Arte de rua de algum lugar que de Madrid (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Voo das Borboletas

Aldo está online.
Lôre diz: Ae, finalmente. Onde tu tá, brasileiro?
Aldo diz: Fiz escala em Frankfurt. Meu voo prai eh daqui a pouco.
Lôre diz: Vem logo pra Espanha!
Aldo diz: Tô chegando sem um tostão, mas tô chegando! kkkkk
Lôre diz: Nem me fala, a Mari e eu não temos mais $$$ pra nada, gastamos tudo que tínhamos viajando pelo teu continente. Foi forte, vc sabe bem! jejejeje
Lôre diz: Que horas vc chega aqui?
Aldo diz: Vida de mochileiro, sempre contando moedas kkkkkk pouso ai às 19h30 se não atrasar.
Lôre diz: São alemães, não atrasarão. Dale, tio! Nos vemos no aeroporto então. Vem que Madrid te espera! :D

Junho de 2016 — dia 487 de viagem.

Já posso ver Madrid do alto. Os flaps da asa direita do 737 Lufthansa se abrem, sinto o avião frear. Começamos a descer até a pista. O piloto de sotaque germânico avisara em espanhol engraçado que pousaríamos agora e assim ele procede. Ajusto meu cinto e me volto à paisagem verde de verão além da estreita janela a altura de meu ombro. Horas atrás fiz a migração na Alemanha, mostrei meu passaporte, a passagem de volta que não pretendo usar e um sorriso nervoso, muito menos coisas do que imaginei. Não me foi pedido cartão de crédito, saldo em conta, seguro-viagem, carta-convite, nada. Quem bom, até porque apenas o cartão eu teria para mostrar. Mas nada como a expectativa de agora, sair da nave e pisar pela primeira vez em uma rua europeia. Simbolizará muitas coisas para mim, muito mais do que uma nova etapa da viagem em um novo continente.

Um sacolejo moderado, rodas no asfalto e mais desaceleração; o avião manobra em direção a um dos edifícios de chegada.

— Tripulación, começar el desembarque de pasajeros— orienta em espanhol o comandante ao auto-falante da aeronave — . Señores pasajeros, gracias por voar con Lufthansa.

São precisamente 19:30 e o Sol está a pino. O celular me diz que lá fora faz 28ºC e tudo que quero é pisar fora do aeroporto. “Que horas anoitece por aqui?”, me pergunto assim que passo pelo túnel suspenso de acrílico que conecta o avião ao portão de desembarque do aeroporto. É inevitável não lembrar de quase três anos atrás, eu sentado na poltrona 25B de um voo São Paulo-Porto Alegre, decidindo o caminho que tomaria para minha vida pelos próximos anos. E cá estou hoje, com uma bagagem de 500 dias de histórias em 1o países diferentes, dois continentes inexoravelmente distintos. “Bagagem”, lembro eu. “Bagagem!” Vou à esteira de malas no distante saguão de desembarque e pego minha caixa com os alforges. Logo atrás, outra caixa, o excesso de bagagem que me custara 130 dólares no cartão de crédito: a Garibaldi parcialmente desmontada e com muitos danos da viagem pela América do Sul a reparar.

Mochila nas costas, ponho as duas grandes caixas sobre um carrinho do aeroporto e eu o empurro até o portão de chegadas internacionais. “Alguém me aguarda?”, converso em retórica comigo mesmo. Depois de tantos países pedalados e somente agora pegar meu primeiro voo na trip, me extasia, entretanto ter um rosto conhecido buscando-me por cima dos ombros de quem também aguarda alguém, é mágico, como se eu estivesse chegando em casa, algo que não quero ainda, porém devo dizer que é bom de imaginar. Reconheço a Lôre com seu cabelo visivelmente mais longo do que a última vez que a vi.

A moça simula um grito que sai inaudível, um sorriso instala-se em seu rosto e ela ergue os braços pedindo abraço.

— “Aaamiiiiiiiiiiiiigo” — eu digo cantarolando alto ao me aproximar.

Aaamiiiiiigo — ela responde me mostrando os dentes.

Driblo a fita que limita a área do desembarque e me aproximo da Lorena.

— Lôre, tem que falar “amigo” com mais… — faço uma pausa — com mais paixão!

Ela ri e nos abraçamos com real carinho. Já fazia algum tempo.

— Como foi de viagem? — pergunta ela afetiva, ainda com o queixo sobre meu ombro.

— Foi legal, rápida — eu me afasto para vê-la melhor — Lôre, você linda!

Com um passo para trás, ela põem suas mãos na cintura e balança brevemente o quadril — Viu só minha cor? Dois meses de nordeste brasileiro!

Sorrimos no saguão tomado de outras pessoas recebendo quem desembarca.

— Sério? Dois meses só de Brasil?

Hombre, te juro que a Mari e eu não queríamos sair do teu país. Nossa — ela dá uma rápida olhada para cima com o semblante que recorda algo muito bom — , os brasileiros sem camisa…

— ♫ Nossa! Nossa! — cantamos em uníssono — ♫ Assim você me mata!

Rimos alto.

— É, acho que só na Colômbia também é comum os meninos andarem por ai sem camisa no verão— falo, porém é difícil não dar minha atenção ao bronzeado cor de Salvador na pele da espanhola-basca — … Mas e a chegada de vocês em Madrid depois de tanto tempo de viagem, como foi?

— Está sendo tudo beleza. A gente chegô em casa na semana passada, né. A Mari foi pra casa dela em uma cidadizinha aqui perto e eu fiquei de boa em Madrid, te esperando— diz ela em português bem brasileiro, mostrando que aprendeu um pouco do nossos modismos. Ela segue em espanhol—. Me muero de ganas en volver a viajar, Aldo!

Tiro meu óculos de sol, o fixo na gola da minha camiseta e pergunto — E como a Mari ? Não conversei com ela sobre minha vinda…

— Vem, vamos pegar o metrô pra casa, tio.

— Claro— a abraço lateralmente, aguardando a resposta.

— Ela bem e está nos esperando no apartamento agora.

— Você disse que ela havia voltado para a cidadezinha dela…

— É, mas ela está voltando pra te ver, . Acho que ela tem de resolver alguma coisa do novo emprego dela por aqui, algo assim.

Eu sorrio olhando para a frente conforme empurro o carrinho. Me distancio por um momento nos pensamentos.

— A bicicleta está toda aqui?

