O Armário Simples

Se possível, ouça “Cidadão Quem ― O Amanhã Colorido” durante a leitura.

Hum armário de sucupira, duas portas, três gavetas, repartição para calças, calçados, cuecas e camisetas, uma mão de tinta, meia-dúzia de pedaços, o espelho, e uns sete cabides. Um armário pequeno para o tanto de coisa que Pedro guardava nele. Quando criança, seus amigos, e principalmente sua mãe, que gritava da cozinha ao ouvir a bateção de portas no quarto, sabiam que naquele guarda-roupas cabia de tudo, inclusive um Pedro. Agora não mais, confortavelmente, mas tinha espaço pra ele e para os seus livros serem lidos. Era um dos seus cantos preferidos. Os livros, eles ficaram lá, e vez ou outra, saem lá de dentro pra ver o mundo de cá e rapidamente retornam. É só a conta de sacudir a poeira.

O guarda-roupas, ou armário, como quiser chamar, sempre esteve na família. Tudo que mudou foi seu endereço, que já atendeu no quarto do papai e do irmão mais velho. Ah, e claro, o que era guardado em seu interior também sofreu algumas alterações. Pedro, como disse, guardava de tudo lá, suas coleções, livros, caixas, tênis e suas roupas. Poucas roupas, e quase todas elas em um tom diferente de vermelho. Nem sempre foi assim. Pedro já foi azul, branco e caqui, já foi colorido. Porém, de um tempo pra cá, tem-se dedicado a sua paleta vermelha de cores. Se isso reflete algo que se passa ali dentro, eu sinceramente não sei, melhor perguntar e deixa o muleque explicar. A questão é que não importava qual cor ou peça ele vestia, já que qualquer coisa que ele vestisse, quando o encontrasse, veriam, que Pedro sempre estava com aquela sua melhor roupa, a mesma roupa de sempre.

Bem sabia que o duo camiseta amarela e short jeans que a mãe escolhia para a escola ou para a missa de domingo nunca seria a melhor combinação sobre o que era o Pedro que conhecemos agora. Pedro, quando se deu conta que não queria estar na moda, tratou logo de comprar seu terninho, tipo peça-chave, mas esse não tinha cores. O menino começou a se vestir da melhor forma e muitos colegas começaram a o imitar. Claro que tinham uns encrencados que olhavam torto pro muleque, mas invejavam-o. Isso era certo. Invejavam porque Pedro estava sempre vestido com um sorriso limpo, vestido de alegria que cheirava longe, de positividade e de gentileza da qual sentia-se o toque sútil. E aos que seguiam a moda dele, faziam com gosto. O armário simples, além do que já viu, tinha todas essas combinações, e não era nada básico. E as roupas, mesmo quando não passadas, vestia humildade amarrotada e aquilo bastava para estar bem.


Dias desses, o menino experimentou algo novo. Pedro se vestiu de chuva, e seus olhos compadeceram do que viram. Muita água o molhava, encharcara todas as suas roupas, e o fazia transparecer. Pedro estava nu, mas um nu vestido. Já não podia esconder todas aquelas tentativas que falharam, todas as expectativas que por algum detalhe se perderam, todos seus desejos e anseios que somados a tantos outros momentos difíceis, resultaram nisto: Um dia ruim. Como ritual, antes de sair, prezava por se ver e dar uma última ajeitada. Abriu a porta do guarda-roupa e diante do seu igual, refletido em tantas partes, ele pode observar e perceber que tristeza não caía bem. Era apertada demais, tinha uma textura de visgo e cheirava a coisa velha. Molhada ainda, pior. Quis trocar. Algo mais leve, um riso de canto, um olhar semicerrado ou até mesmo por bochecha corada. Para o seu azar, naquele dia, ela era a única peça que restava no seu guarda-roupa. Então, Pedro que não queria mais sair, saiu. Sem sorriso, mas com uma vontade enorme de ver gente vestida dele.


Na rua, Pedro sempre procurava entender a tendência do momento, o humor das pessoas com quem cruzava. Facilmente, ele agrupava as pessoas pelo que vestiam. Seus amigos e conhecidos, por exemplo, pareciam acompanhar o rapaz, no seu jeito, olhando sua aparência. Diferentes tamanhos de sorriso, pequeno, médio, grande, e para as melhores amizades, extra-grande. No entanto, muitos deles ainda insistiam naquele modelo decotado que fazia bico, amarrado e fechado. Isso encucava Pedro, e não era pelas circunstâncias que talvez influenciavam a escolha das roupas, mas o por quê de muitos vestirem passado, quando presente é muito mais bacana e cheio de vida. ‘Só’ que ele não descartava a ideia de que esse presente com papel bonito e fitas viesse de surpresa. Uma supresa boa, aliás.

Parece até que Pedro era superficial quando diz que ele se importava com as aparências. Se esse adjetivo significasse pelo menos parte de todo um gosto por se viver que tinha, então Pedro estava bem com o fato de ser chamado superficial. E diferente do pior sentido da palavra, o rapaz se importava com a superficialidade dos outros. Queria compartilhar das suas vestimentas, queria que as outras pessoas vestissem sonhos, esperança e tudo mais. Pedro, ao avesso do processo tecno-industrial, acreditava que não devíamos ser apenas cabides que carregam roupas sem as preencher, sem as amassar, sem as usar realmente. Roupas, essas roupas que dizem muito mais da gente, eram como as outras, mas não eram repetíveis. Isso, na cabeça dele, fazia de nós seres camaleônicos extraordinários, cada qual carregando consigo um dom particular para ser feliz. Como diz a canção que seu pai sempre assobiava: Chega uma hora que a gente deve sorrir, porque já choramos demais. E como falava sua mãe sempre antes de sair: Vai trocar de roupa agora! ― Prazer, meu nome é Pedro.

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