4 lições que aprendi lutando contra os estigmas do crack

Redutor de danos que faz uso controlado de crack compartilha sua história e seus aprendizados ao lidar com o tema

Meu nome é Linaldo Fernandes Dias, tenho 32 anos e sou natural de Recife-PE. Atualmente moro em São Paulo, capital, e curso Psicologia. Esse texto que escrevo agora — que também é a história da minha vida — é um exercício bem difícil pra mim. Aliás, eu sempre fui bem cauteloso em relação a compartilhar tudo isso ou não, até que a Minha Sampa me procurou no começo desse ano para que eu participasse de um vídeo sobre a questão da cracolândia e do uso problemático de drogas.

Dei meu depoimento sem saber muito a repercussão que o vídeo teria tanto na internet como na minha vida. E o que aconteceu depois que o vídeo alcançou mais de 2.500.000 de pessoas e foi assistido na íntegra por 650 mil pessoas, é o que eu conto nas linhas abaixo. Mas antes, você precisa assistir o vídeo pra entender o que é a redução de danos e a importância dessa política na minha vida e na de milhares de usuários ao redor do mundo.

A escuridão da desinformação

Bom, como você pode ver no vídeo, eu fui um usuário problemático de crack. Andei vulnerável, morando na rua, à mercê da sorte e sem nenhum tipo de informação sobre as drogas. Quando uma política de cunho moralista com base na proibição é instalada para lidar com esse tipo de problema, quem mais sofre são os usuários problemáticos ou em vulnerabilidade social.

Eu não conseguia ter acesso a informações verdadeiras sobre o assunto e acabava ficando ainda mais à margem do direito à informação e ao acesso à educação. O meu único meio de informação era a mídia televisiva, cujo trabalho era desinformar e demonizar a mim mesmo como usuário. O discurso midiático sempre relacionou o consumo como falta de caráter, como caso de polícia (criminal), doença ou “à falta de Deus”.

Região da Cracolândia, no centro, já foi alvo de inúmeras operações policiais nas últimas décadas.

Uma luz no fim do túnel

Foi quando em 2012, um colega me apresentou o Programa ATITUDE — Programa de Atenção Integral para Usuários de Drogas em Recife, que me fez perceber, por meio da experiência que tive no programa, outras perspectivas relacionadas ao uso de substância psicoativa: a perspectiva da Redução de Danos.

Sim, esse programa pautava a redução de danos e não exigia a abstinência como única forma de cuidado. Foram muitos aprendizados e vou compartilhar alguns com vocês ao longo deste texto.

Lição 1: A relação com as drogas é um aprendizado gradativo.

Não podemos descartar a possibilidade dos riscos e danos que as substâncias têm em potencial. Mas, quando se tem informação sobre uso, abuso e redução de danos, o usuário vai aprendendo a se relacionar melhor com sua droga de escolha, reduzindo os riscos e danos possíveis. Não é a droga que te joga para um consumo descontrolado, mas a falta de apoio e informação, entre outros fatores de cunho econômico e psíquico.

Quando comecei a me relacionar com outras pessoas, estabelecendo outros vínculos e criando atividades alternativas ao consumo, pude perceber que estava entendendo melhor aquela fase que eu estava passando. Contudo, minha família não acompanhou o processo informativo, assim como a maior parte da sociedade não acompanha, seguindo e reforçando os estigmas. Escolheram a parte mais fácil da história, que é o julgamento sem conhecimento de causa. Continuei o uso, mas dessa vez de forma menos danosa.

"Há uma grande interferência do tempo de uso nas práticas de consumo." (VALLIM, 2015)¹.

Ou seja, quanto maior for o tempo de consumo da droga, ou seja, quanto mais experiente for o usuário, mais aprimoradas e menos danosas se tornam as práticas de uso.

“Percebe-se que as condições de uso e a relação estabelecida com o consumo da droga tendem a se tornar mais amenas de acordo com a evolução do tempo, as condições socioculturais em que se encontram, e as condições específicas de consumo.” (VALLIM, 2015)².

Lição 2: Programas que oferecem moradia, trabalho, educação e saúde estão garantindo direitos fundamentais e não incentivando o uso de drogas.

As pessoas mais vulneráveis voltam às cenas de uso após uma internação, por falta de moradia e trabalho. Então, garantir direitos e acompanhar com o suporte de Saúde e Assistência Social é essencial para um possível sucesso no processo de cuidado.

Em 2013, contudo, fui parar no sistema penitenciário. Como eu ainda estava usando, e existem aquelas pessoas que não toleram ver usuários nas ruas, me denunciaram como se eu estivesse traficando no território onde costumava fazer uso.

