Lima Barreto: o rancor como cavalo de batalha

Impressões, reminiscências, anotações e recortes da biografia “Lima Barreto: Triste Visionário”, de Lilia Moritz Schwarcz

Lima Barreto era sobretudo um rancoroso. Marcadamente “do contra”, ele e sua geração de amigos, escritores e intelectuais buscavam desesperadamente se diferenciar dos salões da Academia Brasileira de Letras e de personagens como Coelho Neto, o prolífico escritor de viés parnasiano que encarnava tudo que eles mais abominavam. A escrita meramente pelo estilo, as tintas carregadas da afetação, páginas e mais páginas de uma empolação sem fim, tão típico de quem não tem nada a dizer mas confia no próprio pedantismo e na recepção dos seus iguais e de leitores que gostam de se enganar.

Mas não um rancor comum, tão expresso claramente no seu “Diário Íntimo”, que incidia diretamente nos seus escritos públicos, mas um rancor licoroso, histórico, racial, literário, jornalístico, um rancor forjado nos vagões dos trens, nas ruas, nas bebedeiras em bares e cafés, um rancor genuíno contra muito do que representava aquela Primeira República e que até hoje grassa nesse país.

Lima Barreto também era chegado ao fracasso. Seja como editor da Floreal, que vendeu literalmente cerca de 40 exemplares de média nas quatro edições que durou, seja no barulho que pretendia fazer com “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, escolhido como romance de estreia justamente para chocar e grandemente ignorado por isso. Seus romances “à clef” — quase todos eles — espezinhavam, na ficção, personagens que espelhavam diretamente seus desafetos reais, de João do Rio (transformado em Raul Gusmão na ficção de Barreto) a diversos colegas de redação nos diferentes periódicos da época (como Figueiredo Pimentel, Edmundo Bittencourt, Gil Vidal e outros), verve presente em Isaías Caminha e tantos outros escritos. Bem da verdade, apesar de se tornar figura conhecida, nenhum dos seus livros chegou perto de vender nada parecido com o que seus desafetos, caso de João do Rio e Coelho Neto, vendiam. A glória literária, seja por vendagens, seja pela ABL ou por reconhecimento crítico literário, que ele tanto criticava e tanto perseguia, nunca chegou. “Se lá pus certas figuras e o jornal, foi para escandalizar e provocar a atenção para a minha brochura. Não sei se o processo é decente, mas foi aquele que me surgiu para lutar contra a indiferença, a má vontade dos nossos mandarins literários”, afirma Barreto.

Schwarcz pondera: há, pois, uma clara estratégia de inserção literária construída por meio de vários “anti”: antiacademia, antiformalismo, antijornalismo, antirrepública. E, em tal contexto, nada como atacar o periodismo, e, assim, resvalar em todo o resto. Afinal, é evidente o moralismo das acusações presentes em Recordações, que constrói uma imagem cruel desse ambiente profissional e exclui da avaliação apenas o autor do livro. A atitude era coerente com a atuação de Lima e da nova geração de escritores que pretendia opor-se a tudo que fosse estabelecido e consolidado, até porque se encontravam afastados dessas instituições de consagração. Além do mais, ao citar com frequência alguns de seus mestres — como Taine e Eça de Queirós -, Lima procurava passar atestado acerca de seus próprios modelos. Uma literatura engajada, preocupada em conscientizar os leitores dos problemas de sua sociedade. Essa seria a função social de sua literatura, bem como a justificativa, mais digna, para seu romance de estreia.

Lima Barreto encarnava uma nova literatura. Negra, negríssima, com o cheiro das ruas, suburbana, como ele, virulenta, satírica, ébria, cosmopolita sem sair de casa, como ele, política e corrosiva, dada a diatribes, provocações e inconveniências. Uma literatura brasileira, contra a mania de importar tudo que vem do estrangeiro, contra o determinismo racial tão em voga no seu tempo, uma literatura de oralidade, de forte presença da herança africana, indígena, mulata (ressignificando a origem negativa do termo) e mestiça, algo longe de ser regra na época. Que retratava o subúrbio, onde morava e conhecia tão bem, sempre se organizando em seus microcosmos de poder, influência e cultura com tintas próprias. Diz Schwarcz:

