Aldo Lammel, CC BY-NC

Invadindo as Estrelas

Os sonhos voando como dente-de-leão, tão leves que se vão para longe de mim antes que eu consiga esticar o braço e pegá-los enquanto pedalo. Dizem os sábios que a persistência é o caminho das conquistas, das realizações. Então, mesmo com todos os músculos pedindo-me para encerrar o dia, continuo pelo caminho que tracei, perseguindo o dente-de-leão quase inalcançável que toca, no oscilar dos ventos, as pontas de meus dedos. E assim conquistei a Cordilheira dos Andes, a cruzando por completo da Argentina ao Chile pelo caminho de Paso de Los Libertadores em 4 de abril de 2015. Que lindo lago de águas azuis me recebe à minha direita e logo desço a mundialmente conhecida Los Caracoles, um trecho de estrada que serpenteia literalmente uma das paredes cordilheira como o rastro as cobras deixam na areia. Daqui até a base das montanhas, são 40 minutos de descida intensa, tempo que uso para ficar de pé sobre a bicicleta e cantar em voz alta a medida que carros, ônibus e caminhões passam em direção contrária. Depois de ter meu primeiro e ótimo contato com as bem pavimentadas rodovias chilenas, cruzando um túnel quilométrico com a ajuda cordial da equipe de manutenção da via, chego na capital chilena com um endereço em mãos. É curioso ver uma cidade tão grande com um de seus flancos ostentando montanhas da pré-cordilheira, é algo que me impressiona positivamente, diferente da névoa cinza com laranja que engole os edifícios mais distantes. Poluição? Não sei! Encontro o elegante bairro Providencia, zona central da cidade, aperto o interfone e sou recebido. Estou na casa dos Talevi, família que tem lugar vitalício em camadas intermediárias das minhas lembranças. Dos 15 dias que passo na casa do Eros, revendo o Flávio que eu não o via há pelo menos oito anos, sete dias foram sozinho conforme a família viajá-la pelo Brasil. Uso a primeira parada longa da viagem para me tatuar, escrever, aprender a fazer feijão e caminhar pelas ruas da bonita Santiago do Chile, ansiando para começar a pedalar novamente e seguir na direção do Deserto do Atacama, onde alguns sonhos habitam.

Aldo Lammel, M&B Websérie

Deixo a capital do Chile duas semanas após a chegada e seguindo para o oeste, na direção da costa, o Oceano Pacífico me vê pela primeira vez. Pedalo firme por dias na direção agora para o norte. Acampado em praias nortenhas desérticas, assistindo no final das tardes as ondas chocarem-se contra as pedras negras, grandes, lisas e escorregadias. Sou eu meditando ao meu modo: sóbrio, consciente, lúcido, sentado dentro da barraca, observando o cenário e me agradecendo por ter me colocado nisso tudo. E tudo aqui é rude. As coisas são duras nesta terra, só assim a vida vencer a batalha contra o árido. Onde estão as pessoas? Poucas estão no Deserto do Atacama, a região é despovoada e quando há casas, não passam do que você pode chamar de vilarejos, uns com cinco casinhas, outros com menos de 30; e lá se vão mais e mais quilômetros de nada até o próximo lugar onde me abastecerei de água e comida. Aliás, quando a água me falta, deixo a bicicleta no acostamento da estrada, ergo a garrafinha d’água e com pouco de paciência aguardo caminhões verem a garrafa, meu sorriso, minha bicicleta e pararem para me presentear com mais água. Já a comida, tenho massa instantânea, leite em pó e achocolatado para muitos dias junto ao deserto.

A verdade por detrás desta vontade de seguir para o deserto a qualquer preço, com uma bicicleta, sem telefone, sem GPS e sozinho, é que lá estão os troféus que mais almejo na América do Sul. Tudo aqui gira em torno de desejos tão antigos que jamais realmente acreditei que os buscaria. Agora que estou tão perto, o sangue me vem aos olhos e o impulso de fazer acontecer é muito maior do que eu. Aliás, esta viagem vem usando seus parágrafos para dizer para mim quem realmente sou. Eu só espero não me matar em minhas aventuras…

Entre Santiago e Viña del Mar (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Capítulo Um

É quarta-feira, 13 de maio de 2015, estou saindo da nublada e agitada cidade costeira de La Serena em direção ao Valle de Elqui, cerca de 60 quilômetros ao leste em direção a Cordilheira dos Andes pra conhecer o gigante Victor. Diferente de um primeiro momento, Victor não é alguém, uma celebridade. Ele é uma coisa, uma máquina. Um telescópio gigantesco, de olhos inclinados para cima, varrendo a imensidão noturna em busca do passado, do presente e do nosso futuro evidenciado. Ele está instalado no observatório internacional conhecido como CTIO, dentro do Valle de Elqui. O vale é muito turístico pela altitude, pelos vinhedos, pelo charme dos povoados, mas pouco me interessa tudo isso, verdade seja dita. Estou aqui pelo Victor e pelo céu que ele espia. Astrônomos, astrofísicos e outros estudiosos sonham em passar algumas noites operando o Victor, observando o pedacinho do céu onde as estrelas mais brilham para a Terra. E eu me imaginando apenas deitado do seu lado, lá do alto das colinas da pré-cordilheira, fitando pra cima, contemplando as gotículas de prata que oscilam no escuro da noite e que por muitos e muitos anos acreditava-se que eram imutáveis como a essência de cada um de nós.

— Mas hoje é dia de semana. Se o CTIO está operando não há visitação — diz Carl, um amigo que pedala comigo para dentro do vale.

Carl é estadunidense e o conheci em uma sessão de cinema em 1997 em Porto Alegre. De lá para cá, não perdemos mais contato, certamente pelos interesses em comum como pelo fascínio que a astronomia exerce sobre a gente. Antes da minha viagem começar no último janeiro, combinei com Carl de nos encontrarmos em alguns lugares, lugares como o CTIO. E cá está ele. Um bom amigo de contemplação.

— A gente dá um jeito — digo à Carl, descendo da bike diante da guarita do que mais parece uma base militar do que um observatório astronômico.

“Área restrita”, “Zona de Alerta Vermelho”, são algumas das mensagens escritas em inglês em placas distribuídas por aqui, um lugar terroso, laranja engolindo uma construção branca encardida até o primeiro metro de paredes a partir do chão.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— Olá — digo ao soldado que levanta da cadeira e sai da guarita anexada ao que parece um escritório logo atrás. Faço a pergunta — , como estás?

Sem sorrir ou ao menos me responder, o soldado, prendendo seu rádio de comunicação à cintura, somente se aproxima de mim, mais ou menos ficando há uns dois metros.

— Gostaria de conhecer o observatório agora, devo preencher alguma ficha? — falo com um enorme sorriso na cara para o rapaz de no máximo 24 anos.

— Não há o que preencher, senhor. Em dias de semana o observatório está operando e não é permitido visitação.

Olho para trás, para Carl, que me devolve uma mistura de olhar gracioso e debochado, como quem diz “é, eu imaginei”.

— Entendo — digo ao jovem soldado — , mas vim do Brasil até aqui justamente para ver o Victor operar_ _ _

— Senhor — diz o soldado me interrompendo enquanto põe suas mãos na cintura — , isto é uma área internacional que opera em sigilo. Visitação apenas aos finais de semana e com carros autorizados, não em bicicleta.

Olhando sobre os ombros do militar, para a estrada de terra que se contorce em uma subida leve para dentro do vale por detrás do jovem, eu pergunto ao rapaz — Olha, façamos algo diferente, você me põe em contato com seu superior e eu negocio minha entrada.

