Nós e a Garibaldi na Carrera 48 — foto composição — Fev/2016 (Aldo Lammel / Xey, © Todos os direitos reservados)

Ruas de Medellín

"A velocidade do obturador", ela conversava com si mesma, "se não me engano tenho de deixar sempre em 200, não alterar isto por agora."

Largando a pesada câmera Pentax sobre a escrivaninha, ela voltou sua atenção à bagunça do armário ao lado. A porta do quarto abriu repentinamente e, no meio segundo depois, fechou com um estampido seco.

— Calor, meu deus do céu — disse Silmara, entrando no quarto e jogando sua bolsa na cama— , fiquei o dia todo sem ar condicionado no escritório, acredita?

A amiga diante do guarda-roupas tinha uma das mãos no centro do peito e não pronunciara uma só palavra. Seus olhos que estavam fechados junto de um semblante que se recuperava do susto, se abriram com a respiração profunda. "Caralho, garota", pensou a moça.

— Porque com essa cara? — perguntou Silmara ao sentar-se na cama sacudindo a blusa que vestia na tentativa de fazer o sopro gelado do ar-condicionado circular por debaixo da roupa.

Ai, garota, quer me matar do coração?

Ambas riram e minutos depois já estavam conversando sobre qualquer coisa.

— Não, muito sem graça — falou a moça que mexia no armário, devolvendo em mãos o celular da recém chegada.

Escorada na cabeceira da cama da amiga, Silmara reparou mais uma vez o vestido que pretendia comprar para a festa de formatura. Sua expressão é de ingenuidade, ela não entendia porque suas escolhas não agradavam a amiga dos tempos de escola.

— Mas o que você não gosta neste modelo? — questionou.

A amiga, com as costas repousadas em uma das portas de correr do grande guarda-roupa que ocupava toda uma parede do quarto, procurava outros modelitos em seu próprio celular, um dispositivo tão brilhante que é mais um acessório da luxúria feminina exacerbada do que um smartphone.

Perai — pediu a dona da casa, esfregando seu dedão compulsivamente na tela do iPhone 4 guarnecido de um protetor dourado ornamentado por pedrinhas brilhantes — Achei! É disto que você precisa e não estes modelos sem decote e brilho, garota!

Inclinando-se à frente, Silmara, com uma rápida mirada tediosa para o alto, pegou o celular da anfitriã, desviando um pouco o seu foco de atenção para a escrivaninha atrás da garota. A Pentax, reparou Silmara, logo deixando suas costas retrocederem até a cabeceira e sua atenção ao celular.

Ai, não! Muito aberto no peito, imagina se uma alça se solta.

A amiga, em pé diante do armário que arrumava, fitou a garota com semblante de incredulidade.

— Você ficará super gata com um vestido sem costas, com bojo rígido e enchimento… Me escuta uma vez na vida!

Silmara ouviu atenta as palavras da amiga, contudo era difícil aceitar vindo de uma moça que era a típica morena de Medellín, além do cabelo até a cintura, tinha desenvoltura para conversar com todo mundo e era segura o bastante para chamar a atenção dos gringos, conversando com qualquer um deles nas noites da cidade. Enquanto a amiga discursava sobre os benefícios de um desenho de vestido menos ortodoxo a medida em que tirava uma peça de roupa e guardava outra no armário, Silmara deslizava os dedos nas fotos de vestidos sensuais “de formatura” que sua amiga encontrara.

"Bonito este aqui. Nossa, lindo este!", conversava Silmara consigo.

— (…) vão ficar babando nas tuas fotos no Instagram (…) — a outra garota seguia falando sobre como a amiga deveria vestir-se em sua própria festa.

Conforte a moça sentada na cama navegava pelas fotografias no celular da amiga, um chat se abriu na tela, se sobrepondo as imagens.

302 6555 diz: Tô te querendo hj! Tá em casa? Passando por sua rua agora…

A dona da casa seguia o monólogo lá do outro lado do quarto, naquele momento descrevendo como seria importante usar uma sandália Schutz junto de um batom Ultramatte e um bom vestido.

“6555” e “te querendo” foi tudo que Silmara leu, fazendo-a conferir seu próprio celular que repousava ao seu lado na cama. Nenhuma notificação lá.

Escorada na cabeceira e com a sensação de que não respirava mais, a moça desvia os olhos da tela do celular dourado para a amiga dois metros e meio distante e de costas, mexendo no armário. Silmara corajosamente, talvez ainda sem respirar, respondeu a mensagem para aquele número: “ no quarto. A porta da frente aberta. Vem aqui!”

— Já escolheu alguma foto? — perguntou de costas a dona do celular, fechando uma gaveta interna do armário pérola-verniz.

Silmara se levantou da cama e totalmente estática como um poste de concreto, suspirou trêmula como se todo o oxigênio do quarto estivesse a hiperventilando, elevando ao máximo seu peito por debaixo da folgada blusa de verão. Com olhos grandes e brilhantes como esferas de vidro, a garota fixou sua angústia e incerteza na nuca da amiga diante de si.

A porta do quarto abriu hesitosa com uma mão masculina na maçaneta.

O rapaz não terminou de dar o primeiro passo para dentro da habitação e seu semblante se terrificou como se alguém apontasse um revólver para sua cabeça. Ainda segurando a maçaneta externa da porta do quarto, a outra garota, diante do armário, tinha seus olhos do tamanho de bolas de bilhar. Silmara era a única criatura no quarto que, naquele segundo eternizado pelo terror, respirava.

— Sério mesmo? — questionou Silmara indiferente para qualquer resposta que o rapaz teria.

Não importava o que ele poderia dizer, seu susto o entregou. Nada dissolveria seu semblante chapado, anestesiado de incredulidade singular que jamais experimentara.

Largando o celular dourado da amiga no colchão ao lado, Silmara passa sem pressa pelo rapaz, mirando seu rosto de retardatário, completamente paralisado. Por extinto, ele tenta segurar a garota pelo antebraço, contudo em um movimento rápido e firme, Silmara o faz solta. Ela nem sequer o fitou, reservando-se a sair o mais rápido possível da casa, reparando na mochila do rapaz deixada na sala como se ainda buscasse evidências de que aquilo tudo era possível acontecer. Estava sucedendo. A garota que dali tomaria o metrô para chegar em casa quatro mil metros mais longe, passou direto pela entrada da estação uma quadra da casa onde estava, seguindo até a calçada do outro lado da avenida. Catatônica e usando toda sua força ao pressionar a alça da bolsa contra o peito, a jovem exclusivamente caminhava, ignorando as luzes que piscavam charmosas e coloridas na noite abafada de dezembro. No seu silêncio sepulcral, a expressão vazia transparecia a alma de alguém machucado. Por cima dos ombros dela, era possível ver um rapaz esbarrando com os taxistas da estação e subindo as escadarias do metrô com passadas compridas, de três em três degraus. No quarto da casa quadras antes, sentada na cama, uma vistosa mulher de cabelo longo e negro, não chorava, nem mesmo à seco com o desfecho de um segredo vindo à tona, algo que ela imaginara muitas vezes nas projeções da consciência que poderiam ocorrer, porém nunca apostara que de fato aconteceria algo mau, realmente mau. Na tela do celular dourado ainda continha as mensagens de um número sem nome, de um número que a envergonhava e a provocava a buscar nas falhas de seu caráter, desculpas que a isentassem do que ocorrera. Mas ela não as encontrava. Calada, a linda morena de Medellín fitava a Pentax sobre a escrivaninha ao lado. O espectro das luzes vindas da árvore de natal na sala invadia seu quarto através de uma porta que não deveria ter sido aberta.

Capítulo Um — Retorno a Medellín

9 de janeiro de 2016 — Medellín, Colômbia — dia 343.

São 6:00, eu recém conseguira dormir, mas a Cristina não me deixa descansar, a final de contas, cheguei de Cartagena na madrugada, abri seu apartamento com a chave deixada na portaria e vim direto ao quarto de hospedes onde me instalei desde a primeira quinzena de dezembro, período em que visitei Medellín pela primeira vez e encontrei este endereço no Couchsurfing. Acordo com a colombiana de 25 anos sob minhas costas, sentada em meu traseiro. De bruços, tiro o travesseiro de cima do meu rosto e dou bom dia à garota, imaginando que consegui dormir por uma ou duas horas seguidas no máximo.

Em Cartagena decidi por retornar a Medellín e cancelar temporariamente minha ida ao Panamá temporariamente (via GoogleMaps)

— Como foi seu ano novo? — pergunto.

— Bom dia, foi muito bom — responde a garota das madeixas onduladas, transferindo-se de cima de mim para meu lado na cama e, comigo ainda de bruços, passando suas mãos de engenheira-química em meu dorso descoberto e nu. No meio da escuridão, ela segue — Vi meus pais, ganhei presentes e fiz festa com meus amigos do litoral.

— Coisa boa — comento — , tu vinhas trabalhando tanto no final do ano, ? Merecia isso.

— É — o timbre da colombiana chega em mim manhoso — , mas hoje eu trabalho.

Mesmo eu querendo dialogar apenas com o travesseiro, giro meu corpo à esquerda para estarmos olho no olho. Assim que me ponho de lado, tenho uma câmera Canon compacta mirada ao meu rosto. Ligada e filmando.

Que tá fazendo? — a questiono com a vista entreaberta.

A ideia de ela ter aberto o zíper da minha mochila e pego minha câmera, é um tanto invasiva, postura que a Cristina vem acentuando a cada dia que estou aqui, principalmente depois daquela festa que fomos juntos duas semanas e meia atrás, pouco antes do natal.

— Hoje vou dançar muito e não vai contigo, sabe porque?

Sorrio de modo plástico, algo que ela interpreta como se eu perguntasse “não faço ideia, preciso saber, porque? Me diga por favor, porque porque porqueeeee”

— Porque você não merece minha ternura — seu semblante muda abruptamente para o de tristeza, quase um deboche se eu não conhecesse os picos e vales repentinos de humor dela.

Não importa a forma que eu descreva as reações da Cristina, elas são complexas, tomada de traços faceais bruscos e comunicação não-verbal. Sinceramente, procuro não julgá-la, eu vi o remédio controlado em sua geladeira, entretanto, considerando que já estive em mais de duas dezenas de couchsurfers em outros sete países da América do Sul sem qualquer discussão ou até mesmo inconvenientes, não posso assumir assumir a responsabilidade sozinho de ter ficado com essa garota semanas atrás, desencadeando sua atual instabilidade comigo. Foi um erro transarmos? Cara, pegue nas minhas mãos e olhe nos meus olhos, eu não a beijaria em qualquer hipótese se eu soubesse que ela é clinicamente instável!

— Ok, não mereço — digo de imediato — . Mudando de assunto, tenho de arrumar minha bicicleta e quero fazer umas coisas na cidade ainda, preciso de pelo menos mais duas noites aqui para encontrar outro Couchsurfing, beleza?

— Fica o tempo que tu quiser, Aldo — a garota diz com alguma severidade normal na expressão que acentua seu sotaque costenho, repetindo sua frase preferida — , eu confio em ti.

É conveniente ficar no apartamento dela, aqui está perto de tudo que preciso, a internet é rápida e ilimitada, sem falar que ninguém está pela manhã e pela tarde, ideal para eu finalizar demandas da viagem e iniciar outras antes de pedalar para o Panamá, país onde prevejo muitas dificuldades devida a infraestrutura de lá; porém o paradoxo que ocorre é que as poucas horas que a Cristina está no apartamento, são cansativas. Eu só preciso ter um pouco mais de paciência e aguardar um novo convite de outro Couchsurfing para eu ficar na cidade uma semana mais e fazer o que tenho de fazer.

A mão da garota que antes jazia sobre meu abdome, agora escorrega a ponta dos dedos para debaixo do elástico frontal da minha cueca.

— Pára!

— Quê? — ela sorri atrás da câmera que segue filmando meu rosto.

— Pára! — eu começo a deixar o ar de aborrecimento me escapar da mesma forma quando estou escrevendo e ela abaixa a tela do laptop — Não vamos transar, Cris.

— Porque? — ela inicia um sorriso questionador, tirando a mão dali.

"Não irei responder", passa por minha cabeça e não verbalizo nada.

A Cristina se levanta e totalmente fora de contexto, larga a Canon ainda filmando em minhas pernas e começa a dançar reggaeton de pijama, juntando todo seu bonito e volumoso cabelo castanho-escuro, o amassando e o pondo com as mãos no topo da cabeça, balançando o quadril devagar e me olhando, mordiscando os lábios e os movimentando como se estivesse cantando algo, porém muda.

Giro na cama, ficando com a cara junta da parede da lateral direita do leito. Ponho o segundo travesseiro sobre o rosto.

— Bom trabalho, Cris — minha voz abafou-se na roupa de cama.

— Não me manda embora da minha própria casa — ela sai do quarto gargalhando e batendo calcanhares no piso frio.

Levanto no final da manhã, preparo ovos mexidos, achocolatado gelado e um som ambiente que dê a ignição de um dia para escrever à mesa da minúscula, porém ventilada e confortável sala do apartamento.

Aldo diz: Chegou bem?
Ceci diz: Cheguei, já estou em casa, inclusive.

Ceci já está em La Paz, e bem por sinal. Nosso momento juntos no ano novo em Cartagena, alguns poucos dias atrás, foi importante para conversarmos sobre o que sentimos seis meses antes quando nos conhecemos naquela cidade boliviana entre as montanhas.

Entre uma garfada no café da manhã fora de horário e um e-mail de trabalho respondido, escrevo linhas de programação para um cliente no norte da Itália. No meio da tarde, limpo a cozinha e os banheiros conforme converso em voz alta comigo, algo que venho fazendo cada vez mais e não sei explicar o porquê. Casa limpa, a Cristina chegará em breve. Começo a apertar meus braços diante do espelho estreito e de um metro e meio de altura que existe no quartinho vazio onde a Cristina usa como closet. "Sinto falta da minha rotina na academia", lembro e me vem a memória de como me sinto quando uso jeans e camisas, hoje guardados dentro de caixas lá no Brasil. O que tenho comigo não passa de dois jeans puídos e sem elasticidade, um tênis remendado com fita silver-tape e, por sorte, duas camisetas e uma camisa, todas novas, presentes de natal da Daniela, uma charmosa colombiana que conheci quando eu ainda estava no Equador e que me convidara para passar o natal no sul da Colômbia, exatamente onde eu estava na data… Soa patético eu estar numa viagem que muitos se imaginam realizando e me pegar diante do espelho com alguma melancolia, pensando sobre estética. Talvez seja, deixa pra lá.

Como todos os dias quando não pedalo, 18:00 estou eu fazendo exercícios com os fones enfiado nos ouvidos, tocando músicas que me instigam a pegar mais pesado, pesado como minha banda preferida que é_ _ _

— ALDO!

Levanto do apoio que vinha fazendo no piso de concreto, limpo as palmas as esfregando nas pernas, tiro o fone gigantesco da cabeça e dou atenção ao balcão do apartamento da Cristina no segundo andar do bloco, logo à minha direita.

— Oi, Cris — ergo a mão para cumprimentá-la.

— Que está fazendo? — a pergunta vem lá de cima.

"Beijando o chão", penso.

— Me exercitando — eu digo — , me dá uns minutinhos que já subo.

Ela sai da sacada sem falar nada e eu volto para o chão.

Minutos passam, subo, tomo um banho rápido. No seu quarto e já se arrumando, ela me convida para sair em um clube que ainda não fomos. Agradeço respeitosamente o convite, me desapoio do marco da porta de seu quarto, me aproximando dela. Ponho as mãos na minha própria cintura e confesso à ela que irei dedicar-me a concluir um trabalho atrasado para um cliente noite adentro e que, se ela quiser, preparo algo para ela comer antes de sair. Ela refuta, fazendo manha como uma adolescente brigando com os pais que não a deixam sair no sábado a noite.

