culto à imagem de pessoas que antes a gente mal sabia a cara, ainda que decorasse cada palavra daquele capítulo daquele livro. Filas enormes para ver “celebridades”¹ da militância, livros sobre combate à desigualdade com preços caríssimos, apetrechos com símbolos “de esquerda” divulgados por meio de propagandas que não deixam em nada a desejar ao conceito de fetiche de Marx. OK, toma aqui meu red money!
O processo de exploração comercial de bandeiras históricas de luta não é novidade, e um termo que resume isso, o pink money, por exemplo, já é bem comum. Um tempo atrás ouvi de uma amiga: “estão achando que só vão pegar nosso black money e cair fora?”. Mas o que é isso de dinheiro ter cor, e como a gente entende isso?
O tal do dinheiro rosa
Resumindo, a expressão pink money é usada quando uma empresa, artista ou marca se apropria da cultura LGBT para criar marketing e ganhar dinheiro. Criam-se ações voltadas ao público LGBT, tendo em vista o poder de compra dessa comunidade, mas não ações de real transformação social.
Inicialmente, essa atitude poderia ser vista como um meio de inclusão desse grupo, por exemplo a criação de baladas voltada às gays que querem dançar sem sofrer violências. Mas o que se observa é um uso superficial da pauta, com empresas criando ações vazias, que não visam de fato à mudança social. Geralmente, o público-alvo dessas empresas é o G da sigla, mais especificamente o gay branco de classe média – quanto mais padrãozinho, melhor.
Vemos muita gente do mundo do entretenimento que levanta a bandeira arco-íris na mídia, conquistando carisma e angariando muitos fãs no meio LGBT, mas na prática o que se observa são práticas LGBTfóbicas, declarações duvidosas, até mesmo a negação de se posicionar.
Pesquisas apontam que os casais LGBT têm um maior poder aquisitivo maior que a média dos casais heterossexuais (fato muitas vezes associado à ausência de filhos),² e o “respeito” desses casais vem daí, desse poder aquisitivo. Aliás, quanto mais elevada a faixa salarial, maior o número declarado de casais do mesmo sexo. Isso não significa que tem mais viado e sapatão entre os ricos, mas sim que, com o poder aquisitivo, essas pessoas conseguem “negociar” sua existência. “Não me agrida porque eu sou um ótimo consumidor.”
O público arco-íris representa muito dinheiro. As pessoas dessa comunidade, portanto, são contempladas pelas marcas não por serem seres humanos dignos de respeito, mas por serem vistas como consumidores. E essa associação entre cidadania e consumo não tem nada, nadinha mesmo, de transformador!
Quando chega a Parada do Orgulho LGBT, um monte de empresa patrocina o evento e faz toda uma decoração temática. Mas ao mesmo tempo que fazem enfeites de arco-íris, não contratam LGBTs em seus cargos de chefia –a essa parcela da população, no máximo sobra vender hambúrguer em empregos precarizados.
Ah, mas a gente já ia gastar dinheiro com comida/roupa/entretenimento de qualquer forma, que pelo menos seja com quem me representa. O ponto é que tem gente que manda um beijo pras gay na frente de uma câmera, mas faz campanha pra político homofóbico na frente de outra. Zero me representa.
Dinheiro metonímico
Para pensar nessa coisa de dinheiro com cor, vamos ver as (muitas) cores das bandeiras desse público, respectivamente: orgulho lésbico, LGBT (a original, de 1978, tinha 2 cores a mais, uma delas era cor-de-rosa), orgulho bissexual, orgulho trans.

Lembra quando a gente estuda na escola coisas como usar a parte pelo todo? É mais ou menos isso que acontece aqui. Veja como, para representar uma categoria, a da comunidade LGBT, a gente atribui a ela a cor rosa. Só que esse recurso de usar um único elemento para representar uma parcela tão grande da população mundial vai ficar para outro momento, tudo bem?
Hoje vamos falar de metonímia, pois ao conceitualizar o termo pink money nos valemos de um processo de extensão semântica por meio de uma metonímia. E, diferentemente do que fazem crer os livros escolares, a metonímia não está só no âmbito das figuras de linguagem!
Assim como a metáfora (já já vamos falar dela), a metonímia é um fenômeno conceitual presente na própria estruturação da língua, mas, enquanto a metáfora faz a associação de dois domínios distintos, a metonímia opera com a associação entre elementos do mesmo domínio. Sua atuação ocorre em apenas um domínio conceitual, pois os termos que se relacionam pertencem ao mesmo campo semântico, de maneira que um substitui o outro.