É Gonzaga de Sá, personagem do último romance publicado em vida por Lima, em 1919 (porém escrito muito antes), quem lembrará, com jeito e retórica do seu autor, a fisionomia irracional dos subúrbios cariocas no início do século XX. “O arruamento do subúrbio é delirante. Uma rua começa larga, ampla, reta; vamos-lhe seguindo o alinhamento, satisfeitos, a imaginar os grandes palácios que a bordarão daqui a anos, de repente, estrangula-se, bifurca-se, subdivide-se num feixe de travessas, que se vão perder em muitas outras que se multiplicam e oferecem os mais transtornados aspectos. Há o capinzal, o arremedo de pomar, alguns canteiros de horta; há a casinha acaçada, saudosa da troca troglodita; há a velha casa senhorial de fazenda com as suas colunas heterodoxas; há as novas edificações burguesas, com ornatos de gesso, cimalha e compoteira, varanda ao lado e gradil de ferro em roda. Tudo isso se embaralha, confunde-se, mistura-se e, bem não se colhe logo como a população vai se irradiando da via férrea. As épocas se misturam; os anos não são marcados pelas coisas mais duradouras e perceptíveis…”. As histórias se misturavam nos subúrbios, e a população espalhava-se a partir e junto da linha do trem.

Em Policarpo Quaresma, de 1911, romance que Lima diz ter escrito em dois meses e meio, como se estivesse grávido da narrativa — e que guarda várias semelhanças com a história de vida dele e da família — ele voltará à descrição topográfica do mundo suburbano, acrescentando-lhe o elemento humano. Lima não perde de vista a desigualdade social e o fato de boa parte dos moradores ainda viver em condições deploráveis. “Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade”. As “profissões mais tristes e inopinadas”, continua o romancista, são exercidas pelos habitantes desses “caixotins humanos”: “Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros, catadores de ervas medicinais, enfim, uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequena e grande burguesias não podem adivinhar”.

Lima Barreto foi marcado por traumas. Do pai, tipógrafo de sucesso a gerente da Colônia de Alienados da Ilha do Governador e que depois caiu em estado de invalidez por distúrbios mentais, a mãe, professora e gestora de uma escola para meninas, que morreu precocemente de tuberculose. As duas internações que ele mesmo sofreu. A loucura e o hospício como sombra permanente dos seus escritos.

Lima ascendeu graças aos contatos do pai. Mesmo descendente de escravos, os pais de Lima conseguiram ascender na República graças a poderosíssimos padrinhos políticos, que fizeram com que ambos alcançassem posição de relativo prestígio, já citadas, em um país que na época conservava quase 80% de analfabetos. Estudando sempre em boas escolas, até a Politécnica (que não chegou a concluir) e depois trabalhando como funcionário público (amanuense) na Secretaria da Guerra, no entanto, Barreto deixou escancarado o quanto odiava a sua profissão, sua rotina, seus colegas. O quanto a burocracia e a nulidade do serviço o aborrecia, fazendo de tudo para se ausentar ao máximo, conquistar a aposentadoria precoce, chafurdar no álcool para encarar a ojeriza da natureza do seu trabalho que pagava as contas dele e da família.

Lima Barreto era um celibatário a contragosto. Incapaz de se relacionar com mulheres, sem dominar a “desenvoltura da sedução”, recorrendo no máximo à prostituição, morreu também sem verdadeiramente amar ninguém ou sem ter um mero relacionamento próximo disso. Sua abordagem crítica do feminismo que começava a surgir no Brasil e no RJ era sempre dúbia e paradoxal. Tripudiava do que ele julgava “feminismo elitista” ao mesmo tempo em que defendia as mulheres dos absurdos da época, como a serial absolvição de maridos espancadores pela justiça. Entre os traços de misoginia e machismo da época, Barreto conseguia, no entanto, se portar ao lado de pautas urgentes e relevantes que estão tristemente até hoje em “disputa”.

Em “Mais uma vez”, artigo publicado na A.B.C, Lima combateu a prática que criticava desde os tempos da Floreal, aproveitando para denunciar maridos que, segundo ele, se atribuíam o direito de matar as esposas, amparados por decisões do júri que sistematicamente os absolviam. “Se a cousa continuar assim”, escreveu, “em breve de lei costumeira, passará a lei escrita e retrogradamos às usanças selvagens que queimavam e enterravam vivas as adulteras”. Em tais ocasiões, virava advogado das mulheres e, dessa maneira, se dizia antifeminista: “contra tão desgraçada situação da nossa mulher casada, edificada com a estupidez burguesa e a superstição religiosa, não se insurgem as borra-botas feministas que há por aí (…). É um partido de ‘cavação’, o feminista, como qualquer outro masculino”.

Lembra Schwarcz: no seu primeiro texto para a Floreal, “Diálogo”, imagina uma conversa entre dois sujeitos que criticam a prática do “uxoricídio” — o assassinato premeditado de mulheres por seus maridos e namorados -, bastante comum e relativamente aceito na época. O adultério foi tema do Código Penal de 1890, e a República classificou-o de crime “contra a segurança da honra e honestidade das famílias”. O ato era punido com prisão celular — confinamento em “células solitárias e individuais” — de três anos para o caso da mulher considerada adúltera. Para o homem, previa-se penalidade apenas no caso em que fosse provada a existência de uma concubina “téuda ou manteúda”, ou seja, um relacionamento estável. Isso porque se regulava por lei a responsabilidade do marido de sustentar a família. Sendo assim, se às mulheres cabia a punição da reclusão, os homens só iam parar na prisão quando a Justiça entendia existir ameaça ao conforto da esposa legítima e dos filhos.

