INVADINDO AS ESTRELAS

Capítulo 7 do livro “DIA 922: Uma Longa História Sobre Estrada”

Os sonhos voando como dente-de-leão, tão leves que se vão para longe de mim antes que eu consiga esticar o braço e pegá-los enquanto pedalo. Dizem os sábios que a persistência é o caminho das conquistas, das realizações. Então, mesmo com todos os músculos pedindo-me para encerrar o dia, faz algum sentido eu me esforçar mais, perseguindo o sonho que, no oscilar dos ventos, toca as pontas de meus dedos.

E assim conquisto a Cordilheira dos Andes, a cruzando da Argentina ao Chile por Paso de Los Libertadores nesse início de abril. Na fronteira, com as montanhas de picos nevados a volta, que lindo lago de água anil que me recebe à direita. Que foda é a descida íngreme que serpenteia lá embaixo à esquerda. Los Caracoles, um trecho de estrada que desenha-se em ziguezague na parede de cá dos Andes, como uma cobra a deixar seu rastro na areia fina.

Descida intensa, são longos e desejáveis minutos assim. Descendo e ouvindo música a todo volume. Carros, ônibus e caminhões, todos eles passam na direção contrária. Eles, subindo, e eu… bem, é a melhor descida contínua e rápida que fiz até hoje. De certo modo é como se eu fosse uma águia andina em rapina montanha abaixo, perseguindo a direção de Santiago de Chile como se a capital chilena não passasse de uma lebre assustada, correndo em campo aberto.

Encontro o elegante Providencia, um bairro chique na zona central da capital. Aperto o interfone e sou recebido. É o apartamento de um bom amigo que foi meu vizinho anos atrás, lá no B38.

— Tenho de viajar a trabalho — diz o anfitrião — , mas você pode ficar com a apartamento.

Aqui é como um paraíso bíblico, só que real. Caminho devagar pela cozinha, abro as portas da dispensa. Comida! Muita comida! Doces, salgados, vinho.

Com a garrafa de merlot em mãos, suspiro ao ler “Coche Y Toro”.

Escondido por detrás do sorriso e olhos fixados ao rótulo do vinho, me vem em mente que dias atrás eu estava passando fome e cede na cordilheira. Ainda sinto dificuldades para pedir comida e sei que as vezes acho desculpas para não fazê-lo. O lado interessante disto é este contraste: ontem o lixo, hoje o luxo.

Rumo ao oeste depois de uma quinzena na capital, me vou para a costa do Chile. Pela primeira vez eu vejo um outro oceano que não o Atlântico. Aqui, calmo como um copo d’água, o Oceano Pacífico. Pedalo firme por dias, costeando para o norte na companhia dele, sempre à minha esquerda. Nas noites que monto a barraca nos espaços vazios no meio de lugar algum, o medo me vem com ruídos que ouço. Às vezes é o vento acertando a capa laranja da barraca. Às vezes eu não sei se não são animais da noite. Minha faca está sempre próxima de mim e tem dias que eu demoro a dormir. Na ausência de cidades ou vilarejos, é o Pacífico que me amansa, com o som familiar das ondas acertando as grandes pedras negras e lisas.

As manhãs chegam e no pedalar dos dias, os vilarejos perdidos pela perfeita estrada pavimentada surgem no caminho. Uns com cinco casinhas; outros com três dezenas. E então mais e mais quilômetros de nada até o próximo lugar onde me abastecerei de água e comida. Aliás, quando a água me falta, deixo a bicicleta no acostamento da estrada, ergo a garrafinha d’água e com pouco de paciência aguardo caminhões verem a garrafa, meu sorriso e a bicicleta. Assim recebo constantemente, não importa onde, água potável. Já a comida, eu tenho gás e fogareiro, massa instantânea, atum enlatado, leite em pó e achocolatado para alguns dias junto ao deserto. E é aqui onde eu quero estar.

Você entenderá meus porquês, caro diário.

Valle del Elqui. São 60 quilômetros ao leste da cidade costeira de La Serena. Não que eu me vá embrenhar na cordilheira outra vez, porém para ver o Grande Victor, precisarei alcançar aquelas montanhas que antecedem os Andes. Diferente do que você pode imaginar num primeiro momento, Victor não é alguém. Ele é uma coisa, uma máquina. Um instrumento de olhos inclinados para cima, varrendo a imensidão noturna em busca do passado, do presente e do nosso futuro quanto espécie. Victor é o telescópio principal do observatório internacional CTIO, instalado e protegido nas montanhas e colinas do vale onde estão alguns dos melhores vinhedos chilenos. O próprio Valle del Elqui.

Astrônomos, astrofísicos, cosmologistas e outros estudiosos. Todos querem passar algumas noites operando o Victor, observando o pedacinho do céu onde na Terra as estrelas mais brilham. E eu me imaginando deitado do lado do telescópio, lá do alto, fitando o espaço, contemplando as gotículas de prata oscilantes no céu noturno cujo um dia no passado já distante alguém dado como louco afirmou serem outros sóis rodeados por outros lugares onde, quem sabe, e no estalar da liberdade imaginativa, outro Victor também olha para o alto.

— Hoje é dia de semana. Se o CTIO tá operando, não tem visitação — afirma Carl, um amigo que pedala comigo para dentro do vale.

Carl é estadunidense e o conheci em uma sessão de cinema em 1997 em Porto Alegre. De lá para cá, não perdemos mais contato, certamente pelos interesses em comum como o fascínio que o céu noturno exerce sobre nós. Antes da minha viagem começar três meses atrás, combinei com Carl de nos encontrarmos em alguns lugares; lugares como o CTIO. E cá está ele. Um bom amigo de contemplação.

— A gente dá um jeito — eu digo à Carl, descendo da Garibaldi diante da guarita do que mais parece a fronteira para dentro de uma base militar do que para um observatório astronômico.

“Área restrita”, “Zona de Alerta Vermelho”, mensagens escritas em inglês nas placas por aqui. Lugar terroso, alaranjado com tons de marrom-café polvilhado por tudo, engolindo uma construção do tamanho de uma casa grande de um piso só. Branca-encardida do chão até o primeiro metro de parede.

Hola que tal? — cumprimento o soldado saído da guarita anexada a construção.

Sem simpatia ou me responder, o soldado, prendendo seu rádio de comunicação à cintura, se aproxima de mim.

— Eu gostaria de conhecer o observatório — eu explico ao jovem militar.

Señor, não há o que ver hoje. Não há visitação em dia de semana, .

Olho para trás, para Carl, que me devolve uma mistura de olhar gracioso e debochado, como quem diz “é, eu lhe disse”.

— Entendo — digo ao soldado — , mas vim do Brasil justamente para_ _ _

Señor — insiste o militar, me interrompendo — , estamos numa uma área controlada e com regras específicas. A visitação ao observatório somente nos finais de semana e com carros autorizados, não com bicicletas. Cachái?

Olhando sobre os ombros do militar, em suas costas, a estrada de terra que se contorce, subindo leve porém continuamente para dentro do vale. Eu persisto — Mira, vamos fazer algo diferente. Façamos. Você me põe em contato com seu superior e eu negocio com ele.

— Entendo, señor — compadece o soldado pela primeira vez, tirando as mãos da cintura e repousando-as sobre a cancela pintada de listras branca e vermelha entre nós — . Aqui é um território dos Estados Unidos são quem opera de forma muito rigorosa. Violação às regras da AURA pode ser considerada crime internacional. Sem um carro autorizado num sábado, não há a menor possib_ _ _

Dou de costas, empurrando a bicicleta na direção de onde Carl e eu viemos. A irritação pela inflexibilidade me vem. “Maldito weón”, eu xingo o soldado em pensamento usando o estranho castelhano local.

— Pelo menos nós tentamos — conforta-me o norte-americano, empurrando sua bicicleta ao lado.

— Quem disse que não vamos entrar? — lanço a pergunta.

— Como assim? — questiona Carl, mirando ligeiramente à guarita atrás de nós.

— Vamos esconder as bikes

— Crime internacional, Aldo!

— E subir essa wea agora a noite.

— Wea?

— É tipo “coisa” no espanhol daqui.

