A JANELA DE BUDAPEST

Capítulo 22 do livro “DIA 922: Uma Longa História Sobre Estrada”

A vida explodindo em opções na noite de Budapest é de uma disparidade fácil de te dizer quando recordo da sonolenta Wien e da modesta Bratislava onde estive uns 10 dias atrás. Aqui os sons de baladas, de gente conversando animada, estão por muitos lados. Pessoas buscando alguma diversão, a maioria atrás de um dos clubes na Király conforme o frio misteriosamente pega leve no mês de fevereiro. O Christopher e eu temos sorte, contudo não me refiro ao inverno ameno nessa parte da Europa. Estamos na companhia da Agnes. Hoje mais cedo, após o Chris chegar da Alemanha e eu pegar algumas roupas no apartamento do meu amigo Péter, nos transferimos ao flat da jovem húngara que nos convidara via CouchSurfing quando eu ainda estava na Eslováquia. “Vocês são bem-vindos por duas noites em meu apartamento, rapazes”, escrevera ela. Como o Chris tem apenas duas noites por aqui antes de voltar à Alemanha, estou certo que a Agnes nos facilitará encontrar bons lugares para eu curtir a companhia do italiano. Bem… Esse era o plano desde algumas semanas atrás enquanto comíamos carne do porco assada naquela praça de Praha.

— TÁ CHEIO — próximo ao meu ouvido, o italiano refere-se ao bem frequentado 4BRO Downtown assim que ele paga por duas entradas.

A Agnes nos dissera que se nós quiséssemos ver húngaros e ouvir hits internacionais, aqui seria o lugar. Cá estamos. O ambiente de entrada, a área dos fumantes, já me veste uma ótima expectativa de poder dançar e praticar mais meu inglês ainda muito pausado. Vejo equilibro entre homens e mulheres, gente bonita e semblantes contentes. Passos para lá da bizarra cortina de plástico que separa aqui de lá, e o bar surge com um ambiente mais social com Pop Music pra esquerda e uma festa eletrônica mergulhada na escuridão dois lances de escada para baixo à nossa direita, logo ao lado da chapelaria lotada de gente que vem chegando ao 4BRO. Jaqueta pendurada, número do cabide guardado no bolso e, com olhos afiados, dou um tiro de escopeta com o sorriso mais largo que tenho no cartucho, abrindo espaço no meio da multidão aglomerando-se entre da área mais social do clube e o largo marco que define a entrada da festa mais pop. Todos os tipos de fragrâncias e preços me acertam. O Boss Soul pulverizado com cuidado sobre mim ainda me faz falta. A Agnes imediatamente atrás de mim e o italiano vem em seus calcanhares.

— NÃO SOLTA MINHA MÃO — virando meu rosto ainda que sem enxergar a húngara, mando em voz alta à ela.

Alcançamos a pista defronte ao outro bar dentro o clube. São 01:50 de sábado. Dançamos juntos. Intercalo a atenção entre a anfitriã e Chris, porém eventualmente me perco da dupla indo ali ou lá. Não me distancio, estou na área. Por cima de duas dúzias de ombros minha atenção colide com a de uma moça esguia de cabelo escorrido e camisa azul capri entre dois altos rapazes dançando à sua frente. Parecem ser amigos. “Alemães”, especulo eu em silêncio, me referindo aos caras. Iris fixadas, lábios esticados e curiosidade escrachada vindo daquela moça. A garota espia-me por entre os rapazes e, com calma, ela passa por eles e se faz mais acessível até estar defronte comigo. Estendo a mão para ela. Ela aceita. De modo geral quando convido uma dama europeia a movimentar-se com a proximidade que a dança latina pede, geralmente sinto a hesitação da moça tentando se afastar ou enrijecendo a musculatura das pernas, entretanto, a moça da camisa azul capri é leve como uma pluma. Maleável como uma latina. A propósito, o indescritível perfume de magnólia com acordes de laranjeira e a elegância da camisa Konsanszky abotoada até o colarinho, dão sofisticação e delicadeza à desconhecida de cílios alongados e quase sem nenhuma maquiagem além do batom discreto. E nesse contraste de garbo e ousadia, ouço sua voz calma a primeira vez.

— ITALIANO?

É fácil de encontrar dúvidas no cenho da desconhecida quando digo ser do Brasil. O sorriso sugestivo e um olhar espremido sobre mim me dizem que ela ainda não acredita. Eu a faço carinho escondido por entre a dança. Nem sequer falamos. Literalmente. Os braços delicados cobertos por mangas longas bem abotoadas ora me empurram para longe e aproveito para dançar com outras garotas, incluindo a Agnes. Ora o corpo da desconhecida choca-se contra o meu e as mãos que empurram também puxam. Por reflexo, pouso a palma da mão direita no centro das costas da garota conforme meu braço esquerdo permanece livre para sentir a canção. Confortável, a moça da camisa azul escora seu quadril ao meu, reclina-se para trás em movimentos suaves abdominais que me exigem força do braço direito para mantê-la equilibrada. Ela se faz outra vez ereta e nossos lábios se tocam de raspão, muito hálito é deixado embora nenhum beijo se concretize.

O semblante brincalhão dela se modifica, aproxima-se de meu ouvido e convida em inglês — Quero te pagar uma bebida.

— Me chamo Aldo — me apresento assim que nos escoramos lateralmente de frente um para o outro ao balcão do segundo bar, este próximo a pista.

Ela me estende a mão formalmente com um sorriso debochado lhe fugindo e o olhar direto como uma executiva cumprimentando o cliente que ainda não sabe, mas que assinará o contrato. Somente no instante posterior ela se anuncia — Franci. Prazer, suposto brasileiro charmoso chamado Aldo.

O barman se aproxima.

— Szeretnék egy gin-tónust és egy… — ela diz em húngaro ao homem, me devolvendo a mirada.

Pelo contexto, deduzo de imediato em inglês — Vinho branco. Seco, por gentileza!

O rosto da morena retorna ao barman que parece já ter entendido — És egy Royal Borház fehér. Száraz, kösz.

O rapaz assente com a cabeça e se vai.

— Amanhã a tarde eu tô indo embora — digo para trazer à morena o sentimento de urgência — . Talvez essa madrugada seja uma daquelas memoráveis de se recordar em alguns anos…

Ela não comenta. Me analisa com o mesmo sorriso sugestivo de minutos antes.

Eu continuo — O brasileiro. Vinho. A húngara…

Outro momento ainda mais longo de silêncio. O barman ressurge, entrega à ela seu copo de gim-tônica e a taça de Royal Borház escorrega gentil para meu lado. A própria moça quebra o silêncio questionando — Porque você tá aqui comigo?

— Porque eu não deveria?

Ela mal se move, pouco pisca. Ao balcão, suas mãos são calmas como um veleiro em mar sem vento; ainda não tocaram na bebida. Franci admite fitando a Agnes e o Christopher metros pra lá de nós — Pensei que ela era a sua companhia.

— A Agnes, não. Já você, sim.

O cenho da morena não muda. Quase não pisca.

Eu explico — Ela é só uma amiga que tá me hospedando da cidade.

— Então tu não estás num hotel…

— Não. Na verdade não sou um turista. Sou um daqueles viajantes que você deveria evitar…

Ela sorri, se deixando entrar mais no jogo — Ah é? Porque?

— Um brasileiro, uma húngara…

— E o que aconteceu com o vinho da sua história?

— O vinho eu já tenho em mãos — dou outro gole a taça sem desviar-me dela — … Tá me faltando a húngara que eu quero…

— Eu tenho que trabalhar essa manhã — ela franze a testa, me encarando — , inclusive meus colegas de trabalho estão olhando pra nós.

É de uma classe indescritível ouvi-la dizer isso sem tirar a mirada daqui. Me obrigo a falar com a confiança que ela me permite ter (ou não) — Me parece simples… Vamos agora até sua casa, transamos, dormimos um pouco e você vai trabalhar e eu, embora.

