10# O Postal de Ceci

3 de agosto de 2015.

Monto a barraca no alto de uma colina à frente do Titicaca, o crepúsculo é lindo e minhas companhias são o farfalhar dos eucaliptos que deixam o seu perfume a minha volta e meus pensamentos sobre desejar, gostar, querer e amar. A noite virá e, pelo que me parece, trará o frio do inverno boliviano dentro de poucas horas, mas o que me conforta, se é que isto pode ser chamado de conforto, 0 meu coração, diferente das semanas anteriores, está mais aconchegado, ele lembrou do gosto bom de ser desejado, mesmo que apenas por alguns dias. Mais cedo, encontrei em minhas coisas uma carta presa a um postal. Olhei para este pedaço de papel o dia todo, mas queria esperar o pôr-do-sol para abri-lo e, de alguma forma, tornar o momento mais doce para as minhas lembranças. E então, dentro da barraca, deitado e com algum medo alterando o ritmo da minha respiração, ligo a lanterna e abro a carta. A parte mais cruel da viagem não é não poder se banhar todos os dias, tomar um chopp com seus amigos, receio de um roubo das poucas coisas que leva ou de ficar doente e se ver sozinho. O mais cruel, áspero e difícil de lidar é ter de deixar pessoas pra trás, pessoas que encontraram dentro da gente o caminho que liga dois pontos, dois corações, seja a amizade que aflora e nos faz fantasiar os amigos sentados em uma mesa, desfrutando de um bom churrasco; seja a paixão que aperta o peito no momento de dizer que é hora de partir.

Que palavra poderíamos gritar do alto da montanha ao lembrar de quem deixamos para trás? Minutos antes, vendo possivelmente a paisagem mais charmosa de toda a viagem até agora, fiquei de pé na beira do penhasco e gritei “merda” o mais alto que pude, porém engana-se quem pensar que fiz isso descontente. Embora meus olhos ainda estejam tomados por lágrimas filhas da puta que me perseguem por todo o dia, gritei com o sorriso mais largo que eu poderia querer. Que gritemos “merda” para as decisões difíceis do caminho, que berremos “merda” para quando deixarmos algo bom para trás e assim darmos continuidade ao nosso sonho, a nossa missão. Recline-se; vou lhe contar uma breve história sobre os riscos de mochilar em voo solo.

Manhã do dia seguinte, diante do Titicaca (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Quatro semanas antes.

Aldo está online.
Ceci diz: Oi. Como vc está?
Aldo diz: Bem, quem é?
Ceci diz: Vi sua história, que coisa linda. Me diz uma coisa, passará em La Paz, Bolívia?
Aldo diz: Obrigado, Ceci. Sim, creio que chego na tua cidade em duas semanas… :)
Ceci diz: Costumo receber apenas meninas e casais de viajantes pelo CouchSurfing, mas achei tua viagem tão diferente que quero te conhecer. Se quiser, pode ficar em minha casa por duas noites e providencio também jantas.
Aldo diz: Porra, seria demais isso.

Segunda-feira, 20 de julho de 2015 — dia 170.

Acordo dentro da minha barraca às margens de uma rodovia pavimentada próxima a Huari, um povoado boliviano ao norte do Salar de Uyuni o qual concluí a travessia ontem. Fazem três dias que não me banho, três dias que não dou qualquer sinal de vida às pessoas no Brasil, mas recordo, se não me falha a memória, que marquei com a Ceci — há duas semanas — de estar em seu endereço hoje. São 7:30 e, ainda dentro da barraca pego o mapa da Bolívia. La Paz está há 400 quilômetros ainda mais ao norte de onde estou. Meu pedal mais agressivo até agora foi de 181 quilômetros em um único dia, carregando a metade do que levo na Garibaldi hoje. Fazer 400 na altitude que me encontro e com este peso é por definição impossível. Contudo eu sei uma forma de chegar em La Paz hoje, entretanto terei de pedir ajuda às pessoas que sempre me ajudam, seja com água, seja com caronas nas emergências: os caminhoneiros. Quatro horas depois, estou dentro de um caminhão de transporte de materiais de construção, rumo a cidade grande mais alta do mundo, La Paz. Uma viagem de algumas horas, aprendendo com o caminhoneiro um pouco mais sobre a história da Bolívia, sua antiga briga com o Chile por um pedaço de mar (e que agora está em evidência mais uma vez), além das histórias de outros países que tiraram da Bolívia parte de seu território, como o Brasil, por exemplo.

Horas depois, o motorista me orienta como chegar à zona sul de La Paz, desço a bicicleta da carroceria, a monto com os alforges de quarenta quilos totais e começo uma descida incrível para dentro da cidade às 19:30. Declino costurando os carros, estou há cinquenta, talvez sessenta quilômetros por hora. La Paz além de ser uma das cidades mais altas do mundo, é atípica, onde a cidade se afunila entre as montanhas, como se fosse uma cidade dentro da boca de um vulcão colossal, de proporções épicas, tão grande que a forma da boca não pareceria uma boca e sim um outro mundo; um lugar onde pedalar é impossível não somente pelo trânsito caótico, mas pela topografia irregular e extremamente íngreme. Posso imaginar as pastilhas do freio hidráulico da bike esquentando os discos e eu passo pelos carros como se alguns estivessem quase parados. A adrenalina da noite na cidade grande em alta velocidade e sob os efeitos de minhas músicas nos ouvidos, me fazem passar perigosamente a centímetros dos caminhões medianos e dos carros de passeio e taxis na pista La Paz adentro. A experiência do extremo, do risco, do não-posso-errar enche meu pedal de gama por ir ainda mais rápido com uma bicicleta que deveria estar indo muito mais devagar. As luzes vermelhas das lanternas traseiras dos automóveis, o brilho amarelado das iluminação pública, pessoas andando rápido como uma metrópole, mas dentro de mim apenas a música e a linha tracejada da via passando por debaixo de mim em uma cadência mais elevada do que o normal. Estou a quase oitenta quilômetros por hora quando a roda da frente da bicicleta não suporta a velocidade com o peso que levo e começa a se soltar do resto da bicicleta. A vibração no guidão muda e ao pressionar o freio frontal percebo no movimento da bicicleta que a roda frontal recuou. Em poucos segundos passo a freia com suavidade, mas dessa vez até a bicicleta parar por completo. A roda estava solta e se eu passasse por qualquer coisa que me fizesse tirar a roda frontal do chão, ela sairia e eu cairia a setenta quilômetros por hora em meio aos carros na pista rápida da cidade. Suficiente por hoje no que foi o downhill urbano mais intenso, mais fantástico que já fiz até hoje.

Trinta minutos depois estou no endereço que a Ceci havia me passado semanas atrás e que deixei anotado num pedaço de papel. Uma vida sem internet ou energia elétrica garantida é assim: a base do papel. Olho para os lados em uma rua de paralelepípedos bem tranquila e limpa, contudo nada de encontrar o número 517. “É uma casa, mas onde? há prédios aqui”, falo calado comigo, querendo encontrar logo o endereço, tomar um banho, comer algo e dormir. Bato na porta de um prédio e duas garotas aparecem. Explico o que preciso e minutos depois as jovens com idades entre dezesseis e vinte anos estão conversando com a Ceci por Whatsapp. Viva as anotações em papel! Outro tempo depois estou eu batendo no portão de uma casa camuflada entre os prédios desta mesma rua, com uma escadaria de concreto e gramado que não vê uma máquina de cortar grama há meses.

