Aldo Lammel, CC BY-NC

Uma Questão de Equilíbrio

Estou surpreso com a recepção calorosa que venho recebendo dos argentinos. Eu, um ciclista vestido com as cores do meu país dos pés à cabeça, atravessando o país que obviamente seria ríspido com o brasileiro. Sou um patriota, apaixonado não pelas cores, e sim pela soma que o verde, amarelo, azul e branco representa. Uma bandeira, uma história recente, um idioma romântico que me inspira ao grito: sou do Brasil, porra! Quando cheguei na Argentina algumas semanas atrás, imaginei que pedalar por aqui seria um exercício de equilíbrio, onde eu enfrentaria deboches, provocações, quem sabe até alguma hostilidade. Que estupidez a minha crer na palavra "obviamente", acreditar que a rivalidade dos campos de futebol seria levada gratuitamente às outras camadas da convivência. Piadas sempre haverão, assim como gente chata e xenófoba, entretanto me mantenho na posição respeitosa e diplomática se uma brincadeira me é direcionada e isto dá um sinal importante para o respeito ser mútuo. Certo dia um homem me perguntou em tom provocativo o que era muito previsível: "Pelé ou Maradona?" Fui o mais simpático que pude ser e respondi "Messi". Rimos, o cara pediu minha mão em cumprimento e já não existia mais piadas. No país do Tango a la Gardel, tudo me vem sendo favorável, exceto por eu descobrir que a Argentina seria de fato um país que me exigiria equilíbrio, embora não por parte de excessos de piadas, mas pela falta de algo. Algo ainda me falta encontrar na estrada. Mas… o quê?

Dias atrás, pedalei com uma forte enxaqueca até um lugar chamado Salto, bem diferente da famosa Salta argentina ou da Salto uruguaia. Eu não passaria por lá, porém por aquele erro de interpretação do mapa quando eu estava saindo de Buenos Aires, aterrizei na cidadezinha sem ideia de que ali eu encontraria uma família no que foi minha primeira experiência internacional com o Couchsurfing. Dos dias de pedal dormindo na barraca através do tedioso centro do país, ao lindíssimo e confortável final de semana com a família Valarino, comendo assado, ouvindo Jazz e Reggae com o Guillermo, patriarca da família, tomando banho de piscina com a linda Melissa dos olhos azuis na casa de campo e fazendo cooper pelas estradas de chão com a doce Manuela dos olhos verdes. A elegante Sylvia, mãe das meninas e do Santiago, abanando em minha direção e, com a voz embargada, pedindo para eu tomar cuidado pelas estradas. Eu ainda tinha o peito tomado de sensações por aquela família de Salto e logo veio os Gomez de La Carlota.

Os Valarino (Melissa Valarino / Aldo Lammel © Todos os direitos reservados)

Hermann e Maria José Gomez, papais do futuro bombeiro Tomas, do talentoso jogador de rugby Camilo e da fofura ainda bebê, Eva. Ali, aconteceu algo curioso comigo. A Eva mexeu demais com minhas projeções de pós-viagem. Depois de assistir em campo minha primeira partida de rugby, um esporte idolatrado pelos argentinos tanto quanto futebol, o Hermann fez um assado em forno de barro onde tive a honra de pegar terra fresca, transformá-la lodo e selar o respiro do forno. Assim que entrei na casa para fazer minhas mochilas e partir, a pequenina Eva entrou no quarto onde eu estava e fitou-me cabisbaixa, com uma de suas mãozinhas segurando pela perna um sapinho verde de pelúcia onde metade do brinquedo tocava o piso. Prestes a completar meus 31 anos, me imaginei com clareza, muita clareza, que depois desta viagem eu poderia estar pronto a ser um bom pai. Engraçado foi eu me imaginar tendo filhos ao deixar aquela casa ontem… Pensei sobre isto por todo aquele dia em meio ao silêncio das plantações de milho e soja à beira da estrada.

O vento contra há mais de quatro horas me castiga, a mais sólida concentração não é tenaz e se rompe no golpear do ar quente em movimento, fazendo-me oscilar perigosamente no acostamento imundo por terra, pedaços de metal e plástico na Ruta-8. Um erro e eu posso cair outra vez e machucar ainda mais meu joelho esquerdo que se recupera bem da minha primeira vez beijando o asfalto. Não recordo de ventos mais fortes do que este desde quando saí de Porto Alegre, no último janeiro.

Uma serpente metros à frente está cruzando a estrada. Dou a atenção por cima dos meus ombros e vejo o carro vindo em nossa direção.

— VAI LOOOGO — grito por instinto.

