Aldo Lammel, CC BY-NC

Despedida e os Primeiros Dias

O mundo se comportou tão diferente nos últimos 17 meses. Eu fui tão intenso por todo esse tempo, me imaginando naqueles dias do início de tudo como seria o dia de hoje, quais seriam minhas reações, pensamentos, quem estaria comigo no meu primeiro quilômetro de estrada. Me perguntava, mas já tem meses que não me faço mais perguntas… E cá estou, empolgado e dentro de um carro com três amigos, saindo da cidade onde vive minha família, e indo agora para Porto Alegre, a cidade onde nasci, onde vivi e onde elegi ser meu marco-zero, na emblemática Praça da Matriz, berço da cidade e envolta pelo poder político da terra que tanto amo e que sentirei saudade. Estou no pequeno Volkswagen, sentado no banco detrás ao lado da janela direita; miro a janela oposta e tenho o Ingo me fitando.

Capítulo Um

31 de janeiro de 2015 — dia 1 da viagem.

— Aventuras virão, brother! — comenta o Ingo com seu sorriso clássico de canto de boca, unido da mirada adormecida e seu boné virado pra trás.

O Ingo e eu estreitamos mais nossa relação, o que de fato eu queria que acontecesse por uma série de coisas, mas principalmente por uma em específico que me trás boas recordações. Em 1994, aquele ano agridoce do tetra e da morte do Senna, eu era só um escoteiro bastardo de 10 anos que queria ter um pai para me ensinar a fazer uma fogueira, ajeitar o nós de escota ou só me levar para algum campo pra dizer que o final de semana no meio do nada seria nosso. Eu pensava nestas coisas, mas não tinha o que fazer, meu pai nunca estava por perto, então eu focava inconsciente nos homens adultos ao meu redor. Lá estava ele, o pai do Ingo, o nosso chefe mais legal do Grupo de Escoteiros Jacuí. Na minha perspectiva de criança, ele era gigante e de fato muito forte, sempre construindo algo com madeira e corda ou então mostrando pra molecada a melhor forma de assar batatas ou pinhões diretamente na fogueira de chão. Era divertido aprender com o chefe Scarpatti enquanto seu filho mais novo, o Ingo, corria pentelhando a nossa volta de um lado para o outro. Até algumas noites atrás, era comum o Ingo me chamar nas redes sociais “Eae, vamos dar uma volta?” em horários sem cabimento, na madrugada em dia de semana. Ele de férias da faculdade e eu no aguardo do início da volta ao mundo, e lá nós íamos, caminhando pelas ruas de Charqueadas com long necks nas mãos e diversos assuntos em mente. As vezes a gente caminhava e falava todo o tempo das gurias, dos rolos que estávamos metidos, nossa, parceiro, como nós ríamos… É interessante tudo isto principalmente porque, as vezes, caminhávamos falando por longas horas dos nossos planos para o futuro e, de certa forma, tudo era tão distante que não era raro ficarmos caminhando por um bom tempo em silêncio. E ele está aqui comigo para me ver iniciar a jornada, show de bola!

— Se este putinho não sair daquela praça chorando — dispara o Maurício referindo-se à mim do banco frontal do carona com a eloquência de quem fará a piada — , não comerei ele quando voltar!

E gargalhamos juntos!

A primeira lembrança que tenho do Maurício me leva a nossa boa infância, lá por 1993, mas ele não era escoteiro, nós nos conhecíamos da locadora de jogos de videogame. Ele, um ou dois anos mais novo que eu, de madeixas longas e loiras disputava comigo horas e mais horas nos jogos no Mega-Drive e Super-Nintendo, contudo assim que nossas horas terminavam na locadora, já não nos víamos mais, ele para um lado e eu para outro, nossas casas não eram tão próximas. Durante a adolescência seguimos não sendo próximos, na verdade morávamos no mesmo bairro de padrão elevado, de conceito e arquitetura alemã, como estes lugares que mostram nos filmes de Hollywood. Crescemos em um lugar assim onde as casas não tinham muros, os gramados se conectavam um com o outro e as ruas terminavam em balões rodeados de residências, nunca de comércio. Foi um lugar perfeito para crescer e para ter nossas primeiras bandas de Rock em garagens diante as tranquilíssimas ruas do bairro. Por volta de 2000, eu era o baterista de uma banda de Heavy Metal e ele também o baterista, porém de uma banda de Grunge. Volta e meia nos cruzávamos pelo Bar do Tonho ou pelos palcos dos festivais que aconteciam na cidade, entretanto definitivamente nos conhecemos em 2003 quando passamos a ser colegas no final do Ensino Médio. O Maurício tinha o dom de ser o piadista do grupo: expansivo, sorriso fácil, extrovertido no mais alto nível da palavra, já arrancava gracejadas até mesmo dos professores que não deveriam rir do bullying em progresso; mas em 2005 mudei-me a Porto Alegre e nunca mais o vi até poucos meses atrás com minha ida a Charqueadas pra estar com a DeJota antes da viagem. Fizemos festas juntos e acabamos nos aproximando (e ele querendo se aproximar da minha irmã; ahã, sonha).

— Aldo, Aldo… — diz a Penha em palavras soltas no ar conforte dirige o automóvel — , que aventura maravilhosa tu estás pra começar…

No mês passado, dezembro de 2014, conheci a Penha. Ela é uma figura e ficamos amigos quase que instantaneamente. É divertido você chegar em uma roda de amigos e descobrir que há alguém novo ali e que, de certa forma, complementa o grupo. A primeira coisa que ela me falou foi “Bah, conheço a tua mãe! A DeJota é tri legal”, sim, ela tem esse sotaque de gaúcha da região metropolitana. Charqueadas é uma cidade pequena, não é exagero dizer que todo mundo se conhece e não foi diferente quando conheci a Penha; eu já havia escutado falar no seu nome pouco comum anos atrás, quem sabe até ter interagido com ela em algum momento ou, pelo menos, ter visto ela passar por ai. No reveillon recente, fizemos uma festa sensacional na casa de um amigo, eu havia recém chegado com minha irmã e minha acompanhante, a Mirela, quando a Penha veio me abraçar e me apresentou uma amiga, a Peny. Eu nunca tinha visto a garota e ela, no meio de todos no pátio da casa, disse que eu tinha uma “bundinha” linda. Claro que ela se referia a minha aparição sem roupa na televisão e nos jornais por causa do meu protesto pelado pra chamar a atenção para a falta de segurança dos ciclistas em Porto Alegre, mas não vem ao caso; o fato é que esta amiga da Penha fez este comentário na frente da Mirela e de toda a festa. Eu gargalhava, mas foi uma situação no mínimo constrangedora que ao invés da Penha desconversar e conter a amiga, a incentivava a seguir no tema. “Peny, e tu viu os comentários da mulherada nas redes sociais?” Mais tarde eu viria a agradecer a Penha por ter conhecido a Peny, mas isto é outra história que também não vem ao caso. Depois destes episódios, eu não apenas via, mas sentia que a Penha já era como uma amiga de longa data, mesmo eu a conhecendo apenas há um par de semanas. Que legal e que bom que ela está também aqui comigo.

