Colômbia em 10 fotos

Por Aldo Lammel

Oi, me chamo Aldo e estou viajando com o Mochila & Bike, uma aventura solitária, com pouquíssimo dinheiro e de bicicleta através de 40 países ao longo de 40 meses, realizando o sonho de escrever minhas memórias e fotografar meus pensamentos. Comigo levo poucas coisas e algumas delas são uma câmera compacta, uma câmera de rolo e a vontade de experimentar cada país ao meu modo, sem regras, sem hipocrisia, sem medos.

Esta série de dez imagens contará à você sobre minhas experiências por terras as quais nunca estive e, com mãos suadas, coração acelerado e olhos que quase não piscam, desejo que minha percepção a seguir transmita para ti mais do que cores. Que te leve pelos cheiros, músicas e pelos sabores de lugares, pessoas e momentos que carregarei comigo por toda uma vida.


1# Escutei sobre a beleza em meio as colinas, me fui para lá ver. Fotografei a igreja à distância, embora antes de partir, fui lá e a toquei.
Igreja Las Lajas em Ipiales, próxima da fronteira com o Equador — Dezembro/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Cheguei à Colômbia dia 9 de dezembro de 2015 pela fronteira sul, vindo do Equador, e saindo do país pela costa do mar do Caribe em direção ao Panamá no dia 15 de fevereiro de 2016. Minha travessia pela Colômbia levou 68 dias e foi a grande e já esperada experiência da viagem pela América do Sul. No roteiro original, a viagem pelo continente terminaria no Equador, entretanto viajantes que fui encontrando pela estrada tiveram decisiva influência no que eu faria. Diante das paisagens espetaculares que temos no continente, a informação recorrente que chegava em meus ouvidos era de um país de pessoas amáveis e verdadeiramente preocupadas com o bem-estar do estrangeiro. E eu descobri que é isto e muito mais. A Colômbia é uma nação espetacular e eu vou te contar os porquês.

2# Muitos me disseram "Não perde Medellín". Como não sou bobo, de mochila e bicicleta, me fui assim.
Medellín, cidade que fez sentir-me em casa — Jan/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Desde a minha primeira noite na Colômbia, fui apresentado a comida típica por uma família onde fiquei hospedado de graça por duas semanas em Popayán. A mamãe da Daniela fazia questão de fazer todos os dias algo diferente para eu experimentar, e meu amigo, hell yeah!, aquela senhora mandava muito bem na cozinha! Conheci e todos os dias pela manhã, uma Arepa recheada com creme de queijo junto de queijo ralado ou um ovo frito dentro; as vezes, no almoço no primeiro prato, a clássica sopa Sancocho, entretanto nada foi mais bem aceito por meu paladar que o famosíssimo, obrigatório e enorme prato antioquenho Bandeja Paisa (pronúncia: bandêrra páiça): feijão vermelho, arroz, carne de porco, carne de gado moída, salsichão de porco ou murcilha negra, ovo frito, abacate com limão e a sempre presente banana esmagada e frita, na terra da Shakira chamada de Patacon. Minha saúde foi de excelente para ruim com tanta fritura deliciosa, porém exagerada da culinária local.

Sobre bebidas, não vou te contar que logo na primeira semana em Medellín, tomei o segundo pior porre da minha vida, então pulemos esta parte da Aguardiente Antioqueño e sigamos pela deliciosa Champú (pronúncia: tchãmpú), uma bebida a base de milho triturado, suco de melão e pedaços de abacaxi, sempre degustado gelado, lembrando uma deliciosíssima salada de frutas, porém, na minha opinião, muito mais saborosa apesar da mistura incomum para nós, brasileiros. Ainda assim, a maior delícia das bebidas colombianas e que sem dúvida seria um grande sucesso no Brasil se empresários do ramo a experimentasse, é a Limonada de Coco, tradicional de Cartagena e de longe um dos melhores sucos que já experimentei. Um espetáculo!

3# No dezembro na estrada, talvez sem Santa Claus. Foi na casa da família mais linda e amável onde tive meu Natal.
Família colombiana onde passei meu primeiro natal na estrada — Dezembro/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Depois do Chile e Equador também na América do Sul, considero a Colômbia um dos três países mais limpos que visitei. Quando cruzo os países de uma ponta a outra com a bicicleta, a limpeza ou a falta dela prende minha atenção. Não deveríamos avaliar qualquer aspecto de uma cultura baseado em suas fronteiras ou pólos turísticos, contudo até mesmo nestes pontos a Colômbia supera a maioria dos países do continente, incluindo o Brasil neste aspecto.

