Aldo Lammel, CC BY-NC

Antofacrazy

Na placa diz "Antofagasta, 16 Km". Paro a bicicleta, fico em pé no acostamento da rodovia, mandando a Garibaldi entre minhas pernas e deixando-me reclinar sobre seu guidão. Tenho duas opções: sigo reto e me mantenho na rota do deserto em direção a San Pedro de Atacama, minha última cidade chilena; ou converto à esquerda, saindo da rodovia nacional número cinco, entrando em Antofagasta, capital da província homônima. Mesmo que em alguns momentos o vazio seja tedioso, minha viagem pelo norte chileno está passando rápido. Na prática, são quase dois meses pelo deserto desde que saí de Santiago, 1.100 quilômetros ao sul daqui, e de lá para cá, coleciono momentos tão frescos da minha memória, que ainda não os destilei: eu encontrando no deserto o ciclista espanhol Javier Colorado, conhecido pelos cicloviajantes por ter tido seus guarda-costas assassinados pelos terroristas no Paquistão; eu dormindo no meio do deserto pela primeira vez, assustado com os ruídos que diziam-me que poderia ser um puma espreitando a barraca; eu me hospedando em La 5º Cia de Bomberos de Coquimbo, lugar onde fiz jovens amigos, dirigi o caminhão dos bombeiros e falei ao mega-fone com a população em português brasileiro. "Aqui é os bombero, pô!" E só de pensar que foram estes jovens voluntários que viram meus vídeos da viagem pela primeira vez e me disseram que eu deveria publicá-los. E assim venho fazendo desde então. Como se não bastasse, vívido de dias atrás na memória, foi eu subindo clandestinamente no observatório no Valle de Elqui, recebendo uma notificação extra-oficial “me convidando” a apagar todos meus registros da escalada ao CTIO e deixar o Chile imediatamente; chegando em Copiapó e vendo com meus próprios olhos a tragédia que as raras chuvas que desceram as montanhas trouxeram a região, contudo, de contraste, deslumbrei as flores colorirem em púrpura a superfície longínqua do Atacama.

Sigo fitando a placa, sem saber se devo ou não ir a Antofagasta.

Ah, vivi algo ainda mais excêntrico dias atrás. Pense em uma neblina no início de entardecer frio de outono. Pense num nevoeiro realmente forte. Agora, imagine um dos mais densos do mundo que quando chega de surpresa nas montanhas costeiras no norte chileno, os veículos passam a andar a 20 quilômetros por hora e ainda assim acidentes fatais acontecem, com ônibus rolando penhascos abaixo e caminhões em colisões frontais com carros de passeio. É neste cenário que escolhi para montar a barraca noite após noite, deixando a famosa Camanchaca engolir-me conforme eu lia o conto de horror “O Nevoeiro”, de Stephen King, história que inspirou os jogos e filmes da série Silent Hill. Nesta excêntrica experiência de dias a fio, registrei a solidão e a melancólica que existem ali, as vezes dormindo dentro dela, outras, dentro de ruínas há décadas abandonadas pelo deserto. De um modo muito especial, o deserto me tem por completo porque aqui, nele, estou sozinho comigo, lendo e escrevendo. Ouvindo música e preparando minha comida. Me banhando e me empoeirando. Muitas horas sem falar absolutamente uma só palavra.

(Esq.) Primeira noite dentro do deserto; (Cent.) Camanchaca nas montanhas; (Dir.) Dormindo em ruínas do deserto — Mai/2015 (Aldo Lammel)

Se o Atacama fosse alguém, eu poderia fazer uma fogueira e convidá-lo a sentar-se e dividir um chimarrão comigo, pedindo-lhe para me contar suas histórias, seus medos, seus amores. Ouvir os contos do deserto mais alto do mundo por longas horas seria um aconchego no silêncio das noites aqui. As estrelas são boas companhias até o sono me encontrar no deserto que tem um vazio equivalente a 10 mil campos de futebol juntos. Neste mundo à parte, ao dia, quente; a noite, frio, beirando o zero grau.

Aquela sensação de solidão que senti ao cruzar a Cordilheira dos Andes da Argentina para o Chile (bem verdade que foi acentuada pela fome) já não ocorre mais. Por sinal, estou em um período de transição de mochileiro para aventureiro, para algo difícil de descrever. Mais ou menos 20 dias atrás, como todas as noites no Atacama, o céu estava magnífico, a Lua refletia o Sol, entretanto eu não conseguia enxergar onde pisava. Tudo que eu sabia era que eu estava no topo de uma colina aleatória que escolhi no entardecer para montar minha barraca suficientemente longe da estrada deserta por onde só se vê caminhões solitários viajando. Eu não tinha sono, a ansiedade sem razão me agitara e a vontade de caminhar pela noite me acelerou mesmo depois de um dia todo pedalando. Tropeçando pelo escuro e coletando vultos no chão noturno, fiz um círculo de pedras vulcânicas com um metro e meio de diâmetro sem qualquer propósito, apenas por sentir que deveria gastar meu tempo, quem sabe impulsionado pela graça de imaginar que dentro de uma década ou mais, alguém acidentalmente poderá encontrar aquelas pedras alinhadas e se perguntará porque o círculo foi feito. Nem eu saberia dizer! As horas passaram, fui dormir e logo acordei com o sol tocando o cerro e tirando minha barraca da sombra lentamente. Preparei um achocolatado quente feito de leite em pó, saí do cálido saco de dormir e fui assistir o amanhecer no topo da colina, lá onde eu montara o círculo. De lá eu conseguia ver a única estrada passando pelo meio do deserto, quem sabe havia quatro milhas entre nós, não posso afirmar, mas o silêncio era absoluto. Com um pouco de bateria no iPod, tudo que escolhi fazer antes de iniciar meu dia de pedal foi aquecer-me dos 10ºC. De dentro do círculo de pedras, crio meu ritual de passagem com o volume a todo gás em meus ouvidos. Uma passagem para uma dimensão que eu só preciso fechar os olhos e respirar tão fundo eu puder para sentir-me vivo. Eu estava outro dia mais dentro do melhor lugar do mundo: o deserto do Atacama.

Vídeo daquele amanhecer no deserto (Aldo Lammel)

Sinto-me quase selvagem, uma conexão de instinto primitivo que me sopra aos ouvidos de que eu deveria experimentar mais tempo entre as montanhas, mas já fazem quase 60 dias que não tenho uma conversa complexa, já faz muito tempo que não me banho, porém tenho de te confessar que ver minhas roupas empoeiradas de terra vermelha da cabeça aos pés me deixa feliz de alguma forma muito abstrata. O deserto já me tem a tanto tempo dentro dele, que me parece mais saudável eu dar um tempo disso tudo. Numa dessas de abusar da solidão ao caminhar sozinho pelas colinas a noite, posso não achar o caminho de volta até a barraca e pagar um preço alto demais. Sou assim, gosto de pagar pra ver, teimoso sem igual, todavia tenho consciência de que basta um erro para a merda toda acontecer. Parece drama, mas pergunte ao Timothy Treadwell o que ele acha de não ter dado um tempo de seus acampamentos de longos períodos nas montanhas. Embora nenhum urso vá me devorar aqui, um acidente envolvendo hipotermia ou uma queda grave para quem vive em um deserto frio e rochoso, é só questão de tempo. O final de semana está ai, não seria nada mal entrar em uma cidade grande, descansar o físico, comer algo mais elaborado e conhecer uma donzela de trejeitos doces, desacompanhada e com um beijo bom.

"Uau, conhecer uma garota seria muito bom", me digo, ainda encarando a placa no deserto escrito "Antofagasta, 16km" e me dizendo que no fundo tudo o que mais preciso é de um banho de água quente e com bastante, mas BASTANTE sabão.

É quinta-feira, 11 de junho de 2015— dia 131 de viagem.

Cidade de Antofagasta, Chile (Google Maps)

Faço a curva para a esquerda, saindo da Ruta-5, companheira de muitos dias, e iniciando os 16 quilômetros de descida para dentro da cidade costeira, uma capital com mais de 340 mil habitantes. Uma das primeiras lições que aprendi logo na Argentina foi que, quando se está viajando sozinho, são nas cidades grandes ou turísticas que se encontra outros viajantes sem tempo a perder ou, pelo menos, pessoas que gostam de viajantes buscando companhia. Sem contatos, vou ao Corpo de Bombeiros, prática que iniciei aqui no Chile e venho aprimorando. A tarefa não é fácil em cidades grandes como Antofagasta, porém não se preocupe, apenas estou ponto meus pés no chão e não declarando derrota antes do combate. São 18:30, o dia foi de céu limpo, ensolarado depois das clássicas manhãs nubladas próximas ao mar; mas agora o entardecer acontece e é uma questão de poucos minutos para a noite cair, soprando uma brisa que pede casaco. Pedalo pela avenida beira-mar, tráfico moderado, praia de pouca areia, ninguém na água, apenas navios ancorados à distância, possivelmente aguardando o momento certo para atracar no porto e despejar toneladas de coisas Chile adentro. Eu apostaria que qualquer coisa que a Garibaldi e eu precisamos, encontraríamos nos milhares de contêineres coloridos que empilham-se pelos espaços do porto. Entre caixas com TV’s chinesas, peças de carros britânicos, detonadores filipinos para uso das minerias, quem sabe uma caixa com quilos de cocaína colombiana maquiada entre blocos de argila branca envolvidas em plástico-filme, e lá está a caixa dos GPS para a bicicleta, caixa dos laptops com mais gigas de memória e outra com pneus anti-furos para a bicicleta.

