Sobre viajar sozinha, com pouca grana e sem largar tudo pra trás

Euzinha na Plaza Italia, em Buenos Aires, no meu segundo dia de viagem

A gente fala muito sobre “se conhecer”, e às vezes não percebe que pequeninas respostas para isso estão em alguns atos do dia a dia. Para citar apenas pequenas coisas, eu sei que coelhos me fazem perder a linha, que minha cor favorita é roxo e que a minha curiosidade me leva a fazer três baldeações para ir a um shopping judeu apenas para ver de perto um McDonald’s Kosher. Mas, para saber dessas coisas, eu tive que parar, sentar e escrever em um bloco de notas vários fatos peculiares sobre mim mesma. Se teve um momento na minha vida no qual eu me conheci de verdade, isso foi quando eu decidi viajar sozinha.

Eu tinha acabado de ler “Livre”, da Cheryl Strayed, e estava fascinada por essa ideia. Não sou durona o suficiente para fazer uma trilha, mas a coragem chegou ao ponto de, em um domingo que não prometia nada especial, eu comprar, com apenas alguns cliques, uma passagem de ida e volta para a Argentina dali a seis meses. Durante uns quatro, a ideia me parecia meio irreal. Mas, quando menos esperei, já tinha programado uma ida ao Uruguai, reservado os hostels e, de repente, estava no avião a caminho de Porto Alegre, minha parada estratégica antes do destino final.

Em Porto Alegre ainda deu para conhecer a hamburgueria do Grêmio. Não torço nem simpatizo, mas a curiosidade…

Vale lembrar que essa não é uma daquelas baboseiras do tipo “largue tudo e vá viajar para o mundo”. Eu sou do tipo que nunca tem dinheiro, divide conta em casa, compra roupa no Cartão Renner, é fiel à boa e velha Mercedes-Benz que leva a gente de lá pra cá por absurdos R$3,80 e “vende o almoço para comprar a janta”, como definiria minha própria mãe. Eu fiz uma pequena loucura de pegar um empréstimo para comprar a passagem a vista e viajei com o meu salário do mês. Eu fiz essa viagem e estou de volta à mesma situação financeira. Foi somente uma pausa.

Vale lembrar que meus pais nunca tiveram grana pra pagar um intercâmbio (até tentei pelo Ciência Sem Fronteiras, mas cancelaram meu destino e meu curso…) e muito menos para me dar um carro, o que, de acordo com algumas empresas, me faz uma pessoa pior — afinal, não vale de nada falar inglês se você nunca morou fora, segundo a lógica deles. Mas eu havia feito uma promessa pessoal de que iria sair do país até os 25 anos, cada vez mais diminuindo meus planos de destino. E eu consegui aos 23.

Não eram dias fáceis. Quando eu saí de férias, minha mente estava turbulenta. Estava tensa, sensível, a minha cabeça doeu intensamente durante todo o voo e eu me questionava se estava fazendo a coisa certa e, principalmente, se as coisas iriam dar certo. E elas começaram a dar assim que eu desembarquei. Já que eu tinha apenas 2 mil reais para passar 12 dias longe de casa e pagar hospedagens, transporte e alimentação, perguntei à menina ao meu lado como fazia para pegar o trem ao meu hotel. Coincidentemente, ela iria para a mesma direção, e assim paguei apenas R$1,70, ao contrário dos R$35 previstos de táxi.

No dia seguinte, cheguei à Argentina. O primeiro dia até que foi fácil. Uma outra coincidência do destino me levou a um show do Alabama Shakes com alguns brasileiros — que comprei por cerca de R$90 e, assim, jantei batata-frita porque era o que tinha pra hoje (estabeleci um limite de pesos diários, tratando cada nota de 100 pesos como se fosse 100 reais. Não foi fácil, mas a lógica foi efetiva). Mas o segundo dia talvez tenha sido o mais difícil da minha viagem. Foi quando eu conheci o sentido feliz da palavra saudade, mas de um jeito doloroso.

Defini assim: era uma saudade boa porque eu sabia que a sentia por amar pessoas e coisas que estariam me esperando na minha volta ao Brasil. E, caramba, eu estava SOZINHA, SOLA, ALONE em um país que eu mal conhecia e estava meio arrependida de ter escolhido fazer uma viagem com tantos dias. À noite, fui jantar no happy hour de um bar em Palermo para pagar apenas 35 pesos por dois chopps e um punhado de amendoins, já que a minha cota de dinheiro diária não comportava os restaurantes do bairro e eu já havia gastado muito naquele dia. Achei uma conexão de WiFi e comecei a conversar com meu namorado e com a minha mãe. Comecei a chorar por me sentir, também, pequena em meio àquele mar de país estranho, onde dificilmente alguém falava a minha língua e por algum acaso eu falava a deles.

Segurei muitos pesos só para poder jantar no Hard Rock Café na riquíssima Recoleta

Nisso que eu chorava, um homem se aproximou da minha mesa e me convidou para ir à igreja. “Deus me disse que você está triste”, falou, em castellano. “Você gostaria de conhecer a minha igreja?”. Respondi que não, obrigada, mas ele me continuou falando. “Já ouviu falar do Edir Macedo (e como, senhor argentino!)? Gostaria de ir à Universal do Reino de Deus? Fica próxima ao Obelisco!” (nessa hora gostaria de responder que sou umbandista, mas não tinha forças para a zueira e não sabia o impacto disso para os evangélicos argentinos). Quando neguei mais uma vez, a saudade não se tornou tão ruim, se tornou boa. Decidi me alegrar e tomar um trem para Tigre no dia seguinte.