— O espanhol daqui é terrível — por um momento Carl parece recordar de suas próprias experiências no Chile. Ele volta ao ponto trazendo algum nervosismo coerente no timbre — Mas, Aldo, a gente pode ser detido e deportado!

São 17:45. Estamos fora da estrada, há 300 metros da guarita. Em um raro arbusto do tamanho de um pequeno carro, escondemos nossas bicicletas. Um cenário amarronzado, acidentado e terroso, tão seco quanto a minha garganta sedenta. A vegetação não passa de pontos verdes desbotados, isolados. São cactos e outras espécies espinhosas quase sem folhas. Virtualmente mortas.

— O que é essa “AURA” — pergunto ao vento, ajeitando a pesada mochila em minhas costas.

— O CTIO é uma das bases de observação espacial espalhadas no mundo — afirma Carl com olhos preocupados, quebrando galhos folhados e os pondo meticulosamente sobre cada parte ainda expostas das bicicletas dentro do arbusto. Ele prossegue — . Essas bases, se não me engano, respondem para a AURA que é uma_ _ _

— Bacana, bacana — murmuro pegando a mochila de Carl e a entregando a ele, acertando-lhe o peito — , eu viajei até aqui e vou dormir lá em cima com ou sem permissão dessa ALMA.

— AURA! ALMA é um observatório e não uma_ _ _

— Tá, tá! Que seja!

Começamos a caminhada.

Olho excitado por cima do arbusto onde as bicicletas estão com nossos equipamentos, estudando o que temos pela frente. Como todo vale, há montanhas à nossa direita e esquerda, convergindo em um estreito na base das montanhas. É lá onde a água correria se aqui chovesse, onde é mais fácil construir estradas. Tipo um corredor de aproximadamente mil metros de largura e de comprimento incerto, dançando em subida delicada até o céu oculto em meio as montanhas.

— Tá escurecendo rápido — diz meu amigo americano de origem ucraniana, com cabelo fino, preto e cumprido o suficiente para esconder suas orelhas. Ele marcha logo atrás de mim, em direção a parede esquerda do vale.

— Pois é. Vamos flanquear a guarita subindo por estas colinas — aponto para a parede esquerda do vale com a cabeça — e assim que a gente cruzar para dentro deste tal AURA, nós descemos pra estrada.

— Pra estrada? Irão nos ver se andarmos lá!

Olho para trás e para baixo, na direção onde está o arbusto com as bicicletas. É, não dá para ver que nossos equipamentos estão lá, dois mil dólares soltos dentro de uma moita no que foi, quem sabe milhares de anos atrás, um rio escorrendo por entre as montanhas de Elqui. Todavia a área é grande demais para alguém, do nada, ir fuçar naquela moita em específico, tampouco agora que está escurecendo e o povoado mais próximo está uns quatro quilômetros ou mais. Finalmente comento — Assim que cair a noite, saímos das colinas e vamos pra estrada. Lá a gente fica atento e sem ligar as lanternas. Se um carro aparecer, saímos da estrada até as coisas se acalmarem.

Carl ri — Meu caro, você vê muito filme!

As passadas são rápidas embora cuidadosas. Os espinhos daqui tem até 15 centímetros de comprimento como pregos de viga e afiados como agulhas cirúrgicas.

— Quantas milhas até o Victor?

— Milhas? Sei lá. Acho que pelo menos dez quilômetros até chegar naquela wea.

— Você não tem certeza?

— Da distância?

— -É!

— Tenho, tenho. É mais ou menos isso. Lembro de ter lido.

Ainda não sei bem como pude não questionar o soldado da guarita a respeito da distância, mesmo que com a desculpa de ser curiosidade. Não ter noção da quilometragem que temos pela frente torna a incursão uma imprudência ainda maior.

— Duas horas de ida, uma hora contemplando o telescópio e duas horas de volta — projeta Carl, fitando por cima de seus ombros, enxergando a guarita deixada para trás lá embaixo. O semblante satisfeito pela maluquice que topou fazer, traz a ele alguma vaidade. Nada comum ao perfil Carl. Ele continua a planejar — Então chegaremos de volta nas bicicletas mais ou menos às 23:00.

— A gente dormirá lá!

— COMO A_ _ _ — Carl fala em um tom mais alto, se interrompendo e ponderando-se — Como assim?

— A barraca tá na sua mochila, inclusive — eu confesso mudando de assunto, apontando minha mão esquerda para uma parte mais baixa da colina onde estamos, para uma pequena cabana miserável com umas 40 cabeças de carneiros protegidas por uma cerca tosca de madeira podre e arames enferrujados.

Carl dá um tropeção numa pedra solta que rola pela parede da colina — Dormir lá? Are you crazy?

— Como alguém pode morar naquela cabana no meio do nada?

— Aldo, eu tô falando sério! Não podemos ficar lá!

Giro os calcanhares, ficando face-a-face com meu parceiro de incursão, o dando um tapa de leve nos ombros — Cara, a gente vai dormir sob o céu mais estrelado da Terra. Tá percebendo o silêncio e como o céu tá ficando?

Há uma quietude entre nós e as pupilas apequenam-se ao se perderem no poente por um breve instante de contemplação. Um belo crepúsculo, Carl tem de admitir. Uma mancha avermelhada deixada na linha do Sol descendente mescla-se em gradiente para o azul noturno mais no alto. O tom do horizonte torna-se púrpura por detrás das colinas mais altas, lá na direção dos vinhedos de onde viemos. Vênus já brilha distante tal qual as estrelas ainda tímidas e inimaginavelmente mais longínquas, começam a cintilar.

Vênus e a guarita ficando para trás (Aldo Lammel, CC BY-NC)

— Se você não escrever sobre o que a gente está fazendo e não me transformar num herói, eu juro que nunca mais faço as tuas vontades — avisa-me o nova-iorquino, me dando um sutil empurrão para seguirmos adiante.

“Você sempre será um herói pra mim, seu medroso”, fico quieto em meus pensamentos.

Um mês e meio para o inverno chegar e na penumbra das montanhas andinas, o frio vem mais cedo. O Valle del Elqui, há dois mil metros de altitude, tem o ar gelado no mês de maio.

— Reparou que não há lua? — eu questiono ao homem que vai mais na dianteira, descendo a colinas em direção a estrada. Passou a ficar muito arriscado caminharmos aqui em cima. Um escorregão e podemos perder um olho nos cactos ou até mesmo rolar colina abaixo.

— Não é que não haja lua daqui — responde Carl com sua clássica forma dócil e acadêmica de explicar as coisas — Há luar em qualquer lugar da Terra. Talvez não nos polos em algum momento do ano, mas não é o caso.

Começo a fazer um “mi-mi-mi” inaudível logo atrás dele, com caretas ironizando como se eu fosse um palestrante cheio de caras-e-bocas. São 19:30 e a escuridão é quase completa.

— Estamos em uma região do planeta que, somada à altura do vale, não seja possível ver a Lua neste horário. Motivos pelo qual, dentre muitos outros, o Victor foi construído por aqui.

— Como assim? — pergunto.

— Lembra que vínhamos falando enquanto pedalávamos que o observatório deve estar o mais distante possível das luzes da cidade?

Ahã — falo, jogando uma pedrinha na parte detrás da ridícula jaqueta caqui que Carl usa; que agora no escuro está mais para cor de cocô. Pior que ela só a blusa de gola alta que meu amigo veste por debaixo. Não sou entendido em moda, mas me parece que isso é moda dos anos 70.

— Quando enxergamos a Lua, ela geralmente está clara, isso porque a luz do Sol a pinta daquela cor — explica Carl enquanto gesticula com leveza entre um tropeço e outro no escuro no quase absoluto plano do vale, no corredor. Ele continua a palestra — e como a superfície da Lua é composta de uma poeira cinza-claro, o brilho do Sol é refletido para nós, por isso a Lua brilhando não é bom para o telescópio. Ofuscaria suas lentes delicadas.

A única coisa que reflete luz que me interessa agora é a estrada cujo nós estamos nos aproximando. A rota que nos levará ao Victor é feita com a mesma areia do deserto que nos rodeia, uma terra salmão, entretanto, como a terra da estrada foi peneirada e compactada, o tom dela é muito mais claro, como uma faixa branca e poeirenta no meio da noite, refletindo o brilho das estrelas da mesma forma que a Lua reflete o lume do Sol.