Verde como grama chuviscada, agitada como cabelo soprado e comprida não muito mais do que uma régua de escola, a cobra é lenta demais e o carro, detendo-se, não consegue desviar devido a outro veículo vindo na faixa contrária e eu em seu acostamento imediato. Ele pega o pobre animal em cheio. Observo. Jogada como uma hélice despedaçada ao acostamento, expondo suas vísceras de sua metade até a calda no asfalto quente do verão tardio, a cobra ainda vive, serpenteando em vão de um lado para o outro sem sair do lugar. Seja pelos ferimentos, seja por um próximo automóvel ou pelo calor escaldante que a fritará em carne viva, ela morrerá. Desço da bicicleta puxando minha faca, dou alguns passos à frente e termino com isto sem pensar demasiado.

— Não faz isso, tio, por favor — eu chorava, soluçava, implorava ao homem de meia-idade que segurava um pesado martelo e fitava o asfalto ao seus pés.

— Ela morrendo, meu — lamentou à mim o menino que segurava minha lancheira dos Cyber-Cops com uma das mãos e sua garrafa squeeze edição limitada da Coca-cola que trazia o desenho de um homem cabeludo, solando guitarra.

No acostamento da terceira perimetral do bairro AFP de Charqueadas, os pálidos olhos da cadelinha bege de médio-porte, fitavam lugar algum, sem fixar-se em um único ponto. Alguém a atropelou e a deixou para morrer. O estado dela era irreversível e indescritível. Embora suas expressões fossem do mais puro sofrimento, ela não emitia qualquer gemido. Quando o senhor ergueu o braço com a ferramenta em mãos na direção da cabeça do cão, comecei a gritar de raiva e saí correndo aos prantos com as mãos em meus ouvidos, pressionando-os o mais forte que eu podia. Ainda hoje lembro da angústia de não saber o que fazer, um sentimento que revisitei duas décadas depois.

Meu pastor belga tinha sete anos quando desapareceu. Foi extremamente incomum seu sumiço. Por ser imponente, o Rodes recebera este nome em homenagem a monumental estátua de bronze do grande guerreiro do mundo antigo, e, embora meu cão fosse amoroso, não era amistoso com desconhecidos no pátio de casa. Oito meses depois do desaparecimento, em um golpe de sorte, a DeJota o encontrou em um distante bairro, revirando as lixeiras, muito magro, com inúmeras lesões pelo corpo que lhe arrancaram o pelo. Seu quadril lhe dava passos descompassados e com uma corrente quebrada presa ao pescoço, o lindíssimo Rodes com sua pelugem petróleo brilhante, não era mais do que um legítimo cão de rua que sobrevivia. A mãe abriu a porta do carro incrédula, gritou seu nome e o cão foi como uma bala para dentro do carro. Embora não tivesse mais a placa com seu nome e nosso telefone “Rodes, 51 658 1551”, a coleira ainda era a original. Saí da escola aos gritos de alegria com o telefonema que recebi na sala da direção, contudo ao chegar em casa e ir até a garagem onde a mãe limpava o cachorro, o Rodes me viu indo em sua direção e começou a gritar, não a latir. A gritar. Eu fui cuidadoso, não fazia o menor sentido tudo aquilo, mas ainda assim ele me atacou. Chamei o Cássio, aquele mesmo menino que segurava anos antes a minha lancheira, e o Rodes voltou a gritar. Uma semana depois desse episódio, enquanto um carroceiro que recolhia papelão passava pela rua dos fundos de casa, o Rodes o ouviu, foi até o portão, assustando a DeJota que estava no pátio, pulou o portão para no segundo posterior, latir em um timbre estranho, agudo, e então tombar para o lado. Ele estava morto!

Danusa — disse eu ao telefone.

Oi, Dado — a garota me chamou pelo apelido que somente ela usava.

— Pode vir aqui agora?

— Agora?

Fiz silêncio.

— Tá… Aconteceu alguma coisa?

— O Rodes morreu.

— QUE?!

Menos de uma hora depois, a Danusa estava no meu quarto, deitada nua à cama e sob o lençol bege que colara em seu abdome. O gozo totalmente líquido naquela altura, provavelmente escorria por sua cintura quando não absorvido por completo pelo tecido acima.

— O homem que roubou o Rodes — eu murmurei deitado igualmente nu e coberto, fitando o teto do meu quarto — fez isso de carroça… O maltratou, o surrou, o torturou ao longo de meses para quê?

A Danusa, minha primeira namorada, mirou-me e deixando-se entristecer. Ela sabia o quão eu amava aquele cão. Ela respondeu com a voz sutilmente embargada— Não dá pra entender porque alguém faria isso, Dado.