— Entendo, senhor — diz o soldado pela primeira vez com ar mais empático, tirando as mãos da cintura e repousando-as sobre a cancela pintada de listras branca e vermelha entre nós — , porém aqui é um território dos Estados Unidos — olho rapidamente para trás, mais uma vez para Carl, que agora dá um sorrisinho cretino para o lado — e que opera em alerta vermelho. Aqui, qualquer violação das regras da AURA pode ser considerada crime internacional. Sem um carro autorizado num sábado, não há o que o senh_ _ _

Desta vez sou eu quem interrompe, agradecendo ao soldado e girando a bicicleta para a direção de quem vai embora.

— Pelo menos nós tentamos — diz Carl empurrando sua bicicleta ao lado da minha, nos distanciando uns 100 metros da guarita.

— Quem disse que não vamos entrar? — faço a pergunta.

— E o que o rapaz disse, vamos desconsiderar? — diz Carl olhando ligeiramente para a guarita atrás de nós, que se distancia.

— Vamos esconder as bikes

— Crime internacional, Aldo!

— E subir essa porra à pé pelas colinas agora a noite.

— Detenção! Deportação! — diz Carl quase sussurrando ao meu ouvido, mas mesmo nervoso transmite um ar de tranquilidade e coerência em tudo que diz.

São 17:45 e meu amigo e eu estamos há 300 metros da entrada do observatório, empurrando as bikes para dentro de um raro arbusto ao lado da estrada da guarita, única estrada até o Victor. Um cenário alaranjado, terroso, seco, de pontos verdes isolados e geralmente compostos de cactos e outras plantas espinhosas ou sem folhas, virtualmente mortas.

— O que é essa “AURA” pergunto eu ao vento — ajeitando a pesada mochila nas costas.

— O observatório, o CTIO, é uma das bases de observação do espaço espalhadas pelo mundo — diz Carl com olhos preocupados, quebrando galhos folhados e os pondo meticulosamente sobre cada parte ainda expostas das bicicletas dentro do arbusto — e todas estas bases respondem para a AURA que é uma_ _ _

— Bacana, bacana — falo baixinho pegando a mochila de Carl e a entregando à ele acertando seu peito — , eu viajei até aqui e vou dormir lá em cima com ou sem permissão da AURA.

Carl não diz nada, apenas pega a mochila e confere o relógio com o semblante visivelmente tenso.

Olho excitado por cima do arbusto onde as bicicletas estão com nossos equipamentos, estudando o que temos pela frente. Como todo vale, há montanhas a nossa direita e esquerda, convergindo em um estreito na base das montanhas, lugar onde a água correria se aqui chovesse, lugar onde é mais fácil construir estradas, lugar que gosto de chamar de corredor. Um corredor de aproximadamente mil metros de largura e de comprimento incerto para mim, serpenteando para o céu no meio das montanhas e colinas onde Carl e eu teremos de passar.

— Está escurecendo rápido — diz meu amigo de origem ucraniana, com cabelos finos, negros e cumpridos o suficiente para esconder suas orelhas, vindo logo atrás de mim, em direção a parede esquerda do vale.

— Pois é. Vamos flanquear a guarita subindo por estas colinas — aponto para a parede esquerda do vale com a cabeça — e assim que cruzarmos para dentro deste tal AURA, a gente desce para a estrada.

— Para a estrada? Irão nos ver se andarmos por lá! — exclama Carl esforçando-se para subir a primeira colina de 300 metros e tomada por cactos de espinhos inimagináveis.

Olho para trás e para baixo, na direção onde está o arbusto com as bicicletas. É, não dá para ver que nossos equipamentos estão ali, uns oito mil dólares soltos dentro de uma moita no que fora, milhares de anos atrás, um rio descendo entre as montanhas do vale. Todavia, a área é muito grande para alguém, do nada, ir fuçar naquela moita em específico, tão pouco agora que está ficando escuro e o povoado mais próximo daqui está uns quatro quilômetros ou mais. — Assim que cair a noite, saímos das colinas e vamos para a estrada. Lá a gente fica atento, sem ligar lanternas. Se um carro aparecer, saímos para da estrada até as coisas se acalmar.

Carl dá uma risadinha — Cara, você vê muito filme! — ele diz, cuidando para não espetar-se nos espinhos de quase 15 centímetros dos cactos, continuando — e quantos quilômetros até o Victor?

Ainda não sei bem como pude não fazer esta simples pergunta ao soldado da guarita. Não ter noção da distância que temos pela frente ao invadir o CTIO é uma imprudência dentro da imprudência. Não vejo como responder ao Carl a não ser usando da franqueza que o momento merece.

— São 10 quilômetros.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— Duas horas de ida, uma hora curtindo o Victor e duas horas de volta — diz Carl olhando por cima de seus ombros, enxergando a guarita ficando para trás lá embaixo e com semblante satisfeito pela maluquice que topara fazer comigo, algo que não é de seu perfil — , então chegaremos de volta nas bikes mais ou menos às — ele olha para o relógio em seu pulso esquerdo — … 23:00.

— A gente dormirá lá. A barraca está na sua mochila, inclusive — digo enquanto mudo de assunto, apontando minha mão esquerda para uma parte mais baixa da colina onde estamos, para uma pequena cabana com um cercado tosco com uns 40 carneiros.

Carl dá um tropeção numa pedra solta que rola pela parede da colina — Dormir lá? Você está louco?

— Como alguém pode morar naquela cabana no meio do nada?

— Aldo, estou falando sério. Não iremos dormir lá!

Giro os calcanhares, ficando de frente para meu parceiro de aventura, o dando um tapa de leve nos ombros — Cara, a gente vai dormir sob o céu mais estrelado do nosso mundinho — falo, lhe entregando olhos vívidos que deslumbram as estrelas e planetas mais reluzentes no crepúsculo que começa a envolver o Vale de Elqui agora.

— Se você não escrever sobre isso ou não me transformar num herói eu juro que não faço mais as tuas vontades — diz o nova-iorquino me dando um leve empurrão para seguir adiante.

“Você sempre será um herói pra mim, seu medroso”, fico quieto em meus pensamentos.

A noite cai e o frio começa a vir mesmo faltando um mês e uns quebrados para o inverno. O Valle de Elqui, há dois mil metros de altitude, já é gelado nestas incríveis noites límpidas e sem luar de maio.

— Reparou que não há lua? — pergunto ao Carl que está indo na frente, descendo a colinas em direção a estrada. Passou a ficar muito arriscado caminharmos aqui em cima. Um escorregão e podemos perder um olho nestes cactos ou até mesmo cair e rolar colina abaixo.

— Não é que não haja lua aqui — diz Carl com sua clássica forma dócil e acadêmica de explicar as coisas — Há luar em qualquer lugar da Terra, talvez não nos pólos em algum momento do ano, mas não é o caso.

Começo a fazer um “mimimi” inaudível logo atrás de Carl, com caretas ironizando como se eu fosse um palestrante cheio de caras-e-bocas. São 19:30 e a escuridão vem chegando.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— Estamos em uma região do planeta que, somada a altura do vale, não seja possível ver a nossa lua neste horário. Um dos motivos do Victor ter sido construído por aqui.

— Como assim? — pergunto eu.

— Lembra que vínhamos falando enquanto pedalávamos que o observatório deve estar distante o suficiente das luzes da cidade?

