O relógio da antiga estação

Paranapiacaba: quando vão aprender a lição?

Ano após ano, o cenário não se altera na pequena vila: má conservação, intervenções desrespeitosas com a história do lugar, informações turísticas ruins ou inexistentes, locais icônicos fechados ou subutilizados. Eis o panorama de uma região que marcou a história da primeira ferrovia do Estado de São Paulo.

As impressões se referem ao estado da vila em outubro de 2016 e a visita ao local foi feita em um sábado ensolarado. Para facilitar a leitura, os assuntos foram separados em tópicos.


Expresso Turístico? Que nada!

Apesar da popularidade do Expresso Turístico da CPTM, cujos ingressos para a viagem Luz-Paranapiacaba se esgotam rapidamente, é possível ir até a vila de uma forma muito mais barata, menos charmosa, é verdade, mas se falta charme, não falta flexibilidade, já que os horários de partida e retorno ficam livres da rigidez necessária a um serviço como o Expresso Turístico.

Para economizar, basta combinar o Trem Metropolitano da CPTM com uma linha intermunicipal da EMTU. Sem o uso de bilhetes integrados (por exemplo, embarcar na CPTM com o Bilhete Único e pagar a tarifa do ônibus em dinheiro), o custo total será de R$ 7,70. Economia de R$ 37,30 em comparação com o Expresso Turístico. Para desfrutar de integração tarifária entre a EMTU e a CPTM, economizando um pouco mais, é preciso utilizar o cartão BOM.

A viagem na Linha 10-Turquesa (Brás-Rio Grande da Serra) é feita até a última ponta, Rio Grande da Serra. É uma viagem de aproximadamente 60 minutos partindo da Estação Brás.

Após chegar em Rio Grande da Serra, é preciso embarcar na linha 424 da EMTU, que percorrerá algumas ruas dentro do pequeno município, acessando uma rodovia e terminando na parte alta da vila, próximo do cemitério de Paranapiacaba. São aproximadamente 25 minutos dentro do intermunicipal.

Desrespeito à passagem de nível em Rio Grande da Serra; chegada de ônibus da linha 424 da EMTU a Rio Grande da Serra; interior do mesmo ônibus

O que vale ser notado:

  • Não há qualquer tipo de indicação valorizando o trajeto para Paranapiacaba na Estação Rio Grande da Serra, ou seja, não há nada sobre os ônibus que partem das imediações, se o turista tiver dúvidas, acabará procurando funcionários ou outras pessoas nos estabelecimentos ao redor (o que acontece);
  • A Estação Rio Grande da Serra continua em mau estado, causando uma impressão ruim, o cenário praticamente não mudou desde nosso último artigo sobre ela, publicado em fevereiro de 2015;
  • O município de Rio Grande da Serra não aproveita o potencial turístico da região, não olha para a Paranapiacaba ou Ribeirão Pires, o que significa que o comércio e o entorno não estão voltados para qualquer atividade turística;
  • Os ônibus para Paranapiacaba são gerenciados pela EMTU, porém, no Grande ABC todas as empresas são permissionárias ao invés de concessionárias. O que significa na prática? Ônibus velhos, nem sempre muito limpos e com manutenção no máximo mediana.

Ainda assim, pode valer mais a pena ir sem o Expresso Turístico. A economia é muito significativa e apenas as estações Luz, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra são históricas. Com a necessidade cada vez mais frequente de reduzir intervalos e reforçar os serviços de caráter metropolitano na malha da CPTM, a estatal em algum momento, talvez em 10 ou 15 anos, não vai garantir a viabilidade do Expresso Turístico. É preciso expor, desde já, os problemas do trajeto convencional, lembrando também que o Expresso Turístico só recebe passageiros nas estações Luz e Santo André.


Pouca ou nenhuma informação é regra

Quando o visitante chega por meio da 424, ele se deparada com uma igreja, um cemitério e um bar. O ponto de ônibus, que exige uma manobra contorcionista pelo motorista do ônibus articulado — talvez devesse dizer “articolado”, já que o motor é dianteiro — , não possui sequer as linhas e horários de funcionamento. Não há um mapa da região, não há nada.

No caso do ponto de ônibus, a solução seria reconstruí-lo, se possível, com uma arquitetura mais harmoniosa com a herança inglesa de Paranapiacaba. Em seguida, dotá-lo de painéis de informações com boa resistência a atos de vandalismo, com informações das linhas da EMTU e um mapa amplo de toda a vila, complementado por outro mapa menor dos arredores.

É claro que os pontos turísticos dispõem de placas. São placas com uma ou duas fotos e texto, descrevendo a importância daquele ponto. Só que todas as placas estão desarticuladas, já que o visitante não sabe em quais lugares elas estão dispostas.

Outro problema é que a ausência de mapas e a desarticulação dos pontos turísticos se torna agravada pela maneira que os estabelecimentos comerciais estão identificados. Nem todos os estabelecimentos, notadamente restaurantes e casas de artesanato, possuem placas da prefeitura com boa legibilidade e nem todos colocam placas adequadas. Falta orientação.