Cães latem, um dos latidos é grave e o bicho parece ser grande. O portão da casa abre. São 21:00 e a Ceci e eu nos vemos pessoalmente pela primeira vez.

— Oi, Ceci — digo com tom de voz feliz, porém absolutamente cansado da correria de hoje sem gastar um tostão para chegar até La Paz, quatrocentos quilômetros ao norte de onde eu acordara mais cedo. Antes de pensar em qualquer outra coisa, me vem a mente o fato da Ceci ser uma garota muito bonita, nada a ver com uma típica boliviana, mesmo as da cidade grande. Na verdade, apenas a cor da pele, beirando a cor de uma mulata, mas mais clara e de traços curiosamente suaves. Com seu um e sessenta e cinco de altura, cabelo negro e liso cortado em chanel até os ombros. Ali, um metro e meio a minha frente, uma garota de no máximo vinte e cinco anos, de olhos castanhos-escuro, expressivos, nariz delicado e flanqueado por sardas como quem tivesse ascendência europeia. Seus lábios, sem batom, ostentam um sinal abaixo do lábio inferior a esquerda lhe dando mais charme. Ainda assim, nada tão expressivo quanto seus olhos. Depois da minha experiência em Antofagasta e São Pedro do Atacama com mulheres que me convidaram a dormir em suas casas, não pretendo mais presumir que minhas anfitriãs buscam algo a mais da minha companhia. Segurarei minha onda aqui, mas que ela é linda e que eu festejaria com aqueles olhos a menos de um palmo de mim, ah, parceiro; eu faria a festa.

— Aldo, não recebeu minha mensagem? — diz Ceci sorrindo, porém de sobrancelhas arqueadas, provavelmente pensando algo como “ele é muito mais magro do que nas fotografias. Deve ser o pedal”.

Me vem uma sensação de insegurança, de que ouvirei alguma desculpa para não poder ficar, contudo logo a boliviana diz que o problema é que já tem outro viajante na casa, um contratempo, e que eu poderia ficar desconfortável dormindo não em uma cama, mas no sofá da sala. Olho para ela e, rindo, digo a verdade, porque um sofá para mim é luxo. Atrás dela, um pastor alemão enorme me olha, não late, só me observa. A Ceci me convida para entrar e então, depois de todo o corre-corre de hoje, cá estou, na casa onde poderei descansar por duas ou três noites; tudo o que eu queria depois dos últimos dias de aventura, cruzando um salar com temperaturas negativas inimagináveis, subindo montanhas com meu pesado equipamento até atingir o grande altiplano boliviano sem pavimento.

— Então recebe com frequência viajantes? — falo com bom-humor enquanto desmonto a bicicleta e vou passando as mochilas para o pátio da casa que me parece elegante em um primeiro momento quando a comparado aos padrões bolivianos que eu venho conhecendo desde o sul até aqui.

— Na verdade é a primeira vez que recebo um viajante homem sozinho — comenta a garota, buscando com os olhos o que poderia me ajudar a pôr para dentro de casa.

— A segunda vez, então — digo me referindo ao outro viajante que já está em sua casa.

— Então, olha a coincidência — comenta Ceci ainda um pouco séria, segurando o portão para trás para eu passar com as coisas — Eu recebo aqui em casa casais que estão viajando e até já recebi uma brasileira que viajava pela Bolívia sozinha, mas um homem, você seria o primeiro.

Presto atenção no que ela fala enquanto passo a última metade das minhas coisas para dentro do pátio.

— E como gostei dessa história de viajar de bicicleta, fui pesquisar e como te disse, por coincidência, um outro ciclista, um sul-coreano, precisava de ajuda em La Paz e o convidei para ficar aqui e se organizar para seguir sua viagem — me explica Ceci, mirando o chão e arregalando os olhos, tentando ser educada, porém sinalizando que há algum problema com o sul-coreano.

Ela puxa minha última mochila vermelha para dentro do pátio.

— E quanto tempo ele já está aqui? — pergunto conforme, por fim, ponho a Garibaldi para o lado de dentro do portão e o pastor alemão grandalhão me cheira compulsivamente nas canelas. Fecho o portão com um dos pés com cuidado como se eu desse um coice em câmera-lenta.

— Uma semana! — responde a boliviana, ajeitando algumas mexas de cabelo para trás da orelha enquanto larga a pesada mochila ao lado da porta de entrada da casa — Ele me disse uns dias e não uma semana, mas ok.

Largo a bike em uma parede externa da casa no lado de dentro do pátio e paro diante da boliviana bonita.

— Olha, Ceci. Eu pretendo descansar por apenas duas ou três noite e me vou para o Perú…

— Aldo — me interrompe a garota que reparei agora que tem um piercing na língua — eu convidei o Kim apenas porque ele precisava de muita ajuda. Eu estava, na verdade, te esperando porque já havia combinado contigo, então não te preocupes, ok? Tome um banho e coma alguma coisa, beleza?

Dou um sorriso de pleno acordo à ela.

Com um merecido banho quente tomado, perto das 23:00, Ceci e eu estamos conversando sentados na confortável sala, toda pintada de branco e de textura lisa, com pé-direito de três metros, lustre simples embora elegante, móveis em madeira escura e pesada sobre um piso de parquet pequeno e negro, tomado por pêlos do pastor com a maior pelugem que já vi e de uma belíssima cor caramelo-escuro que lhe dá uma imponência diante de uma das cidades mais geladas da América Latina.

— Não repara nos pêlos — comenta a boliviana, de braços cruzados, fitando o piso ao nosso redor, contudo sem caras-e-bocas, apenas reparando.

tudo bem, aqui me lembra um pouco minha casa e meu pastor também — digo eu, a tranquilizando quanto ao meu conforto, seguindo — A Lua não é um dinossauro como o Cooper, mas também é um pastor.

Mexo minhas mãos uma com a outra, entrelaçando os dedos.

— E para ser franco estou naquela fase de sentir saudade dela — comento com um sorriso de canto de boca enquanto fito minhas mãos antes de voltar a mirar a Ceci — , minha parceira de corridas lá no Brasil.

É possível que a percepção da Ceci ao meu respeito possa ter se tornado mais empática por este quesito também e não apenas por causa da aventura que faço e que chamou tanto a sua atenção. Ela me fita com ternura, entretanto não faz qualquer comentário. Desvia a mirada por um instante e pergunta se eu não me importaria em dormir aqui na sala.

Ela se levanta do sofá enquanto aguarda minha resposta, entretanto, antes que eu possa responder que não haverá qualquer problema, a campainha toca. O Cooper dá uma saraivada de latidos tão grave que mais parece um monstro rugindo do que um cão ladrando. É o coreano chegando das ruas tumultuadas de La Paz.

A boliviana vai até a rua, abre o portão e os dois ingressam na sala. Eu me levanto.

— Kim, este é o Aldo que te falei que viria. E Aldo, este é o Kim — nos apresenta Ceci, fechando a porta principal da casa, logo atrás do oriental.

Vestindo roupas de ciclismo para baixas temperaturas e carregando uma caixa azul do tamanho de uma TV de vinte polegadas, o coreano nem me olha, passa reto pela sala, dizendo um “oi” desinteressado, entra no quarto onde está instalado e fecha a porta.

Ceci, que havia ido para seu quarto pegar alguma coisa, volta à sala, confirma se estou bem acomodado e me entrega uma cópia da chave de casa. Aproveito, anoto a senha do Wi-Fi, nos damos boa-noite e assim a moça do cabelo chanel vai para seu quarto e eu arrumo o sofá para deitar e, por fim, dar notícias às pessoas no Brasil. Uma hora depois, durmo encolhido no sofá de três lugares, pequeno para meu um e setenta e seis de altura na horizontal. Pelo menos tenho eletricidade, internet, cama, banho quente e uma geladeira por perto para tentar ganhar peso nestes dias fora das estradas.