— Tu diferente comigo, Aldo — a colombiana diz lentamente, deixando os pensamentos ganharem formas diante do espelho onde ela põem os brincos — , tu não eras assim…

— Cris, olha pra mim — eu peço recuando para fora do quarto, voltando a me escorar na porta —. O que você quer que eu faça? Que eu fale pra ti que tenho vontade de estarmos juntos para a gente tirar a roupa e cinco minutos depois você me empurrar para longe com o discurso de que não deveríamos transar?

A garota não se vira para mim, mas baixa a cabeça diante do espelho e o usa para me espiar com desdém.

— Qual é a graça? — pergunto, não entendendo o semblante quase sádico dela, exalando ar de superioridade, de sobrancelhas contraídas em "v" e acompanhadas de um sorriso de lábios fechados.

— Nada, antes você sairia comig_ _ _

— Antes eu inclusive te levaria pra jantar com dinheiro que nem tenho, mas eu daria um jeito — eu a interrompo — . Tu precisas de alguém que não vá embora, Cris… Um cara que possa dar mais atenção do que eu consigo!

O câmbio de emoções dela é impressionante.

— Tu achas? — ela questiona, tirando apenas um dos brincos, o deixando sobre a escrivaninha do quarto e se sentando à cama, emburrada não como uma mulher, não como uma adolescente, mas como uma criança, guardando suas mãos entre os joelhos e mirando o chão nos seus pés numa mescla confusa de lágrimas por vir e sorrisos amarelos — Sei lá, te dou um quarto, você fica aqui o dia todo e nem para sair comigo nas poucas horas que aqui…

"Claro, a generosidade de quem engaiola um pássaro para lhe dar abrigo. Não fode, vai", flutua na minha cabeça na velocidade de um “foda-se!”. Mantenho alguma compostura perigosamente suscetível a falha estando aqui na presença da Cris.

— Na cama a gente não dá certo, para sair também não — me esforço para lembrar de coisas específicas em uma quantidade recorde de problemas que esta garota encontrou na minha companhia — , você se fechou comigo porque dancei com tuas amigas; você me chamou de louco porque teu nome no meu celular tinha sua idade no lado do nome; tu pegaste o Pastel e ameaçou o pôr no lixo porque ele estar empoeirado. Que liberdade é essa que crê?

— Te levei para o aniversário para ficar comigo, não com elas… Tu achas que eu não vi tu mostrando teu cartão pessoal pra Liliane e ela escrevendo algo nele antes de tu guardá-lo no bolso outra vez?

Ãh?

— Não ficou com ela, depois com estas suas saídas a tarde e o apartamento vazio aqui? Vai me aplicar essa?

Quê “ficar”, garota?! — digo transtornado por tamanha teoria da conspiração a Cris está criando — Eu só dancei com ela e nem sequer tenho ela em meu telef_ _ _ Não sei porque conversando sobre isso contigo, sinceramente!

Ela mira-me com sarcasmo outra vez.

— Aliás — eu falo quando saída do guardo, mas dando meia volta para vê-la no rosto — , o que foi o que você pediu pra eu fazer assim que chegamos na frente da boate?

Ela não responde, talvez nem lembre do “Sem beijos, sem mãos dadas" como se eu fosse cometer a gafe de fazer isto na frente dos seus amigos sem antes falarmos a respeito.

— Ok, Cris, faça o que achar melhor — digo saindo definitivamente de seu quarto em direção a sala aonde levanto a tampa do notebook e o encaro por alguns minutos sem saber o que tenho de fazer.

Raros minutos de silêncio.

A garota de 1,58 de altura sai do quarto, vai até a sala em cinco passadas e se escora na mesa de vidro com os cotovelos logo detrás do laptop onde estou revisando a câmera fotográfica em um exercício mais de diálogo interno do que para ver fotografias do ano novo em Cartagena.

— Olha pra mim — ela me pede com uma falsa doçura — sou tão terna contigo, vamos combinar de não brigarmos mais…

"Quem usa a palavra 'terna' pra descrever a si próprio soa tão insano", imagino, não me contendo mais, deixando a risada cínica me escapar, infelizmente. Amanhã mesmo saio dessa casa, "tomar no cu".

Me levanto e vou até o quartinho onde estão minhas coisas. Me sento na cama e tento ler qualquer coisa.

— Olha pra mim,  — ela pede outra vez, me seguindo até minha habitação, parando do meu lado. — Eu que te pergunto, o que quer que eu faça pra tu sair hoje sem brigar comigo?

— Tu precisas de ajuda, Cris… — comento levantando da cama e pedindo para ela gentilmente deixar eu fechar a porta do quarto.

Cristina sendo Cristina (Aldo Lammel, © todos os direitos reservados)

Ela sai da peça, substituo a bermuda por um jeans, pego a carteira e o celular e vou para a rua porque ficar no mesmo ambiente que esta garota é um exercício de compostura que não estou mais disposto a praticar hoje. São 21:15.

Abro a carteira, em Pesos colombianos, tenho o equivalente a 10 Dólares. Pouco, é verdade, mas com uma moeda já tomo o metrô e sigo para a estação Estádio onde está a Carrera 70, uma rua movimentada, fora da zona turística comum, contudo igualmente bonita e bem movimentada, lugar onde gosto de caminhar após me exercitar nas máquinas de musculação que existem na praça do estádio de futebol ali ao lado. Desço o íngreme lance de escada na saída da estação e logo estou na 70. Lotada de gente, iluminada, barulhenta. Isto me anima embora com alguma frequência a necessidade de procurar um novo lugar para me hospedar na cidade me martele. "Amanhã cedo você resolverá isto, Punk. Respire!"

O senhorzinho do cachorro-quente me reconhece e eu paro para conversarmos, perguntar sobre as vendas do dia e se estamos no processo de abrir filiais no Brasil. Rimos e logo me vou, prometendo a ele minha volta mais tarde. Mais à frente, me certificando de que estou pisando apenas nos quadrados negros da calçada (me deixe, tenho essa mania compulsiva as vezes), os bares estão iniciando a movimentação da noite onde um em especial me prende a atenção. As mesinhas de madeira para duas pessoas na calçada, estilo boteco da Lima e Silva em Porto Alegre, e um telão lateral na rua. Puxo a única cadeira que não está bamba, peço água com gelo num copo de trago e a senha do Wi-Fi por costume. Os videoclipes no telão são bons e assisto um e outro, embora eu não possa deixar de notar a moça de jaqueta branca com uma longneck na mesa e um estojo fotográfico junto de sua cadeira.

Morena quase cor de café; todo o longo cabelo, tão negro quanto o preto, jogado por cima de um dos ombros, contrastando com a jaqueta de lona branca sobre uma blusinha clara delicada. De pernas elegantemente cruzadas sob um justo jeans negro, seu pé direito balança no ritmo da música que foge das caixas de som do boteco. Sua concentração está toda na câmera fotográfica agora em cima da mesa e no celular que pisca a todo momento, um telefone que mais lembra uma obra de arte. Ela tem um olhar distraído, distante quando olha para cima na direção do telão, deixando sua boca entreaberta, lábios grandes, carnudos cobertos apenas de brilho. Não há batom.

Nós nos enxergamos ao mesmo tempo e dou um educado “oi” à distancia que ela, simpática, devolve com um “olá” mudo, desviando o olhar. Assisto um ou dois clipes tomando minha clássica água em copo de Vodka, rindo com as mensagens que o Luke me envia, lamentando que sua namorada suíça voltou à Europa sem ele. Exato, é o Luke, aquele norte-americano que conheci em Montañita, no Equador, que depois reencontrei dias atrás em Cartagena durante o ano novo. Agora ele também está aqui na cidade. O rapaz é onipresente, está por todas as partes; basta repetir seu nome três vezes que ele aparece vestindo de pirata na tua frente. "Precisamos marcar um chopp", me cobro de depois falar com ele.

Outra vez miro à moça duas mesas distantes. Ela me olha e eu sorrio, pego o trago de mentira e vou até ela me apresentar com aquele nervoso tranquilizado de um olá já dado e retribuído.

— Claro, sente — ela aceita — Você não tem sotaque europeu…

Gargalho brevemente, sem fiascos, é mais pelo social.

— E também não sou árabe ou judeu!

Ela dá um tímido gole na Corona.

— Sou brasileiro.

— Sério? — pergunta ela no sotaque inconfundível — Que legal, nunca diria que tu és brasileiro…

— E você é de Medellín — afirmo.

— Muito bem — ela mostra os dentes com alguma surpresa, ela usa aparelho, destoando um pouco do ar de mulherão inicial — Sou uma paisa. Sotaque forte, verdade?

Procuro fixar-me em seu rosto com mais simpatia, porém ao invés de me aproximar fisicamente, me afasto, deixando minhas costas reclinar-se na cadeira ao lado da garota de, quem sabe, 22, 23 anos.

— Na verdade deduzi pelo charme — uso munição pesada, citando por tabela a fama da mulher paisa contra ela mesma, o que a faz sorrir com a paquera cordial. Eu completo sem pausa — , mas sim, tu tens o sotaque carregado.

O sorriso dela vai se desfazendo, até apenas ser um semblante neutro, de boca de traços marcados e cílios naturalmente curvados, femininos, vigiados por um par de olhos caramelo escuro, quase negros. Um charme a parte.

— Gosta de fotografias? — ela me pergunta, puxando o estojo ao seu lado.

O gatilho sobre fotos nos leva a algo em comum que sucessivamente me faz revelar sobre a viagem que venho fazendo e meus objetivos. Boquiaberta, respondo todas as perguntas que naturalmente ela se vai se sentindo confortável em fazer, deixando-a mais curiosa para entender minhas motivações e escolhas ao longo destes quase um ano de estrada sozinho. Crio um respiro, a interrompendo. Faço com que ela fale ao seu respeito. Em um mundo tomado de gente louca, receio já ter esgotado minha cota com mulher psicopata nos últimos tempos. Tudo tranquilo, apesar da idade, ela se revela madura, ponderada e agradável, mesmo que pareça evitar falar de si.

— Já fiz algumas viagens, mas nunca sai da Colômbia — o semblante volta a ser neutro — , mas também já fiz uma viagem de bike, bem curta, com meu pai na época.

Franzo o cenho com a notícia.

— Coisa boa, ele é um sogro inteligente —digo abusando um pouquinho da paquera para que não haja dúvidas sobre minhas intenções.

Ela nada comenta, reserva-se a fitar-me por uns cinco segundos de uma forma muito particular.

— Você é bem legal, brasileiro.

— Me apresentei, já sabes meu nome…

— Xey, tenho 23 anos, estudo desenho — diz com serenidade, pegando sua cerveja e dando um último gole antes de continuar — … trabalho em uma cidade aqui ao lado e tem um tempo que estou apaixonada pela fotografia.

— E vai me ensinar a dançar salsa hoje, Xey?

— Vai me ensinar a bailar samba, Aldo?

— Prometo que amanhã te ensino a fazer caipirinha.

Ela gargalha.

— “Capiriña” — ela tenta pronunciar.

— Cai-pi-ri-nha — eu soletro lentamente.

A gente ri e troca olhares sem qualquer compromisso. São 00:45.

Duas quadras do boteco, um outro bar. Este com pista e variando entre Salsa cubana, Salsa Choque e Reggaeton, como a grande maioria, aqui também não cobra nada para você entrar e se divertir. Pegamos uma mesa de canto, mas não sentamos, largamos na mesa nossas coisas e, por cima, Xey deixa sua jaqueta para ocultá-las. Me aproximo da garota do cabelo escorrido e negro como petróleo e a trago para mais perto; bailamos por alguns minutos, conhecendo a cada nova música o ritmo um do outro até que o reggaeton entra em cena e unifica a gente, nos emparelhando com alguma malícia. Começamos devagar, não consigo ficar distante nos movimentos, é um tipo de música que pede mais contato e a convido (mentira, a puxo) e ela hesita, contudo aos poucos a resistência desaparece e rimos com os rostos próximos e corpos totalmente entrelaçados.

Ela se exibe com alguma timidez, como quem está se soltando e ganhando confiança, deixando-me reparar em cada curva a medida que nos afastamos um do outro e seguimos dançando pra gente. A morena praticamente da minha altura, me puxa e, com nossas pernas se entrelaçando outra vez, tenho a pressão dos dedos dela no meu ombro e costas. A colombiana de pernas fortes, gira nos calcanhares e me dá toda suas costas; tiro o comprido cabelo negro da minha frente e repouso meu queijo do lado direito da sua nuca expostas. Descemos devagar no balançar que seguimos juntos no ritmo da canção. É impossível ela não me sentir! Ela joga o quadril algumas vezes para trás.

— Isso é bom — me escapa à queima-roupa em seu ouvido.

— É? — sai meloso da boca dela — Vou parar então.

"Sei!", digo à mim.

Faço com que ela gire para sua posição original, já não escuto nada ao meu redor, por acidente (mentira, novamente) minha mão esquerda esquivou-se da blusa branca delicada e estaciona direto em sua cintura cálida, morena, colombiana. Não havia qualquer motivo que me dissuadisse a tentar. A beijo assim que ela me fita nos olhos enquanto sorri e o seu corpo relaxa em mim. Seguimos dançando assim por algum tempo e se tinha gente a nossa volta achando tudo isto um exagero, nem vi.

A noite termina horas depois comigo fazendo o papel machista, um cavalheiro ainda que falido, pagando um simples cachorro-quente à ela tomado por sorrisos, papo leve e uma breve caminhada até o portão do seu edifício há algumas poucas quadras ao oeste da Carrera 70.

— Gostei da noite — comento me distraindo ao reparar o vazio da rua.

La pasamos bien, verdad? — ela faz a retórica, deixando a ternura se misturar ao charme de seu sotaque. Algo que a deixa ainda mais feminina, mesmo que seus trejeitos eu venha percebendo que são de mulher fisicamente forte e sagaz.

Rio a fitando nos olhos.

— Te ligo amanhã — falo, a beijo no rosto sem pressa, aguardo ela subir e então me vou, fazendo o resto da subida de sua rua e dobrando à direita na Calle 45g, a mesma rua onde Pablo Escobar se escondia em 1993 quando, no telhado da casa que está ao meu lado agora, ele recebeu uma chuva de chumbo ou, se você preferir como ele mesmo gostava de dizer, “Plomo”.

O céu escuro dá lugar ao azul-marinho do quase amanhecer. Os sons do domingo matutino chegam comigo em um dos muitos blocos do enorme condomínio alaranjado na esquina da Calle 65 com a Carrera 56.

São 5:50 e sentado em um dos bancos do jardim do condomínio, penso na garota de hoje. Aguardo até às 7:00 para então subir e acordar a Cris para abrir a porta para mim.

Música que Cris ouve sem parar (“Gyal You a Party Animal” do Charly Black)

Me reviro, tapo os ouvidos, pressiono o travesseiro contra a cabeça. A música está alta demais e o sol entra esbranquiçado e quente pela janela do quartinho. Fui vencido. Levanto, esfrego os olhos e saio do quarto ainda sem camisa e de pés descalços.

Com uma vassoura em mãos, Cris varre e dança. Vou devagarinho até ela, pé por pé, e a abraço pelas costas a assustando, porém dançamos por um breve momento assim.

— Bom dia, boêmio — ela ri.

Sorrio escovando os dentes no lavabo, revisando as notificações das últimas horas.

Xey Medellín diz: Vou até Jardín fotografar. Quer ir comigo?

Olho o relógio do celular, 12:40. Me encaro no espelho, cara amassada e com dois riscos do lençol na bochecha.

Aldo diz: Quero. Onde eh isso??

— Tem dois sanduíches de abacate, tomate e cebolinha refogada no microondas se estiver com fome — avisa Cris.

Ponho a cabeça para fora do lavabo com a escova de dente dentro da boca.

— Oi?

— Tem sanduíches no microondas!

Ah, obrigado — acelero o passo, a fome é grande. Abro a porta do micro e fico ainda mais contente — Os dois são pra mim?

— NÃO, um é meu, ?! — e ela dança e varre.

— Saiu ontem? — pergunto sentado à mesa, mastigando. A Cris é ótima na cozinha.

ZIII-ZIIIIII!!!

