Aldo Lammel, CC BY-NC

Primeiros Efeitos da Viagem

A vida me parece uma estrada onde somos apenas instantes para quem está no acostamento. Estamos em movimento e então passamos tão depressa que, para quem ficou para trás, fomos um borrão, um som forte, um vrummm que deixou um eco que se desfaz progressivamente até desaparecer por completo. É curiosa esta dinâmica, mas para nós mesmos, não somos o carro passando em alta velocidade, nossos exatamente quem está observando, somos a figura central, o protagonista, aquele no acostamento decidindo por qual direção ir. Naquele tempo de preparação para a viagem, alguém me soprou que a viagem contínua por novas culturas faria tudo ao meu redor se acentuar, ficaria mais evidente, mais nítido. Fico aqui perguntando-me se é o mundo que me saltará aos olhos ou minha personalidade.

— MÃE, vai começar o telejornal — eu gritei, pegando minha bicicleta BMX preta e empurrando-a escadaria abaixo — . indo lá na casa da tia Vânia.

— Hoje completa três anos da morte de Ayrton Senna — falou o âncora do Jornal Hoje, anunciando as manchetes do dia — MST ameaça novos protestos em Brasília e FHC responde…

— Filho, desligue a TV se for sair — disse a mamãe, terminando de lavar a louça do almoço típico da família Lammel, sempre mais cedo do que o comum — . Cuidado com o Sol, está muito quente lá fora, meu amor!

Abri o portão, larguei a bike de qualquer jeito no asfalto, voltei correndo, desliguei a TV e voltei a descer o lance único de 15 degraus da escada que conectava minha casa à calçada da rua. Fechei o portão e então reparei no meu vizinho-estranho, sentado no meio-fio, de boné, olhando e mexendo nas pedrinhas que se soltavam do pavimento da rua de asfalto recém restaurado. Ele era bem quieto, falava pouco. Tinha a minha idade, mas nem sei em qual colégio ele estudava. Aliás eu não sabia muita coisa sobre ele. O garoto não tinha jeito de quem sabia fazer manobras na bicicleta, talvez nem soubesse andar em uma. Na realidade ele não tinha jeito de quem sabia fazer qualquer coisa. O garoto levantou a cabeça e, por debaixo da aba surrada do boné, vi seus olhos me fitando para cumprimentar-me.

— Oi, Aldo — disse ele com sua voz rouca e grave.

Olhei para o menino como se somente naquele momento eu o tivesse notado. Duvidei que ele já tivera beijado uma menina ou tivesse um videogame maneiro em casa.

Eae — respondi eu.

— Já almoçou? — insistiu o garoto conforme eu passava pela rua em direção a casa da tia Vânia.

— Já!

— Eu também. Meu pai me deu uma bola… Você quer jogar?

“Que garoto chato”, pensei enquanto subia na bicicleta e iniciava a pedalada, tendo de olhar por cima dos ombros a fim de ver o moleque se dirigindo à mim.

— Não posso agora, meu — respondi eu outra vez lhe entregando um sorriso de desculpa mentirosa — , tenho que almoçar na tia Vânia.

— Mas você disse que já havia_ _ _ — resmungou o garoto ainda sentado no meio-fio, ficando pra trás a cada pedalada mais rápida que eu dava na direção oposta, fazendo a voz grave do garoto de boné desaparecer de meus ouvidos.

Diante da porta da casa dos meus vizinhos, apertei a campainha e aguardei.

— Oi, Aldo. Entre! — disse a tia Vânia.

Ela não era minha tia. “Tia” era modo de dizer, mas gostava tanto dela que não me importaria se de fato fosse da família.

— Pode ir lá na sala, Aldo. Teu amigo está lá te esperando impaciente para jogarem.

Corri até a sala e pulei para cima do sofá vermelho e de superfície macia onde muitas horas o filho da tia Vânia e eu ficávamos jogando todos os games do novíssimo Nintendo 64. Poucos o tinham. Era tão novo que as locadoras da cidade não o tinha ainda. Nenhum outro videogame tinha opção de quatro pessoas jogarem juntas, era uma revolução e tudo que eu queria era jogar aquilo por horas e mais horas.

Podíamos chamar o Cássio e o Giovani, né?! — comentou o filho da tia Vânia, sem tirar os olhos da tela à nossa frente — Assim eles trazem mais dois controles e a gente joga com quatro jogadores.

— O Giovani foi pra Atlântida Sul e o Cássio pra Cidreira — disse eu ligeiramente emburrado pelos meninos estarem na praia e a gente ali precisando de controles e jogadores.

A família da tia Vânia gostava de reunir os amigos em sua casa para comer pizza, brincar de HotWheels e ver filmes recém lançados em VHS. Era muito legal, a casa estava sempre cheia, diferente da minha que mesmo tendo uma lareira diante da ultra-moderna Directv e seu pay-per-view, era unicamente minha mãe e eu. Quando eu tinha a oportunidade de estar brincando com mais pessoas exatamente das brincadeiras que eu queria brincar, eram meus dias mais felizes.

— Quem a gente poderia chamar então, Aldo, pra não ser só a gente aqui jogando? Você não viu ninguém na rua que nós pode chamar?

Se eu contasse que vi aquele nosso vizinho estranho, o filho da tia Vânia vai querer chamá-lo pra jogar e ai só teríamos dois controles e eu acabaria tendo de revezar o joystick com o moleque. Eu não tive muito saída.

— Não! — eu disse com firmeza.

Egoísmo: s.m. Apego excessivo aos próprios interesses; comportamento da pessoa que não tem em consideração os interesses dos outros. Tendência a excluir os outros, tornando-se a única referência sobre tudo.

18 anos depois.

O Rodrigo e eu chegamos hoje cedo em Colonia del Sacramento, nossa última cidade uruguaia. Daqui, embarcaremos no Buquebus e cruzaremos o Rio de La Plata em direção a Buenos Aires na Argentina. Foi muito fácil viajar pelo Uruguai, embora eu me obrigue a dizer que o cruzamos rápido demais. Um país plano, talvez o mais horizontal da América, contudo não posso afirmar nada além de que o Rodrigo e eu o pedalamos em 12 dias deste mês de carnaval num ritmo acelerado e de pouco descanso. É legal de lembrar que assim que transpomos a fronteira no Chuí, vi pela primeira vez na vida cicloviajantes estrangeiros. Me virei para meu parceiro de viagem e começamos a rir, fomos até a outra dupla de viajantes e fizemos uma foto. O Rodrigo e eu entrando no Uruguai e aqueles dois entrando no Brasil. Logo depois disso, eu e meu parceiro começamos a pedalar pela costa uruguaia em uma mistura de medo, angústia e felicidade. Tudo era novidade demais e nós não falávamos uma só palavra de espanhol. Observávamos à nossa esquerda e víamos sempre um mar cada vez mais bonito a medida que mais ao sul nós avançávamos.

Estivemos na bela praia de La Moza, com suas águas azuis e tranquilidade em meio as pedras de beira-mar. Lá naquela praia, o Rodrigo teve sua primeira e única noite de amor durante a viagem. Saímos dali e, dois dias depois, era a minha vez de amar uma garota dentro da barraca na praia de Punta del Diablo. , e ainda foi uma brasileira. É, não falar o idioma local vinha e vem me deixando inseguro, mas espero que isto mude em breve. Um pouco mais ao sul da costa uruguaia, o Rodrigo me levou para a casa de praia de seu amigo de faculdade e lá em La Paloma tivemos o momento mais engraçado dos nossos mil quilômetros juntos: a cidade toda estava realizando uma guerra de bexiguinhas d’água organizada pelos moradores. Haviam caminhonetes lotadas de pessoas em suas caçambas, arremessando balões de festa cheios de água em qualquer um que passava pelas ruas ou calçadas. De repente, alguma janela do alto de um edifício era aberto e bombas coloridas começavam a voar e a explodir nas calçadas abaixo. Era água para todo lado e o Rodrigo e eu tentando fugir com nossas bicicletas dos ataques vindos de todos os lados. Ríamos demais.

