Aldo Lammel, CC BY-NC

Introdução do Diário

Dias, semanas, meses. As vezes não consigo concordar comigo se foi rápido ou se o tempo rolou devagar; a certeza que paira comigo é a de não ter mais do que três dias para me despedir de tudo e de todos que amo, que quero pra mim. Três dias. Aqui dentro pulsa a vontade de ter cada segundo bem degustado, de não necessariamente abraçar alguém, mas de estar na presença de um bom amigo, de sentir que farei falta, de deixar evidente de que ele me fará falta. Um longo caminho que tem de valer a pena por todas as decisões que tomei nos últimos 17 meses de Brasil, decisões de um cara que a muito tempo sonhava em ter sua própria aventura, seja ela qual fosse, mas algo grande.

— Bom dia, mãe — digo, me aproximando dela na cozinha e lhe entregando um beijo na têmpora direita.

— Oi, meu amado — responde DeJota.

Abro a porta da cozinha conectada ao corredor externo da casa onde cresci e começo a me alongar; minhas mãos têm as palmas formigando esta manhã. Abro e fecho o punho algumas vezes. O Céu está gris, o sol ora vence as pesadas nuvens, pintando as coisas de amarelo, mas ora desaparece, fazendo do dia azulado opaco. Eu até poderia trazer metáforas sobre como me sinto próximo da véspera de deixar todos para trás por alguns anos, outros talvez pra sempre, contudo me tenho bem, apenas esta vontade de correr que chegara mais cedo hoje e me trouxera aqui pra fora. Coloco o óculos de sol, desço o único lance de escadas na frente da aconchegante casa de tijolos à vista, abro o pequeno portão metálico no nível da rua B38 e ponho os fo_ _ _

— Filho!

Me viro com os fones de ouvido quase dentro das orelhas, fitando a DeJota se aproximar do topo da escada de azulejo-cinza-claro.

— Não quer antes tomar café?

Já fazem alguns meses que estou vivendo na casa da minha mãe; este período antes da viagem é importante para ela, é bom pra nós. Dos poucos meses aqui, nesta última semana procurei ser o melhor filho possível, estar mais próximo dela do que estive nos últimos dez anos.

— Depois, mãe — digo, piscando à ela.

Ponho os fones e então começo a correr, esperando que o sol vença a chuva de verão iminente.

Mesmo com todas as transformações que me presenteei nos últimos anos, chegando aos 30 com planos bem definidos sobre o que quero, por mais que você e eu quiséssemos, nunca seremos capazes de ler o futuro e conferir se foram boas escolhas. Ainda assim, de uma forma muito misteriosa, meu coração está tomado pela convicção de que viajar por um longo tempo será o maior de todos os investimentos que eu poderia apostar. Abrindo o livro dos truques e aprendendo como a viagem no tempo funciona, estendo minha mão à você. Cale a boca e apenas a pegue. Num salto do calendário, vemos eu, sujo e sozinho nos desertos do Oriente Médio, dirigindo acima dos 150 quilômetros por hora com os Alpes austríacos ao lado, pedalando acima dos quatro mil metros no inverno boliviano e eu sentado dentro da barraca assistindo as ondas do Pacífico chocarem-se contra as pedras conforme choro de saudade. Nós veríamos minhas paixões de estrada com inúmeras bocetas, mulheres de idiomas tão diferentes, mas que independente da quantidade de mímicas e de palavras mal pronunciadas, haveriam sorrisos por todos os lados quando "Brasil" fosse gritado, veríamos um Aldo perdidamente apaixonado e se reavaliando como homem. Despedidas, reencontros, brigas, amizades, exageros, tédio, aventuras; perdas, ganhos, paisagens urbanas, lugares bucólicos. Enxergaríamos as mais profundas diferenças de cultura e assistiríamos você e eu revendo nossos conceitos de certo e errado… Doce, excessivamente mágico, eu sei, entretanto entenda que se eu pudesse espirar a porra do que há do outro lado desse maldito muro que não me deixa ver o futuro, eu te venderia a receita do que fazer pra viver plenamente seus sonhos, contudo não há um livro mágico, tampouco eu acredito em passo a passo. Tudo que posso te vender são fotografias do que vi, vídeos do que tentei e minhas anotações sobre como foi sentir durante o que estou preste a iniciar.

Sim, hoje é o presente, o meu agora e eu ainda não pisei na estrada! O que posso te prometer é que serei franco contigo e vou te mostrar sem censuras a essência de quem sou hoje e exatamente o quê me trouxe até a véspera do que acredito que será a grande aventura de uma vida. Conforme eu corro, você só tem de prestar atenção.

Capítulo Um — Passado

Nasci numa tarde de outono de 1984 e no tédio de uma vida sem irmãos no interior do sul do Brasil, aos oito anos de idade, eu gostava de pôr a mochila nas costas, subir na pequena BMX e pedalar pelas estradas de chão batido de uma cidadezinha do Rio Grande do Sul. Cercas puladas, campos verdes vazios, era eu empurrando a bici, passando por debaixo das torres de alta-tensão a brincar de explorar, mesmo que fossem aventuras esporádicas e com horário definido para estar de volta em casa. Ainda assim eu passava boas horas desaparecido, cruzando brejos, barrancos, pequenos matagais, não importava nada além da boa sensação se ser valente. Lá eu ia com a mochila da escola onde eu levava a faca de escoteiro, serrote e um metro e meio de elástico ou borracha cortada de alguma câmera de bicicleta. Como eu gostava de sair a buscar o galho perfeito, subir em sua árvore, cortá-lo, descascá-lo e construir um novo arco e flecha cada vez mais resistente e potente que a versão do mês anterior. Eu poderia te escrever que a aventura era mais importante do que o galho em si, contudo encontrar a árvore ou arbusto adequado era extraordinário para mim… me arrancava satisfação por absoluto. As vezes eu só queria fazer um estilingue, entretanto haviam dias que eu não queria nada além de estar longe dos adultos, com um ou dois amigos de aventura e tagarelando as coisas mais importantes da vida como quantas figurinhas nos faltavam para completar um álbum. Naquelas façanhas nas áreas sem ninguém, as vezes eu tinha minha térmica com achocolatado e uma sacolinha plástica de mercado com pedaços de bolo de milho que a DeJota pusera na mochila com a condição de “não me pisar” e não distanciar-me tanto quanto ela sabia que eu gostaria. Distante o suficiente dos ninhos das formigas-de-fogo, ao pasto, eu folhava meus álbuns de figurinha como o da goma de mascar Ping Pong com suas gravuras de lugares bonitos pelo mundo, gravuras que me prometiam que tais paisagens realmente existiam. “Olha isso”, eu dizia aos outros comigo ou até mesmo sozinho com a bicicleta jogada ao lado.

Os anos passaram e o que eram álbuns de figurinhas de chiclete ou cartões retangulares de dinossauros vindos nos chocolates Surpresa, se tornou um fascínio por enciclopédias ilustradas que me rendeu muita imaginação deitado sobre o tapete persa diante da lareira de casa ou na modesta biblioteca da escola, transcrevendo histórias que os professores pediam no tempo onde computadores ainda não eram realidade e fazer qualquer tipo de cópia "moderna" em mimeógrafo ou copiadoras Xerox era estritamente proibido. Eu abria o pesado livro sobre as mesas de 10 lugares da biblioteca, buscava a página dita pelo professor e então copiava à mão tudo o que ele havia solicitado conforme, na verdade, eram nas ilustrações de homens explorando fendas profundas no gelo que me tinham em pura imaginação. Ler o texto era a parte chata de tudo aquilo, mas a sedução da aventura, antes ilustrada com gravuras de lugares do planeta, deu lugar as fotografias de mulheres peladas nas paredes do meu quarto, internet discada madrugadas adentro e meu primeiro amor de adolescência. Era amor? Sei lá, eu só queria transar até eu sentir ciúmes pela primeira vez. É, eu gostava daquela garota. O conceito de travessura, de aventura, estava ganhando novas formas e eu já não via qualquer graça do que não estava acessível de dentro do meu próprio quarto. Um longo período de isolamento daria início na minha história e que de uma forma muito bizarra, desenhou meu lado analítico sobre tudo e me introduziu por mundos que não eram do interesse das pessoas a minha volta naquela época. Pelo menos eu pensava assim.

Entrei no segundo milênio repetindo na escola pela segunda vez, encorajando a DeJota a me trocar da sofisticada escola particular da cidade vizinha para a surrada escola pública do nosso bairro em Charqueadas. Ali se desencadeou um profundo desacordo entre o que eu queria fazer e o que o mundo exigira formalmente de mim. O meu desejo era criar coisas, experimentar coisas, ver que o homem era capaz de viajar por dentro de uma rachadura no Ártico e aquilo, de forma misteriosa, me estimular a ir buscar minhas próprias aventuras, como eu fazia ao buscar galhos e que nunca tivera algum significado antes. Entretanto o mundo passara a me pedir aptidão em Álgebra e Ligações Covalentes que eu encontrava nos livros, o que, naquele instante, já não eram mais a realidade para o Aldo que tinha há anos um computador de mesa no seu quarto. Uau, eu me achava tão superior… Para aquele Aldo, nada fazia o menor sentido e a escola que antes era divertida, já não tinha qualquer propósito que me parecesse lógico.

No ano seguinte, em 2000, estreando na turma da escola do bairro e prestes a completar 16 anos, conheci aquele primeiro amor. Na sala, a Danusa sentava bem à frente, boas notas, tímida, o que contrastava comigo sentado ao fundo, com notas bimestrais medíocres e de comportamento expansivo. Por qualquer motivo, ela pediu para sua amiga perguntar-me se eu ficaria com ela. Dali, aquela garota de 14 anos se tornaria o cerne de toda minha juventude. Um ano depois, gastando incalculáveis horas modificando jogos eletrônicos apenas por diversão e aprendendo autonomamente a construir sistemas na internet, em 2001 o computador já era parte fundamental da minha vida, nele o mundo se abrira exatamente no formato que me interessava: dinâmico e sem limites. De um jeito totalmente novo e as vezes a única forma de ter uma experiência, na internet eu encontrava músicas feitas por jovens que viviam na Europa, conversava com alguém que pensava igual a mim, porém vivia na outra ponta do Brasil; eu podia baixar videoclipes de bandas que não tocavam na MTV e ainda ficar toda a madrugada conversando com o Titi, Adrio e o Bule que, volta e meia, corriam até minha casa para pegar alguma coisa no meu quarto e voltar em disparada para suas casas, a poucos metros da minha. Lá estava nós quatro, sendo os heróis, os mocinhos e os revolucionários no mundo virtual. Como era divertido… Caralho.