A metonímia cria a transferência de um termo para o âmbito de um significado que não é o seu – isto é, ela extrapola seu domínio semântico –, numa relação que não ocorre por meio de semelhança entre os elementos, mas sim pela contiguidade das ideias; por isso, é como se ela fosse uma rota de acesso: ao dizer pink, acessamos o conceito de comunidade LGBT. E quando dizemos money, nos referimos a dinheiro, mas não só a ele, e sim a toda essa estrutura comentada aí acima, de esvaziamento de uma causa com o objetivo de direcionar o dinheiro dessa faixa da população para o próprio bolso.
Os substantivos pink e money servem como um ponto de referência, dando suporte ao acesso mental ao alvo desejado: comunidade LGBT e exploração financeira da luta antiLGBTfobia.
Dinheiro preto & metafórico
A expressão pink money é uma extensão semântica por meio de metonímia, mas dela é possível criar outras extensões também. Por exemplo, transpor características do domínio semântico do pink money – da causa LGBT – para o domínio do black money – da luta antirracismo. Só que, neste caso, a extensão se dá via metáfora.
Já falamos de metáfora outras vezes no Membrana Linguística, tanto nos textos traduzidos do Lakoff como neste aqui da Joana. Vamos retomar o que é metáfora conceitual: metáfora é comumente definida como o emprego de palavras ou expressões convencionalmente identificadas com um dado domínio de conhecimento para verbalizar experiências conceituais de outro domínio. Envolve a justaposição de dois domínios conceituais distintos; um deles, o domínio fonte, fornece termos para a verbalização do outro, o domínio alvo. Por exemplo, quando falamos coisas como “O fim de semana está chegando”, ou “O feriado não está muito longe”, estamos usando noções espaciais para fazer referência ao tempo. Inclusive, é muito difícil falar de conceitos temporais sem recorrer a expressões relacionadas a espaço ou movimento.
Metáfora e metonímia não são só traços estilísticos da língua, usadas para dar uns efeitos especiais na literatura. Na verdade, elas refletem correspondências profundas no modo como nosso sistema conceitual está organizado: estão na base de quase toda a linguagem! A diferença é que, enquanto a metonímia dá acesso a outras entidades dentro do mesmo domínio, a metáfora mapeia elementos de diferentes domínios.
Voltando aos dinheiros…
Existe também uma exploração da luta negra para vender e fazer lucro, no mesmo estilo pink money. No entanto, a expressão black money também pode ter outra conotação.
Fazendo uma pesquisa para este texto, descobri que existe o Movimento Black Money, e sua representante, Nina Silva, em certo momento numa entrevista faz relação entre o black e o pink money, e completa: “se eu não me vejo, não compro”. Ambos, então, articulam a sensação de pertencimento e representatividade.
Numa busca rápida, vi que a ideia do movimento surgiu de aproximar os consumidores negros dos empreendedores negros, fazendo circular o dinheiro entre a população preta. Não sou uma especialista nisso, mas o que vejo é que as empresas do pink money têm como foco as gays que já têm grana, e, de olho nessa grana, fazem campanhas para que esse capital vá para os cofres delas. Já o black money tem um pouco dessa exploração sim, mas também tem um outro sentido: de aproximar produtores e empresas de consumidores negros. Ambos têm em comum a proposta de mudar o mundo pelo bolso. “Queremos representatividade também no consumo”, diz o Paulo Rogério Nunes, fundador da aceleradora de negócios sociais Vale do Dendê.
A diferença crucial está em: direcionar o dinheiro dos negros para os negros, diferentemente do pink money, que direciona o dinheiro LGBT aos bolsos de quem na maioria das vezes não é LGBT – nem está na faixa da população mais vulnerável.
Eis a metáfora: ocorre o mapeamento de alguns traços da exploração do dinheiro da comunidade LGBT – o tratamento de um grupo social como um grupo consumidor –, mas outros traços não são transpostos – como a transferência de dinheiro para os bolsos de quem não pertence a esse grupo.