A fauna e a flora colombiana compõem paisagens naturais que inclui o país na lista das 17 nações com biodiversidade no mundo, assim como o Brasil que lidera a lista. Dos países que visitei na América do Sul, se desconsiderarmos a pintura que são as praias caribenhas na Colombia, suas paisagens não me chamaram a atenção, provavelmente por eu ter vivido o deserto chileno, o frio e a altitude boliviana e os vulcões equatorianos.

4# Cartagena das muralhas, dos fortes e da bandeira ao vento. Foi em Cartagena que descobri a amizade verdadeira.
Cartagena — Janeiro/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Ao falarmos de trânsito, também é difícil competir com a educação do motorista equatoriano que pouco buzina, por exemplo, porém o colombiano faz bonito e leva seu cavalheirismo para as ruas, frequentemente cedendo passagem aos ciclistas em qualquer hipótese, como os chilenos. No aspecto da lei e das regras de trânsito, o Brasil me parece ser o país mais sofisticado da América do Sul e a Colômbia vem logo atrás do Chile e Equador no mesmo quesito, estando à frente da Argentina e Uruguai, por exemplo. É divertido perceber que nas grandes cidades colombianas, assim como no Brasil e tão diferente dos outros países que fazem fronteira consigo, o colombiano não é consumidor assíduo de motocicletas como o peruano, por exemplo.

A Colômbia foi o país onde eu mais usei transporte público e privado devido as festas de final de ano e aos convites dos nativos para eu ir de um lado para outro em datas muito próximas, inviabilizando a pedalada. O transporte na Colômbia volta a ficar caro, semelhante ao que vemos no Brasil. De Medellín a Cartagena são 640 quilômetros em doze horas de ônibus executivo ao preço de R$200, onde R$50 foram exclusivos pelo peso extra da bicicleta. Destaque para o Metrô de Medellín, considerado por seus cidadãos uma jóia a ser preservada a todo custo. Conversei com norte-americanos e europeus sobre Medellín e todos destacaram a qualidade do metrô da cidade, superior a muitos metrôs europeus, segundo estas opiniões.

5# Arte contemporânea esculpida em tintas. Um Ícaro dos traços marginalizados, a mente alada dos pássaros coloridos.
Arte de rua em Cartagena — Janeiro/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Na Colômbia, turista é tratado como cidadão e se o turista tem um problema, de modo geral, o colombiano não o deixará na mão. Como a moeda colombiana é desvalorizada como o nosso Real, britânicos com a Libra e os demais europeus manipulando o Euro, eles usufruem das maravilhas da Colômbia feita de bons preços, contudo vale lembrar que países muito turísticos como o que estamos falando, alguns preços são inflacionados ao turista, então vale sempre aquela choradinha antes de comprar; descontos sempre virão.

Dois pontos da cultura colombiana me chamaram muito a atenção. O primeiro deles, e eu os invejo por isto, é o amor do filho pela sua terra. De praxe, ao conversar com o colombiano sobre o que pensa de seu país, você ouvirá alguém apaixonado lhe convidando a desfrutar seus costumes, sua comida, sua música, sua gente; uma visão amistosa e realista da própria cultura, uma abordagem que nós brasileiros precisamos desenvolver mais. É interessante perceber que o colombiano taxista ou dono de uma carrocinha de cachorro-quente ou, ainda, um senhor fazendo exercícios no parque, todos compartem da mesma visão sobre seu país “Aproveite o meu país porque ele é lindo”. O segundo tema interessante da cultura colombiana é conhecido como narco-estilo, uma distorção do conceito “luxo”. Durante a década de 80, os anos dourados dos cartéis da cocaína, a injeção de dinheiro na Colômbia foi tão pornográfica que o comércio e outros negócios tiveram de se readaptar para atender as necessidades dos novos milionários vivendo em cidades como Medellín e Cali. As mulheres dos traficantes e dos comerciantes que começavam a enriquecer do dia pra noite, passaram a fazer plásticas agressivas, transformando-se em mulheres de beleza internacional e colateralmente causando um efeito social interessante: mulheres colombianas naturalmente bonitas desejam e passam a viver em Medellín por status, formando suas famílias lá e, de fato, alimentando novas gerações de meninas geneticamente lindas contudo escravas da perfeição estética contemporânea, tornando Medellín o símbolo máximo da beleza colombiana e das cirurgias plásticas. A comida também sofreu influência e uma reconstrução do prato bandeja paisa foi necessária, com maior variedade e realmente sendo necessário servir em uma bandeja e não mais em pratos grandes. A arte, a arquitetura, o estilo colombiano de se viver mudou drasticamente durante os anos 80, sendo hoje um tema recorrente em graduações e doutorados em áreas da saúde, ciências sociais e arte. Como eu descobri isto? Além de Medellín respirar este estilo de vida em cada esquina, eu tive o privilégio de conhecer uma pessoa concluindo seu doutorado em Moda justamente sobre “Narco-Fashion”. A expressão me pareceu diferente e a conversa com uma limonada de coco foi longa e agradável sobre o tema.

