Sem trabalho duro não existe conquista

Por: Dirceu José Pinto, atleta da Bocha Adaptada

Foto: Arquivo Pessoal

M e chamo Dirceu José Pinto e tenho 35 anos. Participei de duas Paralímpidas: Pequim 2008 e Londres 2012. Deus me abençoou com duas Medalhas de Ouro em cada uma destas competições, quando fui campeão na categoria individual e duplas. Hoje treino forte rumo ao Rio 2016.

Tenho uma deficiência chamada distrofia muscular de cinturas pélvica e escapular. Esse nome bonito significa que tenho fraqueza na musculatura de todo o meu corpo. Minha família descobriu quando eu tinha 12 anos, quando comecei a sentir fortes dores nas pernas. Depois de dois anos de idas e vindas aos médicos, descobriu-se a patologia, que enfraquece meus músculos.

Aos 14 anos, como tratamento para retardar o desaparecimento da musculatura do meu corpo, me foi indicada a natação, e foi a partir disso que minha história mudou. Passei a nadar e queria ser atleta de alto rendimento. Durante dois anos fiz de tudo para ser nadador e competir representando o Brasil. Era a época do Gustavo Borges, do Xuxa, nadadores que arrebentavam pelo mundo a fora trazendo várias medalhas para o Brasil e eu queria ser como eles, representar o Brasil e trazer medalhas para o nosso pais.

Foto: Arquivo Pessoal

Mas após dois anos, quando eu tinha 16, a fraqueza nos músculos tirava as minhas forças para treinar e competir. Foi aí que desisti da natação olímpica e fui tentar realizar meu sonho de representar o Brasil na modalidade Paralímpica. Não consegui bons resultados dos 16 aos 19 anos. Isso veio seguido da pior fase da minha vida. Entre os meus 20 e 22 anos, já tinha terminado meus estudos e passei a ficar só dentro de casa. Não fazia mais nada da vida, vivia só para os tratamentos, natação social, fisioterapia e hidroterapia, tratamentos estes que retardam o enfraquecimento dos músculos do meu corpo.

Em 2002, recebi um convite de um professor que me viu em uma clínica de fisioterapia que mudou a minha vida. Foi aí que conheci a modalidade que pratico hoje, a Bocha Adaptada, que me levou a viver experiências que nunca sonhei que viveria.

Foto: Arquivo Pessoal

Ainda neste ano, disputei o torneio regional no Maracanãzinho, no Rio de janeiro. Torneio este que conquistei, junto com todos de minha equipe, duas medalhas de ouro e me consagrei campeão da minha categoria: BC4 individual e duplas. Conheci o Maracanã e voltei do Rio de Janeiro com uma nova perspectiva de vida. Antes só ficava dentro de casa, agora estava praticando esporte, treinando, competindo e viajando representando Mogi das Cruzes, minha cidade, São Paulo e o Brasil. Deus tinha mudado a minha vida.

Em 2003 fui campeão brasileiro de duplas e vice-campeão da categoria individual. Ao voltar para casa lembrei do meu sonho entre os 14 e 16 anos, quando queria representar o Brasil na Paralimpíada. E aí fui convocado para representar o Brasil no Parapan, em Mar Del Plata, na Argentina, quando conquistei a medalha de prata.

Em 2004 e 2005 segui treinando fui bicampeão brasileiro. Não participei das paralimpíadas de 2004, pois o Brasil não conseguiu classificar a equipe e nem obtivemos classificação para competirmos nas categorias individual.

Então começamos um trabalho para representar o Brasil em 2008, na China. Fui convocado para competir a Copa América, na Argentina. Nesta competição, passei por uma nova classificação e fui considerado inelegível. Os classificadores consideram que eu tinha um pouco a mais de força do que o permitido e tive que ficar dois anos sem competir.

Foto: Arquivo Pessoal

Meu mundo desabou. Estava há três anos lutando para realizar meu sonho de representar o Brasil nas Paralimpíadas e de novo meu sonho estava interrompido. Voltei para casa sem entender o que tinha acontecido. Foi então que surgiu a ideia de lutar para ser elegível de novo. Neste meio tempo eu andava com muitas dificuldades, a musculatura das minhas pernas, costas e braços estavam fracos. Parei de andar e passei a usar a cadeira de rodas definitivamente.

Em 2006 voltei aos treinamentos e no ano seguinte fui convocado para a copa do mundo em Vancouver, no Canadá, quando voltei a jogar bocha adaptada. Esta competição eu perdi, mas voltei para o Brasil com as esperanças renovadas. Estava de novo apto para jogar Bocha Adaptada no Brasil e no Mundo.

Em 2008 a ANDE (Associação Nacional de Desporto para Deficiente), que cuida da Bocha no Brasil, conquistou o direito de levar 2 atletas para as Paralímpidas de Pequim. Um seria o Eliseu Santos, que tinha sido vice-campeão da Copa do Mundo em 2007. A outra vaga seria disputada entre os atletas do Brasil. Pensei comigo: esta é a minha chance de realizar o meu sonho representar o Brasil nas Paralimpíadas. Passei a treinar de manhã, a tarde e parte da noite, duas vezes por semana e os outros dias treinava na garagem de minha casa.

Neste mesmo ano saiu a convocação e meu nome estava na lista. Foi uma felicidade muito grande. Estava vendo meu sonho ser realizado, estava indo para uma Paralimpíada. Voltei com uma medalha de ouro para o Brasil, na categoria individual, e outra junto com Eliseu Santos. Foi uma alegria inexplicável. Voltamos ao Brasil com muitas homenagens, comemorações e muitas mudanças: começaram a surgir os investimentos, o Bolsa-Atleta e os patrocínios.

Em 2012 chegamos em Londres para as Paralimpíadas, a competição mais difícil que já disputei até o momento em toda a minha carreira. Eu e Eliseu Santos conquistamos na final o ouro para o Brasil. Como em uma guerra, entramos nas disputas sabendo que nem que fosse na última bola, a medalha viria para o Brasil. E deu certo! Ganhei o ouro e o Eliseu o Bronze.

Agora, estamos a 60 dias dos jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, será dentro da nossa casa, e seguirei em busca de ouros no Rio em Setembro de 2016. Nossa meta vai além das medalhas. É divulgar também cada vez mais a Bocha Adaptada no Brasil para tirar as pessoas com deficiência de dentro de suas casas e levá-las a viver seus sonhos como qualquer outra pessoa de nossa sociedade.

Hoje, além dos treinos, coordeno um projeto no centro de paradesporto da Prefeitura de Mogi das Cruzes, local onde é desenvolvido um projeto social com intuito de fazer a inclusão da pessoa com deficiência com a sociedade, por meio da prática do esporte adaptado, incentivando as pessoas a estudar, trabalhar, cursar uma Universidade, viver e realizar seus sonhos. Sempre pergunto “Qual seu sonho?”. O meu era representar o Brasil nas Paralimpíadas. Graças à Deus já conquistei duas e estou a caminho da terceira. Pensava que viveria preso dentro de casa, que minha vida tinha acabado. Hoje viajo o Brasil e mundo todo competindo.

Sei que sem trabalho duro não existe conquista.


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