Iniciando o dia com um borderline (s.)

Antes de abrir os olhos, a mente já dá os primeiros sinais: inúmeros pensamentos convexos e desconexos, é como um aglomerados de fios, sem ter por onde começar a desenrolar, com várias pontas e nenhum contínuo de fio exposto. O cansaço chega antes mesmo de levantar da cama, pois ao abrir os olhos, lamento por ter que acordar mais um dia para enfrentar os dragões. Ao lavar o rosto, mais sensações estranhas ao me deparar com a imagem refletida ali em minha frente — meu eu. Não sei o que é mais estranho, a falta de reconhecimento ao me olhar no espelho e ver um corpo que não parece a mim pertencer ou logo de manhã se deparar com essa centenas de retalhos no corpo ao me olhar. Ok, mais uma etapa vencida. Preparo meu café, reclamo com as pessoas ao redor por algo sem sentido e sento no sofá, ligo a tv, no noticiário matinal uma notícia com morte de mais de 50 crianças mortas na Síria, suspiro fundo e aquilo me atinge como se uma rocha de cinco toneladas caísse sobre minhas costas: que dor! Meu peito infla e a garganta fecha, parece que vou explodir ao pensar na dor daquelas famílias. O borderline sente tudo em excesso, do amor ao ódio e infelizmente a empatia também. Ok, mais uma etapa cumprida. No caminho do trabalho os pensamentos já começam a ficar lotados de coisas ruins, torno o ato de dirigir automático enquanto minha mente trabalha sem parar, penso em todas as coisas ruins que podem acontecer naquele dia, em tudo que me preocupou na noite anterior, não consigo me concentrar de maneira alguma na música que toca no rádio — 1,2,3 o semáforo abriu, alguns xingamentos e arrependimentos durante o caminho e ok, mais uma etapa cumprida. Antes de adentrar no meu local de trabalho, confiro se a blusa está cobrindo todos os cortes da semana anterior, respiro e entro, sorrio tão impulsivamente que se torna até natural, minto mais uma vez sobre “como estou” e inicio as atividades diárias, no automático, como sempre. E quanto ao resto do dia? ah, se eu contasse aqui todas as brigas internas diárias de meus monstrinhos, eu ficaria aqui por mais horas escrevendo sobre algo que nem eu mesmo sei descrever, porém quando alguém vive com uma erupção interna constante, conseguir levantar da cama já é uma grande vitória diária contra eles.