— Para transformar um cachorro lindo, companheiro, num zumbi que odiava homens e morrer assim, talvez ataque cardíaco, sei lá… Tudo por quem sabe ouvir o som dos cascos de um cavalo no asfalto?

Virei para o lado da Danusa e com um dos olhos tocando o travesseiro, comecei a chorar compulsivamente. Ela me abraçou e ali ficamos por um tempo.

Será cruel o que vou dizer, mas eu preferia ter encontrado meu cão atropelado e ainda vivo para eu mesmo ter acabado com o sofrimento dele o mais rápido possível do que ter visto como o Rodes definhou nos últimos dias e quão esse bicho sofrera nos meses onde sua casa e as pessoas que ele queria estar perto não estavam mais a sua volta. Soava tão injusto pra mim para um bicho que sempre me trouxe alegria.

Mato o animal, livro-o do sofrimento. Os músculos da serpente ainda se contraem quando, por fim, a empurro com os pés para fora do asfalto fervente, deixando-a para apodrecer no pasto. Me parece mais sensato. Abreviar o martírio de uma simples cobra não me entristece, entretanto passo a sentir saudade do Rodes e da Lua, meus últimos cães e que mereciam estar comigo, correndo por ai. Apesar de não haver lágrimas, a saudade dos meus cães fazem minhas narinas pulsarem e meus lábios se contraírem um contra o outro.

— Eu precisando —subindo na bicicleta, sussurro, fazendo força nos primeiros giros dos pedais.

Tipo uma parabólica. Estou como uma antena sensível a quaisquer estímulos nos últimos dias. Assim que saí da Praça da Matriz em Porto Alegre, estive emocional como poucas vezes antes por quase uma semana, surfando nas primeiras sensações abstratas da viagem, como se eu fosse um coquetel volátil de ansiedade, euforia e inexperiência, pedalando pelas estradas gaúchas em direção ao Uruguai. Então veio o Rodrigo e eu me pus noutra posição, o de responsável pelo rapaz, onde sua presença amenizava as sensações de distância, mas me refiro a distância que me separada oficialmente das pessoas que eu amava e não a distância dos lugares, porque esses quilômetros eu os desejava mais do que qualquer coisa, inclusive superando qualquer breve pensamento de voltar. Voltar? Não, não me ocorria realmente, mas pensava no assunto apenas por pensar e não ter total controle sobre o fluxo de pensamentos que me vinham. Agora que o Rodrigo não está mais aqui, novamente me vejo sozinho em longas horas silêncio como previsto, contudo preciso de tempo, tentativa e erro para dominar a arte de viajar só, exatamente o que mais quero e, me mantendo inteligente, o que mais preciso. Como uma antena, sensível a qualquer estímulo. Curioso. Diante a tantas novidades, preciso achar minha válvula de escape, algo que me dê fôlego para enfrentar; alguma coisa que eu possa resgatar e retomar como hábito para que eu tenha a chance de transformar minha passagem por cada país ao longo dos anos de estrada, em algo natural pra mim, saudável pra mim. Encontrar os números que me equalizam e me equilibram.

Sexta-feira, 20 de março de 2015 — dia 48.

"Como pode o argentino comer todas as vísceras bovinas e rejeitar o coração da galinha por nojo?", pedalando ainda pela Ruta-8, recordo dos assados que comi na casa e depois no sítio dos Valarino assim como no forno de barro atrás da casa dos Gomez.

Aqui na província de San Luis — e saiba que províncias são equivalente aos estados no Brasil — , além de muito úmido no verão, me fazendo transpirar litros e mais litros, existem moscas gigantescas como as mutucas, insetos que prendem-se na roupa e mordem pra valer. Por serem lentas, as mato sistematicamente assim que suas presas acertam minha pele como um beliscão.

"Já fazem 30 dias", digo à mim em silêncio, passando por mais lavouras de milho e soja, é tudo o que na prática vejo na última semana.

"Eu debaixo de uma árvore", me vem a cabeça em imaginação, "descansando, e, repentinamente, uma moça qualquer de longo cabelo ondulado negro, peitos pequenos, quadril generoso, usando unicamente batom, lápis e salto-alto, sai de dentro do milharal, diz que perdida e que precisa da minha ajuda. Me aproximo, aponto uma direção, mas ela admite que só quer me dar. A beijo e ficamos sob aquela árvore."

É, eu sei… Mas são meus hormônios. Deixo as marchas da bicicleta mais pesadas, aumento minha velocidade no plano, vou mais para o centro da pista e faço que todos os carros viajando na mesma direção que eu tenham de desviar um pouco mais de mim.

