A cozinha me fez um empreendedor melhor

Rotterdam, 16 de Maio de 2016

No último ano tenho dedicado tempo a um novo hábito, cozinhar, teoria e prática. Semana passada sem me dar conta comecei a identificar algumas conexões entre a culinárias e meu dia a dia empreendendo a Lotebox. O que começou como momentos de descontração e desligamento da rotina hoje influencia minhas ações, deixa te mostrar como, mas antes…

Afinal, o que tenho feito na Lotebox?

Depois de muita matemática abstrata (alguns divertimentos matemáticos: http://gottfriedville.net/mathprob/index.htm), estudando topologia em superfícies não euclidianas me vi diante de um desafio, transformar a demanda reprimida de um mercado gigantesco num processo tecnológico repetível e escalável para prover maior eficiência e controle de informações nas operações logísticas.

Talvez você não veja uma conexão entre estes dois trechos de história, mas o pensamento lógico-matemático para criação de soluções mediante padrão de repetição (algoritmos) foi a base de conhecimento que utilizei para construir o que hoje é o Workflow Management System da Lotebox (dá uma olhada lá como funciona).

O sistema é fruto de uma análise comportamental e identificação de padrões; sobre os padrões devidamente mapeados desenhei (num papel) um fluxo de ações que diminui o tempo desprendido pelos profissionais de logística na operação, logo provendo maior eficiência.

Hoje parte do meu papel na Lotebox é pesquisar o mercado, priorizar demandas, identificar padrões, propor e evoluir nossa solução para atender da mesma forma empresas de comércio internacional na América do Sul e Europa.

Ok, mas onde cozinhar entra nessa história? Deve ser sua pergunta agora…

O que me faz empreender

Empreender é aprender todos os dias com teoria e prática; Assim também é na cozinha, você precisa conhecer quais temperos combinam com certo tipo de carne — muitas vezes dá tudo errado — as experimentações fazem parte do dia a dia desenvolvendo seu próprio negócio.

Livro: Start — John Acuff

O desafio pessoal é a motivação pra empreender e cozinhar. Quando decidi aprender a cozinhar, todos os dias leio algo novo e, sempre que consigo, testo coisas novas, mas o resultado…

Como está [bem] escrito em "Start" de John Acuff, empreender é decidir deixar o caminho das pessoas normais, onde cada passo é pré-planejado, para seguir o caminho das pessoas incríveis, onde cada passo é um novo desafio pela imprevisibilidade. Caminhar na incerteza faz parte do negócio.

Nem sempre as coisas dão certo

Assim como na cozinha, empreender é a arte das experimentações. Quanto maior o volume de prática desprendido, maior será a perícia para fazer um prato ou evoluir o negócio. Bem certo que nem sempre as coisas dão certo.

O erro é fundamental.

Cada vez que perde-se controle há um novo conhecimento sendo produzido pelo caos, conhecimento que não está nos livros.

Muitos insistem em ter receita para tudo esquecendo os fatores externos, os quais trazem variáveis que não são previstas. Na cozinha ou startup as teorias estimulam por a mão na massa, mas devem ser seguidas cegamente, seguir o padrão é [quase sempre] dar com os burros n'água.

A execução não tem padrão, cada tentativa lhe dará mais insumo para fazer comida da mesma forma ou entregar um produto repetível e escalável. Os padrões são para a qualidade do produto final, não para as ações de execução.


Prato de Ratatouille numa de suas formas, com legumes fatiados e intercalados, existem mais de 8 formas de preparo, mas sempre ensopando legumes e sem carne.

Um dos pratos que mais gosto de fazer (e comer, claro) é o Ratatouille — sim o do filme!

Um ensopado de legumes que os camponeses franceses cozinhavam no período de escassez de comida durante a 2ª guerra, enfim, história…

Já fiz esse prato algumas vezes, posso dizer que manjo dos paranauês dele, mas dependendo de onde faça dá tudo errado…

Ao invés de sempre adaptar o processo às condições cometi o erro a não cometer, seguir um padrão de comportamento durante a execução do prato.

Da mesma forma tendemos a seguir fórmulas para tudo. " — Quero tirar minha ideia do papel, ah! Basta seguir os passos que o Guru das startups falou que está tudo certo", ou sobre um dos temas mais tratados entre empreendedores, dinheiro. " — O certo é pegar dinheiro no início de uma startup para tracionar o negócio", que se contradiz com " — Não é para pegar dinheiro no início de uma startup, foque em ter receita"… E por ai vai…

Receitas são importantes, mas os fatores externos exercem sua influência, a regra para execução é não ter regra. Aprenda com o ambiente e extraia o melhor dele para ter os melhores resultados.

Sem regras, mas com D-I-S-C-I-P-L-I-N-A

Receitas, tentativas e adaptação para ter bons resultados. Cozinhar me fez trabalhar estes aspectos, teoria, prática e ambiente, como resultado me tornei disciplinado. Disciplina é o que separa a adaptabilidade da zorra.

Para produzir mais na Lotebox eu adotei algumas ferramentas que aumentam minha disciplina, por exemplo uso pomodoros e um lista no Google Keep para me manter focado naquilo que preciso entregar. Controlando o tempo e os entregáveis eu posso andar sem regras durante todo o desenvolvimento sem perder eficiência.

Sempre dá certo?

Os melhores pratos não são feitos de primeira…

Não! Claro que não! Empreender é aprender constantemente, os erros são parte do aprendizado. Infelizmente errar no Brasil não é visto como algo positivo.

A visão de erro dita por Murilo Gun [por exemplo] mostra como a disponibilidade ao erro é encarada no Brasil vs. Vale do Silício (foi mal, Murilo, não achei o link que você fala disso). Arriscar no Brasil é como um trapézio sem a rede de proteção, o trapezista nesta situação não vai arriscar por medo de cair e não ter uma segunda chance, no Vale do Silício este trapézio tem uma rede de proteção, o trapezista, então, pode arriscar tudo, se der certo ele será um trapezista de sucesso, se der errado, a rede lhe permite tentar novamente.

A cozinha me ensinou a encarar melhor os erros, quanto mais eu arrisco na cozinha maiores são as chances de errar, por outro lado maiores são as chances de fazer um prato animal. Assim também é empreender, quanto mais arriscarmos fazer algo novo maiores são as chances de errar, também maiores são as chances de entregar um produto de sucesso.

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