São 8:00 e chegamos na Praça da Matriz.

Uau, velho, olha isso! — exclamo ao ver as pessoas me aguardando.

Desço do carro e começo a abraçar um por um. A Garibaldi já está estacionada na praça me aguardando.

O Titi, o Bule e o Adrio se aproximam de mim com o chimarrão em mãos.

— Viu quem chegou? — comenta o Titi, fazendo um sinal discreto com a cabeça para o outro lado da Praça.

A forma com que ele fala, anuncia que vou me surpreender. Uma parte de mim grita e meu coração fantasia por uma fração de segundo que eu verei a Laís uma vez mais. Olho instintivamente por cima dos meus ombros e vejo a garota vindo na minha direção. Não faz qualquer sentido.

— Tábata?

Sei lá, talvez há sete meses que não a via. A última vez foi na casa de amigos em comum onde ela, bêbada, gritava do banheiro o quão "desprezível e raso" eu era "com um sonho estúpido para morrer na estrada".

— Oi — ela me cumprimenta.

— Oi — eu respondo.

Ela me olha como se em seu coração já houvesse alguma paz instaurada depois de todos esses meses.

— Sei lá porque vim te ver — ela comenta com suas mãos segurando uma bolsa enorme diante das pernas — , mas acabei vindo.

A moça vestindo um torno preto elegante se aproxima mais e nos abraçamos com algum distanciamento automático.

— A gente irá fazer uma foto agora, você não qu…

Olha só — ela me interrompe olhando para o chão, sorrindo e pondo a franja para trás da orelha — , indo para o escritório agora…

— Sábado? — questiono antes dela concluir a frase.

— …e eu quero te dizer pra te cuidar nessa loucura.

Da mesma forma que ela chegou, ela parte descendo as escadas da praça e sumindo em meio aos carros estacionados lá embaixo na rua.

— Mano — a Andri fala com curiosidade na voz, se dirigindo à mim porém fitando o estacionamento a quarenta metros de nós — aquela lá é a Tábata?

— É! — respondo me virando na direção da Andri também e dando passos curtos.

— Ela é super bonita, mano.

— E louca também — eu complemento.

— O que ela queria aqui? — pergunta a Andri esticando o pescoço e ficando nas pontas dos pés para ver se enxerga a Tábata além dos carros ao longe.

Eu olho na direção dos carros também.

—Dizer que me ama.

— SÉRIO? — vocifera Andri de imediato.

Eu gargalho breve.

— COMO ASSIM?!

— Claro que não, garota — pisco o olho à minha irmã, jogo meu braço por cima de seus ombros lateralmente e a levo comigo para junto de todo o resto do grupo a uns 13 metros para o centro da praça.

Miro por cima dos nossos ombros, imaginando o quão bom seria ver a Cacau também, ela com aqueles olhos verdes e cabelo longo loiro correndo na minha direção dizendo que sim, veio sim se despedir e me desejar bons ventos.

"Tái alguém que podia aparecer…", penso espiando o relógio de pulso; são 9:45 e eu preciso ir.

Quase 30 pessoas e eu não consigo dar atenção para cada um como eles merecem, faço a escolha e vou direto, sem pensar tanto, para aqueles que eu havia tentado antes da Tábata chegar.

— Vou sentir saudade de vocês, caras — admiti aos meus maiores amigos, deixando o semblante expelir alegria por tê-los comigo hoje.

Porra, meu irmão — o Titi me puxa pelo pulso e iniciando um abraço forte — Você vai fazer a tua história e a gente vai tá contigo sempre.

O Adrio, o mais tímido de nós quatro, me abraça lateralmente como se eu fosse ficar fora por um mês apenas.

— Me abraça como homi, pô! — eu brinco, puxando o braço oposto do rapaz, fazendo o futuro piloto da aviação comercial me abraçar de verdade.

O Bule, o mais neandertal de nós, sorri com seu rosto gigantesco e limitasse a ficar do meu lado pondo mais água no mate.

— Cuida bem das nossas coroas, irmão! — digo pondo minha mão sobre seu ombro, sem muita pretensão de receber um abraço espontâneo. Para ele, qualquer demonstração de carinho, é gay.

Ele me puxa e me dá um abraço.

— Te cuida na estrada, Aldo — ele diz com uma voz de irmão.

Meu caro, é indescritível a relação que tenho com estes três filhos de uma égua. Sempre juntos desde a adolescência, inseparáveis.

Corro e abraço o Maurício e o Ingo, mas é meu abraço para a Penha que guardo mais calor.

— Obrigado por hoje— sussurro de olhos fechados no ouvido da garota, o abraço é apertado e aconchegante — Vou sentir saudade da gente naquele lago.

— Aldo, Aldo… — ela murmura à minha orelha, deixando sua voz sair com a alegria de quem sabe que estou muito feliz.

— E pra que você saiba, tô levando aquela pedra comigo — falo desfazendo o abraço com o semblante sério, meus lábios se pressionam um contra o outro e me afasto encarando a garota vestida toda de preto.

Mano!

Minha irmã se aproxima e o que eu vinha administrando bem, já não faz mais sentido e deixo-me sentir em forma de mais sorrisos e, agora, junto a lágrimas.

— Te amo, minha flor

— Eu também, mano — o hálito Trident sabor maçã da Andri me entrega quão difícil é isto tudo para ela também, a emoção está no timbre de suas palavras — Te amo muito, muito, muito!

Andri e eu / Amigos na despedida (Aldo Lammel © Todos os direitos reservados)

— Cuida bem de ti e deste bebê, ok?! — digo saindo do abraço.

Ela sorri com os olhos desaparecendo em prantos de alegria e expectativas.

E assim, com meus olhos vermelhos mergulhados em água, às 10:00 em ponto, subo na Garibaldi e começo a pedalar sob aclamação dos amigos e curiosos que aqui chegaram. Palmas, assobios e frases de apoio despejados em mim. Que sensação boa! "Obrigado", é o que digo em pensamentos para cada um que ali vai ficando para trás nos meus puxões e empurrões nos pedais. Fito o grupo de pessoas algumas vezes ao olhá-los sobre meus ombros e cada vez que faço isto, me emociono.