Vibra meu celular na superfície envidraçada da mesa negra.

— Não, fiquei conversando com o Sebas no celular — ela hesita por um tempo, porém faz a pergunta — E você?

Xey Medellín diz: Eh uma cidadezinha nas montanhas aki perto. Se tu chegar no terminal sul em 40 min a gente pega a última van pra la. Eh bem longe de Medellín, dá umas 3 horas de viagem… Tua barraca é pra quantas pessoas? A gente dorme nela, vamos?

GOLAÇO!!! — quase berro sem querer, saltando da mesa.

Ai, que susto, hombre!

Corro para fazer a mochila, passo como um risco pela Cristina parada no centro da sala com olhos arregalados. "Levo quinze minutos do metrô até o terminal, porra, cadê o celular?", imagino. Volto à sala, pego o celular na mesa e respondo à Xey.

Aldo diz: Amoo
Aldo diz: Oops
Aldo diz: *Vamo

— Cris, perdão, vou sair — passo outra vez como se estivesse atrasado para uma entrevista do emprego dos sonhos — é que tenho de chegar no Terminal Sul em uns trinta minutos.

Hm, acho meio impossível.

— É possív_ _ _

PÁÁÁÁÁÁ!

Chuto a caralha da cantoneira do sofá com o dedinho do pé.

Cristina dá uma gargalhada estridente de boca cheia do sanduíche que acabou de sacar do microondas. O farelo que sai de sua boca percorre mais de dois metros e chega até mim sentando no sofá.

Tomo fôlego pelo menos por alguns segundos.

— Desculpa, Aldo é que foi — ela segue gargalhando — muito engraçado!

Fico mudo por uns instantes conforme, mancando um pouco, termino de pôr outro par de roupas que lavei. Confiro: carteira, celular, câmera, estojo de higiene e papel higiênico. Tudo na pequena mochila bege com o Pastel só com a cabeça de pelúcia para fora de um dos zíperes. Calço o tênis.

Aldo diz: Te vejo na estação do Poblado e dali corremos para o terminal sul. Fique parada na plataforma até eu chegar. Se eu chegar primeiro, te esperarei no mesmo lugar. NÃO SAIA DALI porque não terei internet ou como te ligar. Fui.

Ponho o celular no Modo-Avião para economizar bateria já que ao sair do apartamento não terei mais sinal algum.

Aldo está offline.

— Beijo, beijo — deixo um beijo desengonçado na Cris e ao mesmo tempo tentando pôr os fones de ouvido todo enrolado em si.

Ei, beijo, tchau — ela diz rindo — , onde você vai com toda essa pressa?

Viro para ela antes de sair por completo do apartamento caminhando de costas.

— Éééé… dar uma volta, volto amanhã, ? Beijo — digo e dou play no celular. Hora de correr!

Menos de 20 minutos depois de acordar, estou a caminho da Estação Hospital do metrô, a algumas quadras do apartamento. Tenho outros 20 minutos para chegar lá. Pensa em alguém correndo ladeira acima!

Entro no trem, na prática o vagão está vazio, é domingo. De pé, mantenho-me de frente à vidraça panorâmica, atento a paisagem coberta por edifícios e casas que passam rápido por mim em um dia nublado de agradáveis 24ºC. Medellín vem sendo uma cidade que me faz pensar, ela representa o fim da viagem pela América do Sul e eu mentiria se confessasse que anseio por sair do continente. Nunca existiu a menor pista de que eu desfrutaria tanto de um mochilão pelo sul da América como de fato se evidencia cada vez que recordo sem esforço do que venho vivendo. Se você questionasse logo na segunda semana de estrada onde eu depositava minhas melhores expectativas, não titubearia em te contar que o melhor, sem dúvida, viria da clássica e espetacular Europa, porém se a pergunta fosse inversa, onde eu não apostaria muito do meu tempo, responderia com alguma segurança que a América do Sul seria apenas por curiosidade e nada além disso. Era eu dando com a língua nos dentes.

As primeiras semanas de viagem foram passando e logo nas interações iniciais, nas situações e emoções testadas, foi surgindo uma nova mentalidade do que eu deveria esperar destas terras, continente que mostra-se a cada novo quilômetro muito a se desenvolver, mas incontestavelmente divertido, exuberante e, pelo que tudo indica, único. Surpresa boa aos olhos da ignorância em um homem prestes a completar 32 anos, homem que agora deduz através da lógica que, se rompi de forma espetacular as expectativas por aqui, é possível que eu não saiba nada sobre outros cantos do mundo e, talvez, só talvez, eu ainda não faça ideia de onde fica o outro melhor lugar do planeta para eu conhecer. O fato é que hoje é difícil para mim imaginar um pedaço do globo que me faça sentir que estou tão… tão em casa… como me tenho aqui na Colômbia, aqui em Medellín. De um modo ou de outro, tenho o dom de viajar no tempo, aqui diante da janela do trem, me levando através da imaginação até os anos aonde eu olhava o mapa na parede do quarto e me questionava qual lugar me brindaria com a felicidade por mais vezes. Não, não estou certo de ser onde estou e tampouco usarei uma viagem no tempo para sussurrar em meu próprio ouvido no passado que a América do Sul será incrível. Deixe-me à mercê da beleza da surpresa, prefiro brincar de voltar no tempo para assistir eu apontando o dedo para a Europa seguro que lá será meu canto do mundo; na nave da imaginação em uma volta nas eras, prefiro enxergar como nasce em mim uma certeza fadada ao não-tão-certo-assim.

Diferente do Uruguai e Argentina onde tive a adaptação ao idioma, diferente do Chile e Bolívia, países que saboreei os meses de isolamento que tanto quis experimentar; diferente do Perú e Equador, lugares que me brindaram com amizades loucamente interessantes por sua intensidade e brevidade, diferente de tudo aquilo, atualmente vivo meu último país da América do Sul, minha última cidade da Colômbia. Começo, meio e fim. É assim, é assim que darei espaço ao próximo ciclo e não há do que se queixar, porém penso sobre isto nos últimos dias, sobre as esquinas, os barzinhos, parques, calçadas e as pessoas nelas; minhas pedaladas com músicas nos ouvidos através das ruas de Medellín ou até mesmo um Aldo em um trem assistindo tudo se mover além da vidraça. Em Medellín, é como se sintetizasse um pouco de cada país que vivi neste quase 365 dias de mochilão, completamente só a medida que avanço para a próxima quadra, quarteirão, bairro, cidade, país e, dentro de alguma semanas, continente. Mas que eu seja justo, porque este “só” de “sozinho” significa apenas um aspecto técnico. O “só” de “solidão”, de sentimento, este está longe de ser verdade na minha viagem, ainda mais na Colômbia onde o charme e o desenho feminino faz meus hormônios crerem que estou à beira da extinção. De repente é a química quem dita as regras; faria sentido, pelo menos explicaria as grandes histórias na cama que venho conquistando por aqui.

Rio sozinho no vagão, reparando o feixe de sol que escapa por entre o gris das nuvens.

— Olá, meu jovem — um senhor beirando os 80 anos chama minha atenção no banco contínuo ao lado — , sente-se para não cansar-te.

Difícil não sorrir com a educação colombiana na forma de um senhor com sua simpática boina italiana, confortando-me com palavras sem dentadura. Bem velhinho.

Ah, é verdade, muito obrigado — me sento ao lado do senhor, o agradeço uma segunda vez com um balanço de cabeça singelo. E minha atenção volta para a paisagem além, desta vez ressaltam-me as longínquas montanhas verdes.

A quantidade de mensagens que recebo vem aumentando, principalmente as mais elaboradas que chegam em longos e-mails ou inbox nas redes sociais. São pessoas que, cada uma a sua maneira, me contam suas crises existenciais ou que querem dividir comigo seu descontentamento com o que eu mostro ou deixo de mostrar no meu próprio diário. Irônico pensar que há quem vê no que faço uma forma de inspiração para tirar seus próprios desejos do papel, porém ao mesmo tempo se queixa que exponho excessivamente minhas relações interpessoais quando deveria estar detalhando questões técnicas sobre equipamentos que utilizo. É como se fôssemos instigados a aprender a surfar e nos concentrássemos na Kombi que deveríamos comprar para transportar a prancha. Totalmente mordaz. Não tenho o domínio sobre a ingenuidade alheia, tampouco do tipo de relação que os outros idealizam para si em uma viagem, contudo posso assegurar que punheta não satisfaz ninguém e espírito-de-liberdade desenvolvida assistindo programas de TV não credencia ninguém a ter a real noção do que é estar sozinho na estrada, conhecendo alguém num dia e dizendo adeus no outro, para nunca mais vê-lo. E eu sinto um enorme prazer em me imaginar lendo meus registros em um futuro distante, e estou quase certo de que, entre ler sobre como foi o desgaste dos pneus da bicicleta e como foi o sabor de um beijo na Colômbia, receio que ficarei com a segunda opção. É confuso pensar que tem quem adore o pão-de-forno, o consome com alguma frequência, mas enaltece as supostas falhas de um padeiro que confessa não usar luvas para preparar a massa.

Pelos corredores do tempo da faculdade, logo após discussões calorosas em sala de aula sobre as obras de Pollack, argumentei ao mestre de Artes de que meu grupo não foi bombardeado de dúvidas e questões conceituais pelos demais grupos, o que deveria ser um indicador de que fomos os reais merecedores do primeiro lugar. Tenha em mente que sempre fui um aluno problemático e que o professor estava sob muita pressão no final do semestre; eu o segui até o estacionamento e o questionei novamente, pouco me importava a nota, eu queria entender aquela “validação relaxada” que ele usou. Essas foram as palavras que pronunciei. Primeiro o mestre me mandou ir para casa, porém insisti até que ele já estivesse dentro de sua Silverado prata no estacionamento da universidade, fazendo-o dizer que “o trabalho que apresentei foi uma fotografia do mesmo, apenas outro trabalho medíocre”, fechando a porta da camionete irritado, baixando o vidro e disparando um “Tchau” áspero como uma esponja de aço.

— Próxima estação: Terminal-Poblado — fala a voz feminina nos alto-falantes.

A Xey me convidaria a estar com ela se soubesse que dois dias antes eu estava em Cartagena com uma garota a qual tinha me envolvido no passado muito recente? Ou se eu contasse que estou dormindo no apartamento onde tive um lance com a proprietária alguns dias atrás? Porque eu deveria contar sobre estas coisas à Xey se ela sabe que dentro de uma semana estarei longe da cidade, quem sabe já fora do país, seguindo meus sonhos para o outro lado do mundo? Ela não espera nada de mim além de que eu seja uma companhia agradável e que, mesmo não tendo como lhe comprar mais do que um cachorro-quente, eu lhe traga algum conforto, seja em um beijo com vontade ou numa conversa franca com ambos sentados na grama. Estou para conhecer quem não aprecie este carinho, este cuidado. Se pouco me importa saber o que ela vinha fazendo na cidade antes da minha chegada, existe uma chance de ela não se importar com o que eu fiz para chegar até aqui e encontrá-la naquele bar.

Ah, para constar, ela sabe sobre Cartagena, sobre a Cristina e que o mochileiro aqui não é nada além de um pé-rapado. Posso ser teimoso em muitos aspectos, mas na arte de aprender, estou atento e seguindo os conselhos de um professor que provavelmente me pedia para ser um tanto autêntico no que apresentava, como quem dizia que se não há críticas, algo anda mal. E por mais que eu deteste críticas mal fundamentadas, há aquelas que nos dão a ideia de usar luvas para sovarmos a massa, algum tipo de luva que não altere a textura e sabor; mudanças importantes que não afetem a nossa essência de padeiro.

Me levanto do assento metálico.

— Um abraço, senhor — olhando por cima do ombro, digo ao velho homem que despede-se erguendo seu cansado braço.

Então eu saio do vagão.

Metrô de Medellín — Jan/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

— Aldo! — a garota abana na outra ponta da plataforma — A gente precisa correr!

No mesmo momento que nos vimos, corremos abaixo de risadas pelas ruas próximas ao Terminal Sul de Medellín. Xey vai na frente, aponta onde está o guichê, chegamos escorregando pelo piso liso do Terminal já com alguns trocamos nas mãos. Passagens na mão, entramos no micro-ônibus e então respiramos. Um “oi”, um “olá”, de repente o beijo macio, ainda delicado, sob o olhar eterno do Pastel com a cabeça para fora da mochila.

— Tua mochila está leve — comenta Xey ao puxar-la para seu colo e mexer no Pastel — , a barraca é pequeninha?

"Onde tá a BARRACA? ERA A ÚNICA FUCKING… COISA QUE EU PRECISAVA TRAZER!", grito dentro do meu cérebro.

— Achei melhor não trazer — me sai plácido como um lago sem perturbação—. Tu não me disse se gostou do Pastel…

— Gostei, lógico — a morena parece preocupada —. E o que a gente vai fazer?

— Lí que o pessoal é hospitaleiro por lá… —É possível que eu não esteja olhando nos olhos da garota de tão ridícula que é a explicação.

— Que bom isto então, mas qual é a tua ideia? Não esquece que é um povoado turístico e hoje é o aniversário do lugar.

— Ficar na casa de algum morador, não é complicado de conseguir — falo pensando: "Te vira agora, nego!"

Três horas depois chegamos na lotada e verde Jardín, um povoado em festa, com ruazinhas estreitas e de paralelepípedo tomada por turistas vindos das cidades ao redor. Arrisco pegar a mão da Xey e ela deixa sob um olhar sério com um princípio de graça nos cantinho da boca, algo que já vejo como sua marca. Finjo que o olhar desconfiado dela não é comigo e saímos caminhando desse jeito, de mãos dadas. Já está escurecendo e não faço a menor ideia de onde vamos dormir até eu puxar papo com três senhorinhas sentadas em frente a uma humilde casinha de barro pintada de branco. Conto que somos um casal de estrangeiros sem dinheiro e que buscamos um sofá para descansarmos esta noite; elas não se intimidam e logo uma delas nos convida a entrar e nos acomodarmos. O espaço é apertado, entretanto é no quarto de seu filho — cujo o novo emprego lhe obrigou a viajar dias atrás — onde deixamos nossas coisas. A Xey e eu agradecemos com sorrisos de orelha-a-orelha. De longe, temos um quarto que entra no meu Top 3 de habitações mais bizarras onde já dormi, desconsiderando minhas aventuras com a barraca. É possível escutar o estalar do sonar dos morcegos dentro do buraco de mais de um metro logo acima da cama feita de compensado e tiras retalhadas de colchas, tecidos empilhados sobre a placa de madeira para dar alguma maciez a superfície. Pormenores à parte, não dormiremos na rua, algo que se chegássemos a ter de fazê-lo, receio que a Xey o faria sem se queixar. A gente ri da notável situação, agradecemos novamente e vamos para as vielas em festa.

— Que fofa — diz Xey à mim a respeito da nossa anfitriã assim que saímos da casa e começamos uma rápida caminhada até a praça central.

— Não entendi o que ela disse quando perguntei como ela se mantinha.

Xey me fita com consternação.

— Que foi? — pergunto.

— Ela disse que sobrevive pedindo esmola.

Mantemos um longo olhar mudo um para o outro. É possível que pensemos com similaridade sobre isto. "Quando imaginaríamos que a ajuda viria de alguém que sobrevive assim?" Ironias da vida.

Bares com gente bêbada por todos os lados, música folclórica, gente feliz dançando ali, aqui e lá. Crianças, velhos, jovens, nós, um copo de aguardiente para o alto e tomamos um, dois, calma; quase três! Ok, vai, mais um para não perder o costume e um “Viva” jogado ao vento. Dançamos bastante nos lugares mais esdrúxulos que encontramos e como nos divertimos. Descabelada, suada igual a mim e usando um par de tênis tão rasgados quanto os meus, a Xey é tão natural e verdadeira que me pego observando ela de verdade. Reparo outra vez a beleza exótica, de traçado que me agrada a ideia de olhá-la no íntimo. "Que mulher bonita", reitero calado, deixando escapar em seguida.