Adrio está online.
Titi disse: Finalmente esse pica-seca entrou.
Bule disse: heheheh
Adrio disse: Calma poh… aki em casa soh posso conectar depois da meia-noite, seus playboy.
Aldo disse: Aeeeeeee. Partiu jogar Half-life? Eu crio o server.
Titi disse: demorôôô! Depois o Aldo abre a webcam e toca uma batera ai pra nós.

A vida resumia-se àquela máquina, uma bateria gigantesca, meus CD’s e a garota mais bonita da sala de aula deitada na cama ao lado, lendo J. R. R. Tolkien. Apesar daquele tempo eu vestir somente preto, usar brincos, matar aula e murchar pneus dos carros de vizinhos que reclamassem do barulho ensurdecedor da bateria, eu era um bom garoto. Eu vivia a época mais importante de qualquer um e lamentavelmente, mesmo com todos os esforços da minha mãe, uma figura paterna me fazia uma enorme falta. Intrinsecamente, haviam coisas que eu me sentiria mais confortável em conversar com meu pai ou pelo menos reparar em como ele resolveria as situações, independente do que fosse. Eu passava por um momento onde o isolamento me parecia a coisa mais sensata em um mundo cada vez mais desinteressante na cidadezinha onde eu vivia. Eu no quarto a maior parte do tempo embora muitos jovens da cidadezinha me conhecessem por outras atividades nem tanto de moleque assim.

Antes dos meus 18 anos, eu já sabia ganhar algum dinheirinho fazendo o que eu gostava e nos horários que me convinham. Minha banda não recebia para tocar nos bares ou festivais da região, tudo girava em torno das cervejas grátis e das meninas que vinham conversar com a gente depois de tocar Foo Fighters e Pearl Jam. Eu não bebia e já tinha minha namorada, todo meu interesse (e que era motivo de piada aos meninos da banda, garotos quatro ou cinco anos mais velhos que eu) era encontrar pessoas que precisavam de páginas na internet ou que pudesse me indicar algum proprietário de Lan Houses. As vezes, quando eu não tinha dinheiro vendendo websites ou modificando ilegalmente jogos de computador para inserir marcas de estabelecimentos comerciais reais, eu criava pequenas Lan Parties em galpões emprestados, colocando outros jovens igualmente entediados ou curiosos para usarem seus computadores ligados a outros computadores por três dias inteiros sob a condição de que cada participante tinha de levar seu próprio computador e me pagar 25 reais. Todo o trabalho de instalar e configuração da infraestrutura eu deixava para a molecada que fazia isto apenas por diversão. Com dinheiro nas mãos, eu gastava todo meu lucro com internet e quinquilharias que eu encontrava nela, num tempo onde a popularização do celular no Brasil estava dando os primeiros passos. Se eu e meus amigos já tinham celular? Talvez nossos pais, nós não.

— Alô — dizia a DeJota ao atender o telefone fixo na cozinha de casa.

Tia, posso falá com o Aldo?

— Claro, querido, liga pro número do quarto dele. Anota ai…

O quarto em 2002, eu aos 17 anos (Aldo Lammel, Todos os direitos reservados)

Por fim, concluí os estudos fundamentais e no carnaval de 2005 iniciei minha tão desejada carreira numa empresa de internet. Sozinho, sem dinheiro ou experiência profissional, retornei oficialmente para a capital gaúcha, cidade onde eu nascera 21 outonos antes. Eu estava feliz. Muito feliz. De lá, participando do mercado de trabalho local, fui cercado por novas referências. “Nossa, é assim que funciona”, pensava eu, deslumbrado ao ver meu chefe trabalhar, compreendendo como as etapas de design nasciam e se desenvolviam ao longo dos projetos de internet. “Ok, acho que faz algum sentido”, eu conversava comigo, observando as relações interpessoais de gente de diferentes áreas. Conheci muitos novos códigos, mas não os de computadores ou dos celulares que vinham se popularizando freneticamente, eu me refiro aos códigos comportamentais. Na capital havia todos os tipos de pessoas, gente tão diferente do que eu costumava ver em Charqueadas que eu reparava deslumbrado como os executivos se vestiam, como os rapazes da minha idade se comportavam, o que gostavam de fazer e o que dizer exatamente ao entrar em uma sala de reuniões tomado por pessoas que eu nunca havia visto na vida. Eu não concordava com tudo que via, porém as novas referências me acertavam de todos os lados e muito rápido fui absorvendo o que eu via e gostava. Minhas roupas que antes eram qualquer coisa negra, passaram a ter cores, cortes bonitos e texturas desamarrotadas. Meus brincos já não existiam mais e eu, apesar de ainda querer que o trabalho termine para correr pra casa, não era mais tão má ideia sair para beber algo com os meninos da empresa. Cerveja também não era algo tão ruim assim. Sim, eu estava amadurecendo, alguns valores ganhando novos pontos de vista e responsabilidades que antes não existiam dali por diante não mais me abandonariam.

— Pode me pagar o aluguel amanhã bem cedo? — me perguntava a senhora dona da pocilga onde eu vivia.

Vivendo no quarto de hospedes alugado no sujo apartamento de uma família qualquer, eu não tinha planos específicos a largo prazo. Certo dia entrei no meu quarto e senti como se eu cruzasse uma parede invisível de teias de aranha. Não eram teias, eram pulgas as centenas. Me banhei com álcool de cozinha e prometi para mim que sairia daquele lugar. Com a ida a Porto Alegre, tratei o ingresso à universidade com desdém, me jogando entusiasmado de cabeça no mundo dos projetos de comunicação web, assumindo clandestinamente funções nos projetos que eu deveria deixar a outros profissionais; uma postura irresponsável, mas igualmente importante na minha personalidade. Era um sinal de que eu queria pensar, desenvolver e assinar meus trabalhos. Um comportamento embrionário que anos mais tarde se tornaria a chave para muitas decisões.

Três anos após chegar a Porto Alegre, em 2008 eu me tornara líder de projetos da maior agência de internet do sul do Brasil, um feito considerável para quem não era graduado e não falava outros idiomas. Eu havia batido no teto das minhas possibilidades auto-de-data. A minha volta as pessoas beiravam a excelência, meu gerente-funcional tinha um tempo de respostas a problemas assombrosamente rápido; meu diretor era dono de um carisma paterno comigo; e o presidente da empresa, bem… Ele personificava o sucesso: rico, quarenta e poucos anos, com uma bela família, disputava maratonas por todo o mundo, visivelmente de bem com a vida embora eu já conservasse a ideia de que imagem vendida não necessariamente fosse a fotografia da realidade. Mas aquele cara era o cara. Estava mais do que nítido que eu não poderia mais postergar a universidade e assim, aos 24 anos, ingressei na faculdade de comunicação, passando pela metamorfose cativante que uma universidade lhe transmite quando você quer estar lá para ganhar e não para perder. No meu primeiro sucesso profissional, financiei um pequeno apartamento porém no meu bairro preferido da capital, o Mont Serrat, um lugar verde, calmo e ainda assim próximo da avenida onde as maiores empresas de tecnologia estão em Porto Alegre, a Av. Carlos Gomes. O apartamento, mesmo que antigo, era perfeito: uma academia, farmácia, banco, um posto de gasolina com lojinha 24 horas e um supermercado, tudo a uma quadra de casa. A Danusa, minha namorada de tantos anos, dava saltos de alegria com as novas conquistas do seu namorado e ela e minha mãe me apoiavam em tudo.

Meus conhecimentos em gestão davam um salto exponencial, os clientes eram cada vez mais estratégicos e a equipe de profissionais que atuava comigo crescia junto. A Danusa e eu não nos víamos tanto, esbarrando algumas vezes na semana pelos corredores da faculdade ou nas noites que ela dormia no meu apartamento. No passado, a única coisa que nos fazia discutir eram minhas crises de ciúmes que resultavam eu saindo na porrada com os meninos da escola, todavia naquele momento, anos mais tarde, a Danusa e eu nos alfinetávamos quando o tema era o apartamento. Dois anos após a compra, eu ainda vivia sozinho e eu nem sequer mobiliara os ambientes. Por mais que eu tentasse transformar o apartamento no meu quarto de adolescente, pouco a pouco a Danusa se fazia presente, enchendo os cômodos com suas roupas e calçados, mesmo que eu jamais a pedira para viver comigo. Ironicamente, o nosso distanciamento aumentava, eu mal via meus amigos e o meu trabalho tinha todo o meu cuidado.

Voar a São Paulo era realidade e eu estava empolgado no início. Desenvolver projetos para marcas como BMW e Reebok ao longo da semana me faziam importante para mim mesmo, era como se a distância imaginária entre eu e meus chefes fossem reduzindo progressivamente a medida que eu experimentava novas habilidades e situações. Nesta época, no último trimestre de 2009, eu vivia na capital paulista pela semana e retornava a capital gaúcha nos finais de semana. De dentro dos quartos confortáveis do Mercury na zona sul de São Paulo, com as cortinas do hotel entreabertas deixando-me ver a cidade cosmopolita movimentando-se a noite, eu conversava muito comigo sobre o rumo que as coisas vinham tomando. Eram noites longas, melancólicas, reflexivas, como se eu estivesse deitado no chão e ao centro do meu antigo quarto, fitando as pás do ventilador de teto girarem devagar, questionando-me quando eu sairia de Charqueadas para viver de na capital. No fundo, a vida de construir projetos para os outros não era tão empolgante quanto aquelas tardes buscando galhos de maricá para cortar e fazer arco-e-flecha pra mim. No final das contas, independente de quanto sangue eu dava aos projetos ou de quanto significado eu estava tentando ver nas minhas atitudes de criança, naquele momento da minha vida eu ainda não tinha um trabalho que fosse meu, era sempre de todo um time de profissionais. Ao mesmo tempo que ficava feliz com os bons resultados que justificariam um aumento salarial, uma parte de mim dizia que bom mesmo seria o reconhecimento por ter feito algo único. No reflexo da vidraça no quarto do Mercury, eu me via sedentário e sem perspectiva de um futuro otimista aos meus sonhos. Aliás, que sonhos? Concordando ou não, eu vivia uma bolha, uma zona totalmente confortável que eu não imaginava que estava prestes a estourar.