6# Assistindo a estrela mergulhar, elevei a minha vibe. Deste jeito tão Aldo, foi minha primeira vez no mar do Caribe.
Ilha Baru — Janeiro/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Segurança. Ironicamente ao revés de tudo que se pensa — e me incluo nesta parcela antes de passar pela fronteira — , a Colômbia por pouco não ultrapassa a sensação de segurança que experimentei no Chile. É difícil competir com os Carabineros do Chile, uma das forças policiais mais respeitadas no mundo, mas o excelente trabalho feito pela polícia e exército colombiano te deixarão tranquilos em qualquer cidade (exceto Bogotá porque lá, segundo a revista The Economist, é a pior cidade da América para se manter um negócio devido aos assaltos e a violência urbana). Assim que entrei pela fronteira sul, vindo de Quito, no Equador, tomei um ônibus até a cidade de Popayán; neste percurso de 260 quilômetros, o ônibus foi parado duas vezes pela polícia federal. Um policial embarcou, se apresentou de forma muito simpática com sua credencial e pediu aos homens a bordo manterem em mãos suas identificações. O policial pegou meu passaporte, levou até o computador da viatura e, ao voltar, me fez rápidas perguntas de forma firme porém cavalheira. A mesma atenção à segurança, encontrei em Medellín. Nos trinta dias que fiquei na cidade em três endereços diferentes, caminhei e pedalei pelas ruas de dia e a noite sozinho ou acompanhado e nenhuma ocasião me senti hostilizado ou, até mesmo, uma situação de desconfiança. Recordo do meu amigo Luke, de Indianápolis, ter comentado comigo que nunca havia visto uma cidade tão bem policiada como Medellín. Voltando de uma festa com a Xey, olho para o lado e lá está, uma dupla de policiais em bicicleta com seus coletes verde-florescente. Na esquina seguinte, outra dupla à pé. Entramos pelo portão de casa e as luzes azul e vermelho piscando entre os prédios ao lado, era uma viatura passando silenciosa pela outra rua; e eu não estou falando de zonas turísticas. Na minha primeira semana na cidade, eu fiquei dentro da Comuna 13, o bairro conhecido como matadouro dos tempos do Pablo Escobar e hoje ainda considerada a parte mais violenta da cidade, entretanto eu caminhei de havaiana nos pés e segurando uma sacola d pães todos os dias que estive lá e vi apenas pessoas levando vidas normais e beirando a tranquilidade absoluta.

7# Deslumbro o dia que no vivente cabelos brancos o tomarão. Neste dia, estou certo de mim que histórias a contar terei na roda de chimarrão.
Metrô de Medellín — Jan/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

O clima? Imagino que seja muito parecido com as regiões do noroeste brasileiro, contudo na Colômbia o calor é de assar o vivente no verão, período em que desfrutei daquela terra. Houve dois dias memoráveis onde o calor foi tão grande que eu deduzi serem os dias mais quentes da viagem, sem dúvida a sensação térmica beirando os 40 graus. Nos dois meses que estive na Colômbia, somente três dias choveram e não foram chuvaradas como as que vemos no Brasil, embora isto não quer dizer que nas regiões de selva colombiana, de Bogotá em diante para o leste, não hajam tempestades tropicais.