Dinheiro vermelho
Lembram-se que as metáforas surgem também de outras metáforas, não só dos sentidos mais concretos? Com esses dois termos na cabeça, pink e black, outro dia, ao ver uma série de atitudes de um grupo de esquerda explorando o trabalho de seus funcionários precarizados enquanto se autodenomina revolucionário, soltei um “e essa exploração do red money, hein?!”. E como foi tão fácil fazer essa associação da cor vermelha à exploração capitalista das lutas socialistas? Foi simples porque já existia um termo do qual se fazer uma extensão metafórica. Para que quem me ouvia pudesse me entender, foi necessário um common ground, ou seja, uma série de conhecimentos, crenças e vivências comuns entre nós, mas esse tema merece um texto só para ele.
O processo de associação de uma cor a uma causa é similar ao do pink money, mas nesse caso vemos o vermelho como a cor representante do comunismo, do socialismo, ou da esquerda de forma mais ampla. Extensão metonímica entre uma cor (vermelho) e uma causa (esquerda): checked! Agora, vamos à parte do money.
Antes de tudo, precisamos pontuar que esse espectro político-ideológico defende, de modo geral, a igualdade entre os povos, a mitigação dos abismos sociais, o acesso universal a bens materiais e culturais. Muitos anos atrás, li uma entrevista do italiano Noberto Bobbio em que ele fazia uma separação entre direita e esquerda, definindo esta, grosso modo, como: aqueles que sentem e agem do ponto de vista dos pobres, dos excluídos da terra. “Em nosso tempo, todos os que defendem os povos oprimidos, os movimentos de libertação do Terceiro Mundo, são a esquerda. Aqueles que, manifestando-se do alto do próprio interesse, dizem que não há motivo para distribuir o dinheiro que suaram para ganhar, são e serão a direita. Essa é a divisão que existe em toda parte, aqui como no Brasil.” Para Bobbio, de direita são os que julgam as desigualdades como inevitáveis. A esquerda, argumenta ele, “está viva naqueles que consideram iguais todas as pessoas, nos que se atrasam um pouquinho para esperar os mais lentos, nos que estendem as mãos sadias para socorrer as mãos enfermas, nos que se importam de verdade com aqueles que sofrem para subir a ladeira”.
Uma confecção que mantém trabalhadores em regime de semiescravidão fazendo camisetas com foto do Che Guevara. Editoras que vendem livros de Rosa Luxemburgo, Malatesta, Karl Marx, Angela Davis a preços inalcançáveis para a classe trabalhadora, e ainda mantêm funcionários precarizados, à la João Amoêdo, na produção de seus best-sellers sobre… cof cof… direitos trabalhistas. Palestrantes que recebem cachê para falar no ar-condicionado das universidades e espaços de discussão nos bairros com o melhor IDH da cidade, nunca cruzando uma ponte para ir falar sobre combate à fome com os que sofrem com a fome. Um restaurante que levanta bandeiras e promove atividades de diversas resistências (palestina, negra, latino-americana…), mas assedia moralmente seus funcionários que estão no Brasil em condição de refugiados, com processos trabalhistas nas costas (dos funcionários brasileiros, claro, porque os refugiados são explorados sem direitos por não terem como recorrer à justiça trabalhista).
Alguma semelhança com o que vimos até agora? Qual é o alcance real dessas ações e o quanto elas são transformadoras?
Sei que ao ver a Silvia Federici falando a gente pensa “Silvia dona da porra toda”, mas não podemos esquecer que ela está, entre outras coisas, falando da exploração inerente ao conceito de propriedade privada, e não tá falando pra ninguém ser a dona de nada. Ou quando ouvimos Angela Davis e a chamamos de diva/deusa, mas o que ela tá dizendo é: não idolatrem e não busquem a igualdade com os poderosos do sistema que estamos tentando derrubar (nosso objetivo não é que todos sejam iguais a um homem branco!). Sempre desobedecer, nunca reverenciar, né, Belchior?
Não é que pra ser militante raiz simplesmente tem que abrir mão de camiseta, livro, restaurante, mas podemos ficar de olho nas condições em que são feitas as camisetas do Che ou os livros do Engels. Prestemos atenção se tem alguém enchendo o bolso de dinheiro enquanto idolatramos uma arroba.
É facinho se deixar levar pelas paixões incentivadas pela lógica do consumo, mas se não estamos atentos (e fortes), nossas pautas são esvaziadas e usadas pelos acumuladores para acumularem ainda mais dinheiro. Com ou sem metáfora.
[1] As aspas são porque essas tais celebridades são as mesmas que estão dizendo que não faz o menor sentido serem tratadas como celebridades.
[2] Momento Wiki: Sabe-se que o consumidor homossexual gasta 30% a mais em bens de consumo em comparação com um heterossexual de mesma condição social.