— Aldo, tem um momentinho? — perguntou uma voz feminina vinda por trás de mim e do arquiteto de informação que discutira sobre alguns layouts para aprovar com a GM de Chicago.

Me virando para trás e percebendo a moça do RH a qual nunca me procurava nos dois anos de empresa, dei toda minha atenção à ela, a acompanhando até uma das salas de reuniões. De dentro do aquário e diante de uma pequena mesa arredondada de pedra cinza, recebi a inacreditável notícia de que eu não fazia mais parte da empresa. Uma carta de recomendação assinada pelo presidente da empresa me foi dada, assim como alguns contatos de escritórios que poderiam ter interesse em me ter como profissional. Meu mundo desabou, não era por questões de mudança, era por eu ter sido demitido da empresa que lutei tanto para fazer parte. Assim quando repeti de ano letivo nos tempos de escola, a demissão foi um tremendo tapa na cara, uma rejeição como nenhuma outra, algo que eu sabia que teria de lidar o mais rápido possível. Por mais que a pergunta “qual o motivo” me viesse, eu era incapaz de tocar no assunto com qualquer pessoa, um medo aterrorizante de me ver como incompetente, me açoitava o lombo. A vergonha era tanta que escondi a situação até das pessoas mais próximas e que sem dúvida me apoiariam a vencê-la. Todos os dias em que eu acordava na presença da Danusa, eu pegava a mochila e simulava a ida ao escritório, enquanto, na verdade, eu me sentava no café de um shopping e buscava me recolocar no mercado.

Pouco mais de 30 dias depois, em meados de 2010, com a carta de recomendação em mãos, o maior grupo de comunicação do país tinha na sua filial gaúcha uma executiva montando uma unidade de internet. “Pessoas dariam um braço para estar aqui”, foi a frase que mais escutei pelos corredores da mega empresa sediada a poucos quilômetros do meu apartamento. Uma companhia com o faturamento estratosférico mas que não dispunha de uma cultura a qual eu era especialista: internet. Embora o novo trabalho pagasse as prestações do meu apartamento, me vi tão desconfortável em estar longe da vanguarda do mercado web, sem pôr a mão no design dos produtos, nos códigos, no planejamento e meus pés na faculdade, seis meses depois, sucumbi a infelicidade e pedi demissão para começar do zero em uma empresa menor, mas onde eu pudesse ter tempo para pensar no que eu faria dali por diante. Com problemas financeiros, longe das cadeiras da universidade, voltei ao mercado onde eu queria estar e o novo ano que chegara prometia ser modesto porém de um novo começo. Eu não poderia estar mais certo, embora eu não soubesse ainda que eu enfrentaria o momento mais traumático da minha vida, fazendo-me encarar frente a frente meus demônios mais internos.

Era inverno de 2011, eu tinha recém completado 27 anos. Sentado à mesa do novo escritório, li o cabeçalho do e-mail. Meus olhos arregalaram-se, o taquicardia me veio tão forte quanto eu sou capaz de descrever. O sentia na garganta junto de um aperto agudo no estômago e mãos trêmulas. Levei o laptop para uma sala mais reservada, tranquei a porta e abri a mensagem o mais rápido que pude.

Aldo,
(…) me apaixonei por outro homem. (…) Eu não quis isso (…) realmente eu sinto muito, não tive a coragem necessária para te dizer olhando nos olhos (…), só não me procure mais.
Danusa.

Meu corpo tremeleava descompassado, meus pulmões cheios de ar, pediam mais ar até que eu passei a hiperventilar. Nada, em nenhum momento da minha vida, fizera meu corpo reagir próximo do que foi aquela experiência em junho de 2011 diante do computador portátil. Foram 11 anos de relação, nunca havíamos nos separado… E a melhor alternativa que ela encontrou foi me enviar um e-mail covarde, cruelmente objetivo como se tivesse sido fácil te-lo escrito, arrancando de mim o pouco de ego que me havia sobrado das batalhas profissionais perdidas nos últimos meses. Era eu em choque, fitando a tela do laptop no mais absoluto terror. Como já dizia a piada teatral de Joseph Klimber, “a vida é uma caixinha de surpresas” e desde o primeiro dia depois daquele voleio na cara, como mecanismo de defesa à mais outra rejeição, tive a minha ignição, a fagulha que acendeu de uma só vez todo meu potencial para ser o que eu queria ser, não mais perdendo tempo idealizando o caralho a quatro e sim usando meu tempo para fazer meus sonhos acontecerem, seja lá o quanto doeria. Antes de estar triste, era a fúria que me tinha como um todo. E tão atroz eram meus pensamentos, minha boca não pronunciava uma só palavra. Irônico o que vou te dizer, mas foi de um soco na boca que me arrancou os dentes que eu me dei por conta que o bom dessa vida é ter motivos para sorrir. E meu camarada, amigo e confidente, como os próximos anos da minha vida foram lindos para mim.

Correndo pelo acostamento da perimetral oeste do bairro da DeJota, já posso ver a ciclovia costeando a ERS-401 onde outras pessoas aproveitam a manhã ainda sem chuva para se exercitar. Troco a música no iPod por algo mais energético agora que já estou aquecido e continuo a correr à passadas curtas e rápidas.

Capítulo Dois — Ignição

E-mails, peças de roupas, amigos virtuais, computador, fotografias, vídeos e telefones vinculados a Danusa ou sua família em minha agenda. Qualquer coisa que me lembrasse aquela garota ou meu vício em computador, eu joguei no lixo ou encaixotei e despachei para a casa da minha mãe. O carro e o computador, vendi por preços irrisórios, entretanto já não me assombravam e no final da primeira semana naquela nova fase, eu me livrara de tudo. Meu apartamento era uma caixa de paredes brancas com móveis — os poucos que existiam — vazios. Comprei tinta e pintei as paredes com outras cores. Pronto. Alguns dias passaram, no trabalho eu entrava em estado catatônico e esporadicamente me dirigia ao banheiro para apertar a toalha de algodão o mais forte possível contra meu rosto. Eu estava destruído e tinha vergonha demais de tocar no assunto com qualquer pessoa além do Titi e da DeJota. Independente do apoio, minha tolerância com o alto-flagelo se esgotou quando, ao chegar em casa numa sexta-feira, o som de salto-alto subindo as escadas de granito que ligavam o terceiro ao quarto andar do edifício, me fez encarar a porta do meu apartamento pelo lado de dentro, acreditando que o farfalhar das chaves sendo retiradas da bolsa viria e, em seguida, a porta se abriria, o que nunca aconteceu e foi o suficiente para me fazer cair sentado mediocremente no canto da sala pintada de areia-salmão e voltar a chorar como uma criança muda abraçada em suas próprias pernas. Na segunda-feira da segunda semana, eu estava matriculado na academia próxima de casa, paguei adiantado por um ano de treinos e, puxando todo o peso que eu podia, comecei uma busca por dor física e o esgotamento muscular que me ajudasse a voltar a dormir, um approach que me ajudaria com a alto-estima e, de quebra, com a minha saúde que estava jogada comigo na lama. Pelo menos isso tudo era a teoria, exceto a parte da lama que era toda a minha realidade.

— Não calor demais para usar capuz, guerreiro? — questionou-me um rapaz subindo na esteira ergométrica ao lado da que eu usava no momento.

“Guerreiro”, pensara eu, me sentindo forte por uma fração de segundo e me perguntando como alguém podia gostar de imitar um rato na esteira.

— Pois é… — respondi, irritado por não conseguir correr mais de um minuto seguido a oito quilômetros por hora na maldita máquina.

Cara — exclamou o rapaz um pouco mais jovem que eu e de traços atlético — , não curto correr sozinho a noite, mas correr na esteira o tempo passa devagar demais…

Assim começou minha primeira amizade de um novo ciclo, longe dos computadores, longe dos assuntos de trabalho, longe de qualquer coisa que me lembrasse o passado recente. A partir daquele dia, por mais ridículo que possa parecer, novos personagens foram surgindo no meu mundo, um atrás do outro a medida que eu me deixava ser visto e buscava interações gratuitas, sem qualquer real interesse além de um bate-papo que me fizesse aprender a mecânica das relações interpessoais a partir do zero, a partir do nada; afinal de contas, eu sentia que não tinha mais ninguém além de mim mesmo. Pouco tempo depois, eu já corria 12 quilômetros todos os dias, eu nunca imaginaria que seria capaz de fazer isso, assim como nunca — NUNCA — imaginei que eu faria amigos dentro de uma academia. No passado o puro preconceito de que ali era um lugar de gente limitada me cegava e daqui pra frente foi como um tapa de luva. , e o limitado ali era eu em meio a tantos empresários, publicitários já formados, médicos, arquitetos, recepcionistas, professores, desempregados, pessoas comuns, as vezes inspiradoras, as vezes só comuns mesmo, um cosmos longe de ser o de pessoas apenas desinteressantes. Havia de tudo, inclusive gente muito melhor do que eu em qualquer aspecto. Já no terceiro mês lá dentro, eu não tinha qualquer motivo para usar meu moletom marrom com capuz e camuflar de suor os dias em que eu treinava e eventualmente uma lágrima me escapava. As risadas iam surgindo e inclusive meus primeiros “oi” a uma nova menina.

— Não sei… talvez… hm… talvez a gente podia tomar algo amanhã depois do treino.

A garota que secava a nuca diante do armário amadeirado da Fitness Hall na Silva Jardim franziu a testa com um sorriso como se não entendesse o porquê de todo meu nervosismo. Ela apenas disse — Pode ser.

Aquele dia após meu treino, saí da academia e corri por várias quadras pelo bairro, ouvindo Charlie Brown Jr. e sorrindo por ter ouvido um “pode ser”. Ao me dar por conta de toda a empolgação, parei abruptamente e pausei a música. Na esquina da Av. Goethi com a 24 de Outubro respirei fundo e me prometi que não importasse o quão anestesiado eu ficasse com as novas histórias que me viriam, eu sempre deveria me lembrar de como foi importante e revigorante ouvir um simples “pode ser” quando estamos nos reerguendo. Olhando para o Parcão à minha frente eu disse em pensamentos “Ah guria, tu nunca mais vai esquecer de mim! Eu prometo!”