Digo um “Hã”, jogando uma pedrinha na parte detrás da ridícula jaqueta caqui que Carl usa; que agora no escuro está mais para cor de cocô. Pior que ela só a blusa de gola alta que meu amigo usa por baixo. Não sou entendido em moda, mas me parece que isso é moda dos anos 70.

— Quando enxergamos a Lua, ela geralmente está clara, isso porque a luz do Sol a pinta daquela cor — explica Carl enquanto gesticula com leveza entre um tropeção e outro no escuro quase absoluto no plano do vale, no corredor. Ele continua a palestra — e como a superfície da Lua é composta de uma poeira cinza-clara, o brilho do Sol é refletido para nós, por isso a Lua brilhando não é bom para o telescópio. Ofuscaria suas lentes delicadas.

A única coisa que reflete luz que me interessa agora é a estrada cujo nós estamos nos aproximando. A rota que nos levará ao Victor é feita com a mesma areia do deserto que nos rodeia, uma terra alaranjada, entretanto, como a terra da estrada foi compactada e desprovida de pedras e plantas, o tom dela é muito mais claro, uma faixa branca tímida e poeirenta no meio da noite, refletindo o brilho das estrelas. Aliás, que brilho! Ao subir para a estrada, um metro e meio mais alta que o deserto a sua volta, pela primeira vez Carl e eu reparamos de verdade no céu noturno em seus primeiros minutos de hoje.

— Sensacional — digo.

Vênus visto de dentro do vale no crepúsculo e, abaixo, as luzes da guarita ficando para trás — maio/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

— E pensar que somos poeira das_ _ _ — o nova-iorquino se interrompe — Está vendo aquela luz vermelha piscante?

Por um segundo não faço ideia do que Carl diz, mas logo vejo também. Na nossa frente, na direção de quem sobe a estrada do observatório, no céu logo acima das colinas mais distantes, uma luz avermelhada liga e desliga a cada segundo, intercalando com o piscar de outra luz, porém branca, como as luzes de segurança nas pontas das asas de um avião comercial. Assim como um avião na noite, não conseguimos ver o avião em si, mas apenas suas luzes piscando no céu, o mesmo ocorre aqui. O curioso é que as luzes fazem movimentos circulares, curvas tão fechadas que seria impossível um avião de pequeno porte, comercial ou militar realizar tal manobra.

— Fazendo uma curva para a direita, né? — comento.

— Muito fechada, por sinal — diz Carl logo em seguida.

— Um helicóptero?

— Faria mais sentido, mas não há som. Ouve algo?

No centro-norte do Chile não há insetos, não há animais em abundância. Inclusive em muitos pontos não há vida alguma, somente relevos acidentados com meia dúvida de brotos persistentes e tão esporádicos escondidos entre as pedras que o cenário é sempre bege ou laranja encardido. Onde estamos, mesmo sendo dentro do Valle de Elqui, um lugar tomado por vinhedos e vida, é desértico, um lugar a parte dentro da própria exceção. Dizem que quando os cientistas descobriram essa região do Valle de Elqui, quase sem vida alguma, silenciosa e alta no hemisfério sul, ficaram extasiados e logo já haviam máquinas trabalhando e erguendo o Victor nos anos 60 no que foi considerado “o céu mais limpo” da Terra.

— Não, parece não emitir som. O único som que tem aqui é o da gente caminhando — comento eu.

— E essa mancha prata nas colinas da nossa esquerda? — observa Carl mais uma vez.

— Cara, ou tu é esquizofrênico e está me contagiando ou tu tens uma visão ninja.

— Não seja bobo, Aldo — diz Carl segurando meu braço direito na altura do cotovelo, me fazendo parar junto dele — Olha bem, tem uma mancha nas montanhas à frente que não havia antes.

— Cinza, prata, sei lá, acho que estou vendo também. Bem sutil…

Nós dois ficamos alguns segundos intrigados forçando a visão ao cerrar os olhos, tentando dar mais nitidez ao que vemos e, de forma involuntária e inútil, projetando nossas cabeças centímetros para frente ao esticar os pescoços. Com a cortina prateada que começa a ficar levemente mais clara, um som quase imperceptível preenche o vazio silencioso da noite mais escura que já vi na vida. Hipnotizados. Essa é a palavra. Carl e eu parados como dois manequins empoeirados no meio da estrada de areia clara, perplexos com a fantasmagórica luz que se contorce como fumaça quase invisível nos sulcos das montanhas a nossa frente, montanhas as quais sabemos que estão ali apenas porque as estrelas não brilham abaixo de suas enegrecidas silhuetas irregulares. Num piscar de olhos, em uníssono, o nova-iorquino e eu dizemos quase ao grito: carro!

Eu me jogo para o acostamento do meu lado, para a esquerda, tropeçando no invisível monte de terra feito pela patrola que um dia alisou a estrada. Carl, diferente da lógica, ao invés de pular para a direita, corre na mesma direção que eu, também tropeçando no monte terra que contorna os dois lados da pista, caindo com a bunda em cima do ombro do meu braço que me prendia a uma planta morta ainda presa ao barranco, não me fazendo escorregar totalmente para fora da estrada. Com o impacto, nós dois rolamos barranco abaixo, parando deitados no nível do deserto, quase dois metros abaixo da estrada. Mesmo os dois querendo cuspir toda a terra que comemos — que mais parece talco — , ficamos quietos, provavelmente paramos de respirar — eu parei — para aguardar o carro passar. Como corremos, tropeçamos e rolamos, levantamos muita poeira. A luz do carro, antes prateada enquanto fazia uma curva, pintando as colinas distantes a nossa frente, agora está apontada diretamente para a estrada no exato ponto aonde estávamos segundos antes parados como duas estátuas. Totalmente bege está a luz vinda dos faróis dianteiros do carro, cor da poeira que Carl e eu criamos com o susto. O som, estridente agora, é de um carro potente em boa velocidade. Eu ainda não respiro e meus olhos estão arregalados de apreensão.

Donde estamos, no barranco esquerdo que antecede a estrada elevada em sua própria areia compactada, não enxergamos a estrada em si. O que vemos é apenas seu contorno do topo do barranco, maquiado por uma nuvem bege revelada pela luz do automóvel que passa por nós sem qualquer sinal de desaceleração. A nuvem de pó que era bege, agora é avermelhada, vermelho sangue. Vermelho da cor dos faroletes traseiros do carro que desce o vale.

Dou uma gargalhada e comento — Puta que o pariu, isso foi demais! — engatinhando no barranco de terra solta da base da estrada acima — , mas da próxima vez pula para o teu lado, o animal.

— Para o meu lado? Eu não fazia ideia para qual direção eu estava correndo — resmunga Carl com ar irritado — Eu tenho terra até dentro dos ouvidos.

Aldo Lammel, CC BY-NC

As horas foram passando, o frio abraçando mais forte a noite e Carl e eu seguíamos subindo a estrada na penumbra, se orientando apenas com a visão periférica que revelava uma estrada mais clara que a noite.

— Que horas são? — pergunto ao Carl enquanto giro para o lado do acostamento para mijar.

A voz de Carl, que soa cansada e há uns 15 metros adiante na estrada, responde 21:30. Nós estamos caminhando tem três horas e meia em marcha rápida, mesmo para a escuridão. Embora a pista seja de terra, ela está em excelente condições e nela meu parceiro e eu conseguimos fazer seis ou mais quilômetros por hora com mochilas de poucos quilos cada. Seguramente Carl já percebeu que superamos os 10 quilômetros até o Victor, distância que estimei no início da caminhada. O Victor é enorme, com ele há outras dezenas de telescópios menores em um completo da CTIO que envolvem outras três colinas vizinhas, todas seguramente sinalizadas pelo alto nível de informações que correm por lá. Já deveríamos estar vendo os telescópios com muitos quilômetros de antecedência.

