Aldo Lammel / Rodrigo Dermann © Todos os direitos reservados

O Segredo de Brokeback Mountain Bike

É madrugada e não sei o nome da cidade onde estou. Embora saiba que é próximo da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, me esforço, mas não vejo um ponto de referência diante do entardecer. Parece ser um lugar sem nome, roteado por campos e mais campos de pasto baixo e com eucaliptos e outras árvores maiores salpicando o verde em pontos isolados. Saio da estrada, entrando em uma rara propriedade que vinha vendo há quilômetros. Avanço mil metros campo adentro, monto minha barraca e faço uma fogueira. Para qualquer direção que me vire, encontro o verde escuro longínquo do pampa gaúcho. A noite chega fria e traz o breve, mas incômodo horário dos mosquitos. Não há vento e o silêncio existe por aqui. Mexo na lanterna, porém a luz é fraca. Com uma das mãos, apalpo as paredes do velho e despedaçado galpão aparentemente abandonado que há. Enquanto caminho ao redor da construção, surge uma porta pequena, feita com pedaços irregulares de madeira que um dia foram vívidas criaturas, talvez coloridas, talvez não. Agora, apenas são placas marrons apodrecendo.

Miro a lanterna na porta com uma das mãos e com a outra a empurro, fazendo-a abrir com um rangido grave e trêmulo. Um bafo quente e fétido vindo do interior do galpão bate em meu rosto. Ali dentro é ainda mais escuro. O feixe de luz que jogo lá, ilumina as partículas de poeira que flutuam, assim como os pequenos insetos que ali vivem. Me abaixo um pouco para entrar pela abertura estreita e me deparo com uma antiga carroça e peças de metal enormes, totalmente enferrujadas e aparentemente atiradas sobre o piso de chão batido do lugar. Giro a lanterna para trás e vejo a porta fechar sozinha lentamente, com um novo rangido, mostrando as enormes teias presas do teto até meia altura nas paredes próximas à porta. Sigo pelo galpão com passos curtos e calculados, observando a penúmbra, esquadrinhando o teto com a luz em minha mão e procurando algo que pudesse me mostrar mais do que há aqui. Encontro uma única lâmpada, porém está quebrada. As teias me dão uma noção de semanas ou meses, uma ideia de que há anos possivelmente este lugar não é limpo. Ferramentas de metal da lida no campo estão retorcidas ou quebradas, com um tom avermelhado da oxidação. A madeira das paredes e do teto estão podres e caindo ou já caídas. Um cheiro de água parada e o de querosene preenchem o lugar. A luz que trago enfraquece mais e, ao me virar para um tipo de cômodo que encontro no interior profundo do galpão, vejo uma corda presa ao teto.

A corda está desfiada. A sigo de cima para baixo com a lanterna até encontrar a outra ponta. Um par de botas velhas de couro está pendurado e estático no ar, na altura do meu peito. A lanterna produz sombras fantasmagóricas por todos os cantos, mas nada como a sombra destas botas oscilando nas paredes podres ao fundo a cada movimento que faço com a luz. Finalmente, encontro o que seria um banheiro. Entro na pequena peça e me viro para a esquerda. Me enxergo no espelho todo tomado por fungos, formando desenhos de cores metálicas que lembram as manchas igualmente coloridas na superfície de certos tipos de conchas marinhas. Aponto a lanterna para o meu próprio rosto e digo um “Boo!”. Sou tomado pelo incontrolável prazer em fazer piada do contexto e reafirmar-me como quem desfruta o incomum. Se é para temer algo, que seja temendo o perigo coerente ou inexoravelmente desconhecido. Isto é somente um galpão velho e não pode representar algo a ser temido. Se sim, porquê? Livre-se das fantasiosas histórias de terror e da personificação dos teus próprios medos e você passará a enfrentar tudo com um olhar mais cético, maduro, indiscutivelmente simples e até mesmo engraçado.

— RODRIGO, ACHEI UM BANHEIRO! — grito para o meu novo parceiro de viagem que tenta dormir em uma das barracas na noite lá fora.

Alguns dias antes.

“Oi, Aldo. Me chamo Rodrigo e viajarei de bicicleta do Cassino até Buenos Aires. Venho acompanhando sua viagem pela redes sociais e ela me inspira. Não tenho experiência com viagens longas de bike, porém se quiser um parceiro até a capital argentina, eu topo!” — Rodrigo Dermann

Foi uma ótima notícia para se receber três dias antes de chegar ao Cassino, uma praia na cidade de Rio Grande, e iniciar o trecho mais vazio da etapa “Brasil” com alguma companhia; trecho de muitos quilômetros de nada e, dependendo do ritmo, haveriam dias sem ver centros urbanos, até mesmo sem ver um povoado pelo que tudo indicava. Ainda estou me acostumando a pedalar cinco, sete horas pelo "rio negro" de asfalto sem ter com quem conversar e incerto se vou dominar a arte de socializar durante a viagem. Quem sabe a companhia desse cara amenizaria o processo de adaptação e tornasse tudo um pouco mais progressivo e não tão abrupto.

Do Cassino ao Chuí, divisa do Brasil com o Uruguai, é um trecho conhecido por ser “os 240 quilômetros de nada”. De bicicleta e no mês de fevereiro brasileiro, são quilômetros a vencer em quatro dias debaixo de um sol escaldante em um lugar realmente úmido no sul gaúcho. Tomei uma posição e me questionei sobre como manterei duas pessoas unidas na estrada. Já liderei times de 15 pessoas em projetos digitais para bancos, montadoras automotivas, empresas internacionais de todos os tipos, porém seria a primeira vez que eu estaria (em algum nível nem tão brando assim) responsável pela vida de outra pessoa. Dois ciclistas juntos e sem dinheiro foi uma mudança acentuada na minha estratégia e responsabilidade, mesmo que por apenas algumas semanas. Buscar comida, banho e lugar que hospede duas pessoas é uma tarefa que costuma ser mais difícil de encontrar, contudo nada com que eu não poderia resolver. Tenho de me manter são e blindado contra os imprevistos. Se o rapaz me atrasar, o deixarei na primeira cidade e seguirei sozinho, sem qualquer remorso. Regras repassadas, cartas na mesa, all-in. O jogo funciona assim e é pegar ou largar.

