Vulcão Licancabur (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Dentro do Vale das Sombras

A peça forjada em formato clássico, curvada para fora como um peito estufado, com bordas arredondadas e banhadas do melhor metal que o antigo plebeu pode pagar; uma peça tão maciça quanto a convicção do homem orgulhoso, tão reluzente quanto o Sol dourado brilhando distante no céu de inverno. O carneiro de chifres enrolados cunhado em brasão na superfície bronze, ornamenta o escudo de um dos filhos da casa dos Lammel, peça de 12 quilos que há muito tempo o paladino não traz mais consigo. O cavaleiro da armadura prata já sem brilho e com amarras em couro no ponto de ruptura, hoje avança com menos sobrepeso, o pesado escudo que o blindava dos golpes diretos ficou pelo caminho das antigas batalhas. Empunhando a espada com as duas mãos, seus movimentos lhe dão combates mais precisos, com movimentos de maior impacto da lâmina, acertando a armadura inimiga, esmagando mais ossos, dilacerando mais carne. Entretanto, o vazio gélido do deserto rochoso e estradas de sal não lhe parece querer dar exércitos a transpor, o vento incessante da altitude e invisível, sem ramas do verde a balançar, envolve o homem por todas as direções e, mesmo mais ágil, não importa a habilidade de matar inimigos, aqui a espada não lhe oferecerá nenhuma vitória; não agora. Àquele que persegue algo, só lhe resta seguir marchando, mentalizando que ao menos o fedor dos corpos despedaçados de muitas distâncias atrás já não lhe faz companhia. Agora, o que lhe acompanha é o vulcão negro e piramidal ao longe a sua frente, a única coisa aqui que não é uma linha reta e chapada no horizonte.

Dois dias de subida em caminhada sem cavalgar uma só jarda. O curso que começara como uma reta em aclive sutil rumo aos pés da fálica montanha cuspidora de fogo, ao longo da distância, se mostrou interminável. A subida não é íngreme, porém constante como se o homem fosse um grão solitário de trigo caído ao mar, a deriva, sentindo a onda colossal e sem crista passando por si, o elevando, prometendo uma queda violenta do outro lado. O germe de trigo sente a pressão mudar a cada vez que está mais e mais alto na onda de pedra convexa. O soprar gelado esfria ainda mais e esbranquiça o prata fosco da armadura e se houvesse algum tipo de umidade no deserto a 4.200 metros de altitude, o hálito do homem sairia de seus cansados pulmões sem vapor; de tão seco que é a solidão do lugar, os cronistas das lendas dizem que as lágrimas das viuvas que choram seus mortos nos pés do Vale das Sombras, não passam de olhos avermelhados e nada além disso. Mesmo que exausta, a marcha do intrépido cavaleiro solitário prossegue ao seu limite, a veemência dos pensamentos do guerreiro que não se dá por convencido do suicídio, o impulsiona passo por passo na direção do Licancabur. "Horizonte gelado, infinito e intocado, das costas do vulcão congelado há a indiferença do vazio, um lugar tão só e morto que os deuses se recusam a assistir quem ousa cruzá-lo", dizia o professa em sua caverna segundo a lenda.

Dois dias depois, ao atingir o topo do deserto que antes se acreditava ser uma gigantesca onda petrificada, revela-se ainda desértico embora ora plano e flanqueado por longínquas montanhas de picos nevados. É o caminho para as costas do poderoso Licancabur, a entrada do vale onde tudo morre aos pés do vulcão adormecido. O guerreiro retira o elmo, ajeita a barba negra e suja com uma rápida passada de mão e entrega ao anoitecer gélido o seu urro de exaustão, inflando o peito e sorrindo para a morte que sopra violenta em forma da tempestade do inverno imaculado que ceifa vidas. Se algo lhe motiva a seguir para o inferno no inverno, é a chance de desvendar a mito de que ninhos de dragões lá existam, imaginando-se domar uma besta e cavalgá-la até o Sol.

4 de Julho de 2015, fronteira Chile-Bolívia — dia 154.

— EIIII! — grita um dos homens de dentro da Land Rover verde-musgo.

O vento me acerta com tanta força que não percebo um carro subindo a estrada perfeitamente asfaltada, se aproximando lentamente por de trás de mim. A ventania é tão constante que empurra o ronco do motor para trás, para longe de mim, mesmo que a Land Rover já esteja quase tocando a roda traseira da Garibaldi. De capacete e com o scarf ocultando meu rosto a fim de evitar as queimaduras do frio, percebo a companhia somente quando a protuberante dianteira da caminhonete surge ao meu lado esquerdo, parando por completa no meio da estreita rodovia.

— VOCÊ ESTÁ BEM? — me pergunta o homem com a cabeça para fora da janela do carona, tentando elevar o volume da voz ao máximo e fechando seu olho esquerdo para protege-lo do vento galopante que agora passou a acertar seu rosto.

Eu paro de empurrar a bicicleta. Estou cansado, bem cansado, me imaginando na barraca esta noite. Aqui é muito mais alto do que ontem, e agora tenho um tipo de pampa monumental pela frente onde apenas o Licancabur me faz companhia e, sem dúvidas, cria uma barreira para o vento que, talvez por isto, corre forte por aqui.

— Preciso de um abrigo esta noite — respondo — , receio que irá fic_ _ _

— QUÊ? — berra o rapaz da caminhonete.

— EU PRECISO DE UM ABRIGO! — grito depois de ter puxado o scarf para baixo.

— SUBA SUAS COISAS — disse o homem aparentemente de mesma ideia que eu — O TEMPO VAI PIORAR.

Deslumbro o cenário atrás de mim, é uma queda gigantesca. São Pedro do Atacama ou o Vale da Lua não passam de pó vistos de 30 quilômetros e a quase três mil metros acima do nível daquele povoado. Me viro para o carro, jogo minhas coisa na carroceria e ponho a bicicleta de qualquer modo sobre as mochilas no teto do veículo. Me junto aos rapazes no interior da Land Rover, fechando a porta traseira.

— Você poderia morrer ficando por aqui.

Eu sorrio olhando para a lateral do rosto do homem sentado no banco do carona, logo a minha frente. Já estou acostumado a ouvir os dramas de quem me vê fazendo o que faço, mas é possível que estes últimos dias eu tenha elevado as coisas para um nível superior onde se eu abrir detalhes, me chamarão de suicida. Não de maluco, não de louco, me chamarão realmente de suicida tendo como contexto não a bicicleta em si, mas a época do ano para quem está sozinho. Não sei para onde estes caras vão, contudo qualquer lugar é melhor do que ali fora.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— É uma tempestade de vento e a temperatura vai cair muito a noite — comenta o motorista em espanhol com um sotaque diferente.

— É, dormi a noite passada na estrada — digo.

— Onde?

— Na beira da estrada, 20 quilômetros mais abaixo, saindo de São Pedro.

— Frio, sem dúvida — diz o carona — , mas você subiu mil metros a mais e aqui em cima é inverno boliviano, rapaz.

O caminhonete arranca em direção ao plano adiante e eu reparo outra vez no vulcão nossa esquerda. Uma montanha praticamente solitária, acompanhada de uma menor porém mais larga em suas costas.

— Enfim — continua a falar o carona — , vamos ir para a fronteira com a Argentina, podemos te deixar_ _ _

— Não, não — digo imediatamente — , me deixem aqui então, por favor.

O carona e o motorista se miram brevemente a medida que o veículo avança na velocidade de cruzeiro.

— Imagino que você tenha ideia dos riscos que corre aqui — alerta o carona com forte sotaque toscano, fitando-me por detrás do óculos de sol e pelo espaço dos bancos frontais da caminhonete.

Eu considero o aviso, reparo aflito para além do vidro e deslumbro uma paisagem imóvel, sem pormenores, contudo que, se eu saísse da vedação do veículo, ouviria o assobio cada vez mais forte e consistente do vento sub-ártico de entardecer aqui no alto.

— Preciso ir pra Bolívia, não tenho alternativas! — finalmente respondo ao alpinista italiano, conforme minha atenção focaliza uma estrutura metálica e oca um pouco mais adiante, também à esquerda.

Como um hangar para aviões de pequeno porte, um lugar metálico instalado no meio do vazio avermelhado de fim de tarde sobre o solo estéreo do Deserto do Atacama.

— O que é esta estrutura? — pergunto conforme o veículo vai desacelerando.

O motorista abre a boca pela segunda vez, me explicando sobre a construção. Um posto fronteiriço chileno que ainda não funciona, porém provavelmente eu consiga algum abrigo ali antes de começar minha incursão “suicida” para dentro do sul boliviano no inverno. A Land Rover pára por completo e assim que abro a porta direita traseira para desembarcar, recebo um golpe frio na mão que segura a maçaneta e, logo depois, o ar lambe meu rosto com a aspereza do ambiente mais seco que já estive, tornando meus lábios quebradiços e com filetes de sangue coagulados. Desembarco fechando a porta de imediato, desço a bicicleta do rack superior do carro e saúdo os alpinistas que aceleraram na direção da fronteira com a Argentina, umas 50 milhas adiante.

Giro sobre os pés e empurro a bike para fora da estrada perfeitamente lisa, entrando no solo vermelho e firme daqui do alto. Conduzo a Garibaldi na direção da estrutura distante 190 metros da estrada e consigo ver os detalhes do edifício que parece brotar do chão em meio ao nada, feito paredes de lata azul e cinza, curvadas e anexadas à contêineres empilhados e que provavelmente serão convertidos em escritórios. Está curiosamente isolado de tudo, no alto de um lugar sem nome nos mapas. “O chão é de concreto”, penso eu me referindo ao piso abaixo da estrutura a qual me aproximo. “Montarei a barraca ai, protegida do vento, e farei uma janta quente e dormirei como pedra como ontem”. O vento acerta os alforges lateralmente, tornando a bicicleta pesada demais e eu me obrigando a soltar o guidão para não cair lateralmente com a Garibaldi. Ela cai lateralmente.