São 7:30 e Ceci passa de pijama por mim em direção a cozinha. Levanto na hora, vou até lá somente de cueca, a dou um beijo no rosto, pego um pouco de água para beber e vou ao banheiro escovar os dentes. “Tenho que parar de fazer isso”, digo a mim mesmo enquanto urino, me referindo as reais intenções do meu “oi” à Ceci. Saiu do banho e quase trombo com Kim que saíra do quarto ao lado do banheiro.

— Acordando cedo, Queen? — pergunto cometendo um erro ao pronunciar seu nome, culpa da fonética semelhante entre as palavras “Kim” e “Queen”. Percebo o erro no instante que ele ocorre, mas o trato como uma brincadeira para socializar e buscar algum humor no sul-coreano sem expressão.

— É Kim — diz ele baixinho, seco, me corrigindo enquanto ele entra no banheiro— Tenho de trabalhar, por isso levanto neste horário.

— Bacana — comento escorado no lado de fora do marco da porta— Quer tomar café? Vou comprar pães e alguns ovos.

— Obrigado, Aldo. Se você pudesse preparar algo para mim, me ajudaria muito.

— Claro — confirmo e giro nos calcanhares, rumo à rua para buscar os ingredientes para o nosso café em algum lugar.

Pego a chave que a Ceci me emprestou ontem, brinco rapidamente com o Cooper e encontro uma venda na outra quadra da casa da boliviana. Compro pães, manteiga e ovos, suficiente para o meu café, o café de Kim e ainda garantir meu almoço. Volto para casa, mais uma vez mexo com Cooper e encontro com Ceci no portão. Ela parece uma executiva, com blazer preto, saia um pouco acima do joelho e salto baixo de bico arredondado, também preto. “Ela sabe das coisas”, digo comigo.

— Me diz uma coisa, quer almoçar comigo lá no centro? — pergunta ela baixinho à mim ainda no lado de dentro do portão enquanto eu estou no lado de fora.

— Seria ótimo. E onde eu te encontro?

Com o endereço memorizado, entro na casa e me vou para a cozinha preparar o café da manhã. Kim sai do banho, vai até a cozinha e encontra ovos mexidos, pão quentinho já cortado e um copo de leite com achocolatado. Aponto as coisas para ele e vou para a sala comer sentado e desfrutar do conforto de uma casa nesta manhã gelada.

Vixi, está 7ºC lá fora — digo em voz alta e olhando para o celular.

Kim, retornando da cozinha com seu café, apenas diz um “hm” totalmente desinteressado, tão artificial que dificulta as coisas.

— Então, Kim — digo eu de boca cheia, tentando tirar suco de pedra — , trabalha com o quê?

— Vendo postais — responde um tempo depois, como se ainda não estivesse familiarizado com o espanhol ou estava somente simplificando a resposta.

— Legal, cara — respondo eu.

— Aldo, posso te pedir um favor?

— Diga — e me vem a mente que as únicas interações que ele é capaz de fazer são para pedir coisas.

— Você irá lavar suas roupas hoje?

— É o que quero fazer ainda agora pela manhã. Se tem roupas sujas, as separe e me entregue que, assim que lavar as minhas, ponho as tuas na máquina.

— Obrigado, Aldo — diz o coreano com voz plácida, quase chapada, com semblante sem qualquer expressão, sempre sóbria. Ele continua — Como trabalho o dia todo, não tenho tempo para essas coisas.

Desconsidero o comentário como sugestivo, como se eu não tivesse outras responsabilidades.

— Não se preocupe, que lavo sim — o sarcasmo me vem — , vou ficar em casa coçando o saco.

— Queria eu poder não fazer nada como você — comenta entre uma mordida e outra no omelete que eu preparei para nós — , mas tenho de trabalhar para conseguir viajar.

Dou uma risada curta e muda, preferindo me manter sociável, relevando o comentário o qual quero acreditar ter sido mais uma falha de quem não tem qualquer habilidade interpessoal do que uma provocação ou vingança pelo “Queen” de minutos antes. É irônico ver um rapaz de trinta e dois anos, que viaja pelo mundo há quatro, depender tanto dos outros e não ter, pelo que parece neste primeiro momento, uma boa comunicação. Eu deveria considerar que um idioma latino para um oriental é um câmbio enorme, todavia o que ocorre aqui não é dificuldade com o idioma, e sim o mal uso das convenções sociais comuns, independente de culturas do oriente ou ocidente.

Queen, vou almoçar com a Ceci e não faço ideia de que horas voltarei, então você mesmo estenda suas roupas assim que chegar. Faça isso ou, se elas ficarem dentro da máquina, ficarão com mau-cheiro.

— "Kim", Aldo. “Kim” é bem diferente de “Queen”. Queen é “rainha” em inglês…

— É, não esquece então — digo levantando e seguindo na direção da cozinha, vendo que não relevei tão bem o comentário do “japa”. Na realidade eu trabalho pra caralho horas e horas todas as semanas, sempre correndo atrás de internet, abrindo mão de poder estender bate-papos com outros viajantes, usando todo meu dinheiro para bancar as necessidades que o conteúdo do projeto exige… para um asiático cabeçudo que parece um Tamagotchi, dependendo dos outros pra tudo, me subestimar e presumir sobre o que faço ou deixo de fazer da vida.

Horas mais tarde, com meus fones de ouvido berrando o álbum “White Pony” do Deftones, caminho e fotografo pelas ruas de La Paz, me dirigindo ao endereço que a Ceci me passou mais cedo. Aguardo por um tempo na esquina de um colégio e, vinda da direção que não cuido, ouço um “psiu”. A boliviana aparece com um sorriso lindo e com os cabelos soltos, sacudindo de um lado para o outro na brisa estranhamente abafada da tarde, desfilando com a naturalidade de quem morou muitos anos na Europa, onde obteve seguramente referências sobre comportamento e postura com culturas onde as mulheres são tão independentes e sofisticadas quanto qualquer homem.

— Mas as pessoas vão comentar sobre o quê uma gata dessas está fazendo com um brasileiro barbudo — brinco conforme a Ceci se aproxima de mim na esquina.

Ela sorri e nos abraçamos um pouco além de um abraço cordial.

— Bobo — comenta ela, não me olhando nos olhos, porém me puxando pela mão esquerda para a direção donde almoçaremos — Gosta de comida vegetariana?

— Prefiro um belo assado argentino — respondo eu, confirmando que tudo bem com a cabeça logo depois.

— Onde vamos não há carne — ela justifica com um semblante alegre, que faísca olhos castanhos logo acima de sardinhas charmosíssimas.

A garota solta minha mão, contudo eu queria que ela não tivesse o feito.

Quadras mais adiante e uma e outra ladeira acima, entramos no restaurante, daqueles restaurantes charmosos, elaborados dentro de uma antiga casa de dois pisos, como muitas opções que existem nos bairros mais interessantes de Porto Alegre. Um cheiro de incenso, lounge tocando baixinho vindo das caixas de som nos cantos superiores das paredes coloridas. Um aviso na entrada do ambiente no segundo piso: "Por favor, tirar os sapatos!"