“Rodrigão, que coincidência boa, hã?! Estou chegando na sua cidade em três dias. Se topar viajar ao meu método, e isso significa sem usar dinheiro para se hospedar e comer, será bem-vindo. De qualquer forma, dormirei na tua casa assim que eu chegar em Cassino, ok? Não tenho onde ficar quando chegar ai e será ótimo te conhecer e trocarmos ideias sobre viagens. Em três dias, abraço.” — Aldo Lammel

Capítulo Um

11 de fevereiro de 2015.

O Rodrigo e eu estamos há horas pedalando no estreito da reserva do Taim em direção ao extremo sul do Rio Grande do Sul. Tem algumas horas que saímos da Praia da Capilha onde acampamos no primeiro dia de pedal juntos. Ontem, tivemos de montar nossas barracas sob chuva e muito vento, mas o cenário que a Lagoa Mirim nos deu, compensou. Na lagoa, nos jogamos de roupa e tudo dentro d'água; ficamos boiando e assistindo o Sol no entardecer ser encoberto por uma nuvem colossal de temporal que se aproximava. Com ela, veio o vento, a monotonia e o sono. Dormir cedo.

Hoje, o tempo está limpo e o asfalto abaixo de nós é tão liso quanto porcelanato. Avançamos lento, o vento nos acerta forte no peito, entretanto aproveitamos todo o possível da paisagem rica em cores e preservada fauna, embora ainda encontramos muitas capivaras atropeladas nos dois acostamentos da única estrada. Paramos e fazemos algumas fotografias de um grupo de 25 desses animais correndo assustados ou apenas se alimentando no pasto. Até o verde daqui é mais exuberante, quase exibicionista. E em meio a calmaria, caminhões bitrem passam por nós e seus vórtices de vento deixado para trás, nos empurram para frente ou para trás, sempre como murros violentos que aceleram ou desaceleram as bicicletas.

Ainda não comemos nada substancial nessa manhã, embora os butiazeiros ao longo de toda a estrada nos forneçam alguma energia. Não sei precisar se a pedalada do Rodrigo está mais forte pela frutose ingerida das pequenas frutas alaranjadas ou se pela felicidade do garoto de ter comido pela primeira vez um butiá. Um não, dezenas. Felizes por um pouco de açúcar no organismo ou não, estou preocupado. Já percorremos os 35 quilômetros de reserva em duas horas de viagem e ainda temos o dobro de distância para percorrer hoje. Sem comida, não teremos energia para chegar aonde precisamos chegar antes do anoitecer e eu preciso resolver isso de qualquer forma. Não vou pedalar com alguém inexperiente noite adentro. É perigoso para mim e especialmente para o Rodrigo que pode se assustar com a falta de visibilidade da linha branca da faixa ou com os sopros e estrondos causados pelos veículos pesados que passam a poucos metros — as vezes centímetros — da gente. Olho adiante e vejo uma porteira. “Estância Invernada”. Um corredor de eucaliptos perfeitamente plantamos para formar o corredor coberto, acompanha uma pequena estrada de terra pampa adentro. Longe, distante aos olhos, o que parece ser uma mansão atrás de árvores aglomeradas.

— Precisamos comer e vamos ter de entrar nessa estância.

— Mas e se tiver cachorros, Aldo?

— Não tem — digo enquanto abro a pesada porteira com adornos de cabeças de cavalos esculpidos em pedra branca.

— Essa estrada deve ter mais de um quilômetro até a casa — pondera o Rodrigo, pedalando logo atrás de mim, visivelmente com medo do que estamos fazendo.

— Se liga nisso — aponta o Rodrigo para o chão barrento — , tem marcas de pneus de bicicleta de hoje ainda.

A medida que nos aproximamos na primeira curva dentro da propriedade, quase mil metros depois de passarmos a porteira e seguirmos pelo túnel verde, começo a considerar que um par de Rottweilers ou Dobermanns soltos, protegendo a propriedade, não seria muito difícil de encontrar. Dissimulado, sem o Rodrigo ver, acesso minha faca no alforge frontal da bicicleta, deixando-a solta na bainha para que, se for para acontecer merda, eu tenha como esboçar alguma reação, mesmo sabendo que reagir a dois cães com “sangue nos olhos” com apenas uma faca de 10 centímetros beirava o suicídio.

— Seguinte, Rodrigo — digo enquanto entramos na primeira curva — , desconecte as tuas sapatilhas da bike e, se aparecer cachorro, não pensa duas vezes, salte da bike e pule para o outro lado da cerca.

Por mais boba que possa parecer, é a estratégia que temos em mãos e, com isso, seguimos com um pouco de apreensão, mas dá tudo certo. Ou pelo menos, quase tudo.

Pense em uma casa de novela de época, talvez do fim do século XIX, com paredes em tijolos duplos e brancos, aberturas em madeira maciça, em tons escuros e com acabamentos rudimentares em ferro cru. A casa principal com aproximados 300 metros quadrados no primeiro piso e 150 ou mais no segundo andar. Diante do casarão, o Rodrigo segura a sua bicicleta e a Garibaldi enquanto vou até a porta principal. As janelas estão abertas, porém com os vidros abaixados e tomados por teias de aranha, parte presas, partes soltas ao vento. “Alguém não limpa isso há tempo”, penso, embora também percebendo toda a grama bem aparada ao redor da casa.

Me aproximo da porta. Não há campainha tradicional, apenas uma aldrava no centro da pesada porta escura de madeira maciça. Puxo a aldrava para trás e a bato três vezes em sua base também metálica. Aguardo e nada. Mais três batidas e o som do metal atingindo o metal parece ecoar dentro de uma casa com poucos móveis. Não há janelas do lado da porta e as que existem ocultam seu interior com cortinas velhas.

— Parece que não tem ninguém, velho — sussurra o Rodrigo como se estivesse falando sozinho, segurando as bicicletas.

— Pois é, que estranho… Já é meio-dia passado e aqui não iremos conseguir comida. Vamos tentar ao menos um pouco de água.

Estátua no quintal da casa (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Ao lado da casa, uma outra construção, um galpão de festas, com paredes laterais móveis, de correr. Um balcão de copa alto e ao lado uma churrasqueira com quase dois metros de largura e enormes parrillas suspensas por catracas consumidas pela ferrugem. No centro do galpão, que facilmente abriga 150 pessoas confortavelmente, uma roda de carroça pendurada nas vigas centrais, cumprindo com elegância rústica seu papel de lustre campeiro. Quadros sobre a cultura gaúcha desenhados a mão estão apodrecendo nas paredes. Em um dos quadros, uma assinatura e um ano. “1982”, diz quem assinou o desenho. De repente, um cão. De porte médio e com dentes à amostra. Nada acontece. Evito fazer contato visual a princípio, mas logo vejo que quem está assustado aqui é ele e não eu. Além do balcão, uma torneira. Seca!