Tu me cae muy bien. Eres hermosa!

Ela não sorri de imediato, seu olhar é anestesiado como se estivesse reparando nas linhas do meu rosto, próximo aos meus olhos, embora não direto neles. A boca macia que desenha um largo sorriso, revela o quão menina ela é com seus 23 anos e um aparelho odontológico recém posto. Ao perguntar “Quem é a Xey”, a resposta é breve como a própria pergunta, a deixando com uma expressão de angústia como se não soubesse descrever quem de fato é; não insisto, a deixo com seus pensamentos e aprendo como ela funciona.

— Sou uma péssima companhia — finjo resmungar olhando para o lado.

— Porque você acha isso? — ela questiona preocupada, com a voz sempre mansa que as vezes beira a ingenuidade no tom.

— Ontem te prometi uma caipirinha e até agora nada.

E ai está, ela sorrindo outra vez.

No meio da multidão, assistimos um show de algo que não dou atenção. As mãos da garota de pernas torneadas como de uma velocista, percorrem as laterais do meu corpo e sinto seus seios contra minhas costas. Permanecemos assim por um tempo. Me viro à ela, dando as costas à apresentação artística, pergunto se ela quer ir comigo para aquela casa e para lá nós vamos. No humilde quarto, totalmente fora do que poderíamos planejar, tenho ela por completo a medida que seus olhos não desprendem-se de mim, como se eles tivessem sua própria história oculta na mirada neutra, quase sem emoção.

Te quiero — sussurro.

— Como? — pergunta ela surpresa.

Te quiero!

Uma risadinha escapa da garota que me corrige — "Te quiero" é muito forte pra nossa primeira vez.

— Não me importa — revido de imediato, vou mais fundo.

Ela gemi baixinho sem nunca cerrar a vista e eu sigo com algum carinho em nossa cama de compensado, trapos e ruídos.

Os primeiros raios de luz não surgem na alvorada de uma segunda-feira de tempo fechado. A Xey está de folga, não tem de estar na construtora aonde ela é a responsável pelo desenho das vias dos empreendimentos; acordamos com os guinchos de um porco que parece estar dentro da casa e ter, no mínimo, 200 quilos, tamanho é seu ronco nos intervalos quase sincronizados dos cacarejos dos galos vindos lá de fora. Jardín está chuvosa, ainda assim caminhamos pelas ruazinhas, fazemos fotografias e com um pouco mais de dois dólares, a Xey me faz escolher um dos muitos sucos de rua. “Limonada de Coco” me chama a atenção, “El sabor de Colômbia”. Pedimos dois copos médios.

— Que foi? — pergunta a Xey com a Pentax com lente 50 milímetros pendurada no pescoço.

— Que delícia este suco!

— Fazia tempo que eu não o tomava, é típico de Cartagena.

— Xey, de verdade, que espetáculo isto — tento recordar de um suco melhor, o de açaí me vem, porém não é pálio para isto aqui. Eu sigo — No Brasil faria sucesso instantâneo!

Fazemos uma vaquinha com as moedas e compramos um café da manhã para a senhora dona da casa. Agradecemos a hospitalidade e minutos depois estamos dentro do único transporte disponível para Medellín: uma Chiva, um caminhão com a carroceria coberta, porém aberta nas laterais, adaptada com bancos de madeira para empilhar pessoas; três horas de desconforto onde a única maciez que encontro estão nas curvas das pernas da Xey onde desmaio enquanto ouço música. Durmo por quase todo o caminho de volta, assim, no colo da colombiana da pele quase café.

Ela e a limonada de coco em Jardín — jan/2016 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Capítulo Dois — Consequências

Sexta-feira a noite, 15 de janeiro de 2016.

— Assim, não se mexe — digo à Cris.

Ai, doendo.

Escorada no balcão da cozinha do seu apartamento, minha anfitriã reclama de tudo que faço, não importa o quão carinhoso eu me mostre à ela, não será o bastante pra moça focar no lado positivo das coisas.

Diminuo o ritmo, o contato é mínimo, minha boca está próxima e ela geme.

— Devagar, cacete — a Cris resmunga.

— Faça o seguinte, garota, coloca você.

A moça sem paciência pega o creme para queimadura química e segue ao banheiro marchando como uma criança emburrada. O ácido bórax que pingou em seu maxilar hoje a tarde em seu trabalho, deixou uma marca rosada profunda do tamanho da cabeça de um fósforo na lateral inferior do queixo. Mesmo que eu tenha me oferecido a lavar com água oxigenada e passar o creme enquanto assopraria a região, parece que não me sai bem. Vou para a mesa da sala seguir com a busca de novo Couchsurfing já que parece ser a única coisa inteligente que eu possa fazer.

— Agora vou ficar com esta marca para o resto da vida.

— Não vai, Cris — digo enquanto escrevo um e-mail. Ainda assim falo em paralelo com a dona do apartamento — , é tão pequeno que se ficar marca, não vai dar pra notar.

— Vai ficar marca então? — a cara que ela faz ao deixar-se cair sobre o sofá da sala beira as manhas sem lágrimas de criança birrenta.

— Um momento — digito o mais rápido que posso — Quê?

— E se ficar a marca? E outra coisa, como vou sair com o Leo hoje?

— Não vai dar pra ver, está bem embaixo do teu maxilar, guria. Você que é a química. Bórax mancha a pele permanente? Quando eu estava na Bolívia cruzando o deserto de sal, a minha bicicleta pegou um pouco de ácido bórax e corroeu o alumínio e_ _ _

— Aldo, tu me assustando.

— Eu?

— Não quer cuidar de mim — justifica a garota do cabelo castanho-escuro com voz de choro e linhas faciais que não sei descrever, contudo que me deixam confuso se ela fala sério ou não.

Desvio meu olhar dela de imediato, não comento nada, minha atenção segue onde está: no e-mail que escrevo.

(…) Um espaço para meu saco de dormir, um banheiro com ducha fria e um pouco de internet para meu trabalho. É tudo que preciso por uma semana em seu endereço.
Att, 
Aldo Lammel

Disparo a mensagem para aproximadamente 30 pessoas com o perfil que busco no Couchsurfing: pessoa entre 25 a 45 anos (afinidades), que já tenha recebido algum viajante que o recomendou positivamente (experiência), tenha internet em sua casa e viva próximo do centro da cidade (comodidade), perfil com fotografia e link para o seu Facebook (segurança). Das dezenas de vezes que usei a ferramenta, com a Cris é a primeira experiência com algum desconforto mais sério que, muito embora seja chato, é suportável, vai.

PLI, PLI, PLI, PLI, PLIMMMM!!!

Toca o interfone e Cristina me olha com curiosidade.

?

— Acho que é pra mim, posso? — aponto para o interfone.

— Claro!

Me reclinando sobre a mesa, pego o aparelho ao lado.

— Sim? — escuto a pessoa do outro lado da linha — Ok, pede para me aguardar que já estou indo.

Desligo e vou para a varanda onde está a Garibaldi.

— Vai sair hoje? — questiona Cristina do sofá.

Respondo que sim, que pedalarei e comerei algo na rua.

— Aldo, antes de sair quero falar contigo sobre uma coisa…

Levo a bike até o corredor do bloco e a deixo lá. Volto ao apartamento. Paro diante da Cristina em pé próxima da porta.

— Pouco me importo com o que tu pensas ou faz— ela diz com naturalidade — , mas não precisa se esconder achando que quero algo contigo. Acorda, !

Não quero ter esta conversação, embora eu poderia gastar saliva, não irei, chega, mina louca.

, vou nessa que atrasado.

— ALDO — grita ela — , estou falando sério!

, guria, o que tu quer que eu faça? — pergunto irritado. É o dom que ela tem de me deixar como ninguém mais consegue.

— Convide a menina a entrar, comam alguma coisa aqui e depois vão pedalar ou o que bem entenderem.

Hesito por um instante. A interrogação tatuada na cara da Cristina ora mais assemelha-se a uma minúscula gota de lucidez do que insanidade. Estou confuso, mas não sou ingênuo. De alguma forma me agrada pensar que ela disse "não me importo com o que tu pensas ou faz". Isto é um bom álibi caso ela me ponha na parede.

Uma vida sem dinheiro é um trabalho ininterrupto de encontrar caminhos alternativos, de encontrar à força soluções para as situações mais triviais do dia-a-dia, embora todos dizem conhecer as limitações pela falta de dinheiro, provável você nunca teve ou terá de bater palmas na frente de uma casa para pedir um prato de comida. Me veem sobre uma bicicleta de 1.500 dólares, usando relógio Tommy Hilfiger, com todos os dentes na boca e articulado na conversação. Jamais dirão que um rapaz assim conhece a fome. Existe uma chance de eu não saber o que é estar faminto com a profundidade que alguém que experimentou a miséria sabe, entretanto a pior sensação de angústia que já experimentei na vida nascera desta viagem que estou fazendo. Ainda assim, outros pontos mais sutis pesam ao longo do tempo, como, por exemplo, sair para pedalar com uma agradável companhia e não poder comprá-la um capuccino com pão-de-queijo ou abrir a geladeira de uma casa e encontrar tudo e não esbarrar em questões morais sobre pegar ou pedir algo da geladeira quando se tem fome. Ficar pedindo as coisas todo o tempo é tão desgastante que as vezes você só quer não ter de dizer obrigado, obrigado e obrigado. Você põe seu caráter à prova no silêncio de momentos onde ninguém esteja te observando, onde esticar a mão, manipular as evidências e dissimular, é muito fácil do que pedir "Ei, posso tomar um gole desse iogurte?" E quando você encontra alguém que te convida para fazer as coisas e tudo o que passa por sua cabeça é "Quanto vai custar?” Não sou fraco, mas as vezes sinto muita a ausência da autonomia financeira dos tempos aonde meu salário me punha em um patamar de consumidor de relógios e colônias de dois salários mínimos. Abnegar o luxo conquistado foi uma escolha calculada, mas que não quer dizer que eu não esteja vulnerável a sentir falta. Converso comigo com alguma frequência sobre o tema, argumentando que estou indo bem, mas nem tudo posso controlar, arrisco a dizer que minha mente tem vida própria, jogando-se em uma doce fantasia como se eu, agora, estivesse em casa, em Porto Alegre, convidando a Xey a entrar na minha casa, jogando sua bolsa na poltrona da sala e a fazendo sentir-se à vontade. Tudo para que ela e eu possamos estar confortáveis e desfrutar o resto da noite. Eu sei que é difícil compreender o ponto que quero chegar, mas saiba que a moral de toda esta história é que eu, mesmo sabendo que vou fazer merda, farei porque preciso tentar e sentir que tenho alguma autonomia, mesmo que frágil.

— Não comprei nada pra fazer um janta, Cris.

— Mas eu comprei, tem massa, azeite de oliva — a garota olha para o chão gesticulando — , alho, cebola, tomate, tem laranja para fazer suco se quiser. Tu sabes, a geladeira é sua.

Penso o mais rápido possível.

— Você que sabe. Eu acho que tu não estás na condição de gastar na rua — a voz da garota é cordial e sua mão toca o pequenino curativo que ela fez no maxilar — . O Leo está vindo me buscar mais tarde para saírmos e vou dormir na casa dele.

Ainda hesito. É extremamente tentador e completamente estranha a situação.

— Que horas tu irás sair hoje?

— Que horas são agora?

— 20:10 — respondo.

— Às 22:00 tenho que no Leo…

— E vocês irão sair pra tomar algo?

— Sexta-feira, óbvio!

Vou até o portão, a Xey está sobre sua bicicleta, cabelo preso para trás, dá para dizer que ela está patrocinada pela Puma dos pés à cabeça. Me aproximo reparando outra vez em suas pernas e quando chego à sua frente, reparo no desenho da boca que quase nunca sorri. Divido com ela o plano de jantarmos aqui após a Cristina sair e, se ela se sentir bem com a ideia, dormir comigo até o meio da manhã, horário que sem dúvidas a Cris estará no outro lado de Medellín no apartamento do Leo. A Xey sabe do meu envolvimento com a Cris na primeira visita que fiz a cidade, porém não fazia ideia das nossas frequentes brigas. Não sabia até agora.

— Venho sim — afirma a garota, colocando seu pé no pedal da bicicleta — Venho por volta das 22:00 então.

Assim, sem rodeios, Xey não hesita, assente ao convite e se vai pedalando para casa a 10 minutos daqui.

Volto ao apartamento e como um golpe de sorte, tenho no e-mail o convite de um colombiano chamado Johnny de endereço ainda mais próximo do parque aonde passo minhas tardes de exercício. O único inconveniente é que ele poderá me receber dentro de uma semana.

— Tá feliz agora, ? — questiona Cris ao me ver sentado na mesa da sala, sorrindo diante do laptop.

— Não, é que… — eu desisto de explicar, contudo lembro de uma coisa para perguntar—O que exatamente significa "Te quiero" aqui na Colômbia?

A Cris, desembaraçando o cabelo com um pente de madeira, vai para seu quarto e responde de lá — Depende, mas se você dizer isso olhando nos olhos de alguém e com seriedade, é como dizer "te amo".

— QUE?! — digo surpreso, com a voz me saindo completamente aguda.

Cris volta à sala com caretas ao passar o pente por uma seção lateral de seu cabelo inodado — Que foi, garoto?

São 22:00 e a Cristina segue se arrumando, calçando a sandália, vestindo a saia, tirando tudo e tentando outro look. Na cozinha, aviso que prepararei porção para três e, do seu quarto, a garota da pele clara diz que não ficará para a janta. São 22:20 e o interfone toca e peço para a Xey entrar até o apartamento 330. Refogo a cebola, mesclo-a com o molho de tomate caseiro, uma pitada de açúcar e pimenta para aquele toque particular. Monto três pratos fundos com espaguete cozido junto de um dente de alho, tão ínfimo que não atrapalhará o agridoce do molho vermelho “a la Lammel”. Despejo sem muito método o espesso molho de tomate sobre os grossos fios da massa que passa a aromatizar a casa; e ornamento o espaguete de cada prato com duas folhinhas de alecrim desidratado que encontrei pelos armários. Torço para que o ambiente seja agradável, que elas não discutam e que finjam não sentir falta do queijo ralado que não temos. Um chileno Cocha Y Toro Blanco à mesa seria esplêndido, mas estejamos contentes que há gelo, laranjas graúdas e rum local já aberto na cantoneira da cozinha. A arte do improviso. Eu rio.

Campainha toca dois minutos depois. Antes de terminar de lavar as mãos e abrir a porta, a Cristina se adianta e, aparentemente pronta para sair, recebe a Xey. Me aproximo por segurança, vai saber...

Por cima da Cris, vejo a Xey e seu 1,73 de altura visivelmente turbinado com um salto. A pobre Cris é um brinquedo perto dela.

"Uau", penso comigo.

De salto-alto, ela passa a minha altura, beira o 1,80. Alisou o cabelo, está enorme. Seus cílios, ainda mais arqueados e os olhos que fitam à garota que não atinge os 1,60 à sua frente, trazem esferas negras sem lápis, contudo tem algo de diferente ali. A boca que sorri moderado sob o batom delicado, faz o ciclista-mochileiro dizer “Uau” algumas vezes mais, notando não apenas a simpatia de menina da Xey, mas o sorriso de canto de boca que ela tem sempre com ela. Diante da paisa de pele-pecado, a Cristina — muito bonita, falemos a verdade — , devolve a simpatia com um breve “oi, entra” sem qualquer cumprimento de contato. Previsível. Ela gira nos calcanhares e retorna ao quarto. A Xey entra e cumprimenta-me com um “oi” surdo. Pisco para ela e volto à cozinha ao lado.

— Se sente — digo à Xey — , vamos comer! Cris, venha!

— Isto é pra ti — diz a recém chegada, estendendo o braço e me entregando uma sacola de papel.

— O que é isto? — espio dentro do pacote — Aeeeee! O que é?

A colombiana de Medellín gargalha com a reação do palhaço.

— A limonada de coco que você tanto gostou.

Cristina sai do quarto.