Assenti com a cabeça, lembrando que a Garibaldi precisa de muita atenção caso eu queira voltar a pedalar nela outra vez depois do que passamos no Panamá.

A Lôre e eu caminhamos uns 10 minutos pelos corredores do aeroporto Barajas, faço o câmbio de todo o Dólar panamenho que tenho para Euro e descemos a escada rolante que dá acesso ao metrô que passa por dentro do aeroporto. Nos minutos seguintes, estamos em um dos vagões rumo ao elegante e caro bairro Goya, região central de Madrid onde a mochileira natural de Bilbao vive sozinha. Pelo simples fato de saber que estarei alojado em uma das zonas mais legais da cidade e junto de pessoas as quais já conheço, me traz uma paz que muito mereço por agora depois dos inúmeros percalços vividos no país anterior. Muito embora eu tenha meus únicos 85 Euros no bolso, o que pagaria quatro noites em um hostel meia-boca na cidade e nada além disso, sinto que estou pronto a fazer este dinheiro render, o usando exclusivamente para comida pelas próximas semanas viajando pela Espanha. Se é possível? Receio que se eu gastar por dia cinco Euros e ficar na casa de algumas pessoas por dois ou quatro dias em cada uma das semanas, consigo fazer o dinheiro render até a virada do próximo mês e o dinheiro do aluguel do meu apartamento entrar e eu ter em mãos mais ou menos 110 Euros para o próximos 30 dias. Se um europeu se inteirar disso, dirá que estou tirando água de diamante. Enfim, o que me importa é que realmente cheguei na Europa e na capital da Espanha ficarei pelo menos uma semana na casa da Lôre onde haverão recursos para eu não ter que gastar nem mesmo todos os cinco Euros. Ainda mais, na casa dela, terei tampo para aproveitar a cidade e, claro, a companhia das meninas.

— Tu estás muito feliz, ?

onde eu quero tá, tia — falo sem abrir o resto da verdade, de um Aldo que tem a felicidade expelindo pelas feições porque é na capital da Espanha onde terei a oportunidade de rever alguém que um dia imaginei que jamais voltaria a ver.

Chegamos na estação Sol, descemos, empurramos as duas caixas, mudamos de plataforma e pegamos um outro vagão pedindo licença e acomodando minha bagagem. Um homem me olha atravessado e em seguida fita as caixas. Ou ele me achou bonito pra caralho ou minha cara árabe carregando pesadas caixas para dentro do metrô levanta alguma suspeita. Comento com a Lôre e a gente ri do humor-negro baseado no que aconteceu no metrô da capital em 2004 quando bombas explodiram dentro dos vagões e mataram muita gente.

— A Espanha é tomada por muçulmanos, você verá — sussurra a garota à mim.

— Eu não me sentindo vítima de xenofobia já é um bom passo.

— Aqui não tem — responde Lôre pensativa — , já na França, com todos os atentados acontecendo, lá é bem diferente. É bom você entrar sem a barba por aqueles lados.

— Depois que os caras entraram naquele show de Metal em Paris e fuzilaram todo mundo — meu semblante esboça um sorrisinho debochado — , vi que sou um alvo potencial.

— Não fala assim, Aldo — ela me dá um tapinha no braço. Lôre também comenta — . Chegamos!

— Onde a gente tá?

— Na Estação Goya! Você vai usar ela com frequência porque é nela que tu chegará no apê — Lôre comenta a medida que vamos passando pelos corredores em busca da saída.

Paredes brancas e com as linhas vermelhas que classificam a linha do metrô que passa nesta região de Madrid. Pessoas bem vestidas, perfumadas, em silêncio e com pressa, porém sem empurra-empurra. Uma mulher cobrindo a cabeça com um hijab passa por nós e imediatamente miro à Lôre, chamando sua atenção.

“Allahu Akbar!” — sussurro no ouvido da moça de 31 anos, fazendo o som de explosão com a boca — Boom!

— Pára, abobado — ela me xinga, mas ri.

No mesmo instante, um rapaz e sua bicicleta passam por nós metrô adentro. “Pode entrar bicicleta também?!”, penso admirado. A espanhola e eu seguimos com as caixas pelas catracas, subimos um lance de escadas e a luz do dia brilha no próximo lance à esquerda, o que dá acesso a rua, meu primeiro contato com a Europa fora do aeroporto, oficialmente. Ergo o rosto ao céu e o que vejo não é o dia, não são os edifícios, nem meus pensamentos; vejo a Mari.

— Brasileiro! — a voz firme da madrilenha de óculos de grau, sorriso constante chega em mim como um presságio daquilo que eu queria, inflando ainda mais o bem-estar no momento que me dou por conta que é ela.

Do alto das escadas, antes mesmo de iniciar a descida ao metrô, ela começa a dançar Shuffle sem música.

— Lembra lá da praia? — questiona ela lá do alto da escadaria.

— Coisa boa te ver outra vez, garota! — confesso assim que avanço os degraus acima, deixando a Lôre para trás com todo o peso da bagagem.

Abraço a moça com aconchego, afinal de contas, dentro das recordações de um aventura pela América do Sul, flutuam dias onde ela e eu éramos íntimos, embora ainda não nos conheçamos. É contraditório, eu sei.

— De verdade, coisa boa te ver, Mari.

Sete meses antes.

— Agora!

— Agora? — perguntei à Lôre.

— Agora!

Vinylsurfer — Living The Moment

Os sons das ondas do mar ecoavam à frente de nós na madrugada de verão. Ao fundo, as batidas da música eletrônica quicavam distantes. Longe o bastante para serem pequenos vultos na noite, pessoas caminhavam solitárias ou em casais pelas areias ainda mornas da praia. Juan foi o primeiro a tirar a roupa a qual deixou debaixo do toldo branco no quiosque fechado à beira-mar. Lôre fez o mesmo em seguida. Puxei minha camiseta para cima e a deixei cair na areia fina, descalcei com os pés meus tênis conforme o jeans com a boxer puxei para baixo de uma só vez. “Que demais isso!”, pensara eu. O luar equatoriano estava tímido, embora me deixava enxergar os fartos contornos da Lorena, a morena brincalhona do País-Basco que, nesta época, tinha o cabelo mais curto em corte chanel.

— Vem logo, gente! — disse ela animada, molhando os pés na primeira marola e acompanhada do Juan.

— Vamos, tio! — reforçou ele, com aquela bunda branca vinda de férias da Galícia, uma região ao noroeste da Espanha.