Nos primeiros 12 quilômetros, alguns ciclistas me acompanham, assim como o carro de escolta da que a prefeitura disponibilizou para minha saída segura de Porto Alegre. Somos apenas quatro ciclistas sob os cuidados do veículo da EPTC com a sirene aos berros. Passamos por ruas movimentadas no centro da capital sob um céu ensolarado. Os transeuntes e motoristas tentam entender o que está acontecendo, porém acredito que ninguém faz ideia a menor ideia do que acontece e de quantas emoções estão envolvidas a medida que me distancio da praça.

Os ciclistas e o carro oficial se vão e eu continuo, agora preciso transpor as três pontes da BR-290 no sentido Porto Alegre-Guaíba. Neste sentindo, elas não têm acostamento.

Biiii!, Biiii!, Biiiiiiiiiii!

A Penha, o Maurício, o Ingo e a Andri junto com eles no carro que me trouxera a Porto Alegre, agora me escoltando. É reconfortante vê-los assim, preocupados a ponto de pararem o trânsito para que eu passe por cada ponto com maior tranquilidade, entretanto, cinco quilômetros mais à frente, eles seguem e eu fico para trás.

"Adeus, mana", penso eu, jogando o queixo para o alto e vendo que o tempo está fechando, ficando cinzento.

Pedalo com tanta coisa em mente, entretanto a felicidade me toma por completo e eu fico olhando a reta adiante sumindo na distância, pensando que ao chegar lá, irei ter de ir até o outro ponto onde ela desaparece, e assim pelos próximos três anos, sistematicamente. Estar sozinho no asfalto pela primeira vez após saber que não irá voltar pra casa é uma sensação de liberdade que abre um leque de possibilidades. "Daqui, vou para lá. E de lá para outro lugar", fico imaginando isto, esta mecânica. Na minha frente, se aproxima um viaduto solitário em meio aos campos onde a BR-290 se conecta a BR-116, a rodovia que, se eu seguir reto, irei entrar e me levar diretamente para a fronteira com o Uruguai, meu próximo destino dentro de alguns dias.

"Eu nunca passei deste ponto", pensei eu um segundo antes de ver o que vejo. Não posso acreditar!

— Ela veio! — me digo em voz alta, com alguma hesitação por ainda está processando a informação que vai fazendo minha alma sorrir. Muito.

Aldo Lammel, M&B Websérie

Olho para trás pra vê-la por uma última vez, como quem quer alongar um momento mais a despedida. Subo na bicicleta, volto a pedalar com, novamente, pranto no rosto, vendo aquela loira dos olhos verdes retornar ao seu carro sem desviar seu olhar outra vez mais pra minha direção.

"Que mulher forte" — penso, pedalando e assistindo por cima dos ombros o carro dela partir na direção oposta. Eu nunca havia visto a Cacau chorar.

Lutei tanto para tirar tudo isto do papel que meu desejo é deixar o frio na barriga me vir ainda mais forte, deixar a borboleta dentro do estômago bater suas asas, ter os pelos a sensibilidade dos seus movimentos ao vento. Deixar-me sorrir conforte as lágrimas da conquista depois de tanto esforço, rolarem pelo rosto, perdendo-se em meio a barba e caindo no asfalto por onde pedalo. A partir de agora, todos os dias um novo lugar, todos os dias uma nova pessoa; é a despedida se mostrando presente como companhia. Volto minha atenção para a estrada à frente, paro de olhar sobre os ombros e prometo à mim que não voltarei a entregar meus olhos marejados àqueles que me assistem partir. Não quero e não quero, ponto, não precisa ter uma razão plausível além de que, ao não fazer isto, sinto que entendo melhor que o fim chegou. "Adeus", e lá me vou.

Sigo por quilômetros onde eu jamais estive com a certeza de que ganhei de todas as pessoas que foram se despedir de mim, os abraços mais aconchegantes que eu um dia podia ter pedido. Não é exagero, é o que sinto sendo clichê ou não. E o que foi que eu aprendi desde aquele dia na poltrona 25B, em 2013, até este 31 de janeiro de 2015? Que se teu sonho te põe medo, é porque ele realmente vale a pena.

Capítulo Dois

Tudo é novidade. O empolgação de que agora é pra valer me toma e me faz pedalar com força, empurrando os 50 quilos em mochilas pelo asfalto como se fossem apenas quatro estojos escolares estrada adentro na direção do Uruguai. Durante as cinco horas de pedalada, penso a respeito de muitas coisas, na sua maioria irrelevantes ou difíceis de serem transcritas de modo que façam sentido. Saco uma modesta câmera, nada além de uma Sony compacta, e registro as primeiras fotografias da viagem. Uma delas, um bilhete ou, se preferir, chame-o de Post-It. O encontrei no estojo frontal da bicicleta e o leio diversas vezes. "Te amo", diz a caligrafia da Andri, pondo um sorriso no meu rosto que sobrepõe-se a qualquer outra emoção. Colo o pequeno cartão amarelado na face metálica interna do trilho de segurança da rodovia, voltando a pedalar mais e mais. Chego na casa dos 60 e 70 quilômetros que anunciam que é hora de buscar ajuda. Comida e hospedagem para que eu não tenha de montar a barraca, para muitos é uma questão difícil de resolver quando não se tem dinheiro e, acredite em mim, nem eu sei bem como tenho de fazer, apenas começo a falar com quem surge na minha frente administrando meu próprio constrangimento. Imagina se consigo lugar para tomar banho e usar internet? Ainda não tenho certeza, contudo receio que estou fantasiando.

A cidade é Barra do Ribeiro, banhada pela Lagoa dos Papos e que me parece bem pequena, interiorana, vazia. A adrenalina corre forte nas minhas veias, é tudo comigo e encontrar refugio é uma questão de pedir ajuda porque ninguém virá até mim do nada. Ou estaria eu equivocado? Não sei.

“Tenho de encontrar alguém”, verbalizo calado o tempo todo.

Tento a prefeitura da cidade, mas é sábado. São 16:00 e a prefeitura já está fechada. Vou até um posto da polícia, bato na porta, ninguém me recebe. A adrenalina me faz sentir alguma preocupação, porém sigo focado. Finalmente, vindo na minha direção, um homem sem camisa, um tanto descabelado, cambaleante e sujo. Tirando o aspecto tropeço e de que eu tenho uma bicicleta, estamos no mesmo estilo.