— Encontrei uma torneira — fala em voz mais alta o Rodrigo lá da rua, continuando — e mais umas coisas estranhas. Chega aqui.

Saindo do galpão igualmente construído com tijolos brancos, como a casa principal, sigo o Rodrigo em direção aos fundos do casarão, especialmente arborizado com pelo menos duas figueiras, uma delas, monumental. Flanqueio a casa e encontro o Rodrigo parado diante do que parece ser uma torre, uma construção a parte, com uns 8 metros de altura. A porta de acesso à torre está partida em dois pedaços verticais e lá dentro há coisas de jardinagem e um manequim completamente destruído, tudo que a luz do dia que entra no lugar consegue nos mostrar. Apenas penso “credo” e me viro em direção a casa. De costas para as paredes dos fundos da casa, o Rodrigo está a uma dúzia de metros de mim, olhando para baixo enquanto regula sua câmera fotográfica.

— Que casa gigan_ _ _ — o próprio Rodrigo se interrompe e diz — Que cara é essa, Aldo?

Eu podia jurar que vi alguém além da cortina na janela atrás do Rodrigo. Uma sensação curiosa, de estranheza, de incerteza. É como se uma cena de filmes de suspense não pudesse ocorrer na vida real. Talvez o reflexo do balançar das árvores a nossa volta direto no vidro da janela ou apenas o movimento da cortina causado por alguma fonte de vento dentro da casa.

— Tive a sensação de ter visto algo, mas não foi nada! Pegou água?

— Peguei!

— Beleza, vamos embora. Já perdemos tempo para caralho aqui.

Aldo Lammel, CC BY-NC

Alguns quilômetros adiante da Estância Invernada, uma outra porteira, mas dessa vez uma propriedade simples e com pessoas circulando.

— Com licença.

— Sim — fala o caseiro da propriedade, com sotaque já beirando o castelhano devido a fronteira que se aproxima.

— Estamos viajando — digo enquanto o Rodrigo e eu estamos em cima das bicicletas, há alguns metros da casa da propriedade. Sigo dizendo sempre com um sorriso entalhado na cara— e precisamos muito de um pouco de alimento.

Sem titubear, o caseiro manda eu e meu parceiro entrarmos em sua residência que a sua mulher preparará algo. São 13:30 e a fome é imensa.

Como o carreteiro olhando para o garoto sentado ao meu lado. O Rodrigo come com gosto a comida, mal pára para respirar. A cada frase de interação minha com o caseiro e sua esposa, o Rodrigo apenas complementa com frases curtas.

— Dona Maria, a comida está ótima.

— Está mesmo — fala o garoto de boca cheia com arroz.

Bem alimentados, saímos da propriedade e fomos enfrentar o Sol com ânimo. O Rodrigo está nitidamente feliz, pedalando atrás de mim, porém especialmente mais falante.

— Cara, nunca imaginei que iria chegar em uma casa de pessoas que nem conheço, pedir comida e conversar, sabe, trocar uma ideia, experiências… — comenta o garoto de 20 e poucos anos, sorridente e com o estômago cheio de carreteiro.

O entardecer começa a chegar e é hora de parar. Preciso encontrar um lugar seguro para nós dois. Repentinamente, viro a bicicleta para o acostamento oposto da nossa mão e entro numa estância cercada por figueiras e cavalos soltos no pasto.

— Vamos ficar aqui? — pergunta o garoto, com sinais de que ainda poderia percorrer uma maratona com a bicicleta.

— Vai escurecer logo e talvez aqui será o nosso melhor refúgio por hoje.

Horas depois, às 23:30, com as barracas já montadas e com apenas uma fogueira e um céu noturno espetacular como companhia, eu e o rapaz que até três dias atrás não nos conhecíamos, estamos debaixo das árvores centenárias da residência do seu Saul, da Dona Zeli e do filho Alex. A família já está há horas dormindo e o Rodrigo, assim como eu, está falando sobre a imensidão da noite acima de nós. Estamos cozinhando massa com atum nos foguareiros portáteis enquanto nos aquecemos na fogueira.

Rodrigo e eu (Aldo Lammel, CC BY-NC)

— Estou intrigado com uma coisa que o Seu Saul comentou comigo agora a noite — fala baixinho o Rodrigo de dentro de sua barraca, ao lado da minha, ambas iluminadas pela luz dançante da fogueira no lado de fora.

?

— O Seu Saul comentou que a Estância Invernada tinha três pessoas morando. Um caseiro e duas mulheres mais velhas onde uma delas morreu tem alguns dias.

Fico em silêncio, ouvindo e conectando alguns pontos.

— Ninguém deixaria a casa sozinha, segundo o Seu Saul, e que é bem provável que a mulher, irmã da que morreu, se trancou dentro de casa. Lembra que vimos marcas de pneu fresco no túnel verde?

— Lembro — respondo.

— Então, o caseiro não estava em casa, suponho — diz o garoto em tom um pouco mais alto de sua barraca, completando — , a velha ficou com medo e se trancou em casa.

— Medo do que? — pergunto de dentro da minha barraca.

— Sei lá — responde o Rodrigo, se revirando dentro de sua casa de um metro por um metro — , talvez apenas com medo.

Não sei o que vi na janela daquele casarão hoje a tarde. É estranho, uma incerteza chata. É muito fácil dizer “Ok, vi a velha”, porém eu não consigo afirmar isso. Apenas começo a rir sozinho de dentro da barraca.

— Preciso escovar meus dentes, Rodrigão. Me passa a garrafa d’água.

— Está aqui — o Rodrigo estende a mão com uma garrafa de dois litros para fora da sua barraca. Ele compartilha — , mas o Seu Saul disse no galpão aqui do lado tem água corrente. Fui lá antes de escurecer e não encontrei torneira alguma. Tu não prefere deixar essa água para bebermos somente e ir lá tentar encontrar a torneira?

— Boa ideia, deixa-me pegar a lanterna — digo enquanto reviro as coisas dentro da minha barraca laranja para uma pessoa.

— Só te aviso para não te assustar com um par de botas pendurado. Quase morri do coração quando vi aquilo — me alerta o Rodrigo conforme boceja.

