
III
Romeu dizia que não sabia amar. Desde que enfiara-se em meus lençóis amarelados com sua boca rota e sua fala letárgica, era isso que afirmava com um fio de voz quase desesperador: “Não sei amar, Humbert”.
Eu ria. Não de escárnio, longe de mim. Só ria um riso preocupado, de canto de boca, aquele tipo de riso que se deve rir quando não se sabe o que falar. Ora, logo eu, um pseudo-escritor, um pequeno domador de palavras, não tinha nenhuma para me fugir dos lábios naqueles momentos. Queria eu dizer que ele sabia sim, que se voltava todo final de semana para a minha alcova deteriorada era porque amava. Amava em todas as conjugações, pretéritos e imperfeições, o que lhe faltava era saber o que era amor.
E danava então a descrever minuciosamente sua semana ao lado de Saulo, os jogos e os prazeres trancafiados em um quarto escuro. Descrevia-me aquela dominação masculina com todas as palavras certas aos meus ouvidos, da maneira que eu as descreveria se resolvesse as escrever.
Romeu escrevia seu mundo com as palavras que eram minhas e sem nem perceber ele me amava: com todo aquele lirismo que somente nós sabíamos descrever.