Ao subir para a estrada, um metro e meio mais alta que o deserto a sua volta, pela primeira vez Carl e eu reparamos de verdade no céu noturno por absoluto.

— Sensacional — digo.

— E pensar que somos poeira das_ _ _ — o nova-iorquino se interrompe outra vez — Tá vendo aquela luz vermelha piscando?

Por um segundo não faço ideia do que Carl fala, mas logo a vejo também. Na nossa frente, na direção de quem sobe a estrada do observatório, no céu logo acima das colinas mais distantes, uma luz avermelhada liga e desliga a cada segundo, intercalando com o piscar de outra luz, porém branca, como as luzes de segurança nas pontas das asas de um avião comercial. Assim como uma aeronave na noite, não conseguimos ver o avião em si, mas suas luzes piscando ao céu. O mesmo ocorre aqui. O curioso é que as luzes fazem movimentos circulares, curvas tão fechadas que seria impossível um avião de pequeno porte, comercial ou militar realizar tal manobra.

— Fazendo uma curva para a direita, né? — comento.

— Muito fechada, por sinal — diz Carl logo em seguida.

— Helicóptero?

— Faria mais sentido, mas não onde está o som?

Fizemos ainda mais silêncio. Talvez 10 segundos em que nem mesmo respiramos.

— Ouve algo?

— Nada!

No centro-norte do Chile não há insetos, não há animais em abundância. Inclusive em muitos pontos não há vida alguma, somente relevos acidentados com meia dúvida de brotos persistentes e tão esporádicos escondidos entre as pedras que o cenário é sempre bege ou laranja encardido. Onde estamos, mesmo sendo dentro do Valle del Elqui, um lugar tomado por vinhedos e vida, é desértico, um lugar a parte dentro da própria exceção. Dizem que quando os cientistas descobriram essa região do Valle del Elqui, quase sem vida alguma, silenciosa e alta no hemisfério sul, ficaram extasiados e logo já haviam máquinas trabalhando e erguendo o Victor nos anos 60 no que foi considerado “o céu mais limpo” da Terra.

— Eu também não. Parece não emitir som — comento eu.

— E essa mancha prata nas colinas da nossa esquerda? — observa Carl mais uma vez.

— Cara, ou tu és esquizofrênico e tá me contagiando ou tu tens uma visão ninja.

— Uma visão vinte-vinte, mas pelo jeito melhor que a sua — sussurra Carl, segurando meu braço direito na altura do cotovelo, me fazendo parar junto dele — Olha bem, tem uma mancha nas montanhas à frente que não havia antes.

— Cinza, prata, sei lá, acho que tô vendo também. Bem sutil…

Nós dois ficamos alguns segundos intrigados, forçando a visão ao semicerrar a vista, tentando dar mais nitidez ao que vemos e, de forma involuntária e inútil, projetando nossas cabeças centímetros para frente ao esticar os pescoços. Com a cortina prateada que começa a ficar levemente mais clara, um som quase imperceptível preenche o vazio quieto da noite mais escura que já vi na vida.

Hipnotizados. Essa é a palavra. Carl e eu parados como dois manequins empoeirados no meio da estrada de areia-clara, perplexos com a fantasmagórica luz que se contorce como fumaça quase invisível nos sulcos das montanhas adiante, montanhas as quais apenas sabemos que estão lá porque as estrelas não brilham abaixo de suas enegrecidas e irregulares silhuetas. Num piscar de olhos, em uníssono, o nova-iorquino e eu dizemos quase ao grito: carro!

Eu me jogo para o acostamento do lado, à esquerda, tropeçando no invisível monte de terra feito pela patrola que um dia alisou a estrada. Carl, diferente da lógica, ao invés de pular para a direita, corre na mesma direção que eu, também tropeçando no mesmo monte que contorna os dois lados da pista, caindo com a bunda em cima do ombro do meu braço que segura os galhos de uma planta morta enraizada no barranco. Com o impacto, nós dois rolamos barranco abaixo, parando deitados no nível do deserto, quase dois metros para lá da estrada. Mesmo os dois querendo cuspir toda a terra que comemos — que mais parece talco — , ficamos quietos, paralisados.

Como corremos, tropeçamos e rolamos, levantamos muita poeira. A luz do carro, antes prateada enquanto fazia uma curva, pintando as colinas distantes à nossa frente, agora está apontada diretamente para a estrada no exato ponto aonde estávamos segundos antes parados como duas estúpidas estátuas.

A luz vinda dos faróis dianteiros do carro é bege, cor da poeira que Carl e eu criamos. O som do motor acelerado, estridente agora, é de um carro potente em boa velocidade. Eu ainda não respiro e meus olhos estão arregalados de apreensão.

Donde estamos, no barranco esquerdo que antecede a via elevada em sua própria areia compactada, não enxergamos a estrada em si. O que vemos é apenas seu contorno do topo do barranco, maquiado por uma nuvem bege revelada pela luz do automóvel que passa por nós sem qualquer sinal de desaceleração.

A nuvem de pó que era bege, agora avermelha-se, vermelho sangue. Vermelho da cor dos faroletes traseiros do carro que desce o vale.

Dou uma gargalhada e comento — Puta que o pariu, isso foi DEMAIS!

Engatinhando no barranco de terra solta da base até a estrada, Carl comenta — Cai sobre um galho.

— NÃO! Tu caiu sobre mim! Da próxima vez se joga pro teu lado da estrada, animal.

— Para o meu lado? Eu não fazia ideia para qual direção eu estava correndo — resmunga o norte-americano irritado — Eu tenho terra até dentro das orelhas.

As horas vão passando, o frio abraçando mais forte a noite e Carl e eu seguíamos subindo a estrada na penumbra, nos orientando com a visão periférica que revela uma estrada mais clara que a noite.

— Que horas são? — pergunto enquanto giro ao lado do acostamento para mijar.

A voz de Carl, que soa cansada e há uns 15 metros adiante sobre a estrada, responde — 21:30. Já estamos caminhando a quase quatro horas.

Embora estejamos em uma estrada de terra à noite, podemos enxerga-la como um vulto e as condições da pista são excelentes. Sem rochas ou elevações e depressões repentinas. Meu parceiro e eu conseguimos fazer seis ou mais quilômetros por hora com mochilas de poucos quilos cada. Seguramente Carl já percebeu que superamos os 10 quilômetros que previ. O Victor é enorme, com ele há outras dezenas de telescópios menores em um completo da CTIO que envolvem outras três colinas vizinhas, todas seguramente sinalizadas pelo alto nível de informações que correm por lá. Já deveríamos estar vendo os telescópios com quilômetros de antecedência.

— Tua estimativa até o Victor foi um tanto otimista, certo? — meu amigo magicamente faz a pergunta capciosa.

— Na verdade eu não faço a menor ideia de quantos quilômetros ainda nos faltam — admito conforme balanço-me para fechar o zíper da calça coiote para trekking.

Carl não diz uma só palavra.

— Você sabe que podemos ter mais 10 ou mais quilômetros pela frente?

— É, é uma merda!

— Merda? Já estou quase sem água, Aldo! Isso não te deixaria nervoso?

— É… Tenho meio litro apenas — digo retornando à estrada, ali de onde vem a voz de Carl e de onde eu acho que estou vendo o vulto dele. Eu sigo — , mas não vale a pena voltar. Olha para esse céu, é certo que o observatório já tá perto.

Carl murmura uma vez mais e pede para eu olhar para cima. Um novo par de luzes. O mesmo padrão, porém agora são dois pares vermelho e branco, ambos se comportando da mesma forma, girando em sentido horário, sem emitirem som algum, tão altas quanto o topo das colinas ao nosso redor, no entanto próximas o bastante para percebemos com clareza suas luzes piscarem.

— Acho que são drones — comento.

— Talvez — a voz de Carl sai profundamente intrigada — . Que porra é essa e porque tá aqui?