Virei para trás e ali estava a outra moça, a tal Mari, de jeito inibido, magricela, sob um vestidinho de tecido solto que se alongava até o início dos joelhos de pele branca; europeia. As alças largas nos ombros e a estampa tipo papel de parede dos filmes dos anos 40 acompanhavam o óculos de grau com lentes translúcidas nada espessas, porém do diâmetro de tangerinas grandes. Aquilo fazia da Mari uma mulher de 3o anos totalmente fora do estereótipo de mochileira. Nós pouco conversamos nestes últimos dois dias quando recordo de tê-la avistado pela primeira vez. Um “oi”, um “de onde você é” e um “como estava a praia hoje?”, nada além disso antes desta noite quando dançávamos música eletrônica e, de certa forma, nos encostamos em um e outro momento. Na areia, Mari tirava os chinelos vagarosamente conforme fitava o mar; os óculos ela largou com calma sobre as roupas da amiga e, com a outra mão, desprendeu o cabelo que passavam um pouco da altura de seus ombros. Enquanto eu parecia chapado assistindo todo o processo imóvel, ela cruzava os braços diante de si, pegando as laterais do vestido ao vento e o puxando sem cerimônias para cima. Ela o tirou sem titubear. Pausa dramática. “Que porra é essa? de brincadeira comigo?!”, eu me disse assistindo aquilo de queixo caíndo, vendo todo um conceito inicial rolar por solo, exatamente como o vestido dela fez com a preguiçosa brisa do mar de verão. A calcinha, que foi tudo o que havia por debaixo do vestido, escorregava pelas pernas de silhuetas torneadas da madrilenha. Com quatro passos à frente, a Mari passou por mim, perguntando “Vai vir?” Nem sequer voltou seus olhos para mim, como se pouco se importava eu estar ali nu ou não. Sua voz saíra com humor e confiante. Ela deu de costas para o brasileiro sem reação que observava sem tanto discrição as linhas de contorno do seu corpo incrivelmente atlético. Para ela, espanhola de Madrid, mulher de seios pequenos e firmes, de coxas e panturrilhas fortes e um traseiro atraente, muito atraente, o rapaz tinha a reação mais óbvia possível, o que não queria dizer que ela, se percebeu, não estava adorando me ver bobo por ela. Naquela altura dos acontecimentos ela só era sexy, inegavelmente sexy.

vai ficar ai?

indo — eu disse apertando o passo e emparelhando ao seu lado até a água morna do Pacífico estar na altura de nossos joelhos.

— Você é muito bonita… — falei olhando por cima das ondas à frente, me esforçando para saber o que dizer diante de uma mulher completamente diferente do que eu imaginara.

— Obrigada — disse ela com uma voz formal, virando sua cabeça para mim e me entregando um olhar sem pudor, mas que em nenhum momento enquanto eu a fitava, desviou-se para abaixo da linha do meu peito.

A medida que ela ingressava mais na água convidativa, distanciando-se um metro à minha frente, as palmas das mãos da Mari tocavam a superfície espumosa do mar até que a próxima onda viesse.

Uma voz masculina abafada pelo som da rebentação chamou nossa atenção.

— QUE VOCÊ QUER, JUAN? — gritei em resposta, prestando mais atenção.

No reverberar do movimento do mar, consegui escutar a voz manhosa do galego chegando até nós.

— Amiiiiiiiiiiiiiiigo! — falou Juan bem mais à nossa frente na noite, agravando o timbre da voz, repetindo a tradição que vínhamos criando no hostel de chamar cantarolando qualquer pessoa do "nosso grupo" daquela forma peculiar.

A madrilenha e eu gargalhávamos do jargão.

— Até falando “Amigo” o galego tem essa voz melancólica de dor — comentou a Mari aos risos porém sempre em baixo tom, tornando sua voz mais grave.

Minutos se passaram, conversamos pouco, mergulhamos mais. Eu nunca havia tomado banho de mar nu, não assim com outras pessoas junto. Foi verdadeiramente especial, ainda mais quando a Mari mergulhava de ponta após pular uma onda diante de mim, sem frescuras, sem qualquer coisa que me fizesse crer que naquela mulher havia insegurança de algo. O salto foi dado, suas costas entraram na água e seu quadril seguia o movimento de arco logo atrás apontado para cima e desaparecendo no mar. “Deusulivre, que mulher linda!”, eu me disse calado, provavelmente me aproveitando da escuridão da noite para fazer caras-e-bocas.

O Juan e a Lôre ressurgiram das trevas, as meninas se uniram e o rapaz da Galícia se aproximou de mim. Murmurei a ele o quão surpreso eu estava com a beleza e personalidade nada inibida da Mari. “A nudez na Espanha é muito natural, ainda mais no mar”, ele comentava quando o interrompi.

— Não, não é por ela ser gostosa — falei baixinho, tentando ver onde as meninas estavam na areia, continuando — . É que ela realmente não tem nada a ver com o que eu imaginava.

O galego me dá um leve tapa solidário nas costas enquanto saímos da água — Bem-vindo, estas são as mulheres espanholas.

De volta a areia, vestimos todos as nossas roupas, encontramos um grupo em volta de uma fogueira algumas centenas de metros donde nos banhamos e ali conversamos por um tempo antes de voltar de pés descalços pelas ruas de terra e areia até o hostel três quadras para dentro do povoado lotado de turistas e festas. O Equador se mostrava um país bem mais animado do que eu esperava, embora em Montañita fosse mais fácil encontrar forasteiros de outros países do que equatorianos.

A Lôre e o Juan se sentaram em frente ao hostel para fumar. A Mari entrou no hostel e eu, logo atrás, me estiquei e toquei na espanhola pela mão, fazendo-a se virar. Parei na sua frente lhe fitando, fiz com que minha mão esquerda busca-se sua cintura alguns centímetros à frente, a conduzindo gentilmente para mais perto de mim. Ela não se opôs.

Nos beijamos devagar no escuro da recepção do Iguanas sob as vozes do Juan e da Lôre no outro lado da porta, sentados lá fora.

— Amanhã vou embora — sussurrou ela.

A perguntei, pondo seu cabelo ondulado e moreno para trás de sua orelha — Quer tomar banho comigo?

As horas passaram, dormimos, acordamos e no final da tarde, antes do ônibus das duas espanholas partir rumo ao próximo destino de sua trip, estávamos a Mari, Lôre, o Juan e eu pelas areias de Montañita.

