Aldo Lammel, CC BY-NC

O Grande Pintor de Quadros

Já reparou como as coisas passam rápido próximas a janela do carro em movimento? Uma estrada para um lugar entre os campos, entre o plano decorado por montanhas ao fundo. Uma rota entre suas melhores recordações, direto ao ponto que te faz querer tocar as lembranças. Um borrão verde-claro, talvez de outro tom. A velocidade faz as coisas imediatamente ao lado do automóvel ficarem para trás, tão rápido que a percepção não defini e as coisas que lhe acompanham com alguma nitidez são a linha branca e contínua da pista do lado de fora e a paisagem mais além. Levante um pouco mais os olhos, escore a lateral de sua testa no vidro; mire por cima do borrão verde que passa rápido ao lado do carro e verá o horizonte mais distante, aquela que parece não se mover, lá no longe. Que parte da paisagem tu roubarias em imagem? Com uma tela e pincel, você a transforma em uma agradável lembrança emoldurada, a pintando com cores quentes e, dentro de seus olhos, um quadro ganha vida. Você pego desprevenido. Entre uma cor e outra, seu quadro voa enquanto o pintava. “Voa”, diz você baixinho, com a boca quase tocando a janela do automóvel agora embaçada. Passe a mão e crie um vão de nitidez no vidro. Apenas a contemplação, é você fitando suas memórias voarem como borboletas, pássaros ou dragões, batendo asas lá fora, vindos da direção do “para sempre seu”, vindos de um norte que sempre lhe parecerá mais quente de onde você está agora; um lugar que faz pulsar o coração com saudade, que admira as lembranças pairando no céu sem controle e nunca perto suficiente para que consiga tocá-las, memórias que não lhe deixam, como nas pandorgas e pipas, uma linha-guia que você pudesse controlá-las. A má e bela impossibilidade de nunca poder, de fato, viver aquilo novamente, nem que seja por uma só vez mais... Da janela, tu tens a impressão que a paisagem como aquela você dificilmente experimentará novamente e segue, como eu, olhando além do vidro, tentando pintar o melhor quadro possível de uma antiga lembrança, de uma antiga paisagem longe, mas imóvel dentro de suas memórias mais doces. Seguimos apreciando à distância…

Sábado, 18 de julho de 2015 — dia 168.

O sol queima meu rosto e eu puxo o scarf amarrotado do meu pescoço para cima. A Bolívia é um grande espaço aberto de ventos gelados e luz amarelada e brilhante nos dias sem chuva. Chuva? Tem bons quatro meses que não a vejo, por sinal. Diferente do norte chileno que ficou para trás há poucas semanas, aqui as montanhas e o plano têm verde e animais, longe de ser em abundância, mas têm. Um território de fronteiras difíceis de se pedalar, ora plano e asfaltado, ora montanhoso de pura terra fofa como talco. E eu pedalando através do cenário por uma reta pavimentada com nada de um lado e pouco no outro. Volta e meia, um grupo de lhamas; volta e meia, eu por mais horas na gélida tarde de inverno na companhia somente dos pássaros. Creio que eles também sigam para o norte, onde o clima é mais ameno, contudo, se eles buscam calor que esquente um coração pensativo, de fato eles e eu estamos indo para a mesma direção, no curso daqueles que caçam um pouco de companhia que abrigue a gente do frio e da solidão da estrada. Acho que estou emocional hoje, quem sabe pelo feito de horas antes. Hoje mais cedo, ao entrar dentro da Jayu Quta e, da forma mais imprevisível possível, realizar automaticamente um sonho de criança, não saia da minha cabeça que queria, pelo menos naquele momento do dia, que um bom amigo estivesse comigo para gritarmos de felicidade. Curiosa esta sensação.