Carl não pode ver, mas estou olhando para as luzes e sorrindo. Tão intrigado quanto ele, porém igualmente fascinado. Eu insisto — Só podem ser drones.

— Já pensei nisso também, mas porque sobrevoariam a região do observatório a noite?

— Um sistema de segurança? — especulo eu, seguindo o som dos passos de Carl que passou a caminhar outra vez na estrada.

— Como sempre, serei sincero contigo — diz ele, alfinetando-me ao usar a palavra “sincero” — , isso vai nos matar.

— Não conhecia esse seu lado mais dramático. São drones. O que eles vão fazer? Atirar na gente?

— Me refiro a falta d’água, Aldo. Isso não é drama para quem tem, na melhor das hipóteses, quatros horas de caminha para voltar ou a incerteza absoluta para continuar.

Eu prefiro me calar. Carl tem razão. Não fui sincero com ele e, sendo justo, nem mesmo comigo. Sai de La Serena podendo ter essa informação em mãos, mas achei que seria um pedal até o Victor e não uma cruzada bíblica a noite. Lembro de ter lido algo com “10 quilômetros” e por comodismo, preguiça ou ansiedade, associei como distância da guarita ao observatório.

Nos abaixamos instintivamente ao chegarmos ao topo do trecho da estrada. Um par de luzes brancas, dessa vez brilhando ininterruptamente e na nossa altura, bem longe na estrada lá na frente no aparente plano que há aqui no topo.

— É um… carro vindo. — murmuro.

— Não — discorda Carl, abaixado comigo no acostamento da estrada, fitando com atenção as luzes estáticas muito distantes a nossa frente — , parece serem lâmpadas de outra guarita do exército.

Por via das dúvidas, como estamos no topo de um grupo de colinas onde a estrada foi entalhada, não há como saltar para as laterais da pista. A estrada está literalmente cortando a colina ao meio e o máximo que temos nos acostamentos são paredões de terra e pedra com quatro ou cinco metros de altura. E só posso estimar a altura das paredes na escuridão porque é onde as estrelas começam a brilhar novamente.

— Vem — digo — que eu acho que tu tens razão. Não é um carro.

— Devagar — sussurra Carl agachado, me seguindo na direção do lume amarelado lá na frente.

A princípio iniciamos a caminhada devagar, mas logo estou mais abismado com o brilho e sigo com mais vigor contra ela. O silêncio é absoluto e ouço a respiração seca e ofegante do Carl logo ao meu lado, com o som das botas acertando o chão árido sob nós. Aos nos aproximarmos das luzes estáticas, repentinamente e de modo incalculável, percebemos do que se trata. Não são de um par de luzes pequena porque estávamos distantes e sim porque elas são — de fato — muito pequeninas e próximas uma da outra. Um par de leds presos a uma caixa metálica do tamanho de uma caixa de sapatos presa na altura de nossos rostos em um poste solitário que estava a 30 ou 40 passadas de nós.

— Não acredito!

— Podia jurar que estava longe da gente — diz Carl em seguida com um pouco de humor na voz, finalmente.

— Tome cuidado — eu o alerto — que parece que a queda daqui é alta!

— É, dá pra ver que aqui é alto.

O que quer que seja a caixa metálica, ela está instalada perigosamente bons passos fora da estrada, do lado externo da curva e insanamente a beira da encosta. Uma queda direto para deus-me-livre.

Vou mais a beirada e forço o olhar. Não é possível sequer deduzir a profundidade do que parece uma garganta para dentro do vale. O fundo não é nada além do negro absoluto. Após uma considerável quietude para nos situarmos, pergunto — O que diz a placa?

Quietude outra vez.

— “Rádio de Emergência”. Tens instruções em inglês e espanhol aqui — avisa-me Carl, dando um passo ao lado, me cedendo espaço para ficar ao seu lado.

— “Rádio de Emergência número 2”

A superfície da caixa é metálica azulada e no topo do poste não muito alto, uma placa com placas solares aponta para o alto.

— “Pressione o botão vermelho e repita as instruções ‘Aqui é Tololo número 2, necessito de ajuda agora’. Se não obter resposta em cinco segundos, repita a mensagem”.

Uou! — comenta o nova-iorquino — Desde quando você fala inglês?

— Tô lendo a versão em espanhol, idiota — respondo lhe dando um cutucão na barriga. Eu digo — Isso aqui tá parecendo Lost.

— Reparou? — pergunta Carl sem me dar real oportunidade de, igualmente cabreiro, responder — Se esse é o rádio número dois, onde tá o número um?

— Talvez mais à frente.

Carl me fita. A claridade dos leds frente aos nossos rostos torna o semblante do meu amigo um tanto medonho, como uma face sem corpo emergindo das trevas. Ele, pensativo e ainda me mirando, especula — Talvez mais a frente, mas e se a numeração começa na direção contrária?

— Não vimos luzes no chão antes.

— Não.

— Então? — pergunto.

— E se nós já passamos do observatório e estamos caminhando para o nada?

— Impossível!

— Aldo — Carl diz, dando uma pausa para os pensamentos — . E se a gente está caminhando para mais longe? Minha água já acabou. Sua água tá acabando…

— O observatório é monstruosamente grande. Tu achas que seria possível não haver luzes nele? Ou, na pior das hipóteses, não enxergarmos pelo menos a silhueta daquela merda?

Rádio (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Carl pensa. Ele sabe que é improvável nós não termos percebido o CTIO pelo caminho, entretanto o risco da estrada ter se dividido em duas e, por qualquer motivo, nós não termos visto e tomado a direção errada, é grande. E perturbador.

Eu dou outro palpite, mas agora minha voz traz uma pesada preocupação — Talvez a numeração começou lá naquela guarita e, como era dia, não o vimos enquanto fora da estrada. E quem sabe esses rádios estejam um pouco espaçados um do outro.

— “Pouco espaçados”? — a voz do meu amigo traz pela primeira vez sarcasmo e indignação clara — A gente tá caminhando a noite toda somente no intervalo do rádio número um para o número dois e tu acha que é só um pouco espaçado?

— Ok, essa porra é longe e eu me encanei. Pronto. Eu vou resolver isso!

— Aldo, pensa comigo! Não tem o menor cabimento eles instalarem rádios de emergência numerados para ter apenas dois.

Por um instante, Carl está me fazendo ainda mais preocupado.

Ele continua — Devem haver mais rápidos como esse e se a distância entre eles for a mesma…

— a gente precisa pedir ajuda! — eu completo a frase.

— Exato!

Silêncio.

— Cara — diz Carl sólido como uma rocha — tô esgotado e com sede. Pedalamos três horas subindo o vale e agora mais isso tudo. São quatro horas de caminhada. Chega!

Eu detesto ser posto na parede. Já faço isso comigo o bastante para não querer que outra pessoa o faça. Mas ele tem razão. Eu sugiro — Vamos fazer o seguinte: vamos achar um lugar plano e que nos mantenha escondido dos carros caso outro passar por aqui. Montamos a barraca, dormimos e levantamos cedo para voltarmos ou pedirmos ajuda ao primeiro carro que surgir.

Saímos do rádio, fazemos a curva que se fecha à esquerda e, logo em seguida, fazemos outra curva em descida para a direita. Sentimos leves movimentos do ar, não vento de verdade, mas uma brisa, pela primeira vez durante toda a noite.

— Além de não chegar nunca nessa merda de telescópio, estamos descendo — reclamo em voz alterada enquanto um cão, distante, passa a latir. De certa forma onde há cães, há pessoas. E se há pessoas, talvez não estejamos perdidos, contudo não quero ser visto enquanto durmo.

Cansados e estressados cada um à sua maneira, somos dois homens de idades e culturas diferentes caminhando na escuridão fria e, agora, ao som incessante de latidos.

— Aldo — questiona o homem da camisa de gola alta após quase uma hora caminhando atrás de mim sem dizer uma só palavra. — Olhe pra cima, à nossa esquerda.

Giro o pescoço na direção.

— São três pares agora.

O cão ainda segue latindo distante.

Ainda que eu esteja muito cansado e irritado, é inevitável que eu sinta um interesse por aquelas coisas no céu. Contudo agora são três pares e em posições diferentes. Os três girando no eixo imaginário do trio, como um bale monótono e mudo.