Seguimos viagem rumo ao sul, passamos por um estreito pedaço de terra que separa o mar das águas da Laguna de Rocha e encontramos praias desertas, um lugar perfeito para assistirmos o pôr-do-sol que se aproximava enquanto montávamos nossas barracas. Tudo pronto depois de um dia empurrando as pesadas bicicletas pelas areias fofas das praias, entramos nas barracas, contudo um quadriciclo da guarda florestal apareceu e nos mandou desmontar as barracas. Era proibido acampar ali. Cansados, refizemos as mochilas e voltamos a pedalar pela noite dentro da reserva natural. Mal podíamos enxergar à frente, a única lanterna que tínhamos, era do Rodrigo e a bateria estava no final. Achei um pedaço de gramado e ali montamos outra vez as barracas para dormirmos até o dia seguinte quando acordamos com uma agradável surpresa: cinco ciclistas brasileiras passavam por nós e pararam para fazer fotos com a gente.

Aldo Lammel © Todos os direitos reservados

Eu ainda não sabia, mas se você e eu dermos um salto no futuro, para um pouco mais de um ano e muitos países já visitados, uma destas garotas será responsável diretamente na minha chegada à Europa, mas esta história ficará mais pra frente.

Aldo Lammel, M&B Websérie

Neste momento da viagem, o Rodrigo já liderava as pedaladas. O deixava comandar todo o percurso e ele estava ficando bom nisso. Eu apenas o seguia e ele era quem controlava o ritmo e quem tinha de ficar atento ao que acontecia na estrada tanto a nossa frente quando atrás de nós.

— CAMINHÃO! — ele gritava.

E eu sabia que um caminhão passaria raspando em nós sem precisar tirar meus fones de ouvido ou olhar para trás para validar. Eu já confiava nele totalmente para me navegar.

Passamos pela minha praia uruguaia preferida, a José Ignacio com seu farol charmoso e vizinhança fantasmas de casas milionárias e apenas capatazes cuidando dos jardins. Cerca de 30 quilômetros depois, a praia mais famosa, Punta del Este. Foi lá que o Rodrigo usou dinheiro pela primeira vez na viagem quando decidiu por pagar dois dias em um hostel para nós, uns 18 dólares totais. O garoto e eu nunca havíamos estado em um hostel e ficamos maravilhados com o clima de cabana na praia, pessoas de outras partes do mundo e o conforto que alguns trocados podem lhe oferecer. O Rodrigo não gostava muito da ideia do pessoal fumar maconha, ainda mais na frente da hospedaria.

tudo bem? — perguntei pra ele.

— Esses maconheiros aí… Foda… — aponta ele com os olhos na direção das pessoas na frente do hostel.

Este lado mais conservador do Rodrigo foi a primeira coisa que vi quando o conheci em Rio Grande e fui até sua casa na praia do Cassino. Lá, ele divide os custos de uma casa modesta com outros dois estudantes da universidade de Rio Grande, uma galera mais alternativa que, nossa senhora, transformou a casa num bordel da perdição. Assim que entrei na residência, a primeira coisa que o Rodrigo me disse aos cochichos foi de que ele não era como os rapazes, que naquele momento fumavam e bebiam debaixo de luzes artificiais coloridas em plena luz do dia, onde duas garotas muito mais velhas riam escandalosamente com latões de Skol na mão e alguns já jogados no chão. Talvez o Rodrigo temia que eu me surpreendesse negativamente com tudo aquilo e desistiria da viagem em dupla ou, quem sabe, apenas por ansiar algo que não posso prever. Mal ele sabia (sabe) que durante minha adolescência como músico de boteco em cidade metropolitana, eu convivia todos os dias com bêbados, drogados e brigas de bairros. Em pelo menos duas ocasiões, fiz som para 10 ou 400 pessoas com o nariz quebrado e os lábios cortados de alguma troca de soco antes de tocar. É curioso, mas por mais que eu estivesse inserido neste mundo inexoravelmente underground, eu nunca me entregara a bebida e as drogas, nem mesmo ao cigarro. O que eu gostava de fazer era música e volta e meia comprar alguma briga gostosa por causa de mulher. Lá na casa do Rodrigo, já na sala, dei dois tapinhas no ombro do moço e pensei comigo “Vou sobreviver, relaxa, meu caro”, me unindo aos seus colegas de quarto e amigas no verão 40 graus que o sul do Brasil vinha passando.

Mas a presença das drogas ao nosso redor no hostel não atrapalha em nada nos dias em que pedalamos por Punta del Este, conhecemos um casal cicloviajeiro enquanto passávamos pelo porto e, dentro do próprio hostel, gastamos tempo com duas meninas argentinas simpáticas. Foram dias legais.

Aldo Lammel © Todos os direitos reservados
Aldo Lammel, M&B Websérie

Passou alguns dias e chegamos em Montevidéu, quem sabe minha primeira decepção. Minha mãe falara tão bem da cidade que esqueci que a DeJota tem 71 anos e que uma cidade parada e de cafés onde a terceira idade parece dominar, lhe encantaria. Ok, mas foi na capital do Uruguai onde fiz minha primeira grande amizade com um estrangeiro. Jorge “Mono” Gibernau, um empresário e motociclista que vive no lindíssimo bairro Carrasco onde fiquei dois dias enquanto o Rodrigo se aventurava por outros lados da cidade com uma garota que ele já conhecia. Será que ele estava namorando? Diz ele que não, mas… … Com o Rodrigo desaparecido, o Jorge me levou para inúmeros cantos de seu charmoso e afortunado bairro onde experimentei o macio e saboroso assado uruguaio e os deliciosos doces a base de doce de leite. A noite, eu conectava meu computador na internet do casarão do Mono e conversávamos sobre suas histórias de motocicleta pelos Estados Unidos conforme ouvíamos as músicas do guitarrista argentino Pappo.

Rodrigo deu sinal de vida, pegamos as bicicletas e voltamos para a estrada dois dias depois de termos chegado na capital. Agora estávamos na reta-final da nossa parceria de pedal e, como saudação uruguaia, tivemos nosso primeiro trecho de subidas e descidas entre Montevidéu e Colonia del Sacramento, contudo nada que nos impedisse de chegar naquela última cidade e finalizarmos os 12 dias de Uruguai com algumas histórias que transcendem as bicicletas para recordar.

Todo o trajeto que o Rodrigo me acompanhou.

O trincar agudo de vidros espatifando no convés interior do navio assusta o Rodrigo e eu que estamos sentados em poltronas lado a lado. O navio sofre para quebrar as ondas tempestuosas da noite lá fora. Passo a mão na pequena janela embaçada, contudo pouco faz algum efeito. Está muito escuro e tudo o que consigo ver são as gotículas d’água escorrendo pelo lado de fora da janela e pessoas cambaleantes que voltam assustadas para suas poltronas.

— O mar parece estar mais agitado hoje — diz o Rodrigo com os olhos esbugalhados.

Não posso discordar, sinto que estou na mesma condição: assustado. São 19:3o de quarta-feira e o navio, que promete fazer a travessia em uma hora, duas horas a menos que o outro, está sacudindo na quase escuridão das águas a um ponto que me obriga a buscar feedback na reação de outras pessoas. A maioria delas continua mexendo em seu celular e a outra parte até ri conforme conversa com seus vizinhos de poltrona. E mais uma leva de vidros das lojas do navio vira cacos com a nova sacolejada abrupta da embarcação.

— Rodrigo.

Ele vira o rosto para o meu lado e me entrega sua atenção.

— Conseguimos, cara. Chegamos em Buenos Aires.

— Já dá para ver as primeiras luzes da cidade…

— Obrigado pela passagem — comento olhando para a janela, ainda me acostumando com a ideia de que haverão momentos onde o dinheiro será necessário.

— Outra hora você me paga — diz ele, baixando a cabeça por um instante e esfregando as mãos nos joelhos — . Cara, você tem ideia de quanto economizei viajando com essa sua loucura de não usar dinheiro? A passagem foi troco.