— Olha cara, para algo me assustar, precisa ser mais do que um par de botas. Talvez uma velha me espiando além de uma janela…

Bah, tá louco — retruca o garoto — . Depois dessa tem gente que não teria coragem de dormir em uma barraca, ainda mais aqui nessa escuridão.

— Vou lá escovar os dentes, mas sem essa de eu voltar e você estar dentro da minha barraca com medo e me pedindo pra dormirmos abraçadinhos.

O Rodrigo dá uma risada.

— Como é o nome daquele filme dos cowboys na barraca?

Eu paro de caminhar em direção ao galpão e desligo a lanterna para economizar bateria. Me viro para a barraca do Rodrigo — Que? Que você tá viajando aí?

Ahhh — recorda Rodrigo — , é O Segredo de Brokeback Mountain. Tá ligado que filme é?

Ligo a lanterna e giro nos calcanhares, dizendo — Estamos mais para dois ciclistas fedorentos protagonizando o Brokeback Mountain Bike do que para dois vaqueiros saindo do armário.

O Rodrigo dá uma breve risada de dentro de sua barraca.

Capítulo Dois

— …mas o camping é pago!

— Eu sei, mas olha como o camping está lotado — digo ao Rodrigo, apontando com o olhar para além das árvores do bosque atrás do Forte de Santa Tereza, uma construção militar em uma das primeiras praias uruguaias que chegamos.

Conheci o Rodrigo tem alguns dias, ele havia me enviado um e-mail perguntando se ele poderia pedalar comigo de Rio Grande até Buenos Aires na Argentina. Minha ideia sempre foi fazer a viagem sozinho e logo no início acompanhado por um cara de vinte e tantos anos também sedento por aventura? “Porque não”, pensara eu quando passara por sua cidade há um par de dias atrás.

Mirando o bosque que se estende até o mar, estamos parados sobre as bicicletas no alto da colina, ao lado do Forte. Sem dúvida daria uma bela fotografia com o céu limpo atrás da gente.

— Se passarmos rápido pela guarida, tu achas que alguém vai nos encontrar depois lá para dentro?

— Sei lá, cara — eu digo.

Monto na bicicleta e começo a pedalar na direção da entrada do camping, fazendo o Rodrigo parar de ter dúvidas e vim junto. Passamos como uma flecha pelos guardas e nem olhamos para trás — pelo menos eu não olhei — e avançamos uns cem metros para dentro do bosque tomado por barracas e motorhomes de todos tipos e tamanhos.

— GAROTOS! — grita um senhor de boné logo à nossa frente em bom português, saindo com sua família de dentro do bosque repleto de outras família e pessoas avulsas.

No dia seguinte.

— Que cara é essa? Acordou mais leve, danado? — digo enquanto o Rodrigo esfrega os olhos inchados de quem acordou agora, pondo o rosto para fora de sua barraca imediatamente ao lado da minha.

A luz do dia já quente acerta a cara do rapaz o fazendo cerrar os olhos. Adaptando-se a claridade, aos poucos, ele desfaz a careta, abrindo um olho de cada vez. Ele me encara sério e devagar vai construindo uma expressão amena, quase imperceptível, porém de alguém satisfeito com seus feitos da última noite. Justo!

— Porque? — pergunta ele com um sorriso nascendo e indo de orelha a orelha.

— Transou com a filha do cara que te deu abrigo… — faço a piada pondo minha cabeça mais para fora da barraca alaranjada e provocar algum comentário no Rodrigo. Não posso perder de ver a questão ética que nos metemos, brotar em seu semblante.

O Rodrigo e eu acordamos cedo hoje, 14 de fevereiro de 2015, mas dormimos pouco. Na última noite, ele e a filha do homem que nos convidou para passar um dia no camping, na praia de La Moza, uma das primeiras praias uruguaias após a fronteira com o Brasil, se envolveram e acabaram por transar. É curioso como as coisas se desenrolaram, na noite de ontem convidei o Rodrigo e a Ranna para ir comigo até a beira-mar ver as ondas, nos escoramos no muro de pedras que tem lá e beijei a menina no momento em que ela contava sobre “como seria legal viajar pelo mundo, realizando fantasias sexuais” em suas próprias palavras. “Para uma garota de dezenove anos até que ela é bem ousada em descer até a praia à noite com dois estranhos e iniciar o tema sexo”, pensei eu. Bem, estas coisas mexem com a imaginação, olhei para o Rodrigo e ele estava com olhos flamejantes, acho que riam inclusive, mas quando eu beijei a Ranna e o Rodrigo não fez o mesmo em seguida, a garota travou e eu perdi o interesse em ter apenas o mesmo com alguém mais-ou-menos. Nestas horas, por mais que a menina quisesse arriscar uma nova experiência, bate a insegurança e muda de ideia quando a coragem não lhe vem. Normal para a idade, eu a entendo, ela tem o perfil de quem fará, foi apenas uma questão de imaturidade pela idade. Quando eu tinha quinze anos, antes de perder a virgindade com a Danusa, minha primeira namorada, na ansiedade de ter a primeira experiência na cama, levei uma garota ao meu quarto e quando tirei sua calça e vi aquele matagal desgraçado no meio das pernas dela, fui tomado pela insegurança de não saber manejar a situação e inacreditavelmente fiz a garota vestir-se e ir embora. Eu tinha a vontade de fazer sexo, contudo eu não estava maduro suficiente para tirar aquela vontade da caixa dos desejos e convenhamos ter sido melhor assim já que poucos meses depois eu e a Danusa tivemos nosso momento juntos o que tornou tudo muito mais bonito e importante para mim. A Ranna, quem sabe, passou o mesmo que eu no passado, queria algo mas ainda não estava pronta. Dei boa noite aos dois e voltei para minha barraca, entretanto não deu muito certo para mim já que o Rodrigo tomou coragem, beijou a garota e ainda arrastou ela para a barraca dele. Acordei com aqueles estalos de beijo e de fôlego se esvaindo na tentativa de manterem silêncio na barraca ao lado da minha e também menos de doze metros onde os pais da Ranna dormiam. Quando começou o bate-coxa violento comecei a rir e sai dali, voltando para a beira-mar, descendo a rua parte asfalto, parte chão-batido do camping dois quilômetros até enxergar na escuridão as ondas quebrando. “Um pouco de privacidade para o garoto que está descobrindo alguns prazeres da estrada, prazeres que eu ainda não conheço, verdade seja dita”, foi meu pensamento escorado novamente naquele muro, porém daquela vez apenas sono e não tesão.

— É, transamos um pouco — diz o meu parceiro de viagem — , mas tu achas que alguém ouviu algo?