Capítulo Um — O namorado

Bato na porta da primeira companhia de bombeiros que encontro, logo há poucos metros do porto, contudo não me aceitam, me indicam a maior companhia da cidade onde minhas chances de ter uma cama confortável e uma ducha, tudo de graça, seriam possíveis. Pedalo algumas quadras, reparo na massa de pessoas caminhando em todas as direções, carros, luzes, publicidade, prédios, coisas que eu não via desde La Serena, 700 quilômetros ao sul daqui. E na confusão de uma cidade grande, encontro o grande e antigo prédio da outra companhia de bombeiros. Depois de um certo período de discussão e eu tendo de explicar para três bombeiros sobre as responsabilidades de um membro da corporação em ajudar cidadãos, seja turista ou não, sou aceito com mau-humor por parte dos anfitriões. São 20:00, estou pouco me lixando para cara feia e oficialmente é uma noite a menos dentro da barraca e sem banho. No banheiro em formato retangular, sem divisões, paredes de ladrilho branco, tão antigos que nos quatro cantos o branco não é mais branco, é pérola. Giro uma das torneiras e a água cai fria e desconfortável sobre minhas costas. Me deito na cama macia e cheirosa, tento dormir ignorando os alto-falantes com a comunicação da central sobre os chamados de emergência, mas é difícil. Pego no sono e as voz feminina volta a reverberar pelas paredes do dormitório e de toda a companhia.

Colisão lateral entre dois veículos leves no quilômetro 11 da CH-28 sentido Antofagasta. Cia-1, unidade aposta para atendimento?

E a sirene toca e uns três bombeiros que dormiam nas camas ao meu lado já estão se vestindo. Lá se vão eles. Um “boa sorte” e eu volto a dormir. Depois de ter ficado uma semana na Quinta Cia de Bombeiros de Coquimbo, vivendo toda a sua rotina, já estou acostumado com os procedimentos e facilmente poderia, pelo menos, acompanha-los para documentar a ação, embora eu saiba que seja proibido um civil não treinado segui-los. É, é melhor eu dormir.

— Para onde você vai? — pergunta a bombeira que me vê pondo minhas coisas na Garibaldi na manhã seguinte.

— Oi, Giovana. O combinado era que hoje eu procuraria outro lugar para ficar. Bombeiros de cidade grande são foda — a respondo com alguma insatisfação no rosto enquanto encaixando os alforges na bicicleta.

— Fica lá em casa!

Demoro para processar a informação, ontem a noite quando conheci a Giovana nas habitações da Primeira Companhia de Bombeiros de Antofagasta, fiquei surpreso por encontrar uma bombeira. Não é a primeira mulher que vejo dentro de uma Cia, todavia não como a Giovana. Sabe, chilenas não tem o padrão de beleza visto no Brasil, embora algumas sejam charmosas, claro, mas não vem ao caso. Já esta garota é diferente, mesmo com a tarefa de proteger e resgatar o cidadão, ela está diante de mim de salto alto, saia, com alguma maquiagem no rosto, cabelo feito, unhas cumpridas e pintadas. A excessão da Fernanda, uma chilena muito divertida que conheci em Los Vilos, as pessoas do norte do Chile são menos calorosas e interessadas no que eu faço. É difícil não sorrir com um convite vindo de uma mulher atraente e em tão boa hora.

falando sério?

— Claro, porque não? Fica lá em casa o tempo que quiser. É simples mas…

Ponho minha mão gentilmente na lateral do rosto dela e acabo interrompendo a garota, porém tiro minha mão rapidamente para não ser mal interpretado, dizendo — É uma querida, você. Estava achando que as chilenas não gostavam de brasileiros — digo ainda mexendo na bicicleta e com a Giovana se mantendo imediatamente ao meu lado.

— Não sou chilena. Sou Argentina!

“Tá explicado!”, penso em gargalhadas dentro da minha mente poluída, agora já achando que eu deveria ter deixado a mão no rosto dela por um segundo a mais.

Os bombeiros chilenos são todos voluntários, salvos os motoristas e as telefonistas que são remunerados por uma questão de logística, a Gi, como podemos imaginar, tem outra atividade profissional que põe pão na mesa. São 18:00 e, depois de ficar pedalando e fotografando o dia todo pela cidade aguardando o tempo passar, estou no endereço que a Giovana havia me dito mais cedo.

Orla de Antofagasta — junho/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

— Tem alguma coisa errada — falo em voz alta, olhando para os lados e tentando encontrar um negócio diferente de um clube de Strep-Tease. Ainda em cima da bike, tiro meu capacete e coço a cabeça, olhando para o letreiro do número que tenho anotado em mãos.

Dream from Coffee, danças sensuais com café de terça a sexta das 13 às 00. Finais de semana das 18 às 06.”

Na minha mente publicitária, não consigo imaginar agora uma mistura mais bizarra do que uma garota tirando a roupa no palco e um ciclista a base de cafezinho preto, olhando e pensando “Ééé”.

A porta do clube abre, um negro de dois metros e de porte a la Mick Tysson me olha nos olhos como se soubesse que eu estaria na frente do clube. A Giovana sai com uma corridinha, olhando para os lados sorrindo, cuidando para não tropeçar com seu salto agulha de, no mínimo, doze centímetros que a fazem parecer uma bailarina na ponta dos pés. Salto azul marinho envernizado, meia arrastão preta e um vestido vermelho de tão colado parecia ter levado uns quinze minutos apenas para vesti-lo. Cabelo curto castanho até os ombros que ainda tem resquício de um dia houve uma pintura californiana ali, com mexas loiras apenas alguns centímetros das pontas do penteado. Seus olhos, mirando os dois lados da rua para atravessar e vir onde estou, lápis preto como os da Cleópatra e um batom do mais intenso vermelho.

É tanta informação que não digo nada, apenas deixo a garota dar o primeiro passo.

Ai, nêne, atrasada?

“Nêne?”, penso eu, mas deixo para lá — Não, e também acabo de chegar.

Nos aproximados e nos cumprimentamos.

— Uma dançarina argentina então? — comento.

— Na cidade mais cara do Universo a gente ganha a vida como pode — ela comenta rindo, entretanto com o semblante cansado.

Uma hora depois, depois de ter a sensação de estar subido o Everest empurrando a bicicleta morro acima e a Giovana, com seu salto em mãos e calçando uma sapatilha que tirara da bolsa, chegamos em sua casa. Estamos na área que me parece ser a mais alta e pobre da cidade. Dá para ver o mar daqui. As pessoas, durante toda a minha viagem me perguntam curiosas sobre os aspectos de uma favela brasileira. Os casebres amontoados, as vielas, as ligações clandestinas por toda a rede elétrica, a segregação social e a violência. Bem, isso aqui, para mim, é um ótimo exemplo de favela, embora no Chile a violência ainda não tem dado suas caras para mim. E espero que assim permaneça.

Vista do quarto da Giovana— Jul/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

A Gi me convida para entrar e, sem ter onde deixar a bike, estaciono a Garibaldi na cozinha da casinha de 25 metros quadrados e toda construída com chapas, como compensado, o que parece que irá desabar a qualquer momento, porém resistentes — por incrível que pareça — aos tremores de terra que todas as semanas dão as caras neste país. Reparo que a casa resume-se em cozinha, banheiro minúsculo e um quarto um pouco maior do que uma cama de casal. “Onde irei dormir?” é a primeira coisa que penso, não me importando com a simplicidade e sim com o nosso conforto enquanto eu estiver aqui. A segunda, é sobre as pernas e a bunda da Giovana. Mesmo que seja sexta-feira início da noite, o conjunto que ela veste mostra um tanto, digamos, além do necessário para seduzir. Nada contra a filosofia de mostrar suas curvas, até me agrada e, na verdade, gosto de estar com mulheres que param o trânsito, todavia geralmente essa regra se aplica ao conjunto da obra, mulher e roupa, e, claro, sem tanto exagero. Pensando bem, cala a boca, Aldo!

— Olha isso — diz a garota surpresa, infantilizando sua voz ao perceber um ursinho de pelúcia nas minhas coisas — , que fofo…

Eu sorrio e comento — É, o encontrei perto de Copiapó, mais ao sul daqui.

— Ele é muito fofo. Já deu um nome?

— Pastel — eu falo sorrindo, ainda achando a ideia de ter um ursinho na mochila algo excêntrico — . Ele estava no acostamento da Panamericana Norte e parecia tão novinho e simpático que resolvi trazer ele junto.

A Giovana o põe do lado do rosto o afagando como se fosse um animal de estimação. — Ele é lindo. Não quer dar ele?

— Não. Mudando de assunto, como funciona o seu trabalho? — pergunto à ela, tirando minhas roupas limpas de uma outra mochila. — Me pareceu um tanto diferente e estou curioso.

— “Cafés com saia”. Não conhece os “cafés com saia”?

— Cafés com saia? — digo dissimulando para testar a garota. Claro que sei, em Santiago, em uma das minhas caminhadas pela cidade, vi alguns bares em plena luz do dia de semana com um par de senhores da terceira idade, tomando cafezinho na calçada do boteco, sendo servido por garotas vestidas exatamente como a Giovana está agora. A diferença é que lugares como os que vi em Santiago se assemelhavam com botecos e não com clubes com um Mick Tysson na porta principal.

— Então, nêne — diz ela, me dando um apelido pelo jeito — sou uma garçonete como qualquer outra, a diferença é que tenho de usar roupas assim — diz ela olhando para suas pernas — e ser simpática ao exagero com a clientela. As vezes danço no polidance para fazer grana extra.

Ela me parece franca ao falar da dança, algo que ela poderia ter ocultado com medo de algum julgamento, sei lá. Não que a franqueza mudasse alguma coisa numa relação que durará apenas alguns dias entre a gente, contudo é um bom começo. Então eu digo — Legal. Gi, uma dúvida, onde eu posso dormir?

— Se você não se importar, pode dormir comigo — comenta ela com naturalidade assombrosa, me olhando séria, arrisco a dizer com semblante de pena, inclusive.