— Está seguro daquela estimativa? — magicamente pergunta meu amigo.

— Eu menti — digo enquanto dou uma sacodidinha, recolho o moço e fecho o zíper da calça coyote barata para trekking, continuando — , não faço a menor ideia.

Carl não diz uma só palavra por alguns segundos.

— Você sabe que podemos ter mais 10 ou mais quilômetros pela frente?

— É, é uma merda!

— Merda? Já estou ficando sem água. Isso não te deixaria nervoso?

— Tenho apenas meio litro agora — digo eu me aproximando da direção da voz de Carl — , mas não vale a pena voltar. Olha para esse céu, é certo que o observatório já está perto.

Concluo a frase prestando atenção a um novo par de luzes acima da gente. Agora são dois pares vermelho e branco, se comportando ambos da mesma forma, girando em sentido horário, sem emitirem som algum, tão altos quanto as montanhas, mas próximas o bastante para percebemos com clareza suas luzes piscarem. Chamo a atenção do amigo que fica igualmente surpreso.

— O que são elas — a voz de Carl está do meu lado direito e apontada para a direção que temos de seguir na estrada — e porque voando por aqui?

— Acho que são drones!

— Já pensei nisso também, mas porque sobrevoariam o observatório a noite? — pergunta o nova-iorquino que começa a se movimentar novamente para frente.

— Um sistema de segurança? — especulo eu, seguindo o som dos passos de Carl que está alguns metros à frente.

— Como sempre, serei sincero contigo — diz meu parceiro me alfinetando ao tocar na palavra “sinceridade”. Ele diz em seguida — Isso vai nos matar.

— Que drama, velho. Esses drones vão fazer o que? Atirar na gente?

— Me refiro a falta d’água, Aldo. Isso não é drama para quem tem, na melhor das hipóteses, quatros horas de caminha para voltar ou a incerteza absoluta para continuar.

Eu prefiro ficar quieto. Carl tem razão. Não fui sincero com ele e, sendo justo, nem mesmo comigo. Sai de La Serena podendo ter essa informação em mãos, mas achei que seria um pedal até o Victor e não uma cruzada estilo Forest Gump a noite. Lembro de ter lido algo com “10 quilômetros” e por comodismo, preguiça ou ansiedade, associei como a distância da guarita até o Victor.

São 22:00 em ponto e Carl e eu nos abaixamos instintivamente ao chegarmos ao topo do trecho da estrada onde estamos. Um par de luzes, dessa vez somente brancas parecem estar lado a lado bem na estrada, em nossa direção, como as luzes de um carro apontando para nós. Carl deduz não ser um carro, mas a luz de uma outra guarita. Por via das dúvidas, como estamos no topo de um grupo de colinas onde a estrada foi entalhada, não há como saltar para as laterais da pista. A estrada está literalmente cortando a colina e o máximo que temos nos acostamentos são paredes de terra e pedra com quatro ou cinco metros de altura, quando as estrelas passam a aparecer acima da silhueta das paredes.

— Vem — digo — que eu acho que tu tens razão. Não é um carro.

— Está bem, mas devagar — sussurra Carl que corre para frente, na minha direção, agachado. Estamos tão altos agora que parece que há um pouco mais da escassa luz que ilumina as coisas aqui. Passo a enxergar a silhueta de Carl a 20 metros de mim com menos dificuldade.

Começamos a nos aproximar da pequena luz, mas logo descobrimos que ela não é pequena porque estamos distantes do objeto e sim porque ela é pequenina mesmo. E surpreendentemente próxima. Próxima até demais. Um par de leds presos em um painel de um poste solitário meia quadra de nós.

— Podia jurar que estava longe da gente — diz Carl com um pouco de humor na voz, finalmente.

— Toma cuidado que parece que a queda é alta daqui — falo olhando para trás do poste que está instalado em uma curva no alto da colina. Forço o olhar para baixo, entretanto não consigo nem imaginar a profundidado do “abismo”. O fundo esta escuro demais para prever uma altura. — O que diz a placa?

— Aqui diz “Rádio de Emergência”. Tens instruções em inglês e espanhol aqui — avisa Carl, dando um passo para o lado direito para me dar espaço e também ver as instruções.

— “Rádio de Emergência #2” — faço a leitura da chapa metálica azulada preza a um poste com uma placa de energia solar fixada ao topo. — “Pressione o botão vermelho e repita as instruções ‘Aqui é Tololo #2, necessito de ajuda agora’. Se não obter resposta em cinco segundos, repita a mensagem”.

— Caramba! — comenta o nova-iorquino em seu vocabulário mais coloquial.

— Isso aqui está parecendo o Lost.

— Não, não — diz Carl como se estivesse pensando alto — , se este é o rádio #2, onde está o #1?

— Não vimos luzes assim antes — comento me dando conta que se há numeração nos rádios, provavelmente não são apenas um ou dois rádios, devem ser mais. E, para piorar, bem espaçados um do outro.

Rádio (Aldo Lammel, CC BY-NC)

— Cara, sinceramente esgotado — fala meu parceiro, agora com o tom da voz sério e sólido, se posicionando e, de certa forma, exigindo uma providência da minha parte. — Pedalamos três horas subindo até o vale e agora fazendo mais estas quatro horas de caminhada com mochilas, chega, Aldo! Deve ter no mínimo mais dois ou três rádios de emergência antes do observatório nesta estrada. Depois de todo esse tempo caminhando, estamos apenas no segundo rádio? Chega!

Eu detesto ser posto na parede. Eu já faço isso comigo o suficiente para não querer que outra pessoa o faça.

— Vamos fazer o seguinte, procuremos um lugar plano e que nos mantenha escondido dos carros. Montamos a barraca, dormimos e levantamos cedo para voltarmos ou pedirmos ajuda ao primeira carro que passar — sugiro imediatamente, respeitando a postura do Carl, mas não estando certo se é isto mesmo que eu quero fazer.

Saímos do rádio, entramos na curva para esquerda onde o rádio está e, logo em seguida, fazemos uma curva e descida para direita. Nesse momento sentimos leves movimentos do ar, não vento de verdade, mas uma brisa, pela primeira vez durante toda a noite.

— Além de não chegar nunca nessa merda de telescópio, estamos descendo — reclamo em voz alterada enquanto um cão, do nada, passa a latir ao fundo.

Cansados, estressados cada um a sua maneira, dois homens caminhando na escuridão fria e agora assopra não somente uma brisa, mas o som incessante de latidos. Embora seja o primeiro som familiar em horas, é irritante ouvir um latido por segundo ao longo de vários minutos.

Carl, bem mais calmo do que eu, pergunta — Cachorro aqui?

Não falo nada por um tempo, tentando silenciar o cão com a força do pensamento, mas não funciona. O problema não é o cachorro, mas ele não está ajudando — Deve haver outra cabana de pastor — eu falo.

— Eu só queria que esse cachorro cala-se a boca — resmunga o filho de pais ucranianos enquanto, finalmente as latidas ficam mais distantes e mais espaçadas.

Não lembro de ouvir Carl falar de forma mais agressiva. Um “cala a boca” vindo dele requer muito esforço da pessoa mais dócil que conheço. Dócil ou não, eu preciso pensar como faremos agora, com apenas uma barraca, um saco de dormir, sem isolante térmico, no meio do nada, frio pra cacete e sem qualquer ideia factível de onde estamos e quanto em distância nos resta.