Tiramos e olha eu com meias diferentes. Fuck! Mesas baixas para podermos sentar nas almofadas ao chão. Uma parede azulada, possivelmente roxa para outros, como as unhas da Ceci, e uma pintura de um homem gordo rosa com cabeça de elefante, com mãos realizando símbolos com os dedos e utilizando ornamentos em jóias douradas pelo corpo. Se não me falha a memória, é um dos milhares de deuses hindus, Ganesha.

— Quem é? — pergunto eu me abaixando para sentar.

Ceci me dá sua atenção como se não entendesse a pergunta, mas logo repara ao seguir a direção da minha atenção.

Ah, é um deus hindu… Ganesha. Ele é lindo!

— E quem é a Ceci? — já sentados no chão do segundo piso vazio do restaurante, pergunto sem humor, quase deitado nas almofadas, quase puxando a garota para junto de mim, fitando dentro dos olhos dela que não conseguem fazer o mesmo em mim.

Ela parece surpresa com a pergunta, vira seu rosto na minha direção e mostra os dentes com timidez. Não uma garota de vinte e cinco anos, mas uma mulher da minha idade, trinta e um, que foi morar na Alemanha para estudar e acabou ficando lá por sete lindos anos. Se tornou vegetariana, mas não sabe cozinhar muito bem, segundo ela; mais ou menos há meio-ano seu relacionamento com um alemão que a seguira até a Bolívia, terminou. Formada e especialista em ecologia, trabalha e vive sozinha em sua confortável casa na zona nobre de La Paz. Fluente em alemão e inglês, estuda japonês e, além do vício em Nutella com colherinha, viajar é algo que a encanta. Entre um banho e outro, já percebi que ela adora rabiscar o espelho do banheiro de casa com frases de impacto ou apenas exercitar seu japonês que transcende minhas habilidades de compreensão. Apesar das afinidades que ela e eu vamos encontrando na gente, como gostar de música pesada e seriados violentos, a vontade crescente de beijá-la limita-se aos ensinamentos que a estrada vem me dando nestes seis meses de viagem. "Não é o que parece, ela está sendo amável", digo como um mantra dentro de mim.

O garçom aparece e nos entrega o cardápio.

— Bebida ao casal? — pergunta o jovem garçom à nós dois.

— Dois sucos jamaicano, por gentileza — digo.

— Não, não, eu não quero — agradece Ceci.

— Ok, minha esposa não quer, então apenas um, por favor — confirmo ao garçom com a maior seriedade que consigo interpretar.

Ceci sorri, porém sem tirar os olhos do cardápio que folha buscando algo para comer.

— Kim foi embora? — pergunta ela.

— Ele me disse que iria trabalhar e nada mais.

Hm

— Ceci, eu não o conheço, tampouco não sei como você prefere lidar com isso, mas me parece que se você não tomar as rédeas disso, ele irá te sugar até você perder a calma.

Ceci, fecha o cardápio, faz o pedido, eu faço o meu, e ela retorna seu olhar para mim, indicando com sua atenção para eu prosseguir meu raciocínio.

— Veja, ele está confortável lá, você faz janta, há internet e ducha quente. Creio que se você não lembra-lo do que foi combinado entre vocês, ele não fará as coisas ao teu modo, mas sim ao modo dele.

Ceci fica pensativa, não comenta nada além de um “tenho de ver isso” jogando meus pensamentos para a mesa-de-chão ao lado ao fitá-la.

Mudamos de assunto.

Almoçamos por agradáveis duas horas; acompanho minha anfitriã até seu escritório, uns trezentos metros da casa do presidente da Bolívia, Evo Morales, ponho novamente música nos ouvidos e sigo na direção de casa ladeira abaixo. Brinco outra vez por alguns segundos com Cooper no gramado do pátio, tomo outro banho, tento escrever um pouco, mas não consigo. Antofagasta e São Pedro do Atacama me veem a mente, cidades onde mulheres atraentes me convidaram para fazer algo e eu as toquei e, no campo onde não costumo perder, perdi. “O que acontecendo?”, me questiono, preparando uma bebida quente, olhando as montanhas de La Paz pela janela da cozinha. “Ceci tem histórico de receber pessoas em casa, ela aprecia viajar, já conhece boa parte do mundo, o quê ela veria em mim para ter qualquer tipo de interesse factível?”, converso comigo, elaborando perguntas, analisando a situação, não querendo ser abusivo em excesso, porém tampouco querendo parecer passivo, falha comportamental que me incomoda ainda mais.

Em Antofagasta, abri uma exceção e saí com uma brasileira novinha, de vinte e um anos, geralmente meninas e não mulheres. , e eu não estava errado. Entrei em sua casa, conversa ia e vinha, finalmente a pus na cama pensando em como era bom falar em português. Tirei parte da minha roupa e a garota, do nada e tremendo, começou com um papo estranho sobre sua relação com seu pai. Depois daquilo, inventei uma história e sai correndo de lá. Dias antes, na casa onde eu me hospedava na mesma cidade, minha anfitriã, que morava sozinha e já havia me apresentado seu namorado, era atraente e tinha o costume de dormir abraçada em mim na única cama da casa. Nem uma, nem duas vezes propus dormir no chão, contudo ela insistia que gostava que eu dormisse com ela, mas sem sexo. ÓBVIO, né filha! Já em São Pedro do Atacama, também norte do Chile, dias depois de sair de "Antofacrazy", outra brasileira. Desta vez foi ela quem puxou papo comigo em um mercadinho das apertadas ruas do povoado, me convidando para jantar em seu hostel naquele mesmo dia. Era uma mulata atraente, rosto angelical, mas uma boca de negra que deuzulivre. Cheguei no endereço, ela me convida para ficar e, depois de algumas cervejas e bate-papo diante de uma fogueira, ela se esquivou do meu beijo, usando como pretexto de que "tinha alguém lhe esperando" no Brasil. Ri e fui dormir naquele hostel que, horas antes eu estava certo de que valeria a pena gastar dinheiro para ter uma cama e uma noite de sexo. Ahã, fiquei chupando dedo. Em todos os casos, tenho de lembrar que não foram erros meus, onde falhei por excesso ou por passividade, mas que, às vezes, todos nós esbarramos em pessoas legais e que isso não as impedem de serem sonsas, imprudentes ou apenas imaturas.

As horas passam rápido e logo às 18:30 a Ceci chega em casa. Ela abre a porta, e se aproxima da mesa de jantar onde estou entregue aos meus textos. Escorando-se com as palmas das mãos sobre a superfície lisa da mesa, ela me entrega um sorriso doce, um sorriso que esconde algo, talvez um olhar de quem pensou sobre o almoço de hoje mais cedo, quem sabe apenas uma Ceci sendo a Ceci. Por mais que não permaneça muito tempo nos meus, os olhos dela tem intensidade. Sou um eterno teimoso, é verdade, mas o que oscila em mim não é teimosia, mas sim um extinto. Tem algo ali que é meu e não me custaria tanto assim ir buscar. Me levanto da cadeira, emparelho com ela ao lado da mesa e, ereto de frente à ela que permanece de lado e escorada na mesa, a puxo pelo braço com cuidado, mas firme. Creio que meu sorriso é demasiado, um traço da insegurança que ganhei pelas últimas experiências. Apesar de ser doce e reservada, a Cecília é inteligente, ela não faz o tipo imprudente, sonsa ou imatura. Digo qualquer coisa em português e a beijo. E assim a mágica acontece. Caminho para o lado com ela, fazendo-a bater com as costas na porta de entrada da casa. O primeiro ponto aqui é mostrar que o beijo é macio. Ela me agarra com força e sinto suas unhas nas minhas costas. “Ahã”, me vem a mente. Tão breve quanto uma fagulha escapando veloz de uma fogueira agitada, minha segurança de costume volta, explodo o maldito mantra de “Não é o que parece” e restauro minha intuição. Eu quase sorriu, mas agora mantenho a postura e sigo no beijo quente e molhado que manter a Cecília virtualmente presa à porta. Desprendo minha boca da dela, vou até seu ouvido e digo algumas coisas em português. Ela solta gemidas curtas e em volume baixo, quase imperceptíveis e isso me excita. Eu beijara outras garotas ao longo da viagem, no Chile ganhei uma bela rebolada no colo e beijos de duas garotas quando nós três estávamos um tanto alegres e uma chupada dupla veio no corredor do prédio, mas transar mesmo, não o faço desde o final do meu recorrido pela Argentina, em San Luis. O que? É, quase quatro meses. Agora, com a Ceci, o roteiro está escrito, nos demos muito bem, e não me falta competência para levar essa história adiante. E se eu errar, será por excesso! A empurro com consistência e pouco cuidado pela cintura ainda mais contra a porta. A deixo sentir minha ereção sobre o tecido preto e áspero da sua saia negra de executiva. Ela entrelaça sua perna esquerda na minha direita e eu vou para seu pescoço.