— Esse suco é uma delícia — comenta ela, abrindo a porta do apartamento — , é da costa que nem eu, mas de Cartagena!

— Cris, te servi. Vem — comento, unindo-me à Xey à mesa.

Cris e seu sarcasmo às 1:18 (Aldo Lammel, © Todos os direitos reservados)

A porta de latão do apartamento se fecha em um estampido metálico que reverbera no ambiente.

— Vai então Oferenda! — falo.

Xey arregala os olhos.

Peço licença, vou até o quarto e pelo menos visto um jeans, me sinto melhor mesmo que sem perfume para colocar. Na pressa de preparar a comida, não me arrumei. Comemos o espaguete, entretanto não estou seguro de que a Xey gostou. Nenhum só comentário. Deixamos a limonada de coco para depois, mas prepararemos juntos o suco de laranja com rum. Ela corta as laranjas e eu espremo as metades.

— Você já o procurou para dizer que ainda o ama?

Xey me olha com surpresa. Eu sorrio, tentando dizer que está tudo bem, que podemos falar do que ela quiser.

— Que?

— Sinto que você aqui comigo, mas parece distante as vezes — tento explicar meu raciocínio que foi baseado apenas em uma dedução aleatória que explicaria uma garota tão bonita, reservada e legal estar sentada na mesa de um boteco sem companhia no sábado a noite como a conheci.

Ela me entrega outro par de metades de laranja.

— Eu tinha uma boa amiga no passado recente, mas a gente — ela pensa por algum tempo, mirando minhas mãos espremendo as laranjas — … Já se sentiu como sendo alguém realmente desinteressante ou vazio? Não falo sobre aquele momento de baixo astral, falo de você olhar pra tudo e ver que não há nada de especial em você. Já sentiu isso?

Não respondo, não a olho. Me restrinjo a seguir espremendo a última das oito laranjas que temos e deixá-la falar livremente.

— Repare em ti mesmo, cheio de vida, agradável, histórias — comenta ela. A profundidade da melancolia que sobe à superfície, faz a Xey argumentar com dinamismo como ainda não havia a visto fazer —… É difícil me imaginar entediada quando contigo.

Despejo o Rum Blanco Medellín sobre um litro de suco de laranja com açúcar que temos. Sirvo a bebida em dois copos normais com bastante gelo. Conduzo a Xey até a sala. Nos sentamos de lado no sofá, dou play no rádio com a minha pendrive conectada a ele e ficamos um de frente para o outro.

— Se importa de mudar de música? — pede ela — Queria algo mais forte…

Passo umas cinco canções com o controle remoto. Tomo um pouco do suco alcoolizado e deixo minha atenção com a garota diante de mim no sofá.

Música que tocou ("Would" do Alice in Chains, via Youtube)

— Acho que sou muito_ _ _

— Xey, pára!

O olhar tristonho da garota sobe e fita-me.

— Escuta! Quanto te vi naquele boteco três ou quatro dias atrás, pensei “Que moça atraente” e eu… Não, mentindo, o que eu disse para mim foi “Que mulher gostosa” — vejo ela esboçar um quase sorriso no sofá, sem ainda ter tocado na bebida, mas olhando fixamente o copo agora. Eu continuo — e foi assim até a manhã seguinte lá em Jardín. Levantamos, você pegou sua câmera e, mesmo chuviscando, tu quiseste sair para fotografar. Te acompanhei me perguntando o que tanto tu achavas que havia para clicar com aquele tempo. Bem, eu fui contigo pras ruas…

Sinto a atenção dos ouvidos da garota no que falo a medida as luzinhas da árvore de natal da Cristina se sobressaem no escuro da sala, deixando o ambiente em tons amarelados e avermelhados.

— Você começou a falar de obturador e tempo de exposição da tua câmera analógica e mais um monte de coisas que eu não entendo no mesmo nível que você. Eu escutava aquele clique da câmera, você girando a manivela para colocar um novo filme e você a apontava pra mim e disparava outra vez. Eu pensava “que desperdício de filme”, mas tu sorrias e o que eu via era teu aparelho bucal sorrindo. Você pedindo licença para aquele senhorzinho para fotografar o interior da sua casa tomada de flores. Me chamou a atenção a tua espontaneidade naquela hora… A tua educação, mas ao mesmo tempo a tua atitude de pedir algo que as pessoas não pedem por vergonha, receios de receber um não. Desde a primeira conversa que tivemos, você faz umas pausas de silêncio prolongadas e, de repente, tuas risadas explodem e desfazem qualquer insegurança que eu poderia sentir, achando que o silêncio é como se fosse de puro desinteresse. Essas coisas contrastam contigo. Tu tens os teus demônios que te maltratam, é assim com todo mundo… Mas ao mesmo tempo o que te perturba, te faz se questionar sobre o que tu vens fazendo da tua vida. Se questionar é sempre bom, principalmente quando a gente passa a se entender. Eu ainda tento não me punir tanto quando falho, não ser tão eufórico ou egocêntrico quando acerto. Querendo ou não, o que realmente somos não é aquilo o que achamos que somos, mas o que as pessoas a nossa volta percebem de você por mais que isso seja muitas vezes frustrantes. Eu não conheço o teu passado, você não conhece o meu, mas tu tens de concordar comigo que, se estamos aqui sentados juntos, é porque de alguma forma cada escolha que fizemos, boa ou má, nos trouxe aqui — Eu rio fitando as mãos estáticas da Xey segurando seu copo —. O ponto é que vejo autenticidade em ti e isto não se sobrepõe a atração física que tenho claramente por ti. Teu cabelo longo, tua boca carnuda. Esse formato dos teus olhos. O que você arranca de mim toda vez que estamos juntos? Eu sempre sorrio, Xey; quero pegar na mão da guria que estou conhecendo e que em um par de dias vou ter que dizer adeus. Consegue ver o reflexo das coisas boas que saem de ti e esbarram em mim? Isto é você realmente, por mais que tu tenhas tuas questões internas.

Xey não toca na bebida, deixa o copo no chão ao lado, joga sua perna esquerda por cima do meu colo, se reposiciona sentando sobre minhas pernas e pega com vontade meu maxilar com suas duas mãos. Nos beijamos devagar e com pressão. A abertura das bocas aumenta, há mais língua e menos ar; cada peça de roupa nos abandona, ela ergue os braços e eu puxo sua blusa para o alto. A colombiana ajuda-me com minha camiseta de manga cumprida. A pego pelo pescoço com minha mão esquerda conforme sinto sua cintura com a outra, trago a garota para perto de meu rosto e a beijo outra vez. Ela expira com um gemido curto, fazendo-a desfazer o beijo mais uma vez, levantar-se, tirar sua calça e desabotoar a minha, puxando-a para baixo. Tiramos as peças interiores e voltamos à mesma posição embora, contudo agora selados, unidos. No sofá negro de couro sintético, quero comê-la muito mais do que desejei em nossa primeira noite, um tipo de raiva gostosa faz com que minhas mãos não tenham pena e meus dedos prendem-se as suas coxas o bastante para ali nascerem hematomas em um próximo dia, carinho igual ao que me faz enrolar seu cabelo liso na mão e, com a outra, pegar seu macio seio e enchê-lo da malícia que transborda da minha boca. O chupo e o mordo. Há umidade do corpo da colombiana pelo meio de suas costas, por entre suas pernas e sobre meus lábios que ela passa a mordiscar além do limite prazer e dor. Dor! Não, prazer! Já não sei… A chamo de "cachorra" e ela, me retribuindo o favor, murmura “Mi perro” com prazer trêmulo na voz. No escuro, todo o lado direito do corpo dela vem à luz, completamente desvestido, contornado pelo vermelho das lâmpadas natalinas que piscam em um ritmo mais rápido que nós e mesmo que não sejamos luzes, somos mais intensos, porém não somos nada além de sombras que oscilam devagar a noite, nas superfícies da sala, silhuetas que ardem com alguma paixão da mistura de fôlego, álcool e fogo. Se passam alguns ciclos completos do relógio. Cansados e sem banho, dormimos.

Duas horas depois, 5:30 de sábado.

— O QUE TE FAZ CRER QUE PODE TRAZER ELA AQUI? — grita Cristina, às risadas e com cheiro considerável de aguardiente.

Dou um salto na cama, meu corpo cobre o da Xey instintivamente. O brilho da luz vinda da sala invade o quarto pela porta recém aberta e ofusca minha visão. Reconheço a Cris pela voz um tanto elástica, uma silhueta feminina ao lado da cama de solteiro. Me incomoda a ideia de ela ter algo apontado pra gente.

— SAI E FECHA A PORTA, GAROTA! — mando, fazendo Xey se assustar ainda mais.

— Não! — enfrenta-me a garota de pijama e fedendo a destilados.

De forma ríspida, digo à Cris—Sai fora, tu bêbada!

Cristina gargalha cambaleante, sentando sobre minhas pernas na cama. Xey imediatamente ao meu lado, não se move. Está perplexa, seu semblante tem um sorriso de incredulidade no canto da boca.

— Vocês perderam uma fest_ _ _ — a dona da casa, soluça, tentando outra vez — uma festa muito boa.

— É mesmo, Cris? — a questiono com alguma paciência debochada, porém não durará muito — Sai do quarto, ? Eu te ajudo.

Saio debaixo da colcha que tapa a Xey e eu, me levanto e conduzo a garota de pijama para fora do ambiente. Fecho a porta, contudo a Cris segue rindo lá do outro lado, ligando o rádio em um volume inapropriado para o horário. Me volto pra Xey.

— Ela muito mal, ? — pergunta a minha companhia, tentando aconchegar-se novamente no canto da cama assim que me uno à ela.

A porta abre repentinamente com uma gargalhada espalhafatosa e frases desconexas sendo ditas.

— Abre a boca — a voz da Cristina totalmente chapada sai elástica, se aproximando às gargalhadas como um vulto para cima da gente — Toma!

Ela despeja um copo de rum em mim. Pelo susto de ver uma pesada peça de vidro acima da minha cabeça, tentei segurar sua mão e mantive os olhos aberto na reação, fazendo a bebida com 50% de álcool cair diretamente em meus olhos. Com minha vista fechada em ardor, pego a Cris pelo braço outra vez e a levo para fora do quarto de novo usando meu tato pelo ambiente e sem falar uma só palavra. Tranco a porta.

— Aldo! — diz Xey perplexa, ficando de joelhos sobre a cama e me ajudando a sentar.

Me concentro na ardência, pressiono os olhos com meus dedos por reflexo, Xey puxa a colcha e a me entrega para enxugar o rosto e tentar aliviar a sensação de queimação na parte interna das pálpebras, principalmente nos canais lagrimais que, com o contato com o álcool, produzem lágrimas e ao fazer isto se dilatam e causam ainda mais queimação.

— Que garota filha da_ _ _! — exclamo, mas me censuro.

Tranquilo, mi corazon — me acolhe Xey — , vamos ao banheiro para lavar teu rosto.

Salto-alto, pernas cruzadas. O longo cabelo liso e negro amarrando-se com uma única mecha em coque, revelou brincos de pérola e fones de ouvido branco, ambos em contraste com o tom de pele da colombiana. Em mãos, ela lia Uma Nova História do Tempo, abrindo seus olhos à realidade que sempre encontra uma forma de superar a ficção; realidade num mundo que para ela vinha sendo caótico demais depois de uma escolha feita. Quem sabe nas páginas do livro de capa puída foi onde ela encontrou sabedoria, palavras que provavam por "a" mais "b" que é no queimar intenso de uma estrela que a maior de todas as explosões é criada, esmagando tudo a sua volta, desconsiderando os mundos e histórias que se perderão ao redor.

"Supernova", ela leu, continuando, "uma explosão equivalente ao brilho de 10 bilhões de sóis". Na dança dos elementos em uma escala difícil para a garota imaginar com o barulho do metrô, ela se entregou a leitura. "(…) e na explosão da estrela é onde novas vidas têm oportunidade de surgir, crescer e reinar, assim como aconteceu conosco bilhões de anos atrás". A voz de sua consciência, aos poucos liga os pontos e sussurrava à si de que, no caos criado de uma paixão proibida, uma nova história tem a chance de ganhar vida. O metrô lhe levava ao outro lado da cidade, contudo o tempo parecia parado para a garota que ao mesmo momento que lia, perguntava-se se o preço de perder sua única longa amizade tinha realmente valido a pena.

Dourado e com pedras brilhantes, seu celular tocou e a assustou, tirando-a da riqueza dos parágrafos de Hawking. No display do iPhone, um nome à chamava: “Silmara”.

— Oi — sua voz atendeu com pesar.

A garota ouvia a voz do outro lado da linha.

— Claro, com ela aqui — ela respondeu olhando para sua bolsa ao banco do metrô.

Mais um momento de atenção à voz do outro lado.

— Não — respondeu a garota dentro do vagão vazio de domingo, arqueando as sobrancelhas e coçando uma delas enquanto pensava na resposta — , é que a deixei na bolsa porque eu tinha de te devolver o quanto antes.

Ela fez silêncio conforme a voz de Silmara chegava até ela. A garota do cabelo negro e pele queimada do sol, fita seu relógio no pulso esquerdo.

, claro, no metrô e pertinho de lá... Te vejo no Jardim Botânico então.

Ela desligou o celular, guardou o livro na bolsa e se preparou para descer algumas estações antes do destino planejado para o domingo a tarde, domingo dela e de um cara, mas que naquele momento teria de esperar.

Quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

— FORÇA, parceiro, vai!

É mordaz, mas à medida que me preparava pra sair da casa da Cris logo depois do incidente com o rum, ela se adiantara e me pediu para arrumar minhas coisas e partir na manhã seguinte. Já não falávamos, o clima estava pesado e de todas as atitudes esdrúxulas que ela tomara, ela me mandar embora de sua casa foi uma das poucas coisas sensatas que vi dela. Uma hora depois do pedido dela, eu já havia partido.

— Vai, parceiro, levanta isso, caralho! — repete o rapaz sem camisa abaixo das sombras das árvores.

Uso toda a força que tenho e meus olhos, antes abertos, agora são ofuscados pelo Sol das 17:30 brilhando na minha cara.

Assim que me vi pelas ruas, a primeira coisa que eu deveria fazer seria encontrar internet e me comunicar com os meus contatos dentro de Medellín e garantir um lugar para dormir e trabalhar no meu freelance pelos próximos dias. Não o fiz, não naquela hora. Empurrei a bicicleta com todos meus pertences nos alforges vermelhos até a moderna Plaza del Planetário onde está a Estação Universidade do metrô. Um lugar aberto, amplo, de pouco verde, muito concreto e pedra, com um cheirinho de café distante. Com as moedas que tinha no bolso, comprei uma arepa, sentei-me em um dos bancos bem cuidados do lugar e joguei minha atenção nos estudantes caminhando de um lado para o outro com seus cadernos da faculdade. Mastigando devagar o pastel de milho moído em formato de disco e com um ovo inteiro igualmente frito em seu interior, observei as pessoas a volta. O gosto do queijo ralado na boca se misturava ao meu olhar que contemplava um grupo de jovens brincando com seus cães pela praça. Ali, me imaginei em casa, descansando pelo menos um dia de toda essa imprevisibilidade de acontecimentos.

— Quinze! Boa, guerreiro! — diz o homem assim que solto a barra.

Me levanto do supino-reto, esgotado. A dor aguda da pressão na cabeça me vem, mas logo vai, meu corpo já não é o mesmo do Brasil, perdi muita massa magra por estar pedalando pelo mundo sem treinamento muscular e alimentação proteica adequada. Nada me aborrece tanto na minha viagem quanto eu me lembrar do meu corpo de antes, para o corpo de agora — Puta que o pariu, foi tudo fora — , mas é justo, porém não aceito, tentando sempre que vejo uma oportunidade me entregar a calistenia de rua.

Agradeço ao rapaz pelas palavras de incentivo e por estar me emprestando a internet do seu celular, mas antes de partir, peço por mais alguns minutos de sua internet. Me escoro em uma das árvores e dou atenção a uma mensagem.