A quietude outra vez. Ela sorri mais abertamente agora, sacudindo a cabeça em reprovação à si mesma, trazendo o rosto de novo em minha direção. Taxi tomado, são quase 3:00 de uma madrugada ainda gelada de final de inverno. O carro arranca pela Király, gira à direita e logo à esquerda. Da rua József Attila, contornamos a pequena praça oval onde está István, pai do Império Húngaro, marchando eternamente em mármore e escoltado por quatro cavaleiros imortais bem armados metros antes da ponte. Ao banco de trás do taxi, mal consigo torcer o pescoço pra deslumbrar os pormenores do monumento quando dois leões surgem congelados no tempo em tamanho natural diante do carro, tutelando a entrada leste da belíssima Széchenyi Lánchíd. A ponte pênsil imerge da escuridão com postes que confundem-se como tochas vencendo facilmente a leve bruma noturna, e o quarteto de vigas alongadas e curvadas sobre seu próprio peso metálico nascem em cada lado dos dois arcos da Széchenyi. São como tentáculos de proporções épicas, imóveis e cinzentos da espessura de quatro centuriões abraçados e deitados. O sentimento de liberdade, de novidade, mesclam-se com a vistosa imagem de Budapest noturna, uma capital que me faz querer estar mudo e assim permanecer, experimentando quem sou. Onde estou. Aquele voar imprevisível das borboletas que altera planos. O acaso que me leva pra sei lá onde com seja lá quem for pra fazer o que o destino quiser. As águas negras vão ficando centenas de metros pra trás e eu nem sei que rio é este.

— Já esteve em Buda? — pergunta a húngara, girando o rosto para o lado do motorista, fazendo do seu cabelo uma cortina negra que não me deixa enxergar mais do que uma fração de seu rosto fino e linhas que me são muito atraentes. Ela não me aguarda responder, e que bom porque não quero falar — . No passado fomos duas cidades. Nós estávamos em Peste e agora estamos indo pra Buda.

Em mil anos de história, tudo que sei sobre os húngaros são porções de poemas sobre a vida nômade, guerras e seu idioma magiar, tão peculiar, de origens montanhosas para além dos Cárpatos, para lá até onde se chega aos Urais. As luzes flanqueando absolutamente cada metro do Castelo de Buda nos dá boas-vindas assim que a ponte termina no lado oeste da cidade. O castelo se engrandece contudo logo desaparece assim que entramos no curto túnel que transpõe a colina do castelo. O taxi percorre não mais que seis dezenas de metros além da colina e chegamos onde deveríamos.

— Tá frio. Vem! — ela sugere, dando passos largos do taxi até a porta de seu edifício.

O prédio é velho e escuro por dentro. Europeu. A morena havia digitado a senha ao painel e a porta principal estalou. Acho que fico parado por algum tempo reparando no grafite divertido à parede lateral do edifício ao lado. Parte preto e branco, parte colorido. Deve ter 15 metros de altura por aquela parede lisa. Entro no prédio, o cheiro de lixo me acerta. Dispostos imediatamente ao lado interno da porta principal do edifício, dois tonéis de um metro e meio de altura são usados como contêineres para o lixo de todos os moradores. Não me é surpresa. Vi o mesmo tanto no edifício do Péter quanto no da Agnes. É comum na Hungria pelo jeito. Dois lances breves de escada de pedra branca e o molho de chaves chacoalha e a porta negra de madeira, com uma pequena janela ao centro que deixa a claridade do apartamento vir até nós, se abre para dentro. Um apartamento modesto, de banheiro, uma cozinha pequenina e a sala que também é quarto. Tão antigo que o chão amadeirado geme sutil ao ser pisado. Tudo é aconchegante ainda que simples. Sobre a cristaleira e a armário de roupas, ambos à parede esquerda do apartamento, uma solitária linha de luzes natalinas é deixada ligada sobre os móveis envelhecidos, dando um tom alaranjado a sala. O sofá-cama, aberto, completamente bagunçado. Um prato com cascas de tangerina, uma pilha de revistas de economia e um livro grosso intitulado Shakespeare. Não há qualquer quadro além dum amuleto indígena solitário na parede. A única janela do flat, grande o bastante para roubar minha atenção, revela Budapest vazia e muda lá do outro lado.

— Não repare! Tem poucos meses que saí da casa dos meus pais — a voz dela sai firme, sem dramas, continuando — e pra ser sincera, eu não tinha planos de trazer alguém aqui tão cedo.

Sorrio. Eu continuo não querendo falar. Inglês cansa. A ajudo com o sobretudo. A textura da peça acinturada é tão áspera e espessa que, disfarçado pelos cortes elegantemente curvos, o sobretudo aterriza pesado no sofá ao lado. Ela vira-se. A seguro pela fina cintura por debaixo da camisa. Pele aprumada e febril de mulher jovem. A trago pra mim. Seus braços levantam-se e se enrolam por cima de meus ombros. Eu não tinha reparado que espalhadas pelas linhas capri e branco da camisa dela, joaninhas vermelhas em tamanho natural estão delicadamente bordadas.

— Ei…

O beijo acontece. De dentro da peça de luzes fantasmagóricas, à camisa dela, um botão de cada vez eu abro sem pressa, de cima pra baixo até ter o botão do seu jeans skinny em meus dedos. Na companhia da janela que se estende do piso ao teto um par de passos além de nós, sua cortina aberta, seu vidro a espelhar e, por fim, Budapest se entrega deitada de costas ao sofá.

Olhando bem em sua cara, eu digo — Franci!

Horas depois.

— Finalmente… — preciso verbalizar aliviado ao sair do metrô e reconhecer o cenário.

Metros caminhados para lá, encontro a fachada que procurava no bulevar Erzsébet. A Agnes vive aqui. Sem bateria no celular, endereço e até mesmo em que parte da capital vive a garota, se perdeu. Cheguei aqui unicamente contanto com uma memória fotográfica que evoluiu acentuadamente desde o início da viagem. Reconheci o nome da estação de metrô que usei com o Chris ontem e, ao descer ali, refiz nossos passos procurando pescar qualquer familiaridade nas fachadas dos negócios pelo longo e bonito Erzsébet neste sábado de 18 de fevereiro.

— Interfones europeus — resmungo ao ver que no lado dos botões no painel encravado no concreto não existem números e sim os sobrenomes dos moradores ora impressos, ora escritos em garranchos à caneta.

Não faço ideia do sobrenome da Agnes. Uma senhora me pede licença e abre a porta com a chave e eu pego o embalo e no quinto andar reconheço as quinquilharias que a húngara deixara para o lado de fora de casa.

— Eae, como foi? — questiona-me Agnes ao abrir a porta. Sua expressão é de pura curiosidade ao me deixar entrar no seu flat no centro da capital. Ela palpita — Noite agradável?

Acabo sorrindo mais do que devo. Foi um tanto assustador não saber exatamente pra onde voltar de Buda pra Peste aonde todas as minhas coisas e algum dinheiro estão. Penduro a jaqueta preta de pluma nos ganchos atrás da porta e abandono o Nike branco de qualquer jeito pelo piso frio do pequeno hall. A porta do quarto está entreaberta. Indo até ali, pergunto — O Chris tá dormindo?

A Agnes gagueja dentro do seu pijama.

Com um empurrão, abro a porta do quarto por completo sem ouvir o que a anfitriã tem a dizer e, às risadas, incomodo quem encontro em meio a lençóis retorcidos e deitado em obliquo — Vamo levantá?!

Os grunhidos sonolentos do rapaz moreno e de barba por fazer abafam-se contra o volumoso e macio travesseiro da cama de casal no único quarto do flat.

— Pare de sonhar com a brasileira! — falo precavido em português e batendo palmas, continuando — Vamos! Levanta!

— Aldo… Você é muito chato!

Como não rir ainda mais? Eu não previ que na viagem pelo mundo eu me encontraria em diferentes capitais europeias com um amigo de estrada, ainda mais com este italiano peludo e parrudo do tamanho dum gnomo. Eu insisto aos risos — Levanta!

Com humor preguiçoso e como um morto-vivo em miniatura, o italiano de Verona passa por mim de olhos fechados para, três passos além da porta do quarto da Agnes, entrar no banheiro sem vazo sanitário, fechar a porta com alguma educação e falar o português caipira que não lhe abandona — Chato da porra! Vai trabaiar!