— OLÁ — digo bem alto ao chegar na estrutura poucos minutos depois.

A porta de um dos contêineres se abre para dentro e um homem grisalho, forte e alto sai de seu interior no segundo andar da estrutura.

Buenas! — responde ele ao sorrir.

Jaime. Este é o seu nome, um chileno de 43 anos que está aqui tem três semanas, sozinho, sem luz elétrica, nada. Ele, seu rádio e um estoque de comida e água. A felicidade que ele me recebe, me enche de uma sensação reconfortante, de bem-estar, de bem-vindo. Nos cumprimentamos e ele me convida a entrar na instalação e por fim sair do frio de 8ºC negativos.

— A tempestade hoje está mais baixa — diz Jaime a medida que subimos o único lance de escadas igualmente de lata azul que liga a base de concreto da estrutura interna ao contêiner superior de um dos lados da estrutura.

A voz plácida do senhor completamente abrigado do frio das montanhas, não produz eco pelas paredes internas da estrutura como a minha que reverbera nas paredes em forma de hangar.

— E tudo isto para ver uma cratera— pensa alto Jaime duas horas depois da minha chegada, entre um gole de chá com folhas de coca e uma mordiscada no pão com margarina sem sal — . Tu estás vivindo a la puta madre, weón!

— Pode ser — assinto pensativo, relaxado em uma cadeira plástica ao lado do homem, com o saco de dormir sobre as pernas — , mas a adrenalina que experimentei lá não foi tão boa assim, Jaime.

— Se tu não estivesse com sua câmera fotográfica, tu terias morrido, meu jovem.

Fito a boca do homem mastigando sua janta em câmera-lenta, ouvindo cada estalo surdo de seus dentes pulverizando a massa de farinha de trigo torrada, acompanhada do som do chá muito quente sendo sugado com cuidado. Minha atenção é tão extrema que eu, neste instante, sou capaz de perceber um grão de arreia saindo do lugar na ventania que faz lá fora.

Onze dias antes.

Eram 15:00 e fazia calor nas terras sem sombras do norte chileno. O inverno ventava pouco e o bafo de 30ºC era irreversivelmente seco no deserto mais árido do mundo. A paisagem de areia salgada avermelhada de sumir de vista em qualquer direção, nos relevos mais proeminentes que brotavam do que eu poderia chamar de plano, um tom de rosa púrpura texturizava algumas áreas longínquas. Chuvas torrenciais caíram nas partes mais altas e sulistas do Atacama havia algumas semanas, deixando povoados debaixo de lama, pedras e partes minúsculas de corpos humanos moídos pela fricção da terra molhada e pedregosa descendo montanhas e engolindo bairros inteiros, deixando um cheiro quase pútrido que entrava no meu nariz conforme pedalava pelas principais ruas de Copiapó e Taltal. A ironia da beleza excêntrica dos acontecimentos é que a mesma chuva que trouxe dor à quem nunca poderá velar um ente desaparecido na lama, alenta as consciências mais maduras e minimamente poéticas com um deserto florido de pétalas jovens e breves, um deserto tão raro para se ver em uma única vida.

— Isto é muito raro, amigo — disse o motorista à mim, apontando para os distantes brotos brancas e rosados além da sua janela.

Em alta velocidade, o relevo próximo ao vidro da caminhonete vermelha a serviço de alguma mineradora, passava rápido diante de mim sentado no banco de trás do veículo 4x4. Muitos quilômetros antes, eu estava empurrando a bicicleta sob o calor do meio-dia e de estômago forrado apenas com uma lata de atum. A caminhonete parou ao meu lado e o motorista avisou que poderia ajudar-me; não pensei muito, pus a Garibaldi na caçamba e ali estávamos nós naquele momento, próximo de Tilopozo, uma região que não consta em mapas online ou internacionais, entretanto era a zona que minhas fantasias de aventura se concentravam.

O rapaz que conduzia a caminhonete, o qual em nenhum momento eu via seu rosto oculto pela máscara de tecido sintético branco, compartilhou comigo uma barra de cereal e um litro de iogurte de morango.

— Obrigado — falei ao homem de voz aguda, talvez com menos de 30 anos.

Ele detém o veículo em um solitário cruzamento na desértica estrada asfaltada 150 quilômetros depois de eu ter pego a carona. Não havia nada para qualquer direção que olhávamos além de plano vazio à direita e uma reta de muitos e muitos quilômetros à frente que levaria-nos até as altas montanhas nevadas da Cordilheira dos Andes. À esquerda, colinas que, segundo as anotações que eu fizera, formavam um corredor, um vale, que me levará até um buraco gigantesco com quase uma milha de diâmetro, um lugar que contava a história de um impacto épico ocorrido há centenas de milhares de anos.

— Tem certeza que é aqui? — questionou o homem que protege sua cara do intenso brilho do Sol no lugar do planeta onde não há sombras em qualquer horário do dia.

Reparei outra vez minhas anotações de navegação feita nas costas do mapa impresso:

Passo 4 — No único cruzamento no meio do deserto, seguir reto por 25 km até uma sequência de curvas à direita, do leste para o sul. Terreno plano, não parece ser asfalto e na direção de um vale. Tem de haver “campos brancos retangulares" no horizonte próximo. No mapa diz “Tilopozo”;

— Receio que sim — falei, observando o cruzamento à frente, eu já do lado de fora da caminhonete com a bicicleta atirada no acostamento terroso — Veja este mapa. O que são estes “campos azuis”?

O motorista pega o mapa amarrotado.

— Não são campos — respondeu o homem, tirando o óculos de sol e me deixando ver seus olhos negros e de sobrancelhas finas — , são piscinas de sal.

— E eu conseguirei enxergá-las à distância para usá-las como referência?

— Sim, sim — respondeu o homem, fitando a estrada diante dele, mas logo voltando a atenção ao mapa em mãos — , elas têm por padrão o tamanho de uns dez campos de futebol, você as verá de longe quando estiver chegando lá.

Apesar de nunca ter visto uma “piscina azul de sal” com mil metros de comprimento, eu acreditava que não seria difícil reconhecê-las em um lugar onde quase tudo tinha o tom marrom ou vermelho. Naquele instante fui eu quem reparou o horizonte adiante com um pouco mais de tempo.

— E se tu precisares de ajuda?

— Não vou — respondi sem qualquer certeza verdadeira — , mas se realmente eu estiver numa emergência, corro para a estrada. Não se preocupe!

— Olha — contestou o rapaz de pele mulata com curtas risadas sem graça no vocabulário — , aqui sem GPS é difícil.

Peguei de volta o mapa e o ergui rapidamente enquanto encaro o homem, agradecendo suas preocupações e o iogurte que já havia bebido em poucos goles famintos. O rapaz arrancou o carro e eu o cumprimentei pela última vez com um movimento positivo e firme de cabeça que ele não deve ter percebido. O Toyota toma à esquerda no cruzamento e segue constante ao norte vazio como se fosse para São Pedro do Atacama.

Organizei rapidamente a Garibaldi, me dei por conta que dentro da caçamba da caminhonete ficou meu isolante térmico. Não havia o que ser feito para chamar a atenção do homem. Lá se fora meu um metro e oitenta de papel laminado e emborrachado que protegia minha temperatura corporal ao dormir direto no chão.

Não importava a direção em que eu olhava, não havia vida. Nem plantas, nem animais, quem diria humana. Minto, aliás. Havia sim, uns 10 quilômetros ao norte, ao lado da estrada por onde a Toyota desapareceu com meu isolante, tinha uma gigantesca montanha branca, como se fosse a base de uma pirâmide inacabada, feita aparentemente de sal onde havia em seu platô pequeninos pontos negros que circulavam e expeliam fumaça escura como se fossem caminhões do tamanho de pulgas graças as distâncias. Eu estava feliz, quase saltitante por reconhecer o ambiente a minha volta apenas por anotações em papel. As montanhas, as colinas e aquela “pirâmide” que, na visão superior do Google Maps que vira mais de um ano antes, parecia um campo de futebol colossal, branco e azulado, sem as linhas internas de marcação. Finalmente eu estava há menos de 40 quilômetros da Monturaqui, uma cratera que eu sempre quis ver, desde os tempos de menino.

Mais ou menos há 660 mil anos, muito antes dos nossos ancestrais diretos migrarem da África e colonizar os outros continentes, um meteorito entrou na atmosfera terrestre e, como uma bola incandescente amarelada, se espatifou no solo do deserto entre as montanhas, abrindo uma cratera do tamanho superior a três campos de futebol juntos em uma profundidade que caberia um edifício de 28 andares. Um lugar que, de tão desconhecido, até mesmo os chilenos nortenhos os quais conversei ao longo do trajeto até ali, não faziam ideia do que eu estava buscando.

Sem internet, sem celular, sem GPS. Tudo o que eu tinha em mãos eram um mapa impresso com anotações feitas quando eu ainda estava em Antofagasta cinco dias antes, uma bússola e meu ciclocomputador da Garibaldi que me dava informações como horário, velocidade e quilometragem. Nada mais.