Xey Medellín diz: Que tá fazendo?
Aldo diz: Oi, oi. 
Aldo diz: Treinando naquela academia ao ar livre que te contei.
Xey Medellín diz: Hmmm… A do lado do estádio?
Aldo diz: É. E vc? Tá no escritório ainda ou já saiu? Se vc quiser, a gente pode andar de bike ou se sentar por ai, conversar, tomar um limonada de coco. Eu quero!!!
Xey Medellín diz: Eu tb! Mas vou chegar morta, tô indo pra uma obra agora pegar uma assinatura e depois tem toda a viagem de volta pra casa, dá o maior desânimo.

Tiro os olhos do celular, respiro fundo com alguma impaciência. Limpo o suor do rosto com as mangas compridas da camiseta verde-musgo que ganhei do meu novo Couchsurfing. Sei que a Xey tem razão, ela trabalha lá na puta que pariu e todos os dias tem de encara três horas de ônibus e metrô, entretanto já estamos na segunda semana onde mal nos vemos. A última vez que a vi foi domingo passado quando andamos de bicicleta pelas avenidas noturnas da cidade e trocamos alguns beijos, nada além. Durante os dias de semana, a garota me envia mensagens ao longo da manhã e da tarde, todos os dias, perguntando se estou bem, o que eu gostaria de conhecer na cidade, quais são meus planos depois da Colômbia, coisas que te sinalizam de que ela quer um canal de comunicação aberto contigo; todavia, assim que ela sai do escritório na cidade vizinha, a Xey das mensagens ao longo do dia, desaparece, retornando apenas na manhã seguinte. A lógica me diz que ela está em casa dormindo ou com preguiça para qualquer coisa, até porque quem acorda todos os dias às 5:00 e enfrenta três horas de trânsito para chegar em casa às 19:00 adoraria poder dormir cedo assim como nos quase dois dias que ficamos juntos 24 horas em Jardín, em nenhum momento ela tirou o celular dela da mochila, o deixando desligado. Entretanto tem uma parte obscura dentro de mim que sussurra que ela tem outras aventuras, onde eu não passo de uma secundária. Mas e daí? Eu estou só de passagem. A mecânica da Xey é a única em muitos anos que faz eu me sentir inseguro e quando isto acontece, eu começo a me afastar e não a fazer perguntas como é de praxe.

Eu me empenho sem dramas, movo minhas próprias montanhas e dou um jeito de conseguir e fazer o verbo "querer" ter sentindo para mim. Se vou chegar moído do escritório, tomo um café preto, uma ducha, aumento o volume da música, tanto faz, vou trabalhar em busca do resultado do jeito que dá. Certa noite minha ex disse que havia chegado em seu apartamento depois de dias sem nos ver. Eu estava saindo da academia quando vi a mensagem dela; eu tinha puxado ferro por mais de uma hora e meia, mas eu não via a garota há dias. Tirei a mochila das costas e comecei a correr os cinco quilômetros entre a SmartFit Anita até o apartamento dela atrás do Shopping Iguatemi em Porto Alegre. Eram quase 23:00, bati na porta do apto com meu rosto vertendo água, mas eu estava lá para dormir com ela se ela quisesse. O sorriso dela surpresa por me ter lá era recompensador, sabendo que naquele horário eu já estava esgotado dos projetos digitais do escritório e da academia que ficava a uma quadra do meu apartamento. Mas este é o Aldo e não a Xey. Serei ingênuo querendo que a garota paisa se comporte desse jeito tão… pessoal para mim. Enfim. Eu só quero vê-la, fazer amor, conversar, andar um pouco de bicicleta pela noite na companhia dela enquanto ela me conta a história de cada bairro, de cada monumento, de cada festa local. Quero usá-la não apenas para descobrir Medellín a um nível que nenhum dinheiro poderia pagar, quero tê-la para tapar um vão permanente que minha viagem tem: a de eu estar sozinho.

Aldo diz: Descansa então, minha flor. A gente se vê quando você puder :)
Xey Medellín diz: Tá.
Xey Medellín diz: E como está sendo na casa do seu novo Couchsurfing?
Aldo diz: O Johnny é sensacional. Ele é ciclista tb e trabalha com tecnologia assim como eu lá no Brasil. É daquelas pessoas engraçadas sem fazer nada, super empreendedor e positivo. Aliás, vou nessa pq preciso pedalar, vício, jejejeje, bj minha flor.
Xey Medellín diz: Que legal, gato :( queria pedalar junto. Mas vai lá, besos besos :*

Vejo a última mensagem e fecho o chat. Começo a caminhar de volta para meu novo endereço. Pensamentos mesquinhos me vem à cabeça, como um "não há interesse real por parte dela", coisas vazias assim. Recordo que sou só um mochileiro de passagem e nada mais. "Se ela não sente a pressão da minha iminente partida, não sou eu quem irá choramingar para lembrá-la. Eu tô só de passagem e não estou aqui para construir nada. Sem dramas, Aldo", eu me digo.

— Dasha! — falo ao cruzar a porta do apartamento, coçando as costas da labrador do Johnny que sempre salta no meu peito quando entro em casa.

Sentado no sofá diante da TV e com o laptop no colo, meu anfitrião de 28 anos, porte magro, mesma altura que eu, cabeleira negra e de roupa social que dedura que ele chegou há pouco do escritório, me fala — Seu amigo Luke ligou para o nosso telefone fixo, te procurando!

Esqueci totalmente que eu havia combinado de tomar um chopp com o Luke hoje.

Bah, esqueci dele — admito ao Johnny, empurrando a Dasha para o lado, terminando a brincadeira. Ponho a mão no bolso para pegar o celular e falar com o Luke, mas retiro do bolso um de meus cartões de visita, um com uma anotação atrás. "Liliane" e seu número de telefone. É aquela garota que a Cristina insistiu que eu fiquei quando estive em Medellín em dezembro passado. Jogo o bilhete no sofá onde o Johnny está sentado, voltando minha atenção ao rapaz de cabelo grande que parece um capacete de lambreta preto — . Ele num hostel lá no bairro Poblado

— Tá afim de pedalar agora a noite? — pergunta meu anfitrião, desviando sua atenção de mim para duas bikes de corrida penduradas na parede da sala.

O som da corrente girando pela coroa e pinha me instiga. No plano central de Medellín, o Johnny e eu cortamos os carros que transitam na movimentada cidade na noite de quinta-feira. Turistas por todos os lados, mochileiros pelas calçadas com suas enormes bagagens. O semáforo fica verde, os caros começam a arrancar, contudo eu e meu parceiro estamos com bicicletas de corrida que já vem embaladas, passamos raspando pelos retrovisores e nos mantemos por um bom tempo beirando os 70 por hora na frente dos automóveis. Johnny tem muita prática com bicicletas de velocidade, eu já não, sinto as minhas coxas queimarem em desgaste pela alta cadência das pedaladas incessantes, embora a endorfina correndo no meu sangue é a única coisa que me faz sentir-me aliviado nas últimas horas de insegurança.

— EIIIIIIII! — grita Johnny quando um carro lhe fecha em uma esquina.

Eu não tenho tempo de desviar e choco suavemente contra a lateral da nova Toyota Hilux 2016 preta. Ainda sobre a bicicleta, meu corpo desliza pela lateral do veículo, evitando que o guidão ou qualquer outra parte da bike arranhasse a carroceria do automóvel. Na última gota de tempo, consigo jogar meu ombro para trás e não arrancar o retrovisor da Hilux.

— CUIDADO, PÔ! — grito olhando por cima dos ombros, vendo a motorista de meia-idade completamente assustada e imóvel dentro da caminhonete.

Johnny e eu voltamos a emparelhar rumo a praça mais turística da cidade, o Plaza Lleras.

Nos erguemos nas bicicletas e começamos a pedalar ainda mais forte para vencer uma leve subida e iniciarmos a descida logo em seguida. De repente, de abrupto, um Volkswagen Gol prata nos ultrapassa e faz um movimento que bateria na bicicleta do Johnny se ele não estivesse atento, quase o fazendo cair por cima de mim. O carro tenta fugir, contudo é impedido por um dos semáforos da avenida que dá acesso a Autopista Sur.

Na falsa fisionomia tranquila e sua voz mansa, Johnny é um típico colombiano: educado, amável, até que o perturbem. No caso, quando ele está sobre uma bicicleta é exatamente como eu: MadMax porra loka.

— Abre esse vidro que eu quero falar com você! — diz Johnny ao jovem motorista de porte atlético.

Chego logo no outro lado do Volkswagen e toco o vidro do passageiro como se estivesse pedindo para entrar. O motorista está sozinho e nesta altura do campeonato sabe que ter "brincado" de jogar o carro na direção de ciclistas não parece ter sido uma boa ideia.

Eu tento as duas maçanetas da direita, mas as portas estão trancadas.

La puta madre, parceiro — fala Johnny com uma calma mórbida na garganta, quase encostando a boca no vidro do automóvel. Ele completa olhando para o motorista — , tu eres loco?

Vai te foder, ciclista de MIERDA — grita o rapaz ao volante do Gol, ameaçando arrancar o carro ainda no sinal vermelho—! Avenida não é lugar para ciclista, vagabundo!

— TOMA NESSE TEU CU, O FOLGADO. Essa porra não tem ciclovia, não! — eu altero a voz, irritado com a prepotência do condutor do Gol.

Os outros motoristas parados a nossa volta, não se manifestam, embora as pessoas pela calçada diante de bares começam a assobiar.

EN LA CONCHA DE TU MADRE, MARICA! — o condutor do Volkswagen diz me mirando na cara, arrancando o carro no segundo em que o sinal fica verde, desaparecendo na avenida.

— HAGALÉ PUES, MEU CAMARADA! — vocifero no meio da avenida, me fazendo recordar das semanas cruzando o Perú, país que tem o trânsito mais irritante que já experimentei.

Johnny sobe da bicicleta com alguma irritação, porém ao nos olharmos, um sorriso de testosterona nasce. Nós rimos. O meu anfitrião e eu, com a adrenalina fluindo no sangue, pedalamos por algumas poucas quadras. "Acho que é aqui o hostel do Luke", penso.

— Oi — cumprimento a recepcionista — tem rapaz chamado Luke Stevenson hospedado aqui? Ele parece a versão loira-pobre do Jack Sparrow.

— Um bonitão?

Johnny me dá aquela olhada de "ok".

— É, é esse mesmo — respondo a garota que parece se divertir comigo.

Amiiiiiiiiiiiiiiiigoo!— diz uma voz genuinamente estadunidense atrás de nós, uma voz que pronuncia a palavra mágica, a palavra dita no formato que prova que essa voz já esteve em Montañita, no Equador, fazendo festa comigo.

Dou uma gargalhada justificada unicamente pela felicidade de rever o amigo; vou até ele que está descendo as escadas que dá acesso ao bar da hospedaria e nos cumprimentamos.

— Se vou ficar te encontrando em cada cidade do mundo que vou — nos abraçamos lateralmente — , tá na hora de assumirmos essa relação para o público, ?!

Rimos e eu apresento o Johnny a ele.

No terraço do hostel assistindo o movimento incessante de pessoas entre os parques El Poblado e Lleras. Por conta do Luke, estamos tomando uma Paisa Roja, cerveja local, rudimentar, de sabor realmente amargo e lupulado, porém firme e constante no paladar.

— E porque vocês não vão conhecer a cidade juntos nos próximos dias? — sugere Johnny.

— Se você não fez ainda e quiser — Luke dirige-se à mim — , podemos visitar os pontos do tour do Pablo Escobar amanhã.

Velho!— exclamo fitando o norte-americano — Tu sabe que não posso gastar dinh_ _ _

— Não, meu— ele atalha — , os endereços de cada lugar têm na internet. A gente só precisa visitar cada ponto por nossa conta. Não precisamos pagar ninguém não, mas nós vamos caminhar muito.

Olho para Johnny que assente com a cabeça, confirmando o que o rapaz com cara de pirata surfista acabou de dizer.

No dia seguinte, sexta-feira.

Xey Medellín diz: Hola guapo, que está fazendo?

— Que cara é essa? — questiona Luke enquanto subimos as escadarias laterais do cemitério Montesacro ao sul da cidade.

Aldo diz: Minha princesa! :D :D Tô aqui com o Luke, aquele meu amigo que tá na cidade também.

Ah, cabeludo, sei lá. Conheci uma garota mas a moça é muito devagar as vezes…

Luke ri de cabeça baixa, olhando para o gramado onde caminhamos. Por um instante, ele nos orienta pelo cemitério — O túmulo é por ali.

— Que foi essa risadinha? — pergunto tripudiando.

— Lembra da Samira? — Luke pergunta ainda rindo. Ele detalha — Lá de Montañita e depois em Cartagena com a gente?

— A suíça? Claro, tu tá sempre com ela.

— Eu tô amarradão nela, cara — Luke esmorece — . Terminou as férias dela e agora já está de volta em Zurique. Acho que vou comprar uma passagem pra Suíça, não sei…

Está aí algo que eu não me vejo fazendo: abandonando o plano de viagem para apostar em uma paixão de viagem, paixão que nasce no contexto da viagem, da brevidade da relação, do diferente, do estrangeirismo, etc, e quando não se tem mais isto, cai no comum. Mas também tenho que entender que o Luke não tem um projeto, ele mesmo me disse quando ainda estávamos em Montañita que não tinha dia para voltar para casa, bem diferente de mim, com muitos planos para meu retorno ao Brasil em 2018.

— E tu tem essa grana pra ir até a Europa vê-la?

— Não… Vou ter de parar o mochilão e voltar pra Indianapolis pra fazer dinheiro.

O estadunidense do estado de Indiana pára diante de uma marcação retangular de dois metros por três feita em brita junto de uma larga lápide negra horizontal um pouco acima do chão. Aqui está o nome que buscávamos.

Holy shit, dude! — surpreende-se Luke, deixando seu idioma nativo assumir — Here’s our guy!

Me aproximo igualmente empolgado — Pior que é o cara mesmo.

Antes de ingressar na Colômbia, eu já vinha acompanhando a série Narcos, protagonizada pelo talentoso Wagner Moura, mas eu quis deixar para assistir os episódios finais da série assim que chegasse na Colômbia, assim que pisasse em Medellín. "Estou assistindo a história do Pablo Escobar não apenas em seu país, mas na sua cidade, lugar onde ele tocou o terror na década de 80", recordara eu muitas vezes.

Diante dos nossos olhos, aqui com os pés na brita e sentado sobre o mármore negro, Luke e eu notamos o pó branco salpicado sobre a lápide de Escobar. Molhando a ponta do dedo, toco um fragmento branco não maior do que a cabeça de um alfinete, o levando até a ponta da língua e sinto sua acidez instantânea amortecer a delicada pele. Antes que eu diga algo, o pirata ao meu lado diz com empolgação na voz: "É!"

Eu diante do túmulo de Pablo Escobar — jan/2016 (Aldo Lammel/ Luke Stevenson, CC BY-NC)

Depois do túmulo, fomos no simbólico edifício Monaco aonde o maior narcotraficante da história comandou seu cartel. Até tento escalar o muro, contudo o Luke sinaliza que há alguém dentro da guarita do Monaco. O governo colombiano até tentou tornar o prédio a cede da lei na cidade, mas parece que não deu certo e hoje o edifício de oito andares não passa de um fantasma dos anos onde Medellín foi a capital da cocaína no mundo, totalmente diferente da moderna, segura e divertidíssima cidade que ela é hoje.

— Tu gostando dela, ? — pergunta Luke.

— De Medellín?

Não — responde ele — , falando dessa garota que tá te fazendo olhar para o celular todo o tempo.

O Luke tem razão quando falou isto lá no Monaco. Agora, cruzamos de sul a norte da cidade e paremos na casa onde Pablo Escobar foi morto e ao invés de minha cabeça estar 100% aqui, volta e meia lembro que a Xey mora a 500 metros deste endereço, também no bairro El Velódromo.

gostando dela e não sei porque…

Luke dá uma risadinha duvidosa e provoca — Porque ela na verdade é um shemale com um pênis gigante e você é biba. Eu já sabia!