Agnes cuidando de seus assuntos para um lado e Christopher e eu para outro. Budapest cresce diante de nós dois e, sem roteiro, vamos caminhando sem destino pelas ruas de final de semana com céu ora ensolarado, outras vezes nublado. Claro que conversamos sobre a noite anterior e nossas besteiras e risadas vão quicando por cada esquina. É notória a semelhança entre Budapest e Praha ainda que sejam capitais de países diferentes. Poderia eu me referir as experiências com mulheres e brindar de satisfação como marinheiros fariam de volta ao mar após uma libidinosa semana atracados numa cidade portuária, porém falo de outros detalhes. Percebo que um rio corta Budapest como o Vltava divide Praha. Ainda que as pontes daqui sejam mais imponentes do que as da cidade tcheca, em ambas capitais às margens oeste dos rios têm relevos acidentados e ao menos uma colina emerge abrigando um castelo e áreas arborizadas, enquanto nas margens leste, as áreas centrais são planas e agitadas por turistas onde quer que sua mirada descanse. Em qualquer uma das cidades, se não houvessem jovens que dominassem o inglês, os idiomas tcheco e húngaro, mesmo que de famílias diferentes, soam como línguas de outro planeta em ouvidos acostumados às línguas latinas. Enquanto na República Tcheca os sobrenomes mudam de acordo com o gênero do portador, na Hungria reparei que aqui os sobrenomes se escrevem na frente dos nomes. Aliás, o nome do fundador do país, István, está por todos os cantos de Budapest. Os mundos cristão e otomano que pisaram aqui travaram muitas guerras. A Hungria carrega uma das maiores misturas de influências entre os países europeus; um território que desde 300 anos antes de Cristo foi ocupado por celtas, romanos, hunos, otomanos, nazistas, soviéticos e, num passado mais recente, por comunistas até se tornar a república democrática que é hoje. E as influências dessa sangrenta história neste pedaço do Leste Europeu está entalhada na belíssima Budapest, a capital de ruas largas de inspiração germânica, banhos termais turcos, cafés vienenses e arquitetura renascentista. Entre Buda, o distrito histórico que abriga o castelo, e Peste, com construções em forma de palácio que se posicionam umas ao lado das outras a perder de vista, corre a principal artéria da cidade, o tal rio que ainda não sei o nome, onde turistas e locais se mesclam para apreciar um bom Tokaji e bate-boca sobre a origem deste vinho ser húngaro ou eslovaco, da mesma forma que ocorre com o doce de chocolate a base do curioso pão cilíndrico, vezes chamado pelo nome tcheco Trdelník, e aqui e ali pelo complicado Kürtőskalács na versão húngara. O fato é que eu ainda não experimentei; o que é interpretado como sacrilégio nesta parte central da Europa.

O Chris dá dois tapas no concreto liso e maciço da mureta das fundações leste da ponte pênsil, convidando-me a sentar sob a sombra da Széchenyi e seus tentáculos. Fitando o castelo distante à nossa frente, ele comenta — O Danúbio é bonito em…

Surpreso, eu o questiono — É o Danúbio?

— Ecco — afirma ele em italiano.

A sinestesia de saber que rio é este cria um potente relâmpago que ilumina uma série de recentes recordações. Catatônico e com o rosto apontado para baixo a reparar a ondulação das águas do Danúbio acertando as rochas dois metros além de nossos pés suspensos ao ar, eu comento — A primeira vez que vi esse rio eu estava na Alemanha. Em Ulm. Aquilo foi um ou dois dias antes de eu conhecer você em Augsburg.

Christopher ouve mas com o semblante virado aos detalhes da estrutura sólida da ponte ao alto de nossas cabeças, à direita.

Eu continuo — E estes dias eu estava em outro país e de novo no Danúbio… Tu já jogaste comida pras gaivotas?

O italiano faz uma cara engraçada — Não.

— Elas pegam em pleno voo… — digo subindo a cara até a altura do horizonte onde a cúpula do castelo do outro lado do rio resplandece em arquitetura.

Christopher dá uma risada e desabafa — Aldo, as vezes você muda de assun_ _ _

— Chris… — sentado à mureta ao lado do italiano, falo abruptamente, amansando meu tom de voz antes de continuar — obrigado por ter vindo. Sei que parece bobagem mas é muito bom ter alguém que eu conheça e gosto aqui comigo.

O cenho europeu do engenheiro se ilumina e com um abraço fraterno o rapaz quatro anos mais novo diz — È bello essere anche qui, fratello mio.

Não entendo nada de italiano. Acho que ele deve ter falado que sou bonito pra caralho.

Nós saímos dali. Cruzamos a ponte pênsil e fizemos fotografias. Acho que nos abraçamos o suficiente, que conversamos o bastante nestes dias. Ou também não. Cada canto que enxergamos, o Christopher e eu fomos a pé até lá; até chegar o dia seguinte e a hora exata de nos separarmos pelas profundezas do metrô de Budapest. Eu de um lado e ele indo para o outro na plataforma. Lá se foi ele embora para a Alemanha, exatamente como ele fez em Praha. Seu último comentário outra vez foi o desejo de me encontrar na Itália. Ele está certo de que nos encontraremos lá, ainda que eu insista que meu plano é e sempre foi costear o mar Adriático através da Croácia e outros países dos Balcãs. Acho que o Chirs não quer me ouvir e de alguma forma isto está surgindo efeito sobre mim. A Itália passou a ser uma opção ainda que remota.

Nós, o Danúbio e a Széchenyi (Aldo Lammel, CC BY-NC)

A passos largos pela central Deák Square, leio o relógio do celular. Ainda me acostumando a ter um celular disponível e ignorar o Tommy Hilfiger ao pulso que funciona quando quer. Estou no horário combinado. O frio da noite já chegou, devo lhe avisar. Uma área coberta com aquecedores elétricos para ambientes externos é algo que vi somente na Europa. E vem bem a calhar.

— Senhor, você gostaria de beber algo?

— Não, por enquanto. Estou aguardando alguém, obrigado.

O garçom assente com etiqueta, gira nos calcanhares e entra novamente à área interna e melhor climatizada da casa de vinhos. Meus pensamentos voltam-se à fachada da basílica algumas dezenas de metros adiante.

Passei as últimas horas pensando se me faz bem rever alguém de um país que não é onde vivo. Alguém que, ainda que eu o encontre uma e outra vez mais pelas cidades do continente, chegará logo o dia que a distância será muita e a última despedida será inevitável. Que curioso; não é como sair de casa pelo tempo que for, existe o argumento de que um dia voltarei; não é como dizer tchau sem olhar pra trás na direção de pessoas que conheci somente ontem. É distinto. Estes reencontros são razoavelmente longos para se encontrar semelhanças e curtos para entender se tudo não passou de entusiasmo.

— Oi.

Ela está bonita. Cabelo preso em coque se torna charmoso em rostos finos como o dela. Outra vez um pesado casaco preto lhe acolhe da temperatura das 20:03. Ligeiramente abaixo de zero aqui fora. A voz solene da moça expele vapor. Seus olhos de cor escura são vigiados por lábios que não exibem mais do que um sorriso educado. Ela é ponderada e tudo que me entrega é o aperto de mão formal.

— Como foi o seu dia? — pergunto.

Sem uma palavra, a húngara desvia a mirada por cima de meus ombros, sinaliza algo à alguém para então voltar-se à mim e responder — Corrido, como todos os outros. E o seu?

— Você tá bonita.

Ela sorri moderado. Quase como se não quisesse ouvir isto. Por fim comenta — Você diz isso com frequência, não é?

O rangido da porta de madeira e vidro da elegante casa de vinhos abre-se e a atenção do garçom chega a nós ao balcão amadeirado e coberto, meio metro acima do nível da larga e longa calçada da quadra prioritária aos pedestres. Pedido feito. Há alguns casais no ambiente interno da casa bem iluminada. Somente a Franci e eu ao lado de fora. Imagino que ela queira fumar mas ela não toca na bolsa.

— E seu amigo — pontua ela — , ele foi embora?

Assento, confirmando com a cabeça.

— Imagino que seja especial rever amigos enquanto se viaja — deduz ela, cruzando as pernas ao pequeno banco individual, arredondado e sem encosto à nossa mesa.

