O que seria de mim sem o surf?

Por: Adriano de Souza, o Mineirinho

Esta pode ser uma pergunta bem clichê para muita gente, mas no meu caso ela é realmente primordial para contar minha história.

Foto: Getty Images

Como muita gente descobriu no fim do ano passado, quando conquistei o sonho da minha vida de ser Campeão Mundial, o surf surgiu por conta do meu irmão Ângelo, que é policial florestal e sempre foi preocupado com o que o então moleque Adriano fazia por aí.

Nós dois morávamos com nossos pais na comunidade Santo Antônio, no Guarujá. Ele não gostava que eu ficasse à toa por aí, com más companhias, e viu no esporte uma forma de me manter afastado de tudo isso.

Meu irmão nunca pensou em me transformar em um mito do esporte. Só queria que eu ocupasse meu tempo e minha cabeça com coisas boas, que me fizessem crescer e amadurecer como pessoa. E todo mundo sabe que a melhor forma de passar bons valores é no esporte.

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Sendo assim, no meio dos anos 90, quando o Brasil ainda estava se reconstruindo na economia, ele comprou uma prancha de 30 reais, daquelas bem simples, só para que eu pudesse brincar e ficar longe do que era errado.

Mal sabia ele que a partir daquele dia minha vida mudou.

Quando eu consegui me equilibrar na onda pela primeira vez, nas aulas do Pirata, algo brotou dentro de mim. Foi ali que nasceu o Mineirinho.

A melhor coisa para um menino pobre é ter acesso gratuito e livre à sua maior diversão. Eu tinha diversas praias à minha disposição. O dia todo. Nem via o tempo passar. Mergulhei de cabeça no surf, a ponto de o meu irmão quase ter que entrar na água para me arrancar de lá nos fins de tarde.

De lá para cá minha vida mudou. Fui o mais jovem a vencer no surf brasileiro, conheci os lugares mais lindos do mundo por conta do surf, fui campeão mundial júnior, do WQS (circuito de acesso à elite), e em 2005 realizei meu primeiro grande sonho, que era estrear na elite.

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A partir daí nasceram novas batalhas. A de ser campeão mundial; a de lutar por um patrocínio para poder competir (os custos de uma temporada são muito caros e quase fiquei de fora algumas vezes, até recentemente, como em 2014); a de superar as lesões que se tornaram crescentes com o passar do tempo; e a de conseguir dar uma vida digna aos meus pais, que tanto sofreram na vida.

Mesmo ciente de todas as dificuldades, eu nunca desisti. Isso virou até uma característica minha folclórica nas competições, pois eu levo a sério até jogo da velha. Mesmo nas derrotas, eu nunca me entreguei e tudo valeu a pena quando venci minha primeira etapa, em 2009, na Espanha.

Sou uma pessoa muito sortuda. O surf não só me deu tudo o que tenho como colocou no meu caminho a mulher da minha vida, que conheci nessas andanças por aí. Hoje sou um atleta campeão, casado, que conseguiu dar boas condições de vida para os meus pais e também para muitas crianças carentes no meu novo projeto, o “Eu Sou Campeão”.

Só falta agora disputar as Olimpíadas. Isso sempre foi falado, mas agora essa possibilidade está cada vez mais concreta. Sempre sonhei em competir representando o meu país. O surf é um dos poucos esportes onde não existem competições entre nações.

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Pena que não vai ser no Rio 2016, pois eu já ganhei nas ondas do Rio de Janeiro e seria um sonho. Mas quem sou eu para reclamar? Só de poder ter essa oportunidade, quiçá em 2020, seria o complemento perfeito para a minha carreira. Vestindo uma lycra verde e amarela e conquistando uma medalha olímpica.

Tenho certeza de que o dia que isso acontecer, eu vou me pegar pensando: quem diria que um dia eu chegaria até ali, direto da favela, sem nenhum incentivo? Se eu dissesse naquela época que seria campeão mundial, me dariam uns pescotapas e me mandariam pastar.

Aí eu volto para aquela pergunta que fiz logo no começo: o que seria de mim sem o surf?

Abraço, galera!


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