Mantendo brevemente no semblante um ar de tranquilidade, o garoto aponta à mim sua satisfação com tudo o que conseguiu economizar até chegar na Argentina. Uma onda acerta o navio e tudo sacode.

Creeedo — ele diz.

Sorrio e viro meu olhar para o outro lado do convés interno. Há exatos 15 dias eu começara a pedalar com o Rodrigo, um garoto com fome do mundo, dando seus primeiros passos numa vida que poderia lhe proporcionar aventuras ilimitadas e infestadas de descobertas. Mas preciso admitir que estou cansado; pedalar em dupla da mesma forma que foi mais fácil para enfrentar as limitações linguísticas e ter com quem dividir as angústias das primeiras semanas de estrada, também é cansativo, principalmente quando este não foi o formato que você planejou por tanto tempo. Na casa do meu amigo Gustavo que vive em Buenos Aires, será minha primeira real oportunidade de ficar uma semana num lugar com geladeira e banho quente, trabalhando nas minhas coisas e planejando os próximos 500 quilômetros de estrada. Um apartamento pequeno com uma geladeira limitada, funciona muito melhor para um ciclista faminto do que para dois. A viagem do Rodrigo termina agora, entretanto a minha está em pleno vapor. Se tem algo que eu preciso agora é de recursos e infelizmente não estou disposto a dividi-los. Meu lado estratégico e egoísta precisa falar mais alto, eu não sei o que virá daqui pra frente e estarei completamente sozinho.

— O que você vai fazer agora? — eu questiono ao menino — Te pergunto porque na casa do Gustavo não terá muito espaço pra nós dois.

— Sei lá — ele fala, olhando para dentro do escuro além da janela do navio — , achar um hotel barato para dormir, conhecer a cidade amanhã e no dia seguinte pegar um ônibus de volta para casa.

— Façamos o seguinte, vamos para a casa do Gustavo hoje, você descansa e amanhã você vê o que irá fazer. Beleza por você?

Bah, melhor assim porque não saberia para onde ir agora — diz o rapaz aliviado.

Neste momento penso em poucas coisas, mas o que tenho na cabeça está embaralhado. No meio da bagunça, encontro um Aldo que sentirá saudade do Rodrigo, um garoto com bons valores, esforçado; por outro lado estou aliviado de estar chegando em Buenos Aires nos próximos minutos e iniciar a viagem do jeito que quero que ela seja: eu na estrada e sozinho. Passei dos meus 16 até os 29 me dando aos meus relacionamentos ininterruptos e trabalhos sempre em equipe, nunca individuais. Preciso jogar solo, fazer algo autoral, dedicar-me pelo menos uma parte da minha vida em algo só meu. Desenhei meu projeto para isso, para eu estar na estrada sozinho, caçando pessoas, momentos, experiências e lugares. Projeto os próximos dias nos pensamentos e não consigo lembrar de imediato como é pedalar sozinho como fiz nas primeiras semanas da viagem. “Mas o Rodrigo não estará mais lá para dizer que tem fome ou sede ou ainda pra fazer seu silêncio que me obriga a perguntar se ele está bem”. Penso uma série de coisas jogado na poltrona do navio, olhando para o outro lado onde as pessoas compram tudo o que encontram nos free shops da embarcação.

— Rodrigo — o chamo virando o rosto para ele.

— Oi.

— Agora que tu não vai mais estar na estrada comigo vou ter de preencher esse vazio.

— Como? — ele questiona com um sorriso que aguarda a piada.

— Vou encontrar algum objeto inanimado para levar e o batizarei com teu nome. Assim posso conversar com alguém que também não fala.

Vai te foder — resmunga o garoto sorrindo, virando a cara para o lado da janela que mostra uma Buenos Aires linda a noite, chegando.

Aldo Lammel, CC BY-NC

Atracamos. Desembarcamos e eu e meu parceiro de viagem vamos para o pátio do terminal fluvial para aguardar o Gustavo.

— Conhece ele de onde?

— Ele foi meu vizinho durante a infância e adolescência. A mãe dele ainda é vizinha da minha.

— Em Porto Alegre, isso?

— Eu nasci em Porto Alegre, mas fui criado em uma cidade do lado chamada Charqueadas. É lá a casa da minha mãe.

Ah, legal.

— É mas estou aqui por outros motivos. Meu plano original não passaria por Buenos Aires.

— Como assim?

— Eu iria por Salta, mas o Gustavo doou quase dois mil reais pra minha viagem.

— Sério? — Rodrigo fica surpreso.

— É… Eu também não pude crer quando vi o deposito em conta — falo com nostalgia.

Uma hora depois de termos chegado na cidade, uma motocicleta de estrada com pintura negra e metais cromados se aproxima de nós. É o Gustavo. Nos abraçamos, comentamos ao Rodrigo que tínhamos passado a última noite de natal na cidade de nossas mães no Brasil e falamos mais algumas trivialidades.

, eae, chegaram agora?

— Não, chegamos às 20:0o — eu respondo.

, mas agora são 20:00.

— Não. Agora são 21:00, não? — comento inseguro.

— Confere se o relógio de vocês não está adicionando uma hora a mais por causa do horário de verão no Brasil — confiante, fala o nosso anfitrião — . Aqui o horário é igual ao de Brasília, mas sem o horário de verão brasileiro, né, seus animal!

Começamos a rir com a confusão visivelmente esclarecida.

Putz, é verdade — comenta o Rodrigo, encarando o celular.

Outra hora a mais e alguns quilômetros depois, estamos todos no pequeno e simpático apartamento do Gustavo na zona central da capital argentina. A noite faz calor mostrando que mesmo mais ao sul do continente, aqui também é verão. Fizemos um rápido lanche e antes da meia-noite já estamos todos dormindo. Cansados e, pelo menos o Rodrigo e eu, com saudades de dormir com colchões.

Cedo na manhã do dia seguinte, quinta-feira, o Gustavo segue para o escritório do Google e o Rodrigo começa a reorganizar suas coisas.

— Vi aqui que tem um hostel que parece divertido — diz o garoto de Rio Grande conferindo o mapa da cidade no smartphone — , acho que vou pra lá.

Acompanho ele até a porta principal do edifício e então nos despedimos com um rápido abraço. Se o abraço pudesse parar no tempo, diria muitas coisas ao Rodrigo, mas as vezes não sou bom com as palavras, preciso destilar toda a informação que tenho e então narrar meus sentimentos dentro de um mundo de pensamentos. Quem sabe um dia eu agradeça a ele da forma adequada, mas hoje, aqui durante o abraço, posso dizer com sinceridade: obrigado.

Aldo Lammel, M&B Websérie

— Aldo, sem putice — diz meu anfitrião com sua voz extremamente grave como de um radialista ao chegar do escritório no final da tarde, pondo as chaves da motocicleta sobre a mesa da pequena cozinha — , joga todas as tuas coisas pelo apartamento, não é pra ser organizado. Fica à vontade, velho. Se estiver fome, a geladeira aqui.

— Obrigado, Gustavão.

— E o rapaz que está viajando contigo?

Ah, o Rodrigo foi para um hotel, ele volta pru Brasil de ônibus amanhã a noite.

— Mas porque hotel? Não tenho muito espaço mas pra quem ficou uma noite, poderia ficar outra mais.

— É… — concordo com algum desconforto.

Hipocrisia: s.f. Falsidade. Ação ou efeito de fingir; capacidade para esconder os sentimentos mais sinceros. Hipócrita, característica de quem não é honesto.

— E como teu espanhol? — questiona o Gustavo com um sorriso na cara.

— Pior que o Tévez falando português na época do Corinthians.

— Não tem mistério, tudo que tiver “v” você pronunciará com som de “b” e te acostuma a pedir para as pessoas falarem devagar. Depois é só imitar o que elas falam porque a metade do que eles falam, você conseguirá entender.

Fico surpreso sobre esta história de “v” e “b”. Isto explica muitas coisas no vocabulário gaúcho que parece ter uma aproximação com o espanhol.

— Agora que tu estarás sozinho, vai descobrir muita coisa sobre os argentinos. Primeiro que eles são pau-no-cu na essência e depois que são tudo maconheiro vagabundo.

