Travessia

A professora saiu no meio da palestra no centro de convenções, pois ainda precisava passar na biblioteca da faculdade antes da primeira aula da noite. Tentava organizar mentalmente o conteúdo da disciplina que daria logo mais, enquanto andava rápido e revirava o conteúdo da bolsa: lenços, tablet, conta de luz, recibo do curso de francês. Cadê a porra do celular?

E então sentiu o impacto, na testa, no ombro, no nariz, no joelho direito.

Um barulho horrível.

Em pânico, parou.

Fez menção de levar a mão ao nariz, pois tinha certeza que escorria em vermelho, mas desistiu do movimento no ar ao perceber as pessoas olhando, apontando, cochichando.

Cacos de vidro cobriam o chão o cabelo os ombros como neve tosca em uma produção de baixo orçamento.

Tinha uma porta de vidro ali? Como que não viu, é cega? Estava olhando pra baixo? Não, estava olhando pra frente, mas mesmo assim não viu, a cabeça sei lá onde.

A recepcionista colocou o telefone no gancho em câmera lenta, o segurança veio se aproximando com a mão no fone de ouvido, as pessoas começaram a andar e a fingir que isso tudo era normal, sempre acontecia, todo mundo está sujeito etc.

Subitamente sentiu-se ridícula, protagonista trágica de uma vídeo-cassetada que famílias assistiriam num domingo, rindo de seu constrangimento com suas bocas lambuzadas de macarrão e frango. Há pouco estava estudando linguística românica e agora isso. Não estava preparando para uma pausa tão estúpida. De repente o seu dia, a sua rotina, a sua confiança, não eram mais seus, eram só estilhaços no mármore.

As explicações necessárias seriam insuportáveis e a solidariedade de desconhecidos, humilhante. Sempre com a cara enfiada num livro, pouca socializava, não sabia como agir numa situação assim sem controle, ensaio ou preparação prévia. Quem saberia, afinal? Correu sem dar explicações e, mesmo que no primeiro lance de escadas tenha cogitado perguntar o quanto devia pelo estrago, seguiu em frente com o coração quase explodindo. Foda-se.

Já na rua, limpou o rosto com um lenço, tentou caminhar normalmente enquanto o frio curitibano fazia seu corpo enrijecer e seus olhos lacrimejarem. Ninguém a seguira, estava em segurança no meio dos pedestres e dos vendedores ambulantes.

Entrou em um tubo a espera de qualquer ônibus e quando colocou as mãos no bolso do casaco, sentiu a textura dos cacos de vidro.

Apertou-os com força, até a dor ficar insuportável, depois aliviou um pouco a pressão e deixou escapar um sorriso meio quebrado.

A travessia estava completa.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Eder Alex’s story.