Calmamente, sem qualquer traço de empolgação — Aldo, olha bem para cima na nossa esquerda. Adivinha!

Eu queria muito acreditar que ele chama minha atenção para dizer “Ei, chegamos no Victor”, mas não. São as malditas luzes piscantes mais uma vez. Contudo agora são três pares e em posições diferentes. Olho para cima e volto a olhar o fantasma esbranquiçado da estrada à frente — Oficialmente temos uma triangularização, parabéns, Carl — digo transbordando sarcasmo, irritado e dando passadas um tanto mais largas que antes.

— Só pode ser drones — diz Carl com voz já sonolenta, melancólica — , não tem outra explicação. Se nós tivéssemos chegado no observatório, eu perguntaria…

— CALA a boca, Carl — grito e imediatamente baixo o tom da voz, expondo genuinamente a falta de controle emocional que tanto detesto nos outros, continuando — Dá um tempo para a cabeça, fica quietinho um pouco para eu pensar. É pior que o cachorro.

E o cachorro volta a latir com maior frequência dentro da escuridão atrás de nós.

Quando tudo passa a dar errado, tenho o hábito involuntário de auto-punição e se por ventura alguém estiver a minha volta, respingo a velha mania em quem não tem nada a ver com meus cheliques emocionais, com meus momentos de extrema frustração. Afinal, fui eu quem convidou Carl a estar aqui e ele, tão gentil quanto uma amizade verdadeira pede, fez tudo o que inventei. Minha cara nunca engana, testa contraída, lábios esmagados um contra o outro e fossas nasais dilatadas. Porém, aqui e agora, minha cara está oculta na escuridão e Carl não me conhece como eu o conheço. Minha frustração por não encontrar o observatório e ter, talvez, de pedir ajuda para voltar, se manifesta no escuro através de passadas pesadas e na aspereza das minhas palavras. Eu só queria que o Carl não se manifestasse por um tempo.

Já pensei longas horas sobre o porquê de me punir tanto. O fato é que quando me puno, uma pequena parcela de mim me defende na quietude de uma conversa imaginária. Essa fatia, eu não a quero! É a parte medíocre, a parte cheia de desculpas que vai encontrando e inventando argumentos para aceitar uma situação mais-ou-menos. Um pingo de concentração, quieto no meu mundo, vou rebatendo cada desculpa com exemplos de fracasso, demérito ou injustiça que já passou diante dos meus olhos. Durante este processo, me projetando como perdedor, como quem não tem nada a oferecer, me inflo da sensação de urgência e, de alguma forma, ganho mais ar nos pulmões, mais tolerância a dor e um assustador medo de falhar. De repente, faço acontecer e geralmente chego aonde quero. O contraponto é que durante a discussão que travo no invisível da minha cabeça, eu fico insuportavelmente observador e intolerante a qualquer pessoa ou coisa que eu julgue desnecessário ao momento. O Carl e sua descrença que conseguiremos; o cachorro e seu latido incessante. Eu só preciso de um tempo para consertar as coisas, sem ter de dar amor, carinho ou atenção para estas coisas.

Talvez uma característica da minha ascendência alemã, de postura mais rígida; ou, o mais provável, apenas um pacote de traumas da infância, de um Aldo que não teve irmãos, primos ou referências masculinas dentro de casa, criado por uma mãe amorosa e que lhe deu todo o possível, mas que poderia ser sua avó e não pode preencher a essência do papel de um pai. Deve ter sido confuso para um garoto que temia a rejeição, de não ser convidado a brincar ou ir no mesmo carro para as festinhas. Quantas vezes na adolescência fui um bom goleiro, um bom baterista e não ouvi um pai assobiar ao fundo. E assim fui desenhando minhas defesas e métodos, ano após ano, apagando um traço equivocado e tentando outro à lápis. Bonito ou não, o que desenhei foi minha auto-confiança e, principalmente, auto-cobrança, um mecanismo poderoso que me ajuda a não me decepcionar quando me vejo em momentos difíceis, não desejáveis. Um mecanismo que me faz crescer e amadurecer, tentando ser — quem sabe — um grande pai, um grande profissional, um grande realizador do que for. Alguém que faz acontecer, sem esquecer de se fazer respeitar pelos seus momentos difíceis, mas, da mesma forma, não esquecendo que os outros não devem pagar pelo lado mais amargo da nossa essência.

Carl simplesmente não fala nada e eu, dentro daquele silêncio que tanto desejei, me constranjo, tentando não ser ainda mais idiota com ele.

— Olha só, o que tu achas de montarmos a barraca aqui? — eu falo com voz mansa, visivelmente tentando consertar a grosseria anterior.

— Pode ser — diz com voz seca, quase sussurrada, um nova-iorquino esgotado do dia de hoje, maduro o suficiente para saber que todos aqui estão cansados.

E assim fui desenhando minhas defesas e métodos, ano após ano, apagando um traço equivocado e tentando outro à lápis.

Montamos a barraca Minipack Aztec para duas pessoas em completo silêncio atrás de um arbusto solitário de não mais que um metro e meio de altura. Jogamos as duas mochilas lá para dentro e, por fim, entramos e, com algum constrangimento, nos acomodamos dentro do único saco de dormir que trouxemos.

Minhas pernas latejam, minhas costas doem, o frio das 23:30 do deserto chileno há dois mil metros ou mais de altitude me faz tremer junto ao Carl no saco de dormir, uma bolsa de pena de ganso da Trilhas & Rumos que promete suportar -15ºC. Sei, -15 meu pau! De costas diretamente no chão da barraca, sinto como se estivesse deitado pelado no chão da cozinha em uma noite de outono no sul do Brasil. Depois de algum tempo, o chão não é o lugar mais frio do mundo, mas está longe de ser quente e confortável.

— Estamos acabados, mas ninguém dormirá olhando esse céu como a gente — digo baixinho, esticado dentro do saco de dormir, lutando para não tremer tanto e deslumbrando pelo teto transparente da Minipack a Via-Láctea azulada e esbranquiçada do lugar do mundo onde ela é mais nítida. Acho que tem raspas de bom-humor na minha voz depois de horas também.

— Já pensou se a gente apertasse o botão vermelho daquele rádio? — comenta Carl, da mesma posição, admirando as estrelas e um pedacinho da lua que começa a “nascer” por detrás de uma colina a nossa direita — O que você falaria?

— Eu imitaria o som que os errantes do The Walking Dead fazem, eu acho.

— Que horror.

— É… Um operador do observatório, sentado na sua cadeira confortável, comendo alguma coisa gordurosa e quente, olhando para o celular como todo o santo dia ele fez ao longo dos anos que trabalha ali e, de repente, uma luz no painel à sua frente começa a piscar pela primeira vez — falo fluidamente também olhando para as estrelas — , uma luz etiquetada com “Tololo Rádio #2”. Ele pressiona aquela luz, puxa o telefone e ouve um longo, distorcido e molhado gemido de um morto-vivo.

— Eu já te disse que você olha filmes demais?

— E aquele operador nunca conseguirá se imaginar entrando em um carro, indo averiguar o que faz aquele ruído grotesco no calar da noite nas montanhas — e finalmente giro meu pescoço para o lado, olhando para Carl e soltando uma tão merecida risada.

Via-Láctea a partir do deserto chileno a noite (Google Images)

Carl não ri, mas sorri olhando às estrelas.

— Carl — sussurro.

Hã?

— Essa sua blusa de gola-alta… é muito, muito gay.

— Porque você não dorme primeiro?

Capítulo Final

— Que horas são?

