Quem somos nós?

Quem somos nós?

Será que nós somos o nosso corpo?

Será que somos somente o nosso corpo material?

Ou será que além do corpo, somos algo mais?

Seja como for, uma coisa é praticamente certa: nós sabemos que, em última instância, de alguma forma, nós existimos.

Podemos duvidar de tudo, podemos questionar o quão real é o mundo lá fora e também se as coisas realmente existem como nós as percebemos ou, então, se tudo não passa de ilusão, ainda que bastante persistente (como disse Einstein, mais ou menos dentro desse contexto, falando sobre a ideia de tempo).

Podemos ainda refazer a pergunta que Morfeus faz para Neo:

“O que é real?
Como você define o ‘real’?
Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.”

Mas, veja, mesmo se duvidarmos de tudo, ainda nos resta um único ponto de vista, quase que obrigatório, para admirar a própria existência. Pense comigo o seguinte: mesmo que nada mais exista, eu sei que pelo menos eu existo, pelo menos enquanto estiver a observar algo, pois mesmo quando estou duvidando das coisas, é preciso que exista alguém a duvidar: EU!

Eis aí o sentido da famosa máxima de Descartes:

Portanto, não devemos subestimar o ato de pensar e muito menos nossa capacidade de sentir.

Um computador moderno até pode, com alguma boa vontade da nossa parte, “pensar”. Por exemplo, já vimos um computador vencer o campeão mundial de xadrez. Agora sentir, isso um computador ainda não faz! A senciência é uma característica de seres vivos e, por enquanto, somente deles. Como meros impulsos eletromagnéticos se traduzem em sentimentos ainda é um mistério para nós.

Você já parou para pensar, de forma bastante objetiva, como é possível que algo imaterial — como a consciência — possa emergir de algo estritamente material — como o cérebro, um órgão gelatinoso preso dentro de uma caixa preta, sem qualquer acesso direto ao mundo exterior?

Onde está a interface, e como ela opera, conectando esses dois mundos: material e imaterial? Como conectamos tudo aquilo que você vive na sua cabeça, dentro de um crânio fechado com todo o resto que existe lá fora? Como fazemos sentindo sobre isso tudo?

Ainda assim, mesmo com toda esta subjetividade, nada é mais real para nós mesmos do que a experiência que temos com a nossa própria consciência. Você está a experimentado agorinha mesmo, quando lê essas palavras. Você sabe que é você que está aí, lendo.

Guarde isso, pois voltaremos para este assunto mais adiante.

Antes, vamos falar sobre o nosso corpo físico. Vamos considerar que sim, nós somos apenas um corpo físico, com um cérebro que, de alguma forma, cria a consciência e, por fim, molda àquela entidade que chamamos de "eu".

Quando pensamos em nosso corpo, pensamos em uma coisa só, um corpo, o nosso corpo. Imaginamos que temos um mesmo e único corpo, que vai sobrevivendo ao longo dos anos, até chegada a hora da morte, quando, supostamente, de acordo com esta visão de mundo estritamente material, a pessoa morre, deixa de existir como um indivíduo.

Será que somos o nosso corpo?

Mas o que é um corpo?

Um corpo humano médio, de 70 kg, contém por volta de 7 octilhões de átomos (isso é um 7 seguido de 27 zeros). Os 4 elementos básicos que compõem 96.2% do peso do corpo humano são oxigênio (65%), carbono (18.5%), hidrogênio (9.5%) e nitrogênio (3.2%). 99.9999999999999 % de um átomo é somente espaço vazio. Se a gente remover todo espaço dos átomos, toda a raça humana caberia dentro de um cubinho de açúcar.

Considere mais alguns números sobre o corpo humano: estima-se que ele seja composto por um trilhão de células.

Imagine que desta população de 1 trilhão de células que formam o seu corpo, 600 bilhões delas morrem todos os dias e que, aproximadamente, o mesmo número também se regenere — isso dá algo como 10 milhões de células por segundo.

Uma célula comum da nossa pele, por exemplo, vive aproximadamente por duas semanas; as células dos ossos são renovadas a cada 3 meses. A cada 90 segundos, milhões de anticorpos são sintetizados, cada um com aproximadamente 1.200 aminoácidos. Considere que a toda hora 200 milhões de hemácias, ou glóbulos vermelhos, são regeneradas.

De acordo com análises radio-isotópicas (que é um dos métodos de datação que mede a taxa de desintegração atômica), no intervalo de um ano, nada mais nada menos do que 98% de todos os átomos que compõem seu corpo são repostos. Nenhuma substância do corpo físico é constante.

Você está imaginado o que é isso?

98% de todas as células que compõem o seu corpo não são as mesmas células de um ano atrás; que também não são as mesmas de dois anos atrás e assim por diante.

Como você ainda sabe que é você?

Como esta informação é mantida pela consciência? Onde ela é armazenada? Como você acessa a sua memória?