Este é o Gustavo. Minhas lembranças nos tempos de adolescência são tomadas de um rapaz de grande atenção aos amigos, contudo de forte opinião sobre as coisas, de inclinação à extrema-direita, que o faz parecer não ter tato ao se expressa, esmagando qualquer posição contrária a sua através da acidez e veemência com que escolhe e pronuncia as palavras. Ele foi da Brigada Militar durante sete anos e abandonou a corporação depois de decepções com um sistema que ele não abre detalhes. Quando ele foi baleado, pensei que abandonaria a Polícia, mas não, ele fez uma tatuagem nas costas onde um policial protege uma criança e, por de trás do homem, um anjo tem suas asas abertas. O desenho diz muito sobre os valores do Gustavo, um rapaz de mesma idade que eu, mas que teve outra linha de educação e, claro, viu coisas no seu tempo de polícia que o mudaram até que ele decidiu por deixar a carreira na Brigada. Há pouco tempo veio para a Argentina estudar medicina e tentar a sorte. Ele conseguiu! Tem um trabalho bem sucedido como programador do Google Maps e está longe do que não lhe fazia bem nos tempos de polícia, porém, em sua personalidade de opiniões afiadas sobre o mundo que o roteia, ele segue sendo genuinamente inflexível, traço que me lembro bem lá nos anos 90, início dos anos 2000 em Charqueadas.

— Vontade de metê esses drogados tudo no xilindró — se exalta o rapaz de olhos verdes-escuros e ligeiramente acima do peso.

Me pergunto se o Gustavo sabe quem são ou foram nossos amigos de rua…

— Não, faz duas batidas no bumbo antes de bater na caixa que vai ficar melhor. Esquece o pedal duplo na música.

— Quem é o baterista aqui, ? — comentei olhando dentro dos olhos do vocalista, vermelhos como amoras e pesados como se não dormisse há dias.

— Aldinho, não teima. Só faz o que pedindo. É a festa da virada do milênio, vamos fazer bonitinho, bem? — diz o vocal da banda quase em câmera lenta.

Os meninos fumavam o tempo todo, os deixando com aspecto elástico, sonolento, de pensamentos vagarosos, fala arrastada e risadas perdidas. Eu gostava do cheiro, mas não entendia qual era a graça de fumar maconha e ficar com cara de anestesiado. Pelo menos tenho de admitir que era engraçado ver os membros da banda como retardados na minha frente e de alguma forma diluir a distância da minha idade da deles, muito mais velhos que eu.

, Chinês, eu faço como você quer — digo me referindo ao vocalista, fazendo os outros meninos rirem como se estivesse escorrendo baba no conto da boca de cada um.

Subitamente a porta da garagem abriu, revelando a silhueta de uma mulher de baixa estatura, gordinha, usando um chapéu de jardinagem, com luvas de borracha e um podão de meio metro em mãos. A névoa branca encontrou uma abertura para emigrar da garagem à rua. A fumaça contornou a mulher parada diante da gente.

— Oi, mãe! — eu disse.

Ela me fuzilou com os olhos. Foi tudo o que ela fez no instante em que a vimos. Nitidamente descontente. De semblante sério a senhora de 50 e poucos anos deu um passo à frente, cara-a-cara com os quatro adolescentes vestidos basicamente de preto, em uma garagem cinza, tomada por instrumentos musicais, butucas de Marlboro, de pontas resinadas de maconha e caixas de som emitindo o som de estática. De repente, o podão que repousara na vertical ao lado do corpo franzino da DeJota, se ergueu, ficando na horizontal e em direção ao rosto de cada criatura absolutamente imóvel dentro da garagem.

— Se eu souber que alguém de vocês ofereceu drogas pru meu filho, eu acabo com esta brincadeira e castro cada um.

O tom da voz da DeJota saiu firme e rude como de um oficial militar, nos mirando com as sobrancelhas contraídas para baixo, dando ainda mais severidade as palavras ditas. Eu já conhecia aquela Dalva Jane, mas meus amigos não. Eles conheciam uma “mãe do Aldo” que falava pouco e que não reclamava do volume dos instrumentos cuspindo Heavy Metal nas tardes de sábado e domingo. Para os meninos, vê-la ali, se dirigindo ao rosto de cada um e daquela forma foi, possivelmente, algo repentino demais para ser processado no momento.

— Com certeza, tia DeJota. Pode deixar que_ _ _ — tentava dizer o baixista.

— Eu sei que os ensaios são sempre na casa do baterista e ele — o podão abruptamente foi apontado na minha direção — é o baterista dessa merda, meramente o meu filho. Sem drogas para ele, estamos todos entendidos?

— Com certeza, tia — diz um, segurando uma guitarra e mantendo suas mãos sobre os captadores duplos da Fender.

— Pode deixar, tia Dalva — diz outro com o microfone em mãos, sem conseguir piscar os olhos encarando minha mãe.

Tocando naquela festa em 1999 (Aldo Lammel © Todos os direitos reservados)

Horas mais tarde, fui até o quarto da DeJota. Ela estava sentada na cama, com as pernas esticadas e tapadas. Em suas mãos um romance da Agatha Christie que ela tanto gostava de ler, e alguns palmos além da cama, o televisor estava mudo, porém sintonizado na TV Guaíba.

— Aldo, sente aqui — disse ela, acertando gentilmente a superfície do colchão com a palma da mão.

Me aproximei e pude sentir o perfume das rosas vermelhas que ela tinha sob sua janela no lado de fora. Eu já sabia o que iria acontecer dali em diante, e já estava mostrando no meu rosto o quão tudo era desnecessário. Sentei ao seu lado e a olhei.

— Lembra daquela ponte próxima a rodoviária em Porto Alegre? — ela fez a pergunta sem tirar os olhos da sua leitura.

Nada a ver, mãe, eu_ _ _

— Filho — ela me interrompeu — , que bom que tu lembras, porque aquelas pessoas debaixo da ponte, com seus cachimbos e isqueiros, um dia deram o primeiro passo.

Ela virou uma das páginas do “A Mansão Hollow” — Um trago, cigarros, apostas, talvez maconha ou prostituição. Eu não sei o que aquelas pessoas fizeram, mas um dia elas deram o primeiro passo. Talvez aquela gente estivesse passando algo muito ruim, sozinhas ou até mesmo entre amigos, tentando ser legal para a turma e aceitando um convide pra experimentar…

— Mãe, eu não fum_ _ _ — tentei, mas ela continuava a falar.

— Talvez começaram em uma festa ou quem sabe na garagem de casa enquanto faziam algo bonito como música. A única coisa certa, Aldo, é que aquelas pessoas debaixo da ponte que você fez cara-feia quando paramos o carro e pedi para você as olhar bem, é que elas um dia estiveram na mesma situação que tu estás. Elas tinham tudo o que elas precisavam para dar o primeiro passo bem diante delas — a mãe fecha o livro, passando a olhar pra mim por cima da armação de seus óculos de leitura.

Eu me limitei a encará-la, certo de que tudo aquilo era realmente desnecessário.

— Elas tiveram a oportunidade de começar a se matar, exatamente como vocês na garagem.

— EU NÃO CURTO DROGAS — eu praticamente gritei de irritação, mas me acalmei antes de ficar sem computador por uma semana — E não tento provar nada para ninguém, não, mãe. Que saco isso!

— Eu sei, filho! — diz ela com o mesmo ar irritante de compreensão que fez quando ficava me dizendo “É normal e saudável, filho” após ter me pego batendo punheta com a Playboy da Feiticeira no meu quarto. Ela acha que eu não percebi, mas ela fechou a porta e começou a rir lá do outro lado. No dia seguinte passou o tempo todo me dizendo para não ficar constrangido, que aquilo fazia parte do meu amadurecimento como “homenzinho” e blá blá blá. Não sei o que mais me dava raiva, se por ela falar sobre tudo comigo ou por eu achar que, no fundo, ela tinha razão.