— Se o pai dela estiver apontando pra ti um 38 ou te convidar para um mergulho, é possível — comento rindo enquanto saio da barraca e me espreguiço com vontade.

Dormirmos um pouco, entretanto levantarmos tarde, quase a tarde. O Rodrigo toma café com a família que nos abriga por aqui e parece que ninguém matará ninguém hoje. É uma família brasileira e apenas por esse detalhe estamos interagindo com mais facilidade na primeira terra dominada pelo castelhano que eu, tampouco o Rodrigo, não dominamos. Vou ao banheiro do camping para lavar o rosto, peço licença à meia dúzia de indivíduos que se espremem logo na entrada, tiro meu relógio de pulso finlandês, o ponho no balcão da pia, abaixo o rosto e o mergulho na possa d’água gelada dentro das palmas de minhas mãos em formato de concha. A água escorre pela barba que já está condizente com um viajante, grande o suficiente para o tempo todo ficar despenteada, entretanto não é bem isso que reparo. Meus olhos percorrem a pia de um lado para o outro e o pensamento “Onde está o meu relógio?” me vem, seguido de um aperto agudo no peito.

Volto para a barraca, tiro todos os equipamentos pesados da Garibaldi e vou pedalar pelo camping com raiva nos olhos. Desci novamente pela rua principal, logo atrás do Forte de Santa Teresa, saltando todos os quebra-molas que existem na via, parando apenas quando a Garibaldi e eu estamos quase dentro do mar, literalmente. O Rodrigo vem logo atrás, seguindo a trilha que desenhei com as rodas na areia úmida. Um policial nos expulsa da praia, pedimos desculpas por não sabermos da proibição e saímos de La Moza rindo.

— Se eu encontro o filho da puta que roubou meu relógio, cara — resmungo enquanto o Rodrigo se perturba com a expulsão da praia. Eu continuo — , mas o vacilo foi meu. Deixar um Suunto, cheio dos guere-guere, assim, de vacilo no banheiro cheio de gente desconhecida…

Estamos empurrando nossas bicicletas morro acima pela rua principal, voltando para o camping. O Rodrigo está visivelmente transtornado.

— Eu que perco um relógio de trezentos dólares e você que fica abatido?

— Não é isso cara. Não foi legal o que fizemos na praia, ser expulso é demais , não acha? — pergunta o garoto, de cara fechada, continuando — É assim que o Brasil fica mal visto por ai.

— Queridão, não viaja — comento, dando um tapinha na cabeça do rapaz loiro e continuando com tom de piada na voz — Queríamos andar de bike, entramos na praia, fomos para a areia, passamos no meio da galera, não sabíamos que é proibido, nos pediram para sair, nos desculpamos e saímos. Pronto, fim, sem dramas, parceiro.

— E ainda roubaram o teu relógio.

— Foi vacilo meu. E é bom que isso aconteça agora que é pra gente ficar experto. Não dá para se descuidar em lugares com aglomeração, imagina se é uma das bikes que desaparece?

— Não dá bola para mim — ele diz fitando com olhos caídos na minha direção — , sou chato para umas coisas. Não gosto de zoeira. As vezes até me acho um velho.

Por um instante me vejo no garoto. Um Aldo de um passado não muito distante, de olhar hipócrita para as relações humanas, individualista, que temia a rejeição e a capacidade de ser admirável no coletivo. Um Aldo que em 2011 dissolveu hábitos egoístas e rejeitou pensamentos conservacionistas primitivos, de verdades absolutas e de medos intransponíveis. O conceito que o Rodrigo tem de si próprio é semelhante. Um mal masoquista, uma corrente curta que o mantém próximo ao centro, dentro de um círculo desenhado no chão, onde ele não deveria transpor. Ali dentro está toda a verdade e realidade que ele precisa conhecer, tendo uma visão tão limitada e simplista da complexidade das relações humanas que é comum para quem vive acorrentado por si próprio desenvolver ideias rígidas, ásperas e, para si próprio, perfeitas. Ideias que quando ignoradas por outros que não respeita o círculo imaginário, acabam nos ferindo ou sendo feridos. “É tão simples seguir as regras, e agora tomei uma mijada da polícia diante de centenas de pessoas”. Ao permitir-se experimentar a imprevisibilidade do mundo real — aquele mundo fora do círculo de faz-de-conta — , o garoto se feriu com a rejeição e então se fechou, embora não tenha percebido que a beleza em transpor suas fobias e saltar para a liberdade é poder correr riscos e aprender com cada nova experiência, seja uma noite de sexo casual com uma turista qualquer ou seja com um esporro de um policial uruguaio.

— Pára com esse papo, Rodrigo. Como assim um velho? Cara, você está agora dentro de uma aventura que muita gente quer fazer. Se jogar, assim, numa aventura é para poucos, parceiro. E olha para ti. Está aqui, vivendo um monte de coisas novas. Não viaja nesta paranóia. Te solta, rapá!

Sigo empurrando a bike ladeira acima com o Rodrigo ao meu lado e pensativo. Sem deixar ele perceber, com a visão periférica, assisto um sorriso brotar no canto de sua boca.

— E ainda vem me falar que não foi legal ser expulso da praia; e comer a filha do cara que te dá comida e abrigo pode, né? Super ético também, né…

E nós dois nos brindamos com uma verdadeira gargalhada.

Aldo Lammel, M&B Websérie

Depois de quase dois dias usufruindo da hospedagem grátis no belo camping atrás do Forte de Santa Teresa, pegamos a estrada. É fim de tarde, mas rumaremos à Punta del Diablo, cidade ao lado de onde estamos, praia que se prepara para um dos carnavais mais fortes deste país. Entrar no Uruguai há dois dias foi uma nova experiência tanto para mim quanto para meu colega ciclista. Estamos ansiosos para nos pôr à prova ao interagir com o povo castelhano, porém as piadas entre nós recaem, claro, sobre as uruguaias especificamente.

Porra, era uma brasileira, velho — reclama de barriga cheia o meu amigo durante o pedal de uma cidade para a outra, investigando suas próprias memórias sobre a noite passada.

— Vou te dizer que tenho medo de uruguaia — digo rindo ao recordar algumas coisas do meu passado não tão longínquo.

— Como assim? — questiona o Rodrigo pedalando ao meu lado no acostamento em direção a próxima praia.