Ai, Aldo… o Kim — alerta ela em gemidos e respiração descompassada — Ele, ele… Ai... Pára!

Como coisa do satanás, a campainha toca. Cooper late ao fundo e eu desejo que o cão mate quem quer que seja que ouse apertar aquele botão do portão mais uma vez.

— Pára — diz Ceci de olhos fechados, sorrindo e com gotas de riso no meio das palavras, grudada com as costas na porta de madeira-clara da entrada de sua casa.

Eu paro, porém a Ceci me puxa pelo pescoço e, agora, não apenas vejo e sinto em minha boca, mas sinto no meu pescoço o seu piercing. No tempo que a mordida começou, ela termina com Ceci me soltando e virando-se rapidamente para a porta, a abrindo e indo em direção ao portão, ajeitando sua roupa, sem nem perceber que um brinco ficou pelo caminho. Vou para a cozinha e ligo a torneira da pia sem qualquer explicação plausível. Apenas o faço e fico observando a água correr.

Talvez eu broxe assim e poupe o Kim de ver a distorção frontal do meu jeans há muito puído.

— Oi, Aldo — diz o Kim com sua sobriedade costumeira ao passar pela porta da cozinha, indo para seu quarto.

— Cooper, te odeio — digo baixinho, fechando a porra da torneira.

— Oi, Aldo — diz a boliviana passando logo depois pela porta da cozinha, porém sorrindo debochadamente.

Vou para sala e escuto a boliviana pedir com educação, todavia em tom de exigência, para que Kim parta amanhã cedo. Essa independência, praticidade e sutileza que a Cecília traz nas atitudes, me atrai como um ímã. La Paz vem se mostrando diferente de Antofagasta e San Pedro de Atacama. É possível que Ceci e eu merecemos tudo isso, eu somente preciso que o Cooper proteja melhor a casa.

A boliviana passa por mim na sala, me diz “Amanhã ele vai embora” e entra em seu quarto, virando para trás, dizendo algo como “Para o seu bem, vou dormir. E precisa ser AGORA!” e fecha a porta.

Na manhã seguinte, Ceci me acorda, me dá um beijo na boca, no sofá onde estou há alguns dias, diz pra eu pôr minhas coisas no quarto onde está Kim e sai para trabalhar. O sul-coreano, minutos depois, levanta, toma um banho, nos cumprimentamos, o ajudo a levar suas coisas até a rua onde uma senhora, talvez de cinquenta anos, me olha e pergunta se tenho maconha. O coreano surpreendentemente ri e eu lembro que é hora de fazer a barba e cortar o cabelo. Kim monta a bicicleta, apertamos as mãos e a ele sai empurrando a bike na direção do centro da cidade, ladeira acima. Depois de mais de uma semana aguardando a Ceci lhe entregar tudo em mãos, como café da manhã, janta, roupas lavadas, ele segue em busca de um novo lugar para extrair recursos. “Como um cara que viaja sozinho pelo mundo consegue ser tão dependente dos outros?”, me pergunto o vendo partir. “Não, ele é apenas folgado mesmo. Folgado não por malícia, mas por costume de o verem tão longe de casa, falando idiomas tão diferentes do seu, com sua expressão facial melancólica, de raros sorrisos, raríssimas risadas, de pouco interesse na história alheia, mergulhado exclusivamente em si próprio, que as pessoas o tratam como um doce menino e não como um homem”, concluo ao observar tudo com atenção durante três dias onde ele não me perguntou nada sobre o que eu faço, três dias onde, em nenhum momento, ele abraçou a Ceci, limpou a casa ou pôs ração ao Cooper em sinal de gratidão; três dias em que eu, e falo somente por mim, vi um rapaz falar sistematicamente “obrigado, obrigado, obrigado” ao receber tudo em mãos. Não tenho dúvidas que ele é um bom garoto — não um homem, um garoto de trinta e dois anos — , mas creio que está perdido dentro da sua viagem, introspectivo ao excesso, sem contato com sua família, buscando enxergar importância unânime no que está fazendo, coletando todas as coisas materiais que lhe parecem interessante ou que ganha de terceiros, transformando sua bike em um bazar tão pesado que ele mal pode pedalar, prolongando sua viagem por um período que ele mesmo não sabe estimar quanto tempo tem pela frente. Um garoto que, quando conta suas histórias, não há brilho nos olhos ou paixão nas palavras. Os orientais são mais reservados, já encontrei sul-coreanos na estrada, todavia nada como Kim. Ele se comportou diante de mim como se estivesse deixando o tempo correr para qualquer norte. Nos três dias que convivemos, a única emoção exalada pelo garoto foi vê-lo cantar “Garota de Ipanema” com um português bom, olhando para a tela do meu laptop sobre a mesinha central da sala, expelindo uma profunda tristeza enigmática nas palavras que dizia e na forma com que encarava a tela, como se estivesse cansado; cansado de não saber para onde ir. Mas isso tudo são apenas impressões de quem está longe de ser o dono da verdade, mas também impressões de quem está longe de casa para saber do que se trata a reflexão.

Apesar dos pesares, que ele faça uma boa viagem.

Kim cantando no karaokê do laptop — Julho/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Horas depois, estou na mesa de jantar da sala, escrevendo minhas histórias de semanas atrás, focado, inspirado, arquitetando no segundo plano dos pensamentos o que farei com a minha anfitriã hoje a noite, agora que ganhamos espaço. “Receio que ela também tenha planos”, imagino ao digitar um parágrafo e outro de outra história. Aos poucos, esqueço de Kim; aos poucos, esqueço da Cecília. Me volto por completo às coisas da viagem: diário a escrever, vídeos a produzir, mensagens a responder. Encontrar artistas para ilustrar meus textos, voluntários para pôr legendas nos vídeos, fotos das últimas semanas para tratar e disponibilizar ao público, histórico dos últimos dias de pedal para salvar no mapa da viagem para futuros trabalhos, dar alguma atenção à DeJota, ver se está tudo bem com meu inquilino no Brasil, buscar contatos nas próximas cidades para ter onde ficar no futuro, limpar a bicicleta, limpar as mochilas, comprar gás para o fogareiro, repor o cabo do HD Externo, comprar uma nova câmera fotográfica o qual as pessoas que acompanham minha viagem me presentearam com doações ao saber que estou com problemas com a câmera atual. Uma infinidade de coisas, como qualquer pessoa com alguma ambição na vida, esteja viajando ou fixada em um escritório. Já estou quatro dias em La Paz e estou certo que agora as coisas irão andar num ritmo bom, tanto para mim quanto para Ceci. Deixemos a noite e tudo que ela nos reserva, para a noite.