Ei, amigo! — o chamo, peço informação e logo me arrependo.

Seu jeito de caminhar e o cheiro forte da “mardita” dão uma boa noção do estado do sujeito. A cidade parece estar ainda mais vazia agora e encontrar essa figura imunda, de passadas desordenadas e incrível fedor de mijo, faz com que meu cérebro sugerira que existe uma potencial possibilidade de eu estar em meio a uma gravação do The Walking Dead edição América do Sul, onde zumbis teriam fisionomias mais latinas e, uma vez que outra, usariam camisas do Corinthians ou Flamengo. Nesse caso o bebum está no caminho da figuração para a série, segura a camiseta do colorado de Porto Alegre. Pergunto a criatura mal-cheirosa onde fica a rádio da cidade e com muita dificuldade, o caminhante com seus 30 e poucos anos quando em vida, indica o número de quadras e curvas que eu teria de percorrer. É irônico que assim que faço o roteiro dado vejo que o bebum estava certo. Subo um lance de escadas e bato na porta da rádio local, porém, como tudo parece fazer parte do fim de mundo aqui, ninguém aparece.

Não gosto da ideia de pedir ajuda aleatoriamente, sem uma estratégia, parecendo que não houve qualquer planejamento. Sigo como emergência para um camping à beira da Lagoa dos Patos e conto o que estou fazendo a dois garotos da portaria. Os atendentes não apenas deixam-me ficar de graça por uma noite como também me dão a senha da internet da casa do dono, ao fundo do camping. Rá!

Cara, usa a internet tranquilo porque ninguém a usa. Vai na fé! É uma casa que lembra uma casa do GTA — diz um dos meninos, citando um famoso jogo eletrônico.

Arregalo os olhos com a comparação inesperada e lá vou eu.

Aldo Lammel, CC BY-NC

Monto a barraca próxima a casa de dois andares e com um carrão e uma lancha pequena na garagem. A água da lagoa quebra suas ondas a poucos metros à frente. Me dou bem, monto tudo, entro na barraca e roo algumas bolachas salgadas que trago. Minutos depois já havia me banhado e avisado a família e amigos de que estou em Barra do Ribeiro e bem, mesmo que sem uma janta de verdade ou a garantia de que amanhã terei um café da manhã. Existe a preocupação, mas nem tanto.

Durmo e horas depois, bom dia.

Duas opções: velocidade e preocupação ou lentidão e tranquilidade. Escolho a segunda opção ao olhar meu mapa. Existe uma rota até a próxima cidade, Tapes, que economizará cerca de 20 quilômetros de viagem, aproximadamente uma hora de pedal, porém o trajeto exige que eu passe por quase 40 quilômetros de estrada de chão, uma opção sempre mais tranquila com relação ao trânsito das rodovia, mas, de modo geral, a velocidade da pedalada cai consideravelmente e não sei quando tempo eu precisaria para cumprir esta distância em chão-batido. Para ser sincero, não é a menor distância que me atrai e sim fugir de ter de voltar por quilômetros já percorridos para retornar à estrada pavimentada. Sim, se eu escolher o asfalto, terei de fazer um bom par de milhas no sentido contrário, como se estivesse voltando para casa e a ideia não me agrada em nada. Revejo minha decisão por não ter outra coisa para fazer e permaneço com a estrada de terra. E é por ela que me vou.

Cavalos, lavouras, calmaria. É um caminho bonito, um pouco mais do mesmo que vi por toda minha vida no Rio Grande do Sul. Cheiro de casa, vista de casa, tudo é como estar em casa porque estou em casa. Céu limpo e o sol cozinhando tudo o que ele toca. São 10:00 e o suor faz parte do meu dia e de cada centímetro do meu corpo. Faço fotos, converso um pouco com a câmera e grito sozinho enquanto ouço música. É engraçado falar sozinho consciente de que está só. Canto alto. As distâncias vão passando e a fome aperta dentro de mim, me dando a ideia de que é hora de pedir ajuda, contudo… Onde estão as casas? Duas horas depois encontro a primeira residência e, caralho, parceiro, que fome!

— Olá. Boa tarde — digo e a senhorinha que cuida de sua horta no pátio de uma casa no meio do nada em sentido literal, campos e mais campos.

O silêncio era a companhia desta velha mulher, pelo menos até eu pedir por sua atenção na porteira da pequena residência com um sorrio de dentes mais brancos que sua humilde casinha.

Agachada, ela ergue-se com dificuldade e com o cenho contraído desconfiada, me dá sua atenção.

— Estou viajando de bicicleta, tu terias alguma fruta para me dar? — pergunto com os olhos semicerrados do sol que me acerta o rosto — Tá muito quente e tenho um pouco de sede também…

A senhora de quarenta e poucos anos dá um sorriso e faz um sinal de “aguarde” com as mãos, caminhando com calma na direção da porta lateral da casa.

— Tem gente louca pra tudo — ela resmunga baixinho.

Ao voltar, traz consigo uma sacola com algumas frutas sortidas. Mal posso acreditar. A agradeço e metros à frente, paro com a bike em uma sombra e analiso o que tenho. Duas bananas, uma laranja, três maracujás e dois limões (para fazer caipirinha?). A fome é aquela que você o formato do vazio, um oco, sei lá, e antes de comer algo, lembro que é nas cascas das frutas que estão parte dos importantes nutrientes delas. Então, pela primeira vez, opto em comer a banana e o maracujá com suas castas e, acredite, não é tão ruim assim.

Ando por mais alguns quilômetros com uma média de velocidade baixa, aproximadamente 15 quilômetros por hora e a temperatura elevada do dia me fazem entrar numa sombra qualquer no gramado dos campos e dormir por alguns minutos. Acordo mais disposto e sigo viagem. Horas depois, de acordo com o mapa impresso do sul do Rio Grande do Sul, entro em Tapes pela sua área mais pobre, me dando pela primeira vez na viagem a real ideia de pobreza que verei pelo caminho. Nada surpreendente, mas feio e nada acolhedor. Cruzo a região e entro na cidade. De boné, com uma bicicleta de banco rebaixado e mexendo no celular, um adolescente vem em minha direção e aproveito para lhe perguntar algo que provavelmente ele sabe me responder.

— Moleque — falo rindo, tirando onda pelo boné virado de lado — , sabes onde encontro internet grátis na cidade?

— Ahã, vai na praça central. Lá tem! É só seguir reto por essa rua que você verá a praça.