Montevideo: finalmente fiz friends

Passei dois bons dias em Buenos Aires aproveitando a minha companhia e logo parti no dia seguinte para Montevideo. E foi lá que eu descobri que a gente não viaja exatamente sozinha. Conheci pessoas que também estavam na rota e que fizeram de minha passagem pelo Uruguai bastante tranquila. Aquele momento foi um divisor de águas: “ei, você é uma viajante!”. Sim, eu era um deles. E mesmo tendo torcido o pé com risco de quase ter que ir para o hospital (o que foi erroneamente tratado por um espanhol com gaze e antinflamatório e que depois foi consertado por um dos funcionários do hostel, formado em Educação Física, que me fez ir dormir com um monte de gelo no pé, o que funcionou), e mesmo corrido com minha mala quebrada até a Rodoviária de Tres Cruces faltando cinco minutos para sair meu ônibus (após descobrir na hora de sair do hostel que os taxistas estavam de luto porque um taxista morreu e ter de pegar dois ônibus para chegar lá e carregando a mala na mão por um bom caminho), Montevideo foi incrível. Foi quando eu descobri que todas as dificuldades podem ser superadas, independentemente do tamanho delas. Que às vezes, você só precisa parar, apreciar uma boa paisagem e jogar uma conversa fora para se divertir.

Euzinha e nome do mozão na Fuente de Los Candados, em Montevideo

Colonia, meu destino depois de Montevideo, também foi uma prova de fogo. Passei uma noite tranquila na cidade, quando tomei mate com uma argentina antes de dormir e descobri que meu castellano estava realmente bom (foi o que ela disse, não eu!). O dia seguinte também foi bastante agradável, quando andei pela cidade e aproveitei suas ruas e paisagens e um bom frango à milanesa com fritas, já que era difícil ter uma refeição de verdade nessas viagens (você aprende a comer muita coisa do mercado e a ir discutir na padaria porque pediu medialunas salgadas e te deram doces). Mas a noite me trouxe mais uma surpresa: um buque que não saía nunca de volta para Buenos Aires (nunca comprem Colonia Express!!!!), uma noite estranhamente dormida nos bancos do terminal fluvial e um gasto de dinheiro inesperado: compra de passagem em outra companhia para conseguir voltar (R$100).

Aquela ali no meio da paisagem de Colonia sou eu

Pode não parecer, mas R$100 reais foi um rombo enorme. São cerca de 400 pesos no mercado paralelo. Quando voltei a Buenos Aires, tentei sacar dinheiro do Brasil de tudo quanto é jeito, mas não sabia que deveria ter habilitado meu cartão de débito também. Logo, nada feito. Perdi mais 50 reais quando fui pegar um táxi até o hostel (ai como eu queria ir de ônibus, mas MALDITA MALA QUEBRADA E PESADA), o taxista não quis aceitar real de jeito nenhum e disse que o preço da corrida era 100 pesos. Tive que trocar dinheiro no hostel e eles fizeram a cotação a 3 reais. 50 reais viraram 50 pesos a menos.

Fui trocar o restante do meu dinheiro no mercado paralelo e descobri que teria de passar os próximos dias com 600 pesos. Primeiro chorei, depois refleti e fui ao mercado comprar coisas para cozinhar nos próximos dias. Gastei 200 pesos, mas era o suficiente para os 4 dias faltantes, embora tivesse que descobrir como pegar o transporte público até Ezeiza na segunda e, detalhe, com a tal mala quebrada.

Com a Juliana, que salvou meu fim de viagem e o Messi, o drink que tomamos para comemorar

O pesadelo não durou muito, enfim. Aí vem mais uma lição: o valor das amizades de viagem. Reencontrei uma amiga de Montevideo, que me emprestou o dinheiro que conseguia transferir para a conta dela do Brasil dali. Logo, respirei aliviada por poder ficar tranquila nos próximos dias e conseguir reservar um traslado para Ezeiza. Conheci vários brasileiros, um diferente do outro, mas todo mundo unido pelo simples fato de sermos brasileiros hehe. Passamos o domingo quase inteiro em San Telmo e ali nós fizemos nosso almoço de páscoa com choripan (pra eles) e frango na parilla pra mim hehe

Os brasileiros em Buenos Aires na festa do Milhouse, o hostel que fiquei no retorno à cidade

Essa pessoa que eu fui, eu nunca fui. Quando você está sozinha, tem que encontrar maneiras de resolver seus próprios problemas. Tem que criar uma coragem incrível e estar aberta para conhecer pessoas que podem até ser muito diferentes de você em suas vidas normais, mas que ali estão em uma mesma situação. Você sai da bolha, aprende culturas e vê que o seu microcosmo é tão pequeno que se pergunta o porquê de ter demorado tanto para sair do lugar (dinheiro!). E cada dia se transforma em um momento único a ser vivido.

Com isso, não me arrependo dos erros e acertos. Não me arrependo do que aconteceu antes, durante e depois dessa viagem. Posso dizer que me tornei uma nova pessoa, sem sombra de dúvidas. Mais determinada a viver os bons momentos do que manter as coisas que pesam assombrando-os.

Daqui em diante, sozinha ou lado a lado, eu quero continuar a me sentir viva — e não preciso, necessariamente, de uma viagem pra isso.

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