Até os reis confessam

Todo mundo se confessa. Até os reis. Por que?
Alguns confessam seguindo o dogma da igreja, outros conversam com os amigos. O que me deixa encafifado é entender a motivação para isso.
Por que alguém confessa?
Ou, para ser bastante preciso em minha pergunta, por que alguém escolhe se confessar?
Sim, pois toda confissão é primeiro uma escolha, deliberada, que alguém faz de expor a si próprio. Mas o que faz alguém assumir suas próprias dívidas, apontando os holofotes e chamando a atenção dos outros para o seu lado mais obscuro?
O mais lógico seria esperar o contrário, ou seja, que as pessoas ocultassem suas falhas. E de fato elas fazem isso. Todos fazemos… por algum tempo. Até enfim confidenciarmos voluntariamente tudo aquilo que tanto nos esforçamos por ocultar.
Como, alguém me ilumine por favor, confessar pode ajudar quem quer que seja em alguma coisa?
Eis aí algo que me escapa a lógica… ou escapava, porque a minha própria confissão faz com que eu possa dizer, se não por todos mas certamente por mim, por que razão um homem confessa.
A narrativa mais óbvia diz que a pessoa confessa para buscar absolvição. Eu não sei dizer se isso é sequer possível. Buscar redenção através da confissão é como forçar o nó corrediço, que cinge mais forte quanto mais o sujeito tenta se desvencilhar daquilo que o prende.
Além disso, é comum as pessoas atentarem ao objeto da confissão e não à sua motivação, quando, em verdade, a vergonha só importa para alimentar a curiosidade daqueles seres entediados com a sua própria desgraça. Tampouco é relevante se quem ouve a confissão é um padre, o melhor amigo, um vulto qualquer na internet ou ainda um estranho profissional, a quem pagamos para nos ouvir falar aquilo que um espelho faria de bom grado. É igualmente sem qualquer importância se a confissão se expressa impressa nas páginas de um livro. A verdade é que o teor da confissão não possui qualquer importância e farei-me claro sobre isso. O que realmente importa é confessar… que seja apenas para si mesmo, olhando para o espelho, fixando o reflexo do sujeito vil que se verdadeiramente é, e não aquele ser imaculado que o ego idealiza sobre si próprio. Em frente ao espelho, olho no olho, invadindo a janela da própria alma, quem confessa profere — e ao mesmo tempo engole — todas aquelas palavras que não desejava falar, e muito menos ouvir, sobre si. Pois, repare uma coisa de suma importância: ninguém confessa aquilo que ignora. Eis aí a beleza útil da confissão: a necessidade de uma autocrítica sincera. É o que mais falta nesse mundo onde o inferno são sempre os outros. Em uma confissão toda acusação é nula. A confissão é primordialmente uma efígie que o sujeito faz de si; para isso, faz-se necessário despir-se de corpo e alma e ver-se a si mesmo como se é.
“Mas por que alguém faria isso?” você me pergunta. Pois é assim que voltamos à questão fundamental, que eu havia proposto inicialmente.

Por que alguém confessa?
Antes, pergunte a um homem porque ele peca.
Você ouvirá um rosário infindável de desculpas para justificar todo tipo de deslize. Mas quer saber? As razões não importam em absolutamente nada e, no fundo, ele bem sabe disso. Quando o homem confessa ele não anseia justificar suas faltas, mas apenas tornar possível seguir a vida adiante, mesmo que envergonhado, ainda que apenas levemente aliviado do fardo que a sua própria consciência lhe cobra. Nós acreditamos que o nosso cérebro trabalha a maior parte do tempo para nos revelar o mundo à nossa volta. Eu penso o contrário. Que ele mais trabalha para nos ocultar tudo aquilo que consegue, afogando no inconsciente qualquer sinal de culpa que macule o nosso ego. Nas poucas vezes que falha, em tudo aquilo que temos ciência, optamos pela confissão como remédio. É justamente porque o homem sabe que errou, que erra e que vai continuar errando que a confissão é tão importante. Ela o liberta, ainda que o humilhe.
A confissão, qualquer tipo de confissão, é o teor mais belo de subordinação. Resta saber subordinação a quem… ou a quê. Eu não tenho tal resposta, mas arrisco dizer que seja submissão a algo muito maior que nós. A qualquer coisa não relativa, que homem algum, por mais perspicaz que seja, é capaz de manipular ou ludibriar. Subordinação a um norte moral comum a toda espécie humana, a uma ideia de valor absoluto, a uma Verdade, a ideia de Justiça Universal ou ao próprio Deus quem sabe.
Além do mais, submeter-se de bom grado não é submissão coisa alguma.