Eram 16:00 e após pedalar pelas estradas de terra, encontrei a sequência de curvas para o sul e uma placa que confirmava que eu me encontrava em Tilopozo. Minha esperança de Tilopozo ser um povoado onde eu poderia obter ajuda mais próxima da Monturaqui desapareceu no momento em na arcaica placa tinha a inscrição “Córrego Tilopozo”. Um córrego minúsculo de água salgada e nada mais, sem casas, sem pessoas, sem comida, sem água potável. Parei a bike. A larguei à beira da estrada de chão-batido e dei alguns passos para trás, ficando no centro da pista. Observei a paisagem a minha volta e entendei o porquê do meu calafrio inconsciente naquelas quase duas semanas que fiquei em Antofagasta na casa de uma bombeira, olhando para o mapa sem parar, com duas crises de enxaqueca, tentando encontrar uma forma de chegar na Monturaqui e voltar seguro dela. Era o segundo momento da viagem que meu objetivo nitidamente poderia me matar, desconsiderando a própria viagem de bicicleta e os extremos de temperatura e escassez de comida e água que o próprio deserto trazia consigo. Água sempre é um fator de logística essencial. Eu estava só, equipado com o máximo de coisas que consegui empilhar em uma bicicleta a ponto de não perder a manobrabilidade. No momento em que eu pisasse para fora da estrada de terra, estaria entrando em 16 quilômetros extremamente desconhecidos e inexoravelmente perigosos para o mais hábil aventureiro realmente solitário. Uma caminhada, na melhor das projeções, de dois dias — um para ir e outro para voltar — empurrando uma bicicleta de 48 quilos, que é uma célula de sobrevivência, por uma topografia totalmente desconhecida mas seguramente irregular e impossível de se pedalar. Na Garibaldi, consigo transportar cinco litros de água, mais do que isso as peças passam a se quebrar com toda a trepidação e minha coluna e musculatura passam a não mais suportar o estresse físico que diariamente me condiciono. Após voltar da Monturaqui e chegar na estrada de chão, eu teria de pedalar por outros 14 quilômetros para encontrar ajuda na suposta “pirâmide branca” aonde há gente trabalhando. E se há pessoas, há água. As dimensões do desafio que estava prestes a iniciar me situou. Quando o Supertramp, o garoto que protagonizou a tragédia-real contada no filme Into The Wild (em português, “Na Natureza Selvagem”), se envenenou devido a frágil condição de fome em que ele se pôs, o rapaz estava não mais do que alguns poucos quilômetros de um povoado onde ele poderia ter pedido ajuda para enfrentar a escassez de alimento do Alasca. Na menor das emergências, eu estaria há 30 quilômetros das pessoas mais próxima de mim e isto significava um dia todo de caminhada no deserto se eu ainda estivesse a capaz de me locomover e me orientar. Não tinha medo da situação que me pusera, pelo contrário, ela me excitara desde a ideia de ir até lá, esperei anos para ver a Monturaqui além de uma página de enciclopédia, além do poster na parede do meu quarto de pré-adolescente, contudo se tem algo que sou bom é em aprender com meus erros. Ter escalado ilegalmente a Colina Tololo no mês anterior para ver um telescópio Victor quase custou a minha vida e senti na pele pela primeira vez na vida a sensação de “um movimento em falso, despencarei 70 metros”. Eu tremia para tirar minha mão de uma pedra e agarrar outra quando meu pé escorregou de um apoio e somente um de meus joelhos fez o apoio para minha mochila e eu não cair pela encosta.

Aldo Lammel, CC BY-NC

O Sol estava a pino no céu azulado sem nuvens do Atacama. Ele queimava o tecido que protegia todo meu rosto e eu sentia o calor seco da cabeça às pontas dos dedos dos pés. O hálito quente esbarrava no scarf e ainda assim não havia humidade suficiente para embaçar as lentes dos óculos escuros. Ainda no meio da estrada de terra com a bicicleta jogada ao acostamento em um lugar onde parecia que a semanas ninguém passava, conversei com a câmera um pouco. Eu estava tão pensativo que me dei mais tempo que o normal para avaliar o caminho sem volta no caso de um erro. Olhei para o sul e lá estava um tipo e corredor de proporções épicas, de textura pedregosa e terrosa, um chão quase todo alaranjado com algumas manchas esbranquiçadas do sal talvez, um lugar extremamente seco, desprovido de qualquer vegetação. Nada! A minha direita, quase podia tocar as colinas de 100 ou 130 metros de altitude, colinas que projetavam suas sombras ainda modestas para dentro do vale, para dentro do corredor à frente. Para outra direção, tão longe quanto podia enxergar ao leste, colossais montanhas negras com neve nos cumes, montanhas as quais não conseguia precisar o tamanho e a real distância de mim, todavia eram tudo o que podia ver no horizonte à minha esquerda. Olhei para trás de mim, para o norte, e vejo 14 quilômetros distante daqui, aquela “pirâmide branca” pela metade em um horizonte perfeitamente plano naquela direção, na direção do salar. Inflei os pulmões, calculei uma terceira vez os riscos. “Cinco litros de água, precisará ser o bastante”, pensei. Dei um gole tímido inicial, juntei a bicicleta e pisei para fora da estrada, para o sul, iniciando a árdua caminhada de 16 quilômetros até a Monturaqui, empurrando a pesada Garibaldi na direção das sombras vindas das colinas à minha direita.

Às 17:30 fazia uma hora que lutava com o falso plano e liso do vale. Avancei apenas três quilômetros quando imaginei que faria uns seis por hora. A minha frente, a sensação dada pela falta de referências visuais calculáveis como um carro, uma construção, uma árvore sequer ou pessoas, fazia com que meu cérebro me enganasse sem querer, estimando que as distâncias à frente fossem muito inferiores as reais, de topografia plana entre as colinas à minha direita, às montanhas de cumes nevados à minha esquerda. No piso irregular do corredor do que chamo de vale, havia em cada metro-quadrado uma dúzia de pedras escuras do tamanho de bolas de futsal, rodeadas por pedras menores, as vezes como bolas de tênis, outras como bolas de ping-pong. A areia onde as pedras repousava era tão leve como talco, ora granulada como areia de corredeiras, ora como areia de Ipanema, porém sempre macia demais para uma bicicleta tão pesada. A bicicleta além de quicar o tempo todo nas pedras maiores, atolava, exigindo ainda mais força das minhas costas e pernas já sem a potência da minha antiga musculatura que eu tinha antes de pôr meu corpo a canibalizá-lo com pedaladas diárias da volta ao mundo. A cada passada fofa na areia, eu me concentrava a manter uma linha virtualmente reta adiante. Depois de algum tempo, encontrei uma estrada abandonada, já tomada por pedras e quase não havendo mais silhueta que a identificasse como rota, porém com superfície compactada o suficiente para eu poder montar na Garibaldi e pedalar rumo ao sul. Foram 30 minutos assim, sete quilômetros mais ao sul até que a estrada desse uma quinada ao leste, na direção as montanhas negras, na esquerda do vale e me fizesse sair da rota para o sul, o que seria fora dos planos. Nada posso fazer além de lamentar a falta de sorte e voltar a empurrar a bicicleta rumo à cratera.

O crepúsculo começou, o céu passou a mudar de cor e eu já estava a horas empurrando a bicicleta e nem sinal de cratera. Ainda tinham alguns quilômetros por fazer. “Não vim aqui para não ver esta merda”, me disse, deixando a bicicleta no chão, deixando minha comida, água e abrigo do frio noturno para trás, levando comigo apenas alguns mililitros de água e o abrigo que uma roupa de ciclismo poderia me proporcionar: quase nada. Corri, mas as direções não pareciam mudar. Me mantive em velocidade de caminhada entre a marcha rápida e a corrida por mais de uma hora, sempre olhando para trás para não perder a linha reta imaginária entre minha posição e a bicicleta. A luz que me permitia ver alguma coisa, se esvaia e as sombras que antes não existiam, passaram a engolir o vale comigo dentro. Sozinho e sem minhas coisas. Me esforcei, chorei a seco por não estar conseguindo ver a Monturaqui. “Não acredito que vou falhar”, lamentei com a mais inata raiva do fracasso que fervia dentro das veias. Fitei por cima dos ombros outra vez, e vi a bicicleta. Não, já não sabia mais se o ponto distante era a bicicleta. Parei, fiquei na ponta dos pés como se isso mudasse algo, deixei meus olhos semi-cerrados mas o escuro não me deixava ver nada. Já não sabia mais aonde eu estava. A agonia de ter falhado, me impedia de ver a gravidade da situação que eu me pusera. Ao invés de correr para a bicicleta, me sentei nas pedras, ponderando se haviam chances de eu racionar mais água para tentar chegar na cratera na próxima manhã. Naquele momento me dei por conta que talvez seria possível sim, poderia suportar outra vez a garganta selar parcialmente e ignorar as rachaduras de sangue que surgirão nos lábios, desde que eu esteja abrigado do frio negativo na noite do deserto, descanse bem sem comer proteína e consumir poucos mililitros de água nas próximas nove horas de escuridão antes do amanhecer. “Minha bicicleta”, me levantei das pedras e comecei a caminhar sem ver muita coisa além de 20 metros à frente. A obscuridade da noite recaiu absoluta e o luar se encobriu de nuvens. “Isso é grave, grave, é grave”, comecei a verbalizar, já deixando os pensamentos de lado e a falar realmente. Passei a correr até que correr se tornou impossível e o que eram 20 metros, passou a ser, quem sabe, três metros de visibilidade uma hora depois e, supostamente, eu estando onde a bicicleta deveria estar.