— Olha o que eu trouxe pra gente — diz Ceci, abrindo a porta de casa, dando risada ao retornar do trabalho ostentando uma garrafa de vinho branco Concha Y Toro com uma das mãos e uma sacola com compras na outra.

Entre um tempero no molho da massa e cortes ao picar as verduras, um beijo, um encontrão na pia e som de talheres colidindo no balcão inox. Hormônios! Voltamos a atenção a janta e logo está tudo pronto. Na mesa de madeira pesada de seis lugares, há duas taças, dois pratos, talheres e guardanapos. A elegância da simplicidade com método. Uma porção de carne para mim, uma salada especial para ela e Seu Jorge tocando ao fundo no meu celular. Uma garfada aqui, um gole no vinho ali, olhares v0razes se colidem. Sons de talheres sendo soltos nos pratos, duas pessoas se levantando da mesa, ruído de cadeiras arrastando. Rolando pela parede da sala até encontrar a porta de um quarto, aqueles dois, meramente Ceci e eu, entram. Mais uma vez, os gemidos curtos em meus ouvidos e eu sentindo-me bem, completamente feliz; não por estar dentro dela e vê-la jogar a cabeça para trás de tesão, contudo por ter tudo isso depois de tanto, tanto tempo em uma viagem só. A solidão não é o problema, não canso de repetir isso, entretanto todos nós precisamos de uma dose de carinho, seja vindo da receita que for desde que nos faça bem. E, céus, onde estou me faz bem pra caralho. Deitados nus, sem fôlego depois do nosso momento, rindo e olhando para cima com esporádicas miradas um para o outro. Comentários soltos entre o lençol e os ouvidos nos travesseiros, as mãos inquietas dela passando em minha barba; meu silêncio sincero, apenas quieto e curtindo as sensações.

— Eu gosto das tuas mãos… — sussurra a boliviana, deitada à minha direita, mirando na direção dos nossos pés — A gente tem de fazer uma foto juntos…

Me estico até o criado mudo ao meu lado e pego nossas taças. Estão vazias. Ceci se levanta e segue até a sala, nua e completamente descabelada. Na cama, sinto uma leve ardência atrás do braço esquerdo e, no lençol, uma gotícula de sangue. As unhas dela me deixaram todo riscado, creio eu. “Esse é o caminho”, rio sozinho. Olho para a janela e vejo o Cooper me olhando na alma pelo lado de fora da casa, por entre as cortinas. Uma cena a la Hitchcock, um cão gigantesco, peludo, em absoluto silêncio, me fitando como quem poderia estar ali há um bom tempo, observando.

Sai fora, Cooper! — falo jogando minha meia na cortina.

— Quê? — pergunta Ceci, voltando da sala com a garrafa de vinho em mãos.

— Nada. Seria um problema eu ficar mais uma semana na sua casa, usando sua geladeira e sua ducha? — pergunto com certo deboche nas palavras, pegando a garrafa das suas mãos e enchendo as taças perigosamente sobre o colchão.

Ela pula sobre a cama com uma risada gostosa, me fazendo erguer as taças antes de uma tragédia. Ela me abraça, vinho espirra para um lado e outro e ela, contente, me dá um beijo doce e sussurra no final um “porque não?”.

Aqui ficamos, nos abrigando embaixo das cobertas do frio que faz lá fora, bebendo e nos acariciando até pegarmos no sono na madrugada de um dia de semana. Ela para um lado e eu para o outro. As horas voam. Acordamos e, antes que ela saia para trabalhar, eu me adianto. Abro a porta da casa, lhe dou um tapa de cinco dedos bem abertos na bunda, digo que alguém tem de pôr dinheiro nesta casa e bato a porta, deixando a garota no lado de fora. Lá da rua, ouço uma risada, sons do salto batendo no basalto da calçada, se distanciando, e um “abusado” falado.

Escrevo, falo sobre a noite passada com minha irmã e logo a porta da casa se abre novamente. Almoço. Fatias de pizza para um lado, sexo para outro. Nos pés da cama, Ceci põe o sutiã e dois cliques que faço a eternizam em fotografias.

— Que fazendo? — pergunta ela com um timbre de surpresa na voz, se mantendo de costas para mim.

— A nossa fotografia que você queria — digo escorado na cabeceira da cama.

Ela se levanta, olha pra mim com um sorriso de severidade que fazemos com algum humor para crianças arteiras. Ela, se vestindo, fala coisas em alemão as quais não entendo e sai para o escritório.

— ABUSADO! — diz ela quase gritando mais uma vez, lá da rua.

Cooper e eu, passeando por La Paz — Julho/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Música internacional tocando, estrangeiros, bolivianos, todos conversando, rindo, uma vibe boa para uma noite em dia de semana dentro de um pub qualquer de La Paz. Estão Ceci, sua irmã, o marido dela, amigos do marido e eu. A irmã da Ceci me olha com se já me conhecesse, como se soubesse o que ocorre e, mesmo se não soubesse, passaria a saber. Tanto Ceci quanto eu, fazemos questão de nos mantermos próximos, as vezes nos tocando; e no pub não é diferente.

Cecília toda de negro, uma regata preta da Jack Daniel’s sob uma jaqueta de couro sintético. Jeans preto que mostram as curvas das suas pernas delicadas o qual, se você pudesse ver, veria meus dedos tatuados lá dos dias anteriores, quem sabe mais alguns de hoje. Contrastando, seu salto-alto rosa a deixa ainda mais feminina e a põe quase na minha altura. Ela está linda e faço questão de mostrar que ela está comigo.

— Tem um cara apaixonado pela minha irmã no andar de cima, junto do meu marido — diz a irmã da Ceci à mim enquanto subimos as escadas de madeira de demolição para o segundo andar do bar.

Dou uma risada, faço cara de “ok” e sigo subindo as escadas logo atrás de Ceci que segura minha mão esquerda. Sinceramente, não entendo porque a informação chegou até mim e sobre o rapaz, só posso lamentar por ele.

Um gole de singani, um brinde com Corona e gargalhadas das histórias de um e de outro. Cadeiras sem encosto rodeiam uma da meia-dúzia de outras mesinhas do segundo andar. Estamos em nove pessoas, a maioria homens. Embora eu esteja observando e esporadicamente interagindo com o grupo à mesa, procuro não falar muito, as vezes cansa falar um outro idioma. Desvio a atenção para minha perna direita, o braço esquerdo da boliviana repousa nela; a mão da Ceci acaricia o jeans-claro acima do meu joelho e, com sua outra mão, ela segura uma Corona. Inclinada para o lado oposto ao meu e com as pernas cruzadas, a Ceci conversa com sua irmã, Iris. A Iris é mais compatível com a fisionomia da garota boliviana da cidade grande, bonita. Quem sabe vinte e cinto anos, mas agora espero estar certo. Pele também queimada do sol, cabelo extremamente negro, grosso, liso e beirando sua cintura. Seguramente, estou do lado das garotas mais bonitas do Pub. As duas riem, cochicham e a mão da Ceci segue em meu joelho.

— Vou ao banheiro — sussurra Ceci agora mais próxima de mim, se levantando em meio as risadas e um novo de muitos brindes que fazemos por qualquer motivo.