A voz infantil vinda da margem circular da fonte desligada nove metros para lá, ecoa. Uma menina de aparentes 11 anos passou a cantar. Ainda que imaturo, o timbre corajosamente afinado em tons altos, a dizer em húngaro versos de música qualquer. Sua única plateia imediata é a senhora obesa defronte a fonte, provavelmente a avó da menina. O garçom pousa as taças em nossa mesa e a húngara pede por um brinde, torcendo-se na direção do chafariz.

— Ela tem uma voz bonita — comenta a húngara.

— Verdade.

Algum tempo de quietude e contemplação passeia entre nós. A garotinha nota que a assistimos. A Franci e eu lhe damos um sorriso e eu empreendo um aplauso solitário. A morena deixa a taça e unir-se. A pequena garota encabula-se e caminha com os ombros encolhidos na direção da velha que a afaga.

— E o que você acha da nossa basílica? — Franci aponta o rosto para além da fonte aonde as luzes quentes da edificação católica emanam.

Dois campanários idênticos, um de cada lado na face frontal da igreja de superfície clara e cobertura enegrecida pela noite. Seus quase 100 metros de altura vão da calçada belamente trabalhada com pedras polidas até a cúpula central que me remete familiaridade; provável por ser semelhante o domo do Castelo de Buda.

— É belíssima — digo, me deixando beber do amargo vinho em mãos. Ainda preso aos detalhes da igreja, pergunto — Como se chama?

A voz calma e de dicção impecável, ela me responde precisa — Basílica de Szent István. Aliás, lá de cima tu tens uma visão inconfundível do Danúbio passando pela cidade. Tem quem ache Budapest parecida com outras capitais europeias.

— Praha — eu digo animado — … Sem dúvida uma das melhores experiências da minha viagem.

Franci me dá atenção.

Acho que estou sorrindo ao dizer — As pontes, as ilhotas. As colinas. Dá pra acreditar que eu gosto até de lembrar dos nomes das estações do metrô?

— Sério?

— Palmovka e Opatov — de fato estou sorrindo — . A República Tcheca foi grandiosa nessa trip.

A húngara me dá um fitada mais longa, analítica, que faz seus olhos cerrarem-se levemente e um riso sem graça lhe escapar pelo nariz. Ela volta-se a basílica e então diz — István foi o fundador da Hungria, da cidade, e também quem instaurou a Igreja Católica no que viria a ser o Império Austro-Húngaro. Nós poderíamos ter sido uma extensão da Turquia se não fosse ele… Não sei se tu percebeste que o símbolo da cidade são dois leões. Eles signific_ _ _

Beijo a Franci de repente e por aqui fico. A taça de sua mão sacolejou e gotas do vinho de alguma forma atingiram meu rosto e pulso, o mesmo com a mão bem entrelaçada nos fios de cabelo na nuca da morena, tão delicada e leve quanto uma folha verde de plátano. Ela não tem tempo de se defender e muito embora a Franci vista-se de garbo, o gemido lhe vem tão alto que eu desejo novamente aqueles gritos agudos de duas noites antes. A reação dela não é de me afastar, mas de me puxar pelo cinto ainda para mais perto de seu corpo ao banco que bamboleia instável. Assim como naquela pista de dança, me obrigo a segurar-nos para evitar uma queda. Outra vez ela confia no meu equilíbrio, e outra vez isso me ateia.

Sou empurrado.

— Não aqui — manda ela, contraindo as sobrancelhas severas e bem marcadas, ofuscando sua reação com um sorriso desmedido e uma encarada tímida conforme reorganiza seu coque bagunçado. Voltando-se com vergonha exalada à vidraça ao nosso lado, ela alerta — ! Budapest é uma capital muito pequena, Aldo!

O casal próximo e do outro lado da vidraça a beber, simpatiza conosco e, mostrando os dentes, procura não nos fitar mais. Modos restabelecidos. Pronto. Convite para uma longa caminhada noturna, eu recebo. Pelas largas ruas e alamedas de Peste com malhas de bonde, viemos a Buda onde tudo é mais alto e quieto.

Sob as cobertas e de costas sobre o sofá-cama, com um lado do rosto oculto nas trevas e o outro evidenciado pela claridade típica de círios vinda dos móveis ao lado, Franci me pergunta em murmuro à queima-roupa — Porque você mudou de ideia? Pra quê ficar tanto tempo em Budapest?

— Pra te ver!

O semblante feminino se alegra e as esferas negras oscilam como um pêndulo, indo de um para o outro olho meu. Devagar e convicta que suas palavras seduzidas por qualquer coisa que ela mesma criara sobre mim na cabeça, a húngara afirma sem hesitar — Você é um mentiroso muito sexy.

— Acredite no que você quiser.

Fora do horário comercial nos vemos quase todos os dias. No crepúsculo de cada tarde desta semana recebo suas mensagens gentis, perguntando o que estou fazendo e se quero vê-la. Teve noite que passei pelas pontes e a visitei em Buda, teve noites que insisti para ter sua atenção e acabei a comendo. Mas as noites da capital da Hungria sempre recaem sobre mim e de uma forma ou outra a Franci, seu sobretudo e os cigarros estão por perto. Nunca a vejo com ninguém além das vozes que a ligam em dois celulares diferentes. Ela as atende em húngaro, tão formal quanto ela lida comigo, exceto à cama e, com ela segurando-se com os braços em minha nuca e as pernas amarradas em minha cintura, em pé diante da janela. Hoje o Péter, dono do apartamento onde as vezes durmo em Peste, chegou de Paris após uma semana ausente. O fato do Péter sugerir vir até o apartamento da Franci para pegar comigo sua chave foi o bastante para a húngara exaltar-se, vestirmos algo e irmos para a rua, em um endereço diferente esperar pelo Péter.

— Aldo, Budapest é muito pequena — ela reitera, estendendo o alerta para o tamanho de suas preocupações — . Todo mundo se conhece!

Me pareceu exagero, considerando uma capital de mais de milhão e meio de habitantes, todavia, do mesmo jeito em que um encontro absurdo ocorreu na gigante Medellín um ano atrás, assim que a Franci e eu nos aproximamos do Péter coberto de capuz parado em uma esquina algumas centenas de metros do endereço verdadeiro, o semblante do meu anfitrião desfaz o sorriso. Fito a Franci e ela se aproxima do Péter com a mão estendida. Ambos falam formalmente em húngaro. Brincando peço para que alguém traduza, mas sou ignorado. Chave entregue e o húngaro pega o primeiro taxi que vem descendo a alameda Krisztina.

— Pode me dizer o que aconteceu aqui?

— Tu não precisas entender — comenta a moça, com alguma ironia e fazendo eu me sentir ingênuo.

Calçada, grafite na fachada, porta, senha digitada, contêineres de lixo, dois lances de escada, porta aberta e sofá-cama. Meu celular já pisca mensagem. É o Péter.

Péter diz: Aldo de onde vc conhece ela?

As revistas postas ao chão, a moça me tem e as roupas se vão. A noite rola até os passos serem dados como sempre em direção a janela. Ela alcança a porta de vidro; dessa vez não para abrí-la, não para ir ao balcão, riscar o isqueiro e inalar o fino Marlboro alongado. Ela fixa-se diante da abertura a observar o movimento soturno da alameda através da cortina de renda creme. Os goles no cabernet em suas mãos são espaçados, moderados. Tem-se silêncio.

Aldo diz: Pq? Fala logo!

Descoberto e reclinado sobre a cabeceira da cama, faço parte da mudez da moça, olhando para a tela do celular a aguardar sem sucesso uma resposta lá de Peste.

— Eu imagino que tu já tenhas algumas histórias pelo mundo…

Fito a Franci de costas para mim, à janela. Ela e seus trejeitos sofisticados de falar o inglês.

Brevemente sorrindo por cima dos ombros, ela explica-se — Quero dizer… Com mulheres por onde tu passaste.

— Não muitas.

— Eufemismo — diz ela, voltando-se a cortina à sua frente, entre ela e o vidro. Sua voz plácida acusa — . Tua história e comportamento não condizem com quem não tem muitas histórias sobre aventuras.