É, parceiro. Na cama com aquela garota semanas depois, ela virou-se para mim e disse com um bonito sorriso no rosto de que não seria nada mal voltarmos a nos ver depois do treino dela naquela mesma noite. Comprei um espelho grande, pus na frente da minha cama. Eu passava por ele sorrindo, forçando meus bíceps, fazendo poses, levantando a camiseta, reparando meu abdome. Meu corpo seria sempre o de um ex-gordo, mas eu estava feliz demais para pormenores. Minhas pernas começavam a ficar fortes e eu, pela primeira vez na vida, menos de oito meses após meu inferno astral, me senti genuinamente um rapaz bonito prestes a completar 28 anos. E os números começaram a jogar ao meu favor. JÁ ESTAVA NA HORA! No trabalho as coisas iam de vento em polpa e com uma negociação de tudo ou nada, meu salário quase dobrou. Naquele ponto, eu não mais vivia para trabalhar, mas de alguma forma, trabalhava para viver bem me tornou um profissional mais objetivo e organizado, transferindo todo meu foco dos projetos de internet para meu projeto pessoal absoluto: me tornar um atleta.

Antes e depois daqueles oito meses (Aldo Lammel, Todos os direitos reservados)

— O que essa Laís tem que eu não tenho?

— Sério mesmo que tu fazendo essa pergunta ridícula? — Fiquei sentado em minha própria cama, mirando o semblante angustiado da Tábata. Então comentei me referindo à ela — Sempre fomos amigos e agora isso?!

Eu nunca poderei contestar que me envolvimento com a Tábata não foi pela assustadora semelhança física com a Danusa, preciso admitir que é uma possibilidade, entretanto estou certo de que ter estado com ela nunca foi uma vingança pelas duas garotas terem sido por muitos anos as melhores amigas uma da outra. Fazia alguns anos que eu não a via, contudo havíamos vivido parte da adolescência juntos e, embora ela sempre tenha sido uma mulher atraente, eu a via como qualquer outro amigo e nada além disso. Já naquele 2012 que ela ressurgira, eu vinha me conhecendo e ainda estava pra fazer merda de verdade, porém a Tábata era uma mulher, seus seios naturais estavam ainda maiores e torneados, o vocabulário da garota um ano mais nova que a Danusa havia ganhado novas palavras. O cheiro da pele dela ao tirar o blazer mexeu com meus hormônios e o sexo naquele mesmo dia aconteceu. Enquanto eu a comia com uma sensação estranha que flertava entre o prazer e o abstrato, a Tábata sem qualquer pudor da nossa história repetiu ao longo dos dias o quão ela me notava no passado, passando a desejar estar comigo assim que soube da notícia. Eu nunca passara por situação parecida; eu sentia que algo estava errado, não por ela e a Danusa terem sido grandes amigas, mas por ela e eu termos sido bons amigos e tomados por pessoas em comum próximas de mais. Mas o sexo, aquilo não era sexo. A gente trepava e por horas. Que bosta!

A Tábata se deitou na cama e começou a chorar em silêncio e eu ali, sem saber o que dizer para remediar as coisas, me arrependendo a cada segundo por ter misturado amizade de longa-data com aventuras. Me limitei a dizer que era nossa última noite para que, dias depois, ansioso, eu estivesse parado na praça de alimentação de um shopping na zona norte de Porto Alegre com minha mochila sobre uma das mesas, buscando meu celular em algum bolso.

— Oi — a voz macia beirando a timidez chegou por minha nuca em meio aos ruídos da movimentada praça de alimentação.

Olhei para trás, por cima dos ombros, e lá estava a garota. Tínhamos alguma intimidade, nos dias anteriores conversamos por horas e mais horas, sobre inúmeros assuntos aleatórios que nos faziam rir. Eu não me reconhecia, mesmo com tantas novidades do último ano, existia alguma ansiedade por estar diante daquela moça.

— Laís?

— Aldo, que bom te conhecer! — e então ela sorriu.

Rosto arredondado e mais alta do que eu imaginava. Realmente eu tinha razão, ela era dona do sorriso mais lindo que eu vira até então. Saímos do shopping, caminhamos por dois quarteirões e encontramos um pedaço de grama dentro do Parque Germânia. O longo cabelo que chegava a cintura, ela pôs para o lado, inclinando-se e sentando sobre minha jaqueta ao chão. Preparando o chimarrão pra gente, eu lhe contava sobre meus hobbies, meus sonhos, a vontade de escrever, de fazer algo autoral e, quem sabe mais pra frente, ter uma família. Contei coisas do tipo àquela garota de 23 anos visivelmente feliz de estar dividindo um chimarrão quentinho numa tarde ensolarada de inverno. Sua voz ainda era tímida, entretanto todas as vezes que sorria, dentro de mim algo me dizia que me apaixonaria.

Seu frouxo, traidor”, sobre meu ombro esquerdo comentou satanás com um copo de cerveja em mãos e vestindo a camiseta dos Raimundos, enquanto, no outro ombro, um anjo peladinho com o pingulim balançando ao vento suspirava feliz “Ai, o amor”.

Do lado dela, com a ajuda das minhas mãos, me ergui um pouco e me aproximei sem falar absolutamente nada. Um certo terror havia na minha alma, mas eu tinha de fazer. A garota entendeu o que aconteceria quando gentilmente tirei o chimarrão de suas mãos. Ela se enrijeceu, quase que assustada, porém eu ainda assim a beijei. De todas as decisões que tomei ou gostaria de ter tomado em minha vida, aquela foi a mais fácil, agradável e tão… tão sincera. Mais ou menos 30 dias depois, depois de estarmos saindo com regularidade e me divertindo com ela quase como um menino bobo, dei um passo que eu estava convicto a dar.

— Não me importa o que você vai achar disso — disse eu com um sorriso desenhado em meu rosto de orelha a orelha, provavelmente meus olhos brilhavam e oscilavam como vaga-lumes — , você é minha namorada e não há nada que tu possas fazer pra reverter isto!

Mesmo com todo meu medo da rejeição no passado, eu já havia caído de tão alto que quando eu ouvia um não, eu cumprimentava a pessoa, poderia até mesmo dar um abraço amistoso e sair de perto, lamentando, claro, mas sem medo de que eu havia feito algo errado. Eu passei a ver tudo como complexo demais para ser classificado como bom ou mal, certo ou errado, esquerda ou direita. Tudo apontava para mim que um ponto central era a chave, um equilíbrio, mas não o equilíbrio místico e sim um equilíbrio tão tangível quanto uma balança que sustenta em um dos lados um quilo de aço e no outro um quilo de algodão. Por mais que a densidade e o volume das coisas sejam infinitamente diferentes, um quilo será sempre um quilo e a balança estará sempre centralizada. Se tratando do nosso bem-estar, essa filosofia é prático e previsível se observado com atenção. No fundo, eu sabia que a Laís iria gostar e eu estava certo. A garota de salto-alto, naquele momento ligeiramente mais alta que eu, me abraçou com força, entrelaçando seus braços no meu pescoço, me beijando bem lento e por um bom tempo.

A Laís era uma mulher tímida, reservada, mas essencialmente curiosa. Vivendo um momento muito especial da minha solteirice, o assunto cama era o que eu tinha de mais sincero para dividir com ela naquele estágio, eu até gostaria de dizer que o assunto era secundário, mas não. Eu me sentia sub utilizado por ela, na tentativa de tornar nosso momento bom, eu a manejava, porém não havia fluidez, parecia tudo coreografado, previsível. Pensei na época “não vai dar certo”, desanimando, crendo que eu estaria fadado a seguir apostando em ficar só e aprender mais sobre mim mesmo, coisas do tipo, porém a relação deu muito certo e corroboraria para eu, de fato, estar vivendo algo muito especial com uma garota que tinha o dom de transmitir-me segurança e de me mostrar como era possível tratar qualquer aspecto da vida com responsabilidade, leveza e carinho inato. Eu precisava fazer a relação dar certo de qualquer modo. Voltei a pensar, lembrei de como eu amadurecera no ano anterior e, sinceramente, estava mais do que evidente que era eu quem tinha sorte de estar vivendo ao lado dela, eu só tinha de amá-la sem esperar que seríamos perfeitos.

Gordo — ela me chamava — , teu apartamento é um Big Brother, sabia?

— É, porquê?

— Como por quê? — questionou ela espontaneamente — Estas janelas estão sempre escancaradas e olha lá as pessoas do outro prédio…

— Põe a roupa então…

— Não! Você fica ai desfilando pelado pras tuas vizinhas, vou dar um motivo para teus vizinhos ficarem felizes também, ora!

A gente ria, deitava e rolava. Minha mãe estava completamente apaixonada pela Laís, só não mais do que eu próprio.

Desde que eu desapareci com as fotos e vídeos da minha primeira relação, desapareci com quase toda minha história. Por mais que fotos sejam gatilhos para saborear um momento congelado no tempo, sem qualquer esforço eu via que não tinha passado que não estivesse enraizado a outra pessoa. É difícil de explicar este aspecto do egoísmo, mas eu queria, nem que pelo menos uma parte pequena da minha vida adulta, ter lembranças só minhas, algo que eu pudesse dividir com qualquer pessoa sem receios de estar expondo outra. Eu já tinha 30 anos e não era capaz de ter nenhuma recordação própria para responder a pergunta: dos teus sonhos mais teus, quais você já realizou? Eu poderia estar na academia, no escritório, na cozinha fazendo comida, tomando uma ducha de água fria, tocando bateria, lutando muaythai ou apenas correndo com os fones enfiados nos ouvidos no volume mais alto, definitivamente eu poderia estar fazendo qualquer uma das minhas coisas rotineiras da semana, contudo quando esta pergunta me vinha estava claro que ainda eu tinha um longo caminho pela frente. Mas qual? Qual se eu já tenho tudo que muita gente sonharia pra si? Eu estava me sentido completamente a deriva.