— Volta, Ceci! — reclama uma das moças com semblante piadista.

Estampidos dos copos de vidros e longnecks para cima, batendo um no outro em comemoração a qualquer coisa. Risadas surgem na sequência.

Ceci se afasta e desce as escadas em direção ao banheiro feminino no outro andar.

— O que tu fizeste com minha irmã? — questiona Iris com uma expressão boa, cochichando ao passar de sua cadeira para a poltrona que acabara de ficar vaga ao meu lado.

— É, a gente está se dando bem — digo pensativo, me entregando a um gole de Corona e, em seguida, dando meus olhos contentes, porém distantes quem sabe, à irmã da Ceci.

— Veja— a Iris passa os olhos por todo o nosso grupo antes de voltar a atenção para mim — , ela estar aqui, contigo, de mãos dadas. Cara, estamos todos surpresos!

Não há o que ela me diga que possa me trazer para a roda, a cada novo comentário, me vou para mais longe, tentando não pensar, contudo imaginando que dentro de poucos dias terei de ir e… velho… a ideia de “nunca mais a ver” aperta o peito em cada grão de encanto que encontro na Ceci.

Scheisse — digo, voltando da viagem emocional muito particular que tive, patrocinada pelos goles misturados de singani e Corona.

— Como? — pergunta Iris com uma cara engraçada, se esforçando para me ouvir enquanto o grupo ri das conversas paralelas e a música toca alto.

— Besteira — respondo eu — , uma palavra em alemão que tua irmã me ensinou.

Eiiiiiiii — reclama a Ceci, fazendo piada com sua irmã — , eu saio por um minuto e tu já estás fazendo perguntas para o meu brasileiro?

Nós três rimos e o resto do grupo segue brindando o alinhamento dos planetas ou o que quer que encontraram como motivo para brindar.

Um “EEEEEEEEEEEE” uníssono e “plim, plim, plim” dos vidros acima de nossas cabeças. Uma vibe perfeita e eu sigo ocultando de todos um coração que andou lembrando em La Paz de algo que o fazia bem no Brasil: admirar e ser admirado.

Ceci nas escadarias ao lado da sua casa na noite em que fomos ao Pub — Agosto/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Voltamos para casa completamente bêbados e ainda conseguimos ver um episódio de The Walking Dead. De alguma forma, as horas passam e me sinto novo. É sábado de uma manhã gelada e me restam apenas dois dias. Levanto primeiro e de pés descansos, dou ração para o Cooper no piso quase congelado do pátio, ponho água para esquentar na chaleira, como tudo o que encontro na geladeira e volto para o quarto. Subo na cama e, com os pés nus em ponto de congelamento, os ponho nas costas nuas da Ceci que acorda com um grito.

AHHHHHH! — ela grita — Aiiiiiiii, Aldooooo!

O berro faz o Cooper latir lá de fora e raspar as patas no marco inferior da janela.

— Bom dia! — eu digo — Sem dramas. Vamos que estamos atrasados.

Ai, tu é muito mau… — murmura a garota de bruços, com o rosto contra o travesseiro e , sem jeito, se cobrindo novamente com as duas pesadas cobertas de pena de ganso.

— Levanta, chica. São 9:00 passadas — falo eu, puxando uma das cobertas.

Saímos por La Paz, buscamos coisas diferentes para comer e, dentro de um supermercado, ao tocar “Ai, se eu te pego” do Michel Teló, a puxo para dançar, aqui mesmo, no corredor. Ela se encabula, mas dança por alguns segundos comigo. Saímos rindo porta afora. Vamos nos principais teleféricos e, dentro de um deles, brinco e me divirto com a boliviana.

— Ceci — a chamo sentado do outro lado da cabine, com um rapaz de minha idade ao meu lado, aparentemente boliviano.

Do lado da Cecília, outros dois homens, um nitidamente estrangeiro de quarenta e poucos anos e o outro, um moleque de vinte, entregue ao fone de ouvido e olhando para baixo, para a cidade de La Paz em miniatura daqui de cima.

— Oi? — Pergunta ela, deixando a vista panorâmica para me fitar com semblante sério, na expectativa de ouvir algo importante.

— Se transarmos aqui dentro, bem agora, isso aqui sacudirá muito? — me referindo a estabilidade cabine do teleférico.

Ceci fica vermelha, da cor de um morango, sem fazer ideia de onde se esconder. As pessoas dentro da cabine conosco, um lugar menor que qualquer elevador de hospital, fingem não ter escutado. Ceci se encolhe em ombros, no seu lugar, e então solta uma gargalhada progressiva que aumenta de volume quando me uno em riso à ela. Ela então me chuta e finalmente responde minha pergunta sem emitir sons, me obrigando a fazer leitura labial.

“É, sacudiria. Muito!”

Rimos ainda mais.

Vista de quando chegamos no alto de um dos modernos teleféricos de La Paz que contrasta com a arquitetura rudimentar das construções da periferia — Agosto/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Visitamos os pontos históricos da cidade e conheço o museu do Mamani-Mamani. Passeio pelas obras ao lado da Ceci, admirando as cores vivas, os traços quase infantis, embora cheios de técnicas, característica que o coloca no patamar de principal artista boliviano. Sua versatilidade em explorar também a escultura e a fotografia é algo que particularmente gosto de ver. "Versátil", gosto dessa palavra. O preço de qualquer lebrancinha com a cópia de sua arte? Caro, bem caro. Fica para uma próxima.

De mãos dadas, rodopiando em abraços e lambuzo com sorvete aqui e chocolate ali, seguimos Ceci e eu colinas acima, colinas abaixo, fazemos todo o roteiro traçado pela boliviana. Anoitece e já estamos em casa. Olhamos o último episódio da última temporada de The Walking Dead e dando risadas com vídeos bobos que encontramos na internet. Nesta noite não transamos, mas dormimos um pouco mais próximos, ela sobre o meu braço direito e de costas para mim. Eu, por quase toda a noite, com minha mão em sua cintura. Raro, muito raro eu dormir tão próximo de alguém assim. É o frio, receio.

Acordo com um envelope do meu lado e a Ceci, pelada, perambulando pela casa com um squeeze vermelho com chá de maçã dentro, ouvindo a todo volume no laptop a “Good God” do Korn. “Não é possível”, me digo em pensamentos de travesseiro, esfregando os olhos e tentando imaginar quantas outras afinidades surgiriam das probabilidades diante de uma garota boliviana que conheço há um par de dias. Se eu contasse à Cecília que em meu escritório de casa existe um único quadro de um metro na parede e que este quadro é a fotografia dos membros do Korn, ela sorriria? Deixa pra lá! Me viro na cama e abro o envelope, um cartão com a arte do Mamani-Mamani na capa. Abro o cartão e demoro a compreender.

“Um abraço para meu amigo, Aldo”, acompanhado de dois desenhos de traços simples e espontâneos, um de uma bicicleta e outro de um rosto masculino, com barba, bandana e óculos. No rodapé do cartão, a assinatura: Mamani-Mamani 2015.

— NÃO CREIO, CECI! — grito eu do quarto.

Ela vem correndo e se joga em cima de mim. Parte do chá respinga do squeeze, está se tornando uma tradição virar coisas aqui. Um lambuzo com cheiro de maçã alemã.

Nosso domingo, o último dia juntos, é em casa, um domingo que tornamos um pouco mais nosso. Quarto, sala, sala, cozinha e de volta ao quarto. Ela lê uma revista alemã que encontrara no escritório dias antes e eu organizo minhas coisas que estão espalhadas pela casa. Organizar minha bagunça torna tudo — pelo menos pra mim — algo cruel e que eu não queria fazer diante Ceci que finge não dar bola, folhando e folhando a revista. Buscando algo para fazer na cozinha, buscando algo para fazer no quarto.