— O que aconteceu com o seu relógio? — pergunta Carl com voz robótica e demasiadamente lenta de sono, deitado de lado no chão gélido da barraca montada atrás do maior arbusto que encontramos ontem a noite.

— Me roubaram em um camping no Uruguai — digo recordando daquele fevereiro quente na praia de La Moza enquanto, deitado de barriga para cima no lado de Carl, forço os olhos a se descolarem e mirarem o céu ainda escuro acima da gente. Eu retruco — . Vai me dizer as horas ou não? Não vai fazer eu ligar meu celular só para ver as horas, vai?

Não sei como nós dois coubemos dentro do único saco de dormir que trouxemos para essa caminhada sem fim até o Victor. O nova-iorquino, com um pouco de esforço e dando uma cotovelada involuntária no meu braço direito, saca seu pulso esquerdo do quente saco de dormir onde está deitado de costas para mim.

— Seis — responde Carl segundos depois de ajeitar seu braço novamente para dentro do apertado abrigo — . Vamos pedir ajuda ao primeiro carro que descer do observatório?

— Pode ser — falo me imaginando pedindo ajuda para ir embora, para desistir da busca. Ontem a noite, montando a barraca na minha solidão atrás deste arbusto que farfalha com a brisa do dia que vem chegando, realmente considerei em ir embora pela manhã. Talvez desistir seja a única coisa sensata a fazer.

Levantamos no frio ainda noturno de zero grau desta quinta-feira, 15 de maio, dobramos as duas camadas de tecido da barraca, guardamos ela e o saco de dormir na mochila de Carl e, ao caminhar em direção a estrada de chão batido, a dúvida paira. Devo olhar para a direita, em direção à distância incerta até o Victor, ou para a esquerda, para a caminhada de quatro horas de volta para o outro arbusto onde as bikes estão — espero — escondidas?

— Carl — o chamo colocando minha mão em suas costas enquanto ele, agachado, ajeita sua mochila no chão — , quero muito sua ajuda, parceiro.

Carl levanta, jogando a mochila em suas costas apenas por uma alça — Vamos ir para o Victor, Aldão!

Esse otimismo, coragem, perseverança do nova-iorquino me pega de surpresa e semeia de mim meu melhor sorriso de bom dia, com uma injeção de excitação pela aventura, carga de adrenalina que me move, mesmo quando ainda sinto na musculatura, todo o estresse de ontem.

— Meu herói, Carl. Você é meu herói — dou um tapa no ombro do amigo e sigo para a estrada, para a direita, para a distância incerta na busca de um Victor no alto daquelas colinas no longe.

No escuro, contudo menos intenso com a lua brilhando finalmente em cima de nós, mal pisamos na estrada e uma surpresa. O rádio de emergência número três. Estava esse tempo todo do nosso lado, oculto pelas trevas da noite antes sem luar.

— Três é um número bom — fala Carl sem dar muita atenção para o rádio do lado esquerdo da pista empoeirada, nem sequer desviando suas passadas, seguindo firme comigo pelo centro da estrada em direção ao desconhecido adiante. — Estou muito mais interessado nas três luzes de ontem.

— É — concordando, mas sem entender o porquê do número ser bom ou não. Já as luzes dos drones, mesmo não achando tão interessantes quanto Carl, não seria de todo mal saber porque estavam por aqui ontem.

Subimos a estrada em uma reta de dois mil metros e entramos numa curva longa para a direita. A nossa esquerda há o paredão de rochas navalhadas onde a estrada fora escavada na colina, já na nossa direita, uma queda de cinco metros que aumenta a medida que Carl e eu avançamos pela estrada espiralada que escala a colina. Fazendo a próxima curva, para a esquerda agora, meu amigo e eu aceleramos o passo. Curvas com paredão de um lado e uma queda do outro, nos deixa como baratas dentro de um pote, sem saber para onde ir se um carro aparecer. Saindo da curva, a parede da colina a nossa esquerda encolhe, como se estivéssemos chegando em seu topo. De fato estamos chegando no topo desta colina. Agora conseguimos ver as colinas mais altas que antes estavam escondidas por detrás desta onde a estrada serpenteia.

— AAAAHHHHH! — grito erguendo os dois braços para cima, olhando para as colinas mais altas na direita da estrada.

Carl não grita como eu, mas deslumbra com olhos apaixonados e elegância britânica se não fosse um estadunidense da costa leste.

A silhueta enegrecida do Victor é desenhada pelo nascer do sol aproximadamente há cinco quilômetros da gente, no topo da colina nitidamente mais alta. Daqui onde estamos, o Victor, um telescópio do tamanho de um prédio de oito andares, não passa da cabeça de um fósforo no horizonte. Carl cola do meu lado, também sem conseguir tirar os olhos daquela verruga no contorno da colina em destaque no horizonte.

— Tá ouvindo? — diz o nova-iorquino sorridente, sem a menor intenção de me olhar enquanto conversamos com os ombros basicamente colados um no outro.

— Ouvindo o que? — questiono.

Carl para de sorrir e olha para a curva atrás da gente. Junto do som agora mais alto, novamente aquele brilho prata.

— UM CARRO! — Carl grita, fazendo sua voz retornar aos 16 anos tamanho espontaneidade da reação.

Uma descarga de adrenalina e terror me vem, explodindo em energia ao arrancar-me do meio da pista onde Carl e eu estávamos milésimos de um instante anterior. Corro para a direita, para a parede de rochas onde, por cima, eu deslumbrava o Victor. Corro como se não estivesse usando uma mochila, fazendo-a quicar desajeitada nas minhas costas, me fazendo não ter um bom controle das minhas passadas. Dou duas ou mais passadas rápidas nas rochas e, por fim, me jogando para cima, pousando nas pedras com meu joelho direito e girando o corpo para a direção da estrada imediatamente. No segundo anterior, o carro passa e, como o primeiro veículo da noite passada, não desacelera e segue seu destino até o CTIO pela alvorada que decora as colinas. Mal posso acreditar que filmei o que acaba de acontecer. Inicialmente me irrito pelo susto que, por um pentelhésimo, podia ter estragado tudo, mas logo foco na dor vinda do joelho e na crença de ter feito uma boa gravação. Meu humor muda e começo a rir e a gemer numa mistura bizarra que só a captura da imagem perfeita justificaria. Coisas de Aldo. Aliás, e o Carl?

— Carl!

— Que?

Ainda mais alto na colina, está um homem vestindo um horroroso casaco caqui cor de cocô com um sueter setentista de gola alta, me fitando com o penteado perfeitamente ajeitado.

Sorrio para ele e me levanto mancando, pensando como aquele ser franzino chegou lá mais rápido do que eu, e ainda ileso. Enfim, também pouco importa.

São 7:30 e meu companheiro de aventura e eu decidimos sair da estrada e subir as próximas três colinas que nos separam do Victor em uma linha reta imaginária até ele, ignorando o fato da estrada seguir para a direção quase oposta, esculpindo as bases de outras colinas menores de modo que a estrada não seja tão íngreme quanto ela seria se fosse diretamente até o topo da colina onde o telescópio está. Menos de 15 minutos depois, estamos no topo da primeira colina, a menor das três. Olho para trás e vejo outro veículo, dessa vez um caminhão, fazendo a curva que fodeu com minha perna direita que agora parece não doer, mas está estranha, como se rangesse nas passadas, tornando um tanto dura.

— A expansão do espaço está acelerando e o contrário como acreditávamos.