Laís e eu ao centro (Arquivo pessoal, Todos os direitos reservados)

Capítulo Três — Não pegue o azul

Era 26 de agosto de 2013, a data que deu forma a tudo e selava meu destino. Eu, sentado na poltrona do meio, espiava pela janela do passageiro a minha esquerda. A cidade de São Paulo ficando cada vez menor, cada vez mais distante enquanto o Aldo acima das nuvens cinzentas notava o sol brilhante que deixa tudo dourado, me fazendo ficar com os olhos quase fechados ao olhar pra ele. Naquela tarde eu estava mais agitado que o de costume. Na fileira à frente e do outro lado do corretor do 737 que deslizava suave em sua altitude de cruzeiro direção São Paulo-Porto Alegre, ouvi a voz de uma mulher contando a alguém algo sobre fotografias que feitas em uma viagem à Ásia. Forcei-me para frente, procurando manter alguma discrição ao tentar enxergar a dona da voz que vinha das poltronas adiante no outro lado do corredor. Não conseguia enxergá-la, entretanto continuei a ouvir o timbrado tranquilo, sem empolgação, que parecia sorrir, dizendo o quão bonito fora a viagem em meio as monções tailandesa. Um estímulo e teus pensamentos criam todo o resto. De repente, um boom. Algo físico que senti na altura dos olhos, fazendo minha cabeça recuar involuntária. Sentado na poltrona 25B do 737, parecia que a aeronave havia quebrado a velocidade do som, o que era impossível para um avião comercial. Minhas mãos tremiam e eu não conseguia me mexer, sequer explicar para mim o que estava acontecendo. As coisas pela segunda vez em um intervalo de dois anos mudariam abruptamente, porém, daquela vez, seria eu quem tomaria a decisão que afetaria indiscutivelmente a vida de pessoas próximas à mim.

Sou tomado por uma sensação de urgência, um medo descomunal sem qualquer sentido, razão ou lógica, simplesmente parecia que algo abstrato expurgava meu corpo de dentro para fora como se todo o medo que eu deixara de um dia ter, exalasse de uma única vez, tão imediata que o pavor de não saber o que estava acontecendo me vez encolher na poltrona e meu coração disparar. “Calma”, eu me disse por pouco não verbalizando; respirei fundo o mais silencioso possível e repeti o processo algumas vezes. “Calma” e respirava. “Calma” e respirava.

— Que merda eu fazendo da minha vida? — murmurei acidentalmente.

A senhora sentada ao meu lado esquerdo, do lado da janela, iniciou o movimento com a cabeça para fitar-me, como se tivesse ouvido, contudo interrompeu-se e voltou a olhar para a janela como quem diria que não ouviu nada.

Pousamos. Peço perdão e com-licença a todos a medida que eu passava pelos outros passageiros na fila de desembarque. Consegui uma brecha no último lance de pessoas, agradeci a tripulação ao passar pela porta frontal da aeronave e saí à passos largos, me perguntando porque todos tinham de ser tão lentos. Com a mochila cheia de documentos de trabalho, passo por dentro do túnel que conectava o 737 aos saguões do Aeroporto Internacional Salgado Filho e, ligado no 220, eu era capaz de ver qualquer detalhe fora do lugar e me assustar com isso. “Preciso sair daqui”, eu repetia incessantemente. Ainda acelerado, tomei um ônibus e desci no escritório onde a Laís trabalhava e que estava no meio do caminho. Entrei cumprimentando as pessoas superficialmente com um sorriso plástico no rosto, fui até a mesa da minha mulher e, enigmático, a cumprimentei me abaixando até sua mesa e a beijando com um selinho ligeiramente mais longo. Mesmo com a discrição, se foi que existiu aos seus três colegas de loja sentados próximos, aquilo estava tomado de simbolismo que nem eles, nem a própria Laís sabia o que significava. Naquela altura dos fatos, nem mesmo eu sabia, eu só tive a absoluta vontade de ir até lá e beijá-la.

— Oi, amor. tudo bem? — questionou ela com sorriso e olhos arregalados — Me espera um pouquinho que saímos juntos, se queres.

Agradeci o convite, disse que tinha muito trabalho para o final daquela tarde e fui para o escritório o qual eu trabalhava, caminhando. Andei bons quilômetros, sentei à minha mesa na agência, fiz a ata da reunião à diretoria e, uma semana depois, entreguei minha carta de demissão com uma data da primeira semana de setembro de 2013. De volta em casa, desabotoei a camisa, dobrei-a, me sentei a beirada da cama no quarto, larguei a camisa ao meu lado e observei a textura das paredes verde-musgo ao meu redor. “Preciso comprar sabão em pó”, lembrei eu, deixando o que realmente importava vir à tona: “Vai ser difícil pra caralho”, me dizia calado, sabendo qual seria o próximo e mais difícil passo. Me escorei na cabeceira da cama e chorei.

Pôr a mulher que eu amava sentada diante de mim, pegar suas mãos geladas e trêmulas somadas as minhas e dizer olhando em seus olhos assustados que eu a deixaria para apostar num sonho, soou estúpido e inexoravelmente confuso, muito embora não houvesse uma forma mais honesta e digna de se fazer aquilo. Por mais que ao longo dos quase dois anos juntos, tudo que a Laís sabia sobre meus sonhos rodeava a vontade crescente de escrever onde o único ponto que eu guardara só para mim, dizia a respeito de um Aldo desbravando o mundo do jeito dele e necessariamente sozinho como nunca antes havia experimentado. Não estou seguro se ela sabia sobre minhas excentricidades dos tempos de garoto buscando galhos para construir brinquedos de guerra, mas ela sabia que eu havia trocado toda minha adolescência por uma relação e que, eu querendo ou não, perdera muitas experiências do tempo certo para ter outras no tempo errado. Por mais que eu escolhesse cada palavra, ainda era simplesmente cruéis dizer o que eu tinha de dizer. A Laís me abraçou com toda sua força, sussurrou frases atordoadas e combinamos com falsa ingenuidade que permaneceríamos juntos pelos 17 meses que eu teria para construir o projeto e então partir. A gente só disse o que desejava, mas sabíamos que o acordo estava fadado ao fracaço. Poucos meses depois, em fevereiro de 2014, terminamos na nossa primeira discussão calorosa a respeito de pão e café. Pão e café…

— Alô — falou a DeJota ao levantar o telefone do gancho.

— A Laís e eu terminamos, mãe — minha voz saiu firme, eu segurei minha onda o máximo que pude.

— Meu deus, filho! — o tom da voz da DeJota ganhou aflição no outro lado da linha — Quando foi isto?

Ficamos alguns segundos em silêncio ao telefone. Consegui ouvir a longa expiração vinda do outro lado.

Hesitosa, a DeJota perguntou — Tu estás bem?

Tô!

Mais silêncio.

— Aldo, meu filho — a postura dela mudou ao telefone, receio que ela se emocionara, afinal de contas ela era apaixonada pela Laís e sem dúvida não concordava com minha falsa calma em linha — , aceita logo este baque, deixa vir, cara!

— Eu sei o que tenho de fazer — retruquei com ardor e aspereza, já não podia controlar aquilo — , não preciso de sugestões! quero que a partir de hoje tu não toques no nome dela pra mim e não dê explicações para quem quer que seja.

— Aldo — a voz saiu firme como se o sangue germânico dela falasse — Não precisa me pedir isto, eu sempre vou te apoiar, cara!

Silêncio.

— Preciso ir, mãe — dentro de mim eu sabia que a DeJota me confortaria, ela me decodificara ao longo dos anos e sabia como fazer isto e dar o espaço que eu queria ter. Continuei — Tenho que fazer umas coisa e… sei lá, começar a trabalhar no projeto.

— Já tem um nome para ele?

Mochila & Bike… —eu disse, fazendo silêncio antes de dizer que — Foi a Laís quem escolheu o nome… então acho que é um bom nome…

— Faça o que achar melhor e quando quiser, eu estarei aqui— completamente emocionada mas como se estivesse sorrindo lá do outro lado, a dona Dalva Jane Lammel, meramente apelidada ao longo dos anos de DeJota, encerrou dizendo — Fica bem e não esqueça que eu te amo!

Foram longos meses, a sensação de solidão que me pus era atroz. Eu estava sem dinheiro, a DeJota uma vez por semana aparecia no meu apartamento e preparava alguma comida para dois, três dias. Todo meu mundo girava em torno das tarefas para fazer a viagem sair do papel. Na teoria, a Laís habitava a maioria dos meus desejos, mas na prática eu estava transando com garotas da academia, mulheres que eu conhecia durante minhas corridas no Parcão e outra vez com quem não devia. A leitura de enciclopédias e diários de viagem preenchia a monotonia dos dias cada fez menos frequentes aonde nenhuma companhia me ia visitar. Rodeado de bocetas, mapas e dias que pareciam não querer passar, os excessos se acentuavam.

— Abra a boca!

— Quais são os efeitos?

— Só abra a boca, Aldo. Confia em mim… — dissera ela, pondo o comprimido azulado inteiro na minha lingua, fazendo o mesmo com ela logo em seguida.

Os últimos seis meses da minha vida foram os excessos da experimentação e a glória da inconsequência. A Tábata ressurgiu, outra vez, em uma versão enlouquecida daquela mulher de quase dois anos atrás. As drogas as quais a vida toda repudiei e me mantive tão afastado mesmo elas estando ao meu lado, com a Tábata me bancando e o medo de morrer viajando me arrepiando a pele, o Ecstasy e o LSD passaram ser minha companhia nas festas eletrônicas. Sem camisa e com óculos escuros no meio da noite com luzes coloridas que piscavam em frenesi, o som da música vibrava forte em cada fio de cabelo da pele febril. Meu corpo tremia enquanto as mãos a Tábata deslizavam em mim e sua voz me perguntava ao ouvido "Tá sentindo?" Sentir. Tudo girava em sentir. Eu queria sentir-me vivo, sentir que não estava aguardando, sentir que eu ainda tinha algo a descobrir, sentir que vinha descobrindo o mundo se caso tudo desse errado. Tão rápido quantos os efeitos das drogas desaparecem e me trazer angústia e mais medo, tão rápido quanto a Tábata começar a se mostrar extremamente possessiva e paranóica e eu abandonar ela e toda aquela merda, era eu correndo com meus fones de ouvido prestes a começar minha volta ao mundo com as memórias de um 2014 que me foi muito importante.

Sigo correndo pelas ruas de Charqueadas, visitando em flashbacks os últimos 17 meses, um período que eu lhe contarei mais, porém não agora, é muita carga emocional para mim e de informações para ti.