— Não ficarão para a festa de Halloween? — me queixei com uma falsa expressão de transtornado, deitado com o grupo olhando os nativos surfarem sob um sol forte e ondas de direita perfeitas.

— Nós temos de seguir — disse a Lôre, encarando a Mari e voltando sua atenção à minha direção — . Ainda temos meio-ano de viagem pela América do Sul e queremos conhecer tantos lugares que a gente não pode ficar mais tempo aqui.

Evitei comentar, sabia que elas tinham razão. Um mochileiro com data para retornar para casa luta constantemente para não estender-se por mais dias em lugares onde tudo parece dar certo. É aquela lógica: você fica mais dias aqui, ali, e depois tem de sacrificar outros lugares que poderiam ser tão bons quanto, por ter a passagem de volta pra casa no bolso.

Assistindo o fim do entardecer com o Sol desaparecido quase que por completo por detrás do mar, a Mari levantou-se e caminhou até a areia molhada, deixando seus pés tocarem a água morna. Lá ela ficou por um tempo, sozinha, talvez conversando consigo mesma, quem sabe recordando dos bons momentos da primeira metade da sua viagem com a Lôre por meu continente, ou, é possível, imaginando o que os próximos destinos lhe reservarão. Fui até ela de mansinho, disse um “oi” pretensioso e a peguei no colo.

— Me carrega nas costas?

Caminhei com ela até um pouco mais fundo mar adentro, molhei minhas pernas e comecei a voltar.

— Vocês são muito guerreiras.

— Porque? — a Mari questionou baixinho em meu ouvido esquerdo, abraçada em minhas costas.

— Você e a Lorena, viajando de carona pela América do Sul… São duas garotas valentes.

— É — ela comenta, ajeitando o óculos de sol em seu rosto — , está sendo uma experiência bem mais fácil do que imaginamos. Na verdade, do que eu imaginei. Essa viagem foi uma ideia da Lôre, nem era para eu tá aqui.

— Não?

— Ela não queria viajar sozinha e acabou que financiando minha passagem… é ela que pagando o hostel pra gente… Nem era pra eu tá aqui!

— Tu triste? — questionei a moça em minhas costas, pressionando com os dedos a parte detrás de seus joelhos.

— Pelo contrário, brasileiro. Pelo contrário…

Alcancei a areia seca, carreguei a espanhola até o grupo deitado na areia.

— Fiz uma foto linda de vocês —disse Lôre empolgada.

Voltamos ao hostel, me distrai com algo e não voltei a ver a Mari. É tudo que recordo daquele dia, nem mesmo tenho pistas de como foi minha despedida dela ou da Lorena. Uma daquelas histórias incompletas que não estão registradas além da memória; um outro conto real que, de tão ligeiro e passageiro quanto o rasante repentino de uma borboleta diante do nosso rosto, se perde para sempre e nunca mais voltamos a ver aquele bater de asas outra vez.

Aquele outubro de 2015 em Montañita, Equador (Lorena O. / Mari G. / Aldo Lammel © Todos os direitos reservados)

— EU NA EUROPA, PORRA! — grito de braços abertos, olhando para o céu azul-celeste entre os edifícios assim que piso fora da Estação Goya do metrô da capital espanhola, justamente em um cruzamento movimentado no final de dia ensolarado. Eu sabia que faria isto hoje, só não sabia onde. Apenas aconteceu e eu te juro que pus toda a potência dos pulmões para trabalhar.

A Mari e a Lôre sorriem, me presenteiam com uma salva de palmas dessincronizada entre elas, porém espontânea e para mim. Me volto à elas e as espanholas parecem estar felizes por compartilharem seu país, sua cidade e, espero que sim, seu tempo comigo. As duas, via internet, acompanham parte da minha luta para cruzar o Atlântico sem ter um puto no bolso, mas agora estou aqui. Eu consegui!

Algumas poucas quadras dali.

— Foram três meses lá?

— Três meses — confirmei.

— Lôre, empurra pra mim a garrafa — pede Mari, estendendo a mão sobre o balcão white-piano da cozinha da amiga. A Mari segue, mas dirigindo-se à mim — . Naqueles 90 dias lá tu poderias ter viajado muito mais. O Panamá é muito pequeno para ficar tanto tempo…

Mari, eu e Lôre — Jun/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

A Lorena acende seu cigarro e entrega a garrafa de Major de Castilla à Mari.

— Eu deveria nem ter cruzado a fronteira para o Panamá. Devia ter ficado na Colômbia onde tudo estava indo muito bem.

Nossa, Colômbia — suspira Mari — , que país maravilhoso.

Lôre concorda com a amiga e, depois de uma pausa, ela diz — Eu vi teu Instagram na época. Você estava com uma namorada em Medellín, não?

— Pode ser. Medellín foi Medellín, lá foi particularmente especial… Mas toda a Colômbia foi perfeita comigo! E então fui pro Panamá e me fodi. Só de pens_ _ _

— Desencana, Aldo — me interrompe a Lorena — , pelo menos você conheceu um país que estava fora do seu roteiro.

— Panamá? — faço a retórica fitando a moça com o canto dos olhos — Fiquei 90 dias dentro de uma casa ouvindo sobre as praias caribenhas no Panamá e a tal San Blas, Boca del Toro… Não sei sequer onde ficam.

Lôre bate com destreza seu cigarro no cinzeiro diante dela, me escutando.

— Mas não posso reclamar — explico, bebendo um pouco mais do vinho em minha taça — , a proprietária da casa onde eu fiquei não me cobrou nada, tampouco levantou algum questionamento sobre todo o tempo que estive na casa dela.

— Proprietária — diz a moça de Bilbao com um sorrisinho no canto da boca conforme encara a Mari à sua frente na mesa.

Mari mostra os dentes para mim.

— Que? — esquadrinho a maldade do olhar das duas mulheres sobre mim — Sexo? Claro que não, a Fefa tinha os namorados dela e é bem mais velha que eu… Credo, gente! Definitivamente não!

— Três meses sem follar?

Arqueio a sobrancelha sem tirar minha mirada do copo de vinho abaixo do meu queixo. Elas entendem minha resposta.

— Três meses? Que fuerte! — murmura Lôre em espanhol, tragando e exalando o Chesterfield, deixando uma bruma prata temporária em parte do ambiente.

Mari me observa com um sorriso plácido no semblante.

Eu digo — Foi curioso aquele período porque…

As garotas comportam-se como quem espera uma continuação. Atentas. Assim o faço.