"Já fazem 30 dias!"

Aldo Lammel, CC BY-NC

O sexo sempre foi importante pra mim, da mesma forma que é pra você. Quando eu não passava de um menininho, revirando as gavetas de casa, encontrei exemplares da Playboy que meus pais usavam, olhavam, pouco me importa, porém aquilo foi importante pra mim mesmo que sendo edições muito antigas, era tudo o que eu tinha para a natureza intrínseca do menino aflorar em um mundo sem internet e um pai, a figura masculina, já que há anos ele não vivia mais conosco. Aliás, nunca viveu. Depois de crescido, o sexo ganhava cada vez mais forma na minha vida, até que se tornara fundamental para meu humor e concentração. Nada mais revigorando do que comer minha namorada no horário de almoço e 20 minutos iniciar uma vídeo-conferência com meus clientes da Reebok ou BMW. Mas diferente das minhas relações com namoradas onde nos escolhemos como parceiros em meio a uma cidade de opções, na estrada dentro de uma viagem com começo, meio e fim definidos, você é nômade, não se fixa e a necessidade primordial é receber alguma ajuda para lavar sua roupa, ter um prato mais completo para jantar em uma noite chuvosa, um banheiro com água quente e sabonete. Uma boa trepada com um pouco de carinho poderia aguardar? Se no final das contas estar de banho tomado sob lençóis aconchegantes seria mais redentor do que uma bela chupada? Ainda é muito cedo pra afirmar qualquer coisa.

Pedalo pela Ruta-8, a noite vem chegando e eu passo a reparar para dentro dos campos que me cercam atrás de um lugar pra montar a barraca longe de qualquer pessoa e som dos carros.

Quando os Valarino estavam me levando pra casa de campo para tomarmos banho de piscina, no banco de trás da SUV, a Melissa e eu estávamos sentados lado a lado. A pele do meu braço esquerdo passou a tocar a pele do braço direito da Melissa ao longo da viagem de alguns minutos até a afastada casa. Não foi intencional, apenas aconteceu. A cada sacolejada que a suspensão da Hyundai Santa Fé dava ao atravessar aquelas estradas de terra, eu sentia os pêlos do braço da garota tocarem os meus. Entrei num estado de nirvana, de hipnose, concentrando toda a minha existência, meu afinco, naquela sensação sutil. Eu só queria que ela não movesse o braço e ela não o moveu por um bom tempo. Embora meus olhos estivessem fitando a paisagem muito além do vidro lateral da caminhonete, eu podia perceber a garota, seu cheiro, o calor da sua pele de fios claros. E ao mesmo tempo senti raiva por não haver nada que eu pudesse fazer porque, de fato, não era meu propósito e em nenhum momento ela me deu ou me daria motivos para eu seguir em frente.

"Chegamos", disse a garota argentina, não havendo mais o toque com aquela sensação difícil de descrever. Tenho quase certeza que ela não percebeu o que ocorrera.

As lavouras de soja passaram e quando me dou por conta, estou dentro de um povoado chamado Fraga. Atrás de uma construção abandonada junto de um ferro-velho, monto minha barraca atrás de dois carros capotados e aos pedaços. Estou longe o bastante da rodovia e a cidadezinha parece fantasma no final da tarde. Ninguém pelas ruas empoeiradas de paralelepípedo. Ponho o isolante térmico sobre o piso da barraca laranja camuflada no caos do verro-felho, jogo o saco de dormir sobre o isolante e deixo o lençol dobrado para fazê-lo de travesseiro. Dentro da barraca, abro a mochila da "cozinha", monto o prático, leve e pequeno fogareiro à gás e deixo a água ferver para, em seguida, mergulhar a massa. Me deito de lado e, com o cotovelo direito sobre o lençol dobrado ao chão e meu braço apoiando a cabeça, divido meu pequeno espaço com o fogareiro, tentando lembrar de como foi a sensação dos pelos do braço da garota tocar os meus e conseguir sentir toda a química que percorria meu cérebro naquele dia. Baixo minha calça de pedal, fecho os olhos e me alivio, terminando com a agonia que querer alguém e não ter. De alguma forma, minha cabeça ainda não se desliga do assunto e de volta a posição inicial, assisto cada chama azul e amarela do gás queimando, tocar a única e pequenina panela que trago comigo. É assim até que a comida esteja pronta e, em seguida, o sono chegar.

No final do próximo dia, San Luis.

— Em dinheiro, senhor?

