O TAL MOMENTO DECISIVO

Que tal fazermos um exercício de leitura visual?

A imagem que eu trouxe para análise de hoje é uma das minhas favoritas e das quais mais me orgulho.
Sempre que escutamos pessoas falando sobre os grandes fotógrafos de outrora e, também, os atuais, enaltecendo as grandes imagens que estes fizeram ao longo de suas carreiras. Mas afinal o que faz uma foto ser Grande?

Hoje, trouxe uma das imagens mais emblemáticas que tive a sorte de registrar — sim, esse lance de estar no lugar certo, na hora certa é um fator importantíssimo na fotografia, principalmente no que diz respeito ao fotojornalismo — durante o as manifestações de 2013, no período da Copa das Confederações, aqui em Fortaleza.

Falando um pouco da história dessa foto, antes de entrarmos no assunto, imagina em meio a tiros, bombas, gás, gritaria, multidões em debandada, estava eu, com minha câmera esperando para fazer a melhor foto possível. Estamos em 2017 e acho que o gás lacrimogênio ainda está fazendo efeito na minha cabeça. Houve um momento de grande tensão, onde toda a multidão foi dispersada pelo pelotão de choque da polícia e sobrou apenas um corajoso pra encarar a força tarefa, cerca de uns 30 metros a frente. Logo atrás dele estava eu — o segundo corajoso — e, 50 metros atrás, o resto da multidão.


E o que há de tal enigmático nessa imagem que me levou a querer compartilhar aqui neste post?

Quando comecei a estudar fotografia e a pesquisar os grandes nomes, o mais citado era o tal do Henri Cartier-Bresson e, com ele, vinha aquela história que muitos de nós conhecemos: O Momento Decisivo. E esse momento não se resume apenas em acertar o foco e fazer a foto na exposição correta, ou até fazer aquela foto impossível de replicar, mas sim é um momento onde todos os elementos que compõem a imagem convergem para criar uma verdadeira sinfonia visual.


Regra dos terços.
Muitos mais do que regra dos terços ou os clichês mastigadinhos que encontramos por aí sobre tripé da fotografia — diafragma, velocidade do obturador e ISO — o que eu estou lhes propondo aqui é pura SEMIÓTICA.

Há vários signos (símbolos) que merecem nossa atenção nessa imagem. O primeiro deles é a óbvia situação de desigualdade que vemos nesse confronto. Uma verdadeira muralha frente à um único ser humano. Se avaliarmos o contexto político daquele momento, perceberemos o Estado — que deveria defender os interesses do povo — está indo de encontro com a população, defendendo os interesses das elites e impondo uma grande barreira às minorias — representadas por esse UM que, mesmo em desvantagem clara, insiste em bater de frente com os grande poderes estabelecidos. Tudo isso em meio à um distanciamento, onde não é possível haver diálogo.

O Estado, as minorias e os signos.

Quanto ao protagonista desta imagem — um jovem sem camisa, tatuado e portando o símbolo máximo da nação brasileira — identificamos uma relação muito próxima ao próprio Brasil. Jovem, rebelde, desprovido de pompa, descobrindo de forma dramática o poder que tem, seminu “à luz do céu profundo”. Inconformado por não ter seus direitos honrados por aqueles que os deveriam representar, e não contê-lo pela força, intimidando-o.

A faixa de pedestres logo à frente é a fronteira para o confronto, seguida das linhas pintadas no asfalto, indicando a direção que se deve seguir. Mas é preciso estar atento (vide os semáforos na cena) e não obstante, é proibido retornar. É um caminho sem volta!


E aí, gostaram? Entenderam? Perceberam elementos pictóricos além destes que eu vos apresentei? Se sim, deixe um comentário aqui ou manda uma mensagem pra mim, nos meus contatos. Vamos conversar!

O estudo de hoje fica por aqui, obrigado por ler até o final e até a próxima!