— Menos, Carl. Quando menos falarmos, mais teremos água — resmungo descendo a parede oposta da primeira colina, em direção a próxima, quase o dobro em altura, mas que está unida a essa, as tornando colinas siamesas. Olho para minha caramanhola, dois dedos de água e o frio de antes some com o esforço da escalada, tornando-me ofegante e mais sedento a cada novos cem metros avançamos colinas acima.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— É lindo olhar para ele lá no alto e imaginar que foi ele, em 1998, quem possibilitou essa descoberta… — diz um Carl que não mais vejo, apenas escuto sua voz enquanto foco na subida.

São 9:30 e o sol derrama sua luz amarelada sobre todo o vale, criando nas colinas mais altas ligeiras sombras que cada vez mais desaparecem a medida que a nossa estrela de meia-idade se levanta no céu azul celeste e desprovido de da menor nuvem. No topo da segunda e penúltima colina antes do CTIO, minha água termina. A do nova-iorquino também. Uma sensação angustiante, mal dei o último gole, minha boca implorava mais uma dose. E a colina a nossa frente, a do telescópio é colossal, de escalada vertiginosa e potencialmente mortal para inexperientes. As rochas se soltam da face da colina em lascas, como se escamássemos um pastel de massa-folhada, mas sem o prazer da degustação. Que fome. Não comemos nada desde ontem. Meu estômago está tão retraído que dói, mas se eu pudesse escolher, escolheria um copo gelado. Não, gelado não, congelado de água!

— Aldo, este cactos — diz Carl, sentado em uma pedra há 20 metros mais cima na colina do que eu. “Como ele sobe tão rápido?”, me pergunto. Ele continua — Está com tua faca?

Esgotado, com fome, sedento, forço meu braço esquerdo para trás, tentando pegar minha faca Guepardo de lâmina preta sem ter de sacar a mochila das minhas costas. Me desequilibro e quase escorrego. Estou me segurando não nas rochas, contudo em uma raiz solitária que não parece que irá me aguentar por muito tempo.

— Carl! Vou cair! — digo com voz sepulcral, quase desprovida de emoção, encarando a situação dada por um instante de desatenção na escalada. Passo a tratar cada movimento, respiração, pensamento com muita cautela. Meu pé esquerdo está apenas com a ponta dos dedos firme numa rocha o qual não consigo ver, embora eu sinta ela firme e horizontal o suficiente para confiar no pouco do meu peso depositado ali. Meu joelho direito, o da queda de horas antes, diferente do meu pé esquerdo, está suportando quase todo meu peso em outra pedra quase na linha do meu peito, porém esta rocha está sensivelmente inclinada para a queda, fazendo meu joelho, além de suportar meu peso, estar dolorosamente friccionando em direção a queda.

Me concentro a ponto de não conseguir nem olhar para Carl, logo acima. Mentalmente me imagino depositando mais força na raiz que seguro com as mãos e vejo com clareza ela se soltando por completo do solo arenoso entre as rochas o qual ela se prende e eu mergulhando colina abaixo, na queda fatal de 300 metros.

“Não vou morrer”, sussurro assustadoramente calmo e alerta para mim.

Arrisco tudo na pontinha do meu pé esquerdo, fazendo o movimento de alavanca, me erguendo pouquíssimos centímetros e, sem-noção, solto minhas mãos da raiz, e, com o ganho de altura proporcionado pelo movimento de alavanca, me agarro com toda energia que eu não tenho em um sulco nas rochas mais acima. Me puxo para o alto, tirando a carga dolorosa da minha perna direita e subindo com a agilidade de quem cai diante de muitas pessoas desconhecidas em público, sacudindo a poeira e olhando imediatamente para Carl, lhe entregando a faca.

Cortamos o cactus e comemos seu miolo esbranquiçado. Embora salobo, o líquido em cada generosa mordida na sua polpa, rende um bom gole na água mais gelada que poderíamos imaginar. Se nos fará mal, não sabemos, mas o efeito psicológico daquele líquido gelado nos impulsiona nos metros finais da escalada.

Em 1997, dentro daquela sessão de cinema, quando conheci Carl, fiquei me imaginando se um dia estaria numa grande aventura, como na ficção que se desenrolava na tela à minha frente. “Contato já é meu filme preferido”, dizia eu em pensamentos sem ao menos o filme ter acabado. E olha eu aqui, com o Carl, a poucas dezenas de metros da minha própria aventura. Quem escreveu aquele filme se orgulharia de mim agora? Não sei. Nunca saberei, mas dentro de mim isso faz toda a diferença, imaginando um “muito bem” vindo daquele autor.

Olho para cima, e vejo Carl cada vez mais alto, mirando para mim com sua placidez, como um Mestre dos Magos, que se materializa onde não esperamos. É como se fosse ele quem estivesse me fazendo prosseguir colina acima.

— Ande, Aldo!

— Minha colher!

Carl olha para baixo e não compreende o que eu disse. Ele pensa que o som da casa de máquinas do telescópio, logo no topo da colina que se aproxima, o tivesse feito entender errado o que eu dissera.

— Colher?

— Sim, cara, minha colher. Não é possível!

— Como assim, colher, Aldo?

Quando me desequilibrei ao tentar pegar a faca na minha mochila, a colher que uso para preparar minha comida e comer provavelmente se soltou da bainha da faca, lugar onde eu a guardava.

— Minha colher, cara! — digo olhando para baixo e vendo centenas e centenas de metros de queda, pedras, areia, infinito. Uma agulha no palheiro na beira do abismo.

— Abra a boca bem grandão, campeão — disse meu pai para mim enquanto me dava mais uma colherada de Neston com banana esmagada.

— Pai, você gosta d'Os Trapalhões? — perguntei lambendo os beiços, olhando para o papai encantado e que pouco tem interesse na resposta.

Meu pai me serve mais uma colherada e em seguida me mostra o cabo metálico daquele talher — Se eu gosto d'Os Trapalhões? Claro que gosto, eles são os melhores! — disse ele com o tom da voz que tornou sua resposta tão óbvia quanto as caricaturas do Didi, Dedé, Muçum e Zacarias gravados naquela colher um pouco maior que uma colher de chá.

Aqueles fatos da vida que carregamos para sempre com a gente sem saber o porquê, mas os temos teimosamente vívidos na memória, como a lembrança do meu amigo dizendo à mim para não jogar o papel de bala no chão quando eu não passava de um pré-adolescente voltando da escola em Charqueadas. Entretanto, diferente da memória do papel de bala, a lembrança da colher d'Os Trapalhões, tem significado compreensível aqui dentro, um ícone que simbolizava a única memória de carinho paterno antes do meu pai ir embora para nunca mais voltar e então, em 2013, morrer sem nunca ter dito para seu filho que o amava ou que lamentava não ter participado da vida dele. Houve um tempo que me pegava pensando sobre os motivos que dei para ele não ter qualquer interesse em mim. Hoje, prefiro concluir que era apenas falta de talento em ser pai, nada mais.

A colher estava há 28 anos comigo (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Descer, voltar, para procurar a colherinha seria tão suicídio quanto ineficaz, mas não é fácil abrir mão das coisas quando já se tem tão pouco consigo, como agora, nesta viagem aonde tudo que tenho está em uma mochila e numa bike. Não é fácil deixar para trás algo que você tocava e com um pouquinho de nostalgia, viajava num momento muito doce da sua vida. Um objeto que está em algum canto lá embaixo no imenso laranja da colina, gritando para não ser deixado. Não, que ela não esteja gritando para eu buscá-la. Desejo, do fundo do meu coração, que ela tenha ganhado asas e voado na direção das estrelas, levando consigo minha lembrança e carinho, fazendo companhia para o pai que brilha em algum lugar lá no alto. Um brilho que é também para mim e que sempre estará lá nas noites que eu me sentir só.

