DIA DOS PAIS

6 animais que ensinam o que é paternidade

O que os humanos podem aprender sobre paternidade com outras espécies?

O dia dos pais chegou mais uma vez e surgem as publicidades que representam pais como heróis, mesmo que saibamos que a maioria dos pais brasileiros não sejam assim tão super. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a partir da análise do Censo Escolar de 2011, pelo menos 5,5 milhões de crianças não possuem o nome do pai na certidão de nascimento. Destas, quase 300 mil são do Ceará.

Enquanto mulheres são comparadas com leoas para manter a ideia do instinto materno, parecemos esquecer que homens também são bicho e, portanto, também possuem instinto paterno. É isso mesmo que você leu. Os instintos materno e paterno estão unicamente relacionados com a necessidade de fazer o filhote sobreviver e, consequentemente, perpetuar a espécie. Eles não vão ensinar as mães e pais a trocar fraldas.

O grande problema é que a sociedade humana decidiu que as mulheres são as únicas capazes de cuidar do lar e dos filhos, enquanto os homens devem ser os provedores da casa. Isso não só oprime mulheres, como também afasta os homens e impede o desenvolvimento do instinto paterno, que, assim como o materno, depende da construção de laços afetivos fortes com o filho. E, não, esse laço não se constrói só ao levar a criança uma vez ao mês para tomar sorvete ou dando dinheiro para suprir as necessidades.

Portanto, decidimos que já era hora de parar de relacionar pais com super-heróis que vestem capas — e não existem — , e começar a compará-los com animais bem reais e que são incríveis pais, cada um da sua maneira. Afinal, se o ser humano pode criar aviões observando os pássaros e desenvolver submarinos observando as baleias, ele também pode aprender um pouquinho sobre paternidade, não é mesmo?


Cavalos-marinhos

Durante o período de gestação, os cavalos-marinhos ficam presos pela cauda em plantas | Foto: Monterey Bay Aquarium

Cavalos-marinhos são, em sua maioria, monogâmicos. Isso significa que permanecem com o mesmo parceiro por toda a vida, ou, em algumas espécies, pelo menos durante toda a estação reprodutiva. Mas não vai pensando que é fácil, não, viu? Durante a época reprodutiva, eles fazem um ritual diário de acasalamento, que envolve dancinhas e mudanças de cor, para criar uma conexão com o par. Essa sedução toda pode durar uma hora por dia!

Entretanto, o mais singular nesses peixinhos ósseos é o fato de serem os machos que carregam os filhotes na barriga. Os Hippocampus possuem uma bolsa incubadora que recebe os ovos das fêmeas (sem copulação) e, então, os fecundam. De duas a quatro semanas depois, as contrações vêm e os filhotinhos nascem. Te lembrou alguém?

No Brasil, a licença paternidade varia de um a, no máximo, 20 dias, caso a empresa na qual o pai trabalhe esteja inscrita no Programa Empresa Cidadã. Parece bastante óbvio que esse tempo não é suficiente para dar o suporte necessário para a mãe e o recém-nascido. Será que se os machos humanos fossem como os machos cavalos-marinhos, essa licença seria revisada e estendida?

Gorilas

Se existe alguma espécie animal que os humanos podem facilmente ser relacionados, essa é a Gorilla gorilla (Gorila-do-ocidente, os mais comuns). Compartilhando entre 98% e 99% de DNA com a espécie humana, os gorilas levam muito a sério o cuidado parental.

O cuidado parental está relacionado com a sobrevivência do filhote e pode durar mais ou menos tempo de acordo com a necessidade da prole, até que ela esteja adaptada à independência | Foto: Reprodução

Gorilas não são monogâmicos; os machos têm filhotes com várias fêmeas, mas isso não quer dizer que sejam elas as únicas responsáveis pelos bebês. Esses primatas vivem em grupos familiares (muito bem representados pela animação Tarzan, da Disney) e dão a vida para proteger o seu grupo: os papais cuidam de cada um de seus filhos com garras e dentes.

No Brasil, foi criada a Lei Nº 5.478, de 25 de julho de 1968, que assegura o direito dos filhos de receber pensão alimentícia de seus pais, seja por conta de divórcio, seja por se tratar de um filho fora do casamento. É também direito dos filhos gozar da mesma condição de vida dos pais. Ou seja, se o pai vive em conforto e luxo, o filho também pode e deve viver assim. Os gorilas já entenderam. E a gente?

Pinguins

Se você assistiu a animação Happy Feet: O Pinguim, provavelmente percebeu que quem choca o ovo é o macho, que também cuida do filhote ao nascer. Enquanto isso, as fêmeas se aventuram nos mares gelados da Antártida para pescar o alimento de seus filhotes.

Infelizmente, no mundo humano as mulheres ainda enfrentam muitas dificuldades para entrar e permanecer no mercado de trabalho quando são, ou simplesmente desejam ser, mães. O primeiro ensinamento dos pinguins aos homens humanos é trabalho em equipe e divisão real de tarefas.