Agradeço o menino com um rápido movimento de cabeça. Ele, com olhos curiosos, fixa sua atenção na maior bicicleta que provavelmente ele já tenha visto.

vai pra onde, tio?

— Pra longe, parceiro.

Estaciono a Garibaldi na praça e, como um “guerreiro cansado da batalha do dia, desfaço a montaria e deixo que meu cavalo branco, sujo da jornada, chame a atenção de quem aqui está”. A internet conecta e respondo um pouco das várias mensagens que venho recebendo sobre a viagem. A imprensa, outras mídias, as pessoas, todos querem saber como estão sendo as primeiras impressões da viagem que está para concluir seu segundo dia. Faço o que posso para não deixar ninguém sem retorno e, quando começo a pensar em procurar onde ficar em um domingo aonde certamente há pouco movimento, um senhor surge ao meu lado.

vindo de onde? — me questiona um senhor de aproximadamente 48 anos e de estatura próxima a da minha.

— Porto Alegre, mas o destino é mais longe do que Tapes — gargalho.

Assim iniciamos uma conversa e explico algumas coisas. Do nosso lado, um Ford EcoSport estacionado com uma mulher ao volante. Ela sorri e nos observa.

— Minha esposa — aponta o senhor para a moça, continuando — disse que te ouviu dizer que não tem onde ficar aqui em Tapes. Moro na beira da Lagoa e estou indo embora hoje a noite, mas se tu for responsável, podes ficar no meu endereço se quiser. Tem comida, cama e banho quente, se quiser.

Inacreditável que está sendo rápido assim. Não perco tempo e lhe dou minha resposta com um sorriso típico de comercial de creme dental.

— Claro! — digo ao senhor

Monto na bike e sigo seu carro por uns três quilômetros por estradas de terra até chegarmos no endereço. Uma típica casa de praia, porém a poucas quadras da lagoa.

Conto minha história com maior riqueza de detalhes e todos, incluindo os dois filhos do casal, sentem-se bem por eu estar com eles, dividindo isso com a família. O mesmo posso dizer de estar na mesa da janta. Minutos depois, o pequenino chamado Murilo de aproximadamente cinco anos, diz que quer me mostrar sua bicicleta. Tirando as rodinhas de apoio da pequenina bike para criança, o policial aposentado, pai do menino, o Sr. Carlos, ajuda seu filho Murilo a dar as primeiras pedaladas sem rodinhas. O garotinho olha pra mim e pede para ajudá-lo e assim o faço. “Clique”, o som de uma fotografia feita. O som de uma bonita e simples imagem feita que lembrarei o quão terno pode ser os detalhes da estrada.

O dia se encerra conosco indo até a lagoa e molhando os pés. Conversamos e voltamos para casa onde recebo instruções de como fechá-la e sair amanhã pela manhã.

Aldo Lammel © Todos os direitos reservados

2 de fevereiro de 2015.

Acordo dando feliz aniversário em pensamentos à alguém. Alguém que não vejo há tempo, contudo recordo das risadas infantis, da sua beleza natural, corpo esguio, alta. Olhar doce que me entregava e dos beijos que não mais me pertencem. Apesar dos pesares, me sinto bem saudando-a no mundo das lembranças, é a forma que encontro para amenizar o impacto das escolhas feitas, tão cruéis por um lado, necessárias por outro. “Feliz aniversário, Laís!”

Tranco tudo na casa, arrumo minhas coisas e pego o celular. Nele, uma mensagem inesperada que podem facilitar os planos das milhas a seguir.

“Aldo, adorei seu projeto. Estou viajando de bike com meu namorado pela América Central. Vi no seu roteiro que passará por Camaquã, provavelmente. Se passar, vá até a casa da minha família, ela adorará lhe receber!
Mariana”

A mensagem chega exatamente no dia em que chego em Camaquã. Bizarro! Qual a probabilidade de isso acontecer? Surreal, monto na Garibaldi e para lá eu sigo, mas com uma companhia um tanto desagradável: uma dor nada sutil em uma das minhas coxas.

Pense nas fibras mais internas dos músculos que compõem sua coxa direita, na região quase ao lado do joelho. Imagine que a cada vez que você estica esta perna durante a pedalada, uma agulha afiada lhe espeta sem resistência lá, te provocando uma dor aguda, incômoda e sistemática, que surge a cada movimento da perna durante a pedalada. A dor é tão intensa que faria muitos concluírem que é “fim de jogo”, que viajar com tanto peso da bike é impossível ou prejudicial para o corpo. Engano! Um truque do nosso corpo para nos alertar de que estamos sobre estresse físico desconhecido. Não é uma lesão, nem algo próximo disso. A dor vem e eu a ignoro através de caretas e, algumas vezes, pedalando somente com uma perna em trechos curtos e planos. Quando paro para pedir água ou ir ao banheiro, voltando a pedalar, a dor vem mais acentuada com o ácido lácteo percorrendo o músculo, causando dor, é normal, qualquer atleta sabe disto. Depois de muitos quilômetros sem parar, a dor se dissipa e pára de me perturbar e o muito que li sobre a adaptação do corpo humano ao novo ritmo, preciso apenas de paciência e força para suportar a minha própria adaptação que pode levar uma ou mais semanas, mas não deve levar muito tempo.

Entro em Camaquã e busco internet gratuita. Alguns adolescentes apontam para um posto de gasolina e por lá fico para atualizar as coisas e esperar a mensagem do meu anfitrião com o horário que devo chegar ao endereço. Três horas depois, ainda aguardando a mensagem, não resisto e acabo pegando uma guloseima na loja de conveniência do posto com meu cartão de débito. Como com prazer e culpa por gastar. De Porto Alegre até aqui, não havia gastado nada. Foram 160 quilômetros em três dias de vida na estrada e apenas R$11 gastos, falo à mim mesmo, tentando justificar a fraqueza. Não que eu não vá usar dinheiro, manipular grana será uma constante da viagem, porém o pouco que tenho é para emergências e não para pote de sorvete. O primeiro passo dentro da trilha que leva ao mundo dos que não cumprem sua palavra, converso comigo.

