Fabio Brust
Jun 7 · 4 min read
Capas e imagem de Rafael Nobre (https://www.rafaelnobre.com).

Minha leitura atual é Assassinato no Expresso do Oriente, da Agatha Christie, com uma edição lindíssima da HarperCollins que vem em um box com as melhores histórias do amado detetive Hercule Poirot. Dentro do box há dois livros e cada um deles contém mais de uma história. A questão que quero levantar nesse post é que nenhum dos dois volumes possuem títulos na capa.

Os títulos estão lá, é claro! — , mas na lombada, então, mesmo que se esqueça daquele glorioso dia em que os comprou, ainda vai conseguir saber que livros são esses, afinal de contas.

Capa de gray318 (http://gray318.com).

Livros sem o título na capa sempre me fascinaram. O primeiro que eu vi, provavelmente, foi uma edição de 1984, de George Orwell, da Penguin. Apesar de haver texto na capa, trata-se dos mandamentos citados várias vezes ao longo da história que regem o futuro distópico da narrativa. Fiquei completamente embasbacado com a possibilidade de editar um livro do começo ao fim, trabalhar no texto, preparação, revisão, diagramação e chegar na capa e simplesmente decidir, por vontade própria, que o título não estaria na frente. Pra mim, era fora dos padrões, por isso esse recurso ainda me deixa curioso e feliz.

Talvez a melhor capa que eu já tenha visto na minha vida usa essa estratégia de um jeito genial, e é outra edição da mesma editora, para o mesmo livro — deixo logo claro que 1984 é meu livro preferido.

Capa de David Pearson (http://typeasimage.com).

Aqui, o fato de não haver título é tão relevante para essa capa que acaba resumindo todo o propósito da história! O título até está ali, em baixo-relevo, mas o acabamento em preto por cima o censura.

A partir do Pinterest descobri algumas capas lindíssimas que tinham uma coisa em comum: a falta de título. Não demorou para eu descobrir uma editora em cujos livros, na maior parte, utiliza esse artifício: The Folio Society. No caso dessa editora, como seus livros são vendidos pelo correio e entregues em casa, não passando pelas livrarias, aparentemente não há necessidade de as capas conterem os títulos, porque, se você já entrou no site ou viu o catálogo deles e decidiu comprar, deve saber qual é o nome do livro — eles não precisam chamar a atenção dos leitores nas lojas. Por isso, geralmente as edições têm apenas uma ilustração na frente. Que tal essa edição de Game of Thrones em dois volumes?

Ilustrações (e capa também, suponho) de Jonathan Burton (https://www.jonathanburton.net).

No Brasil, a primeira editora a me chamar a atenção por essa razão (além de outras inúmeras, é claro) foi a Darkside Books. Logo no começo de sua trajetória, a editora já chegou com livros com design primoroso e escolhas ousadas, incluindo, obviamente, alguns títulos sem título na capa (gostaram do trocadilho?). Com muito foco nas imagens e pouco texto, muitas vezes as ilustrações ou fotos dão um gosto do que esperar do interior do livro e, em alguns casos, se não em muitos, as lombadas também não têm título!

Infelizmente não sei de quem é a capa :( (https://www.darksidebooks.com.br/medo-imortal-drk-x/p).

Agora, essa estratégia funcionaria com qualquer livro? Com certeza não.

Os livros da Darkside, muitas vezes, apresentam artifícios que substituem o título impresso, como adesivos na embalagem ou cintas. O caso da Folio Society, como falei, não apresenta a necessidade do título por conta de ignorar a etapa da venda em livrarias. As edições de 1984 são de um clássico da literatura mundial que já é amplamente reconhecido. Fato é que a chance de encontrarmos clássicos e livros já bem estabelecidos no imaginário coletivo publicados sem o título na capa é muito maior do que em livros desconhecidos ou de autores iniciantes.

Quando o público já sabe do que está à espera, é muito mais fácil brincar com as possibilidades de design, procurando formas novas e interessantes de apresentar algo que já foi explorado de muitas maneiras. Por outro lado, quando se trata de uma história nova, o melhor é jogar pelo seguro e apresentá-la com nome e sobrenome, para que não haja confusões na hora do leitor conhecê-la.

Isso, entretanto, não quer dizer que não seja possível experimentar o design mesmo em livros que não são clássicos. Um exemplo bacana é o da capa do livro Eu vejo Kate, de Cláudia Lemes, financiado coletivamente no Catarse, que tem o título na dobra, cumprindo seu papel na capa e na lombada e deixando bastante espaço para a ilustração, na frente.

Imagem e capa de Marina Avila (http://marina.fantasya.com.br).

O que vocês acham de capas que usam esse recurso? Para saber mais sobre capas de livros, design e produção editorial, acompanhe-nos aqui no Medium e, também, na nossa página. :)

E, se quiser conhecer um pouco mais a respeito do nosso trabalho com design editorial, acesse www.mementodesigncriatividade.com ;)

Memento Design & Criatividade

A Memento Design & Criatividade é uma empresa criada por dois designers apaixonados por livros e artes gráficas que presta serviços de produção editorial, design editorial e gráfico.

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