São os machos pinguins imperadores que chocam os ovos durante um período de, em média, 65 dias, equivalentes ao inverno. Por conta disso, eles não podem sair nem por um instante de cima dos ovinhos, já que estes podem congelar | Foto: Reprodução

Além disso, mesmo que não seja um comportamento muito comum, também não é raro que pinguins machos se unam em casais e adotem ovos abandonados. Pelo menos dois casos em zoológicos foram registrados (esse e esse) em que pinguins machos não se interessavam em se unir com fêmeas e preferiram ser um casal com outro pinguim.

Os zoológicos percebiam que eles tentavam chocar pedras e logo conseguiram ovos abandonados por casais “héteros” para testar se os pinguins adotariam os ovos. E adotaram! Os machos se revezavam para chocar o ovo e alimentavam o filhote como se fosse biologicamente deles. Se pinguins podem aceitar casais gays adotando ovos indesejados, os humanos também podem, né?

Emas

A responsabilidade de cuidar dos filhotes é inteiramente dos machos na espécie das emas | Foto: Reprodução

As emas, uma espécie naturalmente da América do Sul, são consideradas as maiores aves do Brasil. Apesar de possuírem asas, elas não voam, apenas as utilizam para equilibrar-se enquanto correm por aí. Assim como os pinguins, são os machos que incubam os ovos. Após o acasalamento, eles constroem os ninhos e as fêmeas chocam, em média, cinco ovos. Um ninho pode chegar ao total de 56 ovos, mas a média fica em 26 futuras emas. A partir daí, os filhotes são responsabilidade total dos machos.

Se fosse na espécie humana, eles seriam chamados de pais solo (ou heróis), mas a realidade é que pelo menos um milhão das famílias brasileiras, em 2017, eram compostas por mães solo. O número parece se tornar sintomático quando pensamos que 6 dos 11 titulares da seleção brasileira na Copa do Mundo 2018 foram criados distantes dos pais biológicos.

Macacos-corujas

Os macacos-corujas recebem esse nome por terem olhos enormes adaptados para a visão noturna, assim como as corujas. Entretanto, não é só isso que os torna incríveis: eles são primatas monogâmicos que arrasam na paternidade. Eles levam os filhotes para conhecer a floresta e os alimentam, trabalhos comumente destinados às fêmeas nas espécies primatas.

Uma família de macacos coruja do Parque Zoológico de Santa Fé, em Medellín, Colômbia | Foto: Reprodução

Lembra do cuidado parental mencionado nos gorilas? É exatamente a isso que se dá tanta responsabilidade dos pais para com as proles. A ligação criada com a companheira (eles até andam de mãos dadas!) e com os filhos tornam os macacos-corujas machos pais presentes de primeira. Com esses macacos de olhos gigantes os homens podem muito bem se inspirar a serem presentes no processo de educação dos filhos.

Não apenas na educação em casa, ao passar valores e dar exemplo, mas também acompanhar nas tarefas escolares, manter-se informado dos assuntos em classe e do desenvolvimento da criança na escola. Não é nada raro abrir a agenda escolar dos alunos e ver uma mensagem destinada à “mãezinha”, como se o pai não tivesse o dever de se atentar ao filho no âmbito escolar. Vamos mudar isso, papais?

Rãs-touro-africanas

Se você procurar rã-touro-africana em um site de buscas, provavelmente vai encontrar definições como “canibal” e “voraz” ou até um vídeo dela comendo um rato! Pois é. Essa espécie de anuro pode viver até 45 anos e pesar até 2kg. Também é uma das poucas espécies de anuros que possui dentes, tornando-a um pouco perigosa para os humanos. Mas sabe uma definição que poucos dão para as rãs-touro-africanas? Pais dedicados.

Nessa espécie, os responsáveis pelo cuidado dos filhotes são os machos, mas as mudanças climáticas estão tornando o trabalho desses anuros tropicais muito mais complicado. Normalmente, os ovos são postos na época da vazante, calculando precisamente a duração em que as chuvas chegarão. Para proteger os girinos, os pais os cobrem com uma substância produzida por eles, tipo um muco, que irá protegê-los exatamente a quantidade de dias até as chuvas.

Infelizmente, o aquecimento global tem atrasado as precipitações e os pais se vêem forçados a cavar canais que levem água até os girinos e os salvem de morrer ressecados. No vídeo abaixo, é possível ver a corrida contra o tempo que as rãs-touro-africanas enfrentam para salvar seus filhotes.

O fato de serem os machos que cuidam dos filhotes parece ser tão inconcebível para os humanos que até erraram no título do vídeo | Vídeo: Reprodução / YouTube

Apesar de termos abordado apenas seis animais, existem muitos outros exemplos de pais dedicados, responsáveis e amorosos no mundo inteiro, como os pirarucus, os sauíns e os lobos. A paternidade não é, nem nunca foi, algo estranho biologicamente. Estruturas sociais patriarcais distanciaram os homens de seus deveres (e direitos) como pais, e afundaram as mulheres em obrigações que não são inteira e unicamente das mães. Que aprendamos com a natureza a sermos bichos que tratam os filhos com dignidade e amor.