Dou uma gargalhada tão natural que melhor que isso apenas uma piada junto. — Assim, sem casar antes?

— Não, falo sério — diz ela agora rindo, mas ainda com a expressão de cansada — , a cama é grande, você fica de um lado e eu de outro.

Giovana. Uma argentina de 28 anos que vive há cinco anos sozinha no Chile, talvez com um e sessenta de altura, e que conheci ontem no último segundo antes de eu ir acampar na praia na ausência de ter onde ficar. Olha eu aqui, em sua casa e agora sendo convidado a dormir na cama de uma garota que esteticamente — confesso que parte pelas roupas que ela usa no momento — me atrai.

— Tudo bem — digo eu, pegando minhas roupas para o friozinho da noite chilena e indo para o menor banheiro do mundo, onde o box aceita apenas uma posição humana, a de palito de dente imóvel dentro de um quadrado menor de um por um metro.

É meia-noite e eu estou com o laptop no colo, sentado no “meu” lado da cama. Visto uma camiseta de manga cumprida e, por baixo do edredom, apenas de cueca, como de praxe. Depois de tudo, não é agora que eu vou me preocupar se estou quebrando alguma regra da convenção social.

— Que fazendo? — pergunta a garota, recém saída do banho, entrando no quarto com um pijama do várias carinhas em cartoon do Chapolin. Se eu não estivesse em uma seca enorme há dois meses, neste instante eu broxaria.

— Atualizando as pessoas no Brasil sobre onde estou, pondo algumas fotos e vídeos na internet, coisas do tipo.

— Hum — comenta ela, entrando para debaixo da coberta e se deitando ao meu lado virada para mim. — Quer ver a partida da Argentina comigo amanhã a tarde?

Me dou por conta que a Copa América de Futebol deste ano está acontecendo neste momento no Chile e que, além da partida de amanhã da Argentina, certamente posso buscar brasileiros (mentira, brasileiras!) que estão na cidade e queiram companhia para ver a partida da seleção.

— Claro, vamos sim! — falo, já abrindo o Facebook de Antofagasta e publicando que estou na cidade e que busco brasileiros (mentira, brasileiras!!!) interessados em ver a partida em algum bar.

Papo vai, papo vem, vou estudando a Gi e então, quando ela se vira de costas para mim, estamos há dez centímetros um do outro e, embora eu não veja sua bunda, é o que quero para mim agora. Bem agora e não posso mais esperar!

Viro para o lado dela e tentando alguma sutileza impossível no momento, encosto uma fração minúscula do meu peito nas costas dela e ela suga o ar para os pulmões de forma que eu consigo escutar. É agora! Ponho a mão em sua cintura e sinto a tenacidade da pele da garota que não se mexe no milionésimo de segundo que o faço, nem reage como um possível susto. É, ela tem 28, digo para mim, sentindo que a pele é firme ainda, com o índice de gordura baixo e, mais uma vez digo para mim, cala a boca, Aldo!

— Não, Aldo. Por favor! — sussurra ela com aquele timbrado de “vai” na voz.

Não falo nada, apenas aperto a cintura dela.

— Olha só — diz ela se virando para o meu lado — , eu tenho namorado.

“ — FILHO DA PUTA — aos gritos, a porta do quarto é aberta com um chute de coturno tamanho 48, é o Mick Tysson do clube de hoje mais cedo”, é o que me vem à mente no relâmpago de uma imaginação mórbida. Não pulo da cama ao escutar a Giovana, mas beira a isto.

— Que? — digo surpreso, indo instintivamente para o extremo do meu lado na cama como se isto amenizasse a situação caso eu fosse pego com ela pelo namorado da garota que, até então, tinha a figura do negão de dois metros campeão mundial de boxe.

— Eu queria, essa é a verdade — diz ela com tamanha naturalidade — , mas eu amo ele, nêne. Não me tenta, por favor…

Ela até podia ter mentido que era telefonista daquele clube ou bartender, não comprometeria em nada as coisas, mas ocultar que tem namorado ao convidar um completo estranho a dormir em sua cama sob uma suposta, tênue e virtual linha que o estranho deveria respeitar para não tentá-la, transferindo a responsabilidade da conduta para mim, por sinal. Estamos falando de caráter e não sobre uma mentirinha boba para manter algum equilíbrio social.

— Nossa, Giovana. Como você não me diz isso antes? — pergunto com semblante preocupado com tamanha irresponsabilidade da garota em não me dar esta informação antes. Sigo — Se ele descobre que estou aqui…

— Ele sabe!

“Golpes de machado são dados na porta do quarto, abrindo uma fenda. Um lunático põe seu rosto sorridente na abertura que antes não havia ali e grita — DIGA OI PARA O JOHNNY! — , em sua psicose megalomaníaca, feliz por agora ter motivos para esquartejar um aventureiro brasileiro”, penso eu, já me cansando de me ver sendo assassinado na cama.

— Mas não te preocupa, contei para ele o que você vem fazendo e ele curtiu. Inclusive você é bem-vindo amanhã a noite a jantar com a gente na casa dele depois do jogo da Argentina.

Clássica cena do “O Iluminado” (fonte: Youtube)

Foi uma longa noite de conversa até que viramos cada um para seu lado e dormimos.

Capítulo Dois — Drogas, rum e oral

Entro no carro pela porta direita traseira, já a Giovana pela frontal. O Carlos vira para trás, por cima do seu ombro direito, e me cumprimenta com um aperto de mãos. Meu papel agora é dissimular, mostrar que sou (ou, melhor, passei a ser) inofensivo para sua relação com a Gi.

— Como foi a partida da Argentina? — pergunta Carlos ao arrancar o carro da viela onde Giovana mora.

— Empatou com o Paraguai em dois a dois — o respondo observando seu comportamento inicial comigo. Parece ok.

Pelas ruas de Antofagasta a noite, uns 10 minutos depois chegamos em sua casa, uma casa típica da área de classe média da cidade costeira, onde as casas tem seus flancos colados com os vizinhos e, as vezes, é difícil de distinguir o que é frente ou fundos.

Na calçada diante da porta principal da residência, quatro carros desmanchados, sem rodas, sem vidros, outros com aspecto de estarem aqui há anos. Dentro da casa, conheço Peppe, um homem de 36 anos, talvez com um metro e noventa, assombrosamente parecido com o lutador profissional Wanderlei Silva, rosto gigantesco, desprovido de qualquer cabelo ou barba, mãos gordas e quadradas, voz rouca de quem provavelmente vem fumando diariamente ao longo de duas décadas, pelo menos. Cumprimento o Peppe, sua esposa — uma loira lindíssima, por sinal — e me sento no sofá do que deveria ser uma sala. Deveria porque está mais para oficina de eletrônicos, onde todo espaço que poderia estar vazio, tem algum aparelho desmantelado por cima. Aliás, os móveis estão totalmente em desordem e comidos pelo tempo.

Conversamos brevemente sobre os motivos que me levaram a estar na cidade e como conheci a Giovana. Entre uma interação e outra, o Peppe atende o celular algumas vezes, dizendo frases curtas como “Depois te entrego, agora não posso!” e desligava sem qualquer “até logo” ou algo do gênero.

— Carlos e Peppe, com o que trabalham? — pergunto.

— Comendo putas — diz a esposa de Peppe, se levantando como se estivesse bêbada e se dirigindo até a geladeira que há na sala.

— Eu sou rapper e bombeiro — comenta algo o até então calado Carlos — , e o Peppe é o Pablo Escobar daqui.

Olho para o lado e exatamente neste momento, o Peppe que pouco me olha diretamente, mexe em um envelope branco na mão e com uma espátula saca um pó branco que ele o inspira rapidamente, passando a me olhar, me entregando uma risada rápida, rouca e acompanhada de uma tossida.

Embora eu estivesse absolutamente descontraído e jogado no sofá como se fosse de casa — parte da estratégia de passar segurança — , minha mente está tomada por imagens de eu sendo esfaqueado e enrolado em um tapete fedorendo e cheio de pelos de gato e cachorro.

— Tome, isso é para você na sua viagem — diz o Peppe me jogando um par de luvas de couro amarelado para alpinismo, muito resistentes a intempéries e definitivamente caras.

Me levanto e peço para aquele gigantesco homem se erguer e me dar um abraço. Sento que o abraço é tão sincero quando o presente.

Minutos mais tarde, enquanto Peppe atende mais telefonemas e mexe compulsivamente no celular, Carlos cozinha alguma coisa e a esposa loira do Peppe enxuga uma lata de cerveja atrás da outra, a Giovana se senta do meu lado no sofá com um Lucky Strike aceso em mãos e me abraça lateralmente.

— Te disse que tu irias gostar de vir com a gente! E tem ainda mais, hoje — afirma ela com a tradicional voz melancólica e olhos quase fechados, como se estivesse anestesiada.

Eu, de fato, não entendo quem são estas pessoas, onde estamos, porque estamos aqui e o que virá depois, entretanto — sejamos sinceros um com o outro — se nada de ruim aconteceu agora, que eles me deem motivos e momentos para eu escrever. E eu já estou pagando pra ver.

preparado para o frio? — questiona Peppe à mim enquanto mexe no celular, sentado em sua poltrona como se ali fosse o lugar mais confortável do mundo.

Conversamos sobre meus equipamentos e lhe digo que meu ponto-fraco ainda é a neve que jamais enfrentei e que é iminente na viagem. Ele se levanta sem falar nada, com certo desleixo, deixado cair seu celular no chão e pouco se importando, se afastando na direção de um dos quartos no segundo piso da casa. Segundos depois, ele retorna enquanto Carlos põe os pratos e talheres na mesa tomada por papeis e restos de um antigo laptop.

— Tome — Peppe diz, me jogando uma jaqueta cinza com detalhes amarelos.

— Depois vocês conversam — fala Carlos — vamos comer primeiro porque a massa fria é uma bosta.

