Dois amigos


Era sagrado: na última sexta-feira do mês o velho entrava no cemitério com uma sacola do Carrefour. Dentro, duas cervejas quase geladas. Sentava no terceiro túmulo da quadra E. O melhor amigo estava ali dentro, do lado de lá do mármore, desde a Copa de 94, aquela do Romário. Morreu de sigla ruim, AVC, talvez, já não lembra. A promessa numa mesa de boteco lá do Largo da Ordem: quem morresse primeiro deveria visitar o túmulo do outro e regar o vaso de flores com cerveja. No começo era engraçado, porque meio absurdo, assim como é absurdo o quanto a gente se apega a um amigo. Nessa época, o velho era menos velho e ficava lá contando as novidades que o amigo havia perdido, ria sozinho. Ria junto. Agora o tempo o arrastou com sua brutalidade de mar agitado e já nem há tantas novidades assim. Ele não consegue nem se lembrar quando deu no último atletiba. E nesse fim de tarde em que tudo vira bronze sob o sol fraquinho, fraquinho tocando as araucárias, o velho fica em silêncio, quebra a promessa e bebe as duas cervejas sozinho.


Originally published at cronicasparadiasdechuva.blogspot.com.br on May 22, 2015.