— Eu tinha tantas coisas para escrever sobre o que vivi cruzando a América do Sul nos meses anteriores que eu não queria novas histórias. Falo de verdade! Sem demagogia ou hipocrisia, sabe?! Eu já estava em overdose de novidades… Vocês sabem do que falando, certo?

— Música, gente? — pergunta Lôre, não esperando uma resposta para se levantar e ligar o Bluetooth do rádio e acessar o Spotify no seu celular — Fale mais a respeito, brasileiro, porque aqui tem duas espanholas bem curiosas.

— Por favor! — diz Mari com seu ar divertido sem qualquer tipo de excesso ao pronunciar qualquer coisa.

Liane La Havas na canção “Green & Gold”

— Eu me diverti bastante, a América do Sul foi recheada de_ _ _

Rabos de saia! — se adianta Mari.

Ela arranca uma risada minha, mas eu corrijo — De aventuras! Então eu não queria mais coisas para escrever. É como se eu fosse perder minhas lembranças a qualquer momento por causa desse excesso de novidades e coisas e pessoas e lugares, blá blá blá, sentimentos, é muita coisa acontecendo...

— Aventuras? — provoca Mari com sua taça de vinho nas mãos, enquanto Lôre mexe sem motivos no maço de cigarro.

— É — confirmo olhando dentro dos olhos da Maria através de enorme armação de seus óculos — , como uma que tive no chuveiro de um hostel no Equador. Se eu pudesse, eu te contava.

As duas mulheres riem breve. É claro que a Mari havia contado para a Lôre.

A voz consistente porém firme da Mari, dá lugar ao tom de piada, com direito a olhos semi-cerrados — Você tem muita sorte, garoto, de ter encontrado duas beldades assim no Equador.

— Foi muito engraçado — comenta a Lôre — , eu estava sentada na varanda do hostel com o galego e, do nada, a Mari chega e diz “acabei de transar com o Aldo no banheiro”. Eu fique assim “hã?”

Rimos.

— Já pensou que louco — comento me inclinando para frente, deixando meus cotovelos repousarem na superfície gelada e envidraçada do balcão — eu reencontrar a espanhola que conheci no mar de Montañita e que foi embora sem me dizer adeus?

Mari sorri confusa. Ela diz — Claro que nos despedimos!

— Você tira o vestido na minha frente, entra no mar nua, depois a gente… ?! E vai embora assim, sem um “Te voy a pensar, mi brasileño”…

— Difícil, garoto!

Eu a miro com alguma canalhice, como se estivesse desafiando-a.

— E a gente se despediu, sim, bobo — ela conclui.

— Deixou um viajante com o coração machucado pra trás.

Fazemos uma pausa.

— Um tanto exagerado, não acha? — Mari faz a retórica me analisando e com um doce ar igualitário de deboche.

— Exagero? Você não viu a mulher que eu vi entrando no mar. Maravilhosa!

— Ela era linda, ? — pergunta a madrilenha.

— Minha primeira e única espanhola — respondo.

— Oi, gente — diz Lôre — Eu aqui. Podem parar?

— Brasileiro, brasileiro — a madrilenha do óculos de grau fala arrastando e me encarando, tomando seu vinho tinto e seguindo — . Esses latinos…

— Fale mais… Fale mais a respeito… — digo na minha vez de erguer a taça e dar um gole, tirando os olhos da garota e concentrando-me na bebida.

— Esse jeito de falar — Mari gesticula, buscando as palavras certas — , com paixão, vontade! É lindo pra uma europeia. O homem europeu não é assim.

Me reservo a fitá-la, deixando-a expor seus pensamentos.

— O espanhol, por exemplo — comenta ela — , não usaria os adjetivos que tu usas para falar com uma mulher. Já os cubanos, colombianos e brasileiros têm essa… coisa… essa coisa muito latina...

Ai — resmunga Lorena — quero voltar a viajar! Puta que los pariu!

— Lôre adora um vocabulário elegante — comento à Maria, debochando.

— Quero Brasil, gente! Quero falar “beleza” para os meninos sem camisa e chamá-los de “gostoços”!

“O sotaque espanhol ao falar português é divertido”, penso.

— Uma típica mulher de Bilbao — diz Mari referindo-se a Lorena, completando — , com personalidade forte e decidida.

Lôre cria duas plataformas horizontais com as próprias mãos e as leva até abaixo do seu queixo, piscando os olhos freneticamente e enviando um único beijo estalado à amiga. A relação delas é linda.

Recordação da Lôre e Mari ao Brasil, semanas antes (Lôre/Mari © Todos os direitos reservados)

Bebidas, música e risadas. A noite avança, a Lôre vai para seu quarto deitar, deixando a Mari sozinha comigo na sala do novo e pequeno apartamento de 38 metros quadrados. Nas últimas horas eu vinha pensando em como ficar sozinho com a Maria. A madrileña passa por mim.

Oye — eu digo “Ei” em espanhol. Minha mão toca gentil o pulso dela, mas a seguro. Continuo — , conversa um pouco comigo antes de deitar.

Nós dois sentamos de lado no sofá, ficando imediatamente um de frente para o outro no assento de três lugares. Presto atenção na fitada dela, tem algo na Mari que me intimida, as vezes penso que é a pessoa mais parecida comigo que conheci nesta trip. É como se nada a assustasse, como se meu olhar a queima-roupa direto para sua íris não seja capaz de fazê-la desviar os olhos ou desfazer o sorriso confiante. É, tem algo nela que me intimida e é a minha mirada que desvia para baixo.

— Eu… — volto a fitar a garota, ela segue com aquele sorriso formal, implacável, bem diferente da expressão de quem quer algo — Eu…

Ela segue me aguardando.

— Eu pensava que a gente nunca se veria outra vez.

— É — ela diz, puxando sua perna para baixo de si sobre o sofá, ficando mais à vontade — , essas coisas não dão pra prever.

— É — faço a pausa por alguns segundos, reparo nos fios de cabelo dela, muitas coisas passam por minha cabeça — Você fica muito mais… “a Mari” quando está sem óculos.

A Maria tira os óculos, inclina-se à frente, os deixando sobre a mesinha de vidro diante de nós e volta calmamente a ficar de lado no sofá, de frente para mim. Devolvendo sua atenção, ela arruma e volta com aquele sorriso plástico que não consigo saber o que significa.

— Melhor? — ela diz manso, quase inaudível.