— Seja específica.

Imóvel três metros distante aos meus pés, o disparo é dado — Sexo!

Ainda que fosse justo convidá-la a retornar ao conforto do colchão na madrugada gelada, nada pode amenizar o ânimo de me sentir livre para contar o que quero contar — Ok, sobre alguém em Bratislava…

Meu celular atirado fora do meu alcance, pisca intermitente. Há nova mensagem.

17 dias antes.
 Bratislava.

O pequeno e velho celular em mãos. Um pedaço de ciência outra vez na rotina da minha estrada. Cinco meses por cinco países sem telefone. Nada mal. E ainda o Klaus me deu umas peças de roupas novas. Pano novo, Samsung na mão. Pude até fingir que aquilo tem crédito pra eu ligar para alguém. Rá, de novo eu era alguém normal, da cidade, bonitão outra vez… O sorriso me vinha no vagão de bicicletas encarando o dispositivo. Ao pequeno banco retrátil preso a parede interna do trem, notei o cenário até a fronteira Áustria-Eslováquia. É nevado, plano e se deslocava da direita pra esquerda mais rápido do que uma bike seria capaz. O GPS do celular denunciou que a fronteira já se fora, eu estava na Eslováquia. Foram poucos minutos de Wien até lá. Aos olhos treinados, ainda que a noite caíra naquela última meia-hora, avistei as placas de sinalizações pelos trilhos deixando o alfabeto germânico e assumindo o eslavo. Não é a escuridão que envolvia as primeiras estações que me era curioso. O interessante do lado eslovaco é meu cérebro reconhecer palavras do idioma local ainda que eu não fazia muita ideia do que significavam. Eram como palavras tchecas contudo sem tantos acentos. Ou quem sabe fosse um daqueles truques da memória fazendo-me recordar do porquê eu estava aonde estava.

— Vitajte v Bratislave — me deu as boas-vindas a voz masculina nos alto-falantes do vagão.

Pedalei forte ainda que não tanto quanto eu precisava. A Garibaldi desde a Alemanha não tinha mais freios. No lugar das pastilhas do sistema de frenagem hidráulica, eu estava usando o solado das botas The North Face direto no asfalto. As diretrizes do GPS de virar ali e pedalar pra lá vezes me confundia. As ruas diurnas da capital da Eslováquia ficavam confusas usando outro método de navegação. Readaptação, mas até então aquele negócio não sabia que havia uma escadaria ali e uma construção lá. Enfim cheguei ao Zbernicový terminál da Bratislava. A garota me deu um sorriso do tamanho da minha felicidade em vê-la. Grande. De mochila e arrastando uma mala rígida, nossos pés se alinharam ao lado da bici. Digo “Veronika” e o abraço foi dado.

Ao lado, já fazendo companhia à moça de Praha, quem se pôs disponível para nos receber na cidade.

— Oi. Vikki. — a anfitriã estendeu-me a mão.

Eu a cumprimentei, percebendo que as moças já conversaram pelo menos por 30 minutos antes da minha chegada.

Do meio do terminal central de ônibus à sala do apartamento da anfitriã na periferia leste da Bratislava. Da gentileza da Vikki em nos receber no pequeno e confortável apartamento à outra bondade de nos deixar a sós pelo resto daquela tarde de 9 de fevereiro. Vikki pegou sua bolsa, puxou a porta do apartamento e se foi. Achei que haveria um intervalo, mas a loira de Praha me envolveu, meu queixo levantou-se e os olhos se fecharam. A primeira noite usei para cozinhar algo às meninas. Brasil, República Tcheca e Ucrânia, três pessoas em um apartamento na Eslováquia comendo arroz e feijão. A Vikki era atenciosa e tal como o sorriso não lhe vinha muito, as perguntas também não. Acho que sua reação mais acentuada por toda a primeira noite não veio do sabor dos grãos, mas sim de perceber que a Veronika tinha apenas 19 anos distribuídos em um corpo de mulher um palmo mais alto que eu. “Uau” espantou-se Vikki, nos fazendo gargalhar e beber vinho eslovaco com a neve caindo leve lá fora. Estiquei o braço e os flocos não acertavam meus dedos. Um “boa noite” de sotaque ucraniano nos foi repentinamente deixado e o som do trinque do único quarto do apartamento estalou. Alguma privacidade chegou naquela sala. Me uni horizontalmente a loira sobre a superfície aveludada do sofá-cama ao centro da estreita sala ainda sem quadros. Oculta pela coberta e pela luz desligada, a Veronika alcançou minha perna direita, deslizou sua mão até o meu joelho e, tateando-o suavemente, ela encontra o que queria nele. Ela pressionou-o. A dor ainda sensível não me veio mais rápido do que meu espanto em a garota ter feito aquilo. No toque dos dedos dela em pressão sobre a superfície queimada, tive cada poro coagulado ardendo como nos primeiros dias quando o joelho roçava no jeans em minhas caminhadas no sul da República Tcheca.

— Brno — ela sussurrou com placidez. Não havia sarcasmo declarado no tom da voz e mesmo que minha perna tivesse saltado em espasmado, a Veronika ainda seguiu pressionando o ferimento. Deixando seu hálito mentolado atingir-me, ela admitiu — ! Eu leio seu diário…

Não sei o que dizer.

Um beijo me foi dado ao rosto com ela seguindo meus olhos como se eu ouvisse ela dizer “não fale nada”. A garota move-se sobre mim, descobrindo-me o tórax e desaparecendo por entre meu abdome e a fina coberta de linho repousada em seu dorso. Nos dias anteriores eu pensara sobre o que faria em 72 horas de Bratislava, todavia ali no sofá-cama só me vinha a mente o súbito contraste entre o frio alpino que me atingia a nuca e o calor macio tocando-me gentil a cintura. Se a metáfora está a serviço dos bons costumes, a utilizo para dizer-lhe que naquela noite fui o Danúbio com suas águas desaparecendo Bratislava adentro.

Sexta-feira, a Vikki estava livre no segundo dia. Caminhamos os três. Comentários sobre as semelhanças entre a elegante Praha e a modesta Bratislava foram inevitáveis. Capitais que já pertenceram ao mesmo país sempre serão comparadas ainda que compara-las seja um exercício de covardia. Pizza vendida em fatias, um cálido cappuccino espumoso em mãos não muito depois. Dia cinzento, fazia 2ºC. Nossos pés foram indo sem planos pela área mais histórica da cidade. As pessoas indo e vindo nos davam pistas por onde ir. As vezes a Vikki apontava para algo e pra lá seguíamos.

Pela manhã na sala (Aldo Lammel © Todos os direitos reservados)

Tomei sua mão, convidando a ucraniana a tentar um passo de forró com o Teatro Nacional e seu telhado ao fundo. Por vezes como vi pelo metrô de Praha e em alguns casos pelas quadras da Bratislava, o chiado anasalado de alguém assoando o nariz pegava minha atenção. Daquela vez vindo da Veronika, sem a menor discrição.

Shhhhhrrrrr! E o pedaço de papel era dobrado para logo ser guardado no bolso da jaqueta e ser reutilizado inúmeras vezes mais.

Fiz uma cara exagerada de repulsa a provocar a loira que aprendeu a espiar-me naqueles momentos onde nossas culturas reagiriam de modos diferentes.

— A tá bom! — reagiu ela de imediato, com indignação bem-humorada na voz de timbrado naquele momento ainda mais volumoso — Feche a janela da sala da próxima vez antes da gente transar no sofá…

Até para mim o comentário chegou inesperado, o que me fez rir parte pelo que foi dito, parte pela reação da Vikki entre a tcheca e eu. É óbvio que a Vikki sabia que em algum momento o casal de convidados em sua casa transaria devido ao contexto do encontro, entretanto presumir não seria o mesmo do que, a partir daquele momento, ter certeza de quando e onde transamos. A mirada esverdeada da ucraniana de modos reservados recaiu à calçada e um sorriso desconcertado lhe veio.

A Veronika, empolgada e desistindo de guardar o lenço de papel, o levou ao nariz outra vez mais, dizendo com uma irritação falsa — Aí a gente tem de ficar abraçada pra não congelar de frio mesmo depois de jantar aquele tal feijão brasileiro… Era peido a madrugada toda.

