Avenida das Nações Unidas (Marginal Pinheiros), altura da Ponte Nova do Morumbi

Atrapalhando o trânsito de São Paulo

Alguns parecem tratar o trânsito de São Paulo como uma entidade diferenciada, que merece extremos cuidados e máxima prioridade, bem… temos uma má notícia para tais pessoas: aqui não tratamos o trânsito de São Paulo com tapete vermelho e muita pompa, ao invés, o Coletivo Metropolitano de Mobilidade Urbana prefere discutir formas de melhorar a mobilidade metropolitana, indo além dos automóveis.

Quem faz o trânsito são pessoas dirigindo seus carros e a cidade é feita para todos, não só para aqueles que estão atrás do volante. Colocar o trânsito em posição de destaque não é a solução para a cidade.

Comecemos com uma citação célebre:

Numa tradução livre para o português brasileiro, a frase de Lewis Mumford, feita há mais de 60 anos, significa:

Adicionar mais faixas rodoviárias para lidar com o problema do tráfego congestionado é como afrouxar seu cinto para curar obesidade.

Logo, se São Paulo está travada, não adianta dissociar o problema do trânsito dos outros modos de transporte, como ônibus, bicicletas e trens, priorizando investimentos que adicionam mais faixas, pontes e viadutos e repudiando qualquer medida que possa reduzir o espaço dos carros. O trânsito congestionado não pode ser motivo para que a cidade seja congelada, é por isso que:

  1. Investir em faixas exclusivas e corredores de ônibus é tão importante, pois é uma maneira de dar prioridade no viário para um meio de transporte que tem maior eficiência;
  2. Ciclovias são importantes, pois é uma maneira de aumentar a segurança de um meio de transporte que ocupa menos espaço e não polui;
  3. Sistemas de transporte sobre trilhos são indispensáveis em grandes metrópoles, pois sua capacidade de transporte é imbatível;
  4. Deslocamentos a pé precisam ser incentivados e valorizados, com ações como a qualificação das calçadas e do mobiliário urbano, além de incentivos e instrumentos legais para forçar um uso racional do solo, evitando a formação de bolsões estritamente residenciais;
  5. Finalmente, é importante racionalizar o sistema viário, pois ao reapropriar parte ou todo o espaço desperdiçado com soluções rodoviaristas, é possível partir para a constituição de um projeto mais inteligente de cidade.


Atacar as ciclovias, principalmente partidarizando a discussão de forma desnecessária e odiosa, não vai ajudar São Paulo a melhorar, na verdade, atacá-las buscando inviabilizar a bicicleta é um retrocesso. Recentemente o Vá de Bike publicou um texto a respeito, cuja leitura recomendamos e do qual o fragmento abaixo foi extraído:

Os relatos de amigos e leitores só aumentam — em frequência e agressividade. Nesse fim de semana, em pleno Dia Internacional da Mulher, a amiga Mariana Boff foi atropelada por um ônibus, que passou perto o suficiente para bater em seu guidão e arrastar a bicicleta com as rodas do veículo, que pesa toneladas. Por sorte, muita sorte, ela não teve o mesmo destino da bicicleta, mas se machucou muito com a queda, a ponto de sofrer um corte grande nas costas. As fotos dos ferimentos foram postadas em sua página no Facebook. A placa do ônibus foi fotografada por outra ciclista que estava no local e Mariana tomará providências legais.

Reduzir o espaço dos carros em prol dos ônibus, bicicletas e até de sistemas ferroviários (como bondes e trens de atendimento metropolitano) não é uma forma de atrapalhar o trânsito, pelo contrário, sem investir no transporte coletivo e nas pessoas, a cidade caminha para a completa insustentabilidade. Quando um ônibus circula numa faixa exclusiva ou corredor, a capacidade dele como modo de transporte é aumentada em 10 vezes em relação a uma via comum (via de tráfego misto), na qual o ônibus se torna um refém.

Concluindo, mais ações para “atrapalhar” os carros são necessárias. Que venham melhores sistemas de ônibus e trens, que venham mais ciclovias e que a cidade como um todo melhore em urbanismo, acolhendo o pedestre e se tornando atrativa para as pessoas que nela vivem!

por Caio César