América 11x2 Botafogo: maior goleada da história do Diabo faz 90 anos

No canto esquerdo, o placar do estádio de Campos Sales apontava: América 11 a 2, no Globo

Essa é uma das ocasiões em que aqueles que bradam a todo momento: “Há coisas que só acontecem com o Botafogo” podem ao menos sentir o raro conforto da razão. A história começa bem antes. Em 11 de agosto de 1929, o América perdia para alvinegro em Campos Sales por 1 a 0, quando o árbitro Luiz Meirelles Filho assinalou um pênalti que despertou a ira do rival. Inconformado, o adversário recusou-se a continuar o jogo. Só restou a Oswaldo efetuar a cobrança, diante do gol vazio, para decretar o empate. O caminho natural seria uma vitória do América por WO, mas o Botafogo recorreu e a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (Amea) determinou a anulação do clássico, remarcado para três de novembro, no mesmo local. Esse é o jogo que entrou para a história.

Leia: Há 70 anos, América conquistava seu único Torneio Início

Na época, a correlação de forças do futebol carioca era bem diferente da atual. Além de defender o título do Campeonato Carioca de 1928, o América já tinha conquistado até ali quatro de seus sete títulos estaduais. O adversário possuía apenas dois. E, entre eles, estava o de 1907, passou por longo litígio até que, em 1996, a Ferj decidisse reconhecê-lo. Em que pese qualquer possível equívoco da arbitragem, o que não foi consenso nos periódicos da época, empate com o América, especialmente em Campos Sales, era um resultado que não feria o orgulho de ninguém e, muitas vezes, acabava festejado. Todos os jornais destacaram o excelente comparecimento do público, presente para testemunhar um espetáculo que nada valeu.

O lance fatídico ocorreu a dez minutos do fim do tempo regulamentar: um toque de Otacílio em Telê. O árbitro, indicado pelo São Cristóvão, que já havia marcado no primeiro tempo um pênalti para o América, assinalou ali o segundo. O elenco do Botafogo protestou muito antes de deixar o gramado. O diário “O Globo” do dia seguinte registrou que não teve condições de apreciar o polêmico lance por causa da localização das cabines de imprensa do estádio:

“Um ataque do América foi levado a efeito pela esquerda; houve um tirada de um zagueiro botafoguense e ouviu-se um apito do juiz, que ordenou pênalti do quadro visitante. Do local onde se achavam os jornalistas, isto é, do recinto reservado à imprensa pelo campeão da cidade, nada em absoluto se poderia ver, pois que a falta (?) se verificou justamente na outra extremidade do campo! Aquele local é agradável, não há dúvida, mas inconveniente para os que desejam ver para criticar com convicção”.

Formação do América antes do jogo, em Campos Sales, registrada por O Globo

A julgar pelos detalhes oferecidos pelo “Jornal do Brasil”, o repórter não estava na referida tribuna criticada pelo concorrente ou dispunha de posição privilegiada: “Otacílio escorou Telê licitamente, e o juis puniu o Botafogo com um penalty. O time do Botafogo revoltou-se com a decisão, e retirou-se do campo”.

Leia: Plácido conquistou a torcida ao jogar com o braço quebrado, há 80 anos

A crítica mais contundente viria de “O Paiz”. “O gesto de revolta dos rapazes alvinegros tem a sua explicação na actuação do árbitro, que, em todo o segundo tempo foi de uma parcialidade irritante, a qual, por mais boa vontade que tenhamos com elle, não podemos attribuir á ignorancia de regras ou a uma obnubilação dos orgãos visuaes”.

Naquele tempo, o acesso aos envolvidos no jogo era mais simples. No dia seguinte ao confronto, o próprio árbitro apresentava sua versão do lance, nas páginas do “Diário Carioca”.

“Oswaldo escapou com a pelota passando-a a Gugu. Este rápido centro alto, Telê entra. Orlando, procurando evitá-lo pula e, casual ou não, monta-se na cintura daquelle player americano. Marquei, então, o respectivo foul, e nesse caso, por estar na área perigosa, o penalty, que deu origem as desagradáveis cenas ocorridas”, explicou.

Meirelles contou que o elenco do Botafogo alegava, na saída de campo, que houve mão de Telê no lance. Questionado sobre a ocorrência ou não do relatado, o árbitro confirmou o fato, mas analisou o contexto que o levou a marcar a penalidade para o América, e não a falta favorável ao Botafogo.

Leia: Djalma Dias, os 80 anos de um craque formado em Campos Sales

“Sim, houve. Mas nas seguintes condições: Telê recebia a pelota, quando Orlando praticou o foul. O zagueiro alvi-negro procurando desviar da trajetória da bola, passa a perna por entre o braço e o tronco do meia rubro, imprensando-a de encontro ao seu braço esquerdo. Ora, houve o hands, porém, ocasionado pelo tranco-foul. A regra manda que marque-se a primeira penalidade cometida”, concluiu Meirelles Filho.

O pênalti convertido por Oswaldo seria o segundo favorável ao América na partida. Após o gol do Botafogo, em um ataque americano, Orlando, lesionado, pôs a mão na bola. Telê partiu para a cobrança, mas o goleiro Germano defendeu. Em todo caso, estavam plantadas as sementes daquela que seria a maior goleada da história do América.