Não tive coragem de olhar para a pobre Vikki entre nós em passadas lentas por entre as pessoas vindas da direção oposta.

A Veronika gargalhou e tomou fôlego pra outra vez Shhhhhrrrrr!

O belo calçadão de pequenos paralelepípedos negros e brancos da alongada Hviezdoslavovo decorava com espessas linhas ondulares a praça que levava do teatro até o parapeito do rio, assemelhando-se em design (mas não em glamour) a calçada de Copacabana há uma dezena de milhares de quilômetros dali. Edifícios de arquitetura clássica do pré-guerra com neve acumulada pelos cantos como grama recém cortada e varrida em pequenos montes. Os telhados esverdeados e com limo escorridos em tons de ferrugem sobressaltavam-se à mim. Até com o chocolate jogado do parapeito às gaivotas que pairavam sobre o ventoso rio Danúbio eu me encantei. Não pelo voar dos pássaros como se estivessem parados ao ar, mas pela graça da jovem Veronika feliz com algo tão simples. Talvez tenha sido sua primeira vez brincando assim.

De lá encontramos onde jogar sinuca perguntando às pessoas pelas ruas. Eu queria fazer algo novo na última noite. Moulin Rouge Club. Pelo tapete vermelho entramos no espaço muito maior que a fachada do local nos fez crer. Por sinal, não havíamos reparado que se tratava de um clube adulto. No nosso jogo cujo os olhos da moça de Praha ali estavam, sua atenção parecia progressivamente se dissipar até o semblante curioso e neutro ir até os polidances sem ninguém às mesas de bilhar ocupadas ao lado. Ela não estava em nosso jogo de três. Me senti inseguro com tão pouco. Dividimos a conta da partida e das bebidas e pra casa nós fomos. Frio da noite pelas ruas, era o que fitávamos os três calados dentro do ônibus-coletivo em direção ao lado leste da cidade. A Vikki no outro lado do corredor; e a Veronika, sentada ao meu lado, repousava a cabeça sobre meu ombro. Ela teve de manter sua cintura na beirada frontal do assento a fim de sua cabeça descer a altura de meu ombro. Dois sentidos completamente opostos me acertavam com força. Foi a primeira vez que a Veronika demonstrou prolongadamente proximidade entre nós dois em público. E isso foi considerável vindo de uma europeia. E o outro ponto, não menos simbólico, veio das nossas diferenças de altura e tamanho; um detalhe que deveria me ser banal, mas não foi e me afetou.

— Tá tudo bem? — questionei em sussurro motivado mais pelo rosto de pele clara que eu não enxergava já havia um bom tempo, do que pelo silêncio incomum entre nós.

Senti o balançar positivo da loira ao ombro conforme suas mãos entrelaçavam-se ao meu braço esquerdo. Movi meu rosto à frente e deixei-me acompanhar o trajeto do ônibus pelas avenidas de pouco movimento naquela hora.

Os ponteiros do relógio giraram rápido, a noite se tornou dia e nossas últimas três horas já sem a Vikki foram no entardecer do simplório e desinteressante Terminal de Ônibus da capital eslovaca.

— Que criativo pôr um ônibus real como brinquedo — eu comentei um pouco depois da loira trazer café para nós.

A Veronika encontrou sobre o quê me refiri. Ainda que ela também estranhasse porque alguém achou uma boa ideia construir um playground no Terminal e fazê-lo temático, ela voltou-se à mim — Você acha que manterá seu plano de ir na direção da Grécia?

— É o plano…

— Grécia — ela sorri — , você fechará a Europa com chave-de-ouro!

— É — meus olhos se perdem sorridentes encarando o chão sob nós no segundo piso do Terminal — , acho que será bem especial essa fase final da Europa antes de eu ir pro Oriente-Médio.

— Sem dúvida será… — existia uma malícia no comentário gracioso da loira — Você saberá aproveitar isso tudo! Tenho certeza!

Sentados num dos muitos bancos que cercavam todas as paredes do amplo ambiente vazio do segundo andar, com os meus cotovelos repousados em meus joelhos, pensei com mais profundidade sobre comentário da moça. Girei o rosto em direção a garota imediatamente à minha esquerda. Pergunto à loira — Tu achas que nos veremos outra vez?

Quietude. Nada dramático; foi apenas um momento que a Veronika precisou para alargar seus lábios de um lado ao outro e ter certeza que usaria as palavras certas.

— Eu acho que não é a última vez que a gente vai se ver…

Dei um acidental e ligeiro sorriso sem dentes na sua direção e logo me devolvi a atenção ao chão para no segundo seguinte subir a mirada e apontar-me às escadas rolantes desligadas metros adiante. A resposta da loira não foi bem o que eu queria ouvir. Não houve perspectiva sobre quando voltarei a vê-la e talvez aquela fosse a melhor abordagem entre o homem que viajaria mais pelo mundo e a moça ciente que estava começando sua vida adulta. É, eu sei… Eu ainda carregava resquícios do desejo de que outras pessoas reagissem como eu próprio reagiria. “Quero te ver de novo e o farei na menor oportunidade!”, pensei.

— Aliás — recordou ela — , fico feliz que você vai rever seu amigo em Budapest.

Último gole no cappuccino. Eu havia esquecido do encontro com o Christopher na Hungria dentro de alguns dias. Copo vazio em mãos, eu o vi e disse — Já percebeu que estamos sempre com um copo de café em mãos?

A Veronika sorriu de olhos fechados e assentiu devagar com a cabeça sem pronunciar nada. Ela já havia percebido, claro. Havia ternura na forma que ela encarava isso de dentro da sua roupa de frio. Pedi licença e fui ao banheiro. Não me demorei, vi a moça me aguardando ao lado de minha mochila. Fui até lá e retirei o copo de mocaccino das mãos da garota. Uma cerca branca de madeira destrancada foi aberta e estávamos dentro da área reservada para crianças atrás do ônibus desativado no segundo andar do Terminal. A moça prestes a voltar ao seu país tomou o que propus como nosso desafio que lhe arrancava urgência de fazê-lo; uma vontade abrupta de criar memórias. Mochilas caíram, zíperes abriram, cintos desafivelados. Nós dois nunca mais veríamos uma piscina de bolinhas coloridas do mesmo modo. E foi no corredor envidraçado do segundo andar flanqueado de bazares baratos que, próximo das escadas para o estacionamento de embarque, a Veronika pegou minha mão. Foi estranho em um primeiro momento mas… Ela fez bem arriscar. Definitivamente gostei daquilo.

“Bratislava-Praha” no letreiro do ônibus. Motor já ligado. Pessoas embarcavam.

— Verão na Grécia?

— Grécia — respondi.

Sorrisos à queima-roupa. Não houve beijo; só sorrisos mesmo. Três passos atrás da loira, a última pessoa embarcara.

— Eu adorei minhas 72 horas contigo… — eu disse lhe soltando as mãos, reparando por cima dos ombros da moça que o motorista se sentara ao volante e o gerente de embarque demostrava impaciência à porta do ônibus. Eu sugeri — Acho melhor voc_ _ _

— Aldo — ela me interrompeu com severidade, ordenando — , me beija!