Eu estou com fome, contudo não entendo o porquê o grandalhão me mostra a jaqueta. — É impermeável? — pergunto a ele.

— Não com fome — diz Peppe à Carlos com sua voz sepulcral de tão grave. — Sim, é pra neve, brasileiro. É pra ti!

Estou chocado, sem reação, embora saiba da importância que esta jaqueta teria para mim, é uma peça demasiadamente cara. — Não posso aceitar, meu velho. Eu já tenho as luvas agora. Muito obrigado — digo desajeitando, dobrando a jaqueta e a pondo no sofá.

— É do seu tamanho e eu tenho quantas eu quiser — de volta a sua poltrona, fala Peppe sorrindo para seu celular a dois palmos do rosto.

Reconsidero sem muito esforço e novamente vou até Peppe e lhe peço um abraço. A Giovana apenas sorri enquanto belisca mariscos frios embebidos em limão e sal à mesa.

Enquanto mastigo minha massa com atum preparada pelo Carlos, duas garotas chegam na casa passando por trás de mim. A Pauli, chilena de dezenove anos, cabelo negro, um lado com fios passando a altura dos ombros e com o outro lado raspado; rosto de traços delicados, olhos grandes, verdes escuro e protegidos por cílios longos e arqueados delicadamente para cima. Na boca, um batom vermelho gritante. Ela está acima do peso para os meus padrões de admiração, mas seus seios são fartos, é acinturada e dispõe de um quadril arredondado, bem desenhado, típico de uma brasileira dedicada na academia e com alguma genética privilegiada. Ela está com uma blusa listrada em branco e preto, seu jeans, assim como seu salto, é preto e desprovido de qualquer ornamentação. Sua amiga que a acompanha, a Ana, possivelmente da idade do Peppe, é loira e magra, tem presença ligeiramente menos marcante, usando roupas semelhantes as de Pauli, porém de personalidade mais sossegada ao menos no primeiro momento.

— Olá, meninos — diz Pauli com desenvoltura de uma mulher e não uma menina, ficando diante da poltrona do gigante careca que não a olha. Ela apoia as palmas das mãos nos braços da poltrona e leva um beijo até a boca de Peppe que dá um selinho nela sem qualquer atenção, totalmente despreocupado com a presença da sua mulher que além de beber, fuma com a Giovana e conversam separadamente da gente na cozinha.

— Vamos? — pergunta Giovana, chupando a ponta dos dedos esmaltados após beliscar mais alguns mariscos à mesa.

Não sei, mas me sinto que estou em cima de uma bicicleta de downhill que desce uma colina em considerável velocidade noite a dentro, onde não consigo enxergar o terreno acidentado à frente. Aquela sensação do desconhecido, da adrenalina e das expectativas de um possível encontrão, seja com o surgimento da luz que me faça ver o caminho, seja com um belo beijo com o chão pedregoso. Essa sensação é uma incógnita, contudo me deixa curioso, me deixa com um sorriso oculto no canto da boca e com olhos inexoravelmente aventureiros, verdade seja dita. Tô pagando para ver, repito em silêncio mais uma vez.

Lá vamos nós, sete pessoas dentro do Vectra 2013 que viemos para cá. Um cara aparentando ter quarenta anos se materializou do nada no carro e, por sinal, é ele quem dirige. Ele não abre a boca nem quando o cumprimento. No banco do carona, o gigante Peppe, uma mochila entre as pernas e seu inseparável celular. No banco de trás, Carlos atrás do motorista com a Giovana em seu colo. Ele bate a porta. Ao lado, eu sentado no centro e com a Ana no colo. A Pauli está do meu lado direito, exatamente atrás do Pablo Escobar de Antofagasta.

— Brasileiro — a voz grave do Peppe diz — , gosta de Hip-hop, irmão?

Hagalé esta wea, weon! — respondo no meu melhor chileno das ruas.

Todos gargalham e até o motorista esboça um sorriso lateral.

— Então curte ai atrás!

“Swimming pools” de Kendrick Lamar (Youtube)

Assim que o carro sai, as coisas começam a acontecer e, meu amigo, a Giovana parece que tinha razão quando cantou no meu ouvido que a noite iria mais além.

O motorista limita-se somente a dirigir pelas iluminadas e movimentadas avenidas de Antofagasta à noite e o Peppe parece falar ao celular com sua esposa que ficou para trás. Música tocando nos alto-falantes, Carlos e Giovana aos beijos e a Ana e a Pauli dão sinais de que estão me testando. ! Pressentimento meu, mas acho que nestas águas quem manda aqui sou eu. A Ana passa a mexer seu quadril sutilmente, como quem dança no ritmo certo. Ela não faz o meu tipo, mas é bonita e cheirosa o suficiente para eu gostar do que ela faz em cima do meu jeans azul-claro. A mão da Pauli, sentada ao meu lado, vai para minha perna direita, entre a parte interna da minha coxa e o bumbum dançante da Ana. A Ana sente que algo mudou ali embaixo e olha sorrindo para trás. A Pauli permanece fitando a direção oposta o movimento da rua. Ela sorri, consigo ver a contração superior da sua bochecha esquerda. Digo algumas coisas no ouvido à Pauli e apresentá-la ao terreno em que pisa, fazendo-a se vira para mim e deixando nossos rostos na distância de um beijo acidental. Sinto seu hálito quente e mentolado. Não me mexo um centímetro para trás e ela também não. Conforme divido minha atenção à Pauli, minha mão esquerda já está repousada na cintura da Ana, cintura que não apenas toco, mas ponho pressão ora sim, ora não. Dependendo o rebolado que ela faz, a aperto e mexo meu quadril junto com o dela, imperceptível aos olhos dos outros. As vezes, se sinto vontade, faço movimento circulares com meu dedo médio na lateral da cintura nua dela, dando à Ana algo para pensar.

— Que bom que as chilenas podem apreciar um brasileiro tímido, não? — digo buscando os enormes olhos verdes da Pauli, mas eles parecem estar fechados. Assim que ela pisca, percebo que não estão, apenas estão fixados em meus lábios enquanto os movimento.

— Tímido? — é a retórica dela, continuando — Tu és um tremendo filho da mãe, que eu tô ligada.

Meu braço passa por detrás de sua nuca e estaciona do braço direito dela. Toco a garota com um leve carinho. Ela e seu cabelo raspado na lateral-esquerda, me fita e, sem desviar a atenção, ela pega minha mão lá do outro lado e a põe dentro de seu sutiã. Sinto a garota, é volumoso e macio. Gelado. Trago o que encontro um pouco para fora e então olho, está escuro, mas as luzes da cidade invadem o interior do carro que navega pelas ruas centrais. Levo os dedos que ali brincam até a boca da Pauli e, conforme a Ana diz alguma coisa, ela entende e beija meus dedos, os molhando um pouco. O resto é comigo.

O carro pára, nós descemos. Diante de um prédio na parte nobre da cidade, as meninas, o Carlos e eu, descemos. Peppe e seu motorista, não. São 00:10. O Vectra arranca e se vai acelerado pelas ruas do bairro.

— E o Peppe? — pergunto eu ao Carlos.

— O Pablo foi trabalhar — responde o Carlos segurando a mão da Giovana, dizendo empolgado — Vamos, que lá em cima tem rum, rap e cositas más.

No elevador, a Giovana pressiona o número 16. A Ana e a Pauli se olham no espelho traseiro do elevador, falam sobre maquiagem e eu apalpando os bolsos da calça.

Que bom, Aldo. Sem camisinha, transbordo em sarcasmo nos pensamentos, ainda achando graça de tudo isso, mesmo que com semblante de jogador de pôquer.

Entramos no apartamento, cumprimentamos o casal proprietário e nos servimos de rum e cerveja enquanto sentados na sala do bonito e ordenado apartamento de classe média-alta. A Ana e a Pauli parecem inquietas, não querem estar aqui, elas querem festa. Me levanto em meio as gargalhadas do Carlos e da Giovana com seu casal de amigos. Olho com pouco sorriso à Pauli e desvio a atenção para a porta principal do apartamento. Vou até o corredor e Pauli vem logo atrás; ela é esperta e disposta. Ana demora um pouco, mas me surpreende e vem atrás, perguntando o que a gente está fazendo. Nos afastamos do apartamento, me escoro na parede do corredor e passo a situá-las.

— Em dois ou três dias vou embora — digo puxando a Pauli pela mão para mais próximo de mim, aproveitando a oportunidade e o suposto interesse da Ana em estar aqui — e eu quero um presente bem bonito da minha viagem pelo Chile.

A Pauli, mesmo com seus 19 anos, toma iniciativa e vai para meu pescoço, mas sem fazer nada, apenas fica ali, como se estivesse me cheirando. A Ana, escorada na parede oposta dois metros de onde estou, se impulsiona e vem para mais perto, porém ainda sem muita atitude. Tenho tudo em mãos e não esperarei para ouvir um não; pego a Pauli, estendo minha outra mão à Ana e as puxo para a porta de incêndio e, soltando apenas a Pauli, abro a pesada porta corta-fogo. Seguro a porta com o pé, pego outra vez a Pauli e puxo as duas ali para dentro. A luz automática liga, me escoro da parede trazendo as gurias para perto de mim e então rezo em silêncio: Escuridão, deixe aflorar o mal naqueles tímidos à luz. A “mágica” acontece e as luzes se apagam. Defronte as escadarias de emergência, a Pauli vai com força no meu pescoço e enche a mão sobre o zíper no meu jeans. A voz sussurrante da Ana está se afastando, mesmo sua mão ainda segurando a minha.

— Sério mesmo, gente? — comenta a garota que antes dançava sobre meu colo e deixava-me massagea-la na cintura.