Arrepender-se, e a confissão é um meio digno para isso, é reconhecer a transgressão — e portanto assumir a existência — de pelo menos uma lei, imutável e eterna, que existiu, existe e existirá em todos nós, em todas as sociedades e em todos as eras; algo que nos torna humanos, mas que está além da nossa humanidade. A sua manifestação é aquilo que nos faz verdadeiramente grandes. É aquilo que une a todos, apesar de todas as diferenças. É o que contraria o egoísmo dos nossos genes e faz com que a alma sobreponha-se sobre o desejo do corpo, algo que animal algum além do homem é capaz de fazer. É aquilo dentro de nós que nos faz buscar a Beleza, a Bondade e a Justiça. Mais do que somente apreciar tais ideias como abstrações, é aquilo que nos faz ter certeza que tais virtudes existem e que todos temos o direito inalienável de usufruir delas. É aquilo que impele homens a escrever uma Carta Universal de Direitos Humanos. É aquele algo a mais que nos difere dos animais selvagens, servientes do apetite insaciável do corpo. É verdade também que por vezes, com alguma frequência eu diria, também nós atuamos como selvagens. É certo que sim. Ainda assim, temos alguma consciência sobre nossas limitações. Por isso sentimos essa necessidade premente de confessar e conversar com os outros sobre nossos deslizes.
Ora, por que mais confessaríamos nossa culpa para quem quer que seja senão por termos essa Lei Moral tão forte dentro da gente?
Bem, é verdade que tudo que disse acima certamente se aplica à minha própria pessoa. A vocês, não me permito ter certeza. Eu demorei uma vida inteira para me conhecer melhor — e nunca sei dizer se fui bem-sucedido ou ludibriado por mim mesmo nesse sentido— ; que dirá afirmar o que quer que seja sobre todos aqueles cujo íntimo conheço tão pouco.
Contudo, escrever não significa retratar verdades. Aliás, a pergunta de Pôncio Pilatos continua em aberto, mesmo depois de 2.000 anos:
“Quid es veritas?”
Se me arrisco a fazer observações sobre a natureza humana, saiba que é isso que são: observações e não afirmações. Como disse o poeta, o que escrevo revela mais sobre a minha natureza do que sobre aqueles que critico. É por isso que me sinto confortável o bastante para expor a coisa de tal maneira: que a maioria das pessoas opta por viver uma ilusão. Por alguma razão, ingenuidade talvez, elas tendem acreditar que os outros lhe enxergarão como elas anseiam arduamente serem vistas… ou melhor, admiradas, em todo o seu resplendor. A realidade, meus caros, é um tanto menos gloriosa. As pessoas veem umas às outras apenas como lhes convém, através de lentes turvas de preconceitos e julgamentos. Nós não vemos as coisas como elas são, mas sim como as percebemos e a verdade é que a nossa percepção é deveras enviesada.
"Somos como vitrines de lojas, onde passamos nosso tempo a arrumar, esconder, a colocar em evidência as pretensas qualidades que os outros nos concedem - para nos enganarmos a nós mesmos." Foi o que escreveu Nietzsche, em Aurora.
Eu concordo. As pessoas preferem vestir os trajes da aparência, sem jamais desnudar-se em frente ao espelho para ver quem se é de fato.
Viver de aparências é fugir do único encontro que realmente importa nessa vida, o de encontrar-se consigo mesmo. Fácil não é. Isso eu afirmo. Tenho buscado ativamente a mim mesmo por toda a vida e nunca sei se estou de fato ali quando penso que me encontrei.
“Conhece-te a ti mesmo”, era o que estava esculpido sobre a entrada do Templo de Delfos. Uma frase que contém verdade e ironia. Ao visitar o oráculo, o sujeito dava testemunho de que não havia entendido absolutamente nada do "conhece-te a ti mesmo". Sócrates não foi ao oráculo perguntar quem era o mais sábio dos homens — e não à toa foi apontado como tal pela pitonisa — ; mas seu amigo sim foi lá questionar isso. A Verdade sempre carrega consigo uma ironia, um paradoxo, que a lógica dos intelectuais jamais trespassará. Para seguir adiante, é preciso abandonar velhos preceitos, largar o porto seguro da conveniência e dar um salto de fé para seguir com a intuição… a sua própria intuição. Percebe o que estou sugerindo? O local que os helenos frequentavam a fim de receber respostas para as mais variadas perguntas, advertia a todos, ali, bem em sua fronte, de forma um tanto explícita, para que buscassem as respostas dentro de si e não em qualquer outro lugar. "Conhece-te a ti mesmo". Ainda assim, lá estavam todos eles, esperando ouvir as respostas da boca da pitonisa, sem investigar a si próprio.
Sabe por quê?