— Então porque você falou aquelas coisas pros meus amigos? Eles sabem que eu não curto. Bem, na verdade eu digo que acho maneiro, mas na verdade eu acho idiota, os guris ficam com cara de retardado, de bobos. E agora eles saíram daqui estranhos comigo — falo desabafando e em tom acelerado, continuando — Eu já não tenho irmãos e vou ficar sem minha banda também. Que merda, mãe!

— Aldo Vinícius — ela disse tirando os óculos do rosto — , eu confio em ti. A nossa família é apenas você e eu. Se não pudermos contar um com o outro, o que faremos? E vou te proteger quando eu achar que devo, rapazinho. Então não faça dramas e não seja hipócrita. Se tu não concordas com algo, não gosta de algo, diga, não minta. Teus amigos não têm motivos para deixarem de vir aqui em casa. Não os proibi de se destruírem, embora quisesse. Teu papel agora é conversar com eles, defendendo o teu ponto de vista de verdade, teu interesse em manter a banda, mas não faça a banda se sobrepor aos teus valores, cara. Você não usa drogas, então não aceite aquela situação que eu venho vendo na garagem. Se tu achares que eles não estão te respeitando ou estão te conduzindo a dar um passo que você não quer, te posiciona.

, , mãe — eu respondo indignado, convicto de que não precisava de todo o sermão.

A DeJota pegou o livro, retomou a leitura e eu fui em direção a porta de seu quarto.

— Só mais uma coisa — ela disse — , também acho que tu não tens de provar nada pra ninguém, além de a ti mesmo.

27 de fevereiro de 2015.

— Esse é o bairro Palermo. Aqui é onde estão os bares e lugares que eu acho que você vai gostar.

A noite de sexta-feira é quente, as pessoas perambulam pelas calçadas, entrando nas filas das baladas que aqui são chamadas de boliches, o que não tem nada a ver com o que pode passar de relance por sua imaginação. Músicas misturadas em cada lugar, em cada ambiente. Uma vontade de parar o tempo e respirar fundo esse ar com intenções noturnas e perfumes de mulher. Dias e mais dias pedalando na estrada, dormindo em barraca, entrando em lugares turísticos, mas sem a luxúria da noite onde homens e mulheres vestem-se com mais cuidado e mesclam olhares cálidos. Dobrar as mangas da minha camisa, segurar um copo de vodka com energético, virar para o lado e ver um bom amigo, falar de Formula 1, comentar sobre as garotas ao redor, flertar uma bem selecionada, compartilhar planos rasos sobre o futuro no escritório e um pacote de outras coisas que me parecem pertencer ao meu conceito de noite urbana. Esse mundo não me pertencerá pelos próximos 40 meses, e tenho de me acostumar a não tê-lo… Não, a quem estou tentando enganar? Eu sou uma contradição. Desejo o bucólico, mas é o urbano que está encravado no meu DNA e se é para fazer desta viagem um retrato da minha personalidade, meu caro, antes de ser o Aldo dos pés descalços na terra, infelizmente ou felizmente, sou do asfalto, concreto e som alto.

— Bom tudo isso, hein?!

Uma bosta! Odeio sair de casa.

“Snapshot” da Fluke.

— Pára, Gustavo — digo sorrindo e dando um tapa no ombro do rapaz um pouco mais alto que eu, com seu 1,80. Eu continuo ao convidá-lo para entrar em uma festa onde a música era o que eu queria — , vamos?

As luzes piscam e cortam virtualmente o mar de pessoas abaixo; a escuridão se quebra com os feixes estroboscópicos acertando as roupas de tecido branco. Lasers verdes em formato de pirâmide gradeada esquadrinham tudo e todos e, em meio a névoa acinzentada da fumaça artificial, a música psicodélica vibra cada fio de cabelo na pele. Embora meu espanhol esteja dando seus primeiros passos e isto me deixa nervoso, converso comigo e me obrigo a fazer tentativas, até porque se é para se adaptar a realidade da estrada, que seja logo.

— VOU PEGAR ALGUMA COISA NO BAR. QUER ALGO? — grita meu anfitrião em meus ouvidos, a única forma de se comunicar verbalmente aqui.

— ÁGUA. ME TRAZ ÁGUA — respondendo o mais alto que posso ao Gustavo que me faz o grande favor de não me questionar sobre o porquê da escolha e evitar que eu explique que ele já está fazendo muito por mim. Não preciso que ele gaste mais comigo.

O ritmo das batidas do som é agressivo, potente, rápido. Quase todos se mexem, a noite está esquentando. Homens comparecendo, mulheres cedendo. Copos para todos os lados, sorrisos seguidos do movimentos dos corpos na direção em que o DJ leva. Passado um tempo, a festa está em movimento. Eu já não. Estático, sério, pensativo, mas não introspectivo. Focado no que está diante de mim, há uns cinco metros. Loira, calçando uma sandalha que parece ser azul, da mesma cor dos brincos extravagantes. É possível que a boca dela esteja da altura da minha. Pernas longas e nuas, pele clara, quadril mediano debaixo do vestido gelo que deixa aquele traçado sexy. Não mais do que 20 anos, jovem demais, contudo tem corpo de mulher, cintura elegante, ombros firmes e desprotegidos pelo corte aberto da roupa. Aquele sorriso que volta e meia aparece por detrás do balançar do cabelo claro de corte chanel; a insegurança do olhar que não tem coragem de se fixar, mesmo quando quer. Ela quer? Sei lá, estou dizendo pra mim que quer sim. Ela dança e joga a sua atenção discretamente para eu pegar sem nem saber que eu ao menos existo. Ainda. No mundo das desvantagens, a melhor coisa a se fazer é construir para si um mundo favorável. Aprendi isso durante aquele ano em casa sem dinheiro, me preparando para viagem. Não falo seu idioma, não tenho carro, não tenho dinheiro, me falta aqui um bom perfume e vivo numa barraca. No meu mundo favorável, sou o estrangeiro, o aventureiro, o diferente em meio a boiada, o rapaz que tem um amigo com apartamento na capital e que, mesmo sem dinheiro, tem no toque o que talvez — só talvez — ela realmente queira experimentar.

Vai… Me dê um sinal. Só preciso de um si_ _ _”, meu mantra interrompido por uma amiga da garota que se aproxima dela, olha em minha direção, volta-se novamente à moça e comenta algo em seu ouvido. A garota do vestido gelo olha bem dentro dos meus olhos e sorri discretamente, desviando a sua atenção para o canudo da sua bebida provavelmente doce. Eis o que eu queria, era tudo o que eu precisava e nada mais.

— Vai lá falar com ela, Aldo!

— Não vou, meu. Pára de me encher!

Existia duas coisas que me faziam tremer compulsivamente quando eu não passava de um menino de 10 anos: fazer leitura em voz alta para a turma da escola; e de beijar uma menina a partir do zero. Nos dois casos eu me sentia estúpido, burro, sem ação, desamparado sem fazer ideia de como superar meus medos, medos que pareciam o fim do mundo e exclusivamente meus. De alguma forma, a natureza é foda diga-se de passagem, a paquera é intrínseca, não precisamos de referências para dizer um oi e sentir a vontade que nos encoraja a ir um passo mais adiante. Mas eu levei muitos anos para compreender que medo é apenas um indicador de inexperiência e que para ele me abandonar, eu precisava desafiá-lo.

Me aproximo da garota loira, ignorando por completo sua amiga. “Não divida sua atenção; deixe claro suas intenções”, digo à minha educação que no passado era excessiva e me deixava com um aspecto de bobo. Olho para garota do cabelo chanel, ela me fita sorrindo, digo algumas coisas num portunhol esquizofrênico e momentos depois nos conectamos em meio a pista, quase estáticos e aos beijos, algo adolescente demais, porém já está feito. Minha mão é delicada, se aproximando da orelha esquerda da garota e a tocando em carícias por um breve mas carinhoso momento. A moça argentina desfaz o beijo, diz alguma coisa que não entendo, ela sorri e diz outra vez algo, mas olhando pra minha boca. Percebo o quanto jovem ela é, uma menina. Ela fala repetidamente algo, mas a música está muito alta e não compreendo as palavras que ela diz. Embora sinalize que não a compreendo e a convido para ficar calada e dançar, eu vou travando por não saber o que dizer, como desenvolver isto tudo. A falta de vocabulário já não me faz ter vontade de estar com a garota, me sinto constrangido por parecer um rapaz estúpido. Deixo que sua idade seja o motivo para eu querer me afastar e não admitir minha insegurança. Me viro para trás e encontro o Gustavo sorrindo segurando uma longneck e uma garrafinha d’água.