Com diversão na voz, pondo uma mão na minha bunda e a outra nas costas da Pauli, a Ana cede. Ela chega mais perto do meu rosto e eu a beijo parte na bochecha, parte na boca melada de gloss. Alinho as coisas e ponho em beijos dentro da sua boca. “Maçã e rum”, é o sabor da garota loira. Ainda desajeitada, a Ana vai se soltando, sinto sua mão mais relaxada. Na penumbra, seu vulto passa a tocar a Pauli e tudo caminha na direção do que quero.

Talvez o que aconteceu no carro na hora anterior foi apenas uma brincadeira, não inocente, mas ainda assim uma brincadeira. Não faço ideia da relação entre as duas garotas, se já se conheciam além de hoje, sobre a profundidade das suas conversas, se já experimentaram isto antes e, se sim, se eram amigas ou completas desconhecidas. A Ana se abaixa também, juntando-se à Pauli. Elas me intercalam e eu consigo sentir a mão direita da Ana tremendo repousada na minha coxa. A Pauli levanta, dando um clique no interruptor, fazendo as luzes da escadaria ascenderem. Ela puxa a Ana e lhe dá um beijo na boca, atitude suficiente para um curto-circuíto acontecer na cabeça da garota loira e sair corredor afora vociferando “Vocês são loucos demais” com uma risada falsa entre as sílabas.

— Ana! — diz Pauli se levantando e dando passos na direção da porta metálica.

— Deixa ela — sugiro à menina, segurando sua mão sem muito esforço, praticamente solta, mas evidenciando que quero que ela fique.

O distante som de uma porta abrindo e fechando do apartamento há duas dúzias de metros daqui, ecoam pelo corredor do andar, nos dando uma ideia de para onde a Ana foi. A Pauli volta sua mirada à mim novamente.

— Tem camisinha? — murmura ela.

— Não — digo, relembrando dos dois meses que não faço amor.

Voltamos ao apartamento. O pessoal parece estar bêbado ou então no processo, rindo de assuntos desconexos que eu não entendo mesmo me esforçando. A Ana, sentada na mesa de jantar de vidro negro, passa a esmiuçar um pó branco com uma das unhas, é cocaína. Saindo do banheiro, Pauli vê o que acontece, mas se junta a Ana, agora usando um cartão de banco para dividir a porção em duas fileiras curtas e proporcionalmente espessas.

— Aldo, quer um tiro? — aponta Carlos para a superfície da mesa de jantar.

Já foi o tempo em que eu me surpreendia com a popularização das drogas, todavia cocaína é uma droga que considero tão pesada que não posso me acostumar a ver seu consumo e achar que está tudo bem. A contradição é que, embora a coca ainda provoque repulsa em mim, eu mesmo já consumi ecstasy com a Tábata e a Cacau lá no Brasil e essa droga traz traços de cocaína em sua composição. Não gosto de drogas, não me sinto confortável com elas, entretanto um dia experimentarei a coca e entender seu efeito, mas hoje não, não com estas pessoas, não neste lugar e não sem um alinhamento dos planetas ou o que quer que me faça achar que é o momento certo de experimentar e ter propriedade para falar a respeito depois.

— Não, meu velho. Eu passo! — respondo ao Carlos.

Depois de toda a loucura ao descobrir que a Giovana tem um namorado, ir até a casa do Carlos e sobreviver, vir parar no alto de um prédio em algum lugar, ganhar um belo boquete na escada de incêndio de duas moças e não me jogar em roleta-russa sem camisinha… é, inimaginável para o segundo dia de um ciclista brasileiro que dobrou à esquerda na Ruta-5, pondo Antofagasta no roteiro. Sigo pagando pra ver no quê tudo isso vai dar.

Capítulo Três — O chamado

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São 02:30 e o Peppe volta para o endereço depois de um telefonema de Carlos. Sozinho e ao volante, o grandalhão não desgruda do celular fixado no suporte preso ao pára-brisa do Vectra. Primeiro deixamos a Pauli e a Ana em outro endereço, o que parecia uma casa comum; depois, enquanto seguíamos para o endereço da Giovana, O Pablo sai da rota e entra numa avenida tomada por baladas, pára dentro de um posto de gasolina e atende o celular.

aqui, ! — diz o grandalhão com sua voz grave, mas calma ao telefone ainda preso no vidro na parte superior direita próximo ao volante.

Depois de alguns segundos sem eu não entender nada, uma garota atravessa a rua, saindo de uma balada puxando o vestido para baixo e cuidando para não tropeçar com seu salto-alto. Tirando o cabelo da cara, a mulher de talvez 30 anos se aproxima do Vectra e estende o braço até o colo do Peppe, pega o que parece ser um envelope branco do tamanho de um Post-it grande e sai sem dizer nada além de um “Valeu”. Não vi dinheiro na transação, menos ainda o que foi entregue, porém considerando que o Carlos volta e meia chama o Peppe de Pablo, assim como o suposto trabalho noturno de fazer entregas sendo que não vejo o que poderia estar sendo entregue, é, o grandalhão é traficante e eu estou dentro do carro com ele, fazendo entregas das tais “cositas más” que o namorado da Gi se referia antes. “Que bom, falta apenas um TuPac tocando alto para eu me sentir mais à vontade”, penso eu no banco de trás, tendo de fingir ser a coisa mais normal do mundo a situação a qual me encontro, como quem não mais se contenta em ver os demais consumindo, avançando para o nível profissionalizante: o da distribuição.

Mais dois endereços para entrega, mesma situação, festa e indivíduos sozinhos vindo buscar o que encomendara minutos antes pelo Whatsapp. Não há dinheiro envolvido no ato da entrega, sei lá porque. Estou tão cansado que parece que hoje eu pedalei, bocejo duas ou mais vezes, mesmo tendo razões para não ter sono como a incerteza de uma batida policial no exato momento de uma entrega com o Aldo dentro do carro. Estamos agora percorrendo a avenida Argentina, uma das principais vias de Antofagasta, são 3:10 e uma voz feminina grita nos alto-falantes do carro, fazendo a Giovana e eu, ambos no banco de trás, dar um salto no banco.

Atenção unidades disponíveis de Antofagasta, impacto grave de caminhão e ônibus no quilômetro 1.180 na Ruta-5, sentido Santiago-Antofagasta — diz a voz feminina vinda do rádio que o Carlos deixou no último volume em cima do painel do carro.

— Meu deus do céu! — diz assustada a Giovana ao meu lado.

— Caralho — comenta o Carlos em seguida, com a voz profundamente preocupada — , o que eu faço, Gi?

— Deve ter pedaço de gente para todo o lado… quer atender o chamado? — pergunta o Peppe, com uma leve inclinação na voz para que o Carlos queira atender.

— Amor — fala a Giovana — , devem estar precisando de muita ajuda lá e já estamos dentro do carro…

No primeiro momento eu fico empolgado, desde a minha semana ao lado dos bombeiros de Coquimbo, cidade mais ao sul de Antofagasta, eu pedia sem sucesso para acompanhá-los nos chamados, mas agora era diferente, eu estava dentro do carro a meio caminho do atendimento. E digamos que o Carlos e a Giovana, ambos chapados de coca e rum, não iriam se preocupar justamente agora por eu e o Peppe não sermos bombeiros.

— Peppe — diz o Carlos segurando o rádio nas mãos, mas sem pressionar o botão da comunicação — , você não tirou seu equipamento para emergência do porta-malas, certo?

— Não!

— QUE? — digo em voz alta, totalmente involuntário. Olho para a Giovana ao meu lado que apenas sorri de tão chapada com a eterna cara de anestesiada. Agora pergunto baixinho — O Peppe também é bombeiro?

Ahã!

“Caralho, até o traficante é bombeiro. Que cidade é essa meu pai?”, penso quieto, mas com os olhos arregalados, sem dúvida.

— Central — diz Carlos agora pressionando o botão lateral do rádio portátil — somos três bombeiros da Primeira Cia de Antofagasta em carro particular, estamos no centro de Antofagasta, nos dirigindo para o chamado!

O Peppe põe a mão embaixo do seu banco e tira um pedaço de plástico que lembra uma embalagem de sorvete de um quilo, abre seu vidro lateral, estende o braço até a parte externa do teto acima de ti e fixa aquela coisa. Um som de sirene berra e uma luz vermelha passa a refletir em tudo que está perto do Vectra. Beleza, agora somos uma viatura oficial, concluo do mundo das ideias no banco de trás.

Violentando o acelerador pelas ruas de "Antofa"— Jun/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Ao mesmo tempo que é excitante a adrenalina de estar dentro de um chamado de emergência real, eu me sinto fazendo roleta-russa, com todos os bombeiros dentro do carro chapados e eu, o único civil e provavelmente o único sem traços de álcool ou cocaína no sangue, não estou ao volante. O Peppe pilota o Vectra pelas avenidas acima dos 120 por hora na breve passada dos meus olhos pelo painel atrás da direção. Em cada curva ou desvio que fazemos para não colidir em outros carros, a Giovana e eu deslizamos de um lado para o outro no banco de trás. Ponho a mão dentro da minha mochila e puxo minha câmera, não posso perder isso por nada. A lente capta o velocímetro por um breve momento onde consigo me manter estável no banco: voando baixo a 156 na avenida beira-mar e a sensação é que o Peppe ainda está afundando o pé. “Hoje eu morro!”, me digo.

— Quer apostar quanto que o norte-americano louco vai atender esse chamado também? — diz o Carlos.

— Que dúvida — comenta a Giovana.

— Como assim? — pergunto eu sem fazer ideia do que estão falando.

— Tem um cara que…

— Não, não — o Peppe interrompe a Giovana — , deixa o brasileiro ver com os próprios olhos.

Agora além da ansiedade terrível de me ver diante de gente aos pedaços e aos berros pelo asfalto noturno, fico imaginando que tipo de bombeiro poderia ser chamado de louco por outros três bombeiros tão chapados quando os protagonistas do filme Pineapple Express.