Me aproximo com pausas, mas me reclino e no centésimo de segundo que resta para minha boca tocar a dela, ela gira delicada seu rosto, fazendo nossas bocas se tocar lateralmente. Solto o ar dos pulmões e olho outra vez para baixo.

— Pensei que seria uma boa ideia — digo voltando para trás.

Ela segue sorrindo, firme e me dando atenção.

— Eu acho que é uma boa ideia — comenta ela com doçura, justificando em seguida — , mas a gente ainda nem se conhece.

“Ela de brincadeira?”, pergunto à mim mesmo.

Sorrio pra a Maria com o máximo de compreensão que tenho no momento, me levanto fazendo ela ter de erguer o queixo para me ver passando por ela e me dirigindo até a porta do quarto de hospede, parando diante do marco da porta — Vou deitar, mas amanhã vamos sair, combinado?

A garota coloca os óculos novamente, dizendo com o semblante intato— Claro, dançaremos até tu não teres mais forças.

Eu entro no quarto, tiro a roupa, apago a luz, entro debaixo do lençol branco e fecho os olhos, me dizendo que não seria nada mal quebrar o jejum de três meses.

As horas passaram, levantamos tarde, fazemos comida. São quase 17:00, trancamos o apartamento, saímos do edifício, viramos a esquerda, caminhamos meia quadra e entramos na estação Goya do metrô. As meninas me levam para conhecer a parte mais histórica da cidade, elas me compram um sorvete; vamos até a Plaza Mayor e brincamos com artista de rua vestido de Homem-Aranha.

— Aldo, vou deixar estas chaves contigo — diz Lorena assim que deixo algumas moedas para o simpático artista — São do meu apartamento, cuida bem dele.

Miro à Lôre com surpresa, mas não por ela me deixar as chaves da sua casa, isto é comum no Couchsurfing, não seria diferente com ela que já é minha amiga, contudo não entendo o “cuida bem dele”.

— Como assim? — pergunto.

— Cheguei de viagem há uma semana — diz Lôre — e ainda não fui ver meus amigos de Bilbao.

Tio — me chama a Mari ao passar por nós em uma das saídas da praça — , flipa! Um apartamento na parte nobre de Madrid só pra ti.

— Lôre — falo lisonjeado — , não sei o que dizer, obrigado pela confiança!

A noite chega, encontramos alguns amigos das meninas em um café e logo depois vamos até o Club 33. Entrada livre, pessoas enchendo a casa, bebidas caras. O eletrônico prevalece no ambiente liso e escuro e eu danço com as meninas sem muita proximidade por ora. Olho para os lados, vendo a movimentação, pensando se devo ter um plano B ou não. Em mãos, porto uma long-neck que eu enchera de água da torneira do banheiro assim que bebi a cerveja da noite. Você sabe, não posso gastar (que fique entre nós), porém um homem na balada sem um copo em mãos é como se algo estivesse errado. Se eu quero a Mari, que tudo pareça estar perfeito, convenhamos.

A Mari e a Lôre estão umas gatas. A Lorena e seu astral indomável que conversa com todo mundo; já a Mari, muito mais tranquila, dança pra ela e só pra ela num mundo muito particular que não a deixa parar de sorrir.

“Que dupla estas gurias”, me digo ao assisti-las dançar uma de frente para a outra...

— Oi.

Me viro para o lado de onde a voz masculina veio.

— Oi — digo.

— Você é gay? — o rapaz me pergunta.

?

Eres gay? — o homem repete a pergunta ao se inclinar até minha orelha.

A música toca alta.

Ponho a mão sobre o ombro do homem e aproximo meu rosto da orelha dele, dizendo — Acho que vou te decepcionar!

Rimos, ele me pede desculpa como se fosse necessário e ele vai embora. Dou um gole na águ_ _ _ na cerveja e reparo discretamente o meu entorno. Duplas de homens ali, duplas de mulheres lá. Acho que até faço cara de quem está assobiando. Giro nos calcanhares e olho para trás de mim: um cara com calça coladinha e de estampa com a bandeira dos Estados Unidos está me fitando. Ele sorri.

“Mari, onde você ?”, me digo quase que em emergência.

Encontro a Mari no escuro piscante do clube. Ela dançando em seu mundinho altista, a madrilenha vira-se para mim ao me aproximar dela.

— Vem — digo eu à garota, fazendo meus joelhos entrarem no meio de suas pernas e indicar o movimento — , finge que é salsa e que a gente tá na Colômbia

Oye, tio, — ela diz surpresa—, me encanta!

O que começa como uma brincadeira para desencorajar o público masculino que passou a me cantar, desaparece lentamente a medida que a Mari e eu nos olhamos e bailamos até que os movimentos fiquem mais lentos os os olhares mais intensos.

— ALDOOOOOO!!!

A Lôre chega no mesmo instante, nos abraçando. Eu volto a rir, tirando meu braço das costas de Mari e a abraçando lateralmente junto a Lôre.

— Aeeeee — grito dizendo —! Beijo triplo agoraaa!

A Lôre me dá um tapa no braço e ri se afastando — Palhaço!

As horas passaram como sempre: rápido! O que antes era Eletrônico agora é Rock. A Lôre some e aparece pulando de um lado para o outro no meio das pessoas e a Mari e eu voltamos a dançar, mas sem mais flertar.

— Vou no banheiro — digo ao meu par.

Abro a porta do corredor que leva aos toaletes, passo por um casal de garotas conversando, entro no banheiro masculino e me deparo com o rapaz que me abordou lá na pista.

— Curti? — ele pergunta, virando uma tira de papel na palma da mão.

Abro meu ziper diante do mictório e respondo —  legal, manda ver!

O rapaz diante da única pia e espelho do banheiro, inala o pó branco em duas inspiradas. Fecho o ziper do jeans, não lavo as mãos, digo qualquer coisa desejando ao rapaz uma "boa onda" e vou para a pista com as garotas.

"Nunca mais uso essa merda", me digo, passando outra vez pelo casal de meninas no corredor, lembrando do que fiz em Montañita após a Mari e a Lôre deixarem a praia.

Abro a porta que separa o corredor da pista principal. O som da música acerta como um soco. Vejo a Lôre e um amigo que ela encontrou na festa, pulando alucinados como se tivesse Ritalina nas veias.

— ONDE ESTÁ A MARI? — pergunto à Lôre, fazendo-a parar de pular freneticamente.