Aldo Lammel, M&B Websérie

O que posso te dizer para concluir meus pensamentos de uma forma menos confusa, é que caçar sonhos se mostrou um exercício contínuo, um processo por geral doloroso de desapego, onde na tentativa de carregarmos todos para dentro dos nossos sonhos, não saímos do lugar. Isto é uma merda e sempre colocará em debate o que é certo ou justo a ser feito. A vida consegue ser profundamente cruel se você insistir em notá-la pelos ângulos equivocados. Tentei ser justo em todas minhas decisões de seguir um sonho, mesmo que egoísta para muitos — muitas vezes para mim mesmo — , contudo nós temos uma única oportunidade, sei que dói porém NÃO EXISTE o depois, NÃO EXISTE mágica e tampouco existe alguém que fará ou viverá por você, nem aqui e nem lá, tudo que você tem, tudo o que eu tenho, são sonhos e uma história que determinará se você e eu somos capazes de nos entendermos por nós mesmos e ir buscar o que é nosso. A vida já vinha a muitos anos estendendo suas duas mãos à mim: em uma de suas palmas ela revelara o comprimido azul; na outra, a pílula vermelha. Escolher a pastilha vermelha me colocaria em um caminho onde apenas a incerteza me faria companheira, uma escolha de caminho tão longo e árduo quanto a trilha azul, porém o caminho vermelho seria de descobertas, ora boas, ora ruins… Ora fundamentalmente solitário, ora profundamente questionador. Já a pastilha azul, eu a tomaria, acordaria em minha cama e acreditaria seja lá no que quero acreditar, a Laís seguiria desfilando semi-nua pelo apartamento, meus amigos seguiriam me encontrando para os churrascos, a DeJota continuaria a preparar bolos de milho e eu trabalharia com o que sempre trabalhei. Fim de história.

Nos braços, sinto pequenos pontos gelados sobre a pele que queima. Desacelero, passo a caminhar e então percebo o chuvisco caindo obliquo à frente e que não lhe falei nada sobre meu pai e algo inacreditável que ocorreu quando eu estava enterrando ele. Mas… Deixe-me respirar um pouco.

E sobre qual cor optar? Vejo que o grande problema do caminho azul é que nele eu nunca saberei se o que vivi serviu para alguma coisa. As gotículas da chuva fina começam a acumular e a escorrer pelo meu rosto. Que cena ridícula pensaria quem me visse usando óculos escuros, caminhando pela ciclovia de Charqueadas. Debaixo das lentes, olhos vermelhos e cheios d’água, mas não do chuvisco. De lágrimas. Não por relembrar meu passado com alguma riqueza de detalhes, e sim por ansiar a despedida da família, adeus tão iminente quanto uma próxima gota de chuva atingindo minha cara. É… A decisão dentro do avião, a demissão dias depois; minha conversa com à Laís e o rompimento. Eu comprando a bicicleta depois de já ter decidido viajar pelo mundo com ela… Quase vendi meu apartamento para financiar uma viagem que, no fundo, não queria nenhum patrocínio dizendo o que eu podia ou não fazer ou dizer. Mas não me desfiz do meu lar, o alugando a um casal de amigos, um dos movimentos mais inteligentes e coerentes que eu poderia ter dado. Entretanto se nas minhas decisões algo foi além do justo, foi ter dito a minha mãe que viveria alguns meses com ela antes da viagem. Minha mãe e minha irmã, todos na mesma casa. É, você leu bem: minha irmã. Nem tudo sobre a minha história eu lhe contei; a Andri foi muito mais do que uma coadjuvante, de certo modo ela foi um dos grandes impactos que mudaram minha forma de ver o meu futuro e foi, de certa forma, meu maior demônio no final de 2013 e por todo o ano de 2014. Dramas à parte, minhas lágrimas sob a chuva quase poética são de pura saudade antecipada dos meus bens, amigos, mas principalmente minha pequena e família. Parece triste, mas você logo entenderá que é muito recente que realmente compreendi que tenho uma família… Eu só quero que essa porra toda de volta ao mundo comece para que eu volte logo para casa.

Me restam três dias…

Capítulo Quatro — Andri

28 de janeiro de 2015.

O tempo está passando rápido, já têm três meses que aluguei meu apartamento a um casal de amigos e, como prometido, vim morar em Charqueadas na casa da DeJota. Faziam dez anos que eu não ficava aqui por mais de quatros dias. No início, admito que fiz isto mais por ela do que por nós, entretanto foi muito bom ver que foi além de estratégico estar aqui, eu precisava do conforto dela, a pressão da partida pesa e a mãe está por perto para me impulsionar com apoio emocional ou somente para fazer um doce de ambrosia. Eu engordei por aqui, sabe, meu caro. Se você um dia vir aqui na casa dela, é sério, não coma ambrosia. Desconfio que ela põe alguma droga que causa dependência pelo doce porque e impossível comer uma taça apenas. Impossível!

Mexendo nas coisas em meu quarto improvisado, ouço a buzina soar lá na rua. É a Kelly, uma amiga que veio me dar um abraço. A convido para entrar e conversamos por algum tempo, falando sobre muitas coisas, inclusive sobre minha partida.

— Tu deves estar super ansioso, ? — pergunta ela deitada na cama do quarto.

— Não, Kellinha. Hoje não — comento sentado na minha cadeira de couro negra que trouxe pra Charqueadas — Ontem foi meio tenso, senti saudade da minha mãe de repente, do nada…

Deitada de bruços e ao revés sobre minha cama, ela pára de mexer no celular e me mira.

— A DeJota vai fazer 72 anos… Passei todo o ano passado pensando que eu estarei viajando por anos e ela aqui, sozinha, vivendo nesse casarão, talvez precisando do único filho pra ajudá-la a limpar as calhas, cortar a grama, empilhar a lenha para o inverno e_ _ _

Tá, né, Aldo?! — a Kelly me interrompe — Tua mãe nem pára em casa, tá sempre viajando com as amigas dela. Até parece que você vai fazer alguma falta aqui.

Fito à Kelly com alguma graça escondida, no fundo agradecimento à ela pela tentativa.

— Vou sentir saudade, sabia? — ela faz a retórica, me encarando através de seus óculos de grau com carinho.

Cerro meus dois olhos com força para a garota como se não soubesse piscar e lhe entrego um sorriso bobo conforme eu volto a mexer na câmera fotográfica e ela em seu celular. Nossas vozes prendem-se em assuntos como véspera e o quão normal a saudade por antecipação poderia ser.

Kelly (Aldo Lammel © Todos os Direitos Reservados)

O som de outro carro surge vindo da frente da casa da minha mãe e na porta da sala já aberta, surge a Cacau. A Camila e eu temos uma relação um pouco além da amizade nestes últimos meses, ela é uma garota que nunca me faz perguntas sobre as outras garotas que surgiam nas fotos comigo nas redes sociais e tampouco fez drama quando me viu numa festa com outra garota na cidade vizinha. Não somos namorados, mas se eu soubesse que a Cacau estava naquele lugar, jamais a colocaria em uma situação tão desconfortável. Me lembro de ter olhado pra ela, ela me abraçado, visto a outra garota e então transformado sua expressão em algo anestesiado, indiferente. Estragou a minha noite apenas de pensar se tivesse sido ao contrário. E ela nunca tocou no assunto, mesmo no dia seguinte ela e eu saindo para beber qualquer coisa e transar no seu carro no estacionamento da biblioteca pública de Charqueadas.

Agora, bem agora, ela vem entrando corredor adentro e não posso perder a oportunidade de ver seu semblante quando perceber que na minha cama há outra garota. Duvido que nos três segundos iniciais ela se dará por conta que é apenas uma boa amiga me visitando e nada além disso.

Sustos de ambas as moças, risadas amarelas delas e uma boa gargalhada sincera me escapa. Minutos depois, a Cacau deixa minhas coisas que estavam em sua casa, se despede da Kelly e confirma comigo que em dois dias iremos a Porto Alegre deixar a bicicleta e todo o equipamento para facilitar as coisas no dia da largada. A Cacau vai embora e a Kelly e eu, no entardece, aproveitamos para sair de carro e apenas dirigir por ai.

— NÃO!

— Que foi? — pergunto eu à Kelly.

— Não, mexe no rádio! Deixa tocar!

— Eu… vou… — digo excessivamente calmo para provocá-la conforme giro o botão no sentido horário — aumentar… o volume…, minha flor!

Soundgarden na canção “Fell On Black Days” (via Youtube)

No carro toca Soundgarden e algumas bandas de Indie Rock que a Kelly e eu gostamos. Enquanto ela dirige noite adentro e me conta sobre algumas de suas questões amorosas, eu deito o banco do carona e me jogo para trás, prestando atenção na lua cheia parcialmente oculta por nuvens pesadas de chuva torrencial que está por vir. A forma com que o brilho da Lua pinta de prateado as nuvens… E este vento gelado me acertando o rosto… Os pensamentos vão longe…

Viro a cabeça à esquerda e lá está a Kelly, bonita, com seus cabelos à californiana. Sua boca mexe e mexe enquanto dirige, ela deve estar me contando alguma de suas histórias de amor que tenta resolver ou algo do tipo. Estou em um mundo paralelo, um mundo oculto do visível e visível exclusivamente dentro dos pensamentos de um Aldo olhando para as nuvens cinza-prateadas lá em cima. Lá longe…

— O que devo fazer? — me questiona ela.

— Faça o que você achar correto — respondo eu, sem ter a menor ideia sobre o que eu deveria estar conversando.

Ela volta a falar e sua boca abre e fecha, abre e fecha…

Foco no rosto dela, ela e seus vinte e poucos anos, e seus olhos mal piscam ao me contar as coisas de seu coração que a fazem, volta e meia, me olhar rapidamente e voltar no segundo depois para a rodovia à frente iluminada somente pelos faróis do carro a cem quilômetros por hora.

“Dentro de um dia e meio, não verei mais a Kelly por um longo tempo…”, penso eu, mirando a Lua através do vidro entreaberto do meu lado.

— A Andri grávida! — digo baixinho e arrastado, abrindo mais a janela até o vento me bater com força no rosto.

— Quê? — se surpreende negativamente a Kelly, por reflexo tirando o pé do acelerador e nos fazendo sentir o Chevrolet Corsa desacelerar na escuridão da ERS-401. A voz da garota apontada para mim sai de sua garganta com força e incrédula — Tu de sacanagem, ?