Despedidas. Eu já deveria ter me acostumado a deixar gente legal pra trás… O ônibus amarelo levando a tcheca manobrou e se foi com ela. Foi rápido. Me tinha caminhando pelas ruas da Bratislava. O apartamento da Vikki não era tão longe. Quem sabe até lá o sorriso constante amenizasse em minha cara. A brisa dócil da noite que vinha chegando, era falsa. Ela era gelada e queimava a pele entre as bochechas e as pálpebras do brasileiro nostálgico. Aliás a brisa acertava minha Canon, a deixando como uma pedra de gelo esquecida em mãos. Notei a câmera, trouxe-a para próximo do rosto e pressionei o Play. Fotos, vídeos, coisas daqueles últimos três dias. Ver fotografias ao visor e ao mesmo tempo brincar de pisar em lugares específicos das calçadas não são tarefas tão fáceis quanto parece ser. Pessoas deveriam tentar caminhar por uma cidade nova e se perder por ela. Caminhar e notar os defeitos do ambiente a volta e não julgar. Caminhar, dizer ahoj a qualquer um sem esperar ouvir um oi de volta. Inventar um padrão no chão e pisar apenas nos espaços que você escolheu como sendo os corretos. Cantarolar ou assoviar é sempre bem-vindo enquanto a endorfina das boas despedidas irriga o cérebro de felicidade. Me surpreendi com o que encontrei e parei bruscamente pela calçada. À câmera eu não reconhecia aquilo como meu!!! Não fui eu quem… Eu era euforia! Aumentei o volume da câmera. Assisti ao vídeo encontrado entre as fotografias. CARALHO! O assisti de novo e daqueles seus 22 segundos de duração, eu os transformei em minutos. Assisti outra vez mais o vídeo que tocava na tela da câmera até eu não escutar mais os ruídos das pessoas entrando no supermercado Billa, até eu não ouvir o assobiar agudo dos freios dos ônibus parando ao semáforo. De fato até a própria voz da Veronika desaparecer dos alto-falantes da Canon e eu imergir nos olhos da loira em sorrisos longos com o vídeo de Bratislava.

Aldo Lammel, M&B Websérie

— Porque vocês não ficaram juntos? — Franci pergunta.

Não reparo na quietude crescente ao quarto até que, com o garbo natural exalando de seus pormenores, a morena seminua repousa as costas no marco direito da ampla janela que estende-se do parquê ao teto. Abraçada em si, cobrindo os seios sem descuidar-se da taça em mãos, com igual sobriedade que a morena trouxe a questão, suas pupilas desprovidas de carinho ou desvios me encontram inseguro do outro lado do pequeno ambiente de piso caramelo desgastado do velho flat; um lugar modesto que me lembra o vinho escuro e aconchegante. Ela tem a mirada negra, sem detalhes, tão consistente quanto o lume encabulado mas permanente das dezenas de pequeninas luzes natalinas largadas sobre a cristaleira e o guarda-roupas à minha esquerda, distante como o brilho turvo vindo da Krisztina körút por detrás da cortina, entre a garota e a ampla janela.

Me estico e pego novamente o celular Samsung que eu jogara aos pés da cama.

Tal como a prudência tardia vem à moça como silêncio ainda mais alongado, e contatos firmes de olhos nos olhos, a Franci não pode evitar que a curiosidade siga lhe vindo à medida que eu a alimento, camuflada naquele semblante europeu sem flerte, sem malícia explícita, de difícil leitura que porventura nem espera uma resposta sincera; não de um estranho nu deitado à cama a quem ela acusou de medir palavras… Uma resposta a sua questão que, aliás, não me vem. Dou de ombros, desviando-me da húngara, tentando não transparecer ao rosto que, como minhas palavras lhe narrando a história minutos antes, sigo nostálgico falando de outra mulher. Fito meu celular em mãos.

Péter diz: A Franci é bem conhecida em Budapest… 
 Péter diz: Ela não deve ter nem 25 anos e já é colunista respeitada da Forbes na Hungria.

— Então — Franci pontua sussurrando, fazendo a pergunta uma vez mais — , porque você não ficou com ela?

Solto o celular e encaro a Franci novamente. O vinho tinto encontra os lábios da moça e ela gira sobre os calcanhares, voltando o rosto a sua capital lá fora, além da cortina e do vidro empoeirado.

— Não sei… — respondo — , talvez porque eu não queira ficar com ela. Talvez porque se eu quero, não é uma decisão que eu não tenha que tomar agora.

— Não?

— Não — eu respondo de forma abrupta. Me explico com mais calma — Existe uma possibilidade da gente se ver em alguns meses…

Silêncio.

— Onde?

— No verão, na Grécia — falo com fluidez de quem está de fato pensando no assunto — . Se ela for aceita na universidade, as aulas dela começam no fim do verão.

— E depois do verão?

— Bem — uma risada sem graça me escapa — , eu não sei. Eu já terei saído da Europa e provavelmente banido de retornar uns cinco anos aqui.

— Talvez — murmura a morena de costas para mim, levantando de novo o copo de vinho até seu rosto.

Um clique. Eternizo o instante com o disparar barulhento da câmera ao celular. A húngara fitar-me por cima dos ombros. Sua expressão severa não me deixa uma só palavra ou dúvida. Ela volta-se à cortina sem quebrar o sepulcro e eu me indago o porquê quero tanto seguir falando sobre a Bratislava enquanto eu deveria estar de pé ao lado da morena, defronte a Budapest notívaga, fingindo que nada é mais importante que estar aqui com ela, a então colunista da Forbes.

As revistas Forbes pelo chão agora fazem mais sentido. Se a Franci quisesse me contar sobre sua outra faceta, ela já teria me dito. Me mantenho calado sobre isso. A húngara se enclausura no silêncio prolongado a base de vinho. Ela desaparece dentro de sua noz e nós não falamos. Vê-la assim é como ter Hamlet nu à janela, a espiar o pátio do palácio, entregue a seus pensamentos de retórica erudita.

25 de fevereiro.

Não parece que passamos a tarde de sábado ensolarado e de ventos frios pela colina de Normafa para lá de Buda, aonde se vê a face bucólica da capital. Por entre as trilhas e pessoas indo e vindo, Franci me entregou o braço e caminhamos como dois bons amigos a conversar sobre galhos secos, clima europeu e minhas intenções para o dia que eu voltar ao Brasil. Já agora, no mercado central de Peste, em volto por restaurantes e tendas gourmet, a Franci e seus amigos bebem shots de bebida destilada local. Ainda que seja o único dia livre de uma moça que também trabalha aos domingos, eu queria toda a atenção dela para mim como a Veronika sempre fez em nossos encontros. “Que isso, cara?!” eu me digo.

Me aproximo do ouvido dela e sussurro — Preciso ir.

— Porque? — se surpreende Franci, virando-se para trás, olhando diretamente para mim com estranhesa.

— Olha, desculpe ter te contado sobre Praha e Bratislava — eu parto em direção a saída principal do mercado com passos insinuados. Admito — Eu estraguei tudo aqui.

Ela toma meu braço com cuidado — Tu não precisas se desculpar de nada!

— Pode ser — minha voz sai arranhada — , mas eu não tô legal hoje. É melhor você ficar com seus amigos.

Deste jeito grosseiro e súbito, desvio-me das pessoas que entulham o local. Passo pelo arco principal do mercado, chegando até a rua. Ultrapasso motonetas e carros estacionados até virar-me e voltar a fitar o mercado a partir da estreita e antiga rua de paralelepípedos no centro budapestino. Como uma criança emburrada arrependida de ter partido quando nenhum adulto veio ao seu encontro, aqui fico, encarando a Franci que, com uma mirada indiferente por debaixo do arco, calmamente acende um cigarro, o traga, cruza os braços e vem até mim caminhando lentamente, provavelmente decepcionada ainda que visivelmente com paciência para tal.

— Amanhã tô indo embora de Budapest.

Uma tragada profunda, o fino cigarro se acende laranja à ponta. A austeridade da face da húngara e fria como a brisa de fevereiro. Franci nada diz mas seus olhos indiferentes dançam sobre mim.

Os pneus dos carros zunem pelo paralelepípedo ao nosso lado. Pelo menos eu presto atenção nisso e no brilho grafitado da leve garoa que repousa na rua irregular.

— O que tu esperas de mim, Aldo?

— Que tu venha comigo pra algum lugar…

— Pra que? Pra eu ver você fugindo de Budapest também?

— Como assim?

Numa última tragada, ela solta o Marlboro Slim ainda queimando pela metade à calçada e o esmaga com o solado da bota. O olhar de indiferença recai à mim e ela aperta-se dentro do casaco, relaxando elegantemente no instante seguinte, mantendo as mãos nos bolsos laterais do tecido pesado de inverno. A indiferença lhe faz a face ao dizer — Na nossa primeira noite no meu quarto você me chamou de Veronika e nem percebeu…

— Impossível — rebato de imediato. Sinto meu sangue borbulhar nas paredes da garganta.