— Um tirinho para o sono ir embora — diz o Peppe cantarolando baixinho, levando um pó branco debaixo da unha comprida do mindinho a uma narina e depois com um pouco mais de pó até a outra. — Aqui ninguém vai dormir, não, laiá, laiááá…

— Amor — diz a Giovana, buscando a atenção do Carlos — , está muito nervoso?

— Um pouco — diz ele, passando a mão na sua careca e olhando para trás sobre o ombro esquerdo — e você?

bêbada!

— Aqui ninguém vai dormir, nãooooo, laiá, laiááááá… — segue o Peppe cantarolando ao volante — UOUUUU, essa bateu forte!

“Eu quero descer desta merda”, eu e minha lucidez chata no banco de trás do Vectra há 160 quilômetros por hora na Ruta-5 na direção de Antofagasta-Santiago. A Gi balança de um lado para o outro já com os olhos fechado.

— Carlos, o que a Gi usou? — pergunto eu.

— Fumou um e bebeu — diz ele olhando para trás de novo — Não deixa ela dormir.

O álcool aguça o efeito da maconha, fazendo a Giovana estar a um passo do sono profundo por horas durante um chamado de emergência. Se chegamos assim ao local e um oficial vê Giovana neste estado de anestesia geral, ela corre o risco de perder sua licença de bombeiro e ainda ser deportada para a Argentina.

— Gi — digo a tocando no rosto — , não dorme. O Carlos vai precisar que você o ajude no chamado, beleza?

O som da sirene do Vectra perde espaço no vazio noturno dentro da reta na estrada. Um ronco grave, contínuo e que progressivamente se aproxima da gente. Atrás de nós uma luz xenon azulada metálica intensa brilha cada vez mais forte a medida que cresce aos olhos. O interior do Vectra fica azulado de trás para frente com um brilho que me acerta a vista quando o espiro por detrás da cabeça da Giovana.

— AEEE! — grita o Carlos, fazendo a Giovana dar um pulo.

Junto da luz azulada dos faróis, a sirene girante e avermelhada rodando sobre a máquina que se aproxima em altíssima velocidade da gente, nos fazendo parecer que estamos passeando em um lento Vectra a 150 por hora. O ronco do motor de oito válvulas do Mustang 2014 prata nos ultrapassa, expondo um motorista que usa chapéu de vaqueiro e escuta Heavy Metal em um volume que dentro daquele carro deve estar ensurdecedor.

— Que porra é esta? — questiono já imaginando quem poderia ser.

— Nosso próprio cowboy americano — diz Peppe soltando uma risada espaçada, sua primeira risada audível em toda a noite — na versão bombeiro de Antofa.

Não me surpreenderia se um braço saísse pela janela do Mustang e começasse a disparar uma Magnum .44 para cima tamanho são as incongruências de informação que vejo esta noite.

— Mais dez quilômetros e chegamos no quilômetro 1.180! — comenta Peppe, desligando a tela do seu celular fixado no pára-brisa.

Luzes de veículos vindos em nossa direção. Primeiro um caminhão, depois um carro de passeio passa por nós, sem fazerem qualquer sinal com as luzes, nada.

— A pista não deveria estar bloqueada nos dois sentidos? — pergunto eu, mas ninguém responde, possivelmente porque estão buscando entender porque veículos que não são de resgate estão transitando por dentro da cena de ocorrência.

O nervosismo dá sinais em minha respiração que está lenta e trêmula, a excitação da adrenalina anterior dá lugar ao medo de quem verá o atroz verdadeiro pela primeira vez. Não falamos mais, é possível que todos no carro estejam como eu, olhando fixo para a estrada adiante, na expectativa de ver luzes piscando, carenagens retorcidas e corpos no asfalto. Paro de respirar por um breve instante, uma luz gira avermelhada com azul, pequenininha lá na frente, o Peppe desacelera e meu coração acelera. A tensão é tanta que a Giovana está acordada e o Carlos segura o rádio diante da boca, mas não fala. Nos aproximamos mais e já é possível identificar os dois trios de lanternas retangulares e um central larga característica doMustang estacionado no acostamento oposto. Outras luzes vermelhas e azuis giram, mas sem sirene, vinda de um caminhão dos bombeiros e uma ambulância que provavelmente foram os primeiros a atender o chamado.

— Onde está o ônibus e o caminhão? — pergunta a Giovana.

— Talvez fora da pista? — devolvo a pergunta para ela.

— Não — diz Carlos — , tem algo estranho…

Paramos o carro, estamos logo atrás da primeira viatura estacionada no acostamento, imediatamente ao lado do Mustang no acostamento da contra-mão. Embora o movimento seja quase nulo, a faixa está livre e mais um carro de passeio passa por nós com tranquilidade. Os bombeiros fardados caminham pelas bordas da pista, uns rindo, uns sérios, contudo nenhum com presa, nenhum com ar de emergência.

— O que está acontecendo aqui — diz o Peppe abrindo a porta do motorista, levantando-se e indo na direção de um grupo de policiais conversando às risadas ao lado de dois Dodges Charger Interceptor, todos veículos especiais adesivados com as cores verde e branco e com o brasão de dois rifles cruzados nas portas. Estas são as vorazes máquinas dos Carabineros ou, se preferir, pode chamá-los de polícia.

Depois da Central de Emergências ter mobilizado duas equipes quase completas dos bombeiros e três patrulhas da polícia de Antofagasta, descobrimos ao chegar no local que o chamado era falso. Nunca aconteceu. São 4:30 de sábado e estamos voltando para casa, finalmente. Troquei de lugar com Carlos, agora ele pode ir abraçado e dormindo com a Giovana e eu tenho a chance de cuidar do Peppe, para que ele não durma no volante. Como é possível uma central deslocar todos os seus recursos no atendimento a um chamado sem ter qualquer prova-real de que o chamado é legítimo? E porque alguém brincaria com algo tão brutal?

— Peppe, pode compartilhar sua internet comigo? — pergunto ao grandalhão.

— Sim, um minuto.

Sinceramente estou feliz de não ter existido a emergência, não ter existido hoje toda a tristeza que uma ocorrência assim traz. Eu não me sinto forte o suficiente para suportar e ainda menos prestar suporte numa tragédia deste tamanho.

Olho para as notificações do celular, uma mensagem nas redes sociais de uma garota brasileira aparentemente interessante me convidando para assistir ao jogo do Brasil com ela amanhã — quer dizer, hoje — a tarde.

De verdade, eu preciso de uma companhia feminina desenrolada e que eu tenha um longo momento de sexo e tranquilidade. Seria perfeito… Estou cansado demais para pensar nisto ou no chamado falso. Somente quero chegar na casa da Giovana, deitar no meu lado da cama e dormir umas seis horas ininterruptas. E então eu durmo, aqui mesmo no banco do carona.

Capítulo Quatro — Os alienígenas

BIP, BIP, BIP!

— Hmmm — eu resmungo.

BIP, BIP, BIP! PIM, PIM, PIM! — cinco minutos depois.

Estiro o braço até o piso encarpetado do lado da cama, pego o celular e, mesmo com a vista embaçada, acerto precisamente no botão “Desativar despertador”. Anos de aprimoramento em chegar atrasado no escritório, a prática leva a perfeição.

Ao pensar em sair da posição de bruços, sinto um peso no centro das costas. Olho rápido por cima do ombro e vejo o braço da Giovana; giro meu corpo e ela está dormindo praticamente em cima de mim apenas de calcinha e sutiã com o edredom a meio corpo. A empurro sem jeito para o outro lado da cama, me levanto com o celular em mãos e vou preparar o café.

“Qual o problema da Gi?”, converso com meus botões, abrindo a geladeira e ficando parado na frente dela.

Vixi, três da tarde — digo em voz alta, olhando o celular com uma mão e apoiando-me na porta da geladeira com a outra.

“QUE MERDA, o jogo do Brasil com a gata!”, recordo eu em pensamentos, voando para dentro do banheiro tomar uma ducha fria, fazer a barba e, em trinta minutos, pegar o endereço com a menina e dar um jeito de chegar onde quer que seja.

— Sexo, sexo, sexo — eu cantarolo no chuveiro, me espremendo no menor box do mundo.

Com as camisinhas no bolso, saio de casa batendo porta e com prints no celular do endereço da garota brasileira e de varias coisas que ela gosta. Minutos antes eu vestia a calça e dava uma print nos filmes preferidos dela; escovava os dentes e via suas fotos de viagem; colocava a camiseta e penteava a barba lendo por cima o que ela escrevera dois dias antes sobre o PT. E eu nem sei contra quem o Brasil joga hoje.

Chego no endereço, me preparando para conversar com uma menina jovem, jovem até demais para meus padrões. Uma casa grande a duas quadras do mar, uma meia dúzia de jovens universitários e ela, a brasileira, uma garota bonita, vinte e um anos, morena da pele clara, cabelos ondulados negros até o centro das costas, um metro e sessenta e dois de altura, não do tipo que vai a academia, mas acinturada e com curvas delicadas e, siiiiiimmmm, com um bumbum generoso. Ela e seu óculos de armação preta e sua blusa azulada, um estilo de menina mais velha, porém apenas a roupa mesmo. Mal me olha nos olhos, fechada no primeiro momento, quase distante.

Começa a partida, termina a partida e a Doraline e eu saímos para caminhar e ver a orla noturna com seus colegas de faculdade vindo atrás e falando coisas de jovens de dezenove e vinte anos. A brasileira é uma garota inteligente, com traços da imaturidade da idade, claro, todavia com características de uma futura mulher independente, cheia de sonhos de vida no exterior e com bravura suficiente para responder a mensagem de um brasileiro nas redes sociais e ver no que dá. Marcamos de fazer um almoço para nós dois em sua casa amanhã, um verdadeiro avanço.