Lima também não guardava muita simpatia para com o futebol e Nietzsche. Acusou Nietzsche e os esportes de serem os causadores do flagelo da guerra de 1914, e de exaltarem a brutalidade, a amoralidade e a falta de humanidade. Segundo ele, os esportes só levavam a conflitos. Chegou mesmo a fundar uma liga contra o futebol, cada vez mais popular no Rio de Janeiro da época, iniciativa que obviamente fracassou em pouco tempo. Sobre o filósofo alemão, escreveu: “Nietzsche é bem o filósofo do nosso tempo de burguesia rapinante, sem escrúpulos; do nosso tempo de brutalidade, de dureza de coração, do make-money seja como for, dos banqueiros e industriais que não trepidam em reduzir à miséria milhares de pessoas, a engendrar guerras, para ganhar alguns milhões mais”.

Lima Barreto escrevia febrilmente. Entre seus porres diários, a permanente imersão na bebida que o levou a episódios de desmaios e desleixo constante, Barreto produzia, produzia e produzia. Trancafiado na sua biblioteca — que tinha até nome, a Limana — Barreto escrevia seus romances, contos, artigos, críticas, crônicas, respondia a dezenas de cartas, contribuía com diversas publicações, com o seu próprio nome ou sob os vários pseudônimos que usava.

Em artigo que escreveu já próximo no fim da vida, deixou seu testamento de amor pela literatura que acredita. Conta Schwarcz:

A discussão volta-se, então, para a questão do “belo em literatura”. Na linha de frente de sua argumentação, está Taine, pensador que não se interessava pela forma ou pelo “encanto plástico, na proporção e harmonia das partes”; nada de “helenizantes de última hora”. Segundo o criador de Isaías Caminha, o que valia mesmo era “a substância da obra, não (…) as suas aparências”. Lima queria mais da sua literatura; queria que ela enfrentasse as “questões de nossa conduta na vida”.

Buscando, ardorosamente, justificar seu recorte, o escritor cita outra vez Crime e castigo, de Dostoiévski. De acordo com Lima, era a partir de seus sofrimentos e da identificação com a miséria de seu país que o russo compreendia melhor “os erros da nossa organização social”. A beleza estaria, portanto, na “ideia”, na filosofia, numa sorte de vocação literária. É bonito notar como o autor de Triste fim se emociona ao esmiuçar o tema, explicando que “é preciso que esse argumento se transforme em sentimento; e a arte, a literatura salutar tem o poder de fazê-lo, de transformar a ideia, o preceito, a regra, em sentimento; e, mais do que isso, torná-lo assimilável à memória, incorporá-lo ao leitor”. A obra de arte não poderia ser resultado de um “capricho individual”. Representava a união e a harmonia entre os homens, um ideal elevado com capacidade de transformar o “sofrimento da imensa dor de sermos humanos”.

Esse, o tema que o “apaixona”, que o afeta profundamente. Literatura e arte corporificariam, pois, um fenômeno que “ergue o homem de sua vida pessoal à vida universal, não só pela sua participação nas ideias e crenças gerais mas também ainda pelos sentimentos profundamente humanos que exprime”.

Tornou-se anarquista, o Lima, embora nunca tenha se filiado diretamente a grupos ou clubes. Leitor ávido de revistas, periódicos e intelectuais estrangeiros, abraçou com veemência o anarquismo, no bojo dos movimentos de operários, da industrialização e da influência dos imigrantes italianos que fluíam para o Brasil no início do século XX. Escreveu em publicações anarquistas, como “A Voz do Trabalhador”, manifestou por diversas vezes estas ideias, seja em artigos, crônicas ou, menos, na própria literatura.

Lima Barreto era uma persona non grata. Até pelos amigos, quando se tornava demasiadamente cruel depois de uns bons tragos. Lima era dado a implicâncias e inimizades, a não dourar a pílula com ninguém, mesmo com aqueles que supostamente teriam bastante em comum com ele, caso dos modernistas da Semana de 22, que buscavam resgatar a oralidade e uma proposta de literatura marcadamente brasileira. Ao receber a primeira edição da revista “Klaxon”, cartão de visitas da trupe, das mãos de um jovem Sérgio Buarque de Holanda, então com 20 anos, não gostou de nada do que viu.