— Só podem ser drones — reitera Carl com voz já sonolenta, melancólica — , não há outra explicação. Se nós tivéssemos chegado no observatório, eu perguntaria_ _ _

— CALA A BOCA, Carl — grito e imediatamente baixo o tom da voz, expondo em mim mesmo a falta de controle emocional que tanto eu detesto nos outros, continuando — Dá um tempo! Sei lá, fica quietinho um pouco para eu poder pensar. Você é pior que o cachorro latindo.

E o cachorro volta a latir com maior cadência por minuto.

Quando tudo passa a dar errado, tenho o hábito involuntário de autopunição e se por ventura alguém estiver a minha volta, respingo a velha mania em quem não tem nada a ver com meus chiliques emocionais, minhas frustrações. Afinal, fui eu quem convidou Carl a estar aqui e ele, tão gentil quanto uma amizade verdadeira pede, fez tudo o que inventei. Minha cara nunca engana, testa contraída, lábios esmagados um contra o outro e fossas nasais dilatadas. Porém, aqui e agora, minha cara está oculta na escuridão e Carl não me conhece como eu o conheço. A frustração por não encontrar o observatório e ter, talvez, de pedir ajuda para voltar, se manifesta sobre mim no escuro através de passadas pesadas e na aspereza das palavras que saem de minha garganta. Eu só queria que o Carl não falasse nada por um tempo maior.

Já pensei longas horas sobre o porquê de me punir tanto. O fato é que quando me puno, uma pequena parcela de mim me defende na quietude de uma conversa imaginativa. Essa fatia, eu não a quero! É a parte medíocre da minha personalidade. Aquela cheia de desculpas que vai encontrando e inventando argumentos para me fazer retroceder, desistir, aceitar as coisas como elas são. Um pingo de concentração, quieto no meu mundo, vou rebatendo cada desculpa com exemplos de fracasso, demérito ou injustiça que já passou diante dos meus olhos.

“Vai desistir de alcançar o que quer porque tá mais difícil do que o imaginado? E se você estivesse preso a uma cadeira de rodas ou absolutamente cego, pensaria de modo diferente sobre os desafios da vida? Engole a merda dessa pena de si mesmo.”

Durante o processo, me projeto como perdedor e, ao natural, me inflo da sensação de urgência que me dá mais ar aos pulmões, mais tolerância a dor e um assustador medo de falhar. Falhar e ser só mais outro indivíduo com muito do mesmo.

O Carl e sua descrença que conseguiremos; o cachorro e seu latido incessante. Eu só preciso de um tempo para consertar as coisas, sem ter de dar amor, carinho ou atenção para estas… coisas.

Talvez uma característica da ascendência alemã na minha família, de postura mais inflexível; ou, o mais provável, apenas um pacote de traumas da infância, de um Aldo que não teve irmãos, primos ou referências masculinas dentro de casa, criado por uma mãe amorosa e que lhe deu todo o possível, mas que poderia ser sua avó e não pode psicologicamente preencher a essência do papel que deveria ter sido preenchido pelo meu pai. Deve ter sido confuso para um garoto que temia a rejeição, de não ser convidado a brincar ou ir no mesmo carro dos amigos para as festinhas. Quantas vezes na adolescência fui um bom goleiro, um bom baterista e não ouvi um pai assobiar ao fundo ou gritar um palavrão para eu dizer que a mãe pediu para ele não falar essas coisas. E assim fui desenhando minhas defesas e métodos, ano após ano, apagando um traço equivocado e tentando outro à lápis. Bonito ou não, o que desenhei foi minha autoconfiança e, principalmente, auto cobrança. Um mecanismo poderoso que me ajuda a não me decepcionar quando me vejo em dificuldade. Um mecanismo que me faz crescer e amadurecer, tentando ser — quem sabe — um grande pai, um grande profissional, um grande realizador do que for. Alguém que faz acontecer, sem esquecer de se fazer respeitar pelos seus momentos difíceis, mas, da mesma forma, não esquecendo que os outros não devem pagar pelo lado amargo da minha essência.

Carl simplesmente não fala nada e eu, dentro do silêncio que tanto quis, me constranjo.

— Olha só — digo, procurando não ser mais ríspido — , o que tu achas de montarmos a barraca aqui?

— Pode ser — responde ele com voz seca, quase sussurrada, um nova-iorquino esgotado do dia de hoje, maduro para entender que todos aqui estão cansados.

Montamos a barraca para uma pessoa atrás do arbusto solitário que encontramos minutos antes. Não mais que um metro e meio de altura mas aceitável para nos esconder de possíveis carros na estrada logo lado. Com algum constrangimento, nos acomodamos dentro do único saco de dormir. Minhas pernas latejam, minhas costas doem, o álgido das 23:30 no deserto chileno há dois mil metros ou mais de altitude me faz tremer junto ao Carl. Ainda que o saco de dormir seja para 15ºC negativos e Carl esteja imediatamente ao meu lado, ter esquecido o isolante térmico faz nossos corpos perder calor para o chão gelado sob nós. Diferentemente de deitar sobre o porcelanato da cozinha num dia de outono, deitar ao solo cru sem o isolante térmico não fará o chão mais quente no passar das horas.

— Estamos acabados, mas ninguém dormirá olhando esse céu como a gente — digo baixinho, esticado dentro do saco de dormir e lutando para não tremer tanto. O teto transparente da barraca não nos protege de algum eventual sereno, todavia não devem ser tantas pessoas pelo mundo que estão, bem agora, vendo o azul-esbranquiçado da Via-Láctea tão nítido como Carl e eu estamos vendo. Acho que tem raspas de bom-humor na minha voz depois de horas também.

— Já pensou se a gente apertasse o botão vermelho daquele rádio? — comenta Carl, na mesma posição que eu, admirando as estrelas e um pedacinho da lua que começa a nascer tardiamente por detrás da colina à nossa direita — O que você falaria?

— Sei lá.

— Sério… O que você falaria?

Com toda a força que ainda me resta e com uma estranha sensação de que iremos ter sucesso amanhã, eu faço a única coisa que quero fazer agora: peidar.

- — Oh my god, Aldo!

As estrelas entram na barraca através da tela transparente no teto. Questões cósmicas e fundamentais sobre a vida humana me vêm em mente e me obrigam a dizer — Carl.

— Que foi?

— Essa sua blusa de gola-alta… É muito gay.

Silêncio.

— Aldo.

Hm?

— Você é muito chato…

E assim, com uma gargalhada curta e algum sorriso em nossos rostos, eu durmo admirando intermitentemente às estrelas através do teto transparente da barraca. Faço isso até o sono me.

Forço as pálpebras a descolarem-se e miro o céu ainda escuro e limpo acima da gente. Que noite fria. Ao menos conseguimos dormir. Aliás, não ouvi qualquer som de carro por toda a madrugada.

— Vamos pedir ajuda ao primeiro carro que descer do observatório?

— Pode ser — falo me imaginando pedindo ajuda para ir embora daqui.

Talvez desistir seja a única coisa sensata a fazer numa manhã de quinta-feira a zero grau. Dobramos as duas camadas de tecido da barraca, guardamos ela e o saco de dormir na mochila de Carl e, ao caminhar em direção a estrada de chão batido, a dúvida paira. Deveríamos olhar à direita, em direção à incerteza de quantos quilômetros nos restam até Victor; ou à esquerda, para a caminhada de quatro horas de volta até o outro arbusto onde as bicicletas estão escondidas? Eu não quero desistir.

— O Gola-alta — chamo a atenção do parceiro de aventura, enquanto ele, agachado, ajeita sua mochila ao solo — , quero muito sua ajuda para…

Carl levanta-se, joga a mochila em suas costas por uma só alça e dispara com um enorme bom-humor e leveza na fuça — Pronto pra achar o Victor?

Quando eu penso no que estou fazendo, o que mais me satisfaz é saber que em minha recordação, independentemente do desfecho, Carl estará nela. Fito Gola-alta e admito —  é meu herói, Carl!

No escuro, contudo menos intenso com a lua finalmente a cintilar, piso na estrada de terra e a surpresa que me faz dizer “filho da puta, agora tá perto!” O rádio de emergência número três!