Medo: s.m. Sentimento de ansiedade sem razão fundamentada; Receio do insucesso; Estado emocional provocado pela consciência que se tem diante do perigo. Inseguro, desamparado.

— TUA ÁGUA, ALDO. PEGA AQUI, MEU — grita alguém atrás de mim.

Saímos da balada logo depois. As luzes da capital argentina deixavam o interior do taxi as vezes amarelo, as vezes vermelho. Todas as avenidas cheias, exceto a avenida mais larga do mundo, a 9 de Julho, que os carros somente a salpica após às 02:00 de um sábado. Estou muito grato ao Gustavo, por ter me levado para jantar em um restaurante caro, me apresentar o assado argentino, a carne de qualidade, e hoje à noite da cidade.

— Viu que a maconha foi regulamentada no Uruguai e que os argentinos querem o mesmo aqui? — comenta o Gustavo à partir do banco do carona.

— Não é o tipo de notícia que acompanho, mas vi algumas chamadas no noticiário. Porque?

— Porque é ridículo! Vai me dizer que concorda com essa merda toda?

Eu cogito dizer o que realmente penso, mas não estou disposto a me indispor com alguém que fez e está fazendo tanta coisa boa por mim por causa de uma luta que não é a minha.

— Tudo que sei é que travei com aquela loirinha…

— Sério? Tu é um animal! — meu amigo de adolescência gargalha com seu vozeirão — Era a mais bonita da festa, fácil, fácil!

O enorme obelisco da 9 de Julho passa lentamente pelo vidro do banco de trás. Luzes apontadas em suas quatro faces revela sua cor branca e textura lisa do mais puro concreto alemão, aliás um símbolo da estreita relação destes dois países.

3 de março de 2015.

Uma semana em Buenos Aires. Hoje pela manhã foi a hora de me despedir do meu amigo de infância que me recebeu tão bem, exatamente como eu era bem recebido na casa da tia Vânia quando éramos apenas crianças.

Pedalando forte, música em alto e bom som nos ouvidos. A noite está chegando com um laranja manchando o céu que escurece vagaroso acima enquanto eu ainda sigo na rodovia. Isso não é tão bom quanto parece. Paro a bike e confiro o mapa. Saí muito da rota original. Não está claro o porquê, mas fui para o sul da província de Buenos Aires e não para o oeste como deveria ser. “Sem um GPS é complicado”, é tudo que penso, desconsiderando que do Brasil até as últimas milhas do Uruguai eu não me atrapalhei, porque agora na Argentina eu cometeria esse erro? Falta de atenção, relaxado demais. “Presta atenção”, me digo com indignação ao perceber que o descuido me custou 60 quilômetros em uma direção que não faça qualquer sentido ao meu plano de viagem até Mendoza. Ok, é a minha primeira pedalada após o retorno do Rodrigo para casa e eu novamente pedalando sozinho. Marchamos por quase um mês juntos, começou com ele fazendo o que eu pedia e terminou com o rapaz maduro, sabendo o que fazer na estrada. No final eu apenas dizia o destino do dia e ele cuidava da navegação. Sei que não desaprendi, que tenho minha própria experiência, porém parece que navegar sozinho não é tão natural assim. O erro adiciona um dia de pedal no meu itinerário da semana e o jeito de compensar é pedalar mais alguns quilômetros hoje e amanhã. Não gosto de bicicletar a noite, contudo não quero correr o risco de ter de pedalar num sábado ou domingo quando não houver ninguém nas ruas para me ajudar caso eu precise. Subo na Garibaldi novamente, minhas pernas voltam a trabalhar e os metros passam outra vez por mim, um de cada vez até formar uma nova milha pela noite argentina em plena rodovia federal. As horas passam, estou ouvindo um podcast no iPod Shuffle quando…

— NÃO, NÃO, NÃO! — quebrando dimensão catatônica que a concentração criara conforme eu ouvia a entrevista.

A roda dianteira da Garibaldi escorrega para fora da pista em um desnível do acostamento. O áudio some dos meus ouvidos e tudo fica lento e ao mesmo tempo inevitável. Nada evitará a queda, vou cair e vai doer. A bike capota com seus 48 quilos e comigo preso em seus pedais de grampo a 30 quilômetros por hora. Acerto a pista lateralmente e, de capacete, minha cabeça atinge com força o asfalto grafite-petróleo. A minha carne do ombro, cotovelo, joelho e canela esquerda lixam na textura áspera da rodovia iluminada pelos postes altíssimos a cada 50 metros no canteiro central. A primeira queda real da viagem dói e deixa marcas. Pelo menos marcas são sempre bem-vindas. “Sejamos francos, se é para sentir, que deixe marca, porra”, digo a um Aldo irritado o novo descuido e que, ainda preso à bicicleta pela sapatilha de ciclismo, tenta enxergar os danos de onde está. A dor do impacto me faz dizer todo o alfabeto de palavrões enquanto desenvencilho minhas pernas da bike. Me levanto, junto o iPod do asfalto e a vontade de retornar ao chão é imediata, com uma nítida sensação de desligamento, desmaio. Foi muito iminente e a sensação é ruim, nada agradável. A visão escurece, me sinto drogado; me deito na grama para evitar bater a cabeça novamente e só consigo perceber que tudo gira e a grama é macia como colchão d’água. Apago, mas logo desperto ou pelo menos é a noção de tempo que tenho.

— Calma. Respira! — me cobro em voz alta, contudo o fato das coisas estarem dando errado progressivamente torna o pacote de erros algo muito irritante. Sofri arranhões, mas a bike teve danos de verdade. Uma das mochilas impermeáveis rasgou e o bagageiro traseiro entornou perigosamente — Calma, o cacete!

É o outro dia, acordo debaixo de uma árvore numa rótula diante de um posto de gasolina de beira de estrada. Foi impossível dormir com o sol de tantos carros à queima-roupa passando há poucos metros da minha cabeça. São 8:45. Sem banho, com sangue na roupa, com dores no ombro, é hora trabalhar nos danos de ontem a noite. Pego o alforge rasgado e o concerto com silver-tape; costuro a calça de ciclismo que rasgou; lavo meus arranhões com mais cuidado no posto de combustível que aqui na Argentina são chamados de estación de servicio; atualizo rapidamente as redes sociais aproveitando o wi-fi gratuito; e conserto o pneu que amanheceu furado.

Logo nos primeiros quilômetros tenho um pneu furado, outra vez. Desfaço a montaria, desconecto todas as mochilas da bike, removo a roda do garfo, saco a câmara do pneu, passo a palma da mão na parte interna do pneu em busca de qualquer coisa que possa furar novamente a câmara, encho a câmara, busco pelo furo, o localizo e o limpo, esvazio a câmara, passo a cola e aguardo alguns segundos. Aplico o remendo de borracha, aguardo novamente, encho um pouco a câmara mais uma vez para facilitar a instalação, a ponho dentro do pneu, instalo a roda na Garibaldi, posiciono as mochilas na bicicleta, guardo os materiais de remendo, faço a montaria e sigo viagem. Mais alguns quilômetros e novamente um pneu furado. Acontece isso mais três vezes ao longo do dia na sujeira das estradas daqui.

— MAS QUE MEEERDA! QUAL É O TEU PROBLEMA, ARGENTINA? — grito já fora da bike, no acostamento, olhando para qualquer lugar com os braços abertos em confrontação.

Um carro passa rapidamente por mim e dá uma buzinadinha que me irrita ainda mais. Eu quero muito que esse dia termine logo, meus monólogos sarcásticos estão frequentes e isto não é nada bom. Uma vontade de falar, de xingar e socar algo, de dizer sem medir, de fingir que as palavras não têm peso e que eu não preciso de autocontrole.

