O rio

As garrafas formam um tapete de plástico sobre o rio, numa parte em que o Iguaçu é bem magrinho e a piazada atravessa fácil daqui ali. Brincam de Jesus caminhando sobre as águas no leito colorido, cheio de coliformes e milagres.
Um deles vem correndo, dá um passo, dois, quase três e some no meio do plástico, reaparecendo só lá do outro lado. Se cagam de rir um dos outros até a barriga doer sem ser só de fome. E aí o silêncio tropeça em suas bocas, pois vem boiando, junto com um sofá e uma sacola de supermercado, um corpo.
O rosto está meio afundado, mas todos reconhecem a camiseta do Paraná Clube toda puída e o cabelo descolorido. Achavam que ele tinha ido embora, fudido de dívidas, tava cuidando de carro no centro de Curitiba. Ninguém corre, ninguém grita, ninguém acode, ninguém porra nenhuma.
O rio vai indo, indo.
Um quero-quero parte o céu ao meio fazendo o escândalo de sempre e aí alguém repara que o alaranjado lá do outro lado da ponte já tá um tanto escuro, tá tarde, melhor vazar.
Em silêncio, empurram suas bicicletas pelo carreirinho no meio do mato e voltam para suas casas.
No dia seguinte, só garrafas. Nem o quero-quero apareceu.
Originally published at cronicasparadiasdechuva.blogspot.com.br on May 22, 2015.