Que merda”, é tudo que consigo concluir neste instante. “Que merda!

— É só uma colher! Vamos, Aldo — diz Carl com seu inglês de dicção perfeita e tonar educado como de costume, mas, dessa vez, ele não faz ideia do peso que suas palavras têm.

O som da sala de máquinas do Victor é ensurdecedor. Falta somente uma parede de três metros de rochas para escalar. Carl me dá a mão e me puxa nos últimos metros. A mochila que antes tinha apenas três quilos, agora tem o peso de três telescópios sobre meus ombros.

Fico em pé no alto da colina mais alta exatamente ao meio-dia. Victor, um monstro metálico branco e de cúpula prateada, está com seus olhos apontados para o céu diurno. Eu mal consigo me manter ereto tamanho esgotamento físico e psicológico pela fome, sede, estresse muscular e mental. Ainda assim, Carl me abraça lateralmente e me ajuda com os duzentos metros até o Victor que está numa elevação na beira do outro lado do platô da colina. A cada passada, sinto mais meu joelho direito. A cada passada, lamento por não estar voltando para procurar a colherinha. Mas a cada passada, vejo o Victor crescer diante de mim. Já tem algumas horas que não é somente pelo Victor, mas por mim, por meus objetivos, metas. Sou capaz de ir até o fim? Sou capaz de fazer valer a pena? Se pago um preço alto, um dia sentado no sofá da minha casa, pensarei a respeito, mas hoje, agora, neste instante, Victor está a menos de cinquenta metros de mim.

— Ei, ei, ei! — grita um funcionário da segurança que sai com vigor de uma instalação ao lado do Victor.

“Que me prenda, que me deporte, mas só me dá água e algo para comer!”, diria meus olhos se funcionário pudesse lê-los.

— Olá — é tudo o que digo com um sorriso cansado e uma mão direita estendida na direção do guarda.

— Como o senhor chegou até aqui? — pergunta o segurança chileno de forma firme porém educada em espanhol claro.

Fico por alguns minutos tentando convence-lo de que cheguei até aqui caminhando nas últimas doze horas para poder ver o Victor operando. Alguns técnicos e um enfermeiro do CTIO saem das instalações para entender o que está acontecendo. Comprimento todos como se eu tivesse sido convidado a estar aqui ou, melhor, fosse o anfitrião de todos eles em minha casa.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— De bicicleta e depois à pé? Inacreditável, rapaz — diz o enfermeiro Sergio Franco, enquanto mexe no meu joelho e conclui que é uma luxação com quase rompimento do tendão.

— Você caminhou por trinta quilômetros e subiu os 2.200 metros da Colina Tololo, senhor Aldo — diz o diretor da AURA Robert Christopher Smith dos Estados Unidos ao telefone. Continuando — Se eu não estivesse em Tucson, eu mesmo te levava à polícia — finaliza ele com uma risada misturada as palavras.

Sentado no refeitório do CTIO com o joelho direito imobilizado, como com prazer dois pratos salgados diferentes, acompanhados de suco de laranja natural gelado e com dois doces esperando sua vez, uma torta de bolacha e um sorvete caseiro.

— Sua sorte é que a Dra. Van der Bliek está em viagem particular — diz o chefe da segurança, sentado ao meu lado conforme mordisca uma maça — e o Sr. Chris Smith parece ter gostado de você.

— As luzes a noite, são drones com qual objetivo? — pergunto de repente ao homem de 35 anos aparentes.

Ele sorri olhando para a maça e dá mais uma mordida.

— Coma que o chefe de operações logo te chamará para te levar embora — diz ele de boca cheia e levantando da mesa sem muita pressa, mas sem me dar a oportunidade de entrar mais no assunto.

— Sabe senhor Aldo, o que me impressiona não é você ter comido cactos, porque isso eu também já fiz e não tem nada demais — diz o segurança pisando no botão da lixeira e largando o que sobrou da maça dentro da sacola preta de lixo — , mas sim o fato do senhor ter subido aqui sozinho. Poderia ter acontecido alguma coisa e não ter para quem recorrer. Antes de ir, vamos lá que faço uma foto do senhor no Victor.

Sorriu em agradecimento e sigo dando garfadas exageradas no prato cheiroso e saboroso à frente.

Me aproximo do Victor e, não sei bem o porquê, não tive vontade de tocá-lo ou até mesmo de fazer fotografias do seu interior. Me sinto satisfeito por guardar apenas para mim. Minutos depois estou conversando com o chefe de operações Marco Nuñez dentro da Toyota Hilux branca com os emblemas “Cerro Tololo” e “CTIO” adesivados nas portas dianteiras. São 30 minutos de viagem aonde esgoto minha cota de papo-furado e me volto a pensar nas últimas horas de todo o percurso que fiz por entre as montanhas, a pé, a noite e sozinho. Meu joelho lateja e a dor vem cada vez mais persistente, contudo eu mesmo acho que vivi a primeira grande e inesquecível aventura da minha vida. Parece que o esgotamento não me abala e é difícil de dizer à mim que tudo isto foi irresponsável demais. Ainda mais ao saber que tudo isto foi a minha essência por aventura, aquela imutável, assumindo o controle.

Linha vermelha representa o trajeto à pé.

Minhas mãos apertavam os repousos para os braços na poltrona do cinema enquanto a protagonista do filme viajava pelo que parecia ser outro planeta. Ela vê um ser transparente diante dela, um ser que parece querer muito o seu bem e, numa gota de lembrança do passado, ela vê naquela entidade translúcido a imagem do seu falecido pai. Meus dedos relaxam sobre os encostos braçais da poltrona e, me pondo no lugar da protagonista, em 1997 com meus treze anos dentro de uma sessão de cinema, eu pensara a respeito da minha própria história até então. Os dias passaram e soube que o filme Contato fora baseado no livro homônimo, me fazendo ludibriar minha mãe a comprar o livro. "Ei, mãe, precisamos comprar logo porque é leitura obrigatório na escola", mentira eu. O ganhei, se tornando minha primeira leitura integral o qual devorei com olhos arregalados e surpresos pelas possibilidades criadas pelo autor.

Daquele momento em diante, Carl Sagan, autor da história que deu origem ao filme Contato, passa a ser muito mais do que um bom escritor de um bom livro, mas uma pessoas a ser admirada pela sua gentileza e pela poesia de suas palavras embasadas numa vida dedica ao esclarecimento à pessoas como eu, mero mortal.

Victor e eu (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Conversando comigo em minha solidão mental, percorri a noite fria, me escondi dos carros, escalei colinas, uma quase queda, um erro de cálculo de distância e de água a levar, a abnegação necessária ao deixar a um pedaço de metal para trás. Foi conversando com Carl, alguém o qual aprendi a admirar, que dei o meu melhor naquela busca de horas atrás. Uma busca de mais ninguém, só minha; a procura pela sensação daquela sala de cinema e daquelas páginas lidas 18 anos atrás. Uma busca pelo que me inspira, como a poesia das atitudes de um homem que segurava um dente-de-leão ao vento ao explicar a beleza e delicadeza da vida e do Universo.

E sim, Carl, você é meu herói. Creio que já conversamos sobre isso.

Carl Sagan e seu filho Nick nos anos 70 (Foto cortesia de Nick Sagan).
Parte I (Aldo Lammel, M&B Websérie)
Parte II (Aldo Lammel, M&B Websérie)

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