Estava e está todo esse tempo ao lado no acampamento, sem leds, oculto pela escuridão anterior e uma breve distância de 60 metros de onde eu estava na barraca. Agora está evidente que as distâncias entre os rádios são diferentes; que estamos na via correta e, extremamente provável, que não passei do CTIO sem o perceber. A dúvida que perdura é quantos rádios ainda preciso achar até o observatório. Algo que previamente não saberei.

— Três é um número bom — fala Carl sem dar muita atenção ao rádio do lado esquerdo da pista terrosa, nem sequer desviando suas passadas, seguindo firme comigo pelo centro da estrada em direção ao desconhecido adiante. — Tô muito mais interessado nas três luzes de ontem.

— É — murmuro, imaginando que, quanto aos “vagalumes” de ontem, não seria de todo mal entender o que de fato eram.

Subimos a estrada na reta de dois mil metros e entramos na curva longa à direita, por entre as colinas. A nossa esquerda, o paredão de rochas navalhadas onde a estrada foi escavada. Já à direita, a pequena queda que vem aumentando conforme marchamos na estrada que, mesmo suavemente, está quase que todo o tempo espiralada na pré-cordilheira. Fazendo a próxima curva, à esquerda, meu amigo e eu aceleramos o passo. Curvas com paredões de um lado e quedas do outro, nos deixando como baratas dentro de um pote, sem saber para onde ir se o motor de um carro surge aos ouvidos.

Saindo da curva, o paredão da esquerda encolhe gradativamente. De fato estamos chegando no topo desse morro. É possível ver as colinas vencidas e vizinhas dentro da manhã que ainda é noite.

AAAHHH! — grito entusiasmado, erguendo os braços para cima enquanto encaro as colinas ainda mais altas na direita da estrada.

O estadunidense da costa leste deslumbra com a sua clássica mirada apaixonada por tudo aquilo que admira. Carl não diz uma palavra além de sorrir ao Victor com as mãos na cintura.

Silhueta enegrecida no topo. O telescópio está desenhado pelo nascer do sol tardio e encabulado. Ele está a uns cinco quilômetros de distância daqui. Diferença que, da nossa perspectiva, nos exigirá caminhar os 5.000 metros de longitude e, possivelmente, escalar 200 ou mais metros até o cume onde Victor está. Sem quaisquer dúvidas estamos na iminência de alcançar o pico da região inteira como se as colinas — talvez os geógrafos e geólogos me respaldariam — estivessem empilhadas sobre uma montanha achatada que a noção de altitude apenas chega em seu explorador quando o mesmo olha para trás, na direção da costa do Pacífico, 60 quilômetros para o oeste.

Com oito andares de altura, o telescópio não é mais do que a cabeça dum palito de fósforo visto daqui. Tão sutil que apenas quem está olhando para esta paisagem a horas seria capaz de perceber na oscilação das silhuetas do relevo.

Carl cola ao meu lado, também sem conseguir tirar os olhos daquela verruga no contorno destacado no horizonte.

— Tá ouvindo?

— Ouvindo o que? — questiono.

Carl para de sorrir e olha para a curva atrás da gente. Junto do som agora mais alto. Novamente aquele brilho prata.

— CARRO!

Uma descarga de adrenalina e terror me vem, explodindo em energia ao arrancar-me do meio da pista onde Carl e eu estávamos milésimos de um instante antes. Avanço em disparada à parte final do paredão de rochas. Corro como se não estivesse usando a pesada mochila, fazendo-a quicar desajeitada nas costas já completamente suadas. Dou duas ou mais passadas rápidas nas rochas e, por fim, me jogando para cima da elevação, pousando nas pedras com meu joelho direito e girando o corpo para a direção da estrada imediatamente. Meus olhos estão mais abertos do que nunca. No segundo anterior, o carro passa e, como o primeiro veículo da noite passada, não desacelera e se vai ao CTIO. A alvorada decora as colinas junto de meus gemidos de dor misturados com alguma euforia de ter escapado da vigilância ou quem quer que fosse a criatura ao volante.

— Carl!

Nada.

— Carl!

— Que?

Ainda mais alto na colina, está um homem vestindo um horroroso casaco caqui cor de cocô com um suéter setentista de gola-alta, me fitando com o penteado perfeitamente ajeitado.

Sorrio para ele e me levanto mancando, pensando como aquele ser franzino chegou lá mais rápido do que eu, e ainda ileso. Enfim, também pouco importa.

São 7:30. Caqui-cocô e eu decidimos por sair da estrada e subir as próximas três colinas que nos separam do Victor em uma linha reta imaginária, ignorando o fato da estrada seguir para a direção adjacente, esculpindo as bases de outras colinas menores de modo que a estrada não seja tão íngreme quanto ela seria se fosse diretamente ao pico.

Menos de 15 minutos depois, estamos no topo da primeira colina, a menor das três. Miro para trás e vejo outro veículo, dessa vez um caminhão, fazendo a curva onde fodi com minha perna direita.

— Segundo uma equação especial dentro da Teoria das Cordas, existem infinitas versões da realidade… — diz Carl.

— Parabéns… — murmuro enquanto reparo caminhando passando lá embaixo.

— E numa delas, você quebrou a perna naquela curva.

O caminhão parece frenar justamente na reta, quando deveria estar acelerando. Eu sussurro — Que azar, não?!

— Você ter quebrado a perna na outra realidade? — questiona Carl, confortando-me — Não chamaria de azar. Azar seria você ser detido e deportado nessa dimensão antes conhecer a mulher que finalmente te mostrará que você não é igual ao seu pai.

Franzo o cenho, desvio o olhar do caminhão e giro o dorso para trás. Minha voz agrava-se — Do que tu estás falando? Porque você disse isso?

Carl dá de ombros com um esboço de desafio no rosto. Ele olha para o lado e volta-se ao meu rosto — Você nunca me falou da sua irmã.

— E porque eu deveria falar da Andri para ti agora?

O caminhão vai desaparecendo na curva seguinte.

Ergo-me sentindo o joelho direito, ajeito a mochila, fito a caramanhola quase vazia e sugiro — Quanto menos falarmos, menos sede sentiremos.

Os dois dedos d’água e o frio de antes somem com o esforço da escalada, tornando-me ofegante e mais sedento a cada novo cem metros avançamos colinas acima.

— É lindo olhar para ele lá no alto e imaginar que foi ele, em 1998, quem possibilitou essa descoberta… — diz um Carl que não mais vejo, apenas escuto sua voz enquanto foco na subida.

O sol derrama sua luz dourada sobre vale às 9:30, criando nas colinas mais altas ligeiras sombras que cada vez mais desaparecem a medida que a estrela de meia-idade se levanta. No topo da segunda e penúltima colina antes do CTIO, a angústia de querer beber água e não ter é tão forte que não consigo parar de pensar em água. A colina defronte, a do telescópio, é colossal. Muito íngreme. As rochas se soltam em lascas como massa-folhada conforme agarro-me à elas, as fazendo de âncoras do próximo impulso montanha acima. Não comemos nada desde ontem. Meu estômago está tão retraído que dói, todavia se eu pudesse escolher, optaria por um gole d’água.

— Aldo — fala Carl, fitando um cactos próximo aos seus pés, 20 metros mais cima na colina.

“Como ele sobe tão rápido?”, me pergunto.

Ele continua — Tá com sua faca?

Esgotado, forço meu braço esquerdo para trás, tentando pegar minha faca de lâmina preta sem ter de sacar a mochila das costas. Levo o braço para trás e sinto a bainha da faca presa a mochila, mas ela está bem presa para eu remov_ _ _

Me desequilibro e quase escorrego. As lascas bege e laranja da parede, rolam e se desfazem mais pela encosta. Estou me segurando em uma raiz solitária, parte exposta, parte ainda encravada no solo. Ela não me aguentará por muito tempo.

— Carl! Vou cair! — em voz inaudível, provida de emoção, apenas verbalizo.