Duas horas já haviam passado desde que eu havia começado a voltar para onde eu creia estar a bicicleta; calculava que eram cerca de 21:30 e o frio era insuportável para alguém vestindo uma camiseta esportiva de ciclismo e uma calça de tactel sem forro. Meu estado de alerta era brutal, tão violento quanto a sensação de queda semanas antes enquanto eu escalava o Cerro Tololo. Abri minha mochila e comecei a tatear o que tinha nela, eu já havia decorado tudo o que nela existia, porém o fiz outra e outra vez, tentando encontrar a porra da minha lanterna que sempre ali estava. Não estava! Me ajoelhei no chão, nem minhas mãos eu conseguia ver além de uma silhueta fantasmagórica. Comecei a cavar, pensando em abrir um buraco de alguns centímetros e um metro e pouco de largura para me enterrar e suportar o frio até a próxima manhã. Meu tremor se mesclava entre os neurotransmissores que tomavam meu corpo e o frio beirando o negativo que me abraçava. Me irritei por não estar crendo que iria ter de apelar para um buraco e voltei a caminhar em círculos para ver se alguma sombra surgia na minha frente em forma de bicicleta. “Achei”, eu gritei em um momento, mas não passava de uma enorme pedra. “ aqui”, eu me disse depois, mas era uma pedra do tamanho de uma bola de futebol. A falta de referência do tamanho das coisas no deserto e a escuridão já estavam fodendo com qualquer método de busca que eu assumia. Não existia medo em mim, mas uma incômoda sensação que a dopamina que meu cérebro estava injetando no meu sangue que era muito mais eficaz nesta situação do que a adrenalina, como se eu fosse capaz de matar um puma, abrir suas entranhas com os dentes e pegar a lanterna se lá dentro houvesse uma. “A CÂMERA”, gritei no silêncio do deserto sem qualquer luz além de uma estrela forte no céu e a bruma brilhante diante do luar oculto que eu usava para saber em qual direção caminhar. “Tem que ter bateria, tem que ter bateria, tem que ter bateria”, eu falava baixinho conforme revirava tudo dentro da mochila até que a peguei em mãos e apertei o botão de lugar.

Dois filetes de bateria. Filho da puta, como eu tenho sorte. Pus no modo fotografia, configurei o flash, ergui a câmera sobre a minha cabeça o mais alto que pude e, antes de disparar uma foto, olhei o mais atento possível para frente. Disparei a fotografia, sabendo que a cada foto com flash, menos bateria eu teria. Intencionalmente para me tornar visível aos carros durante pedaladas ao entardecer, desde que saí do Brasil, equipei a Garibaldi com cinco fitas reflexivas. No menor contato com a luz direta, as fitas brilham brancas. O flash da câmera brilhava em um centésimo de segundo, meus olhos, mesmo deixando a câmera sobre minha cabeça para que o flash não ofuscasse minha visão, era rápido demais para eu ver algo no instante que ele iluminaria metros a minha frente de deserto, porém, no resultado da foto no display da câmera, eu veria se a fotografia capturou algum brilho. Comecei a fotografar pelos pontos cardinais seguindo a orientação mínima que o luar e a estrela me davam. Fotografei na direção da estrela o qual chamei de norte, olhei para a fotografia e nada. Girei sobre os pés sem sair do lugar, deixei a estrela ao meu ombro esquerdo e fiz a fotografia virtualmente virado para o que chamei de leste. Nada. Assim fiz para todas as direções e nada. Olhei para a bateria da câmera e já tinha somente um filete. A desliguei e comecei a pensar em uma estratégia para fazer fotos que me aumentariam as chances de localizar a bicicleta com o pouco de bateria que me restava. Caminhei aleatório em ziguezague para uma direção que chamei de “oeste” da estrela brilhante e percebi o vulto de uma ruína indígena que encontrara horas antes no deserto. Recordei que eu deixara a bicicleta logo depois que a vi. Dei 10 passos adiante e comecei a apalpar as pedras, formavam um muro irregular da altura dos meus joelhos, porém as pedras estavam dispostas em sequência perfeitamente linear, uma sobre as outras embora em alguns momentos o muro estava tombado, ainda assim artificial demais para ser outra estrutura que não as ruínas que eu vira anteriormente. “É a ruína, é a ruína, porra!” eu me sussurrei. Me pus apontado para a direção onde supostamente eu tinha deixado a Garibaldi e comecei a fotografar. Na quarta fotografia muito bem pensada, um ponto minúsculo brilhou no resultado da foto. Pus no modo câmera e comecei a correr até lá. Era a bicicleta com toda minha água, comida e roupa para o frio. Meia-hora depois de ter a ideia de usar a câmera para encontrar a bike, montei a barraca na penumbra do nada e sorri debochado enquanto me abrigava com mais roupas e preparava algo quente para comer. Tudo voltava a ser o cenário mais lindo do mundo. Acordei no dia seguinte na barraca como filho do deserto noturno, nascido do declínio das rochas e servo perpétuo do deus Sony CyberShot e sua luz da revelação. Entre uma piada e outra, eu nascera uma vez mais.

A fotografia (Aldo Lammel, CC BY-NC)
Aldo Lammel, M&B Websérie

— É uma pena que tu não tenhas encontrado a cratera — comenta Jaime, concluindo — . Fico triste por você

Eu não digo nada por um tempo, mudando de assunto enquanto escutamos pelo rádio à pilha os cinco minutos finais que dá ao Chile o inédito título de Campeão da Copa América de Futebol. Estar com um chileno apaixonado por futebol, acompanhando no meio do Deserto do Atacama sua alegria conforme me dá abrigo, mesmo que não gostando de futebol, me pus na obrigação — e vontade — de comemorar com o Jaime cada minuto para o título.

— JAIME, CHILE CAMPEÃO! — eu grito no escuro do contêiner.

Tímido, o enorme homem sorri, levantando os braços para cima e vibrando ao seu jeito conforme eu digo "Vamos, Chile!"

O vento é fortíssimo lá fora, as janelas são o preto extremo da noite longe de qualquer luz vinda da não muito distante São Pedro do Atacama. A estrada é solitária, sem caminhões descendo, tampouco subindo as até a fronteira. Do outro lado dos grossos vidros do contêiner, o frio seco de 15 graus negativos congela toda a água que temos para beber, nos fazendo deixar as bombonas de plástico ao lado das chamas do fogão para descongelá-las e termos alguma água para o chá antes de deitar.

— Amanhã você irá entrar na Bolívia? — me questiona o chileno.

— Sim.

— Sabes que não há nada depois do posto de fronteira por centenas de quilômetros, certo?

— Ouvi dizer.

— Tu tens comida para todos estes dias?

Não existe certeza em nada, se será duro daqui para frente, pouco me interessa, a neve cairá em alguns dias no menor traço de humidade que a região receber, e se quero cruzar a imensidão do sul boliviano, agora é a hora. Não venho sendo imprudente, só não quero perder a chance de fazer algo incrível, mesmo que eu vá me arrependendo cada dia, sempre com o desejo de que, no dia seguinte, o martírio do dia anterior seja a munição para meu orgulho, orgulho de quem deu a cara a tapa e conseguiu.

— Tenho, tenho comida para uns sete dias racionando. Água será um problema.

— Carros vão passar de tração nas quatro rodas irão passar por ti, isto é certo — comentou Jaime — , então, precisando, faça-os parar para te dar água.

A voz do homem alto chegava em meus ouvidos, mas eu não posso vê-lo. Não há luz além da vinda da chama do fogão na cozinha.

Me deito dentro do saco de dormir, apago meus pensamentos, mas volto algumas vezes das profundezas do sono, sufocando, sem conseguir respirar. Meu corpo levará algum tempo para se acostumar a relaxar a cinco mil metros de altitude e não será hoje que ele irá aprender.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— Adeus!

Na manhã mais fria até agora, não olho pra trás, levanto o braço, dando ao Jaime algum sinal que ele possa interpretar como "obrigado". Rumo aos pés da montanha ao lado do Lincancabur, é lá onde a fronteira do Chile-Bolívia está. Tento não quebrar meu código, mas quando estou longe o suficiente para o Jaime não perceber, me viro para ele e o fito em despedida. Ele foi a única pessoa que soube diretamente de mim o que vivi nestas últimas semanas e receio que na sabedoria do olhar dele, enxerguei na noite passada um homem que me considera imprudente, todavia que o instigara a pensar sobre o que ele mesmo ainda queria realizar.

Jaime Gallardo / Aldo Lammel, CC BY-NC

Às costas do Licancabur, o paladino descrente nos deuses preza em agradecimento sem palavras pela fogueira e lhama que um velho do deserto compartilhou na última noite. “No calor da fogo, me aqueci, e na carne de tua caça, me alimentei”, são os pensamentos do homem surrado demais para um sorriso amistoso mesmo que à distância. De longe, nada o impede de fitar por cima dos ombros o velho nômade que lhe abrigou da obscuridade das longas horas de sussurros noturnos, entretanto sua atenção não desvia-se do caminho a seguir. Com os calcanhares, ele atiça seu cavalo. O paladino reivindica sua bravura um dia mais ao avançar sem hesitar para os portões do Vale das Sombras, um ponto nulo na altitude morta, uma zona sem fronteiras claras, sem registros sobre o quê há dentro ou do outro lado, apenas o aparente vazio a sumir de vista, vazio flanqueado por montanhas de gelo e habitado pelo mais genuíno medo. Às patas da montaria em seu cavalgar lento, esqueletos parcialmente ocultos sob a pesada areia repousam esquecidos e aos pedaços. Armaduras destroçadas e enegrecidas se misturam ao solo sem qualquer vegetação a volta, sem qualquer traço de vida. Buracos com o tamanho de dorsos adultos salpicam a chão cinzento, escurecendo o solo dentro como se o mal mutilasse à fogo os passos de quem pisa em pequenos pontos destas terras. Na calmaria mentirosa da paisagem e nas passadas calculadas adiante, o paladino mantêm-se atento e calado; de uma forma misteriosa até mesmo para si, ele sente que, se o que ele busca realmente existe, é aqui que ele descansa.