— Não, querida. Com cartão de débito Visa — digo entregando o cartão a senhorita da recepção, feliz por estar usando meu próprio dinheiro pela primeira vez na viagem, me dando alguns poucos dias de folga da estrada e da sensação de estar sempre em "dívida" com quem me ajuda.

Na mesa da cozinha do Pupy’s Hostel, duas argentinas, um argentino e eu, comendo risoto com queijo ralado preparados por nós numa sexta-feira quente na noite de pré-carnaval fora de época em San Luis. O lugar é amadeirado, madeira escura, pesada e envelhecida, cuidadosamente cada coisa em seu lugar, como um abraço de aconchego aos viajantes vindos de todos os cantos. Aliás, lugar para viajantes e não turistas. Pelo visto é comum mochileiros se encontrarem na cozinha dos hosteis para preparar uma comida coletiva. Vi o mesmo fenômeno na minha primeira experiência com este tipo de hospedagem, em Punta del Este no mês passado quando o Rodrigo pagou uma noite para nós.

Na cozinha do Pupy's, conversamos sobre coisas aleatórias, até que…

— Não me importo que, se eu tivesse um namorado, ele ficasse com outras garotas apenas por sexo. Não haveria amor envolvido — expõe Celeste, uma argentina de Tucuman que veio com duas amigas ao carnaval de San Luis.

Receio que meu cenho tenha arqueado com a informação nada ortodoxa. A garota fita seu próprio prato, brincando com o garfo sobre à mesa.

— É da natureza masculina — dispara ela, pegando uma porção de risoto com o talher, o pondo na boca e terminando a frase com a boca cheia — , não tem o que fazer…

— Até você o ver com outra mulher bem na sua frente — comento eu, mirando à Celeste, recordando dos meus últimos meses no Brasil quando a Cacau me viu de mãos dadas com outra garota, fazendo seu rosto esmorecer e petrificar ao ver com seus próprios olhos o que ela estava ciente pela minha própria boca já havia algum tempo.

— Também acho — concordando comigo à mesa, diz Romina, outra argentina de Tucuman, uma das amigas que Celeste trouxe com ela para as festas.

Celeste ri conforme bebe um gole do amargo fernet misturado com Coca-Cola, bebida alcóolica muito tradicional na Argentina. Ela, segurando o copo, encara as pedras de gelo envoltas pelo líquido escuro.

— Não faço questão de ver — Celeste se defende, mexendo o gelo do copo com um dos dedos — , mas não tenho problema com isso. Sei lá, gosto da liberdade, então aceito o que desejo para mim!

Por um lado, entendo o ponto de vista da Celeste, uma mulher de traços que eu desconhecia para uma argentina: pele clara, porém de cabelo com fios negros e grossos. Uma garota não muito bonita, somente atraente, de corpo bem desenhado, seios pequenos, de cintura fina e seguida por um traseiro generoso, realmente grande para suas proporções. Dançarina profissional de Dança do Ventre, ela traz um charme diferente, de mirada marcante que se utiliza de sobrancelhas largas e grossas como a beleza de origem libanesa. Mas algo em seus modos, no seus olhos perdidos focados para o alto, lábios sendo umedecidos e pressionados um contra o outro com regularidade, sugere que a mulher de 30 anos esconde o real significado de um discurso um tanto fora de hora. Eu nunca estive sozinho na minha vida e isso me incomodava.

Fiquei com a Danusa por 11 anos, perdi o tempo correto de fazer todas as tolices e prazeres da adolescência, e logo na sequência engrenei meu relacionamento com a Laís para que, quase dois anos depois em um voo de negócios, eu tomasse a decisão de realizar algo só meu e a qualquer preço. Assim que me separei, eu não me perguntei se estava fazendo a coisa certa, eu estava convicto disso, contudo, embora anestesiado pela instigante construção da viajar, eu me sentia com frio sem ver a Laís de calcinha e sutiã pelo meu apartamento, estudando Economia e volta e meia me encarando com o sorriso mais maravilhoso que a natureza desenhou. Dois meses após aquela decisão, todas as semanas eu estava com uma garota diferente, as fotografando, fazendo algo parecido com amor, escutando e anotando em segredo seus pensamentos e investigando quais eram suas fantasias mais íntimas, tentando encher-me de sensações que fizesse o tempo passar mais rápido até o dia da viagem por fim chegar, mas o tempo rolava devagar pra mim ainda que eu não parasse por um só instante.