A noite vem e finalmente estou diante de uma mesa de jantar com direito a frutas e tudo que eu poderia desejar. Debaixo da mesa, gatos e um pequeno cãozinho. Onde quer que eu ponha meus pés, ali estão todos eles. A comida é simples e saborosa e é acompanhada por um suco natural de maracujá. A cada gole, as sementes driblam os pedaços de gelo e se misturam no sabor de enorme satisfação que sinto. Papo vai, papo vem e em todos os gestos e dizeres do sr. Anorival vejo a saudade que ele carrega por sua filha, garota de 20 e poucos anos que viaja pelo mundo desde o ano passado. O velho senhor de boné batido e de olhar tímido, me entrega o conforto de sua casa sem cerimônias e às 00:00 já estou deitado do quarto desocupado de suas filhas que há tempo não moram com a família. Antes de dormir, uma brincadeira com a Mariana, a garota que me enviou a mensagem para vir para cá. Mando à ela uma mensagem com uma fotografia que fiz agora a pouco.

“Gerando saudade de casa em três, dois, um”, penso ao disparar a mensagem sob risadas minhas no escuro do quarto climatizado.

3 de fevereiro de 2015.

Um café da manhã completo me é servido e logo estou diante do asfalto quente da manhã. O sol, como nos outros dias, brilha forte lá no alto. Tão breve o suor corre pelo rosto, a dor surge na parte interna de minha coxa direita. Filha da puta! As ferroadas me acompanham por um tempo e logo desaparecem tão sutilmente que não recordo quando de fato parei de senti-las. Estar sozinho na rodovia faz com que eu sinta mais os momentos que tenho com outras pessoas, seja através da internet ou com as conversas com quem me acolhe. Embora eu seja sensível, não gosto de dramas e frequentemente encontro má fé em muita mão estendida que vende carinho para lá e para cá, porém é curioso que de fato nestes dias iniciais venho sentindo um certo romantismo de quem vê beleza em tudo, vê harmonia e etc e etc. Chega ser tão exagerado que acho chato. Eu vivo o sentimento, mas por dentro estou fazendo piada comigo mesmo.

“Vai se transformar no estereótipo do hippie agora? Só falta queimar a Babilônia nos cantos da estrada porque o Led Zeppelin já flui nos fones de ouvido”, comento calado. Sou muito hardcore-urbano para seguir na filosofia da bicicleta de bambu e do mochileiro hipster “paz e amor, tudo é lindo e maravilhoso”, porém que eu ando fascinado com cada pedacinho das descobertas e constatações da viagem, isto não posso negar, contudo está muito mais ligado ao entusiasmo de ter vencido aqueles dezessete meses de planejamento para executar o que estou fazendo. Veremos do que se trata tudo isto.

Chego em São Lourenço do Sul. Sou recebido pelo casal Patrick e Adriana, que são mais do que guias pela cidade mais charmosa que passei até o momento. O casal me apresenta estes aspectos interessantes da viagem, de pessoas dispostas a doar o tempo delas para te proporcionar uma experiência legal na sua curta passagem pela vida delas. É algo realmente curioso e rico. De repente estou no outro lado da pequenina cidade, sentado à mesa, uma longa peça de madeira com dois cavaletes, repleta de pessoas, comendo petiscos, degustando cervejas artesanais e dividindo meus primeiros dias de estrada com o casal e amigos.

“Você faria o mesmo pelos outros?”, me pergunto. “Claro” muitos responderia no costume de ser instantâneos demais, na preguiça de pensar de uns ou na simples hipocrisia não percebida de outros. Penso a respeito disso com toda a sinceridade e me parece que sim embora eu nunca tenha, de fato, convidado um viajante a ficar na minha casa ou até mesmo ver um mochileiro e parar para e perguntar se sua viagem está em ordem, se está desfrutando Porto Alegre. Enfim. Deixa quieto. Sigamos!

4 de fevereiro de 2015.

São 23:00 e eu definitivamente estou perdido pelas ruas centrais de Pelotas porém só preciso descobrir quais são as ruas a minha volta porque tenho um endereço em mãos, de um rapaz que me ofereceu abrigo assim que chegasse na cidade.

Ainda no ano passado me cadastrei em um site de viajantes chamado Couchsurfing.org onde qualquer pessoa pode se cadastrar e oferecer ou buscar hospedagem de graça pelo mundo todo. O Joãozinho tem um sofá na sua sala, ele vai no Couchsurfing e cadastra seu perfil e diz que aceita viajantes. Dois dias depois, Joãozinho recebe a mensagem de um viajante canadense que fala um pouco de português. Joãozinho aceita o pedido do rapaz e logo ele chega na casa do nosso personagem fictício que hospeda o viajante por duas noite, oferecendo seu sofá da sala e seu banheiro ao mochileiro canadense que, talvez no futuro não muito distante, esteja recebendo o Joãozinho de graça também lá em Toronto. Esta é a lógica do Couchsurfing, uma rede social de pessoas dispostas a serem guias, amigos de noitadas, gente que quer praticar idiomas ou apenas ajudar e viajar gastando o mínimo ou, como tento, gastar nada.

Me aproximo da porta da humilde residência no endereço que tenho em uma folha de papel. Bato na porta de madeira velha e sem pintura. Um rapaz sem sorriso surge quando a porta é aberta e a voz do moço é essencialmente calma, branda.

— Oi, Aldo, entre.

— André? atrasado, mas cheguei.

— Não se preocupe, fica à vontade.

A simplicidade da residência contrasta rispidamente com os lugares que eu vinha ficando. Paredes largas, pé direito alto e portas — quando existiam — com marcos maltratados pelo tempo e pelos cupins. Neste lar, uma garota de óculos de grau, cabelo curto e negro com aproximadamente 25 anos, tecla ao celular. De cabelo cacheado e de físico magro, muito magro, o André me apresenta a família. Com seu 1,55 de altura, a mãe do André, a dona Goreti vem até mim e me abraça empolgada. Um carinho que não me imaginava recebendo em um primeiro contato e não consigo imaginar bem o porquê, mas o recebo e trato de corresponder apertando ela e rindo da situação engraçada. Todos rimos.

— Aldo, fica bem à vontade, ? — diz a senhora que aponta para uma mesa cantoneira — Come o que tu quiseres e, se preferir, tome um bom banho antes de dormir.

Tudo o que eu queria ouvir.

Ainda no processo de organizar minhas coisas por definitivo e saber onde tudo tem de estar na Garibaldi para poder fazer o processo inverso com mais eficiente: saber o que tirar da bicicleta e de onde tirar. A família e eu estamos apertados e, pedindo licença um para o outro nos corredores, vou passando pelos cômodos estreitos da casa de paredes todas brancas. Logo estou de banho tomado e comendo pasteis graúdos e saborosos, preparados pela dona Goreti, uma mulher sorridente, cordial e falante. FALANTE! Todos aqui dentro são simples, todavia há algo que se ressalta e chama minha atenção. O André, embora quieto e utilizando roupas surradas e até mesmo rasgadas, expõe opiniões fundamentadas e com um grau de articulação que eu não esperava.