8# Há quem diga que por plata vale tudo. Tenho minhas dúvidas, Pablo levou plomo e não está feliz com isso.
Eu diante do túmulo de Pablo Escobar em Medellín — Jan/2015 (Aldo Lammel/Luke Stevenson, CC BY-NC)

Topografia. Dos sete países estrangeiros que pedalei pela América do Sul, a Colômbia foi o país que menos o fiz devido algumas circunstâncias que ficarão óbvias dentro de dois parágrafos. Ainda assim, o que é fato e posso argumentar sobre o relevo colombiano é que estamos diante um país andino onde algumas estradas cruzam as montanhas, principalmente na alta, mais populosa e capital da Colômbia, Bogotá. Vale lembrar que esta terra produz grandes ciclistas profissionais o que sugere influências de sua boa infra-estrutura de estradas, mas principalmente da topografia desafiadora aos ciclistas. Vale ressaltar que mesmo sendo andino, a Colômbia está longe de ter a dificuldade técnica de pedal encontrado no sul selvagem da Bolívia e nas montanhas peruanas.

A notícia mais evidente na mídia colombiana durante minha passagem por lá foi a histórica negociação de paz entre governo colombiano e grupos guerrilheiros, abrindo uma janela perfeita para eu cruzar a fronteira Colômbia-Panamá parte pela selva que tanto me atraia, zona de intensa atividade das guerrilhas do narcotráfico.

9# As vezes penso que não tenho nada, outras, que tenho tudo. É curioso ver que a marra não abandona este indivíduo.
Eu em Medellín — Fev/2016 (Xey © Todos os direitos reservados)

O idioma castelhano é muito bonito quando, assim como o português brasileiro, é bem falado. A fonética e os sotaques venezuelanos e colombianos são os que mais me atraem. De modo geral ao ser comparado com o castelhano de outros países latinos, o acento colombiano é muito mais fácil de compreender, ao meu ver uma forma mais elegante e clara do interessante castelhano peruano e do engraçado sotaque mexicano. Dentro da Colômbia, dois sotaques são muito fortes para meu ouvido; o acento costenho, principalmente da região de Barranquilla e Santa Marta, é curioso e difícil de descrever, entretanto o sotaque mais bonito que ouvi na viagem até então, é o charmoso acento paisa de Medellín. Por curiosidade, neste vídeo do diário em vídeo é possível escutar uma garota de Medellín ao telefone comigo, é o típico sotaque paisa. Nos homens não é tão arrastado, mas é geralmente charmoso aos ouvidos femininos e nas discussões mais calorosas, é muito engraçado. Eu não acompanhei a opinião da crítica no Brasil quanto ao papel do Wagner Moura na série Narcos, interpretando o paisa mais conhecido do mundo, o narcotraficante Pablo Escobar, entretanto a crítica ao trabalho do Wagner foi muito pesada nos países falantes do espanhol justamente pelo nosso excelente ator não ter conseguido reproduzir o fácil sotaque correto. Para um brasileiro entender o impacto da ausência de detalhe, é como se uma produção estrangeira criasse uma série sobre a vida do Lampião e o ator que o interpreta usasse o sotaque mesclado do paulistano ao invés do acento nordestino, me explico? Quando assisti ao Narcos, percebi o tamanho da falha e lamentei, embora aos meus olhos seja uma falta de cuidado da direção do José Padilha e não uma falta de cuidado do Wagner ao não usar, por exemplo, o clássico bordão paisa “Hagalé pues!” (“Anda logo!” / “Quero ver!”).

10# Aos olhos dela, fui passageiro. Aos olhos dela, fui o brinquedo. À mim pouco importa o que alguns pensem, se aos olhos dela, apenas por mais um instante, eu seguir sendo o seu brasileiro.
Xey na cidadezinha de Jardín — janeiro/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

A Colômbia foi minha porta de saída da América do Sul, originalmente nem sequer estava em meus planos e agora cá estou, todos os dias me jogando em pensamentos, contudo engana-se você se deslumbra um Aldo a retroceder. Mas que delícia lembrar das tardes no parque tomando limonada de coco com a Xey, dos amigos que fiz lá na praça Restrepo em Medellín, as comidas que experimentei em Popayán, a salsa caleña, choque e bachata que dancei com as gurias por lá. Apesar de hoje eu ser dono do meu tempo, eu ainda não aprendi como pará-lo ou fazê-lo retroceder e repetir um pequeno pedaço porque, meu amigo, uau, como eu amei aquele país… Quem sabe um dia ele me faça voltar, mas um dia, não agora, nem amanhã. Um dia.

Sonhe, faça acontecer e divirta-se!


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