"As vezes eu me arrependo de ensinar certo vocabulário do português brasileiro ao Luke que já o fala fluente", comento para mim mesmo, quieto.

— As vezes eu me acho egoísta demais, cara, e por isso eu_ _ _

— Não diga isso — me corta Luke com semblante severo, embora que, aos poucos, dilui-se a um sorriso maroto. Ele diz ainda — Egoísta é uma palavra muito forte. Você é só biba.

Eu rio mirando a calçada abaixo da gente, deixando o Luke fazer suas fotografias em paz. Quem sabe é melhor eu não verbalizar nada e me limitar a rir das nossas brincadeiras conforme conhecemos a outra faceta destas ruas a nossa volta.

Eu em Medellín, parte 1 (Aldo Lammel)

— Ainda nos vemos?

— Acho que não, meu voo de volta aos Estados Unidos é amanhã.

— Então boa sorte nos teus planos, meu caro.

— Fazer dinheiro e ir atrás da Samira — Luke ri assim que faz o comentário. — Tenho que vender algumas coisas e_ _ _

O estou encarando. A boca dele abre e fecha, me contando algo que nem estou ouvindo porque não é isto que me tem a atenção, mas sim sua fisionomia, suas expressões, seus modos. Despedidas... Abraço meu amigo, sinto que dessa vez levará mais tempo, muito tempo para nos vermos outra vez. Enfim. Desfazemos o abraço que é breve, um "Até logo" eu falo e ele me devolve um "Take care, man". A última vez que vi o Luke, eu estava tirando o cadeado da Garibaldi e ele entrando hostel adentro.

“Been On” do G-Eazy (via Youtube)

Eu não estou bem. Hoje é aquele dia que estou com saudade, saudade do Tiago, Gustavo e Adriano lá no Brasil. Hoje é o dia em que não me entendo; estou no lugar onde sinto que poderia ser minha cidade no mundo, em uma casa onde tenho tudo. As coisas não fazem sentido hoje. Deitado no saco de dormir no chão da sala do Johnny, em mãos, miro pensativo o celular, encarando o teclado numérico. São 21:40 de sexta-feira e nenhuma mensagem relevante pisca nas notificações do telefone, nem mesmo cogito caminhar pela noite sozinho para paquerar ou só caminhar como gosto de fazer. Quando digo que não estou me reconhecendo, talvez é porque tenho coisas de mais na cabeça. A saída da Colômbia está me maltratando, este país é demais. Lá em Cartagena eu acordava todos os dias pensando "Volta para Medellín, Aldo. Não sai da Colombia ainda" e a fronteira marítima ali, a um palmo de mim. Segui minha intuição e eu não poderia estar mais certo: conheci a Xey. Contudo sinto que não a tenho, mesmo que só por estes dias. É a primeira vez que sinto que uma mulher que está comigo não esteja adorando tudo isso. Será que é por este detalhe que eu me tenho tão ligado a Xey? Não sei, não creio que sou do tipo que gosta de alguém por ter sido difícil a aproximação, até porque, como já te disse, quando me sinto inseguro, eu me afasto. Mas e se eu estivesse não sentindo-me inseguro e sim apenas desafiado? Eu não me reconheço ao fazer disto uma preocupação, porém a falta de uma notificação específica em meu celular, me maltrata. "Tá fazendo drama, tu não é assim…" Dou atenção ao meu cartão pessoal amaçado sobre o sofá ao lado, estico o braço, o alcanço e começo a digitar o número que está anotado à caneta no seu verso. Não sinto nenhum remorso, apenas digito a merda dos números e a primeira mensagem que deixo para o novo contato é "Não tenho tempo para te conquistar. Se tu queres sair comigo, tem de ser agora! É agora ou nunca!"

São 2:00 da madrugada de sábado e estou na rua.

— Vamos até a esquina da Calle 65 com a Carrera 56, por favor — digo ao taxista.

Os reflexos das luzes de Medellín a noite correm distorcidas no pára-brisa do carro. Em nenhuma hipótese eu deveria estar gastando o dinheiro que ganhei com o adiantamento do freelance, entretanto já não sou mais eu quem me comanda aqui. O Aldo da lógica está dormindo e quem assumiu foi o Aldo egoísta ou inseguro ou na "competição", você define. Eu sigo fixo nas luzes de Medellín correndo pelo meu rosto atrás do vidro. Pedalei e caminhei tanto pela cidade que não é de admirar que eu já tenha passado por estas ruas; o estranho é o taxi estar desacelerando em uma esquina demasiadamente familiar.

A troca de mensagens — Jan/2016 (Aldo Lammel, © Todos os direitos reservados)

— É aqui? — questiono inexoravelmente surpreendido.

— Exatamente, senhor: Calle 65 com a Carrera 56.

Estou de queixo caído. Pago a corrida equivalente a 12 reais, o taxi vai embora e eu fico de frente para a guarita. O segurança da portaria me reconhece e levanta a mão em cumprimento.

"Em uma cidade de mais de dois milhões de habitantes, marquei um encontro com uma garota que mora no mesmo condomínio que a louca da Cristina”, é tudo que minha voz interior diz ao mesmo tempo que entendo que lido com dezenas de endereços todos os dias que minha memória de curto prazo é hoje perigosamente mais seletiva do que o natural.

— Aldo — a Liliane fala saindo do condomínio, correndo para o meu lado da rua com cuidado para não tropeçar de salto-alto e, provavelmente, se certificar de que não vou pedir para entrar no bloco — , oi…

— Tudo bem, Liliane?

Tomamos outro táxi, saímos dali. Fomos para a rua mais famosa da cidade, a Calle 10, quase do lado do hostel do Luke. A garota atlética e de seios volumosos, usa a voz melosa com sotaque paisa para me contar sua relação com a Cristina. Pouco tenho interesse, nem a ouço quando toca no assunto, somente sei que sentamos em um bar que ela diz ser seu preferido. Com a Liliane sou diferente, eu não tenho qualquer vontade de compartilhar minha história, quem sou e o que quero pelos próximos cinco anos. A garota de 26 anos que me conheceu logo quando cheguei na cidade, está sorridente, animada, visivelmente sendo sexy. Tem uma beleza menos exótica, mais internacional, de linhas delicadas e pele branca como uma francesa. Emparelho do seu lado na mesa do bar, a interrompo e a beijo sem tanto cuidado por alguns segundos. Ainda nem fomos atendidos.

— Muito rápido, calma, calma! — diz ela com a voz manhosa sem reprovar totalmente o movimento do tabuleiro.

Estou sem paciência, começo a me comportar como um idiota não a tratando como fui educado a tratar meus convidados. Na realidade, já começou tudo errado. Menti para a garota, eu disse que na manhã seguinte eu estaria de partida, foi assim que a convenci de não sair com suas amigas hoje para estar aqui comigo. Não digo uma só palavra após a aproximação interrompida, mas invento um sorriso sem graça e a deixo falar e falar e falar e falar, até que ela mesma muda de assunto e dispara:

 — diz ela catatônica — , bem. afim de ir para outro lugar então?

Me vem um aperto, uma convicção de que não estou sendo justo com quem preciso ser. Volto à mim, dou um beijo na mão da Liliane, me levanto da mesa pedindo desculpas por tê-la feito sair de casa e vou embora certo de que é a primeira vez que interrompo um encontro dessa maneira. Volto para casa a pé.

Capítulo Três —É o que sinto

Sábado, início de tarde, 30 de janeiro de 2016.

A duas quadras do apartamento do Johnny, me encontro com a Xey na Plaza Restrepo, o pedacinho preferido dela na cidade, um lugar tomado de sombras, apartamentos residenciais e jovens sentados nos bancos e calçadas da Bulevard 53, tomando suas cervejas ou comendo algo na meia-dúzia de cafés bem frequentados nos finais de tarde. A moça e eu estamos no extremo sul da praça onde apenas os carros da movimentada avenida Colômbia nos fazem companhia. Quero privacidade, tenho planos de conversarmos, preciso alinhar com ela meus objetivos e pôr um ponto final seja para o bom, seja para o bom. Eu quero o bom, não há alternativa diferente disso.

— Se tu quer estar comigo enquanto eu estiver na cidade, tá na hora de você se mexer. Não farei mais convites pra ti se é para ter uma negativa por tabela porque tu tá cansada. Se tá cansada e quer me ver, te vira, dá teus pulos, mas não faz me sentir como um bobo pra lá e pra cá atrás de ti.

Oye — protesta a colombiana de olhos caramelos escuros que as vezes ficam escuros como olivas negras embebidas em óleo. Brilham como fogo. A Xey é dona de uma mirada séria, mas também frágil até quando brava — , porque está falando assim comigo? Aldo, eu trabalho. Eu tô sempre pensando em ti e me certificando que você esteja bem, gostando de estar aqui. Comigo…

Eu preciso de um tempo para destilar, nos conhecemos a pouco tempo, ao mesmo tempo que quero organizar essa bagunça, tenho de acertar que a gente não teve tempo para dominar a arte de voar juntos. É um processo que precisa de horas de voo e não manual de instrução. Ainda assim, o relógio me pressiona e faz minha reação emergencial assumir as coisas.

— Vem cá — puxo ela pela mão até o banco de madeira debaixo de uma das muitas árvores. Ponho sua bolsa e minha carteira ao nosso lado no banco, não me desculpo por recebê-la com alguma rispidez, porém amansando meu tom de voz e vestindo um semblante ameno, admito à ela—… Estou a muito tempo longe de casa e pra sair de um país que vem me acolhendo como nenhum outro.

Xey está cética, sua expressão ainda é severa e de desconfiança sobre meu comportamento.

Sentado ao lado dela no banco, viro minha cabeça para o outro lado, reparando nas pessoas passando pelas calçadas da praça. Sem aviso, conto o que venho sentindo. — Durante todos os dias que eu me preparei para viajar, me perguntei se eu ficaria sozinho, se eu me sentiria sozinho. Essa foi a maior pergunta que eu me fazia. Ao mesmo tempo, eu estava deixando a Laís para trás, simplesmente a mulher que eu amava… Mas eu me via com tanto vigor, com tantas novas vontades de aventura que me descartei de muita. Decisões egoístas mas que foram necessárias se eu quisesse de fato alcançar algo bacana e de longo prazo.

Sigo reparando no movimento do outro lado da rua, não sabendo se a Xey entregou sua atenção a tudo isso. Ainda assim prossigo.

— Durante a viagem eu conheci uma boliviana, receio que uma realmente bonita— digo dando uma risada sem graça — . Ela foi gentil, cuidou de mim por um tempo e eu senti algo bonito por ela. Foi uma história bonita, mas nada além disso… Caralho, ela pegou um avião até a Colômbia pra passar o ano novo comigo e minha cabeça nem em Cartagena estava mais…

Me calo por um novo momento. Tomo ar.

— Não importa quão bonita ou especial seja uma história, é como se nunca fosse boa o suficiente para eu sentir algo genuíno e duradouro por alguém. Algo que me fizesse perder a cabeça, querer brigar, mas no fundo sinto que tudo é estético, superficial, plástico. Só tive duas namoradas na vida e com as duas eu fiz o mesmo: elas me davam tudo e eu nada. Eu sou um ótimo amante, Xey. Sei exatamente o que te dar, como fazer e o que você gosta de ouvir. Mas eu não sou nada além do que isto em uma relação. Meu amor é superficial, é pela estética, pelo teu cabelo longo, teu corpo, o jeito que você faz o que quero. Pelo menos sempre foi assim; pelo menos eu sempre acreditei que era assim… Precisei cruzar oito países pra esbarrar na mulher que me faria pensar a respeito. Ainda assim não quero que você pense que eu mudaria meus planos de viagem, não vou deixar nada atrapalhar algo que levei tanto tempo para tirar do papel. Para o meu bem eu preciso seguir sendo egoísta, pelo menos por mais um tempo— respiro fundo de novo antes de continuar — . Tudo que quero de ti agora é que você me ajude a fazer isso valer a pena. Pouco me importa teus casos, só quero que quando tu digas "Aldo quero te ver" eu veja você e não mensagens no meu celular dizendo que tem de dormir. Nem que eu vá pular a tua janela e teu pai me tire a vassourada de lá, mas se tu estás disposta a dizer que quer algo, faça acontecer, não espere por mim, cara. Quero deixar a Colômbia sabendo que a mulher que eu estive não foi apenas a minha colombiana, mas a mulher que mais admirei em todo um continente. Me ajuda a deixar pra trás a ideia de que não posso me apaixonar de verdade nem que seja por alguns dias.

Xey começa a me contar sua história, não imaginei que fosse esse o caminho que ela tomaria. Sua voz é pensativa, um flerte entre o desdém e a melancolia, difícil de dizer quando é um ou outro. Suas palavras são quase inaudíveis e me faz querer ouvi-la por horas. A ouço. É assustadoramente semelhante com o que ela, Cristina e eu vivemos no apartamento na esquina da Calle 65 com a Carrera 56.

— Foi a quanto tempo isso?

— Há um ano — responde ela com firmeza — . No natal de 2014.

Esfrego as palmas das mãos em minhas pernas, dizendo — Terminei aquele trabalho para meu cliente…

Silêncio.

Hesito em pôr prazo, mas é necessário, não posso ficar mais tempo em Medellín e começar a gastar dinheiro. Então eu falo — Deixo Medellín em dois dias…

O silêncio permanece mais longo dessa vez. O farfalhar das folhas acima de nós se destacam mesclado-se com os outros sons da praça. As vezes uma risada distante ao fundo. As vezes apenas motor dos carros passando ao nosso lado.

— Fica um pouco mais comigo — murmura a morena conforme suas mãos se tocam entre seus joelhos.

Inflo os pulmões. Sorrio para mim. Esta frase simboliza algo forte e então enfrento o medo da rejeição e digo o que tanto quis desabafar com o supino-reto ontem, com o motorista que quase atropelou o Johnny ontem e comigo dentro do taxi na última madrugada que me fez nem perceber para qual endereço estava indo.

— Eu ainda não fui embora — giro a cabeça na direção da Xey, a enxergando depois de muitos minutos — e já estou com saudade de ti.

As sobrancelhas dela se arqueiam e um sorriso largo risca em seu rosto. Ela nada diz. O rosto da Xey transforma-se e o sorriso perde força. Ela se torna outra vez meditativa, moldando-se em melancolia. Seu rosto é algo… único e estou aprendendo que sua melancolia é sua característica mais primordial, de alguém que conversa tanto consigo do que eu mesmo faço comigo.

— Que foi? — ela pergunta.

Me levanto, a pego, a trago para mim imediatamente, fazendo-me desequilibrar e caminhar para frente dois passos e, sem querer, fazendo as costas da garota baterem contra a porta articulada e metálica da banca de jornais fechada. O impacto embora faça um estrondo, é amortecido pelas inúmeras articulações horizontais da porta. Talvez tenha até rasgado sua blusa branca de tecido delicado, mas a gente não aborta. Beijo a Xey com satisfação e ela se deixa tomar em meio a um risada inicial que se dissolve em seguida e me retorna com lisura.

Está nublando, um raro dia mediano no verão colombiano, ainda assim está abafado. Saímos da praça, tentamos caminhar com algum romantismo pela avenida Colômbia até a frente do estádio, mas uma sequência de motéis surge na avenida. Advinha? No quarto do motel, entramos empolgados, felizes. A Xey sintoniza a La X 103.9 no rádio.

— Não se mexe — ela manda.

Motel na Av. Colômbia— Jan/2016 (Aldo Lammel, © Todos os direitos reservados)

O banheiro e o quarto são uma única peça; a garota se vira de costas, deixa seu shorts bege cair ao piso e o saca por completo sem descer do salto. A música toca alto. Peço para ela parar de se despir, mantendo apenas a blusa. Ela o abotoa novamente. Faço minha memória em imagem. Começo a tirar a roupa, inicio pela camiseta, descalço um pé do tênis surrado. A garota se senta na cabeceira da cama, me fitando como se fosse a minha vez de seduzir. Ao mesmo tento que desabotoo meu jeans, com o outro pé, o sacudo para me livrar do tênis e assim consigo, porém, ao voltar com este pé ao chão, acerto meu dedo mindinho contra o vão da cama e o piso frio, dando um estouro agudo que ressalta bizarramente sobre a música e fazendo minha unha já machucada de um chute na casa da Cristina, levantar.