Num raro momento social nestas estradas, a porta de um ônibus com uma palmeira desenhada na lateral, se abre ao meu lado enquanto pedalo. No meio da longa reta asfaltada, após muitos quilômetros ao nordeste do Salar do Uyuni, o motorista põe o ônibus branco-e-verde na mesma velocidade que estou, me dá um sorriso incompleto, de poucos dentes, e diz qualquer coisa que não faço ideia do que significa. Aceno e, se eu não estivesse de scarf, ele veria minha felicidade tatuada em forma de boca de orelha a orelha, um sorriso não mais escondido por debaixo do tecido verde musgo. “Olá”, eu penso. Nas janelas detrás do ônibus nem tão velho assim, crianças disputam espaço no vidro. Meninos e meninas se divertem vendo uma bicicleta diferente sob alguém fantasiado de algo que não os é familiar. As crianças, talvez uma turma inteira da escola, sorriem e gritam na minha direção; minha única certeza é que todas elas estão no rascunho de sua independência, possivelmente em sua primeira viagem para que, daqui alguns anos, cada uma delas e a sua maneira, se lembre das risadas, dos colegas, da música que toca no rádio… das novidades da vida que afloram nos momentos mais simples como uma viagem de final de semana com amigos. Se lembrem que, mesmo dentro de seus futuros sonhos, sempre é bom ter amigos por perto para dividir os feitos. É, sem dúvidas estou mais sensível do que o de costume, me perdoe.

O ônibus acelera, fechando mecanicamente sua porta, indo além de mim, indo para, espero que sim, para um final de semana mágico para aquelas crianças, digno de uma pintura. Por fim, o ônibus vai desaparecendo em uma curva à esquerda, levando consigo meus melhores desejos. Começo a gargalhar e a falar sozinho. Não rir, não pensar. A gargalhar e falar, com o scarf umedecendo em sua borda logo abaixo dos olhos. Dizem as más línguas que me emocionei ao ver algum quadro que um dia pus na parede. Foda-se! Um momento involuntário, inesperado, acidental, tomado de alegria, de nostalgia. Inexplicável para quem nunca se entregou às suas memórias. Inexplicável àqueles que nunca gargalharam em lágrimas ao deixar o passado transbordar de si em cores.

Aquele ônibus na Bolívia — julho/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Me vem um filme, me vem o passado. Havia sido uma viagem mágica, de final de semana, com meus novos colegas da nova escola. Meu primeiro beijo havia sido no ano anterior, na minha escola de sempre, durante a festa junina. Ainda lembro do dia antes, sentado no refeitório da escola, o Radamés vindo correndo para me dizer que a Rafaela queria me beijar. Então um dia se passou e a festa junina chegou. Era noite e eu aguardava a menina escorado na parede externa da nossa sala de aula. Lá era escuro suficiente para a minha vergonha e expectativa se manterem sem forma e não assumirem a timidez. O som da lenha estalando na fogueira, o cheiro de madeira queimada, de pinhão assando, de cravo no quentão. Meu peito pulsava e eu apenas me mantinha imóvel naquele parede, no lado de um casal que se beijava, porém eu não o olhava, somente escutava a respiração ora ofegante do beijo de longos minutos. A menina apareceu, com um sorriso encabulado, de lábios apertados e cabelo escorrido e negro. Eu? Não fazia ideia do próximo passo, embora apreciasse o cheiro do xampú que ela trouxera no balançar das madeixas. Tenso era eu querendo tocar o seu cabelo durante um beijo, beijo que não sabia como iniciar. Nossa, como senti medo. Ficamos de frente um para o outro, bem rápido, acho que a segurei pela cintura, não sei. É bem possível que ela tenha pego minhas mãos e as conduzido ao lugar certo. Fechei os olhos e a beijei, sem jeito. Minha mão a tocou no rosto — eu sempre quisera fazer isso assim como deixar meus dedos sentirem seu cabelo, como se ajeitasse uma mexa para detrás da orelha se houvesse desenvoltura — , mas meu dedos bateram em seu ouvido esquerdo e eu desisti por medo de estragar tudo. Difícil em uma primeira vez com os olhos fechados, mas fácil de lembrar anos depois como nasceu a sua assinatura: mexer no cabelo dela enquanto a beija. E até hoje o cheiro do vinho adocicado, quente e com cravo, me lembram do colégio, reavivam aquela parede externa de tijolo à vista da sala de aula, debaixo de um dos muitos pinheiros que perfumavam a escola, mas nada igual ao aroma do xampú da menina misturado com tudo aquilo.