Schwarcz conta que ele achou a revista muito apegada às vogas vindas do exterior, com cara de “arroz de festa” e gosto pelo escândalo. Sem muita paciência, e fiel a seu estilo mais ardiloso, o cronista da Careta viu na publicação e no grupo de modernistas meros “imitadores de Marinetti”, e, no modernismo paulistano, uma tradução fácil do futurismo.

Em artigo para a Careta de 22 de julho de 1922, intitulado “O futurismo”, Lima alfinetou: “São Paulo tem a virtude de descobrir o mel do pau em ninho de coruja. De quando em quando, ele nos manda umas novidades velhas de quarenta anos. Agora, por intermédio do meu simpático amigo Sérgio Buarque de Holanda, quer nos impingir como descoberta dele, São Paulo, o tal de “futurismo”. Ora, nós já sabíamos perfeitamente da existência de semelhante maluquice, inventada por um Senhor Marinetti (…). Assim sendo, vejam os senhores como esse ‘futurismo’ é mesmo arte, estética do futuro”.

Em começo, pensei que se tratasse de uma revista de propaganda de alguma marca de automóveis americanos. Não havia para tal motivos de duvidas porque um nome tão estrambótico não podia ser senão inventado por mercadores americanos, para vender o seu produto”.

E seguia daí fazendo um juízo não muito melhor que esse. Apesar de incentivador de novos escritores, Barreto fechou portas com uma geração que podia ter estabelecido uma conexão clara, apesar das diferenças — e fica aí, também, as disputas entre Rio de Janeiro e São Paulo, bem presentes naquela sociedade de 1922, ano do centenário da independência e da morte de Lima, que se apressava a produzir cada vez mais, ciente do quanto seu corpo definhava.

Lima Barreto acabou morrendo 48 horas antes que o próprio pai, há muito em estado praticamente vegetativo na casa de Todos os Santos. O infarto que o levou num primeiro de novembro e o enterro subsequente no cemitério de São João Batista, em Botafogo, bairro que ele sempre odiou e desprezou — “a elite de Botafogo e Petrópolis” — mas no mesmo cemitério onde foram enterradas a mãe e depois o pai. Morreu naturalmente cercado de poucos amigos e foi sepultado em um Dia de Finados chuvoso — como o são todos os Dias de Finados.

Diz Schwarcz: não é possível dizer que Lima previu a própria morte, mas sem dúvida chama atenção como incorporou o fim da vida em suas reflexões sem perder a veia cômica e a forma cética de pensar a existência.

No ano de 1918, publicou uma crônica que chamou simplesmente de “Elogio da morte”: “Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida. A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios. É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento. Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades.

Quatro anos antes, portanto, da sua morte de fato, o autor de Triste fim fazia uma confissão sobre seu gosto pela morte, que para ele traria redenção. Claramente melancólico, com laivos suicidas, bem desanimado com a “doença” da bebida — para ficarmos com seus termos — e, na ocasião, licenciado para tratamento de saúde, na crônica Lima praticamente marcava um encontro com a morte. “É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos. A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isto, a Morte é que deve vir em nosso socorro. E concluía defendendo a salvação que viria com ela: “Dessa forma, quem, como eu, nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte. Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus. Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade. Ao vencedor, as batatas!”.

O aceno final a Machado de Assis, com quem conservou relação paradoxal e a quem é muito comparado, é curioso e contraditório, típico de Barreto. Como assumiu em toda a sua vida, a literatura foi realmente sua sina, sua busca, sua obsessão. Em seu “Diário do Hospício”, sentenciou: “ah, a literatura ou me mata ou me dá o que peço dela”.

Nas 511 páginas da biografia, Schwarcz nos oferece um panorama ampla das ideias e da vida de Barreto pelos seus escritos e pelo espírito do tempo, por tudo que grassava no Rio de Janeiro e no Brasil nessa virada de Império para República que, óbvio, não foi pouco. Só de notas, referências e indicações o livro oferece mais cerca de 150 páginas, como prova de escancarar a pesquisa aprofundada em inúmeros documentos.

A historiadora entrega um Lima contraditório, febril, prolífico, rancoroso, implicante, bom de briga, do contra, amargo, suburbano, alcoólatra, irascível, inseguro e ambicioso, sempre contextualizado no seu tempo e sua época, sem jamais pender para a idolatria, para a louvação contumaz, para a falta de perspectiva. Como ela mesmo pondera no fim do livro, é este o trabalho do biógrafo — dos melhores biógrafos, certamente — e não deixa de homenagear Francisco de Assis Barbosa, autor da primeira biografia de Lima Barreto em 1952 e também responsável por relançar, organizar e jogar luz sobre as obras completas do autor, que passou a gozar de novo prestígio no país.

Conhecer a jornada de Lima e ler o que produziu é tentar entender um pouco melhor o Brasil, os tantos Brasis, de diferentes épocas, fossos e pontes, tarefa interminável e necessária.