Descontrole: s.m. Desprovido de domínio; falta de orientação e de equilíbrio. Incapacidade de controlar seus próprios impulsos; falta de domínio sobre si mesmo.

Espio o relógio, são 18:00 e a fome de quem apenas tomou um café qualquer pela manhã diz que é hora de buscar comida. Olho para os lados e vejo pastos e mais pastos a sumir de vista. Avisto uma residência perdida no meio da vastidão de grama e mato, passo pela porteira, mudo meus raciocínio para o castelhano e tento improvisar frases com as novas palavras e frases que aprendi nos últimos dias como: me encanta para “muito bom”, por supuesto para “claro que sim”, un gusto para “foi um prazer” e lembrar que todas as palavras espanholas com “v” tenho de pronunciar o som de “b”.

— Com licença! — falo ao mesmo tempo que reparo em dois carros novos estacionados no pátio e uma cadela late seguindo as instruções mais do seu DNA que diz à ela para latir para qualquer coisa desconhecida e em movimento que não lhe dê comida.

Um rapaz de cabelo liso, loiro e de franja Emo, beirando os 23 anos, abre a porta da residência toda oculta por cercas-vivas altas e eucaliptos. Ele se aproxima e eu logo estendo-lhe a mão, lhe dando um sorriso fulminante e certeiro de quem não quer ganhar um não. Não hoje! Minutos depois estamos ele, eu e sua irmã, sentados na varanda da casa, conversando enquanto bebo refrigerante (não beberia em outras circunstâncias) e devoro um delicioso hambúrguer preparado por eles com muita gentileza. O som estridente de motocicleta invade a calmaria do lugar, olho por cima dos ombros e um jovem moreno de cabelo negro e comprido somente em um dos lados da cabeça, aparentando ter 18 anos, se aproxima me mirando com desconfiança. Ele empurra a moto de cross completamente suja de barro para dentro da garagem ao lado.

— Oi, mano. Vem conhecer esse brasileiro maluco que está viajando de bicicleta — diz o rapaz loiro ao outro.

Depois de muitas perguntas respondidas e uma quantidade incalculável de gargalhadas dos conflitos idiomáticos que algumas frases têm, todos nós estamos confortáveis e descontraídos. A moça magra, de cabelo longo e solto, castanho escuro e com californiana, que deixa as pontas do cabelo amareladas, começa a preparar um cigarro de maconha. Aquele rosto de menina que não tem 25, se vira pra mim.

— Posso? — ela pergunta segurando o beck que está pronto para ser fumado.

— Claro, claro — respondo automaticamente, tentando não quebrar o vínculo social que aqui se cria, mas já pensando em como dizer “não” quando a pergunta for “você quer?”

Mais uma garota chega, não sei bem de onde ela surgiu. Se veste como uma brasileira da cidade grande, roupas aparentemente de marca onde se destaca sua folgada blusa branca de estampa toda rasgada. Embora a fisionomia da garota seja ainda mais magra, traços mais europeus, rosto ainda mais fino, talvez outra típica ítalo-argentina, é fácil de percebê-la como uma garota argentina. Ela dá um “oi” geral, se apresenta à mim como prima do pessoal e puxa uma cadeira de cipó para perto de nós. A moça do cabelo castanho senta em cima de uma das pernas e estende a mão para a garota ao lado, pegando o finim como se fosse cigarro comum.

— Brasileiro e de bike então? — ela pergunta prendendo a respiração para se chapar mais rápido.

A conversa se desenrola um pouco repetitiva para as outras pessoas que estão aqui, contudo a garota da blusa de estampa curiosa é simpática e está com a sua atenção toda voltada ao brasileiro da bicicleta. Quando ela não traga, vejo claramente um sorriso de dentes um pouco amarelados para o que eu poderia esperar. Embora o rosto seja magro, existe um charme ali. Ela estende a mão na minha direção.

fumando?

— Já sinto fome o tempo todo, imagina se dou uns pegas — todos sorriem com o comentário amanteigado. Eu nego a oferta e então agradeço — . No, mi amor. Gracias!

A garota de californiana pergunta — Mas você fuma?

A tosse veio descontrolada, com força. Me sentei na cadeira a beira da piscina e repousei os cotovelos nos joelhos, deixando minha cabeça quase entre as pernas conforme tusso profundo, sentindo o meu sangue ir para meu rosto. Eu nunca havia fumado maconha e deduzi que fiz algo errado ao tragar já que a Amazônia em chamas parecia queimar dos meus pulmões. Fumei, chapei! Fumado, chapado! Caralho, começou uma louca viagem!

— Você vai chapar muito — disse um dos meninos em pé do meu lado, estendendo o braço para me passar o beck conforme os outros convidados do churrasco se jogavam na piscina, espirrando água para todos os lados.

— Vai molhar o beck, ! — alguém resmungou.

Fiz sinal de que já estava satisfeito, permaneci sentado, quieto e tossindo esporadicamente.

Os meninos estranhavam quando pedi para me passarem o cigarrinho, algo que jamais imaginariam ver-me fazer depois de tantos anos no meio de tudo aquilo sem dar pistas de que o dia de experimentar chegaria, mesmo que com 30 anos na cara. Eu estava há uma semana de iniciar a volta ao mundo, estava na festa que fizeram para mim, com uma piscina lotada com de bons e velhos amigos, com as meninas se divertindo, minha irmã — que era a novidade da festa — se enturmando com o pessoal e a música alta tocando o melhor do Grunge e outros sub-gêneros do Rock. Se dei o primeiro passo para um caminho sem volta? Pode ser no ponto de vista dos outros, mas tomar decisões nunca me afastou da responsabilidade de assumir o peso delas. Foi assim quando aceitei o fim de um relacionamento de 11 anos sem escândalos; quando prometi a mim mesmo que deixaria de ser gordo; quando abandonei o vício dos jogos eletrônicos; quando abneguei dos luxos e comprei meu apartamento, vivendo desde então no total aperto financeiro; quando deixei uma grande mulher para fazer a viagem da minha vida. A mesma capacidade de expor meus pecados, mesmo que nos parágrafos do meu diário, tenho para conversar comigo, me entender e, se assim for justo, corrigir-me.

— Kelly, se for pegar mais vodka traz para mim também? — pediu minha irmã, a Andri, à Kelly que saia da piscina.

— Claro! — respondeu a nossa amiga, enrolando-se em uma toalha.

TSHAAAA! Mais um mergulhou, mais respingos para todos os lados.

AI, MAURÍCIO, minha roupa, caralho! — gritou Andri sentada do meu lado.

— Andri — disse o Maurício gargalhando — , tira essa roupa e entra logo.

A Kelly aos risos, entregou um caneco de vodka e gelo para minha irmã que passava compulsivamente as mãos sobre sua própria calça para remover os respingos d’água.

— Obrigada, Kelly!

— Quem está cuidando da carne? — perguntou um dos meninos na água.

— Se é que tem alguém cuidando da carne — respondeu outro tentando acender uma ponta tão pequena de baseado que parecia que estava tentando pôr fogo na ponta dos dedos.

— O Paulinho cuidando, eu acho — comentou Andri, dando finalmente um belo gole da bebida transparente no caneco.

— Fui pegar a vodka e vi ele saindo com a irmã do Patrick — dedurou Kelly já de volta dentro da piscina, tentando se equilibrar em uma das bóias no formato de colchonete. Ela continua — Eles estão ficando, não?

Porra, meu, a carne, pô! — resmungou o Bule saindo às pressas da água — . Ficam aí de papo-furado e as chuleta queimando!

Alguns retrucaram, outros concordaram, mas novos saltos propositalmente exagerados foram dados para dentro d’água.

— Já nem sei mais se tão bebendo vodka ou água da piscina — comenta rindo uma das meninas nas cadeiras de praia, fechando um novo beck.

— Eu queria contar uma coisa para vocês… — finalmente eu disse alguma coisas após um longo período calado, fazendo todos da piscina esquecerem os assuntos paralelos.