No novo colégio, com novos colegas; que expectativa para o garoto de doze anos que deixara a antiga escola no que parecia seu ápice? “Aqui será tão bom quanto no ano passado?”, poderia eu questionar-me na época. Sim, foi, respondo eu hoje à você. Tão doce quanto o beijo açucarado na festa junina do ano anterior, foram as amizades que fiz daquela viagem de ônibus de final de semana em um 1996 que jamais deixarei de contemplar como uma obra de arte na parede.

"Wonderwall" do grupo Oasis (via Youtube)

Tudo era quieto noite adentro nas estradas gaúchas. Quase todos dormiam em suas poltronas no ônibus fretado pela nova escola e que voltava para casa. Fora um final de semana de muitas novidades para mim, eu nunca havia viajado sozinho sequer de uma cidade vizinha à outra, quem diria para longe de casa, para a fronteira Brasil-Argentina. Na noite anterior, correndo pelos corredores do hotel sem pais vigiando, o desejo de beijar uma garota aqui, uma piada partilhada com o amigo ali. Muitas risadas dos televisores onde os controles remotos tinham fios que os conectavam às TV's de tubo; um grito agudo de menina assustada no quarto ao lado e um “Sai, Lucas” berrado em seguida, ecoando no andar de carpete vermelho e paredes creme. De volta ao ônibus que retorna para casa, naquele instante tudo era escuro e calmo, algo aconteceu, as coisas bateram, se encaixaram e, em mim, tudo era gravado, como se eu desenhasse, pintasse o momento no instante em que tudo acontecia. As pessoas, a disposição de parte delas nas poltronas, a música que tocava repetidamente em intervalos de programação e de estática das trocas de estações de rádio na estrada. “O que será que a letra diz?”, pensava eu, apaixonado pela “Wonderwall” do Oasis. Eu era somente eu, uma criança cheia de dúvidas e medos abstratos, sentada com os amigos mais próximos na fileira da esquerda, nas últimas poltronas. Longe o suficiente da professora, perto o necessário para lembrar de tudo. E por lá fiquei, atento à melodia da canção, atento até pegar no sono com o balançar da viagem que (eu ainda não sabia disto) não precisava acabar.

Pedalando hoje pela Bolívia, esqueço da minha trip, me pondo noutra viagem de faz de conta, dentro daquele ônibus de 1996 o qual o tempo não passava. No escuro, enquanto todos dormiam, levantei. Caminhei devagar das poltronas mais ao fundo até as mais próximas do motorista. Eu com a idade da época, exceto pelo coração, esse, o de hoje. Me imagino abrindo os braços, tocando cada poltrona dos dois lados do ônibus que percorre as estradas com as luzes apagadas. Nada vibra, como se flutuássemos. Além das janelas, não há nada, só há noite lá. Lucas e Joubert na minha esquerda, ainda fantasiados de garotas, uma piada que eles fizeram horas antes pelo mesmo corredor que agora estou na minha imaginação. Eu admirava o Joubert, ele era bonito e as garotas o adoravam por isso. Pele clara, olhos verdes, cabeça raspada. Jogava bola como ninguém. O Lucas? Sempre ao lado do Joubert. Quando a gente se olhava, caíamos na risada sem muitos porquês. É possível que ele frequentasse mais a diretoria da escola do que eu. Eu nos via como um bom trio, correndo pela escola, chutando bola e passando a mão nas meninas. O Joubert hoje é formado em letras-inglesa e viaja pelo mundo em cruzeiros e vive na Irlanda. Trocamos mensagens uma vez que outra, recentemente, inclusive. O Lucas, até a última vez que tive notícias dele, se tornara engenheiro-civil e vive em algum canto do Brasil, provavelmente dando risada de alguma coisa, provavelmente sem saber que um amigo o recorda. , coisas da vida.