A GOLEADA HISTÓRICA

Quase três meses se passaram entre o jogo anulado e a partida remarcada. Muitas coisas haviam mudado desde então. O América realizava boa campanha e a remarcação acabou por beneficiá-lo. O empate automaticamente teria garantido o título daquele ano ao Vasco. Mas, caso vencessem o clássico, os rubros empatariam com os cruzmaltinos em número de pontos e teriam direito a uma melhor de três para decidir o título e buscar o bicampeonato.

Jornal do Brasil destaca a goleada do América

Para o Botafogo, a situação era bem diferente. Mesmo em caso de vitória, o alvinegro não teria como ir além do modesto sexto lugar entre 11 participantes. O jogo aconteceu uma semana após o encerramento da fase regular do campeonato. No elenco do América, prevalecia um misto de revolta com a injustiça e a necessidade de superá-la. Talvez este sentimento tenha sido o principal combustível para a construção do resultado.

Leia: América fazia sua estreia em Copas do Brasil há 15 anos

O jogo em si teve pouco de especial, além da remarcação e do excessivo número de gols. Diferentemente do que faz crer o anedotário alvinegro, o Botafogo foi para o jogo com seu time completo. Tanto não era um saco de pancadas que, mesmo após uma goleada por nove gols de diferença, ainda encerrou a competição com saldo positivo em um gol.

PRIMEIRO TEMPO MORNO

Quem chegou atrasado ao estádio perdeu o primeiro gol. O América abriu o placar logo aos dois minutos de jogo, com Telê, com boa assistência de Sobral após falha do alvinegro Póvoas. Era o primeiro dos cinco que faria na partida. O Botafogo ainda empatou aos oito minutos depois, com Nilo.

A julgar pela superioridade descrita pelo placar, os rubros custaram a reassumir a liderança do marcador, o que só aconteceria aos 25 minutos, com Sobral. Aos 29, Telê aproveitou choque entre Oswaldo e o goleiro Germano para ampliar a vantagem: 3 a 1, dando números finais ao primeiro tempo.

Até então, o Botafogo não tinha sofrido mais que cinco gols por partida, limite atingido apenas uma vez, na derrota por 5 a 3 para o Bangu, na 12ª rodada. Uma marca que estava prestes a cair de modo traumático.

NA SEGUNDA ETAPA, 8 A 1

O América voltou avassalador para o segundo tempo, como se estivesse perdendo e dependesse da vitória para seguir vivo na competição. Telê, após toque de Miro, ampliou a vantagem aos trinta segundos de jogo. Dois minutos depois, falha de Alemão, que substituíra Póvoas, deixou Oswaldo livre para fazer seu primeiro gol na partida. Não perca a conta: 5 a 1.

As publicações da época não eram pródigas na descrição dos lances, de modo que não é possível recontar fidedignamente a história de cada gol, por eles ainda chamados de pontos. Aos dez minutos, Germano fez boa defesa, mas não conseguiu evitar o rebote, que sobrou limpo para Sobral marcar o sexto.

O DESESPERO DE NILO

Oswaldo, aos 20, fez o sétimo. E, dois minutos depois, o oitavo. Estava fácil demais. Campos Salles 118, de Fernando Cunha e Orlando Valle, destaca um episódio pitoresco após o oitavo gol. Nilo interpela Oswaldo e protesta:

“Oswaldo, vê se vocês param de fazer gols, pois não viemos aqui apenas para dar saídas”.

Momentaneamente, o pleito pareceu surtir algum breve efeito. Celso descontou aos 24 para a equipe da Zona Sul, mas não adiantou muito. “O Globo” registrou desta maneira a reação acanhada do público: “O feito do grande deanteiro quase passou despercebido, tal o desanimo dos adeptos do alvi-negro”.

Sobral teve oportunidade clara para fazer o nono, aos 27, quando saiu de frente para Germano, mas acabou calçado por alemão: pênalti. Otacílio reclamou com o árbitro Luiz Neves, que se sentiu insultado e ameaçou deixar o gramado. O público logo lembrou do primeiro jogo, anulado. Mas Nilo, o capitão alvinegro, apaziguou os ânimos. Telê cobrou e fez: 9 a 2.

Mas o apetite de Telê seguia inabalável. Ele já tinha feito quatro gols, mas ainda queria mais. Quatro minutos depois, aproveitou trapalhada da defesa alvinegra para fazer 10 a 2. E Sobral, em posição de impedimento, de acordo com publicações da época, driblou Germano, antes de selar o placar que registraria um gol para cada jogador americano em campo: 11 a 2.

Desde então, o América jamais obteve outra vitória por placar tão expressivo, o que mantém essa como maior goleada de sua história. Essa foi também a goleada mais elástica sofrida pelo Botafogo, contra qualquer adversário. O título daquela temporada acabaria nas mãos do Vasco.

América 11x2 Botafogo

Data: 03/11/1929

Estádio do América, na Rua Campos Sales

Árbitro: Luiz Neves

América: Joel; Penaforte e Hildegardo; Hermógenes, Floriano e Mario Pinto; Gilberto, Oswaldo, Sobral, Telê e Miro.

Botafogo: Germano; Octacílio e Póvoas (depois Alemão); Burlamaqui, Rogério e Benedicto; Edmundo, Nilo, Paulo, Almir e Celso.

Gols: Telê (5), Sobral (3) e Oswaldo (3), para o América; Nilo e Celso para o Botafogo.

memoria.americana

Resgate da história do America FC

Museu da Memória Americana

Written by

Aqui resgatamos a nossa história, o nosso orgulho

memoria.americana

Resgate da história do America FC

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade