Aconcágua na Cordilheira dos Andes (consegue ver as pessoas a esquerda da imagem?) — abril/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Lágrimas dos Andes

Deixe este som de ventos gelados em montanhas como trilha (via Youtube)

Você está em pé no alto da montanha onde nada é, naquele instante, maior do que você. Você se vê forte, um sorriso lhe escapa e o vento te acerta no rosto, fazendo-lhe ficar com olhos semi-cerrados. E aquele cheiro de inverno eterno trazido pelo vento… As nuvens correm à sua frente como se o tempo estivesse acelerado, tempo que te mostra a dança das águias aqui no alto. “Que vontade de também poder pairar”, é o que lhe vem em pensamentos.

Onde você está, somente você está. Convicto, firme de si, oscilante apenas aos jogos da altitude, como um mastro de veleiro sensível ao vento. Você já não mais ajeita o cachecol que antes protegia sua boca, escolhe por dar um passo à frente e se perceber à beira do grande abismo. Insistente, tu se inclinas e seu corpo pesa. Teus braços se erguem horizontalmente como se fossem abraçar o mundo, teus olhos se fecham e você começa a mergulhar. Você nunca havia saltado de tão alto dentro de um mundo que você quer descobrir. O mundo das sensações, das experiências.

À medida em que cai dentro do azul, teus ouvidos já não ouvem nada além do chiado agudo do ar corrente gelado, as miniaturas de um chão outrora distante, crescem diante da queda. A árdua subida dos dias anteriores, resume-se em segundos na queda-livre, salto imaginado por uma longa e áspera escalada. Durante a queda, você desacelera, seu coração bate forte e, mirando suas mãos, o sente pulsar nas pontas dos dedos. Teus pés tocam delicadamente, um de cada vez, as rochas nevadas no sopé da montanha. As lágrimas rolham de olhos que sorriem enquanto tuas pernas te levam embora, satisfeito pelo feito. Você e sua indômita teimosia em aprender a voar.

Abril de 2015 — Uspallata, Argentina — Dia 68.

O ar corre em todas as direções e o ruído do vento é a única coisa que posso ouvir. Os poucos, embora constantes carros e caminhões que seguem em direção a cordilheira passam por mim quase mudos, o vento aqui os supera, sobrepondo-se a qualquer outro som. Adiante, planícies que antecedem as montanhas, um deserto elevado e protuberante de terra e poeira alaranjada, com poucos pontos onde a vida encontrou refúgio em forma de arbustos isolados. A cadeia de montanhas do lado argentino começa modesta, contudo, ao fundo, embaralhados à fronteira virtual com o Chile, vejo os picos brancos de um gelo perpétuo que, lá, impedem as nuvens de migrar de um lado ao outro. É curioso como o início de abril é frio por aqui. À sombra a temperatura cai de 22 para, quem sabe, 12 graus ou menos, mas ainda assim húmido para minha camiseta empapar de suor nas costas ao pedalar estrada acima.

Eu gostaria de dizer que tudo está planejado, mas não seria verdade. A única coisa que sei é que para chegar no Chile a partir da Argentina, um dia eu terei de cruzar os Andes para seguir para o Equador pelas praias do Pacífico. Dias antes quando eu estava caminhando pelas praças de Mendoza, vi montanhas pela primeira vez na minha vida. As pessoas caminhando na cidade mais bonita da Argentina e, ao fundo, montanhas nevadas colossais. "Nossa senhora", eu me disse, extremamente empolgado que eu teria de passar por aquela paisagem antes de alcançar o Chile. Eu não levo mapas comigo, nem GPS, entretanto as pessoas que perguntei sobre a travessia me afirmaram que a única estrada que me levaria para o Chile deste ponto do país, é a que sai de Mendoza, passa por Potrerillos, Uspallata e termina em Las Cuevas antes de começar a estrada chilena onde está a fronteira com os dois países. Era toda a informação que eu tinha: nomes de lugares e a orientação cardinal de sempre seguir para o oeste. Quilometragem de um lado ao outro? Não faço ideia. Temperaturas? Tampouco. Tudo o que quero é a sensação de estar o mais alto possível como se estivesse voando pela segunda maior cadeia de montanhas do mundo, a maior cordilheira do hemisfério sul, e conhecendo as praias onde as águas do Oceano Pacífico tocam.

Meu plano para cruzar a cordilheira dos Andes da Argentina para o Chile (via topographic-map.com)

Saí de Uspallata hoje mais cedo, um povoado turístico um tanto charmoso, mas nada além disso. O povoado funciona mais como um ponto de encontro para quem se aventurará nos Andes ou está vindo de lá. Na noite anterior, esbarrei em dois irmãos vindos da Alemanha para refazerem em moto o roteiro contado no famoso livro “Diários de Motocicleta”. Céus, aqueles dois garotos fediam… Odores à parte e eu de banho tomado em um camping horas antes, pedalo na única estrada que me levará aos Andes, aos pés do Aconcagua, ponto mais alto das Américas. São 14:00. Logo na primeira hora de subida, o pressão atmosférica maior num ponto e menor noutro, cria a corrente de ar mais violenta que já experimentei. Em meio as montanhas, no sentido oeste a leste, exatamente na direção oposta a que faço, o ar desce pela rota como se argamassa estivesse sendo despejada por dezenas de caminhões ao mesmo dentro nas fundações de um canteiro de obras. Vento denso e pesado. Me jogo em força nas pernas nas descidas mais íngremes e o que consigo é apenas me frustrar por ter de usar marchas leves onde nunca imaginei que seria necessário: em descidas.

— Não acreditando nisso — digo incrédulo com a experiência embora eu esteja rindo.

Nas últimas semanas pensei sobre minha travessia pelos Andes. As pessoas daqui da província de Mendoza se assustam quando revelo a ambição de cruzar os Andes com uma bicicleta. Outros me encorajam, dizendo que os ventos da Terra do Fogo — no extremo sul da Argentina — há ventos mais cruéis e que os ares assoprados pelos Andes eu não teria problemas. Se eu fosse dar ouvidos a todos os temores e outros alertas que chegaram e chegam todos os dias aos meus ouvidos, não teria saído de casa. Ouço as opiniões e tentativas de dissuasão com o respeito que elas merecem, porém eu vivo dizendo pra mim mesmo um grande “dane-se!” na quietude dos meus discursos imaginários e minimalistas. Para hoje, um pedal de 70 quilômetros até o Aconcagua não seria nada mal. Vê-lo, curti-lo à distância, imaginar como esse tipo de “deus de pedra” se levantou e suporta todos os dias seu próprio peso. Não é todos os dias que vemos uma montanha de sete quilômetros de altura, ou algo como 21 Torres Eiffel empilhadas uma sobre a outra. É, é alto. Quem sabe também dormir a noite de hoje no Parque Aconcagua e amanhã cedo subir mais 10 quilômetros nos Andes e chegar no povoado de Las Cuevas, esse sim um povoado que merece muito ser conhecido.

Neste momento, neste instante de existência, não consigo ao menos ouvir música devido a ventania que me impede de pedalar até nas descidas. Dá para acreditar? Além do chiado do ar passando muito rápido pelos ouvidos, começo a perder a calma por não evoluir nas distâncias. As primeiras duas horas são tão árduas que consumi quase toda a minha água numa receita que mistura ansiedade e derrota psicológica. Olho adiante e não vejo sinal de civilização. Nos últimos dias de Argentina passei a ter como companhia um trilho longo, abandonado e solitário, ora na minha esquerda, ora em minha direita. Uma lembrança de que houve uma época aonde as longas distâncias eram vencidas em trens. Tenho de assumir que há um charme em ver este trilho enferrujado comigo por tantos quilômetros, desde as cercanias de Potrerillos, três ou quatro dias atrás. As horas passam e cruzo por ruínas de estações de embarque e descarga que rabiscam com timidez sua história, nos tempos onde os trens tornavam a vida possível por aqui. Me pergunto quantas vidas foram transformadas quando os caminhoneiros na argentina ganharam a batalha política sobre os ferroviários. Se passaram 20 anos do encerramento das operações ferroviárias em quase toda a Argentina e o que tenho como companhia não passa de escombros da história que se dissolvem lentamente no esquecimento e no vento daqui.

Em cinco horas de pedal na topografia da região de Buenos Aires até Mendoza eu percorreria 110 quilômetros ou mais, entretanto, hoje não passo dos ridículos 40. Me sinto esgotado. Meu corpo não dói, mas está fraco. Minha cabeça não está dolorida, porém pulsa acelerada. No fim da luz do dia esbarro em um povoado de 60 pessoas, como de praxe, todas dentro de suas casas vivendo seu isolamento com suas antenas de TV por satélite, internet por celular e sei lá mais o quê tem para fazer por aqui. Um senhor solda algo dentro do que parece ser uma garagem feita com folhas de latão, de telhados de latão. As casas em si são todas de barro ou híbridas entre barro, alvenaria e amontoados de compensado, um aspecto de gente muito pobre.

Puxo conversa com o homem, aproximadamente com seus 45 anos, vestindo um conjunto de moletom azul-marinho e usando chinelos pretos. Um senhor forte fisicamente, provavelmente pelos trabalhos braçais construindo sua casa que parece um amontoado de materiais reciclados sem tanto alinhamento, obviamente sem arquitetos envolvidos. Pego um pouco de água com ele na esperança de ele me fazer perguntas e simpatizar com meus planos, mas ele parece pouco me dar bola. Olho para o lado e, uns 20 metros do fim de seu pátio imaginário — já que não há cervas por aqui, ainda menos ruas pavimentadas — , monto a barraca no chão pedregoso da pequena e abandonada rua do povoado. As ruas e pátios das poucas casas são da mesma cor: um cinza encardido. A esquerda da barraca, o casebre do senhor que me deu água. A minha frente, uma grande estrutura que girava horizontalmente os vagões dos trens que aqui passavam. Um grande círculo de concreto, 15 ou mais metros de diâmetro e, em seu centro, um tipo de ponte metálica com trilhos. Na borda do círculo cinza claro e todo pichado dentes metálicos que passariam por engrenagens do tamanho da cabeça de um boi caso a estrutura funcionassem. A minha direita, dois hangares parcialmente ainda cobertos por suas folhas de latão original, folhas que ainda não haviam sido consumidas pela ferrugem ou arrancadas pelo vento daqui. Acho que ali os trens ou vagões com determinados tipos de carga se escondiam das intempéries quando não estavam operando.

O povoado de Polvaredas. Não chega a 60 habitantes — abril/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Em uma parede de pedras e barro da casa imediatamente atrás da barraca, me escoro e busco sinais se estou sendo observado; não estou, nem mesmo o homem que soldava está mais na rua. Aqui encontro alguma privacidade e então choro brevemente. O dia foi voraz, discuti sozinho o tempo todo por não conseguir pedalar e não faço ideia do frio que fará a noite. Pode chegar a zero, pode ser temperaturas mais baixas, mas as lágrimas não são pelo possível frio ou baixa quilometragem do dia. Me senti fracassado, sem autocontrole diante de um desafio imposto por mim mesmo onde imprevistos como o vento e a pouca comida ao longo do dia, dificultaram as coisas. Não dá para traçar um paralelo de relação homem-mulher entre um ciclista e o vento. Nas relações há diálogo, já com o vento cujo bati-boca mentalmente — e até verbal num momento de extremo descontrole — , não há conversa. Vento é ditador, ele aponta as regras e você tem de dançar conforme sua música. Um cicloviajante, carregando suas volumosas mochilas, é uma espécie de barco à vela que o mastro está quebrado, não recolhendo as velas quando necessário. O ar corrente o sopra adiante quando o vento está ao seu favor, assim como te frena quando contra, meu caso hoje porém em um nível inimaginável. A derrota foi para mim mesmo ao não ter calma e sapiência de compreender que se não chegasse hoje no Aconcagua, chegaria amanhã. “Devagar e sempre, meu caro”, mentalizo embora saiba que não passa de blablabla de auto-ajuda que não está funcionando agora. É melhor eu dormir e dar um tempo para mim.

Segundo dia subindo os Andes — Povoado de Polvaredas.

Levanto tarde, são 10:00. O dia brilha forte, o céu está limpo como ontem, mas ainda não há vento. Desmonto a barraca, guardo tudo na bike, contudo antes de iniciar o pedal do dia peço um pouco d’água para um senhor que me fita arrumando as coisas. De tão velho e pequeno, o tiozinho parece um mestre-ancião. Seu traje de peça única me lembra um hábito marrom puído. Se o idoso tivesse orelhas pontiagudas e fosse verde, seria o Mestre Yoda ou algo semelhante disso. Dou uma risada que deve ter sido inexplicável para o velho homem mas quem liga? Um pouco de malícia não faz mal a ninguém e eu preciso rir de alguém para não rir da minha própria fraqueza mental de ontem.

Gentilmente ele me convida a entrar em sua casa, atrás de onde a barraca estava até a pouco, para pegar água para o pedal do dia. Entro na casa e me deparo com o lugar mais sujo que já estive e alguém poderia chamar de lar. Lá se vai a minha vontade de rir e volto a ter aquela vontade de “preciso sair daqui agora!” que me surge quando não desfruto de um conforto mínimo. O banheiro, com limo nas paredes e cheiro de água parada, é usado como continuação inacreditável da cozinha ao lado. Panelas sujas de arroz e purê de batata repousam na pia do banheiro as quais tive de realocá-las para sacar uma água que eu já tinha a certeza que colocaria fora assim que sair da vista do velho. Gentilmente agradeço ao Yoda, subo na Garibaldi e vou em direção ao oeste até as últimas casas do povoado. Encontro uma torneira no lado de uma residência, bato palmas mas ninguém aparece. Saco um litro d’água mesmo assim, escovo meus dentes na estrada metros adiante e finalmente inicio o pedal do dia às 12:15. Serão 30 quilômetros montanhas acima até o Parque do Aconcágua onde pretendo dormir hoje. Tudo para ser um dia simplesmente fácil.

Quando começo a pedalar, o vento me acerta como um murro de realidade na boca do estômago, mas me nego a descer da bicicleta para empurrar nas raras partes planas. Pedalo com toda minha força, não digo nada. Apenas foco na minha respiração, mas não adianta. É muito vento. Desço da bike, sento em uma pedra e como minha última fruta, uma suculenta pêra que comprei ontem em Uspallata com algumas moedas que sobrou de uma doação de semanas antes. A força do sopro é tão intensa e continua que a pouca vegetação da cordilheira, rasteira, rala e dura, sacode como sacola plástica diante de um ventilador. Bebo minha água em uma calma mentirosa que não me convence. Ainda assim, continuo a encenar como se fosse a única coisa a ser feita. Como um grande amigo meu diz nos bastidores de uma mesa de bar após ser outra vez o melhor executivo da América Latina na multinacional que atua: “Somos todos atores, meu camarada! Para tudo nesta vida…” e assim nossos copos batiam um no outro, um brinde aos negócios e finalmente um gole na minha Stella gelada. No íntimo da amizade, eu sei como o Tiago é, despido da persona que o mundo corporativo exige de cada um de nós. Entendo perfeitamente sua lição e agora ela faz um pouco mais de sentido para mim. Se eu não brigar para reassumir meu controle de costume, quem o fará? Que seja uma atuação canastrona, mas é melhor do aceitar a derrota e voltar para Uspallata e repensar outra rota.

Povoado de Punta de Vacas, Argentina — Abril/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Diante da monstruosidade dos Andes, da difícil percepção das reais distâncias, desde de ontem eu não paro de pensar no livro que ganhei da minha irmã no ano passado, livro sobre os bastidores do assassinato do Bin Laden sob o ponto de vista de um dos soldados que o caçou e, por fim, presenciou ao vivo a morte do terrorista mais procurado das últimas décadas. Não se engane, não é a caçada em si que venho recordando, mas o lema dos caras. Aquele livro foi um balde de água-fria sobre o que são escolhas e posturas extremas, homens que abdicam de tudo, vivendo uma mentira forçada por segurança, ocultando sua real profissão e importância da própria família nos raros casos quando há família; viver apenas nas cercanias de bases militares e se mantendo em constante vigília; jamais se distanciando da base a ponto que seja necessário mais de uma hora para se estar dentro de uma reunião de briefing enquanto no pátio próximo os motores dos aviões ou helicóteros estão sendo ligados para levá-los ao combate em qualquer canto do mundo, sob as situações mais obscuras de detalhes além dos fundamentais para cumprir a missão. O lema dos caras não martela minha cabeça com a frase “O que você faria se não tivesse medo?”, entretanto é uma frase simples e enquadrasse com sabedoria na gestão de expectativas que você e eu devemos ter do nosso dia-a-dia, seja num desafio de planejar uma trip, de executá-la; seja no escritório, caçando resultados.

Depois de quase cinco horas pedalando e empurrando a bike a pé, novamente sem água ou comida pronta para mastigar, estou no último quilômetro que me separa de um dos momentos que mais aguardei na viagem pela América do Sul, minha chegada a base turística do Aconcágua, pico mais alto do continente. O dia está lindo, o entardecer vem vindo e o mostro de pedra está tomado pela neve que nunca lhe deixa. “Quantas vezes te vi em fotos, velho?”, digo calado olhando para o Aconcágua que parece se mostrar de lado para mim. Com a raiva das frustrações do dia e das horas anteriores, jogo todas minhas vontades nas pernas para subir os 1.500 metros da estrada que me separam do mirante principal do parque. Fecho a cara por debaixo do scarf e pedalo nas marchas mais leves da bicicleta, em alta cadência de giros nos pedais montanha acima. Os anteriores das coxas começam a queimar, mas aqui o vento é lateral e ele me ajuda não me atrapalhando. Pessoas descem a mesma estrada especial para quem vai até o mirante. Tem gente de todas as nacionalidades do sul da América aqui, parecem satisfeitas com as fotos que fizeram lá em cima. Sinceramente a ardência muscular do esforço da subida me faz olhar fixo para o chão imediato à minha frente enquanto pedalo. Uma subida de 30 a 35 graus de inclinação com 48 quilos da bike e equipamentos e mais meus 75 exigem de mim foco para esquecer do cansaço, da fome, da cede, das pessoas a volta. Esses metros eu quero muito fazer como idealizei, chegando no destino em bicicleta, desfazendo a montaria cansado porém sorridente por ter conseguido e se alguém me perguntar como foi, quero dizer que foi demais. É uma necessidade conseguir! E, nos metros finais — nunca vou esquecer disso — , além dos músculos queimando e meu pâncreas explodindo na dor abdominal lateral pela ausência de oxigênio suficiente na corrente sanguínea, um casal de namorados que desce do mirante, pára sua descida e passa a me aplaudir. Por baixo do scarf, sem o casal saber, lhes entreguei meu sorriso mais sincero e os agradeci por aquilo em pensamentos. Parando a bike na entrada do mirante, deixo a bike com um dos guias, mato minha cede no cantil que um deles traz e percebo que toda a área é controlada e não há qualquer possibilidade de um entrar no vale sem ser percebido. Eu seria preso nos primeiros passos. Caminho até o mirante, desviando da multidão que sai e entra naquele espaço arredondado em cima de um pequeno morro de grama cercado por vigas de madeira arredondadas. Faço apenas três fotografias em sequência sem as conferir, pondo a câmera no bolso traseiro da camisa de ciclismo e pulo a cerca. Eu preciso chegar mais perto. Um guarda grita algo, mas finjo não ouvir. Caminho uns 10 metros e vi que seria impossível tocar a montanha daquele jeito. Sorrio e dou meia-volta pulando a cerca novamente.

— O senhor não pode sair da trilha — exclama o guarda comigo, segurando seu rádio com uma das mãos enquanto ajeita seu boné com a outra.

— Pois é — digo-lhe respeitosamente embora sem o entregar minha real atenção, o tocando no ombro e seguindo meu caminho até a bike.

Subo na bike e agora percebo o rostos dos turistas. Alguns me olham, possivelmente imaginando que tenha sido difícil subir até aqui com uma bike, quem sabe apenas imaginando se a roupa que uso, totalmente estampada com a bandeira brasileira, represente de fato donde estou vindo. Ou, ainda, apenas me fitam por estar usando roupas apertadas e distintas do resto dos turistas. “Não sou um turista”, penso como se alguém me fizesse essa pergunta. Que seja, começo a descer aqueles mil e quinhentos metros até a estrada.

Eu ainda tinha dez quilômetros de subidas até chegar em Las Cuevas, fronteira da Argentina com o Chile aonde dormiria hoje, mas quem se importa? Por fim, naqueles 1.500 metros, eu tinha uma descida e conseguia ouvir minhas músicas. Uma e outra lágrima me escaparam e então as deixo vir por debaixo do óculos espelhado, contudo, dessa vez, estou surfando nas melhores emoções da conquista. Não por ter vencido o vento, porque não o venci, ele não pode ser vencido ou domado por uma bicicleta. Me emocionei por ter aceitado — no final das contas — que nada eu podia fazer além de ter paciência com ele e comigo. Dois dias tremendamente longos… Diferentes do que imaginara para mim, não acampei na porra da montanha, mas ainda estou dentro da minha entrega, da minha viagem, do meu salto visceral para o interior de um mundo a explorar ao vivo, a cores. Que se explodam os detalhes das situações perfeitas; eu só queria, naquele momento da descida, curtir minhas lágrimas de conquista, lágrimas tão destas montanhas quanto minhas.

Naquela noite, em Las Cuevas, há 3.400m, zero grau— Abril/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)
Vídeo onde conto um pouco sobre essa travessia (Aldo Lammel)

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