A polícia chegou e não encontrou nada comigo. Porém, fui tirar satisfação do denunciante e ele acabou me acusando de outro crime, o de roubo. Levado à delegacia, o delegado perguntou se eu era o traficante da área várias vezes. Como assim traficante? E eu o respondi: “será que existe mesmo traficante na periferia que, geralmente, está apenas com no máximo 5g de crack, às vezes até para o seu próprio consumo?”.

Eu tive uma certa sorte após ter conhecido o sistema penitenciário. Tenho alguns privilégios que a maioria dos jovens da periferia não tem. Tenho a cor branca e já tinha trabalhado de carteira assinada. Vi com os meus olhos como a justiça penal é racista. A maioria dos prisioneiros são negros e pobres, como apontam pesquisas que posteriormente eu tive contato. Vi muitos colegas e conhecidos que não tiveram o mínimo de educação e oportunidades iguais aos que não eram da mesma classe social que eu.

Mais de 60% dos presos no Brasil são negros.

Quando eu saí da prisão continuei usando drogas. Aquela punição não me serviu como premissa para deixar o uso, assim como no caso da maioria que sai de lá. Voltar a usar e traficar são as únicas alternativas que se tem, já não existem outras possibilidades para quem não estudou e ficou certo tempo preso. Mas, eu já tinha ingressado na universidade pública, anteriormente, e decidi voltar a estudar.

A grande oportunidade

Foi então que surgiu uma oportunidade num programa educacional do governo daquela época, o Pronatec. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego foi criado pelo Governo Federal, em 2011, por meio da Lei 12.513/2011, com o objetivo de expandir, interiorizar e democratizar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica no país.

Vários cursos foram oferecidos. Dentre eles, o curso Técnico em Reabilitação de Dependentes Químicos. Foi então que eu me interessei pelo tema de forma aprofundada. Conheci muita gente interessante e vi-os como meus pares. Muitos deles eram usuários de substâncias das mais variadas. Mas eu era usuário de crack, a mais estigmatizada. Talvez pelo contexto de uso (nas ruas), mais visível e pela situação de vulnerabilidade social que vivem alguns desses usuários. Uma droga, também, demonizada pela mídia que, associa as pessoas que fazem uso dela como perigosas, chamando-as de zumbis, e, assim, desumanizando-as. Tudo não passa de mitos.

Carl Hart, um cientista merecedor de respeito, da Universidade de Columbia — Nova York, numa entrevista à Revista Superinteressante, disse: “O vício grave não transforma a pessoa num ser incapaz de reagir a outro tipo de incentivo. Ele não se transforma num zumbi criminoso”.

Carl Hart, neurocientista da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

Hart, em sua pesquisa, começou a oferecer crack às pessoas já usuárias que não queriam parar naquele momento. Ele percebeu que ao oferecer (além da dose da droga) um incentivo alternativo, eles poderiam não optar pela droga. Foi o que aconteceu comigo. Quando o Governo implantou uma política educacional que poderia me ajudar economicamente em médio prazo, eu escolhi. Não escolhi parar com o consumo de drogas, mas ter uma perspectiva além do uso.

“Mesmo na fissura, um dependente é capaz de tomar decisões racionais, quando a alternativa compensa.” Carl Hart

Ingressei no curso e fiz amigos. Formamos um coletivo na cidade de Recife para militar contra o proibicionismo e contra a atual política de “guerra às drogas”, cuja inutilidade identificamos através dos estudos nos quais íamos nos aprofundando.

Acolhendo outros usuários

A essa altura, você deve tá se perguntando: mas como vieste parar em São Paulo? Bom, também foram as drogas que me trouxeram aqui. Como assim as drogas? Eu explico.

Ainda no decorrer do curso em Recife, conheci muita gente. Tanto de lá, quanto de outros lugares do país por meio das redes sociais. Conheci uma redutora de danos que, hoje, é minha companheira.

Contei minha história para ela. Essa mesma que relato aqui neste texto. No começo só éramos amigos e debatíamos sobre novas abordagens no cuidado de usos problemáticos de drogas. Foi quando ela me convidou a vir à cidade de São Paulo para um encontro na USP sobre Antropologia e uso de psicoativos. Conhecemo-nos e nos apaixonamos.

Linaldo, que hoje trabalha como redutor de danos ajudando outros usuários

Voltei pra lá, mas com vontade de ficar aqui. Terminei o curso em Recife, a primeira turma do Curso Técnico em Reabilitação de Dependentes Químicos, onde tive contato com a literatura sobre drogas e ótimos professores.

E, voltei para São Paulo com uma vontade de amar, estudar e cuidar de pessoas que fazem uso de drogas que não tiveram — ainda — a mesma chance que eu tive. No meio disso tudo, outros dois grandes aprendizados:

Lição 3: O problema não é a droga, mas o contexto.