— Se eu for te contar sobre a Tábata — digo olhando para trás ao ouvir o som do motor do que parece ser um caminhão carregado em alta-velocidade vindo em nossa direção. O caminhão passa produzindo um vórtice de vento que quase nos desequilibra, deixando também seu ronco altíssimo, me obrigando a gritar o resto da frase ao Rodrigo — TU IRIA TER MEDO DAS URUGUAIAS TAMBÉM.

A estrada tem acostamentos melhores do que os dias anteriores e o vento não nos incomoda. Conto toda aquela história do meu envolvimento com a garota uruguaia que um dia foi uma grande amiga e fez muita festa comigo no ano passado quando eu estava me preparando para esta viagem e ela me proporcionou momentos para desopilar, mas também dor de cabeça.

— E porque tu voltaste a ficar com ela depois então? — pergunta o Rodrigão.

Penso um pouco.

— O sexo dela era bom, ? — ele questiona rindo — Era isto, ? Normal cara, mulher boa de cama prende a gente, é foda!

Estes quilômetros pareceram como um passeio e quando estamos para acelerar o ritmo, já estávamos dentro da cidade onde queríamos chegar. O sol laranja está caindo no horizonte e não temos muito tempo para encontrar onde ficar de graça, tampouco expectativas de nos banharmos hoje. Quando mais tarde chegamos em uma cidade, mais difícil se torna conseguir comida, casa e um banho quente revigorante. Sem contato mais próximos com os uruguaios, certamente pela insegurança da falta de proximidade com o idioma, ainda não conseguimos contato com os nativos desde quando cruzamos a fronteira há dois dias. Decido que a melhor estratégia para dois ciclistas sem dinheiro é irmos direto para o calçadão da praia e deixar com que os nossos equipamentos chamem a atenção e façam o trabalho de atrair pessoas interessadas e curiosas. Depois é só contar a nossa história e esperar as coisas acontecerem.

Na avenida principal, seguimos. Cumprimentamos pessoas que nos olham com mais atenção, mas admito que estou ansioso por enxergar as características da cidade que tornam esse lugar tão bem falado no Brasil. Seguimos pela rua sem meio-fio, todavia curiosamente com ciclofaixa, e passamos por uma casa charmosa de madeira onde quatro garotas estão sentadas na varanda, conversando entre si e petiscando algo sobre uma mesinha central. Uma das moças enxerga o “Brasil” em minha camiseta amarela e grita “Boa viagem!”. Ergo uma das mãos as cumprimentando e o Rodrigo faz o mesmo. Seguimos a diante. Não posso me dar ao luxo de perder os últimos raios de sol no calçadão da praia e deixar o Rodrigo e eu sem chances de atrair mais a atenção de quem está por lá. Ao mesmo tempo, olhamos para todos os lados e não compreendemos o que há de tão especial em Punta del Diablo, parece tudo tão normal. Continuamos focados na busca por abrigo.

— Se você parar para analisar, La Moza é tão bonita quanto Diablo — , digo eu ao meu parceiro de viagem enquanto pedalo pelo acostamento da avenida principal.

— Que estranho, acho que aqui é só uma parte desinteressante da praia — reflete o Rodrigo em voz alta, mirando para os lados e apenas enxergando pequenos comércios e jovens rastafares vendendo artesanato e dizendo “Marijuana?” quando passamos perto deles.

No calçadão um “Parabéns” escutamos. Um grupo de pessoas está nos aplaudindo e dizendo coisas que não entendemos no castelhano falado muito rápido. Apenas sorrimos e paramos as bicicletas. Conversamos com o grupo, porém eu não me sinto confortável em pedir ajuda com hospedagem ou mesmo um pedaço de gramado para montarmos as barracas. E assim perco a oportunidade de dar um lugar seguro para a gente. Depois de alguns minutos no calçadão olhando para a movimentação e gerando pouco interesse de pessoas que poderiam nos ajudar, giramos as bikes e começamos a voltar pela avenida, quem sabe mais para a entrada da cidade, onde vimos uns campings, podemos ter sorte como em La Moza anteontem. Mais uma vez, passamos diante da casa das garotas, lembrando da existência delas e de uma possível oportunidade. Outra vez uma das garotas acena e diz algo inaudível devido a distância, algo como trinta metros aqui do outro lado da rua até a varanda da casa. O Rodrigo, pedalando atrás de mim, deixa quase todas as interações comigo, não refutando, mas também não sugerindo que tentássemos algo com aquelas meninas, uma postura que eu, em pensamentos, queria que ele tivesse — a de sugerir — , talvez como forma de me tirar o medo da rejeição que escondo dentro de mim, medos antigos que ainda me espinham em momentos muito particulares. O Rodrigo é um rapaz tímido e vejo que ele trava suas próprias batalhas em momentos assim, entretanto, sendo mais justo, sua falta de pro-atividade agora está muito mais relacionada a confiança que ele deposita nas minhas decisões do que uma fobia social que o intimida.

Desde que saímos de Rio Grande, venho cuidando do Rodrigo na estrada, uma viagem a qual ele nunca havia experimentado, tampouco sem dinheiro, dependente da ajuda de terceiros. Durante os nossos primeiros dias de viagem, vejo ele ficando mais confortável para sugerir rotas, estratégicas, porém as interações com outras pessoas recaem sobre mim que, de fato, trato isso com naturalidade. Ainda é muito cedo compartilhar com ele a responsabilidade na busca por moradia, banho e alimento na estrada; uma frase errada e perdemos uma noite de descanso com banho tomado e de estômagos cheios.

As meninas gritam e eu sorriu, contudo, por algo inexplicável, não paro, não uso a interação como ponto de partida para uma conversa com as meninas. Apenas sigo em frente na direção dos campings na entrada da praia, sendo seguido pelo Rodrigo que continua em seu estado padrão: mudo.

Chegamos no maior camping. Ganhamos um não ao pedido de acampamento sem custo. No segundo camping, o mesmo.

— É carnaval, sem chances, rapazes! — diz o atendente que nem faz questão de olhar para nós.

Subimos pela segunda vez a avenida em direção ao mar e decido que pararei com essa punheta de procrastinar as coisas. Na terceira interação das garotas conosco, paro a bike e vou direto até elas com um sorriso de orelha a orelha pedir ajuda. Um quilometro depois, assim eu faço. O Rodrigo não arrisca uma só palavra com as quatro mulheres, todas bonitas, entre 25 e 30 anos, aparentemente independentes e solteiras.