A dois meses do início da volta ao mundo, eu tinha firme e forte quatro companhias regulares, garotas que, segundo elas, estavam de acordo com meu momento: o rapaz prestes a deixar o país atrás de um arriscado sonho. Tudo aquilo foi uma lição sobre a mecânica das relações abertas e o impacto de um prazo de validade estar estampado na embalagem. As moças sabiam da existência uma da outra, inclusive algumas se conheciam ou pelo menos sabiam os outros nomes e posso te afirmar, meu caro diário, que elas enxergavam algo provocante na luxúria de coexistir uma com a outra, numa competição fictícia e que não levaria ninguém a lugar algum além de um prazeroso passatempo. No entanto o que antes era estimulante, transformava-se em algo ruim assim que nomes ganhavam formas e cores vivas.

— Então você pode, além de saber, ver seu namorado com outra mulher que você sabe administrar tudo isso?

— É — responde imediatamente Celeste — , não faço questão, mas posso lidar com isso.

— Então você será minha namorada aqui em San Luiz e vamos tomar fernet hoje a noite — sugiro com ar de brincadeira à Celeste que dá uma risada exclusivamente social.

— Não, obrigada — contesta a garota com semblante desafiador — , prefiro os argentinos festejando pelo carnaval de San Luis.

Carlos bate as palmas uma vez, o único argentino homem à mesa, roubando nossa atenção — Então vamos subir e se aprontar se querem sair.

Copos para o alto, fernet com Coca transbordando na mente. A Cúmbia, um tipo de Hip-Hop castelhano e cheio de tambores, o ritmo musical mais escutado na Argentina, toca alto dentro do pub no centro da cidade. Celeste e eu, em um passo da dança para lá e outro pra cá, trocamos carícias. A pego pela cintura algumas vezes e a aperto. Assim que a música acelera, ela e eu aceleramos; nossos toques durante as canções ganham malícia e o corpo da garota escorrega por cada centímetro das minhas pernas e tórax. Consigo a sentir perfeitamente e ela, sem dúvida, me sente. A primeira hora é aquecimento, já na segunda e terceira, estamos passando dos limites em meio a pista da festa no centro da cidade.

— Onde? — pergunta ela conforme entramos de volta no hostel madrugada adentro.

— No banheiro.

— E no seu quarto? — ela questiona.

São 5:00 de sábado e os casais que dormem no quarto compartilhado roncam e se mexem esporadicamente. A Celeste e eu entramos com cuidado e vamos até o meu beliche. Lotado! Tem tanta bagunça em cima do meu colchão que faríamos muito barulho para ajeitar as coisas. No lado direito do quarto, no extremo oposto do meu beliche, está a cama impecável do Carlos, o argentino que ainda não retornou da festa no pub. Por sorte, a cama de cima do beliche dele não está ocupada e a garota e eu temos mais privacidade, se é que isso existe em um hostel.

Enrolada na toalha, Celeste sai do quarto algum curto tempo depois, levando sua calcinha e sutiã nas mãos e fechando a porta com cuidado. Nada melhor do que ter privacidade após o sexo casual, se é que o te rolou aqui pode ser chamado de sexo, mas ok, me sinto bem mais por ter entrado em combate do que por ter hasteado a bandeira do Brasil. Me levanto pelado no escuro, olhando para os casais, atrás de indícios se há alguém acordado além de mim. Fito a cama do Carlos por um instante e lamento pelo estado dela. Vou para meu beliche, empurrando tudo para o chão já não me importando se alguém acordará. "Eu que não vou dormir naquela cama toda suja", penso eu.

Hoje, domingo, 22 de março de 2015, haverá show de uma das bandas de Pop Rock mais importantes na Argentina e para lá nos vamos. Mais fernet com gelo e Coca-Cola, música e gente bonita falando outro idioma para todos os lados.

Isso — digo no ouvido da Celeste conforme ela rebola ao ritmo da música ao vivo.

— E SE EU QUISER FICAR COM OUTRO GAROTO, VOCÊ SE IMPORTARIA? — ela grita ao se virar para mim, tentando vencer o volume da música.

— Não! — falo instintivamente, sem ter processado a informação, embora eu conclua que a única resposta honesta.

Não demora muito para um homem aproximar-se da Celeste no momento em que me afasto para conversar com o Carlos sobre as bebidas em sua mochila.

— Você é o namorado dela? — questiona à mim um rapaz de olhos verdes que com cuidado veio até mim, provavelmente ele me viu com ela e não percebeu nenhuma carícia que evidenciasse se estávamos como "casal".

No mesmo momento que digo "Não", a Celeste reitera ao rapaz — Não, ele é gay, um amigo apenas.

Apesar da grosseria e por não crer na minha maturidade para a situação, eu confirmo ao rapaz balançando a cabeça, dando um abraço lateral no Carlos que está ao meu lado.