Oportunidades desperdiçadas

Pode parecer que insistir na falta de informações é forçação de barra, mas não é. Enquanto a parte baixa próxima da passarela fica cheia, o restante da vila fica vazia, porém, é no restante da vila que estão localizados fraldário, sanitários públicos, o galpão do antigo mercado, a Casa Fox e a entrada do Museu Castelo, para citar alguns exemplos.

Pagando, é possível fazer um tour pela vila em uma espécie de “trem sobre rodas”, puxado por um jipe Toyota Bandeirante. O serviço de tour oferecido, porém, parece ser incapaz de equilibrar a circulação de pessoas.

O antigo mercado, usado para exposições esporádicas; doceria instalada na antiga Padaria do Mendes; as ruas vazias na área da Casa Fox

O antigo mercado, apesar de restaurado, só funciona em alguns eventos ou abrigando exposições esporádicas, o que significa dizer que ele fica fechado na maior parte do tempo.

Para se ter uma ideia, alguns restaurantes nem mesmo prepararam refeições, vendendo apenas bebidas, enquanto uma doceria estava deserta. Sim, os funcionários estavam todos lá, solícitos e gentis, mas o fluxo de pessoas era irrisório, de entristecer mesmo. É prejuízo para a economia local, além do mais, pode afastar a permanência dos mais jovens, tanto é que não havia crianças. Um desperdício.


Cães, muitos cães

E, se crianças eram raras, o mesmo não pode ser dito para os cachorros. O número de animais abandonados precisa ser novamente levantado pelo poder público, sem esforço, foram pelo menos dez deles pelas ruas, todos visivelmente mal cuidados e sem coleira, forte indício de abandono. Em 2013, a Prefeitura de Santo André anunciava:

Conhecida como local estratégico de desumano abandono de animais, a histórica vila ferroviária inglesa foi alvo da Gerência de Controle de Zoonoses de Santo André para realização de um censo das populações canina e felina. Do levantamento, o resultado apontou 273 bichos, sendo 218 cachorros e 55 gatos, entre domesticados e comunitários espalhados. A partir de agosto, o governo municipal investirá em programa de castração para diminuir crias indesejáveis, além de apostar no trabalho de conscientização dos moradores e visitantes sobre posse responsável.

Brigas entre os cães assustaram algumas pessoas, além disso, nem todos reagiam bem: um casal tentava, sem muito sucesso, despistar um cachorro que teimava em segui-los.


Sem monitoria

No antigo posto de saúde, construído pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, se encontra instalada uma unidade do Bureau de Turismo de Santo André. Mesmo entrando e saindo do edifício, o funcionário não esboçou reação, já na Casa Fox, uma iniciativa para a preservação da memória de Paranapiacaba, o monitor apenas vigiava, em nenhum momento ofereceu um tour pelo imóvel.

Com a falta de monitores, recursos como os painéis na praça que abriga o antigo mercado são importantes, de fato, os painéis ali existentes são os únicos que tratam da história da região em toda a vila.

Painéis informativos na região da Casa Fox, os únicos recursos com informações gerais sobre a história da vila; placa inaugurativa de 2003 na Casa Fox; imóvel do antigo posto de saúde

O Museu Castelo, apesar do imóvel restaurado, permanece fechado. Não existem indicações de sua localização ao longo da vila, além disso, a sinalização da entrada precisa ser melhorada: desavisados que subirem a antiga escadaria precisarão dar meia volta, o portão está fechado, é preciso subir pela rampa. Mais potencial desperdiçado.

Museu Castelo: apesar do restauro, estava fechado; aqui também pode ser visto o tipo de placa de informação turística empregada, além do comunicado solicitando o uso da rampa ao invés da escada

O outro museu que resta é mantido pela ABPF e está ligado à história da ferrovia, um pequeno trem turístico costumava complementar a visita ao museu, percorrendo 800 metros, mas ele não está operando no momento. Segundo a associação responsável, que historicamente sofre com falta de recursos, não há previsão para que a locomotiva volte a circular.


Conclusão

É uma pena que a Prefeitura de Santo André continue patinando ao governar o distrito. Falha na promoção do turismo e facilita a descaracterização do local (quando não é responsável por promovê-la), indo mais além, não consegue nem mesmo desenhar um hotsite para o lugar, neste sentido, Guararema tem algo a ensinar. É claro que a iniciativa privada, de certa forma, também tem sua parcela de culpa, mas aí estamos falando de negócios pequenos, de cunho familiar, que não possuem tanto poder de influência. O poder público tem o dever de reconhecer as características do distrito e produzir políticas adequadas.

A região está sendo beneficiada por mais de 30 milhões de reais em recursos do PAC 2. Em reportagem da Folha de S.Paulo, a verba foi descrita como sendo recorde. É possível encontrar as obras sem muito esforço. Com placas mencionando o restauro de mais de 200 imóveis, fica a dúvida: se faltava dinheiro antes, agora não parece faltar mais, o que mais é preciso para que a vila seja bem estruturada para receber visitantes dos mais diversos cantos?

O turismo ao longo da metrópole encontra muitos desafios, sobretudo quando envolve o sistema metroferroviário. Paranapiacaba é singular e precisa de mais atenção. Vale lembrar que no passado a CPTM já operou trens regulares até a região, que acabaram sendo descontinuados. Será que a situação atual não diz muito sobre isso? Vale a reflexão.

por Caio César | colaborou Márcio Henrique