Sob o olhar curioso de alguns turistas, chego no posto de fronteira, uma caixa de concreto com um escritório rudimentar dentro. Por fora, deserto e mais deserto em qualquer direção que se mire. Não há nada. O carimbo para ingressar na Bolívia é rápido e o policial de fronteira me deixa um “boa sorte!” desacreditado como se eu fosse suicida. Os grupos de cinco ou seis turistas vão embarcando nas caminhonetes 4x4 alugadas e partem da fronteira rumo ao centro do país, em direção ao Salar do Uyuni, ponto que devo passar. Para os grupos, uma viagem de oito horas; para mim, uma marcha estimada em sete dias de estradas, no chão de terra, 400 quilômetros a vencer na altitude monstruosa da Bolívia.

Comecei a pedalar, faço a primeira milha, a segunda, a décima e assim sigo. Três horas depois, somente 30 quilômetros avançados. Estou exausto. Meus pulmões não destilam o oxigênio, os quase cinco mil metros de altitude, empurrando uma bicicleta de 68 quilos é demais para meu corpo. O frio negativo e o vento contra parecem uma piada de mal-gosto nesta estrada de terra solta e costelas-de-vaca que são mais parecidas com trincheiras do que com irregularidades onduladas e sequenciadas na areia compactada. Uma pedra solitária do tamanho da uma pequena poltrona no meio do caminho, provavelmente um vestígio das antigas erupções nesta região vazia da Terra. Olho por cima dos ombros e ainda consigo ver a ponta fálica esbranquiçada do Licancabur ficando para trás. Escoro a bicicleta na rocha negra e me sento no chão com as costas apoiadas na face-sul da pedra, é a única forma do vento sub-ártico não me acertar diretamente. Aponto a cabeça para o céu e vejo azul, converso comigo enquanto abro uma das mochilas para pegar comida. “Isto aqui é selvagem”, me comento mudo, tentando encontrar mais pormenores além do cinza-terroso por todas as partes. Puxo meu pote, feijão que fiz ontem a noite no fogão do Jaime, porém os grãos se uniram congelados e não passa de um sorvete negro que só piora a piada-pronta. Meu estômago dói vazio, preciso dar um jeito. Passo a esfaquear o feijão na tentativa de dividi-lo em blocos, mas o máximo que consigo são pequenas lascas esmigalhadas que ponho na boca e aguardo dissolver-se. O processo é lento e somado ao frio externo, minha boca atinge uma temperatura tão baixa que somente de pôr algo na língua, dói e provoca novas rachaduras nos lábios. Poucos minutos depois, estou pedalando com a sensação de esgotamento ao limite, de que não mais é possível pedalar e volto a empurrar a Garibaldi terreno acima. Os pedaços de feijão congelado que engoli estão me resfriam de dentro para fora e consigo sentir precisamente onde está cada bloco de feijão no meu estômago, pedaços que achei ter mastigado. Pego a bolsa de água e tento dar um gole para ajudar na dissolução, porém nenhuma gota sequer sai do recipiente.

— Mas que MEEERDA! — verbalizo a primeira vez algo em horas, vendo que a bolsa d'água mais parece um bloco maciço de "granito transparente" do que um saco-plástico com líquido dentro.

Aldo Lammel, CC BY-NC

Empurro a Garibaldi, as ondulações da pista vão quebrar algo na bicicleta se eu não tomar cuidado. No cenário parado, gelado e estéreo, algo se move no horizonte, a única coisa que vejo em dias na direção contrária a minha, como se estivesse saindo do que eu estou preste a entrar.

— Ei — digo quando as duas motos desaceleram e param ao meu lado.

Os dois motociclistas estão sem capacetes, contudo com as cabeças enroladas em um longo decido negro e vestindo roupas tão surradas que eles parecem estar saindo de um dos filmes oitentista do MadMax. Um deles tem um case de guitarra preso as costas, também negro. Um deles baixa o scarf e revela seu rosto. É praticamente um menino. Rosto sem barba, pele branca, olhos azuis e com sobrancelhas castanhas-clara empoeiradas como todo o resto de sua roupa. Sobre ele, assim como no caso de seu companheiro ao lado, uma moto 125 cilindradas toda remendada e com parte da carenagem quebrada ou faltando. Estes dois canadenses são primos e não tem mais do que 23 anos. Eles concluíram a universidade e tomaram um avião até Bogotá, Colômbia, onde compraram as motos mais baratas que encontraram e vem descendo a América do Sul com o objetivo de chegarem na Patagônia Chilena.

— E você vai cruzar o que tem ai na frente de bicicleta?

— Porque? Ficará mais difícil?

Eles trocam olhares e o outro rapaz oculto pelo tecido no rosto se ajeita na moto e pronuncia uma palavra que não compreendo em seu espanhol com sotaque francês.

Seu primo se vira para mim e recomenda — Prepare-se para dias difíceis, brother! Em moto a gente já pensou que não iria dar.

"Moto?", penso comigo, ainda imaginando "Estes caras merecem tanto credito quanto qualquer um de bicicleta. A Garibaldi leva mais equipamento do que eles nas motos de entregador de pizza."

— Pode me dar um gole da sua água? — eu arrisco.

Tirando do meio do motor fervente do que parece ser uma Honda 125, uma garrafinha pet com água líquida. "Hell yeah!" comento com eles, dando um gole do líquido e com a outra mão sacudindo minha Camelbak petrificada na frente deles.

— É, a gente tá ligado! Aqui é Bolívia no inverno!

Agradeço e nos despedimos. Eles para o sul e eu rumo ao norte com a única informação que quis saber: há casas mais para frente. As outras informações, preferi pedir para eles não me falarem. Eu sinto que vai piorar, não quero nenhuma confirmação.

Os motociclistas (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Pedalo por mais duas horas, cerca 20 quilômetros mais ao norte em meio as montanhas, me questionando onde param todos os carros que passaram por mim pela manhã. “Tem de haver pontos de parada para as pessoas irem ao banheiro, comerem algo”, me alerto para logo em seguida, após uma longa reta de chão-batido, localizar o solitário vilarejo de três casas simplórias que os meninos canadenses comentaram.

— Fará muito frio esta noche — digo em espanhol ao dono de uma das casas — , existe um espacio aqui para eu pôr minha bolsa de dormir?

O homem franzino, um pouco mais de 1,50 de altura, traços indígenas como eu ainda não havia visto, aceita meu pedido de ajuda e me leva ao galpão da casa aonde pedaços de camas velhas, latas enferrujadas e pilhas de garrafas de vidro se acumulam. Tudo tem cheiro forte de madeira queimada com algum tipo de erva que desconheço.

— Será o suficiente, obrigado — digo ao homem que pressiona suas mãos uma contra as outras e as esfrega devido ao frio.

O senhor olha para mim com um sorriso tímido e fecha a porta. Eu olho em volta e percebo que não consigo nem mesmo conversar comigo. Estou simplesmente esgotado. Preparo massa pura, descongelo minha água e tento ver se encontro energia elétrica. Não há luz por aqui. A noite cai e a temperatura vai de zero para menos 15 em questão de poucas horas, entro para dentro do saco de dormir de pena de ganso e durmo. Como já aconteceu nos dias anteriores, acordo sufocando; respiro fundo, relaxo e tento não prestar atenção nos estalar de dentes dos ratos a minha volta. Não posso enxergá-los, mas os escuto muito bem tentando, junto comigo, se abrigarem do frio mortal que assola além da parede de pedra e barro.

Amanhece, preparo um pesado prato de massa outra vez para mim. Tomo um já de folhas de coca que o senhor me deu e começo a pedalar com o belíssimo sol do amanhece no território mais selvagem onde já estive. Ao longe, um lago e as montanhas estão começando a ficar salpicadas de vida, de verde, de animais marchando distantes sob um céu tão azul e frio. Muito frio. O chão é terrível e mal poderíamos chamar de estradas, contudo é tudo o que existe próximo a isto por aqui. Com dificuldade, as caminhonetes 4x4 começam a passar por mim em comboios de dois ou três veículos a cada 30 minutos. O medo destes motoristas ficarem sem combustível pelo caminho é tão grande que os carros têm tantos galões de combustíveis reserva do que carga dos turistas, tornando cada veículo um vagaroso míssil sobre rodas.

Já se passou horas e eu não devo ter avançado mais de 10 quilômetros. É quase impossível pedalar com estradas inexistentes, altitude e frio indescritíveis. A dor em minhas mãos vem crescendo a medida que o vento me acerta os dedos enluvados. Ponho um segundo par de luvas nas mãos, contudo nenhum par é específico para o clima e sigo sentindo o ar passando pelos meus dedos. Empurro a bicicleta por uma milha interminável pelo aclive mais nevado que já estive. Na maior parte da subida sem neve, a terra fofa não compactada pelas rodas das caminhonetes sem uma explicação aparente, faz minhas botas patinarem em algumas ocasiões, momentos pontuais mas que sobrecarregam ainda mais meus romboides que queimam por empurrar a bicicleta montanha acima na última hora. Meus pulmões que já sofriam, agora parecem que não inflam todo seu potencial, estou ofegante e preciso me sentar. O faço, sei que estou apenas procrastinando meu martírio, mas… Arghhh! Minhas costas e minhas mãos estão me matando. Me levando no minuto seguinte e continuo a empurrar a bicicleta montanha acima.

— Preciso de sorte aqui — verbalizo enquanto olho ao redor, reparando o quão alto estou na paisagem aparentemente lisa e inofensiva devido as distâncias. Eu sigo falando sozinho —. Um pouco de sorte aqui me cairia muito bem!