— Alô — atendi o telefone da minha mesa no escritório, fazendo silêncio e recebendo a notícia — . QUE?

Eu sabia que aquilo mais tarde, menos tarde, aconteceria. Não, não me refiro à ligação sobre a morte do meu pai, me refiro de estar diante do seu caixão e não sentir nada. Absolutamente nada além de pena.

Era verão do recém chegado ano de 2013, faltavam poucas semanas para meus 29 anos. Eu estava de pé, fitando o caixão do meu pai e me dizendo que nunca o havia visto dormir e naquele momento eu estava aos seus pés, o observando nunca mais acordar. “Ele morreu sem nem ter me dado a chance de ser filho”, eu me disse com triste indiferença ali. Ele nunca brigou comigo, nunca levantou a voz, nunca me disse que eu estava errado e que deveria repensar meu comportamento. Ele nunca muitas coisas. Eu nem conseguia me recordar de uma gargalhada que ele conseguiu arrancar de mim. É louco porque eu rio de tudo… Quando ele ia me ver, sabia o roteiro em detalhes. O primeiro momento era um “você está bem”, o segundo íamos almoçar em algum restaurante barato e, no terceiro, ele me levava para casa e me mostrava as fotos em papel de como ele era feliz viajando pelo Brasil como sei lá o que ele fazia. Eu gostava de dizer que ele era arquiteto enquanto na verdade não passava de um homem sem carreira, vivendo sem profissionalismo do grande talento para a pintura que tinha. Um desperdício. “Vinícius”, ele me chamava pelo segundo nome, “o pai tem de ir agora, tá bem?” e embora ele ia para eu voltá-lo a vê-lo dentro de três ou quatro anos. Era sempre assim.

E ele vivia a menos de 100 quilômetros de mim, isto que sempre me machucou. Ele não estava comigo por opção.

— Oi — uma voz feminina e jovem chegou em meu ouvido direito.

Juntando-se à mim defronte ao caixão, uma jovem, medindo 1,68, pele morena, magra, cabelo e olhos negros. Talvez 18 anos.

— Você é o Vinícius? — ela se dirigiu à mim.

Assenti com a cabeça.

— O pai sempre me falava muito de ti.

Deixei a garota falar, tentando imaginar se ela era uma prima, ou filha de algum amigo da família, ou qualquer outra coisa, tudo o que não compreendi porque ela usou “o pai me falava de ti”. Que grau de parentesco é este se eu era filho-único?

— Eu não sabia que você estava no Brasil, se não eu já tinha te lig_ _ _

— Desculpa, qual é teu nome? — perguntei atordoado e interrompendo a garota enquanto estávamos rodeados de pessoas cochichando para manter o silêncio no ambiente.

Nossa, é verdade. Sou Andri.

— Andri, eu nunca estive fora do Bra_ _ _ — me abrevio pondo a mão em minha própria testa e fechando os olhos, tentando reorganizar meus pensamentos — Desculpa, o que você é do meu pai, mesmo?

Ela sorrio com o cenho arqueado e contraído horizontalmente ao centro, dando-se ar de ternura.

— Nós somos irmãos — murmurou ela.

Minha cabeça apagou todo e qualquer registro de como foi o desfecho do funeral após eu descobrir que potencialmente eu tinha uma irmã 10 anos mais nova. A ironia é que lembro com clareza do nosso primeiro encontro na praça de alimentação de um shopping em Porto Alegre onde nos demos a chance de entender toda essa bagunça surreal.

— Ele sempre me disse que você vivia nos Estados Unidos — comentou Andri sentada ao meu lado na mesa do restaurante. Sua voz era suave e carregada de sotaque porto-alegrense — , e quando te procurei na internet, nunca achei nada.

Eu não tinha como buscar pela Andri, até dias antes eu não sabia de sua existência, porém ela, ela poderia… Não, não poderia ter me encontrado e levei algum momento para perceber o tamanho da confusão.

— Claro — eu exclamei fitando os pratos na mesa — , você me conhecia pelo meu segundo nome e deduziu que meu sobrenome fosse o dele. Nossa, que bagunça tudo isso…

— Vinícius Azevedo e não Aldo Lammel — ela disse baixinho, catatônica, mas com um sorriso magistral indo e vindo de acordo com os detalhes da conversa. Ela comentou contente — . Tenho de me acostumar a te chamar de Aldo.

— Você pode me chamar do jeito que te agrada mais.

— De mano?

Ali, na mesa, ela e eu demos o segundo passo pra construirmos a nossa família, uma família que antes de tudo aquilo era eu e minha mãe para mim; a Andri e sua mãe para ela. Conversamos sobre como as coisas poderiam ser saudáveis dali por diante se trabalhássemos juntos, contudo a nossa base precisaria ser a vontade irrefutável de não querermos entender os motivos que levaram o nosso pai a privar ela e eu de uma infância e adolescência mais bonita, porque o que motivou ele, se perdeu para sempre.

Os olhos da Andri era como esferas brilhantes sob a companhia de um sorriso magistral em seu rosto. Volta e meia ela me perguntava se ela poderia me abraçar. Que pergunta…

“Eu tenho uma irmã, cara”, era tudo o que eu me dizia pelos próximos meses.

O Aldo estava completamente apaixonado. No início imaginei que seria difícil para a Laís, minha ex-namorada, aceitar do dia pra noite que outra menina passasse a dormir no meu apartamento, a estar comigo pelos parques, fazendo fotografias e tomando chimarrão, mas a Laís era madura e foi quem mais me apoiou a não perder tempo. Fui conhecendo a Andri, percebendo como a menina de 18 anos podia ser surpreendentemente madura e de postura naturalmente doce e sapeca ao mesmo tempo.

Andri e eu (Andri A., Todos os direitos reservados)

— E a faculdade? — eu perguntei enquanto tomávamos chimarrão no Parque Moinhos de Vento.

— Tenho de fazer o vestibular — ela respondeu aérea — … E o trabalho lá no escritório tá bem puxado, mano.

Eu experimentara pela primeira vez o que é ter preocupação genuína pela decisão alheia, como se as decisões dela impactassem à mim. Eu tinha uma irmã mais nova para orientar se assim ela quisesse. O bizarro disso é que, quando eu tinha 18 anos, tudo o que eu fazia era tocar bateria, jogar video-game e brigar de socos e ponta-pés nos corredores da escola.

Minha irmã cresceu no ambiente mais frágil de Porto Alegre, na Ilha da Pintada, muito diferente da realidade da zonas nobres onde fui criado em Charqueadas e onde vivo em Porto Alegre. Tudo o que pude prometer pra mim mesmo foi que eu seria um porto seguro para essa garota; que eu não cometeria o erro do meu pai em não vê-la crescer. Enquanto a Andri falava qualquer coisa na grama do Parque Moinhos de Vento, eu só me ordenava ser um bom irmão; eu verdadeiramente queria ser um bom irmão, mesmo a Andri tendo o pior chulé da cidade. Puta que pariu!

Ai, Aldo, não posso acreditar que ela grávida tão cedo… — ao volante, Kelly tem sua voz arrastada pelo peso da notícia.

— Eu também não — digo à Kelly, mantendo meu olhar para além da janela do passageiro. Continuo — . Ela tem só 2o anos, na idade de estudar, ter um namorado em cada canto, de viajar de carona pra praia no final de semana… E agora vai trocar tudo isso pra cuidar de um bebê…

Kelly diz hesitosa enquanto cruzamos a ERS-401 a noite em alta velocidade — Ela… Ela pensou em… Você sabe…

— Tirar? A gente conversou a respeito. É incrível Kelly, ela assustada, e o fato de eu percebê-la assim me deixa menos preocupado, afinal de contas, é sinal que ela tá com os pés no chão… — digo eu, me virando à Kelly antes de seguir — E não, ela não quer tirar essa criança. Embora ela esteja longe de preparada financeiramente pra ter o bebê, a Andri é a pessoa mais amorosa que eu conheço. Se tem uma coisa que tenho certeza sobre ela é que ela será uma ótima mãe, mas… Só não precisava ser agora, bem quando eu não estarei aqui…

Kelly dá uma inesperada e sutil risada de espanto.

— Que foi?

— Essa história de vocês dois parece uma novela mexicana — comenta a motorista, deixando a piada lhe vir — . Agora tu precisa de alguma nova história caliente pra deixar essa novela mais interessante…

Tiro meus tênis, giro o botão de volume do rádio e ponho os pés sobre o painel do passageiro do Corsa.

— Fica quietinha e dirige.

Algumas horas depois, defronte ao portão de casa e já do lado de fora do carro, me abaixo para conseguir ver a Kelly dentro do Corsa, pondo minhas mãos na janela do carona que está totalmente aberta. Olho para os lados pensativo.

— Não é nem 1:00. Tem certeza que quer ficar em casa?

— É que uma pessoa vai chegar aqui — eu justifico.

A Kelly começa a sorrir calada, me fitando do volante do Chevrolet.

Ai, Aldo… Tu e essas namoradas misteriosas — ela faz silêncio, mas então pergunta — É a Penha, não é?

— Boa noite, Kelly — dou as costas para ela e entro portão adentro.

— Beijo — ela diz, estalando os lábios em um beijo à distância.

Kelly arranca o automóvel e logo depois chega outro carro. Ouço o som de um motor sendo desligado, vou até o portão, mas a garota já o abriu e vem subindo as escadarias da frente de casa. Ela se aproxima de mim no topo. Sorrindo, ela tira de dentro de sua bolsa algo oculto em sua mão enquanto a outra pega minha mão e a abre, expondo minha palma entre nós dois.

— Quero que você guarde isso com carinho — diz a moça.

Reparo no que ela pôs na minha palma. É uma pedra-rosada… E a madrugada do dia 29 foi muito bonita.

Me resta um dia.

30 de Janeiro de 2015.

A mãe e eu mal nos olhamos. Sinto que se eu fizer contato visual com ela, a DeJota desabará. Nos últimos dias a taxa de aproximação dela à mim para beijar minha testa aumentou drasticamente. Hoje é dia de levar a Garibaldi, minha magrela, para Porto Alegre com todo o equipamento necessário para a viagem acontecer.