— Não venha me abraçar. Viu o estado que tu deixaste minha cama, boludo? — brinca o Carlos, me chamando de "boludo" o equivalente a "tonto" no Brasil.

A Celeste e o rapaz começam a conversar. Ela, que agora dança com mais calma e mais afastada de mim, ainda não se desconecta completamente daqui, fitando para trás para conferir se o Carlos e eu ainda estamos aqui ou, talvez, se eu estou olhando para ela. Quando olho é mais para observar o exagero da situação toda do que por alguma manifestação sutil do ciúmes.

— O que aconteceu, Aldo? — Pergunta a Romina com o Carlos e Miguel ao seu lado.

— A Celeste tá fazendo a festa — falo reparando no quadril abrasileirado da moça há bons metros de nós — , deixa ela aproveitar o carnaval dela.

— Ela tem um parafuso a menos— diz Romina com o semblante em desacordo.

Eu sorrio. Embora eu não concorde com seus métodos, exagerados, quase gritantes, entendo o aparente desapego da Celeste, quem sabe para combater seu demônios é disso que ela precisa, provar para si mesma que pode ter o que quer e ainda assim desapegar-se quando quiser. Já fiz o mesmo, mas não nesta intensidade, ansiedade toda.

Seguro uma garrafa de fernet e pulo abraçado ao Miguel, um rapaz que eu e o pessoal conhecemos hoje no hostel. A Celeste, após alguns minutos, retorna próximo da gente e me abraça pelo pescoço. Enquanto encho o copo do Miguel com a bebida escura e amarga e o Carlos faz o mesmo, porém com a bebida escura e doce, a Celeste e a Romina voltam a dançarem juntas a canção ao vivo. A garota das sobrancelhas grossas outra vez me abraça, agora pelas costas e começa a erguer minha camiseta sutilmente.

— Tu bem elétrica hoje, ? — pergunto com aquele sorrisinho canalha na cara, olhando a argentina por cima dos ombros.

— QUE?

— TU BEM LOUCA HOJE — tenho de gritar para ela ouvir.

— SIIIMMM — berra a moça em minha orelha, produzindo um zumbido desconfortável, porém engraçado porque o grito foi previsível e antes mesmo de ele ser dado eu já tinha apertado as pálpebras, fazendo careta.

A garota com os olhos cerrados se sacode no ritmo das pessoas a nossa volta, vindo para minha frente e entrelaçando seus braços em meu pescoço. Três garotas dançam próximos da gente e uma delas, morena, cabelo liso, mais jovem, me entregou os olhos tímidos com um sorriso. Volta e meia nossas miradas chocam-se.

Hola — a cumprimento mostrando os dentes, sem ter certeza se aquela garota, que pode ser brasileira, conseguiu fazer a leitura labial.

A moça abana gentilmente.

Me passa pela cabeça que ela não deve estar entendendo nada sobre minhas intenções sendo que a Celeste está pendurada nas minhas costas.

— ELA É APENAS UMA AMIGA— vocifero o mais alto que posso para a nova moça mais adiante, me referindo a Celeste que já está tirando os braços do meu pescoço com a ajuda das minhas mãos.

A outra garota, me deixa um sorriso mais, porém este mais largo. Vou até ela e suas amigas, garotas entre 20 e 22 anos que começam a rir com minha aproximação se isso fosse algo engraçado. Comprimento cada uma com beijo no rosto e me volto totalmente para a morena argentina de 21 anos, de cabelo liso, negro como petróleo e comprido um pouco além dos ombros. De estrutura magra, pele mais escura que os padrões de sua nacionalidade e de rosto com traços familiares, a moça tem todo o ar de brasileira. E dona de um sorriso bonito para um país onde a classe-média não tem os mesmos cuidados bucais vistos na classe-média no Brasil.

— Não fique tímida, a Celeste é só uma boa amiga — falo sem conseguir conter meu deslumbramento com a beleza da moça.

Me aproximo um pouco mais da argentina de pele morena. Embora ela não diga nada mais, tem seus olhos dentro dos meus e um semblante de expectativa.

— Dizem que o carinho de brasileiro é diferenciado— falo em português, arriscando um pouco do possível charme estrangeiro, mas sigo no pouco espanhol que já percebo em mim — . Tu boca es hermosa y la quiero un poco.