Chego ao topo da estrada onde há uma bifurcação abrindo caminho para novas duas direções, nenhuma para o norte que seria a melhor opção. Reviso o mapa da cartilha que peguei no posto fronteiriço boliviano, não há esta bifurcação no mapa. Pior, o mapa sugere que aqui deveria ter uma reta. “Onde está estrada que eu quero?", penso. Olho para trás e tento encontrar algum veículo vindo. Nada.

Me sento no chão e abraço meus joelhos para acumular um pouco de calor. A temperatura está baixíssima, entretanto se o vento parasse ou, pelo menos, houvesse uma pedra grande para eu me abrigar atrás. A paisagem é como se eu estivesse no topo de um lugar muito alto e com vegetação tão mínima que se você olhar a volta só encontra plantas secas que não chegam na altura do joelho e tão espaçadas que dá para contar nas mãos quantos arbustos você encontra em um raio de 50 metros. Tenho a impressão que nunca estive tão alto. "Não posso arriscar a pegar uma estrada errada nesse lugar. Não posso tentar pedalar por uma estrada, parar, voltar e tentar o outro caminho. Só vou ficar com mais fome e sede. Nossa, que sede!"

Aldo Lammel, CC BY-NC

Sentado no solo terroso fora da trilha, abro minhas pernas, faço uma parede de alumínio com meu isolante térmico e ponho o fogareiro no meio na tentativa de proteger sua chama do vento e descongelar um pouco da minha água. Com jeito, me preparo para liberar o gás do fogareiro assim que acender o isqueiro. O risco.

"Acende!", comento nos pensamentos.

Risco o isqueiro outra vez.

— Vamos!

Outra vez. E outra, e mais outra. Risco muitas vezes.

Ergo o isqueiro para cima, ele é translúcido e ainda tem bastante gás dentro.

— Mas que porra — digo baixinho, tentando fazer a ignição da chama acontecer.

Arranco a proteção metálica da cabeça do isqueiro de botão que ocultava as faíscas, deste modo posso acender o gás do fogareiro sem precisar de chama do isqueiro. Giro a válvula do fogareiro e provoco faíscas com o isqueiro, mas as fagulhas não inicial o fogo. Solto tudo entre minhas pernas e, ainda sentado no chão semi-desértico boliviano, sacudo meu fogareiro para sentir o peso oscilante do gás em estado líquido dentro do cartucho.

"Que estranho, ainda tem gás!", me comento.

Puxo o alforge que chamo de "cozinha" e pego um cartucho novo de gás butano. O instalo no lugar do outro, ajeito o isolante térmico outra vez no meio das pernas e me preparo para acender o gás com toda a potência.

Giro a válvula no máximo, risco o isqueiro compulsivamente. Nada acontece.

Não compreendo o que está acontecendo. Desmonto outra vez o fogareiro, reviso a válvula do apetrecho, não há obstrução, está em excelente estado. Pego o cartucho novo, enfio uma pequenina chave de fenda na saída do gás que deveria liberar manualmente o conteúdo, mas também nada acontece. Tento com o cartucho antigo. Outra vez nada!

Me levanto abruptamente, ergo meu braço esquerdo à frente, o embalo de volta para baixo ao mesmo tempo que, com o braço direito, arremesso o recipiente para longe.

—AHHHH, INFEEEEEERNO!

Sento no chão outra vez, coloco a cabeça entre os joelhos e desejo chorar. Só quero chorar um pouco, mas nem isto consigo. Aquela sensação de ficar sem água outra vez é angustiante. O vento não pára, especialmente minha mão direita parece uma pedra de gelo e não sei quantos quilômetros tenho pela frente até encontrar abrigo antes do anoitecer. A única certeza que tenho ao olhar o horizonte adiante é que são muitas e muitas milhas de terra e mais terra. Foi uma hora tentando acender o fogareiro para no fim não conseguir e o pior é que não sei porqu_ _ _

Som de motor! E dos fortes!

Me interrompo ao me levantar com os olhos fixos na estrada que some em declive em uma das direções que eu tenho dúvida se devo ou não seguir. Algo vem na minha direção por ela. Um caminhão surge.

Corro para o meio da pista e faço o motorista parar a força. Visto um sorriso mentiroso na cara e vou até sua janela assim que ele pára por completo o veículo.

— Não importa para onde tu vai, só me tira daqui!

— SUBA! — o homem grita abaixando seu vidro e fazendo sua voz vencer o vento que assobia.

Algumas horas depois.

— Dói?

— Não — respondi.

— Deixe sua mão repousar aqui. Assim que a água esfriar, leve no refeitório para mim que esquento ela outra vez antes de você dormir.

Estou dentro de um alojamento de funcionários. É curioso pensar que no meio de um deserto há instalações de uma mineradora de ácido bórax. Tudo aqui é empoeirado e crostas brancas do que parece ser uma argila já seca. Bórax. Corrosivo quando mesclado com água. A cozinheira, e enfermeira do lugar, pelo jeito, pediu para eu não tocar em nada enquanto minha mão direita seguir em banho-maria em uma panela. Quando cheguei aqui no início do anoitecer e ouvi ela dizer que minha mão estava em princípio de congelamento, não me assustei. A raiva de não ter percebido que um fogareiro à gás não funciona em grandes altitudes me transtorna até agora. "Como eu não soube disso durante meu planejamento ao longo de um ano no Brasil?", me questiono. Pode parecer um detalhe, mas são coisas miúdas assim que matam gente. Fico olhando para a cor dos meus dedos, desejando ter bateria na câmera para registrar tudo isso, todavia desde que saí do Valle de la Luna em San Pedro de Atacama não encontro energia elétrica para recarregar minhas coisas e minhas baterias acabaram ontem. "Onde estão as tomadas se há postes lá na rua?", me questiono quando sinto a sensibilidade voltando mais depressa aos dedos antes dormentes. No bizarro do pensamento solitário em um quarto humilde e tomado por cobertores e pelegos de lhama velhos, algo me diz que não me chocaria em perder os dois dedos ainda imóveis da mão, mas é assustador pensar que eu ainda poderia estar sentado naquela bifurcação até agora na calada da noite a uma temperatura, segundo o termômetro do refeitório, quase 20 graus negativos. Não temo cicatrizes. Temo não as ter.

"Porque não insisti mais lá", me digo pensando na Monturaqui.

Choro brevemente. Sorrio ao mesmo tempo. É difícil de explicar estes momentos. Tenho comida no estômago, uma jarra de água líquida no criado-mudo e estou sentado nos pés da minha cama com bastante coberta junto de outras cinco camas vazias no mesmo quarto; ou seja, tenho alguma privacidade. Estou insatisfeito tendo quase tudo o que sempre quero encontrar pelo caminho.

São 6:30, dormi muito bem e tomei café da manhã com os funcionários da mineradora que aqui me disseram que o normal é ficar 35 dias sem banhar-se. Antes de dormir ontem, enquanto eu procurava água para fazer alguma higiene, um homem conectou minha câmera em algum lugar com energia elétrica e me devolveu esta manhã. O frio junto da poeira e do ácido bórax faz com que a câmera estale toda vez que eu a desligo e sua lente retrai para dentro do corpo compacto da Sony Cyber-shot. Tudo indica que ela não terá mais do que alguns dias de vida.

"Aguente só mais uns dias", digo mexendo na câmera conforme subo na bicicleta, abano para os trabalhadores e sigo em direção as montanhas à frente, hoje três dias de pedal do Salar do Uyuni e fora dos seis mil metros de altitude como ontem, o lugar mais alto onde já estive e que, de tão alto, a pressão faz com que o ar seja mais pesado que o gás butano do meu fogareiro, me impedindo de acender aquela bosta que quase me custou dois dedos da mão.

Aldo Lammel, CC BY-NC

É como se eu estivesse em outro planeta, vou pedalando pela terra que era marrom, contudo está se tornando branca, tomada de sal ou bórax ou sei lá o que, misturado com um frio que vai até os ossos mesmo que a paisagem seja eternamente ensolarada. A estrada larga e de terra, acaba, e dá lugar a trilhas por onde me lanço colina acima onde ninguém mais passa. Terra escura, verde rasteiro, paisagem tomada de colinas para todas as novas direções que me ponho olhando o meu mapa de papel que diz que é por aqui. Bem, não tenho certeza, mas ainda assim eu vou. "Jurássico", comento no meu silêncio pedalando e desviando das pedras soltas colina acima. Poderia dizer que se existe uma paisagem na América do Sul que te faz imaginar dinossauros, este lugar é aqui. Tudo é amplo, grandioso, lindamente selvagem e com corredeiras onde a água pouco se move e quando desliza, é por cima de sua camada inferior de gelo.

Uouuu!

Uma lhama passa assustada correndo a poucos metros à minha frente e, logo da direita para a esquerda, outras três de pelugem longa, escura e lanosa fazem o mesmo, ficando para trás a medida que eu não paro de pedalar. Me arrancaram um susto, mas também um sorriso. Mesmo que domésticas, ver estes animais incas livre e longe do sinal do Homem aumenta a imersão na paisagem de aspecto tranquilo e congelante do sul boliviano. Sigo subindo até sentir que meu pulmão voltou a estar limitado e sem dúvida acima dos quatro mil metros, porém hoje a felicidade me transborda, bem diferente de ontem. O cenário é tão inspirador que não consigo parar de olhar para minha volta conforme inicio a descida da estrada acidentada do penhasco, sendo seguido apenas por meus pensamentos e pela corredeira congelada lá embaixo. Acelero, começo a pedalar mais forte com o amortecedor frontal da Garibaldi acionado. Desvio das pedras como no downhill, minha velocidade talvez esteja acima de 40, a curva se aproxima, pressiono parte dos freios hidráulicos e a bike responde na hora, mesmo completamente carregada. Faço a curva para a direita no limite, chegando com a bicicleta na beirada da estrada de chão sem parapeito. Quero mais rápido, mais, e mais. Consigo mais.