O problema nunca é a droga em si, mas todo um contexto (complexo) que atravessa a pessoa, pois, a maioria dos usuários não terá maiores problemas com as drogas. Porém, os mais vulneráveis, pessoas em situação de rua, estarão mais suscetíveis a desenvolver um uso problemático, devido à falta de reforços alternativos, coisas que possam fazer além do uso. Por exemplo, trabalhar, estudar, entre outros.

Ygor Alves, autor do livro Jamais fomos zumbis: contexto social e craqueiros na cidade de São Paulo, ao analisar um dos programas de redução de danos (De Braços Abertos) que oferecia uma frente de trabalho aos usuários, percebeu, que a certeza de que se conseguiria a droga, diminuia a ansiedade, porque sabiam que iriam receber o salário no final da semana e poderiam usar. Isso reduzia o urgencia de sair pro “corre” nome dado a forma de conseguir dinheiro pra comprar pedra, que poderia ser até pequenos furtos no território há catar material reciclável.

foto: MAURICIO CAMARGO/ELEVEN/FOLHAPRESS

Lição 4: A política de drogas é nosso maior risco

A política de drogas de grande parte do mundo e da maioria absoluta do país ainda tem um viés criminal, proibicionista e empata um aprofundamento nas pesquisas. Se ainda se trata o usuário de drogas como caso de polícia e justiça, não poderemos avançar.

Drogas sempre existiram e sempre irão existir. Todavia, ainda tratamos o assunto com muito moralismo, achando que proibindo o consumo é que vamos resolver os problemas. Países estrangeiros têm experimentado programas mais flexíveis, abrindo salas de uso seguro, descriminalizando e legalizando; eles aprenderam que a guerras às drogas custa muito caro para os cofres públicos e não diminui o consumo. Saber onde investir é primordial para lidar com o problema e não “acabar” com ele.

Ao falar de mim, eu me liberto e venço preconceitos

Fiquei muito surpreso depois da publicação do vídeo onde eu contava toda essa história que acabei de trazer pra vocês.

Na minha timeline no Facebook, muita gente que não fazia ideia disso tudo, veio me parabenizar pela coragem e muitos mudaram, minimamente, sua ótica na questão do consumo de drogas.

Na minha família mesmo, aconteceu que eles começaram a acreditar que eu estava retomando o controle da situação, voltando as atividades sociais responsavelmente.

Foi muito lindo também ver o interesse da minha universidade pelo assunto, após eu ter compartilhado o vídeo com colegas da sala de aula. E o olhar mais humano e menos estereotipado da droga que eles passaram a nutrir depois que aprofundamos o debate.

Pra mim o que fica de toda essa experiência é que precisamos falar abertamente sobre o uso de drogas e derrubar os falsos mitos, pois só assim iremos entender que a droga não é boa ou má em si mesma. Depende, sempre, da relação que se estabelece com ela. E, como mostra a História, as pessoas usaram, usam e seguirão usando drogas. Não é possível dizer que a humanidade viverá sem drogas algum dia, já que elas fazem parte de nossa história.

Porém, por questões econômicas e morais, algumas drogas tornaram-se ilegais.

Hoje temos uma política de droga repressiva que pretende fazer com que o uso acabe. Ora, não faltam estudos mostrando que essa política fracassou e que essa política militarizada com base no proibicionismo, só aumentou a violência, fez novas substâncias mais potentes surgirem e legitimou estigmas e exclusão social.

Muita gente me questionou: mas você se expôs muito. Poderia ter perdido o emprego, ter gerado mais preconceito dentro da sua família e círculo de amigos. Por que você fez isso afinal? Valeu a pena?

Eu respondo que não estou aqui por acaso. Hoje, eu cuido de pessoas que fazem uso problemático da droga, e toda essa minha trajetória, que me trouxe a esse lugar também não foi por acaso. Dividir essa história com milhares de pessoas através desse vídeo também não. Saio desse episódio da minha vida ainda maior do que entrei e com a confiança de que um dia a “guerra às drogas” acabará e a política de drogas será uma política ligada e comprometida na defesa dos Direitos Humanos, da saúde e do fim da injustiça social.


Linaldo Fernandes é redutor de danos e hoje faz uso controlado de crack. Acredita que a luta por uma nova política de drogas deve ser debatida com a sociedade civil e com os próprios usuários, que são os mais afetado pelo proibicionismo. É a favor de uma educação para autonomia em drogas, assim como da regulamentação de todas as substâncias arbitrariamente tornadas ilegais. Lutar por uma política de drogas inclusiva, humana e pautada numa abordagem com uma perspectiva de saúde e não no sistema criminal é lutar pela legalização e descriminalização do uso.

¹ ² VALLIM, D. C.. Os passos dos indesejáveis: Um estudo do contexto sociocultural do uso e usuários de crack nas cidades do Rio de Janeiro e Nova Iorque. 2015. 222 f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) — Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

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