Levanto cedo, não vejo a Giovana em casa desde ontem, desmaiada em cima de mim. Faço algumas anotações da viagem, pego minha mochila onde tem camisinhas, alguns ingredientes da comida de emergência e parto sem um só centavo para o endereço da brasileira. Caminho por quarenta minutos, chego no endereço e a beijo na boca para quebrar o gelo. Papo vai, papo vem, comemos e nada da gente sair da cozinha pouco maior que um microondas. Convido a garota a conhecer seu próprio quarto onde chego e a primeira coisa que digo é “quente aqui”, me deitando sobre a cama, mirando a cintura nua dela, destapada por uma blusinha reveladora. A garota está sem jeito, deitando do meu lado com cuidado e me beijando com selinhos. Converso com ela, a deixando mais tranquila, o beijo fica brevemente mais interessante, contudo ela está completamente travada, rígida. Quando ela diz que “não faz nada que possa decepcionar seu pai” entendi que a Doraline é apenas uma menina assustada demais para fazer o que gostaria. Ela está sozinha em outro país para estudar, tem poucos meses aqui, vivendo em um quartinho onde todas suas coisas estão empilhadas ainda. Se fosse uma mulher, eu daria uns encontrões mais pesados e a coisa provavelmente fluiria, mas a brasileira é tão menina que não tenho gana de estender isso. Dou um beijo em seu rosto, digo que ela foi uma fofa, junto minha mochila e dou as costas vestindo minha camiseta no meio da rua residencial, pensando que ela acabara de perder uma surra de pica memorável da vida dela. Nunca mais voltamos a nos ver ou falar.

— Aldo, Aldo, Aldo — diz a Giovana empolgada quando abro a porta de sua casa — , jogo do Brasil amanhã, quero assistir com você, vamos, vamos, vamos?

— Ahã — entro cozinha adentro, sem beijar a Giovana, largando minha mochila no lado da mesa, entrando no quarto e me jogando de costas sobre o colchão branco sem lençol da cama.

— Onde você estava? — pergunta a garota quase saltitante

— Perdendo meu tempo na creche…

?

— Longa história, amanhã a gente vê o jogo do Brasil juntos, mas hoje tenho que dar vazão aos meus trabalhos, estou escrevendo pouco e preciso limpar a Garibaldi.

A Giovana sobe na cama e se deita no meu peito — Não, não, senhor. Vem comigo para a casa dos meninos falar bobagem. Talvez a Pauli apareça lá.

Faço carinho no cabelo dela e até considero explicar que a chilena do cabelo estiloso não é a opção que me vem a mente, como se eu tivesse outra opção. Pauli. Pauli? Nãooooo. Como se eu tivesse interessado em ter pseudo-sexo novamente.

— Vamos então? — pergunta Giovana, levantando-se da cama e pegando a bolsa.

— Agora?

— Sim! — ela diz indo para a direção da única porta da casa além da porta do banheiro.

, espera — falo com um tênue princípio de disposição, pegando a mochila e revisando se as camisinhas ainda estão guardadas nela. Estão! — Ok, vamos!

— Aldo, este é meu namorado — é a primeira coisa que Pauli diz quando entro na casa do Carlos e do Peppe — Amor, esse é o ciclista brasileiro que te falei.

“Chupei o pau dele estes dias, inclusive”, eu completo a fala dela nos pensamentos, já imaginando o rapaz de vinte e cinco anos me dando dois tiros no tórax a queima-roupa.

— Oi, prazer — digo com um sorriso de orelha a orelha mais verdadeiro que o chamado dos bombeiros que atendemos noites atrás.

Sentado na sala, de todas as outras seis pessoas na casa é justamente o William, o namorado da Pauli, quem quer fazer amizade comigo. Umas fazem a janta, outras desmontam ainda mais o laptop que repousa há dias sobre a mesa do jantar; a Giovana fica na volta do Carlos fumando compulsivamente e o Peppe mexe no celular olhando as vezes para mim e rindo da situação.

— Eu tenho um dom, Aldo — diz William, batendo a palma da mão no lugar vago do sofá ao seu lado, convidando a Pauli para juntar-se a nós.

— E qual seria? — o questiono com sinceridade, curioso não pela resposta exatamente, mas para ver onde este assunto irá nos levar de tão chapada que é esta gente que piora a cada dia.

— Pauli, eu não consigo dizer — lamenta o rapaz, jogando-se para trás, no encosto do sofá, olhando para o vazio do lado, como se a informação fosse pesada ou constrangedora — , diz você pra ele.

Pauli me olha séria e com as sobrancelhas se contraindo — Ele pode se comunicar com algo que a gente…

— Não, com algo não — o William olha para ela — , você sabe bem quem são.

— Posso falar? — Pauli se vira para ele, fazendo-o olhar para o lado novamente com cara de inquietação e descontentamento.

— Com alienígenas.

Eu amo astronomia, sou fascinado pelo cosmos desde criança, pela beleza imaginativa de outros mundos, pela imensidão do espaço e possibilidades do tempo, da certeza que outras vidas pulsam pensantes em algum lugar, provavelmente a milhares de milhares de anos luz em alguma zona habitável de um sistema solar diferente do nosso, mas igualmente protegido contra a maioria das possíveis colisões nocivas à vida e com a sorte de usufruir da água em estado líquido. Meu fascínio pelo cosmos é justamente pela beleza da realidade que descobrimos todos os dias, sem a necessidade de fantasiar o extraordinário sem ter provas igualmente extraordinárias. Mas eu vou dar corda somente para ver o fundo desse posso e a profundidade da loucura.

— Que tipo de comunicação, William?

— Eu simplesmente_ _ _

— Ele simplesmente acorda na madrugada — diz Pauli o interrompendo — , senta na cama e fica catatônico, Aldo. Não fala nada, não responde quando converso com ele. Toda a semana pelo menos um momento assim acontece e alguns eu acordo e vejo.

Pupilas normais, sem dilatação, ambos falam fluidamente, movimentos corporais sem elasticidade, cheiro é de cigarro assim como o hálito dos dois. Sem qualquer traço de alucinógenos, estimulantes sintéticos, embriagues ou lentidão com falhas na memória curta. Não parecem estar drogados. Eu pergunto — Mas o que você sente, o que é falado nestes diálogos?

— Instruções — William diz de pronto, rápido, certeiro —. Instruções de como construir uma máquina…

Por um instante eu queria já ter voltado para o deserto, mas sigo ouvindo.

— E não é um diálogo — diz o rapaz — , é apenas eles falando.

— Eles quem? — pergunto.

— Ele não sabe — responde Pauli — . São vozes.

— E porque são alienígenas? — pergunto olhando fixamente ao William.

— Porque é um idioma que não é falado na Terra. São estampidos como os produzidos pelos morcegos, misturados com pedaços de palavras de fonemas bem diferentes de tudo que já escutei.

— E ainda assim tu consegues entender as instruções?

— Exatamente, não sei como, mas consigo!

O rapaz está compenetrado no que me diz, como se ele estivesse convicto de que minha vida mudará daqui em diante.

— Ele tem um caderno de anotações, Aldo, onde desenvolvendo a máquina — comenta Pauli, gesticulando.

"Puta que pariu, eu quero muito ir para o deserto e sair dessa cidade", me digo em pensamentos e então provoco — Máquina de que?

— A gente ainda não sabe — diz o casal em uníssono, dando ideia de que muitas vezes contaram esta mesma história provavelmente. Não é algo de agora, é algo mais antigo que, talvez, una o casal com algo que seja único para ele.

Estou longe de ser um psiquiatra ou psicanalista, tampouco ter a filosofia do meu tio de criação que diria que tudo isso é falta de laço com farinha de marmelo, contudo, se este garoto não for apenas um mentiroso (e corno), ele tem sérias chances de estar desenvolvendo esquizofrenia Paranoide e não saber disso. Sem tratamento, ele pode representar perigo tanto para ele quanto para a Pauli.

Cara, você precisa publicar estas instruções! — digo levantando na poltrona — Vou pegar água, já volto.

— É uma ideia — diz o William me vendo indo para a cozinha.

— Gi — digo ao ouvido dela que está ao lado do fogão assistindo o Carlos cozinhar — , estou cansado, vou indo para casa. Leva um pouquinho de comida para mim depois?

— Claro, tem certeza que não quer ficar? A comida já está quase pronta e peço para um dos meninos te levarem.

— Não precisa, quero caminhar um pouco e dormir cedo.

— Não está chateado pela Pauli ter namorado, não é?

Dou uma risada sincera — Claro que não, está tudo bem. Apenas quero deitar cedinho. Ah, e faz uma coisa, quando a Pauli estiver sozinha, diga para ela levar William em um psiquiatra. Ele não está bem.

— Que?

— Falamos depois — dou um beijo no rosto da Giovana, bato com a mão no ombro do Carlos e saio à francesa.

Miles Davis tocando baixinho enquanto caminho pelas ruas de Antofagasta a noite. O ruído das ondas lá na praia chega igualmente baixinho até mim. Meu iPod é um bom companheiro. Hoje seria uma noite ideal para caminhar acompanhado de uma garota, vê-la tirar o cabelo do rosto ao passear pela orla, vê-la ajustar a cola da blusa, se protegendo da brisa. É, eu sei, estou melancólico, ainda me acostumando a solidão. Hoje me pergunto quando encontrarei uma mulher na viagem que me faça considerar “É, eu ficaria aqui por ela” mesmo que eu jamais abandonaria minha viagem antes de concluí-la, mas espero ter motivos para ter dúvidas sobre o que fazer. Sentir o coração pulando no peito, sentir-se assustado por estar ficando sem tempo, simplesmente encontrar alguém que me fizesse sentir algo. Uma garota que me fizesse querer escrever unicamente sobre seus trejeitos. Um dia. Um dia…

Capítulo Final — Já era hora

— Jogo, jogo, jogo, nêne — a Giovana me sacode na cama — Levante que o Carlos não está na cidade, eu não trabalho hoje e você tem que me ajudar a limpar a casa. Depois vamos ver o jogo do Brasil juntinhos!

