O primeiro prêmio da carreira jornalística e a angústia de viver em um bairro periférico em que a perspectiva de futuro dos jovens é baixa

Escrevi o texto a seguir um dia antes de receber o Prêmio MPT de Jornalismo 2015, premiação entregue pelo Ministério Público do Trabalho a reportagens que falam sobre injustiças no trabalho. Hoje, reli o que escrevi em agosto passado e resolvi compartilhar no Medium. O foco não é a produção da reportagem. Não mesmo e o título deixa isso bem claro. Talvez o texto tenha voltado a chamar a minha atenção pelo momento que estou vivendo agora. A angústia de conseguir um emprego e não ter que largar o jornalismo para trabalhar em qualquer coisa.
Vamos ao relato!
Viajaremos para Brasília e poderemos ganhar o primeiro prêmio da nossa carreira jornalística pela reportagem “Silenciados — A violência contra o jornalista no Brasil”. O fato pode ser considerado uma grande vitória para a equipe, afinal, realizamos um trabalho árduo. Análises de relatórios, dezenas de entrevistas feitas pessoalmente, milhares de caracteres costurados com vídeos, áudios e infográficos. A questão é que trazendo ou não o troféu para São Paulo o caso fez com que eu lembrasse todo o caminho que percorri até aqui. Não estou falando da produção da reportagem, não. Refiro-me a minha vida.
Estudar em uma escola pública ruim, fazer anos de cursinho comunitário para aprender o que deveria ter aprendido na escola, cochilar em cima do espiral das apostilas, cochilar em pé no ônibus, acordar às 4 da manhã tantas vezes, escutar “pra que tentar se não vai conseguir?”, viver em um lugar onde as taxas de homicídios são altas. O que é viver onde tantos jovens não têm perspectiva de vida? O que é imaginar ou sonhar que eles vão seguir o mesmo caminho que você? Alguém disse que por aqui os sonhos são distantes e que não passa de uma fantasia. Discordei, pois sempre sonhei. Depois percebi que por mais que houvesse momentos dolorosos em minha vida eu estava do lado oposto da periferia da periferia. O sonhar não estava distante de mim por mais que eu não tivesse sido educada para sonhar.
O rapper Criolo disse em uma entrevista que “a certeza na quebrada é que você vai ser nada”. A fala intrigou tanto quanto um post que vi há algum tempo no Facebook. O texto falava sobre o CD dos Racionais MC’s que o Haddad levou para presentear o Papa. Dizia que o CD “Sobrevivendo no Inferno” era um retrato real do inferno em que vivem os moradores das periferias. Pensei na palavra inferno. Palavra forte. Perguntei a mim mesma: Vivo no inferno? Não! Sim! Inferno é ausência de esperança. Aqui ainda tem esperança. Não tem esperança? Por alguns dias observei as pessoas e pensei: Será que elas pensam que aqui é o inferno? Será que elas têm noção que os problemas que existem aqui alimentam essa ideia de inferno? Será que temos noção? Estamos todos anestesiados?
De quem é a responsabilidade do abismo em que vivemos? O Estado? As famílias? As igrejas que pipocam descontroladamente em cada esquina? Eu? Você? Todos? Todos. Durante os últimos dias fiquei pensando que teria a chance de ganhar um prêmio, mas que não tinha feito nada de concreto para outros seguirem parte do meu caminho. Eu não fiz nada. Fiquei pensando no por que muitos não podem ir direto para a faculdade. Por que as escolas são tão ruins? Por que o sistema de ensino é tão ruim? Por que temos que correr atrás do inglês durante ou depois da faculdade enquanto os nossos colegas já estão aprendendo o terceiro idioma? E por que existem pessoas que podem pagar para estudar e têm preguiça? Eu daria tudo para ter aprendido inglês no tempo certo. O que é o tempo certo?
Penso que para chegar até aqui nunca estive só. O que seria de mim sem o Aprove? O que seria de mim sem o MedEnsina? O que seria de mim se o Thiago e o Gabs não tivessem corrigido as dezenas de redação? O que seria de mim se ninguém tivesse comprado os meus brigadeiros? O que seria de mim se …? Sabe… as pessoas não nascem más. As pessoas precisam que alguém acredite no potencial delas. Precisam de alguém para jogar uma fagulha que irá estimular um sonho que está adormecido ou nem existe.