Aldo Lammel, CC BY-NC

Grito de felicidade, a endorfina é despejada a cada quilômetro a mais, a cada curva mais fechada, a cada reta em declive com mais pedras soltas do tamanho de bolas de futebol. Um erro, uma queda, um escorregão e o azar. Me preocupo com a vibração dos alforges que começam a se desencaixar e ameaçam cair.

— QUE SENSAÇÃO BOA! — grito outra vez com o vento gelado passando pelo tecido que protege meu rosto da poeira e do ar já não tão seco quanto ontem.

A pista a frente em plena descida íngreme há mais de 10 minutos desaparece de repente lá na frente e eu puxo os dois freios com suavidade, mas a bike não desacelera tanto quanto eu calculo e tenho de pressionar o freio à disco traseiro com toda a força fazendo o pneu traseiro quicar nas pedras, porém o necessário para parar a bike completamente com alguma margem de segurança. Parado, me inclino para ver o precipício.

Putz! — lamento ao ver o que vejo 60 metros lá embaixo.

Na curva mais fechada que vi por aqui, inclino minha cabeça para enxergar o que há lá embaixo. A carcassa de uma caminhonete idêntica as que passaram por mim desde que cruzei a fronteira da Bolívia. Aquelas que levam combustível extra em galões e turistas junto. A curva faz um "u" e lá do outro lado deste "u" noto um memorial improvisado com uma bandeira branca e azul balançando ao vento quase caindo de uma enorme pedra ao lado da homenagem. Faço a curva em formato de ferradura empurrando a bicicleta até chegar do outro lado. A bandeira tremula desajeitada, quase caída ao solo. É a bandeira de Israel. Nas duas placas retangulares e translúcidas de acrílico que se eleva do chão até o meio do meu peito, homenagem a dois jovens. Não há fotos, apenas inscrições em hebraico as quais não posso ler, entretanto os números, melhor, as datas, estas deixam claro que tudo foi uma tragédia. As duas pessoas nascidas em 1989 morreram aqui, provavelmente da queda daquele carro lá embaixo no penhasco, em abril de 2011, mês do meu aniversário, ano em que minha própria vida começou a mudar e que me trouxe até aqui.

Escorado em um dos acrílicos, um CD. Na capa, uma jovem mulher e sobre ela uma dedicatória escrita a mão. Todo os textos estão em hebraico. Me faço algumas perguntas como se uma das vítimas seja ela. "Porque deixariam um álbum musical de uma artista israelense?" Sei que tenho pouca bateria, arrisco não ter para mais adiante, contudo me sinto emotivo, pensando que aqui no vale, neste lugar de sopro frio, é um lugar especial e silencioso para ser lembrado. Gravo um vídeo conversando comigo mesmo a respeito do que pode ter acontecido: o carro vinha descendo a estrada, exatamente como eu faço, e, na entrada do "u", derrapou, capotou inúmeras vezes e, por fim, explodiu matando o casal de jovens. "Só tinham 22 anos", me digo conforme fito catatônico o memorial sob o lindo sol acima.

Antes de partir, ajeito a bandeira sobre a enorme pedra.

Levo mais dois dias pedalando para chegar onde eu queria: no Salar do Uyuni. O deserto de sal é antecedido por um povoado chamado Uyuni e assim que ponho os pés na cidadezinha, tambores e trompetes começam a tocar, fogos de artifício a explodirem nos céus e turistas a tomar as ruas. "O que está acontecendo?", pergunto a um comerciante, talvez o homem mais fedorento que posso lembrar. E ele me responde "É aniversário da cidade". Em meio a multidão e a sujeira voando pelas ruas parte pavimentada, parte terra, encontro uma hospedaria onde a diária custa R$7 com internet. Me hospedo por um par de dias e finalmente recarrego meus apetrechos, dou notícias nas redes sociais e como algo que não seja massa com sal. Com sabor agridoce e recheado com batatas e carne de lhama, me entrego ao encanto das salteñas, uma empanada argentina com toque boliviano que foi a base da minha alimentação nestes últimos dias aqui no povoado.

Tudo pronto, hora de partir. Uma tempestade de areia começa e assim que piso na rua, a dona da hospedaria pede para eu não sair, porém, agora que tenho a oportunidade de ver como é, monto na bicicleta e começo a pedalar na direção do deserto ao noroeste do povoado. Não! O vento é forte e os pequenos grãos de areia que acertam minha pele, machucam, e isto que a colossal nuvem bege que vem para a minha direção ainda está bem longe. Ok, hora de voltar, desmontar as coisas e aguardar essa porra toda passar.

Uma nova manhã, tempo limpo, agora sim! Avanço para o deserto e algumas milhas depois, o que era terra, transforma-se em sal, transforma-se no maior deserto de sal do mundo, o lugar mais plano da Terra. "É, meu caro, seja bem-vindo ao Salar do Uyuni", eu me dou as honras em pensamento. Me abaixo, pego uma raspa do chão com a mão e ponho na boca: salgado. Está bem, matei a curiosidade.

— Eae, seu doido! — diz um rapaz voltando de caminhonete de dentro do deserto — Vai cruzar isso ai de bicicleta mesmo?

— É o plano.

— Tem um hotel de sal bem no meio do deserto — comenta o rapaz, inclinando-se pela janela do carro e virando para trás para apontar com a mão para dentro do deserto — . É simples, mas é um refujo para você não morrer a noite ai, não.

— Minha ideia é acampar — eu falo, mas tampouco sabia que havia um hotel dentro do salar.

— Barraca? — o cara questiona dando uma gargalhada no segundo posterior —  vai morrer, amigo!

Fito o horizonte completamente plano, dizendo — É… Talvez. Bom, vou nessa! — já acostumado com este tipo de comentário dissuasivo.

Começo a pedalar e não escuto o que o rapaz disse ao arrancar o carro e seguir na direção do povoado. Pedalo na gostosa textura sólida e ligeiramente terrosa do salar, ouvindo música e seguindo uma linha reta imaginária até umas montanhas solitárias ao fundo. São horas e horas pedalando e parece que não estou saindo do lugar, não há nenhuma referência visual para eu avaliar o progresso. A montanha à frente parece do mesmo tamanho de três horas atrás, é como se eu estivesse pedalando sobre uma esteira industrial e sem a certeza de quantos quilômetros já fiz.

— Se eu fizer 70 quilômetros hoje, amanhã faço 60 e cruzo oficialmente o salar — eu falo sozinho conforme pedalo, reparando que meu ciclocomputador não está mais no guidão da bicicleta — . ?

Perdi ou foi roubado, pouco importa. O foco agora é seguir reto até a montanha naquele horizonte. Assim que o sol começa a cair diante de mim, o frio chega junto, me fazendo outra vez por todas as minhas roupas, descer da bicicleta e montar a barraca.

Duro como gelo, a terra molhada misturada com sal, ressecada milhares de vezes no passar das eras, fez o piso ser tão compacto que para eu fincar as estacas da barraca, preciso fazer um pré-buraco antes com a ajuda de uma chave de fenda e um alicate que uso de martelo. A temperatura despenca, entro na barraca para uma pessoa, o vento começa a soprar descontrolado lá fora, nesta hora uma barraca intermediária ou muito grande se despedaçaria. Entro para dentro do saco de dormir de pena de ganso e fecho o ziper dele formando um sarcófago. A noite chega e meus últimos pensamentos antes de dormir ainda estão naquele maldita cratera de Monturaqui.

"Pela imensidão branca, o cosmonauta que pedala pela planície congelada de Europa, pára, abre seu capacete o desconectando do traje, levanta o olhar por cima da aurora no horizonte e deslumbra o monstruoso planeta gasoso a alguns segundos-luz de distância. O frio do zero-absoluto que antes salpicava somente a paisagem, cristaliza a pele do homem, criando uma camada de gelo que caminha em direção ao seus olhos, imortalizando para todo o sempre os pensamentos e o último sorriso do viajante que agora são passa de uma sombra no deserto de gelo."

Passo todo o segundo dia cansando e imaginando, vendo os carros passando distantes de mim e para todas as direções. Talvez três carros ao longo do dia, quem sabe quatro. Pedalo até que o mínimo de calor do dia se despede e eu tenha, outra vez, que montar montar a barraca e deitar encolhido, contudo, nesta noite, me obrigo a ficar nu dentro do saco de dormir e extrair toda a capacidade de conservação da temperatura. Silêncio. Vento. O silêncio volta. Abro o ziper da barraca e fito o céu estrelado por alguns segundos. Não posso ficar exposto assim, é como se minha pele encostasse no fundo de um congelador mesmo que na ausência de vento. Encolhido dentro do sarcófago, não entendo porque eu estando nu dentro de um saco de dormir com resistência para 15 graus negativos e sobre um isolante térmico, eu continuo a sentir frio, muito frio. Sem me mover, tento enxergar a Camelbak dentro da barraca, tiro um dos braços de dentro do saco de dormir e arremesso aquela "pedra de gelo" pela porta da barraca.

Aldo Lammel, CC BY-NC

— Não preciso de um bloco de gelo do meu lado.

Durmo assim que meu corpo esquenta. Acordo assim que os meus fucking pés resfriam. Levo mais de uma hora para voltar a dormir e ainda assim desperto por toda a noite com meus pés congelando, mesmo com papel-alumínio enrolado neles dentro do saco de dormir no muito frio.