May (May © Todos os direitos reservados)

May. May é o nome dela. Ela ainda sorri, contudo, pondo seu cabelo para trás de uma das orelhas, seus olhos deixam os meus e miram um pouco mais acima do meu queixo. Um tanto adolescente, pelo menos eu esqueci o frio da noite argentina com ao desaparecer com aqueles poucos palmos de distância que ainda nos separavam. Nos beijamos. Não houve sinais na natureza passiva feminina mais claros do que aquela mexida no cabelo, mas principalmente quando ela olhou de tão perto para a minha pouca, mantendo a boca dela ligeiramente aberta.

Ela diz alguma coisa, mas não consigo ouvir, a música está muito alta e o seu espanhol encabulado não ajuda muito. Conversamos por um breve período, digo meu nome e ela me adiciona em seu celular enquanto ela pergunta como é possível alguém não ter celular. Não é hora de eu dizer para ela como vim parar no carnaval no centro da Argentina, seria informação demais para a moça que só quer dançar, entretanto digo a ela que antes de partir da cidade, eu enviaria alguma mensagem. A beijei outra vez e então voltei para meu grupo. Eu nunca mais voltaria a ver ela novamente. Acidente das circunstâncias.

Sai fora!

— Posso saber o porquê? — questiono achando a postura da Celeste totalmente confusa. Sorrio e tento trazer ela para perto, porém a tucumana se afasta e desaparece no meio das pessoas como uma criança emburrada.

Algumas horas depois.

“Se eu pudesse comeria uns 50 croaçãs e beberia uns dois litros de achoco_ _ _”, penso enquanto mastigo o café da manhã na cozinha do hostel, mas sou interrompido com a Romina entrando abruptamente no ambiente, puxando sua mala.

— Me dá um beijo, Aldo, que nosso taxi já chegou — diz ela me entregando sua bochecha.

— Tinha esquecido que vocês iriam embora hoje — digo dando um abraço apertado na garota—. E a Celeste, onde ela agora?

— Lá na rua, de cara fechada.

Abro a porta do hostel e vejo uma garota sentada em sua própria mala, de óculos escuros em uma manhã gris que anuncia chuva a qualquer momento. Atravesso a rua e me aproximo da moça de sobrancelhas grossas.

— Sol forte hoje, não?

— É — responde Celeste com desdém, nem sequer coloca sua cabeça apontada na minha direção.

Não falo uma só palavra, sento no meio-fio próximo à ela e toco brevemente sua canela. Tento olhá-la nos olhos, mas a criança de 30 anos vira para o outro lado. O taxi chega, a Romina cruza a rua e entra no carro com a Celeste fazendo o mesmo o mesmo, sem qualquer movimento que a colocasse em contato visual comigo. Me levanto, passo pela frente do Fiat, o tocando no capô. “Não recompense cães desobedientes”, recordo a medida que passo pelo portão metálico do pátio do Pupy's e, ouvindo o som do carro taxi arrancando, entro no hostel me imaginando se eu seria capaz, com todo o meu esforço e desejo, de comer 50 croaçãs com a ajuda de dois litros de achocolatado.

Ilustração, Aldo Lammel

Fones nos ouvidos, volto à estrada. Pedalando para Mendoza onde o tédio da soja e dos milharais dá lugar aos aromáticos vinhedos em colheita. Na retina de quem vos escreve, brilha o contorno das primeiras montanhas que vejo na vida, com seus picos polvilhados de branco, como açúcar em pães doces magistrais que parecem poder tocar o azul do céu, escondendo atrás de si mesmas as verdadeiras montanhas dos Andes. Será uma honra atrever-me a cruzá-las por seus sopés com minhas mochilas e minha bike. "Montanhas", converso comigo, seguindo na direção de Potrerillos, reparando quão firmes, resistentes, frias elas conseguem ser. Eu nunca havia feito as coisas verdadeiramente sozinho, nunca me pus à prova de forma tão nua, desprotegida. Me ver diante de algo gigantesco como uma cordilheira, ilustra o quão insignificante sou sozinho, porém por mais masoquista que possa parecer, é importante pra mim a experiência, assistir como construo minhas próprias histórias como na decisão de ir até San Luis ajustar os ponteiros do meu relógio emocional. As vezes me pergunto o que faz minhas virtudes florescerem e meus demônios ocultarem-se, mas é cedo demais para eu estar seguro sobre o assunto. No entanto, diante da vontade que tenho pelo novo, pela aventura, pelo bonito que sempre será abraçar uma nova família na estrada, existe algo do antigo Aldo que não posso permitir-me abrir-mão porque se tem algo que aquele Aldo ainda sabe fazer bem, é uma mulher feliz na cama. Tem certas coisas que não se trata de bonito ou feio, certo ou errado, vulgar ou não, esquerda ou direita, é simplesmente uma merda de questão de equilíbrio.

Aldo Lammel, M&B Websérie

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