— ELA VOLTOU PARA O APARTAMENTO, NÃO ESTAVA SE SENTINDO BEM— diz aos gritos a moça basca arqueando o cenho, mas em seguida animando-se outra vez — … PULA, ALDITOOOOOO!

Sem a Mari, sem plano B, nenhuma mulher nem para flertar no que parecia uma balada na terra do palmito. Só me restou dançar com a galera e me limitar a aproveitar o astral da Lorena, sempre infinito. Pulamos até às 4:00.

No dia seguinte com sua mochila já no lado de fora do apartamento, abraço a Lôre. Desta vez é provável que seja um adeus definitivo, porém não falamos nada disso. Apenas nos desejamos bons ventos. A porta se fecha, a Lorena segue para a capital do País-Basco. Preparo meu café, a Mari toma banho.

— A Lorena ainda não está buscando emprego. E você? — pergunto alto para que a Mari me ouça do outro lado da parede —  não trabalha, não?

— Começo dentro de uns dias.

, legal. E o que aconteceu ontem a noite?

A porta de correr do banheiro abre e a Mari sai já vestida e secando seu cabelo — Estava muito cansada, precisava dormir um pouco mais. Enfim, e a história da sua bicicleta, quer que eu te ajude em alguma coisa?

— Vou pra rua hoje buscar alguma loja que queira me ajudar a restaurá-la. Me acompanha?

— Claro, podemos ir na Tabacalera que é um lugar comunitário que tem uma mecânica com peças e ferramentas pra você consertar a bike.

— E depois vemos a cidade e nos beijamos?

A moça que no segundo anterior estava em pé no meio da sala com a cabeça para baixo alongando o cabelo ainda muito molhado, se alonga me entregando sua atenção. Me aproximo dela, mas diferente de como foi no Equador, agora o sol pinta a sala de dourado e a madrilenha está de frente para mim e enxergando cada movimento da minha olhada que a despi. Pego sua cintura e a faço se aproximar de mim abruptamente, abaixo meu rosto e a beijo a la foda-se! Desta vez ela não virou o rosto.

Rolamos e caímos no sofá. Me sento e ela sobe sobre meu colo, repousa sua mão sobre meu rosto e deixa o beijo ser manso, contrastando com a intensidade dos toques. Meus olhos não se fecham. A mão da garota segue acariciando minha barba e agora eu sei que é nesse corpo onde me abrigarei pelos próximos dias até que o calendário me diga que é hora de partir.

Os dias foram avançando dentro de uma semana de muitos compromissos. Enquanto a Mari organizava sua vida depois de quase um ano viajando sozinha com a Lorena pela América do Sul, eu dava atenção a Garibaldi. Foram pelo menos três dias inteiros dentro da Tabacalera, uma comunidade de voluntários em um prédio — que já foi abandonado — que oferecem oficinas de música, dança, artesanato e, para o meu caso, uma mecânica gratuita para bicicletas. Eu saia do apartamento da Lôre, dobrava a esquina, descia as escadarias da estação Goya e burlava as catracas. Fazia a conexão na estação central Sol e minutos depois encontrava a Garibaldi me aguardando na oficina; eu ligava a música em meus ouvidos e ali ficava horas a fio, todo o dia.

Mari está online.
Mari diz: Cheguei no apto. Tá arrumando a bike?

É comum eu levar horas e horas para espiar o celular outra vez. Percebo as notificações chegando, porém não as olho, deixando-as acumular até que eu termine o que tenho de fazer e naqueles três dias, tirando a oxidação do alumínio, ajustando os câmbios danificados, desentortando os bagageiros e encontrando um selim para substituir o que foi extraviado durante a vinda do Panamá para cá, a Garibaldi merecia toda a minha atenção.

Aldo diz: Mari, deixa eu te contar… hoje volto para casa pedalando! A bici tá novinha de novo!!!

O sol começava a entrar pela janela de teto do quarto da Lôre, o calor fazia a Mari se revirar e eu acordava, preparava algum café e logo caíamos pelas ruas, praças e calçadas. Caminhávamos por toda Madrid, reparei em cada pedacinho da cidade, do comportamento das pessoas dirigindo seus carros sem buzinar, deixando nós pedestres passar em qualquer circunstância. E o clima extremamente seco da cidade que parece fazer tempo limpo e ensolarado por todo o verão na península ibérica, parte onde a Espanha situa-se na Europa. A minha garganta reclamava pelo desconforto, mas eu não. A Mari me levou pelos jardins nas costas do Palácio Real e me contou as histórias da capital. “Você quer ver o estádio do Real Madrid?” ela me perguntou, e eu respondi “Não, prefiro Formula 1 e se você me apresentar o Fernando Alonso, te agradeço.” Passeamos pelas ruazinhas antigas até entrarmos no maravilhoso Parque de El Retiro e lá eu emboscá-la com um beijo que era para ser selinho, mas tornou-se longo enquanto estávamos jogados ao gramado.

— Tua cidade é linda — disse eu, deitado na grama, olhando para o lago do parque, com a cabeça sobre o abdome da Mari.

— É estranho — ela comenta — , mesmo vivendo aqui, é como se você me ajudasse a ver com outros olhos isso tudo.

— Eu nem era para aqui…

— Porque?

Rolo na grama, trocando minha nuca pelo meu queixo sobre o abdome da moça — Eu não iria para aquela praia no Equador onde te encontrei, foi tudo ideia do Daniel.

— Daniel?

— É, o Daniel Guerra… É um amigo brasileiro que fiz na estrada...

A Maria ficou me encarando atenta.

— Minha viagem é feita de pessoas e as aventuras reais, saca? Nunca foram as paisagens em si ou a gastronomia que me fizeram felizes de verdade. Eu sozinho aqui em Madrid estaria agora mesmo pelas ruas como agora, mas caminhando com meus fones, esperando algo acontecer. Na verdade eu acho que já teria ido embora nem com um terço das fotografias que tenho comigo agora. Mas com você aqui comigo, me cuidando, me dando atenção, é outra sensação, outra experiência de viagem com uma imersão diferente... — digo desviando o olhar que esquadrinhava o parque e que passou a fitar a moça. Eu sigo no raciocínio — Uma espanhola madrilenha, uma mulher que vive sua vida aqui, que me leva para dentro dos seus costumes e, porque não, dos seus segredos. E foi naquela breve decisão de seguir uma recomendação do Daniel de ir para uma praia no Equador que eu aqui na grama de Madrid… E você queira ou não, é bom ter Madrid com a Mari.