Você acha que tudo isso está arquivado em seus neurônios, nas ligações químicas que acontecem em seu cérebro? Pode até ser, mas, por ora, isso não passa de especulação. A verdade é que temos uma vaga ideia de como a memória funciona em termos práticos. Tampouco sabemos, como já dissemos, onde está localizado o "eu" no cérebro ou como se forma a consicência e de que forma os sentimentos e nossa percepção de "eu" se conecta com a nossa massa cinzenta, embora saibamos que há uma relação neste sentido.

Ainda assim, eis você aí, com a nítida impressão que você é exatamente o mesmo você que você era tempos atrás, mais maduro, mais velho, mas você é o mesmo você, certo?… embora, vamos reiterar, 98% de todos os átomos que te compõem tenham morrido e sido regenerados por outros mais novos… isso apenas nos últimos 12 meses.

Afinal, onde estava você enquanto tudo isso acontecia ao mesmo tempo agora?

Tem uma frase do filósofo Heráclito que diz assim:

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou.”

Essa frase pode ser analisada de várias perspectivas, uma delas, a mais comum, é sua forma metafórica, mas veja que, tecnicamente, em termos de composição celular, ele estava coberto de razão.

E mais: quem organiza a estrutura do corpo, para que ele haja como um todo?

Quem é que diz para a célula qual função útil ela deverá cumprir dentro de um organismo?

“(…)Consideremos que nosso corpo muda continuamente a cada segundo, a cada minuto, a cada dia. Anualmente, cerca de 98% dos átomos e moléculas de nosso corpo são substituídos por outros, fazendo-nos passar por um processo contínuo de desintegração e integração sem que sequer percebamos isso. De onde vem a força ou energia que causa a continuidade dessa mudança constante? Quem é o arquiteto que lida com nossas células como se lidasse com os tijolos de nossa morada?” — A religião do cérebro, p. 109, Dr. Raul Marinho, Professor Titular de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina da USP.

Eu não sei se você sabe, mas todas as células de um mesmo organismo (de uma mesma pessoa) são geneticamente iguais, ou seja, são idênticas; todas carregam exatamente as mesmas informações.

A célula que compõe o seu músculo contém exatamente as mesmas informações da célula que compõe o seu olho, que é a mesma do fígado e assim por diante.

Então, como é possível que células idênticas exerçam funções tão distintas?

Em miúdos, como a célula do seu olho sabe que ela deve ser uma célula de olho e não do rim?

Engana-se quem acha que a resposta está na programação genética, no DNA.

“A maneira como as proteínas se distribuem dentro das células, as células nos tecidos, os tecidos nos órgãos e os órgãos nos organismos não estão programadas no código genético. Dados os genes corretos e, portanto, as proteínas adequadas, supõe-se que o organismo, de alguma maneira, se monte automaticamente. Isso é mais ou menos o mesmo que enviar, na ocasião certa, os materiais corretos para um local de construção e esperar que a casa se construa espontaneamente.” — Dr. Rupert Sheldrake, biólogo, bioquímico (Ph.D.)

Curiosamente, existe um trecho dos Upanishads, da literatura Veda, que levantou essa mesma questão, há milhares de anos atrás:

“Quem comanda a mente para que ela pense? Quem ordena que o corpo viva? Quem faz a língua falar? Quem é o Ser radiante que conduz o olho à forma e à cor, e o ouvido ao som?
O Eu é o ouvido do ouvido, a mente da mente, a fala da fala. Ele também é o alento do alento, o olho do olho.
Ao abandonarem a falsa identificação do Eu com os sentidos e com a mente, e ao saberem que o Eu é Brahman, os sábios, ao deixarem este mundo, tornam-se imortais.
O olho não o vê, nem a língua o exprime, nem a mente o alcança. Não o conhecemos e nem podemos ensiná-lo. Ele é diferente do conhecido, e diferente do desconhecido. Foi o que ouvimos dos sábios.
Aquilo que não pode ser expresso em palavras mas pelo qual a língua fala sabei que é Brahman. Brahman não é o ser que é adorado pelos homens.
Aquilo que não é compreendido pela mente, mas pelo qual a mente compreende sabei que é Brahman. Brahman não é o ser que é adorado pelos homens.
Aquilo que não é visto pelo olho, mas pelo qual o olho vê sabei que é Brahman. Brahman não é 
o ser que é adorado pelos homens.
Aquilo que não é ouvido pelo ouvido, mas pelo qual o ouvido ouve — sabei que é Brahman. Brahman não é o ser que é adorado pelos homens.
Aquilo que não é trazido pelo sopro vital, mas pelo qual o sopro vital é trazido, sabei que é Brahman. Brahman não é o ser que é adorado pelos homens.”

O problema da consciência

Será que, então, é a consciência que ajuda organizar o corpo?

Mas o que é a consciência?

A consciência é criada pelo cérebro, como muitos afirmam? Ou é o contrário?

Seria o cérebro um epifenômeno — ou seja, uma consequência — da consciência, como propõe o Dr. Amit Goswami, doutor em física quântica e professor aposentado do Departamento de Física da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos?