Da prestabilidade e carinho que exalam da dona Goreti, vigio-a numa busca silenciosa atrás de erros gramaticais ou de fonética vindo em suas palavras, afinal de contas a nossa casa geralmente é nossa prioridade, principalmente para quem não tem muita coisa como eles. Geralmente a pobreza está intimamente ligada a educação, porém a dona Goreti não comete qualquer erro linguístico que combinaria com a suposta educação de quem moraria nesta casa. Tão articulada quanto o filho.

Por fim, a Fran, irmã do André une-se a nós na pequenina sala que mal abriga a todos nós. Então tudo começa a fazer sentido a medida que vamos todos conversando noite adentro. A Fran, formada em Direito, cursa sua segunda faculdade federal e a dona Goreti, matriarca aqui, leciona no ensino fundamental de uma escola na cidade ao lado. Já o André, de 23 anos, está concluindo na universidade federal seu bacharelado em Filosofia. E eu, com minha acidentada lógica, quase não percebi que todo o dinheiro desta família está no que eles julgam mais importante e não é a casa. Engulo minha estupidez intelectual à seco.

— Mas dentro da América do Sul até onde você irá? Colômbia? Venezuela? — pergunta dona Goreti.

— A ideia é ir até Quito e de lá seguir para a costa do Equador para encontrar um barco para a Nova Zelândia.

— Oceania, que lindo, Aldo.

— É, seria interessante — falo mastigando um pastel mais — , mas tem muito chão até lá.

Logo o cansaço chegar para todos na sala e eu agradeço por isto, estou moído desde que cheguei, mas a galera queria muito conversar comigo, faz parte.

— Aldo, você dormirá aqui. Tem ventilador, tem internet. Essa cama é bem confortável, a compramos estes dias — diz o André, olhando para o interior do seu quarto — Levantarei cedo para ir para o trabalho, mas tu podes dormir até a hora que quiser, ok?

Enquanto isso, sua mãe estica um lençol no pequeno sofá na sala onde estamos.

— E você vai dormir onde? — pergunto pensando nos mosquitos e calor que haverá por toda a noite.

— Fico na sala porque acordo cedo e já estou acostumado a dormir ali.

— Não, André — protesto puxando uma de minhas mochilas vermelhas e impermeáveis para a sala — Faço questão de ficar na sala. Isso é inegociável.

— Aldo, não faz isso — diz a dona Goreti com expressão de descontentamento. Completando — Recebemos muitos viajantes do mundo todo aqui e esse quartinho que montamos é para vocês, não para nós. É para você ficar ai, ?

Com a cabeça no travesseiro, penso nos primeiros dias de viagem, nas pessoas da estrada que esbarrei, na minha família e amigos. Meus olhos abertos no escuro do quarto confortável e com uma leve brisa vinda do ventilador ao meu lado, fitam a frase virtual no teto do quarto: “Você faria a mesma coisa por eles?”

BIP, BIP!

Apita meu celular. Recebi uma mensagem. “Todas as uruguaias aos meus pés se for mensagem da minha irmã.”

“O Murilo sempre fala de ti. Ele vê a chuva chegar e diz que está preocupado contigo. Um abraço e faça uma boa viagem que quando você voltar, vamos ir lhe receber.”

Sorrio. O tempo passará e receio que isto se perderá no passar dos meses, entretanto se de fato lembrarem de mim, seria divertido tê-los entre os amigos que me esperando na porta de casa assim que eu retornar pela fronteira dentro de alguns anos. Desligo o celular com perguntas diante de mim muito mais profundas do que tentar adivinhar quem me receberia na minha volta para casa. Cansado, durmo rápido.

Amanhece, tomo um café com a família e abraço a todos, principalmente a Dona Goreti. Sigo meu caminho para a Praia do Laranjal, na mesma cidade, em Pelotas, onde há a casa de praia do Bule, meu amigo de infância, lugar onde passarei meu final de semana. Pedalo firme para lá, pedalo de barriga cheia e cantando pela estrada de chão, tentando encontrar nos intervalos de uma canção e outra a resposta mais sincera para a pergunta que vi pairar no teto daquela casa em Pelotas.

Capítulo Final

Sábado, 7 de fevereiro de 2015 — Praia do Laranjal, RS.

A calmaria do espelho d’água me leva para longe. A Lagoa dos Patos banhando com tranquilidade as areias finas e claras da Praia do Laranjal, lugar dentro de Pelotas por onde ficarei por três dias, incluindo este final de semana. Descanso merecido depois do turbilhão de emoções da primeira semana de viagem, pensando sobre os quilômetros que se esticarão e me distanciam das pessoas mais importantes para mim. Os dias passam e você passa lentamente a se acostumar com as decisões que toma, com suas novas asas, com a distância que é construída. Na orla, a quem caminha, a quem apenas permanece sentada à sombra, observando a ausência de movimento na laguna, um verdadeiro espelho do céu. Dias atrás, um grande amigo de Charqueadas me convidou para passar alguns dias aqui, na casa de sua família, no Laranjal. Combinei de chegar hoje, contudo desde ontem estou na praia. Uma amiga — também de Charqueadas — me avisara que uma terceira pessoa poderia me receber nas redondezas. Então para cá eu vim. A primeira coisa que fiz hoje a tarde, foi transferir minhas coisas da casa dos Colares para a casa dos Ramos, cinco quadras mais para o sul e também duas ou três quadras da laguna que ainda teimamos em chamar de lagoa.

Aldo Lammel, CC BY-NC

Depois de caminhar pela beira d’água, fazendo um pouco de exercícios para compensar os dias que ficarei descansando aqui, me dirijo ao endereço dos Ramos mais uma vez, passeando e assistindo as famílias veraneando na calmaria do lugar. Um clima tranquilo e com ambientes limpos. Me aproximo do portão do meu novo endereço e vejo o carro do Bule estacionado em frente. “O Bule chegou”, digo em silêncio. Abro o portão já sorrindo, percebendo que ali, não só o Bule está, assando o churrasco, mas o Maurício, outro amigo de Charqueadas, e minha irmã, a Andri. Vê-la diante de mim após imaginar que não a mais veria pelos próximos 40 meses, torna o momento muito bom, mas pouco reajo com o tamanho da felicidade que sinto. É uma postura automática que ainda não sei explicar bem o porquê, talvez uma defesa para não me abrir tanto diante de tantas coisas que administro aqui dentro. Enfim, cumprimento todos que aqui estão.