— Nossa, que divertido — digo com o rosto contra o travesseiro, abafando a voz e desejando dormir por mais alguns minutos.

— Ai, Aldo, te anima. É a tua seleção!

Quarta-feira, 17 de junho de 2015.

Limpamos toda a casa, fazemos um almoço juntos, trabalho no roteiro e nas fotografias da viagem com a Giovana deitada ao meu lado, espiando e comentando. No final do dia estou mais animado, pronto para ver o Brasil jogar contra a Colômbia na cidade mais colombiana do Chile. Não importa quantas esquinas olhamos atrás de um brasileiro perdido, veremos dois ou três pares de colombianos e nenhum brasileiro.

— Eu devo ser o único brasileiro nas ruas de Antofagasta.

— Sem dúvida — concorda a Gi enquanto caminhamos pelas ruas próximas ao centro atrás de um lugar para assistir a partida.

É estranho uma cidade com trezentos mil habitantes não ter um lugar conhecido como ponto de encontro de brasileiros, um bar para desfrutar da comida do meu país e, quem sabe, encontrar outros vindos da terra da ambrosia e da cachaça. Na avenida com o nome “Brasil”, nenhum bar brasileiro ou com brasileiros, nos fazendo voltar por outra avenida e, agora sim, encontrar um bar com iluminação baixa, televisores em alta-definição e pessoas aparentemente civilizadas assistindo a partida que começou há cinco minutos. Entramos, escolhemos uma mesa central e pedimos um petisco com cerveja.

— Tem um grupo grande de colombianas bem atrás da gente — sussurra a argentina.

Viro para trás, vejo as meninas, as cumprimento e dou de costas novamente, sem dúvida fazendo-as perceber caso não tivesse notado o “Brasil” escrito na camisa logo abaixo da minha nuca.

— Desconfio do motivo para terem feito o chamado de emergência falso aquele dia — falo quando a bola é posta para tiro de meta colombiano.

A Giovana me entrega o olhar para eu seguir o assunto.

— Para tirar a atenção de todos, abrindo as portas da cidade — finalmente verbalizo algo que já vinha pensando todos estes dias.

Ouço um “psiu” atrás de mim seguido de um comentário inaudível, contudo sigo no assunto com a Giovana sem vacilar.

— Pensa comigo, você precisa pôr algo ilegal para dentro da cidade mais importante e populosa do norte do Chile — pauso o comentário para ver o ataque do Brasil. Bola para fora, eu sigo — , como você distrairia a atenção de todas as autoridades ao mesmo tempo?

— Oi?

— Gi, raciocina comigo! — faço o pedido olhando dentro dos olhos dela que, por sua vez, parece fazer força para entender meu espanhol — Você quer por narcóticos dentro de Antofagasta então cria um chamado de emergência falso sobre um acidente monstruoso longe da entrada da cidade, envolvendo ônibus e provavelmente muitas pessoas precisando de ajuda…

— E todo o recurso de emergência, incluindo os patrulheiros da estrada federal são deslocados para lá — completa meu raciocínio a argentina hoje vestindo uma camiseta minha do Brasil.

— Exatamente. Um chamado enviando todas as patrulhas longe da entrada da cidade, mas perto o suficiente para ser as equipes de Antofagasta para atender.

— Uma vez experimentei comida brasileira e adorei — diz uma voz feminina atrás da gente, gerando mais comentários bobos.

— Nunca comi, mas ouvi dizer que a colombiana tem um sabor diferenciado — digo virando para trás, sorrindo por cima do encosto da minha cadeira — Claro que me refiro a gastronomia de vocês.

As oito garotas com camisas da seleção colombiana riem e temos um bom motivo para todos nos apresentarmos antes de retomar a atenção aos minutos finais do primeiro tempo da partida. De volta dando atenção apenas para a Gi, desenvolvo minha teoria “da distração do chamado de emergência” até que o juiz da partida dá por encerrado o primeiro tempo com uma leve vantagem do Brasil na posse de bola. Uma das meninas colombianas levanta, vai ao banheiro e a Giovana segue atrás. Giro minha cadeira desta vez e puxo papo com as sete meninas que tomam suas cervejas e beliscam batatas fritas. Elas estão com o demônio no corpo, nem dois minutos depois eu já estou sentado na mesa delas, respondendo uma saraivada de perguntas capciosas como “se o brasileiro gosta de colombianas com bumbum macio” e “se beijo molhado e mordido agrada brasileiros em viagem”. Respondo tudo com a maior seriedade do mundo e com riqueza de detalhes. Tão bom ver a canalhice se inverter e pegar os outros de surpresa… A Giovana volta e eu retomo meu lugar e seguir acompanhando minha anfitriã.

Começa o segundo tempo, termina o segundo tempo. O Brasil perdeu a partida e eu estou pouco me lixando. As meninas colombianas começa uma bagunça, empurrando parte das mesas centrais para a lateral do bar, abrindo espaço para fazerem fotografias e fodam-se se os demais clientes que aqui estão não gostarem.

— Brasileiro? Queremos você aqui, pegando na gente — me chama uma das mais danadas enquanto do outro lado do bar outra pergunta se o brasileiro não quer levar ela para casa.

A Giovana não sabe mais se faz foto ou se filma ou, ainda, se traduz para mim o castelhano de alta velocidade falado pelas colombianas empolgadas com a vitória da sua seleção e com um único e perdido brasileiro que entrou na onda delas. Abraço um grupo de quatro garotas, faço uma foto e, ao ir até o balcão para pagar a conta, uma das garotas passa por mim e me diz algo.

— Vou pegar você…

Pago a conta e volto para as fotos coletivas e outra colombiana sussurra algo, mais precisamente “me leva para casa”. É engraçado como o universo conspira contra você quando tu não tens camisinha. Pego a menina no colo e a levo para o banheiro, assim, no colo mesmo, com suas pernas entrelaçadas em minha cintura e seus braços presos ao meu pescoço. Vou pedindo licença para os clientes do bar e entro no banheiro masculino. Se é difícil eu mesmo processar toda a informação, imagina para a Giovana que ficou lá para trás às gargalhadas.

— Tem ? — a colombiana sussurra na minha orelha — Eu quero te chupar altinha.

Não penso duas vezes, peço para ela me soltar, volto para dentro do bar com algumas pessoas fazendo cara feia para mim, me despeço das outras meninas sem muita educação e convido a Giovana para sair do bar pegando em sua mão. A Gi ainda ri enquanto saímos para a rua iluminada apenas pelos postes e faróis dos carros transitando.

— Eu tenho cara de picolé-de-rola por um acaso? — falo em português automaticamente, com verdadeira irritação — Chega de pseudo-trepada!

A Giovana faz uma careta e me mira com seu olhar anestesiado de quem não entendeu coisa alguma do meu português chulo.

frustrado, Gi. Não dê bola — digo a abraçando lateralmente, seguindo caminhando pela calçada — Eu queria apenas encontrar uma mulher legal.

A Giovana pára abruptamente.

— E eu?

Nós dois caímos na risada e voltamos a nos abraçar, seguindo pelas avenidas tomadas de colombianos contentes por vencerem aqueles que ostentam, mas não representam o emblema de cinco estrelas no peito.

Vídeos com algumas imagens de tudo isso (Aldo Lammel)

A Gi tem seus problemas, não batemos em algumas coisas cujo os temas conversamos deitados sobre a mesma cama, mantendo a tal linha virtual, olhando o teto nos dias anteriores. Foram 11 noites em que estive na sua casa, mesmo que eu nunca ingressasse no seu círculo de amizade, devo ser grato à quem me estendeu a mão. Eu me camuflo, transponho terrenos, dissimulo para não ter de entregar uma verdade que não mudará nada na vida de pessoas que, em poucos dias, nunca mais verei. Ainda assim, a ética faz eu me expor, às vezes para alguém, às vezes só pra mim como venho fazendo na solidão no Atacama. Se você me perguntar, direi que sim, foi confuso receber a jaqueta de um cara que representa, mesmo que em algum momento fora carismático, um mundo que não quero. Em outros tempos, recusaria o presente, tomado pelo orgulho de minhas escolhas, mas e agora? O inverno mais cruel do hemisfério sul do planeta me aguarda e eu, até aquele momento, não tinha mais do que uma capa de chuva verde-limão para me esquentar. Quando folhei todas as páginas dos diários que um dia li, me questionei aflito: “onde estão os pecados?”, mas lá eles não estavam. Nunca estiveram. A demagogia, a hipocrisia e o silêncio são ferramentas que nos preservam aos olhos dos demais, porém, e isto não é pouco, ao custo da nossa própria autenticidade. Foi confuso aceitar o presente do Peppe? Sim, mas não foi difícil vestir a jaqueta e me sentir protegido com ela. A verdade é que o Peppe foi muito bom pra mim e sinto que tenho um amigo. Então qual é o ponto? Não sei…

Estou tempo demais aqui, já é hora de voltar para o deserto e ter um pouco mais de tempo comigo. Amanhã sigo ao norte, para um pedal de semanas de solidão, altitude e frio. Embora esta viagem seja uma coleção de incertezas, lá eu terei tempo para entender porque, lá no fundo, o caos e o perigo me atraem tanto mesmo que, por toda minha vida, eu nunca tenha sido mais do que um organizado e pacífico sonhador. Do que valeria a vida sem nos provocarmos a experimentar? Como sempre, aceitando os riscos, eu tô pagando pra ver!

Aquele 23 de junho de 2015 quando voltei para o deserto (Aldo Lammel, CC BY-NC)

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