A Cacau, chega de carro aqui em casa. Colocamos tudo no automóvel, assumo o volante para partimos de Charqueadas a Porto Alegre e a loirona do meu lado põe o melhor da música eletrônica que eu passara à ela nestes últimos meses de Brasil. Aliás, as melhores festas que fiz nos últimos meses, sem dúvida foram as que estive com a Cacau, a garota que, de um lance, se tornara uma de minhas melhores amigas. E assim, no banco do carona, ela me entrega seu sorriso mais largo, quase infantil; pergunta se estou pronto para a reta final e eu sorrio de volta, arrancando a EcoSport na direção da capital gaúcha.

Os 140 quilômetros por hora que o Ford está fazendo na parte plana da ERS-401 são a mistura perfeita de irresponsabilidade calculável com a anestesia que a música nos trás, uma ansiedade que flui na corrente sanguínea e diz para o pé afundar cada vez mais o acelerador. A Cacau é uma mulher que fala pouco e topa tudo que invento. Minutos atrás, ela não sabia que iria a Porto Alegre comigo, tampouco com o seu carro. Pedi ajuda à ela agora, uma hora atrás depois que acordei da zoeira da última madrugada. A grande parte das besteiras e festas que fiz em 2014, lá estava ela, a Cacau, sempre comigo e sempre se expondo do meu lado por causa das minhas excentricidades que não vem ao caso agora. Quando a olho, de praxe ela sorri e me manda beijos à distância. De fato, ela pouco fala quando estamos sozinhos. Os trinta minutos que levamos de Charqueadas a Porto Alegre eu basicamente dirigi e ouvi música enquanto ela, virada para a janela do carona, assistia a paisagem, na maioria do tempo rural, passar e ficar para trás. Hoje ela está aqui comigo como sempre, mas especialmente hoje ela está diferente, ainda mais introspectiva.

— Amanhã eu tô indo embora e tu ao invés de me aproveitar vai ficar ai, quieta?

Ela vira na minha direção vem com suas ideias que acabam me estimulando a seguir seus conselhos, mais ou menos quando ela me disse que se eu ficasse pelado na TV seria legal. Ela e seus conselhos…

Vamo gravar um vídeo falando que tu estás levando a Garibaldi pra Porto — ela fala rápido e empolgada, continuando — Depois tu coloca no site! Claro! Eu filmo!

Depois de deixar a Garibaldi e os outros equipamentos em Porto Alegre, estou com o carro da Cacau estacionado na frente de casa outra vez.

— Porque você não vai na despedida amanhã? — pergunto eu olhando para a nuca da garota que insiste em olhar para a janela ao seu lado.

— Porque não! — numa típica resposta da loira de olhos verdes e recém pós-graduada, cheia de personalidade — Despedida é sempre uma merda.

Comento mais alguma coisa com ela, saímos os dois do Ford, nos abraçamos e assim meu maior presente do ano passado, a própria Cacau, vai embora, arrancando com seu carro sem me deixar qualquer expectativa de que isso não foi o nosso adeus oficial. Ela é sempre imprevisível e no fundo eu adoro isto nela.

Já anoitecendo, na minha última noite em casa, deixo o computador da DeJota configurado com o Skype e tudo que ela precisará para conversar comigo, mas a mãe não quer mexer no computador. Com o controle remoto do televisor em mãos, ela troca de canais compulsivamente, numa tentativa de não dormir e esperar eu procurá-la para dormir, como nos velhos tempo, no chão do seu quarto. São 22:30, abro a porta do quarto e a vejo deitada e com semblante sério, sem desviar o olhar do televisor de catorze polegadas fixado no alto da parede. Me aproximo e deito ao seu lado e, num abraço lateral nela, aqui permanecemos. Me esforço, mas ambos desabam em pranto, tem muitas coisas acumuladas até porque há muito tempo isto não acontecia de sentirmos ao mesmo tempo a pressão de um momento único para os dois. Me levanto, a gente não pode aceitar a melancolia, contudo permaneço ao seu lado e sentado, pego uma de suas mãos e começo a lhe dizer porque não deveríamos nos maltratar desta forma. A medida que os minutos passam, fica evidente que não há como remediar e a única coisa a fazer com sinceridade entre nós é simplesmente sorrir um para o outro e pôr toda esta saudade por antecipação e preocupações, pra fora.

A mãe me diz que não irá no evento de despedida em Porto Alegre. Ela prefere não expor fragilidade para os outros e eu a entendo e a respeito por isso. Em uma filha de alemão da Boêmia, é uma atitude totalmente previsível e coerente com os valores que ela defende. E aqui, no seu quarto e ao nosso modo, deixamos o ego de lado e apenas choramos juntos, sorrindo e rindo com os olhos contraídos e o pranto nos vindo sem piedade. É um dos momentos mais lindos da minha vida.

Estou no meu quarto, sozinho. Preciso de um tempo, tenho oito horas antes do meu relógio despertar para dizer que é hora de ir.

Sem aviso, meu celular toca.

— ALDO — grita a Penha do outro lado da linha — , estou aqui com o Maurício na frente do Live. Queres que eu vá ai te pegar?

Consulto os ponteiros do tempo outra vez. É madrugada da minha partida, a mãe está dormindo depois do tranquilizante que tomou e eu anseio por qualquer distração que relaxe a ansiedade que pulsa em mim. A Penha é uma garota que conheci tem pouco tempo, é daquelas pessoas que te põe para frente, conversa de igual pra igual e com ela os temas sempre são leves. O Maurício é o típico cara que te faz rir a todo instante, o conheço desde que tínhamos oito anos mais ou menos, sem dúvida estar com eles é o que mais preciso agora.

Eae, Penha! Claro, chega aqui em casa então — respondo ao telefone.

Já no Live, puxo uma cadeira e me concentro no show do AC/DC que passa no telão do bar. A música é alta e abafa meus pensamentos. Vejo alguns amigos, cumprimento todos, damos algumas risadas prevendo como será minha viagem e logo volto para casa.

Quando me deito, reparo no celular. É uma mensagem de voz da Andri. Dou play e começo a chorar com a mais pura alegria de ter essa menina na minha vida.

Me restam quatro horas.

Vídeo de imagens futuras da viagem, porém o que importa é o áudio (Aldo Lammel, M&B Websérie)

Capítulo Final

A mãe está na cozinha, me esperando com o café pronto… Ela veste uma “máscara” de “tudo bem” e eu procuro fazer o mesmo. Em dez minutos o carro que me levará a Porto Alegre, chegará, a mãe se acomoda no sofá e eu, fazendo muito mais por ela do que por mim, deito em seu colo, um costume antigo que há algum tempo não praticava. Ela mexe em meu cabelo enquanto miro às paredes e móveis da sala, porém concentrado apenas no timbre da voz da DeJota. A buzina surge nos dizendo que é hora de ir. Na porta de casa, antes de ela ser aberta, nos abraçamos e eu tento segurar o máximo que consigo, contudo outra vez, mais uma vez, as lágrimas me vem sutilmente. A mãe, bem mais baixa do que eu, olha um pouco para cima com olhos repletos de amor abundante. Lágrimas, medos e felicidade sintetizados em olhos castanhos-claro de uma senhora prestes a completar setenta e dois anos.

— Diz pra tua irmã vir aqui para casa quando ela quiser, viu? — sugere minha mãe que tem um carinho indescritível pela Andri como se sua filha fosse.

Eu sorriu sem mostrar os dentes e desfaço em seguida ao me aproximar da DeJota ainda mais.

— A Andri vai precisar muito da gente!

A DeJota me escuta e balança a cabeça.

— Vá — a voz dela sai falhada, a definição de uma mãe emocionada, embora indiscutivelmente forte, extremamente forte — , dê o teu melhor, guri, e seja prudente.

Eu digo que sim com um rápido balançar de cabeça enquanto nos encaramos imediatamente um diante do outro.

— Te amo e volta logo pra me contar tudinho depois, meu garotão — ela me dá dois tapas amorosos no rosto, deixando sua palma esquerda repousada no meu rosto.

Na visão periférica, vejo o Maurício, a Penha e o Ingo nos assistindo de dentro do carro, eles desembarcam, abrem o portão e começam a subir as escadas. Não tenho tempo de me sentir constrangido, eu sei, porém a ideia de me verem tão frágil me perturba, eu não quero ser frágil na frente dos outros… Simples!

“Não chora, não chora, não chora”, digo à mim.

— Claro, mãe — falo surpreendentemente firme — , fica tranquila que logo, logo, em casa.

— Não, filho — ela me contesta com um sorriso tomado de emoção — , não vai ser logo, mas eu vou aqui te esperando.

— Preciso ir — falo deixando minhas mãos escorregarem dos braços da minha mãe pela última vez, sem abraços, sem delongas, me virando para as escadas, descendo o lance único de escada na velocidade em que as lágrimas rolam pelo meu rosto, não pude evitar.

Meus três amigos abraçam a DeJota forte e a enchem de frases bonitas e sorrisos que a fazem sorrir com felicidade verdadeira.

Entramos todos no carro e aqui, do banco de trás, enxergo através do vidro lateral traseiro esquerdo, minha mãe lá no topo das escadas de casa, me abanando e dizendo coisas que não consigo ouvir daqui de dentro. Abro a porta a minha direita mais uma vez e fico em pé. Por cima do teto do carro, vejo a DeJota e digo com força que a amo, agora sem esconder, sem me censurar, mas ainda assim não me faço demorar. Por fim, retorno ao interior do Volkswagen cinza da Penha e peço para ela ir logo.

Vamo nessa, galera! — falo engasgado, embora eu tenha conseguido cessar o pranto.

Agora me restam apenas duas horas e meia para tudo começar. O carro arranca e eu engulo à seco todo o sentimento de saudade, medo e felicidade pelo o que está por vir, tudo liquidificado dentro dos meus olhos certamente avermelhados e brilhantes que miram a paisagem além dos vidros do carro, jogando toda a emoção sentida para o mais longe possível. Em escala diferente, estou fazendo o que a Cacau talvez fizera no dia anterior ao ir comigo a Porto Alegre, com a sensação de que passará muito tempo até voltar a ver alguém que lhe faz bem.

Me chamo Aldo Lammel e que, tanto você quanto eu, façamos desta viagem o combustível que nos alimente de curiosidade e amadurecimento, lembrando todos os dias que caçar sonhos sempre será um exercício doloroso de desapego.

Que eu faça tudo isso valer a pena.

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