— Fala, pirocudo!

Eae, meu caro!— e o estouro das palmas das mãos colidindo, seguido de um abraço lateral.

— Até você veio, parceiro!

— Estamos juntos, sempre! — e mais um abraço, acompanhado de um tapa gentil no rosto.

— Olá, moça.

— Oi, mano. Te amo, sabia? — ela diz com seu típico sorriso indestrutível. E de novo um bom abraço.

Todos devidamente bem-vindos, é hora de tomar um banho e juntar-se ao churrasco, afinal, todos estão aqui para o churrasco de final de semana. Porque mais todos teríamos se deslocado 300 quilômetros para o sul do Estado até as águas tranquilas com ar de interior, onde meramente fazia parte do meu roteiro? Brincadeiras a parte, sim, me sinto bem e querido por todos estarem aqui, comigo. Abro a ante-porta contra insetos da casa. Uma surpresa, um susto agradável que torna a vinda do pessoal mais especial.

— Oi, guri.

— Mas veja só. Oi, mãe! Coisa boa que você veio.

Ela me beija no rosto, dá dois tapas em minhas costas e sai da casa, em direção ao pátio onde tem um churrasco em andamento e sons de risadas.

— Dalva, alguém fará a salada de batata?

— Que salada de batata, o quê?! — resmunga algum dos meninos.

Hoje mais cedo, durante o café da manhã, a Graça, tia do Bule, contara a mim sobre o período mais duro de sua vida. Há alguns meses seu caçula, o Otávio, sofrera um gravíssimo acidente de carro.

— Estava em casa, era madrugada. O telefone tocou e do outro lado eram amigos do Otávio… dizendo que eu tinha de ir rápido para o hospital que o Otávio não suportaria muito mais tempo — dizia ela, com poucos detalhes, com olhar profundo, catatônico, mirando algo invisível a sua frente enquanto mastiga uma bolacha qualquer.

— Realmente grave, Graça, mas no final tudo deu certo. — disse a única coisa que me veio a mente.

— Muita coisa aconteceu aqui dentro, Aldo. — diz Graça, ponderando e apontando para o seu peito, me fitando com um semblante severo.

Tive a impressão de que ela sentira uma gota do que sentiu na época. Ela continuou, dizendo — Uma mãe tem o papel de encorajar seu filho, de deixá-lo viver, experimentar, mas nunca menospreze o poder de uma mãe de sentir. Aquela ligação que eu recebi foi muito cruel, Aldo — diz ela, com olhos que não querem encher-se d’água — , mas o pior foi ver meu filho desacreditado pelos médicos e… — uma pausa e um suspiro de uma mulher muito forte — você sentir que pouco pode fazer algo. E sim, no final deu tudo certo, sim. E ainda incentivo ele a sair, a viver, mas peço para que ele sempre se lembre que eu estou aqui, sentindo, torcendo e me preocupando com ele. Porque eu nunca esqueço dele…

A noite, todos os jovens da casa se reúnem e partem para a noite na cidade de Pelotas. Entre os bares da parte antiga da cidade, no bairro Porto, pessoas felizes, bebendo e rindo. Música alta e ruas como passarelas de motos, sedãs outros carros com mais pessoas. Em uma das mesas na rua do bar onde paramos, meus amigos, minha irmã, e até mesmo um ex-colega de empresa que me encontrou aqui.

— Não creio, Aldo? Cara, estou te acompanhando pela internet. Como tu ?

— Grande Pedrão! — digo surpreso, verdadeiramente surpreso.

Bebidas nas mãos, risadas perdidas, minha irmã atenta às asneiras que saem da mesa. Bule, Rafaela, Júnior, a namorada do Júnior, Maurício, Fran, Otávio, sua namorada e mais as pessoas que se fizeram presente conosco. Os acompanho nas risadas, mas me concentro no momento e internamente me limito a estar feliz por ter mais essa amostra de como é bom estar em casa, de estar com amigos, mesmo que isso dure somente até amanhã. Amanhã, na tarde de domingo, a realidade da estrada voltará para mim, sem família, sem conforto, sem velhos amigos.

Acordo e com olhos ainda colados vejo a Andri deitada ao meu lado. Ela dorme com meu moletom e totalmente espalhada na pequena cama de casal da casa dos Ramos. Além das paredes do quarto, vozes daqueles que acordaram mais cedo. É domingo e o Bule trabalhará hoje a noite, em outras palavras, a DeJota e a Andri já estão indo embora também. Não me mexo, apenas me aproximo mais um pouco da Andri e a abraço sem acordá-la. Respiro fundo e lembro do seu cheiro. Fecho os meus olhos, embora eu não durma mais.

O motor do carro está ligado. O Bule, a Fran e o Maurício já estão prontos e acomodados no automóvel. A DeJota me dá um abraço apertado, se despedindo pela segunda vez de seu filho. Ela se esforça, eu vejo em sua expressão marcada pela idade avançada, mas o choro vem de qualquer maneira. Penso na história da Graça e do Otávio e vejo que aquele momento é o momento da minha mãe. Hoje, aceito muito melhor as emoções dela do que no passado. Não posso exigir mais força de uma mulher historicamente forte, valente. A Andri se aproxima com os olhos marejados e, não mais com o meu moletom, me abraça me fazendo ficar entrelaçado em seus longos cabelos negros. Agora é valendo, meu último abraço na mana por muito e muito tempo. A emoção me vem não só no momento do adeus, mas enquanto escrevo

A poeira levantada pelo carro que se vai, um sopro que empurra para longe de mim a minha família. Me encho de emoção à seco que já havia passado dias atrás. Agora, mais uma vez. “Puta que pariu”, é o que me vem enquanto o laranja do chão de dissipa ao vento vindo da laguna. Deslumbro o futuro próximo e me assisto diante de um trecho de estrada que me assusta, trecho que antecede minha entrada no primeiro país estrangeiro, um lugar aonde jamais estive e que pouco conheço o idioma. Hoje, entendo um pouco melhor não apenas os meus medos, mas os medos de uma mãe, a saudade de uma irmã e o valor que tem as coisas bobas, coisas como o perfume da sua família em um velho moletom azul escuro o qual não quero lavar. Deixe-me ao meu modo tentar lembrar por mais alguns dias como é estar em casa…

Segunda-feira chega, é 9 de fevereiro. É dia de dizer tchau ao Laranjal, adeus à Pelotas. O que preciso e quero agora é não ter mais intervenção do que me prenda aqui. Focado, me vou à estrada, sempre adiante.

Aldo Lammel, M&B Websérie

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