Cada movimento, respiração e até mesmo pensamento, trato com muita cautela. Meu pé esquerdo está apenas com a ponta dos dedos firme na rocha o qual não posso ver. A cabeça tenho de manter rente ao solo da próxima camada que tento subir, como uma criança pequena tentando subir em uma cama convencional. O peso da minha cabeça inclinada à frente está servindo como contra peso para que a mochila em minhas costas não me desequilibre para trás. De alguma forma instintiva, sinto aquele pé firme o necessário para eu confiar a ele metade do meu peso. O joelho direito, o da queda de horas antes, está erguido até a linha do meu peito a suportar a outra metade do meu peso em uma pedra inclinada e arenosa. A posição que me encontro é ridiculamente desconfortável e perigosa, aonde a mão esquerda apenas ajuda minha cabeça a equilibrar o corpo junto a uma raiz que se romperá e uma mão direita desesperada para encontrar um ponto de apoio não arenoso.

A dor da fricção do joelho com a rocha não supera em nada o medo dessa raiz me dar tempo de encontrar um terceiro ponto de apoio.

— Não vou morrer — sussurro, sabendo que a queda será superior a 100 metros caso eu não role desgovernado para o nível inferior da encosta rochosa. Quem sabe outros 200 metros até o que poderíamos chamar de plano.

Penso na minha mãe, na Laís e minhas pálpebras pulsam ao pensar na Andri em outro velório. E dessa vez grávida.

Arrisco tudo na pontinha do meu pé esquerdo, fazendo o movimento de alavanca, me erguendo pouquíssimos centímetros e, sem garantia, solto-me da raiz e, com o ganho de altura proporcionado pelo movimento de alavanca, me agarro sem alternativas ao sulco da rocha mais acima. Me puxo para o alto, o sulco começa a esfarelar-se nas bordas e, com o pé esquerdo encontrando outra ancoragem no ponto-cego abaixo, tiro a carga dolorosa da minha perna direita. Com um movimento não claro para descrever, me ergo antes do sulco ceder e eu cair.

Sacudo a poeira e fito Carl mais a cima. Ele segue subindo sem olhar para trás. Pego a faca da minha mochila.

Carl me fita e diz — Fatie o cacto! Deve ter água.

Cada mordida no miolo suculento e esbranquiçado, ainda que salobro, é um prazer gelado e molhado como um melão resfriado e sem gosto num dia de verão tropical. O líquido em cada generosa mordida na sua polpa, rende um bom gole na água mais gelada que poderíamos imaginar. Se me fará mal, não sei, mas o efeito psicológico de beber isso me impulsionará nos metros finais.

Em 1997, dentro daquela sessão de cinema, quando conheci Carl, fiquei me imaginando se um dia estaria numa grande aventura, como na ficção que se desenrolava na tela à frente. “Contato já é meu filme preferido”, dizia eu em pensamentos sem ao menos o filme ter acabado. E olha eu aqui, com o Carl, a poucas dezenas de metros da minha própria aventura. Quem escreveu aquele filme se orgulharia de mim agora? Provavelmente não o ato mas quem sabe o porquê. Nunca saberei, contudo dentro de mim isso faz toda a diferença, imaginando um “muito bem” vindo do autor.

Olho para cima, e vejo Carl cada vez mais alto, mirando para mim com sua placidez, como um Mestre dos Magos, sumindo como bruma ao vento; se materializando de volta nos pontos onde eu não reparava. É como se fosse ele quem me instiga a continuar colina acima.

— ANDA LOGO, ALDO — manda Carl, praticamente gritando para o som de sua voz superar o ruído quase sólido da casa das máquinas do telescópio ou o que quer que seja o som que eu mesmo nem perceber já haver aqui.

— NÃO ENCONTRO MINHA COLHER!

Carl fita para baixo e não compreende o que eu disse.

— COLHER?

— É, MINHA COLHER.

— COMO ASSIM, COLHER?

Olhando para o chão a minha volta, murmuro angustiado como quem sabe que acaba de perder a chave que lhe dava acesso a algo importante — Minha colher… Não, não, não, não…

Quando me desequilibrei ao tentar pegar a faca, meu único talher se soltou da presilha externa da bainha da lâmina. Fato!

Murmuro qualquer coisa esquadrinhando cada centímetro do solo de terra e pedra, deitando-me na borda da encosta e inutilmente tentando ver algum brilho metálico lá embaixo. Nada!

A musculatura do meu rosto oscila, as narinas passam a suavemente a dilatarem-se e a humidade nos olhos distorce a paisagem.

— Abra a boca bem grande, campeão — disse o homem com uma pomposa colherada de mingau de banana esmagada.

— O senhor gosta d’Os Trapalhões? — perguntei lambendo os beiços e fitando o homem.

Ele me serve mais uma colherada e em seguida me mostra o cabo metálico do talher onde algo está entalhado — Didi, Dedé e Muçum, mas o melhor é este aqui.

Meu semblante engrandeceu reparando na caricatura do Zacarias numa colher tão pequenina nas mãos do meu pai.

— Quero saber se você será um cara forte?

— Eu sou muito forte, pai — falo mostrando meu braço a ele.

Gosto de inventar que ele, naquele momento, me fez cosquinhas. Mas eu realmente não lembro destes detalhe…

Aqueles fatos da vida que carregamos para sempre com a gente sem saber o porquê, mas os temos teimosamente vívidos na memória, como a lembrança do meu amigo dizendo à mim para não jogar o papel de bala no chão quando eu não passava de um pré-adolescente no B38. Entretanto, diferente da memória do papel de bala, a lembrança da colher d’Os Trapalhões tem significado compreensível aqui dentro. Um ícone da única memória de carinho paterno antes do meu pai ir embora para nunca mais voltar e, então, 25 anos depois ou dois anos atrás, morrer sem nunca ter me dito algo bonito de novo, mentido que eu me torara um homem forte ou que, pelo menos, gostava muito de mim. Inventado qualquer mentira para não ter participado da minha vida ou me dito que eu não estava sozinho. Que eu tinha uma irmã.

Indiferente e estático como um deserto sem vento que não convida ninguém a cruzá-lo. Era como eu estava diante do caixão rodeado de pessoas que eu não fazia ideia de quem eram. De mãos dadas formalmente comigo mesmo, no entanto distante para não ver o rosto dentro da caixa. Os sussurros sepulcrais as vezes pareciam ecoar dentro da minúscula sala revestida de lajotas frias como a de um antigo frigorífico. O cheiro de detergente de lavanda e das flores nas quatro extremidades do caixão jamais aconchegaria alguém lá. As pessoas me olhavam, mas eu as fitava muito mais.

“Eu não conheço ninguém aqui”, pensara eu.

— Oi — disse a garota.

— Oi.

— Tu é o Aldo, certo?

A observo com mais cuidado, imaginando quem ela poderia ser. Eu assenti com o olhar.

— Mano, eu sou a Andri.

Eu não entendi o que ela quis dizer.

— Eu sou tua irmã — disse a linda garota do longo cabelo negro.

Aquele filho da mãe havia escondido de mim que minha família era maior do que minha mãe e eu. Que eu tinha uma irmã dez anos mais jovem. Alguém que eu poderia ter discutido por bobagens, contado mentiras e pedido desculpas; quem me faria-me esconder o sorriso para não admitir que eu estava com saudade. Sabe, alguém para eu trancar a porta do meu quarto só para que ela não entrasse. Sensações e momentos que nunca tive e que, vai tomar no olho do teu cu, você tirou de mim por medo ou qualquer outra razão estúpida que você encontrou. Me tirou muitos abraços de natal que fiquei sozinho com a mãe em casa. Horas vendo filmes e descobrir que talvez ela se interessasse pelos mesmos temas que eu.

Que merda, pai!

Para a Andri, eu era o irmão inalcançável que vivia em outro continente. E para mim, a Andri nunca chegou a existir antes do velório. Tanto ela quanto eu fomos privados por duas décadas de convívio…

Mais longe no tempo, nos anos de pré-adolescência, houve dias que eu pensava mais do que um relâmpago do acaso sobre os motivos dados para ele não ter qualquer interesse em mim. Qual é o limite da fantasia de uma criança? Quando a criança conversa sozinha por ser natural e quando isto passa a ser um problema? Esta fronteira é tão acidentada quanto esse deserto chileno.

