A psicopatia europeia

Um grande bocado de mim (provavelmente a barriga) deseja ardentemente que o Reino Unido vote pela saída da UE. Porque acredita que só uma cisão trágica e violenta pode travar o cilindro europeu, que insiste em forçar os coxos a correr à mesma velocidade dos saudáveis e lhes vai atirando uns Voltarens para não perceberem que os pés já gangrenam.

O problema é que mais uma vez o debate esclarecido foi completamente atropelado pelo urrar das hordas enlouquecidas, usando todos os argumentos — sobretudo os irracionais — para defender a sua dama e cuspindo sobre todos os que levantam a mínima das objecções. Até em Portugal, onde o líder do partido em que votei nas legislativas acusou os que preferem que o “Leave” ganhe de serem fascistas e xenófobos.

É evidente que a Europa não vai bem e precisa de uma revisão completa dos seus tratados e da sua democracia conjunta. Estrasburgo precisa de ter mais peso institucional. O Eurogrupo tem que deixar de existir ou sair da clandestinidade e sujeitar-se ao mesmo escrutíno das restantes instituições europeias. O bom trabalho de Mario Draghi à frente do BCE tem que ser continuado e reforçado, fazendo-o crescer para lá de um mero instrumento de estabilidade de preços. E é preciso assumir que há duas velocidades na Europa e criar condições para que essas velocidades coexistam sem esmagar os fracos e atrasar os fortes.

Se o “leave” ganhar, talvez este debate possa existir — embora as últimas impressões me dêem a ideia de que vai ser anunciado como um triunfo da extrema-direita e ficar por aí — mas o trauma da saída dos britânicos será muito difícil de digerir. Já o “remain” dá-me quase a certeza absoluta de que tudo continuará na mesma, com Bruxelas a baixar a cabeça e a marrar em frente.

Dá para ser admirador secreto da beldade Europeia e ao mesmo tempo desejar que lhe cortem um braço?