— Aldo, olha quem está na TV — diz ela no tom de voz mais alto que pode emitir sem um pé gelado em suas costas.

Me aproximo não fazendo ideia de quem seria. Bato o olho na tela, é o Kim. Ele está sorridente. Bem, não muito sorridente, contudo mais do que o normal, contando sua história em um canal de TV boliviano. Essas aparições rendem bons convites e espero que ele, como disse antes, aprenda a desfrutar as pessoas que surgem não apenas para servi-lo, mas para extrair dele sua grande história de viagem.

— Esse é o nosso Queen — digo brincando, olhando para a Ceci com um sorriso na cara.

— Que coisa boa — comenta ela, com olhos fixados na tela de quatorze polegadas do televisor jurássico de seu quarto, feliz pelo moleque estar bem.

A noite chega e jantamos uma pizza que desce sem sabor. O vinho não é como os dos dias anteriores. Nós, na cama, não temos a alegria dos dias de semana. A acaricio e me desvesto, mas ela pede com um falso sorriso para eu parar e, sem deixar eu ver seu rosto, ela se cobre com uma das cobertas por completo.

— Cecília, olha aqui — digo eu, tentando fazê-la descobrir o rosto.

Ela tenta uma risada sem sucesso, procurando esconder o sentimento que virara lágrimas. Se levantando de costas para mim, Ceci vai ao banheiro. Por lá ela permanece. Não a sigo, dou o tempo necessário para que ela volte e me faça companhia uma última vez. É possível que a sensação que ela teve agora, seja a que eu tive naquele pub durante essa semana. Uma vontade de parar o tempo e abusar dele até que queiramos que ele role novamente. Se pôr para fora faz bem, que ela chore e volte logo para mim. Sons de calcanhares pisando no parquet; ela está voltando.

Transamos com mais abraços, com menos intensidade, embora as unhas dela se prendem às minhas costas. Me parece que não por tesão, mas receio por outro motivo.

Nossa… — ela diz, uma palavra solta próxima do meu ouvido, dentro do contexto de um abraço apertado, sentados com pernas entrelaçadas de frente um para o outro no centro do colchão.

Parte das cobertas ao nosso lado, parte no chão. Uma casa organizada quando cheguei, agora tudo fora do lugar. A única coisa que parece estar como sempre foi é a janela do quarto, sem mais o Cooper a espiar como fizera desde que passei a frequentar esta habitação. Quem sabe ele, o pastor alemão, vinha se acostumando a me ver por aqui, pela a casa. Pelos braços da boliviana. E então, dormimos.

Hoje, 3 de agosto.

Arrumo algumas das minhas coisas ainda fora do lugar e saio de casa junto com a Cecília. É segunda-feira e ela tem um novo projeto no escritório pela frente, aqueles desafios que nos fazem ganhar novo fôlego no trabalho e também novos horários. Cheia de expectativas, os olhos dela brilhavam nos dias anteriores ao falar disso, sempre preocupada com o novo horário. E agora não é hora de relaxar. Desço minhas coisas bem rápido até a calçada, no nível da rua, e a aguardo fechar o portão. Descendo as escadarias, ela vem na minha direção, sorrindo, mexendo no cabelo. A devolvo o carinho. Somos maduros, adultos. Sabemos como as coisas funcionam e não vamos exagerar, despedidas temos a todo momento. Ela com seus planos e eu com os meus, com toda uma viagem pela frente. Nos últimos degraus da escava, vou em sua direção e ela aterriza em um abraço apertado dentro dos meus braços já vestidos de ciclista.

"Sleeping with ghosts" da banda Placebo (via Youtube)

Descemos juntos o último lance de escadas antes da calçada e, aqui, a afasto um pouco do meu peito, para mirá-la nos olhos. Nunca a disse o quanto gosto deles e pretendo não dizer, quero admirá-los sem que mais ninguém saiba. As sardinhas, o nariz delicado, a boca quase sempre sem batom e aquele sinal logo abaixo dos lábios. A mexa do seu cabelo que está sempre a me atrapalhar. A ponho para trás da sua orelha. Pronto! Eu queria escutar ela dizer mais uma vez “não sei” com o seu sotaque, sempre dizendo a frase olhando para o lado, desprendendo um sorriso suave, mantendo a boca um pouco aberta, um charme apreciado apenas por um coração curiosamente se apaixonando, reparando nos detalhes… Não lembro dela me olhado nos olhos por tanto tempo sem desvia-los como agora. Ficamos um bom tempo assim até que a beijo mais forte e ela sorri ao mesmo tempo. Eu presto atenção no calor da pele dela que me toca. “É a última vez que sinto isso” e, não prevendo — acostumado a ser eu quem parte — , a Ceci me solta, girando nos calcanhares sem dizer uma palavra, atravessa a rua com passada acelerada e se vai na direção do adeus, se distanciando. Eu não tenho coragem de falar nada, de pedir a atenção, de nada. Em nenhum momento, nem no menor grão de compaixão ou de crueldade, ela olha para trás, exatamente como eu sempre faço. Puxo minha câmera do bolso e a fotografo, contudo, ao tirar meus olhos do display, a Cecília já havia feito a curva na esquina e desaparecido.

A última vez que a vi, foi pela lente da câmera…

Última fotografia (Aldo Lammel, CC BY-NC)
Meu brasileiro comilão,
Hoje, pessoas chegam na tua vida como um sopro de ar fresco, como se fosse magia. Essas pessoas te lembram da importância das pequenas coisas que te fazem feliz, como um sorriso sincero, um olhar cúmplice ou um carinho que te faz tremer. Assim você chegou na minha vida, com tuas loucuras, tua ternura e essa forma de ser tão, tão “Aldo”.
Feliz de ter te conhecido e, por um momento, ser parte da tua história e você da minha. Obrigada pelas risadas, pelos abraços, pelas conversas e pelos sonhos. Obrigada por ser tão inspirador e me lembrar que a vida é linda. Desejo que tu encontres o que busca, que tu vivas muitas outras aventuras e que pessoas interessantes cruzem teu caminho. Eu te acompanharei, lendo teu diário, pensando em ti.
Sentirei saudade, sabe? Quando ler Carl Sagan (já gostei muito desde que me mostrou), quando comer empanadas e, por alguma razão, quando ver zumbis. Mas, sobre tudo, vou sentir tua falta amanhã, quando eu acordar e querer te abraçar e você não estiver lá.
Foi um prazer ter experimentado parte dessa vida contigo, porque é lindo saber que você existe. Te cuida, coma mais porque está muito magro, te diverte ao máximo e seja feliz.
Beijos, abraços e tudo que tu queiras de mim. Boa sorte!
Ceci,
03 de Agosto de 2015
La Paz — Bolívia
P.S.: Ah… cuida bem do seu pau de ouro, porque, uau.

Dobro a carta, devolvo ao envelope e fecho os olhos dentro da barraca, escutando as águas do Titicaca tocarem devagar as pedras lá embaixo. Me esforço para lembrar com riqueza de detalhes a sensação do meu rosto tocando no rosto dela na calçada de Obrajes hoje mais cedo… Que a felicidade encontre essa garota e a leve para onde seus sonhos mais doces habitam.

Scheisse!

Vídeo com nossa únicas imagens juntos (Mochila & Bike)

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