— Na hora eu pensei que foi só uma confusão tua. Como o jeito que nós nos conhecemos foi tão legal, no dia seguinte no escritório onde trabalho eu olhei tuas coisas na rede… Descobri que tu és escritor e… Que tu tinhas recém se reencontrado com a tal Veronika de Praha na Bratislava.

— Mas eu te contei sobre isso tudo, Fran!

— Contou! Eu sei, você não me escondeu embora se o fizesse, pouco importaria. É a tua história pessoal, Aldo. Só que antes de me contar, tu já vinhas trazendo essa garota em nossas conversas. Foi assim na frente da basílica. Você não estava falando de Praha pra mim. Tu falavas da Veronika.

Os sons da capital noturna a volta, e o sopro gelado acertando rostos e mãos.

— Olha — ela segue — , eu não tenho qualquer intenção de te magoar. Eu também tenho minhas questões, Aldo, e as vezes elas pesam. Eu não consigo imaginar como é estar dois anos longe de casa e dos teus amigos de verdade. Tem algumas semanas que tô lendo um livro. Eu detesto um dos personagens mas ele é dono de uma frase que gosto muito. Seja fiel a ti mesmo, e não serás falso a ninguém. Eu não tô dizendo que tu não és verdadeiro comigo. Você é o suficiente para o contexto que a gente se conhece. Aliás, nós mal nos conhecemos… Só acho que tu não és verdadeiro consigo mesmo.

Silêncio.

— Cara — Franci se exalta brevemente — , você gosta daquela menina. Volta pra ver ela. E se ela também quer ver você de novo?

— Você vem ou não? — pergunto.

Ela, num sutil movimento de cabeça, tem o “não” de resposta. Seus olhos arqueiam e se contraem ao mesmo tempo, onde alguma empatia e carinho lhe vem para então finalmente dizer — É horrível pensar que eu nunca mais vou te ver.

Não estou calmo. Não concordo com o que ouvi. Digo “Você está errada!” e ela, “Não estou!”. Eu seguro seu rosto e a beijo na bochecha. Sinto suas palmas delicadas sem luvas deixarem os bolsos para me tocarem os cotovelos. Afasto-me com um sorriso mentiroso, giro os joelhos na direção oposta e dobro a primeira esquina à direita sem saber para onde exatamente é o caminho de casa. Acho que eu queria mesmo é estar indo para casa, ao meu apartamento no Mont Serrat. Bem agora. E deixar por um par de horas de ter de me despedir, de lidar com rejeição, com as dúvidas que não sejam os caminhos a seguir no mapa. Deixar de lado as perguntas que me faço sobre a tríplice fronteira entre desejar, gostar e genuinamente estar apaixonado. Pego o metrô, as lágrimas ridículas me escorrem pelo rosto. Já não me importo com as pessoas ao redor, mas o riso me acompanha virado para o chão aonde piso. Não é tristeza abstrata somente. Tem um desapontamento comigo mesmo e cansaço. Uau, eu estou muito cansado hoje. Abro o portão do edifício do Péter e, ao lado do elevador logo ao térreo, vejo meu reflexo encapuzado. Uma silhueta obscura, inflada e incontestavelmente vazia. O elevador chega, embarco e estaciono no andar mais alto. Seco o rosto e busco me recompor externamente. Uma quinzena de pisadas e abro a velha e enorme porta do apartamento. O Péter não está.

Deito na cama do quarto de hospedes e passo a escrever. Sinto vontade de beber. Álcool. Uma vontade genuína de me embriagar. Eu nunca, em nenhuma hipótese, quis em minha história beber como quero agora. Algo que me acalme sem eu ter de correr pelas calçadas, pedalar por entre os carros ou ensurdecer meus pensamentos com os fones de ouvido. Eu só quero me deitar no meu quarto de Porto Alegre por um tempo e respirar o aroma vindo dos incensos de coco e canela que eu gosto de deixar queimando no escritório.

— Eu quero A MINHA CASA!!!! — grito do quinto andar.

Sou tão ridículo.

Aldo está Online.
 Aldo diz: Oi.
Veronika diz: Coisa boa receber mensagem sua!
 Aldo diz: descobri que os países dos balcãs naum fazem parte do acordo de Schengen. Isso significa que eu sou obrigado a mostrar meu passaporte pra migração daqueles países. Isso significa que eu posso ser extraditado da União Europeia, destruindo minha viagem. A única forma de eu chegar na Grécia é eu pedalar até o sul da Itália (que eh Schengen e naum preciso mostrar o passaporte de novo) e de lá pegar um barco direto pra Grécia.
 Aldo diz: e tem mais uma coisa…

Penso muito antes de escrever.

Aldo diz: Eu estava dormindo com outra garota aqui e… sei lá Veronika;;;; comecei a falar de vc pra ela. Ela me perguntou umas coisas
Veronika está digitando…
Aldo diz: ESPERA eu naum terminei!!!
 Aldo diz: Eu já vivi muita coisa, mas tem algo diferente acontecendo desde a Bratislava.

Outro chat se abre em paralelo na tela do laptop em meu colo na cama, e rouba minha atenção.

A mensagem diz: Me dê teu endereço.

Ignoro o novo chat e volto-me à Veronika.

Veronika diz: Hoje durante o almoço minha avó me perguntou como eu estava me adaptando após meu retorno do Canadá… se tinha alguém que eu estivesse saindo e… eu não conseguia parar de falar de ti. Das nossas conversas sobre tudo e abertamente. Inclusive de coisas que nao me imaginava falando pra minha avó. 
 Veronika diz: Não sei quem é a garota que tá dançando contigo num vídeo que vi de budapest, mas eu sei que é ela q tá contigo… eu queria ser ela e dividir tudo o que vc tá vivendo aí.
 Veronika diz: Tem muitas coisas na minha cabeça bem agora. Uma delas é que a Grécia seria a última chance de eu te ver antes de você se distanciar ainda mais. Acho que é melhor eu ir dormir. São quase 4 da manhã em Praha.

Não sei por quanto tempo fico na cozinha, sentado de pernas cruzadas tomando Goulash frio. O cheiro da sopa deve estar impregnado em minha barba. O som arranhado do elevador do antigo prédio cessa ao alcançar o último dos cinco andares, o rugido grave da frenagem dos cabos é dado e a porta dupla é aberta manualmente com alguns estalados. Topadas de calço se aproximam da porta do apartamento. Me adianto e puxo a porta para dentro antes de qualquer campainha.

— Oi.

Qual droga anestesia um vazio? Eu viajo pelo propósito de experimentar as coisas e não o de encontrar algo ou alguém que me faça ficar, mas querendo ou não, os objetivos não me impedem de sentir cada renúncia que eu precise fazer para seguir em frente. Eu poderia ser o mestre dos disfarces e seguir a viagem como se nada tivesse acontecido em Praha e na Bratislava, mas aconteceu! Eu não estou na estrada por mais ninguém, entretanto eu seria estúpido comigo ao dar as contas para o fato de eu realmente gostar da Veronika. E eu sei qual medicina me ajuda a suportar minhas inseguranças e minhas saudades.

— Oi — respondo.

A ira me vem. A pondo de costas à parede ao lado da entrada, um puxão na saia, e calcinha para baixo. Um potente encontro da mão sobre a delicada pele gelada das nádegas volumosas da húngara. Empurro meu rosto contra elas. Esta noite não há vinho, janelas ou espaçadas conversas sob luzes natalinas a revelar revistas e o tal livro pelo chão. A Franci nem sequer fala e tudo que tenho é seu corpo embriagado e dominado como nunca. Não existiu ou existirá sentimentos entre nós, embora tenha sido através da insondável Franci e da noturna Budapest que me vejo perdido sem saber quanto é a hora de aceitar que estou gostando de alguém e parar de me comportar como se nada eu sentisse.

“Eu quero ver a Veronika”, eu me digo.

Franci abre a porta do taxi no primeiro som da capital acordando, e eu, diante do portão metálico do condomínio do Péter em Kysfaludy e com os tonéis de lixo a minha escolta, assisto anestesiado ela não olhar para mim. Talvez por já ter dito o bastante, ela parte no carro amarelo como quem repete as últimas palavras de Hamlet naquele livro sobre o parquê do quarto: o resto é silêncio.

Aldo Lammel, M&B Websérie
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