Talvez, você estranhe ouvir isso de um físico — logo um físico: a sugestão de que a consciência antecede o cérebro em existência, e não o contrário. Pois não devia ser motivo de espanto. Essa é uma possibilidade que não está descartada por muitos cientistas. Inclusive, há um grupo deles que criou um manifesto sobre a ciência pós-materialista, bem interessante de ser lido:

Considere ainda o que diz o professor Dr. R. C. Henry, em um artigo publicado na prestigiada Revista Nature:

"O fluxo de conhecimento caminha em direção a uma realidade não-mecânica; o universo começa a se parecer mais com um grande pensamento do que como uma grande máquina. A mente já não parece ser um intruso acidental no reino da matéria, devemos antes saudá-la como a criadora e governadora do reino da matéria. Supere isso, e aceitar a conclusão indiscutível. O universo é imaterial-mental e espiritual." — R.C. Henry, Professor de Física e Astronomia na Johns Hopkins University, “The Mental Universe” ; Nature 436:29, 2005

Quem saberia responder, efetivamente, como o corpo físico se organiza a si próprio e também como o corpo, material e objetivo, se relaciona com a sua consciência, imaterial e subjetiva?

Como experimentamos a nossa própria existência todos os dias, de forma automatizada — afinal, vivemos, pensamos e sentimos a existência sem muito esforço — acabamos não refletindo muito sobre como isso é possível. Assumimos que é assim porque é assim, como se fosse algo simplório. Não é! Tanto não é assim que, em Filosofia, esta questão foi chamada de “o problema difícil”.

Para isso, vou citar textualmente o neurocientista, Dr. Christof Koch, explicando o conceito de “hard problem”:

“A consciência não aparece nas equações que compõem os fundamentos da física, nem na tabela periódica da química, nem nas seqüências moleculares ATCG intermináveis ​​de nossos genes…
…suponha que eu acople um sensor de temperatura no meu computador e o programe de tal maneira que, se o quarto se tornar muito quente, a palavra “dor” apareça em sua tela em grandes letras vermelhas. Mas será que a “dor” tem algum significado para meu computador? Eu estou disposto a aceitar que meu computador possui muitos atributos, mas não senciência (capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade)…
…Na filosofia, a dificuldade de explicar por que alguém pode sentir qualquer coisa é geralmente referenciada como o “Hard Problem” ou o problema difícil… Este foi o ponto de entrada para a religião. A religião tem uma explicação intuitiva, plausível para o fenômeno da mente: Estamos conscientes porque temos uma alma imaterial, o nosso verdadeiro, o eu interior. A alma é parte integrante de uma realidade transcendental, acima e além das categorias de espaço e tempo e causalidade. Este alma se esforça para estar unida a Deus no fim dos tempos.”

O Dr. Koch, autor do texto acima, extraído do livro “Consciouness: confessions of a romantic reducionist”, não é religioso ou possui qualquer inclinação mística, ele é um reducionista. Segundo o Wikipedia, “Reducionismo, em filosofia, é o nome dado a teorias correlatas que afirmam, a grosso modo, que objetos, fenômenos, teorias e significados complexos podem ser sempre reduzidos, ou seja, expressos em unidades diferentes, a fim de explicá-los em suas partes constituintes mais simples”, sendo portanto, uma forma de materialismo. Contudo, o próprio autor se considera romântico porque não acredita que o Universo seja totalmente frio e despropositado, como uma parcela considerável da maioria dos materialistas acredita. Além disso, como bom cientista, que busca a verdade mas não provar a sua verdade, ele é humilde o suficiente para admitir que nós ainda não temos tais respostas, ainda que ele acredite que um dia ela será capaz de tal feito a ponto de trabalhar em pesquisas para dar a sua contribuição neste sentido.

Aliás, eu também considero que isso seja possível. Conforme expandirmos nosso conhecimento, pode ser que muitas das coisas que nos eram sobrenaturais ou paranormais, com o tempo, passem a ser naturais.

Quem sabe se, aquilo que denominamos alma não seja, num futuro, reconhecido como parte integrante do nosso corpo, como uma parte não física mas que lhe anime, assim como as ondas de rádio, de certa forma, não fazem parte do rádio mas lhe animam o físico?

Nesse sentido, Santo Agostinho tem uma frase sobre milagres que pode muito bem ser adaptada neste contexto:

Um dos meus autores preferidos, o brilhante acadêmico inglês C. S. Lewis, propôs uma resposta inusitada para a pergunta sobre quem somos nós, porém, invertando a razão de pensamento, de uma forma simples, que você talvez nunca tenha considerado. Para ele, a questão não é saber se nós temos uma alma, mas exatamente o contrário. Diz ele: “você não tem uma alma. Você é uma alma. Você tem um corpo”.

Todos os rótulos que nos atribuímos, e as segregações com que nos limitamos, têm muito pouco a ver com o que penso que somos.

Quem somos nós, afinal?

Quem sabe?

Saber, eu mesmo não sei… mas eu sinto! Para isso, recito o poeta:

“…eu sinto que sei que sou um tanto bem maior…”
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