— Olá, gurias. Coisa boa encontrar brasileiras aqui — , digo olhando para a minha própria bicicleta enquanto a escoro na cerca de madeira que envolve a cabana de estilo havaiano. Continuo — Estamos viajando de bike e tentamos nos hospedar com alguém na praia, mas receio que ninguém quer a gente por aqui.

As garotas nos olham atentas, umas sérias, outras com sorrisos querendo aparecer.

— Não sei se vocês ficariam confortáveis, mas se pudéssemos passar uma noite acampados no gramado — olho ligeiramente para um pedaço de grama ao lado direito da cabana erguida um metro acima do nível da rua — , ficaríamos mais seguros.

Uma das quatro garotas sentadas em poltronas rudimentares olha para as moças a sua volta — Se vocês quiserem, podem acampar sim, sem problemas. Tem bastante espaço no quintal.

Era tudo o que eu queria ouvir nesta noite que engole a praia com o preto e o com o ar gelado vindo do Atlântico. Entrar no Uruguai me deixou inseguro novamente porque ainda não sei como é a hospitalidade por essas terras, contudo encontrar as brasileiras remedia a ansiedade que venho sentindo nas últimas horas. Primeiro a família brasileira em La Moza e agora esta turma das Garotas Super-Poderosas em Punta del Diablo.

Agradecemos, rimos um pouco com as meninas e logo começamos a montar o acampamento, processo que dia-a-dia fica mais mecânico e eficaz. O Rodrigo, ficando experiente nesta modalidade de viagem, esquadrinha todas as facilidades que o pátio onde estamos pode nos oferecer: torneira, com água corrente para beber, fazer nossa comida se necessário, lavar roupas e tomadas para carregarmos nossos apetrechos eletrônicos. Estamos bem instalados por hoje. Por sorte, as garotas colocam o seu banheiro à nossa disposição. Perfeito. De banho tomado, com um convite para um lanche modesto, porém em boa hora, batemos um papo com as anfitriãs sobre o que estamos fazendo, “uma viagem intrépida mundo afora” alguém comenta. Jéssica, Pâmela e as outras duas meninas, cada uma com suas perguntas, cada uma com sua forma de ver o que venho fazendo. O ponto de convergência, que cada vez mais estou certo de encontrar apenas em pessoas com formação superior ou de inquietude cultural, é o de que a experiência de uma volta ao mundo será inexoravelmente enriquecedora para mim. Não que eu não saiba disso, contudo nos últimos dias a frase que mais ouço é “Porque você faz isso?” A repetição de coisas tolas, cansa e começa a criar uma verdade falsa dentro de você, como se a experiência de navegar por outros lugares, expondo-se à outros idiomas, cheiros, paisagens, costumes, fosse algo tão difícil de se ver que você pode considerar que está, de fato, ficando louco, se arriscando demais, fazendo as pessoas — com sua “lucidez” — ter apenas a vontade de te perguntar “Porque”. Um pouco de fôlego, de convivência com pessoas de sapiência é bom e “me gusta”. Papo vai, papo vem, aos poucos, estamos todos com sono e assim termina mais um dia que, como os outros mil e duzentos dias planejados de viagem, começou ou começará sem eu ter ideia de como terminará.

Aldo Lammel © Todos os direitos reservados

O dia chega com força e quando acordamos, em poucos minutos, estamos todos na praia. As garotas fotografam as belezas naturais do lugar, que passo a ver também, enquanto o Rodrigo e eu escalamos algumas pedras para fotos mais ousadas. Subo na pedra mais alta que encontro. Ergo a Garibaldi e antes de me posicionar para ser clicado pelo meu parceiro de pedal, alguém grita meu nome e é voz masculina e familiar.

— FALA, ALDO! — grita um cara que vem da direção dos restaurantes da rua antes do mar.

— Não creio, fala meu caro! — digo em tom mais alto enquanto misturo os pensamentos sobre coincidência e como vou descer desta pedra.

Nunca imaginei que encontraria um amigo de infância em outro país, assim, de forma tão curiosa e atípica, em cima de uma pedra, erguendo uma bicicleta. O João Vitor foi meu vizinho por muitos anos na época de minha pré-adolescência e adolescência em Charqueadas, RS. É um bom garoto. Cumprimento ele e seus amigos que o acompanham; conversamos sobre a minha viagem e, após poucos minutos, o João Vitor me convida para uma cerveja mais tarde e segue seu caminho.

Tão certo quanto as ondas explodindo em espuma branca nas pedras da praia para sempre, é a brisa do fim do dia chegando. De volta na cabana, me arrumo com uma roupa mais apropriada para a quem quer conhecer a vida noturna desta praia, mesmo sem ter um tostão no bolso ou facilidades que eu teria em outros tempos. O Rodrigo se joga dentro de sua barraca e entra na dimensão do sono profundo enquanto as gurias dormem dentro da cabana para saírem mais tarde. Elas não sinalizaram que querem companhia então me vou a pé às 22:30 para o centro da praia numa caminhada de 20 minutos até as primeiras aglomerações festivas surgirem nas ruas de Punta del Diablo. Sigo para o bar que o João Vitor está. Entro, cumprimento todos, o clima é de família e sinto que o círculo estava fechado. Sem ter como comprar coisas para a mesa, não me sinto confortável, é novo tudo isso pra mim. Me despeço já no primeiro par de minutos depois e me vou a caminhar sem destino pelas ruas de chão batido de Punta del Diablo. Tento encontrar internet para dar alguma notícia para o povo do Brasil, mas nada. Olho para os lados e vejo carros lotados de grupo de amigos, risadas e facilidades que não me pertencem mais ou nunca me pertenceram. Isso me afeta, começo a mergulhar em águas perigosas que querem me afogar em saudade e angústia por tempos que não voltam mais, não pelos próximos anos. Apenas caminho e penso que ter internet por alguns minutos me ajudaria a recuperar o trabalho. Uma hora depois estou dentro de minha barraca sem nem ao menos ter encontrado nos festejos de carnaval as meninas que não estão na cabana. Desligo minha mente inquieta e durmo até o dia seguinte chegar.

Segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015.

Chuva fina, é minhas últimas horas em Punta del Diablo. Me levanto, o Rodrigo também. As garotas parecem ainda estarem dormindo dentro da cabana; não, minto, uma não está.

— Bom dia, Aldo.

Eae, Pâmela.

— Chimarrão?

Um belo exemplo de alguém que sabe me fazer feliz.

— Por favor! — eu falo.