Os raios do dia acertam a barraca e finalmente consigo dormir por uma hora seguida. Desperto outra vez e saio da barraca. Assim que toquei na superfície interna da Azteq Minipack, todo o hidrogênio que aqueceu no pequenino ambiente ao longo da noite, transformou-se em líquido que cristalizou no tecido da barraca. Bati na superfície e tive minha própria neve artificial. Mas aqui fora da barraca, o dia está lindíssimo diante de um novo vulcão não mais do que há 30 quilômetros de mim, lugar que promete um povoado boliviano que tenha a me oferecer, pelo menos, um almoço quente pelas as moedas que trago comigo.

— Obrigado — digo a senhora indígena que me serve a sopa com um de dezenas de tipo de batatas que existem na Bolívia.

A mulher mal olha para mim.

No canto do restaurante improvisado dentro de uma casa típica do povoado, um velho ouve rádio à pilha que entre os chiados, ouve-se as notícias.

— Tens ideia do quão frio foi ontem a noite? — pergunto.

O velho de pele totalmente enrugada e usando uma toca de lã que protege completamente sua cabeça e orelhas, me fita sem sorrir.

— Esta madrugada vez 24 negativos.

Tomo a sopa pensando no número. Pedalo para fora do povoado em direção ao norte, seguindo por mais estradas de terra, pensando no número. E quando encontro pela primeira vez asfalto em muitos e muitos dias, desço da bicicleta, me deite de peito no asfalto e o beijo de brincadeira conversando comigo, contudo de imediato volto a lembrar do número.

Bah, velho — digo outra e outra vez pedalando para mim mesmo em voz alta — , tens noção do que é dormir a 24ºC negativos dentro de uma barraca no meio de um deserto acima dos 3.500 metros de altitude, sozinho de bicicleta e sem água?

Aldo Lammel, M&B Websérie

Muitas coisas poderiam ter dado errado, porém minha euforia é maior. A única informação que eu tinha do salar era de que ele era plano, branco e salgado, nada mais. Ria da imprudência! Em nenhum momento me ocorreu estudar sua temperatura durante o inverno no planalto boliviano. Pode ser que minha busca pelo extremo, difícil, perigo ou o nome que você quiser pôr, seja uma procura pessoal por substituir minha falha em Monturaqui por alguma nova conquista, algo que eu possa dizer que deu certo, entrar na conversa de bar ocultando minhas falhas, enaltecendo minhas glórias. Nestas milhas por quilômetros vazios porém pavimentados, me mantive sério, feliz em reflexões, porém de semblante indiferente, talvez quase triste. Imagine que dentro do meu peito já vinha pulsando a vontade de estar em outro lugar, lá em La Paz, a cidade grande mais alta do mundo, um novo marco da viagem intrépida ao redor do planeta. O que vou lhe contar nestes últimos parágrafos provavelmente será a maior acidente da casualidade que experimentarei nos anos que me restam de existência, um acidente dos números que fez o cético aqui envergar até o limite entre a razão e a crença. Por um breve instante, o que irá me acontecer poderia ser tratado como prêmio, justiça, presente, mesmo que não passe da provável e maior coincidência que viverei.

Por detrás da abertura em “t” no elmo, as grossas sobrancelhas negras do paladino se contraem e seu olhar se arremessa para a coluna da morte à frente, a cadência da respiração amansa e se aprofunda, expandindo e contraindo o tórax do homem por baixo da armadura. Sua mão pressiona o cabo da espada ainda embainhada e o cavalo abaixo de si balança a cabeça encilhada junto de uma pesada patada no chão terroso e congelado. O som do relinche da montaria se faz presente, cruzando o campo plano sob os últimos raios de sol, chegando até cada um dos soldados das sombras em formação 100 metros além.

Mudos e translúcidos, as Sombras, há muito tempo mortos, renascidos como figuras fantasmagóricas escuras feitas de terra e gelo, vagam em formação militar pelo Vale das Sombras, alimentando-se de vida, deixando um rastro de morte. O inimigo de aparência estática, saliva a seco sua sede; de mirada fixa e sem pálpebras, traz consigo as mutilações e armas os quais tinha ao sucumbir ao vazio do deserto aonde agora ele habita.

— Lute comigo pela última vez — diz firme o guerreiro ao seu cavalo, sem tirar os olhos das Sombras adiante, deixando uma das mãos tocar brevemente e em despedida a nuca e a crina lisa e grossa do seu único companheiro.

A terra cinzenta levanta com o torque da cavalgada final. O paladino cerra os dentes e seus olhos expelem fúria. Conforte o violinista toca os primeiros acordes do fim, a espada persistente apontada para o combate volta para traz em um rápido movimento e, em um ágil movimento em parábola, esmaga o crânio de uma das Sombras frontais da formação inimiga. Seu cavalo relincha em dor a medida que avança atropelando sistematicamente a coluna que o esfaqueia e dilacera sua carne desprotegida.

— COMIGO — berra o cavaleiro ao cavalo, decapitando e mutilando o máximo de soldados inimigos na travessia — SIGA COMIGO!

Um dos mortos de gelo consegue agarrar-se a sela, esfaqueando repetidamente a coxa esquerda da montaria em cavalgada pelo meio da coluna inimiga. Girando o dorso para trás o máximo possível, o guerreiro acerta uma desajeitada espadada nas costas da Sombra que desmancha-se arenosa enquanto outro inimigo de gelo e terra sobrevive ao atropelamento sistemático da travessia e morde faminto uma das pernas dianteiras do cavalo que cambaleia. Com múltiplos ferimentos profundos, o cavalo e o paladino resistem com a montaria e a própria velocidade da marcha, mesmo já sem pulmões como antes, se desprende da Sombra que se desintegra ao chocar-se com os pedaços dos outros moribundos sendo atropelados. Uma nova Sombra, empunhando uma lança sem ponta, ancora o longo bastão obliquamente no chão, na direção do peito do cavalo que avança contra si e aguarda o iminente impacto. O cavaleiro cortando os inimigos que flanqueiam a montaria, percebe a armadilha e em um movimento desesperado, com as duas mãos, puxa com toda a força o arreio para a direita no último segundo, fazendo o cavalo desviar da lança que, por sua vez, passa raspando pelo pescoço do equino, contudo acerta em cheio o ombro do homem que é arremessado para fora da montaria conforme o cavalo muito ferido cai lateralmente sem mais forças metros à frente, já fora da coluna inimiga, totalmente dividida ao meio.

Gotas de sangue pingam gordas no solo. Gemendo em raiva e com o sabor metálico do vermelho na boca, o soldado de armadura prateada se levanta tentando ignorar por completa a dor, percebendo que além do ombro do antigo escudo esteja fora do lugar, ele transpôs a coluna inimiga por completo. Com um grito e uma patada potente no centro do peito da Sombra, o paladino derruba o lento e gélido inimigo, fincando a espada no abdome da coisa que se esfarela, deixando apenas o frio como uma brisa glacial que atinge a pele desprotegida. O paladino caminha em avanço aos inimigos que ainda estão em combate e, com rápidos giros da lâmina dupla da pesada espada, finaliza o combate ao transformar o último inimigo em pó de gelo. Seus olhos esquadrinham o horizonte a sua frente, o horizonte do qual veio. Não há mais nada. Ele vira para trás, para a direção para onde tem de seguir, e lá vê sua montaria. Deitada. Imóvel.

Duas esferas do tamanho de ameixas. Olhos negros, abertos e imóveis como se não tivessem pálpebras. Ajoelhado ao lado do companheiro, o guerreiro retira o elmo e deita ao lado do enorme cavalo já sem vida, assistindo catatônico o Sol no horizonte infinitamente plano e longínquo dar lugar a noite. Já não se trata de possibilidades, mas de quantas horas ele ainda tem. Ele admira seu último pôr-do-sol.

Tem horas que me concentro no formato das montanhas e tento encontrar algo nos desenhos das pedras, do raro verde musgo ou apenas imaginando que o asfalto novíssimo abaixo de mim são as estrelas do universo já que o piche umedecido brilha com o sol a pino do meio-dia.

"Crater", diz uma placa solitária, receio que a única em muitas milhas de estrada.

"Cratera?", penso e no décimo de segundo posterior giro meu pescoço para o lado oposto como se eu já soubesse para onde olhar. Deixo a bicicleta cair para o lado, o sorriso me vem instantaneamente e eu, como o menino que um dia folhava enciclopédias para admirar gravuras, começo a caminhar, acelero o passo e quase me ponho a correr na direção do que eu já creia que nunca veria em vida. Corro com minha câmera ligada e com lágrimas querendo me vir rosto abaixo.

Jayu Quta (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Esgotado e imundo, com os olhos tomado da límpida verdade da alma, o paladino sem elmo, armadura ou espada, deixa-se gargalhar ao admirar à distância o enorme ninho esculpido na planície do vale e, em seu centro, o dragão em repouso, lambendo suas escamas. Cada gota salgada que desliza pela face do homem não conta sobre merecimento, fé ou crenças. Conta unicamente sobre bravura. Em tempos onde reis não mais vingam seus tronos, o guerreiro antes sem histórias, já escreve as suas, e incursa independente atrás do que lhe faz encontrar seu próprio significado: a busca. Mesmo que o sangue de suas veias não seja nobre, o deserto gelado assiste o galopar do guerreiro junto a nuca do colossal animal.

RÁÁÁ! — ele atiça o dragão.

Do grito da besta alada que ecoou, se reescreve a lenda do Vale das Sombras; lenda que agora canta que guerreiros e amazonas, do lombo da fera, cavalgam pelos céus para além das fronteiras. E entre as nuvens brancas e pacatas, o primeiro Homem mergulha no azul acima, esticando-se até que as pontas de seus dedos o Sol tocassem. Distante, distante, o Homem desaparece dentro da bola de luz que há tanto tempo ele perseguia.

No centro (Aldo Lammel, CC BY-NC)

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