A crise do sistema político e a janela de oportunidades

O sistema político brasileiro tem se mostrado a cada dia incapaz de atender os anseios da sociedade, e de representar a dinâmica do conflito social nas suas respectivas arenas de decisões.

As nossas instituições parecem não ter acompanhado a mudança social consequente dos novos mecanismos de tecnologia, principalmente no que diz respeito a qualidade da representação política, o sistema eleitoral não está mais conseguindo receber insumos e transformar isso em um produto que reflita a sociedade no parlamento, e consequentemente no executivo.

E muitos vão perguntar, mas como chegamos até aqui?

Pois bem, diante do nosso esforço após a redemocratização a Constituição de 1988 olhando para a realidade social da época, projetou um sistema político que atendesse os anseios por participação, assegurou direitos políticos e de associação como nenhuma outra Constituição brasileira havia feito, aumentou o sufrágio universal para os analfabetos visando ampliar ao máximo a participação no processo político decisório.

Porém dentro do âmbito das instituições burguesas e na democracia liberal, votar não é simplesmente o único meio de garantia dos interesses diante do jogo político, o alinhamento do poder econômico com o poder político advindo de uma herança que carregamos ainda fortemente na nossa forma de organização social, pouco foi alterado. Ao longo das últimas décadas, mesmo com todas as formas de democracia participativa, o sistema político e eleitoral tem se mostrado frágil diante da cooptação pelo poder econômico, gerando um distanciamento de representação.

E parte disso é culpa nossa, nós brasileiros em grande maioria não nos interessamos pelo processo político fora das eleições, temos uma sociedade fraca politicamente, e pouca engajada, o que abre espaços para uma minoria que tem muito interesse na política e no funcionamento do Estado para atender seus interesses privados.

Nos últimos 2 anos no entanto a política começou a tomar o centro das atenções, e dos noticiários, e mesmo fora do processo eleitoral a população brasileira começou a viver o conflito político no seu dia a dia. O que isso tem de positivo e mesmo diante dessa crise aguda podemos tirar proveito?

Tendo como base o modelo de Kingston, um Cientista Político que analisa como problemas sociais adentram as agendas políticas e as agendas de governo para que seja formulada políticas públicas e tomadas de decisões, podemos entender que está se abrindo uma janela de oportunidades, momento que atores políticos, movimentos da sociedade civil, e empreendedores de políticas públicas, podem empurrar um tema para agenda política e de decisões, e a oportunidade para se debater o sistema político é agora!

Em entrevista recente o ex-Presidente do Uruguai Pepe Mujica diz que as democracias representativas estão em crise pois não estão sabendo traduzir o que é o mundo e a nova dinâmica social após a introdução das novas tecnologias como a internet.

Se a crise é de representação, como a sociedade pode melhorar a qualidade da representação?

Primeiro passo é acreditar na política.
A política é o caminho que criamos para conseguirmos viver em sociedade, é o espaço aonde as diferenças que existem na sociedade poderão dialogar e com isso entrar em um consenso para que toda a nossa complexidade social exista em um projeto de nação.

Segundo é acreditar na representação.
E isso inclui participar dos métodos pelos quais essa representação vai se tornar viável dentro da arena política, sendo objetivo, é financiar o projeto político pelo qual eu acredito. 
Por que isso é importante? Não adianta querermos uma representação e não entendermos que ela precisa se tornar viável dentro do sistema.

“Ah, mas político já ganha dinheiro, é tudo empresário, e eu não vou financiá-los”.

É por pensarmos assim que a representação dos empresários é realmente esmagadora, e os mandatos populares são minoria, pois precisando de dinheiro para a campanha e para viabilizar uma representação política, políticos sem um sistema de arrecadação popular recorrem a financiadores privados e com isso ficam comprometidos com aqueles interesses.

É possível uma construção de financiamento popular?

Sim é possível, na última eleição para prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo candidato pelo PSOL deu simplesmente uma aula de arrecadação popular, e de inovação no método de campanha, utilizando marketing criativo de baixo custo, muita mobilização em plataformas da internet em espaços gratuitos ou com baixo custo, e principalmente muita política de rua, aproximação física com o seu eleitorado.

Marcelo Freixo e Luciana Boiteux em discurso na Cinelândia durante campanha para Prefeitura do Rio de Janeiro 2016

Freixo chegou ao segundo turno da eleição arrecadando R$565 mil aceitando apenas contribuições de pessoas físicas, enquanto o seu oponente Crivela teve gastos de campanha que chegaram a 4,6 milhões arrecadados em sua maioria junto a empresas e igrejas.

Precisamos urgentemente mudar os métodos de financiamento de campanha privados para financiamentos populares, e inovar no marketing político com plataformas alternativas baixando custos, para conseguirmos melhorar a qualidade da representação.

Por fim existem muitos debates acadêmicos para reformas políticas e do sistema eleitoral, que podem melhorar a qualidade dos nossos representantes, porém não são discutidos nas arenas de decisões, é preciso dar voz a academia e aos intelectuais que se debruçam sobre o tema, que dedicam estudos científicos, métodos de análises para propor mudanças.

Não existe melhor hora para debatermos o nosso sistema político, é preciso mobilização em todos os setores da nossa sociedade para jogarmos essa demanda para dentro da agenda de decisões, não podemos votar reformas estruturantes do funcionamento do Estado, como as reformas da Previdência e Trabalhista, com uma classe política completamente desacreditada pela população, com uma crise de representação absurda, um Congresso que nitidamente não reflete o conflito social existente na sociedade e está a serviço de seus financiadores que são uma minoria privilegiada de poder político.

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