— HHHMMMMM! — eu urro enquanto a música toca!

A gargalhada que a Xey dá é tão alta que o Luke chegando nos Estados Unidos deve ter ouvido. Eu rolo pela cama com dor, e a filha da mãe da guria rola junto, mas em gargalhadas sistemáticas e tentando me abraçar.

— ALDO, EU NÃO CONSIGO RESPIRAR! — ela berra às risadas.

Nos acalmamos, a pressão da dor vai desaparecendo e o dedinho dica pulsando. Xey se levanta com a mão no coração, tomando ar, e vai até o pé da cama aonde chutei a porra toda.

Nossa, chegou a lascar a madeira, Aldo — ela comenta, ameaçando voltar a rir da desgraça —. Imagina se eles pedem pra gente pagar? perde o dedinho e ainda tem que pagar!

Pagar o caralho! — digo mal-humorado, olhando para o criado-mudo onde deixei minha câmera e minha carteir_ _ _ — CADÊ MINHA CARTEIRA?

Xey se assusta erguendo o cenho e me questionando prontamente — Tu não pegou ela lá no banco da praça?

Dou um salto da cama, calço meus tênis com dificuldade, pego a camiseta nas mãos e saio em disparada quarto afora, motel adentro.

— ME ESPERA AQUI — grito pra Xey.

— Senhor, o senhor não pod_ _ _

— ESQUECI MINHA CARTEIRA NA PRAÇA, JÁ VOLTO — grito à moça da recepção do motel enquanto tenho uma manga da camiseta vestido, a outra tremulando como uma bandeira e uma caça a abotoar.

Mancando, corro cada uma das quadras até a Plaza Restrepo pensando no pior. "Eu não acredito que não vou transar com essa mulher de novo! Não acredito que não vou TRANSARRRRRR… PUTA QUE PARIU, todo meu dinheiro do freelance está na carteira. Eu sou UM ANIMALLLLLLL", me digo a medida que mais manco do que corro.

— Com licença — falo com falsa simpatia às pessoas lentas na calçada. — Com licença, perdão. Com licença, perdão. Perdão, sai da frente!

"Puta que pariu, meu dinheiro", é meu novo mantra até chegar na Restrepo. Perder dinheiro é um problema, ainda mais quando ele é o dinheiro que você pretende usar para cruzar a próxima fronteira, entretanto, quando se está em uma viagem internacional, seu menor problema é perder o dinheiro. Tudo o que tu não podes perder em hipótese alguma são seus cartões bancários. Sem eles, você não tem acesso ao seu dinheiro no exterior até que um novo cartão chegue até você. Se tratando de um banco brasileiro que não tem agências no exterior, perder um cartão é uma dor de cabeça gigantesca muito maior do que perder um passaporte.

Vejo o banco, dou uma acelerada na caminhada perneta e vejo a carteira marrom sobre o assento de madeira amarronzada. A carteira ficou camuflada! Prendo o resto de fôlego que me resta, confiro e todo o dinheiro está aqui. É a melhor sensação do mundo, pelo menos agora; bem agora.

Uma dupla de policiais passa por mim, me cumprimenta educadamente e eu vou até ela para contar a história. Conto desde o início e nós três começamos a rir. Os policiais me enchem de perguntas, falo sobre a viagem, conto meu plano de cruzar a fronteira para o Panamá e então lembro da Xey, entretanto quando penso em voltar ao motel a colombiana dobra a esquina da avenida com a praça, e me vê junto dos policiais. Levanto a mão segurando a carteira e ela sorri de longe, contudo com cara de quem não aguenta mais caminhar de salto.

— Olá — ela saúda os policiais, me perguntando baixinho — . Quer voltar lá?

— Não, tive uma ideia — eu digo.

Duas quadras depois.

A porta do apartamento do Johnny abre. Meu anfitrião está no sofá da sala com seu laptop no colo como sempre.

— Oi, Johnny — digo puxando a Xey pela mão para dentro do apartamento, me dirigindo para o fundo do corredor e sem parar para nada no caminho — , essa é a Xey. Xey esse é o Johnny.

— Ahhh, finamente — diz o rapaz no sofá — . Querem andar de bicicl_ _ _

— Oi, Johnny — diz a moça constrangida o interrompendo, desaparecendo no corredor até os fundos do apartamento menos de dois segundos após cruzarmos a porta de entrada.

No banheiro do apartamento, em um espaço minúsculo, nos despimos com vontade, emergência. Devagar, tiro meu tênis e a Xey ameaça rir, mas tapa a sua própria boca. Embora nos estamos ciente de como esta última hora tem sido bizarra e engraçada, lembramos do que foi dito no banco da praça quando estávamos deixando algumas coisas alinhadas. Eu disse à ela o quão tudo isto significa e ela abriu seu passado; história que já a envergonhou, contudo hoje ela a tem reinterpretada. Diante de tantas coisas e problemas que pairam na cabeça de quem viaja sozinho por um longo período, se faz necessário compreender que as vezes quem está em seu próprio lar dentro de uma rotina de trabalho, precisa do seu espaço, do seu descanso. Reencontro o Aldo de sempre, aquele que não se importa com o que a garota faz ou deixou de fazer; aquele Aldo que só quer que, quando estejam juntos, que desfrutem com sinceridade o que é de comum acordo.

— Amanhã é domingo, dia 31 de janeiro — comento debaixo do chuveiro — . Completo um ano de estrada…

Ela completamente nua se une comigo debaixo d'água, abrindo mais o registro da água fria — Eu quero começar a comemorar!

Enquanto ela escorada na parede do box, os dois dentro do pequeno chuveiro, têm os semblantes neutros, sem expressão, entregues totalmente a isto. O desenho dos olhos da Xey me tem por completo e me faz querer ficar de joelhos. Assim o faço por um tempo até querer beijá-la na boca outra vez. Reparo nas linhas das pálpebras dela, a quantidade de cílios, o brilho negro e jovial de duas esferas de caramelo. Eu a fito fundo e ela me devolve ao seu modo, fixo, quase sem piscar. Me aproximo devagar até minha boca tocar a dela. A beijo no lábio inferior com um selinho sem estalo. Ela não esboça qualquer movimento, as gotas de água da ducha lhe escorrem pelo rosto sem qualquer expressão. Sua boca permanece semi-aberta. Relaxada. Encosto meus lábios no lábio inferior dela outra vez e outra vez ela mantêm-se de olhos abertos, mudos, apenas sentindo o que acontecia, mas sem querer perder os detalhes.

— Meu visto colombiano expira em 10 dias. Posso ficar no máximo até o dia 8 de fevereiro aqui…

Ela não pronuncia uma só palavra, seus brilhantes olhos tampouco desviam de mim. Sua expressão não tem a menor alteração nos traços. Vou até sua boca uma vez mais e a beijo por completo, fazendo-a ocultar o negro de suas íris ao cerrar as pálpebras. Ela expirar o ar dos pulmões como se o ar estivesse preso ali por um largo tempo. Ela me abraça com gana até que interrompemos o beijo e ela sussurra "mi puto" a medida que nos tocamos já sem critérios sobre o limite do volume que nosso sexo faz. Deixamos que a água morna acerte nossos rostos por um loooongo tempo.

— Tchau, Johnny — diz Xey.

— Vocês querem pedal_ _ _

Falou, Johnny — digo eu, o abreviando.

Saímos do apartamento tão rápido quando chegamos.

Último dia, domingo 7 de fevereiro de 2016.

Pedalamos até o Pueblito Paisa no topo de um morro, ela pega minha mão e com frequência me abraça por períodos mais longos. Caminhamos circundando todo o parapeito do miradouro, fazendo piada sobre qualquer coisa e apontando o dedo para as partes da cidade por onde já passamos.

— Não te mexe! — ela diz, girando seu corpo com agilidade à minha frente, pondo a Pentax diante da face não mais do que cinco largos palmos de distância do meu rosto. Ela gira o ferrolho dando um novo filme à Pentax e então dispara.

Por mais que o mundo veja uma fotografia, ninguém verá a fotógrafa com seus fios de cabelo dançando à brisa por detrás da câmera apontada, prendendo a respiração instantes antes do clique ou ouvir o som do obturador abrir e fechar tão rápido quanto um estalar de dedos. Descobrir o gosto de um beijo pedido em outro idioma assim que a câmera é baixada.

A foto no Pueblito Paisa com Medellín ao fundo — Fev/2016 (Xey © Todos os direitos reservados)

Juntos, percorremos a Avenida Regional até os limites da cidade ao sul, aproveitando que aos domingos somente ciclistas são bem-vindos. Ao longo da semana, vínhamos nos encontramos nos cafés da Bulevard 53 e mantivemos nossa tradição de tomar limonada de coco calados, deixando-nos conectar pelos olhos e pelas mãos. Sem diálogos. Hoje não é diferente. O dia começa a dar lugar a noite, enquanto as pessoas chegam e partem dos cafés, Xey e eu seguimos na mesa.

Na minha cabeça, a própria Xey e seus mistérios se mesclam nos meus pensamentos, pensamentos sobre minha sobrinha ainda bebê no Brasil e a travessia ao Panamá que está por vir. Com discrição, reparo na colombiana. O silêncio da Xey à mesa só diz respeito à ela e a mais ninguém. Me perguntei tantas vezes sobre o que ela pensa enquanto mexe em meus dedos e toma seu refresco, que aprendi a degustar destes momentos, entregando toda minha existência às linhas de seus olhos distantes e ao contorno definido de seus lábios mudos. Nos encaramos e rirmos acidentalmente algumas vezes, há algo bobo na gente, contudo ainda assim ficávamos bons minutos sem uma só palavra, com as mãos sobre a mesa do café buscando o carinho um do outro. E outra vez as cabeças estão fitando direções opostas... As vezes não consigo lembrar de como são os rostos de pessoas que estiveram comigo por tanto tempo e que agora não estão mais; e por isso, estou ciente de que em breve já não serei capaz de ver a Xey. É como se tudo que eu terei dela é a lembrança de uma nítida silhueta, com longo cabelo preso em coque, sobre uma bicicleta parada entre as suas pernas, com o que parece ser uma câmera fotográfica de rolo em mãos e apontando-a para algum lugar como a Bulevard 53, para algum personagem como o seu brasileiro da volta ao mundo. Admito que sinto algum prazer nesta fragilidade, em estar ciente que nunca mais voltarei a vê-la.

Dou um gole na limonada, mantendo meus dedos entrelaçados com os dedos de Xey à mesa.

Foram 42 dias na cidade da garota e, embora eu não fizera a caipirinha que prometi, entreguei 30 dos meus dias de viagem à Xey, a colombiana a qual tudo o que sei sobre sua história diz respeito a fotografias e um triângulo amoroso envolvendo uma amiga e um rapaz que ambas amavam. Com as devidas proporções, é como se o que ocorreu entre a Cristina, ela e eu fosse um plágio, uma reconstrução do que ela havia vivido um ano atrás. Porque me senti tão ligado à Ceci em La Paz e agora a Xey em Medellín? Porque o que sinto aqui é diferente do que senti na Bolívia? Simplesmente é diferente, embora eu venha entendendo na pele que estas relações da estrada podem ser fortes devido ao contexto e o caralho a quatro, com a Xey, de um jeito muito claro, eu queria que ela fosse minha namorada.

Te quiero mucho — digo encarando-a.

Ela me entrega a atenção. Mesmo que um discreto sorriso lhe venha e seus dedos sigam acariciando os meus por toda a eternidade, os olhos dela fixados aos meus nunca me dirão se ela compreendeu o que dessa fez eu realmente quis dizer.

Bebo o resto da limonada, engolindo as ralas finas e doces de coco que estavam ao fundo do copo. Nos levantamos e nos abraçamos. Nos afastamos da mesa, damos alguns passos até a esquina da Bulevard 53 e nos beijamos mais lentamente. Ela repousa suas mãos em meu rosto.

— Obrigada — ela diz baixinho, com alguma emoção mais forte lhe vindo, mas que jamais chegou — . Obrigada por tudo isso, mi Aldito.

Pisco com o olho esquerdo, humedeço meus lábios e me viro de costas. Ela faz o mesmo e seguimos por direções completamente opostas.

Assim que ela desceu do metrô no ponto combinado, a garota que sempre está bem vestida e com seu celular dourado, disparou a Pentax que estalou com charme apontada para as flores do parque.

— Oi — a voz vinda de outra mulher chegou por trás dela.

Ela se virou e, em meio ao Jardim Botânico que ventava naquele fim de semana, se viu diante de uma linda Silmara que não via já havia muitas semanas.

— Moro a tanto tempo em Medellín que não lembrava como aqui é bonito… — com a pesada câmera em mãos, comentou a garota de beleza tipicamente paisa, soando pensativa e fitando a Silmara.

Silmara, séria, segurava as laterais do vestido de estampa abstrata, fitando o movimento ao redor e das copas verdes e tremulantes lá no alto. Dentro dos pensamentos da garota de vestido estampado, ela verdadeiramente não compreendia porque sua melhor amiga fez o que fizera, mas em suas conversas internas, ninguém era mais alvo de suas perguntas e críticas do que ela mesma.

— Sim, é super linda a nossa cidade… — murmurou Silmara.

A outra garota, tirando os fones brancos de seu rosto, com a câmera em mãos, a abriu e sacou o filme. Fechou, tirou a correia de volta do pescoço e, com cinco passos à frente, parando em uma distância razoável, devolveu a Pentax à Silmara.

Abstida de qualquer emoção visível em seu semblante, Silmara pôs a câmera dentro da bolsa, voltando seus olhos para a garota um metro adiante por um breve instante. "tudo bem", disse ela no silêncio de seus pensamentos e, conforme esboçava partir com o girar do calcanhares, a moça do cabelo negro e longo preso em coque e com um olhar terno, pediu sua atenção, fazendo Silmara olhar sobre os ombros e fitá-la por mais um momento nos olhos.

— Xey — disse a garota do coque, percebendo que no seu celular dourado um rapaz que ambas as garotas conheciam bem, chamava. A moça ignorou a ligação e disse a dona da câmera — , você linda!

Só dá play (“Clocks” do Coldplay, via Youtube)

O vento que soprara e fazia as árvores balançarem, faziam as negras e longas mechas do cabelo de Silmara dançarem defronte seu rosto sóbrio e de inegável beleza exótica. A notável semelhança física entre as duas moças desde os tempos de escola, talvez sempre estivera presente, o que justificaria elas se verem como irmãs até os tempos de faculdade. Xey girou sobre sua bota cano-curto de camurça-cinza e iniciou a caminhar na direção de onde viera cinco minutos antes. A antiga amiga, pondo o celular no ouvido, desaparecia conforme retornava ao metrô. Já Silmara, ou Xey se preferir, sorriu lindamente para a câmera em mãos e assim que deu as primeiras passadas vagarosas para dentro do Jardim Botânico, levou em seus olhos caramelo-escuro todos seus mistérios; segredos de um Universo muito particular e que, um dia, estará pronto para deixar o brilho de uma Supernova transformar o seu mundo.

Já eu, receio que lembrarei por algum tempo das minhas caminhadas e pedaladas por uma cidade que em nenhum momento me pediu para ficar, tampouco me disse algo sobre paixão, mas me fez crer na simplicidade do toque dos dedos e do olhar caramelo sobre mim que, em outra dimensão, não seria má ideia eu ainda estar lá. De mãos dadas por aquelas ruas de Medellín.

Em algum lugar daquela cidade — Fev/2016 (Aldo Lammel, © Todos os direitos reservados)
Vídeo da 2ª parte da minha passagem por Medellín (Aldo Lammel)

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