Porque ninguém gosta de se olhar no espelho. Ninguém gosta de olhar para dentro. Schopenhauer perguntou-se a mesma coisa. Disse ele: "por que é que, apesar de todos os espelhos no mundo, ninguém realmente sabe como se é?" É mais cômodo perguntar e esperar que a resposta nos seja dada como um fato por alguém que acreditamos ter mais autoridade, do que termos de investigar a nós mesmos. As perguntas que não temos respostas são as que mais nos ensinam. Tudo aquilo que pode ser facilmente respondido é um retalho de fatos, que ora faz sentido, ora está obsoleto; compõem a Verdade, mas não são realmente verdade, embora não sejam mentiras.
Quid es veritas?
William James escreveu que “quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é”. Os japoneses dizem que nós temos três faces: a primeira é a que mostramos para o mundo. A segunda, mostramos apenas para os mais íntimos. A terceira, não mostramos para ninguém; é o reflexo mais próximo de quem somos. Não é quem somos, mas um reflexo de quem somos.
Não é assim com tudo, aliás?
A princípio, não vemos as coisas como são. A verdade não nos é acessível diretamente. Não podemos olhar dentro da Mente do Criador, da mesma forma que não podemos fitar o Sol diretamente. Por isso admiramos o que nos é possível, como a Lua, que reflete a luz do Sol, sem que nos ofusque a visão, como acontece com o prisioneiro recém liberto da caverna. Da mesma forma, ninguém viu a Deus, bem como ninguém observa a própria face olhando para si, senão através do reflexo do espelho. Todo reflexo é, por definição, reminiscência de algo e não o algo que espelha. É uma imagem do passado; que se conserva à forma e semelhança, mas que definitivamente não é aquilo que reproduz. O reflexo é, ao mesmo tempo, uma imagem fiel e confusa, produzida pela luz refletida. O que a imagem espelhada revela é apenas a forma que não encontra correspondência na essência. A essência do espelho é própria e a essência do que ele espelha é doutra natureza. Talvez, seja por isso que está escrito que “agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face”. Nem mesmo a luz observamos diretamente, mas o que ela reflete. Como Deus, como o Sol, como o nosso próprio Eu. A princípio não lhes acessamos diretamente. Eis aí o trabalho do alquimista, transformar a si próprio; imitar ser Sol através da Lua, ver-se quem é através do espelho e reconhecer-se verdadeiramente ao vencer a ilusão dos sentidos, através da análise de seus pensamentos e não através dos pensamentos em si.
Eis aí a razão pela qual confessamos. Quando confessamos, aceitamos a ideia de nossa própria vulnerabilidade. Humilhados, caímos de joelhos e assumimos nossas dívidas em relação a algo que nos é superior, em espírito, em moral ou em ambas as coisas. Expomos a terceira face e vemos quem somos, verdadeiramente. Então, quando antes questionava sem sucesso a mim mesmo, “por que alguém escolhe confessar os seus próprios pecados?”, hoje imagino uma razão para isso. Simplesmente não aguentamos viver de aparência por todo o tempo. Confessamos porque sabemos que o mundo civilizado é um teatro articulado, onde a hipocrisia é como insolação de um sistema doente que arde dia e noite sobre as nossas cabeças. Sabemos isso porque, independente do que pregamos, vemos todos o que fazemos uns aos outros e o que fazemos a nós mesmos. Mesmo que fôssemos cegos, como no ensaio de Saramago, saberíamos dos horrores que somos capazes.
Qualquer palavra, por si só, é inocente, como um espelho é inocente; porquanto reflete a formosura ou a fealdade, sempre sob a perspectiva de quem admira seu reflexo. A palavra, tal qual o espelho, tem o atenuante da franqueza, um tipo de franqueza que apenas dois tipos de homem se permitem ter: os que independem e agem corretamente ou aqueles que já não têm mais nada a perder; em ambos os casos, a palavra permanece justa. A palavra, tal qual o espelho, não é capaz de ofender. Como poderia? A ofensa implica em se qualificar o ofendido; e quem, senão o próprio sujeito, se ofende com a imagem refletida no espelho? Ora, o espelho é belo, mas não necessariamente generoso, muito embora seja inquestionavelmente fidedigno; não intervém nem a favor e nem contra; ele espelha… e o reflexo é justo, à imagem e semelhança de quem o admira.
Está explícita a impossibilidade lógica da ofensa, a não ser aquela que aceitamos nós mesmos, por ecoarem no vão escuro de nossa não existência, no vale das sombras que habita em nós.
A Lua, o espelho e a palavra. Percebe agora?
É por isso que um homem confessa: para colocar luz, esclarecer, todos aqueles pontos sombrios que ele reconhece ter dentro de si. A confissão é portanto um meio que permite o homem se conectar diretamente com a sua própria consciência, lugar sagrado, templo do ser, onde ninguém mais senão ele próprio tem acesso, para transmutar a si mesmo.