Cruzes, não tinha visto o Aldo sentado aí — disse o Bule com seu sorriso de um quilômetro por ter conseguido salvar a carne do churrasco. Ele se aproximou da piscina e ofereceu sobre uma tábua de assador, iscas de maminha e pedaços de costela ao povo dentro da piscina.

Olhei pra Kelly, deitada de bruços sobre o colchonete, com uma das mãos remando para se manter estável na água. Atrás dela, apenas com as pernas na água, a Penha me olhava com atenção, com um sorriso que só eu sabia o que significava, afinal de contas a gente estava se vendo na minha casa quase todos os dias pela madrugada. Ela me fazia tão bem que eu queria só o melhor pra ela. Eu gostava de imaginá-la descalça, nua, escorada no capô do seu carro estacionado em uma das docas abandonadas de Charq_ _ _

Mano? — me chamou a Andri, sentada do meu lado, tocando meu antebraço gentilmente.

— CONTA LOGO, ALDO — falou aos berros o Maurício de dentro d’água.

Eu via quase todos os rostos virados para mim, me dando atenção que o momento permitia, então questionei o Maurício — Contar o quê?

Parte da galera (Aldo Lammel © Todos os direitos reservados)

— AAAAAHHHH

Gargalhadas, respingos d’água para todos os lados, frases me xingando, mais gargalhadas com frases uníssonas dizendo coisas como “meu deus!”, “memória curta!”, alguém pulou na piscina, vozes de mulher pedindo para pararem com os respingos, o Bule gritando dizendo que a carne iria molhar e mais e mais gargalhadas.

Se aproximando do meu ouvido e tentando não rir, a Andri sussurrou no meu ouvido.

Mano, tu muito chapado — e a risada a escapou, mas ela a abafou — … Come alguma coisa e fica quietinho, bem?

— O que aconteceu? — sussurrei sem entender nada, rindo de toda a bagunça e dos comentários vindos da piscina, mas sem entender os motivos.

Nossa, mano, você esqueceu o que iria dizer um segundo depois de ter feito todo mundo olhar pra ti achando que você contaria alguma história, sei lá.

— Mas você fuma? — me pergunta uma das meninas argentinas.

Já vi que durante a volta ao mundo entrarei em situações onde as pessoas que me ajudam me farão perguntas as quais as verdadeiras respostas poderão colidir com suas crenças, posições políticas e filosofias além dos valores pessoas de cada um. Eu não me senti nada confortável por ter sido egoísta com o Rodrigo ao não convidá-lo a passar mais tempo comigo e com o Gustavo em Buenos Aires, assim como fui hipócrita ao ouvir do Gustavo que o Rodrigo poderia ter ficado lá mais tempo e eu não ter admitido que fui eu quem orientou o Rodrigo a buscar outro lugar. Me vejo na estrada, na prática estou sozinho e no emocional sinto que também, talvez até mais evidente. Não quero ser rejeitado, não quero perceber um desconforto com a minha presença, porém é tão verdade quanto que também não quero estar de mal comigo mesmo, me sentindo um covarde ou, no resumo do resumo, um tremendo filho da puta.

— Não! — respondo, mas tratando de manter a empatia que mantenha tudo aqui ao meu favor — . Se fumo, fico retardado e sonolento. Imagina eu pedalando rindo sozinho e cambaleando?

A menina dá uma risadinha curta.

Conversamos por mais uma hora e, como anteriormente, demos muitas risadas, trocamos informações sobre viagens, sonhos e comemos mais sanduíches e bebemos mais refrigerante, bebida que até meses atrás me ver bebendo era impensável devido ao meu cuidado com a saúde. Lá no alto, o sol inicia sua descida rápido, não há horário de verão aqui. Faço o movimento com os braços de quem se levantará, mas o pessoal parece que quer que eu veja algo antes de partir.

Fui até os fundos da casa. A casa tem papel-confete por todos os lados, garrafas de vinho e Coca-cola vazias por todos os lados, sobre os móveis, alguns até fora de lugar, é uma zona. Se houve uma festa aqui, parece ter sido recente e daquelas que só uma casa de sítio não atrairia a atenção da polícia.

— O que você acha? — pergunta o rapaz loiro, olhando para mim.

Sem entender o sentido da pergunta, faço a expressão da dúvida, os irmãos se olham e gargalham.

— Olha bem para o pátio — sugere o menino loiro.

Nem uma, três ou cinco. São vários pés de maconha avulsos no pátio de chão adubado, plantas que ultrapassam a linha de minha cintura e outros pés beirando os dois metros de altura. Ao lado, uma estufa-berçário onde pequenas mudas com barbantes coloridos amarradas no vasilhame indicam que são sementes holandesas. Eu particularmente já havia visto um pé de maconha, claro, sou do interior e os membros das minhas bandas tinham seus pés de estimação, porém em uma quantidade tão grande camuflada por 70 metros quadrados de pés de taquareiras, é a primeira vez.

Aldo Lammel © Todos os direitos reservados

Não sei o que levou os garotos a me mostrar algo ilegal na Argentina e que poderia — imagino eu — por todos eles sérios problemas. Como curiosidade e experiência, acho tudo engraçado e válido, fazendo algumas perguntas sobre o processo de produção e venda. Sim, eles confirmaram que é para venda. Entretanto, em meio a tudo isso, minha postura seria — com certeza — diferente com os irmãos-babilônia se o Gustavo ou até mesmo o Rodrigo estivesse comigo. É como se para defender meus interesses mais imediatos (o Rodrigo sendo meu parceiro de viagem e o Gustavo um patrocinador), eu assumisse os valores deles e não os meus, acreditando estar sendo diplomático enquanto na verdade eu estaria sendo mais um hipócrita em um mundo que precisa de pessoas verdadeiras. Estou pensando no assunto com muita frequência nos últimos dias…

Subo na bicicleta, abano aos quatro jovens argentinos e sigo na direção da cidadezinha de Luján, de hoje em diante seguindo para o oeste na direção de Mendoza onde avistarei a Cordilheira dos Andes. Encontro um camping, El Triangulo, converso com a proprietária sem dar pistas de como meus últimos dois dias foram difíceis, peço para tomar uma ducha para lavar meu joelho que ainda sangra por debaixo da roupa e ela me convida para montar minha barraca em seu gramado, carregar meus dispositivos e não me preocupar com os custos que ela não me cobrará. Monto minha barraca e, ao abrir minha mochila antes de dormir, tenho uma agradável surpresa: aqueles jovens puseram um sanduíche adicional de três fatias nas minhas coisas.

Gustavo e eu (Aldo Lammel © Todos os direitos reservados)

Nestes primeiros dias de trip pela Argentina, é curioso como tantas coisas vieram à tona. As lembranças vão surgindo e conexões são criadas com as novidades da estrada. Cerca de 20 anos atrás, as vezes eu via o Gustavo quando eu ia até a casa da tia Vânia para jogar videogame, mas ele nunca foi o filho da tia Vânia, nunca foi o menino que ficava horas e mais horas em frente a TV comigo. O Gustavo era o outro garoto, aquele de boné sentado no meio-fio o qual eu tratava com algum desdém. Já o Rodrigo, foi meu parceiro de pedal no último mês, ele já teve contato com um Aldo adulto, ainda assim um rapaz tomado por falhas. As vezes me pego parado no acostamento, tudo passa como um breve instante. Os carros são como manchas que aparecem e somem em segundos, um atrás do outro; mas eu e a paisagem continuamos ali, parados. Reparei que nestes últimos dias eu tenho tido bastante tempo pra reparar em cada ponto do cenário a minha volta, lugares de beleza indiferente até momento, contudo uma paisagem que eu posso notar. Coincidência ou não, venho fazendo o mesmo com o mochileiro ali sentado.

Próxima página
Índice do diário

Recomende

Compartilhe este link abaixo com os amigos:
http://mochilaebike.org/diario

Baixe o App!

Acompanhe os vídeos, fotografias, roteiros, estatísticas e tudo mais sobre a volta ao mundo de Aldo Lammel: baixe grátis o nosso App!

Aldo Lammel

Sobre | Youtube | Termos de Uso