Sentados na poltrona para duas pessoas, a Pâmela e eu dividimos um chimarrão morno, assistindo os carros passarem na pista molhada à nossa frente. Uma garoa fina cai inclinada, que molha um pouco da va…

— Posso te perguntar uma coisa? — pergunta a loira, de olhar marcante, tão azuis quando um lápis de cor, cabelos longos e finos, e uma voz sóbria, como aquelas que intimidam os tímidos, bem, não é o meu caso.

No segundo posterior, a me aproximo da boca dela e automaticamente a beijo. E é no beijo que a gente descobre as possibilidades. Passo os olhos nos seus seios enormes e soltos dentro do baby doll, vou até o ouvido dela e digo algumas coisas que tenho vontade, ela solta um “ahã” e um sorriso malicioso a escapa e o resto é consequência pela sinceridade de algumas palavras no tom certo. Enquanto alguns apostam em frases de efeito, flores e rosas, vou sempre pelo caminho do que realmente passa na minha cabeça e, fuck, como eu tenho uma mente perversa…

Puxo a Pâmela pela mão e a levo até a barraca no gramado ao lado da cabana. Advinha quem está lá, na garoa, mexendo em suas coisas na barraca ao lado da minha?

— Fala, Rodrigão. Queridão, faz o seguinte, entra lá na casa e toma um café que vou organizar umas coisas aqui, beleza? — com a Pâmela do meu lado, digo ao meu parceiro que está de pé ao lado de sua barraca enrolando suas meias.

— Oi?

— Isso, só vai lá para dentro e toma um cafezão que hoje será um dia de pedal forte — reitero, mas agora mirando dentro dos olhos do Rodrigo que capta por fim a mensagem.

— Claro, claro, morrendo de fome!

A garota, do meu lado o tempo todo, sem esboçar qualquer constrangimento, somente dissimula como se estivesse procurando algo no chão onde minhas coisas estão espalhadas e molhadas. A barraca, que promete duas pessoas como capacidade máxima, mostra o seu potencial de abrigar hormônios agitados em ambiente confinado. Não há como ser sexy tirando a roupa em um lugar tão apertado e então a tiramos de qualquer modo.

Ela e eu completamente nus dentro da Azteq Mini-pack para duas pessoas. O som dos pingos d’água acertando a capa laranja da barraca é a única coisa que ouvimos além da respiração ofegante de duas pessoas que querem se devorar. Nós nos fitamos olho no olhos por um breve momento de pausa na respiração. O diâmetro externo da íris dela começa com uma fina linha de verde-escuro que esfumaça ao verde-turquesa, um verde que em degrade em direção ao centro, transforma-se em um tom suavemente mais amarelado, o verde-menta que me pede para olhá-lo. “Como eu não havia te notado antes?”, me pergunto calado.

Macios, volumosos e gelados. Os seios da garota de 30 anos ficam ainda mais lindo quando os pego com as mãos e os aperto em suas bases, tornando-os mais firmes e arredondados.

A sensação de transar em uma barraca tão pequena remete a ideia de como seria fazer amor dentro de um caixa de alumínio à sombra em um dia de verão, com a transpiração condensando nas paredes internas, a temperatura aumentando exponencialmente e o cheiro de amor realçando.

— Eu premeditei! — diz ela séria com sua mirada de lápis-de-cor um tempo depois, deitada de lado à mim, apoiando sua cabeça com o braço.

Pâmela conta como queria transar comigo desde ontem e que acordou esta manhã determinada a fazer algo. Me sinto bem ao ouvir isto, perceber que mesmo viajando com tão pouco, sem ter muito para oferecer, é o suficiente para uma garota brasileira que quer curtir seu carnaval, seu feriado, sua praia.

— Ontem percebi que tu estavas dando em cima da Jéssica…

— Eu? — digo surpreso e a interrompendo, me fazendo erguer a cabeça da capa negra que serve como piso da barraca.

Tranquilo — diz a garota com um sorriso feito de lábios rosados que combinam com a pele branca de ítalo-brasileira — , ela é super bonita. Foi apenas a sensação que tive.

Sigo fitando a Pâmela atento, interagindo com realmente necessário. Está chovendo, é cedo, acabei de ter meu momento e é carnaval; seria um tanto justo dormir?, eu penso.

Atrasados, o Rodrigo e eu nos despedimos das garotas acordadas e iniciamos o itinerário do dia abaixo de chuva e vento frio. Contra todas as minhas expectativas, dentro de uma barraca minúscula, desvendo um antigo mistério que flutuava em meus pensamentos sobre o sexo na estrada. De fato era possível? Eu demoraria a me adaptar a esta realidade que permanecerá comigo pelos próximos três anos de viagem? “Duas semanas e alguns dias”, penso eu, sorrindo comigo mesmo enquanto pedalo para os próximos quilômetros de uma viagem onde nunca saberei o que vem adiante.

Filho da puta, ela era linda! — repete o Rodrigo durante um bom trecho do pedal entre Punta del Diablo e La Paloma, outra praia uruguaia mais ao sul do país. Como se ele próprio, um cara cheio de freios e medos, sedento por experiência, não muito diferente do Aldo de tempos atrás, não tivesse realizado o seu feito dias antes.

— Começamos bem, meu caro. Começamos bem! — comento a ele, pedalando satisfeito ao seu lado.

Um ano atrás, quando estava dentro daquele 2014 emocionalmente difícil, tomado por dúvidas de todas as naturezas, me perguntei muitas vezes na minha quietude dos pensamentos sobre este momento; e de um jeito muito natural minha primeira transa na viagem chegou (curiosamente no carnaval, eeelê lê) e foi simples, mas admitamos que característica à quem agora vive na estrada, vive nas limitações de uma barraca. Uma moça brasileira, eu sei, ainda estou conectado ao Brasil, entretanto isto não foi premeditado, aconteceu. Depois de sair com o Rodrigo de Punta del Diablo, pedalamos juntos até Buenos Aires onde ele tomou um voo de volta para sua casa em Rio Grande. Não tivemos mais aventuras amorosas pelos acostamentos desta aventura, porém desfrutamos nossos 15 dias pedalando lado a lado pela costa uruguaia o máximo que pudemos apenas com alguns trocados no bolso. Imagine que ficamos alguns dias em Punta del Este sem usar praticamente nada de dinheiro, foi um grande feito… E eu, o que fiz depois? Bem, segui minha viagem e as novas histórias foram acontecendo, entretanto, você sabe, já estamos falando de outras histórias.

Aldo Lammel / Rodrigo Dermann, CC BY-NC

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