A garota deitada sob minha cabeça e usando minha mochila repleta de bandeirinhas de países por onde estive como travesseiro, nada fala, reservava-se a seguir me mirando e nada além disso.

— Vamos pra casa? — ela perguntou.

Palácio Real (Aldo Lammel, CC BY-NC); e nós no gramado do El Retiro (Aldo Lammel / Mari G. © Todos os direitos reservados)

Transamos outra vez mais na cama da Lôre, bagunçamos outra vez o sofá da Lôre e, como sempre, organizamos tudo como se nada tivesse acontecido sob música alta para abafar um pouco os acontecimentos. É possível que os vizinhos da Lorena se questionem o que vem acontecendo com o apartamento ao lado. Não sei, é só um palpite, mas se alguém reclamar, tudo o que tenho a dizer em seu idioma é "lo siento!"

A Mari desaparece para resolver seus assuntos e eu escrevo ou corro com os fones de ouvido pelo bairro Goya (que para mim sempre será o bairro da Lôre), indo até o Paseo de la Castellana e me exercitando por lá. As vezes pedalo para matar a saudade de estar a tanto tempo sem pedalar, voltando para casa horas depois, tomando um banho e pé na rua outra vez para me encontrar com a Mari em algum novo canto da capital.

— Quer comer alguns montaditos? — ela me pergunta.

Lá estávamos os dois comendo um tipo de pão francês em miniatura com presunto defumado dentro. Nós brindávamos sempre e a todo instante, ela com cerveja e eu com Tinto de Verano que na minha terra se chama Pé Sujo. As vezes vamos para as bordas da cidade caminhar sobre calçadas históricas ou pavimentos de um novo bairro, pouco importa. Eu conheço cada pedaço de Madrid agora após dias e mais dias aqui. É inevitável a voz da Mari desaparecer de minha audição e vê-la apenas abrindo e fechando a boca, lembrando-me de quantos fatores foram necessários ocorrerem para eu estar aqui na companhia dela.

Primeiro o Daniel precisou descobrir meu projeto de viagem na internet, animar-se a me enviar uma mensagem se apresentando e então eu respondê-lo. Meses depois nos encontramos no Perú, eu comentei algo que o fez entender que eu precisava de festa e então o rapaz me sugeriu visitar uma praia que, por sorte, estava logo à frente em meu roteiro. Assumi o risco que a recomendação dele era melhor do que meu plano original de passar bem longe da costa, fui para lá semanas depois e, dentre muitas opções de hostel para ficar, escolhi justamente o hostel onde a Mari e a Lôre estavam. Mas não termina por ai. Além de eu ter puxado assunto com elas, contei com o acaso das personalidades baterem e verem interesse entre si. Tudo terminaria neste momento já que minha viagem seguiria para a Oceania e não para a Europa, mas com a mudança dos planos e a sorte da Lorena lê-los na internet, resultou em um convite para desembarcar em Madrid e aqui reencontrar a Mari uma vez mais… Enquanto penso profundamente a respeito desta teia de fatos, a Mari fala sobre sua história pessoal, crescendo no seu bairro favorito, o Lavapiés. Eu quase não a ouço… Enfim, voltando ao assunto, essa teia de acontecimentos é só uma parte do acaso. Tem todo o lado da Mari nessa história. Um dia ela precisou optar por trabalhar na mesma empresa que a Lôre, se conhecerem, aceitar o convite da amiga para um ano sabático, irem para América do Sul em uma coragem feminina acima da média e estarem naquela praia na mesma data que eu; no mesmo hostel que eu. Além do mais, as garotas chegaram em Madrid após uma trip de um ano com apenas uma semana de diferença do meu pouso aqui. Tem noção da proporção de tudo isso? Uma leve diferença nos fatos e toda uma cadeia de eventos se modifica. Em quais histórias eu estaria agora e por quais países estaria eu se eu não tivesse conhecido o Daniel pouco antes de ir para o Equador?

As linhas que desenham uma viagem pelo mundo são tão assimétricas e acidentadas que é uma perda de tempo tentar prever algo com exatidão. Onde estarei amanhã? As vezes sei, outras não, eu me limito a viajar por uma faixa imaginária no mapa, saltando de um país para o outro, sem saber quais são os lugares que conhecerei e quem são aqueles que me encontrarão. Vou por aqui ou por lá? Não sei, mas elejo um para sempre estar seguindo adiante e não sentir real necessidade de retroceder. De uma sugestão atoa nas montanhas do Perú que dizia “Aldo, tu tens de ir a Montañita” até o som das rodas do avião aterrizando na Espanha a um oceano de distância. Ainda lá no Perú eu não sabia se valeria a pena ir até a costa do Equador, mas elegi seguir o conselho e ver no que ia dar. A decisão que culmina numa sequência de eventos de proporções memoráveis. Dizem que o bater de asas da Libélula Imperial poderá se transformar em tormentas em algum canto do outro lado do mundo; talvez seja realmente possível, quem sabe não, contudo a Teoria do Caos vem fazendo todo o sentido para mim, não nesta escala poética e aveludada, todavia fazendo algum sentido. Hoje guardo com carinho a página nascida de um conselho diante a Laguna Parón no Perú, desenvolvida no beijo roubado em Montañita e que tem seu parágrafo final pelo beijo reencontrado na capital da Espanha. O que era somente uma marca perene de saliva que secara nos lábios da espanhola e do brasileiro, seguiu sendo pra gente em Madrid apenas lábios beijados, porém sobre um pano de fundo que conta a história de dois mochileiros que se encontraram pela primeira vez dentro de uma aventura pessoal mundo afora. É este detalhe — a estrada — fala muito quem somos, o que vivemos e o que ainda iremos ver. Por mais que nos esforçarmos a experimentar algo único, nem você e nem eu seremos capazes de predizer o quão forte serão os ventos a seguir. Eu sempre estive errado sobre reencontros, os vendo como fantasia. A partir de hoje me cabe defender que sempre será no vendaval do nosso próprio bater de asas pelo mundo que criaremos a chance de ver uma vez mais as borboletas que um dia passaram oscilantes e brevemente bem diante dos nossos olhos. Porque sempre seremos borboletas, mesmo que fixados em um ponto a chegar, estaremos dançando no caos do vento, seja para onde ele soprar.

Minha passagem por Madrid em vídeo — Jun/2016 (Mochila & Bike no Youtube)

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