Eu levei um bom tempo para desconfiar que talvez eu não era o lado problemático, mas sim o homem que deveria ter sido meu pai. Homem que hoje, tanto a Andri quando eu, só achamos que não teve talento.

Curados mas não imunes da ausência dele, a Andri e eu vivemos aqueles dois anos antes da viagem com todas as belezas da vida entre irmãs. Rimos, discutimos, nos afastamos e nos reaproximamos. Recomendei e fui recomendado. Fizemos festas. Falamos de coisas que nos constrangeu, que nos deu orgulho e, sim, ela é o maior presente que eu poderia ganhar nesta fase da vida.

A Andri sentou comigo na escadaria da escola onde estudei nos tempos de criança, ela disse meses antes da minha viagem começar — Esses três anos passaram rápido e… E quando tu voltar eu vou te abraçar muito apertado e tu vai me contar tudinho, mano.

Minhas bochechas contraíram-se.

Apesar de tudo, sempre será nosso pai quem paradoxalmente nos conectou um ao outro. E tudo que eu tinha que foi ele quem me dera, foi a maldita colherinha. Desejo, do fundo do meu coração, que ela tenha ganhado asas e voado para o lugar onde as memórias vivem por mais tempo.

— É só uma colher! Vamos — diz Carl, me estendendo a mão e puxando-me nos últimos metros da encosta.

E aqui ele está!

“Olá, Victor!

“Olá, Aldo!”

Victor. O monstro branco e metálico, de cúpula prateada. De olhos curiosos apontados ao céu tão azul quanto as cores poderiam ser. E o deserto elevado por todos os lados. Não existe esgotamento em minhas pernas. Não me sinto mais cansado de pensar. A fome, sede, estresse. A endorfina irriga cada canto atrás de meus olhos e o humor é algo especial. Carl me abraça lateralmente, fala algo que não compreendo e me ajuda com os 200 metros até o telescópio no platô ligeiramente mais alto da colina. Finalmente uma estrada pavimentada. Tudo aqui é vazio. Não parece haver pessoas.

A cada passada, sinto mais meu joelho direito acordar em dor. A cada passada, lamento por não estar voltando pra procurar a colherinha. Mas a cada novo passo na direção do objetivo, vejo o telescópio crescer diante de mim.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— Ei, ei, ei! — grita um funcionário da segurança saído da instalação ao lado do Victor.

“Que me prenda, que me deporte, mas só me dá água e algo para comer!”, diria meus olhos se o funcionário pudesse lê-los.

A la puta madre. Señor, como chegou até aqui? — pergunta o segurança chileno.

Por alguns minutos tentando convence-lo de que vim caminhando pelas últimas 12 horas, que não há moto ou carro escondido. Eu peço para me sentar a sombra.

Técnicos e um enfermeiro. Ninguém do CTIO crê na história que conto resumidamente. Eles precisam de um tempo para assimilar que não é impossível.

— São 30 quilômetros, filho! — o enfermeiro, um homem de 50 e poucos anos, diz aos risos enquanto abre a caixa de primeiros-socorros e sinaliza para alguém buscar especificamente um suco de laranja com uma colher de açúcar refinado.

Sentado na varanda de um telescópio menor, eu encaro o enfermeiro rodeado por funcionários falando inglês e o quase incompreensível espanhol chileno.

— Que paso?

Este weón disse que he andado por toda la noche para ver essa weá aqui en Cerro Tololo — comenta ao colega um dos técnicos, fitando Victor atrás de si antes de voltar a me encarar.

— La chucha, weón! — se espanta o colega.

É curioso. Foram tantas horas para vir até aqui que, agora, o telescópio está não mais do que três quinzenas de passos de mim, porém a atenção que me deixa está apontada ao grupo de funcionários que sorri e crê que hoje não é mais um dia como os outros. Conforme os cientistas dormem para voltar a observar o céu na noite madrugada adentro, sou levado para o refeitório onde um almoço é preparado para mim. O chefe da cozinha com seu gorro branco sanfonado não parece falar espanhol, todavia me trata como se cientista eu fosse. Minhas roupas surradas, o suor ainda me rolando a cara não é desculpas para eu esconder um sorriso de gratidão ao homem.

— Thank you — digo no pouco de inglês que sei.

E ele assente, curvando-se brevemente e girando nos pés e retornando à cozinha.

O amplo refeitório com o deserto montanhoso como vitrine logo ao meu lado esquerdo me transporta para o que seria um pedaço do primeiro mundo em meio a Marte. Lugar alaranjado, terroso e sem vida aos desatentos.

O segurança que me encontrou ressurge, se aproxima e, junto de uma maçã para mim e outra para ele, o funcionário me entrega um telefone.

— Alô?

— Señor, Aldo? — pergunta a voz do outro lado da linha.

O esporro vem de uma chamada de Tucson, nos Estados Unidos. O homem se identifica como diretor do observatório e, entre risadas moderadas e picos de rispidez, na ligeira chamada o diretor admiti que entende minhas motivações porém de que elas não são razão para se quebrar a lei. Pelo lado ético, concordo, mas ele não me entenderia e não tem como compreender o efeito de um pôster colado na parte interna dum armário de adolescente pode, junto de um filme de 1997, construir na cabeça de alguém que busca coisas realmente pessoais. Procuro ser diplomático e concordo em receber uma carona até onde escondi a bicicleta fora do perímetro internacional.

— Sabe o que mais me impressiona? — comenta o segurança pondo o telefone no gancho e comendo a sua maçã — Não é você ter subido los 2.200 metros de altitud para mirar un telescópio velho. O absurdo é você ter feito isso sozinho. Weón, tu eres loco!

O refeitório já tão vazio quanto meu estômago há 35 minutos atrás, a larga e elegante porta oscilante de madeira ainda balança com a cinética deixada pelo segurança ao sair. Fito a maçã à mesa e antes de morde-la, reclino-me na cadeira, reparo as colinas por entre os vidros e penso no Carl.

Minhas mãos apertavam os repousos de braços na poltrona do cinema. A protagonista do filme viajava pelo que parecia ser outro planeta até que, com uma praia como pano de fundo, ela vê o ser translúcido e humanoide diante dela.

— Pai?! — ela diz confusa.

Numa gota de lembrança, o homem há muito tempo falecido, não conversa, não revela ser ou não ser, no entanto de forma e traços tão familiares à protagonista. Ela, como cientista, sabia que nada daquilo fazia sentido, de que não era possível. Entretanto, ainda que imersa em uma ilusão da figura paterna, ela não estava imune a sentir aquela ausência.

Meus dedos relaxaram sobre a poltrona do cinema, e eu, com meus 13 anos de idade, pensava a respeito de minha própria história com meu pai que, ainda que vivo, não estava e nunca viria a estar numa sala de cinema com seu filho. Dali em diante e por outros motivos mais, o autor do livro que originou ao filme Contato, passou a ser o indivíduo que, anos mais tarde, mudaria minha forma de interpretar a vida: biológica, química, plausível e profundamente explicável através da ciência, sem margens para mágicas ou crenças pessoais, e ainda assim fascinante, tanto quanto a própria ficção vista em Contato poderia ser.

Lembro de ter anotado no caderno o que li no cartaz do longa-metragem: baseado no romance de Carl Sagan.

Ainda fitando as montanhas e os pormenores do refeitório ao topo do Cerro Tololo, mastigo minha maçã sem pressa e com a provável satisfação abstrata marcada ao rosto. Os quilômetros, a noite, as luzes no céu que ninguém me confirmou sobre do que se tratavam. A quietude da paisagem, a fome e a sede anteriores para, então, a quase queda vir e levasse o único gatilho que disparava a memória doce sobre quem eu queria ter amado. Às vezes, ainda que só, não acho justo viver meus sonhos sem os dividi-los. O fardo não deixa de ser pesado e a conquista não se torna maior, mas ter alguém, seja real ou no imaginário, acho que me faz mais humano.

“Obrigado, Carl. Você sempre será um de meus heróis! E acho que já falamos a respeito.”

Parte I (Aldo Lammel, M&B Websérie)
Parte II (Aldo Lammel, M&B Websérie)