Que parte da paisagem tu roubarias em imagem? Com uma tela e pincel, você a transforma em uma agradável lembrança emoldurada, a pintando com cores quentes e, dentro de seus olhos, um quadro ganha vida.

Mais adiante, o Frampton, dormindo e ocupando duas poltronas, encolhido, de moletom preto e com seu boné desbotado do Boston Celtics de oito linhas bordadas na aba. Quem não tivera um boné original das equipes de basquete da NBA, não fazia parte do grupo. "Que time teu?", perguntava Frampton. "Charlotte Hornets", respondia eu, ingênuo. Um piadista, de expressão danada até enquanto dormia. Hoje, ele tem um estúdio de tatuagem na mesma cidade onde estudávamos. Trocamos algumas palavras dez anos atrás e nunca mais nos vimos ou falamos desde então.

Enxugo o rosto com o scarf e tiro o óculos que embaça com a humidade abaixo dele. Sem parar o pedal no plano e raro liso pavimento boliviano, volto ao ônibus em pensamentos enquanto minhas pernas empurram os pedais da bike cada vez mais forte.

Janderson e Matheus. O Matheus era o menor da turma, não em idade, mas em tamanho. Ele realmente era muito pequeno, quase frágil, com cabelo tão fino quanto o estereótipo de um anjo, pele clara e de personalidade agitada, irritada. Usava tênis que eram maiores do que ele. Lembro de ter comprado o Windows 98 pirata dele por cinquenta reais que muito tive de negociar em casa. Tão jovens, tão do business. Que bobagem para se recordar… Há poucos anos trocamos algumas palavras pelas redes sociais, ele estava nos Estados Unidos, estudando, trabalhando ou a turismo, não sei dizer. Do seu lado no ônibus, escorado parte na poltrona, parte na janela ao seu lado, o Janderson. Ele era grande, um pouco gordo, ostentava uma cabeleira que me fazia o chamar de “cotonete”. Ele tinha um sorrisão desajeitado, aliás ele era todo desajeitado, acho que tímido também. Pouco falávamos, porém ele costumava rir de minhas piadas mesmo eu nunca o tendo escolhido para ser do meu time nos jogos de futsal da turma. Ele morrera dois anos mais tarde, afogado em um praia no litoral gaúcho enquanto buscava alguma coisa que as ondas levaram. E as ondas também o levaram. Na fotografia da turma, imediatamente abaixo do Joubert e abraçado de joelhos comigo, o rosto do Janderson é o único que não aparece. O mar e as ondas. A arte e seus traços. A vida e os fatos que nos fazem buscar significados…

— Um copo de álcool, por favor — digo ao garçom imaginário, ele me serve e eu olho para você, meu caro leitor, erguendo meu copo um pouco acima dos nossos ombros — Ao garoto, às memórias! Cheers!

Cheers! — responde você do outro lado desta página.

Aquele ônibus de 1996 no Brasil (Aldo Lammel, Todos os direitos reservados)

E assim, de dentro da minha viagem no tempo e usando minha camisa polo cinza, bermudão azul-jeans e boné sempre virado para trás, sentei na única poltrona vazia daquele ônibus, em completo silêncio, sem ver muito mais do que duas ou três fileiras à frente no escuro, sem escutar nada além da canção, inventando significados para ela até eu pegar no sono.

Um momento congelado no tempo onde as coisas se repetem para sempre, para mim e do jeito que eu as pintei, interpretei. Maior do que a certeza de que jamais me esquecerei daquele 1996, daquele beijo de quentão, do meu momento na cratera hoje, é a minha convicção de que momentos são únicos e jamais voltarei a tocá-los uma segunda vez. De um jeito muito simples e apenas de cada um, ninguém me impedirá de pelo menos ficar o tempo que eu quiser com as mãos no bolso, admirando a pintura na minha galeria de recordações, da mesma forma com que ninguém e nada me impedirá de dar um passo ao lado e, no espaço vazio na parede, começar a pintar um novo e único quadro.

Somos momentos.

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