Eu — Charqueadas, Brasil — Jan/2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Introdução — Origem Parte II

De Ray-Ban na manhã nublada, as gotículas da chuva fina começam a acumular e a escorrer pelo meu rosto. Que cena ridícula pensaria quem me visse usando óculos escuros, caminhando pela ciclovia de Charqueadas. Debaixo das lentes, olhos vermelhos e cheios d’água, mas não do chuvisco. De lágrimas. Não por relembrar meu passado com alguma riqueza de detalhes, e sim por ansiar a despedida da família, adeus tão iminente quanto uma próxima gota de chuva atingindo minha cara. É… A decisão dentro do avião, a demissão dias depois; minha conversa com à Laís e o rompimento. Eu comprando a bicicleta depois de já ter decidido viajar pelo mundo com ela… Quase vendi meu apartamento para financiar uma viagem que, no fundo, não queria nenhum patrocínio dizendo o que eu podia ou não fazer ou dizer. Mas não me desfiz do meu lar, o alugando a um casal de amigos, um dos movimentos mais inteligentes e coerentes que eu poderia ter dado. Entretanto se nas minhas decisões algo foi além do justo, foi ter dito a minha mãe que viveria alguns meses com ela antes da viagem. Minha mãe e minha irmã, todos na mesma casa. É, você leu bem: minha irmã. Nem tudo sobre a minha história eu lhe contei; a Andri foi muito mais do que uma coadjuvante, de certo modo ela foi um dos grandes impactos que mudaram minha forma de ver o meu futuro e foi, de certa forma, meu maior demônio no final de 2013 e por todo o ano de 2014. Dramas à parte, minhas lágrimas sob a chuva quase poética são de pura saudade antecipada dos meus bens, amigos, mas principalmente minha pequena e família. Parece triste, mas você logo entenderá que é muito recente que realmente compreendi que tenho uma família... Eu só quero que essa porra toda de volta ao mundo comece para que eu volte logo para casa.

Me restam três dias…

28 de janeiro de 2015.

O tempo está passando rápido, já têm três meses que aluguei meu apartamento a um casal de amigos e, como prometido, vim morar em Charqueadas na casa da DeJota. Faziam dez anos que eu não ficava aqui por mais de quatros dias. No início, admito que fiz isto mais por ela do que por nós, entretanto foi muito bom ver que foi além de estratégico estar aqui, eu precisava do conforto dela, a pressão da partida pesa e a mãe está por perto para me impulsionar com apoio emocional ou somente para fazer um doce de ambrosia. Eu engordei por aqui, sabe, meu caro. Se você um dia vir aqui na casa dela, é sério, não coma ambrosia. Desconfio que ela põe alguma droga que causa dependência pelo doce porque e impossível comer uma taça apenas. Impossível!

Mexendo nas coisas em meu quarto improvisado, ouço a buzina soar lá na rua. É a Kelly, uma amiga que veio me dar um abraço. A convido para entrar e conversamos por algum tempo, falando sobre muitas coisas, inclusive sobre minha partida.

— Tu deves estar super ansioso, ? — pergunta ela deitada na cama do quarto.

— Não, Kellinha. Hoje não — comento sentado na minha cadeira de couro negra que trouxe pra Charqueadas — Ontem foi meio tenso, senti saudade da minha mãe de repente, do nada…

Deitada de bruços e ao revés sobre minha cama, ela pára de mexer no celular e me mira.

— A DeJota vai fazer 72 anos… Passei todo o ano passado pensando que eu estarei viajando por anos e ela aqui, sozinha, vivendo nesse casarão, talvez precisando do único filho pra ajudá-la a limpar as calhas, cortar a grama, empilhar a lenha para o inverno e_ _ _

Tá, né, Aldo?! — a Kelly me interrompe — Tua mãe nem pára em casa, tá sempre viajando com as amigas dela. Até parece que você vai fazer alguma falta aqui.

Fito à Kelly com alguma graça escondida, no fundo agradecimento à ela pela tentativa.

— Vou sentir saudade, sabia? — ela faz a retórica, me encarando através de seus óculos de grau com carinho.

Cerro meus dois olhos com força para a garota como se não soubesse piscar e lhe entrego um sorriso bobo conforme eu volto a mexer na câmera fotográfica e ela em seu celular. Nossas vozes prendem-se em assuntos como véspera e o quão normal a saudade por antecipação poderia ser.

Kelly (Aldo Lammel © Todos os Direitos Reservados)

O som de outro carro surge vindo da frente da casa da minha mãe e na porta da sala já aberta, surge a Cacau. A Camila e eu temos uma relação um pouco além da amizade nestes últimos meses, ela é uma garota que nunca me faz perguntas sobre as outras garotas que surgiam nas fotos comigo nas redes sociais e tampouco fez drama quando me viu numa festa com outra garota na cidade vizinha. Não somos namorados, mas se eu soubesse que a Cacau estava naquele lugar, jamais a colocaria em uma situação tão desconfortável. Me lembro de ter olhado pra ela, ela me abraçado, visto a outra garota e então transformado sua expressão em algo anestesiado, indiferente. Estragou a minha noite apenas de pensar se tivesse sido ao contrário. E ela nunca tocou no assunto, mesmo no dia seguinte ela e eu saindo para beber qualquer coisa e transar no seu carro no estacionamento da biblioteca pública de Charqueadas.

Agora, bem agora, ela vem entrando corredor adentro e não posso perder a oportunidade de ver seu semblante quando perceber que na minha cama há outra garota. Duvido que nos três segundos iniciais ela se dará por conta que é apenas uma boa amiga me visitando e nada além disso.

Sustos de ambas as moças, risadas amarelas delas e uma boa gargalhada sincera me escapa. Minutos depois, a Cacau deixa minhas coisas que estavam em sua casa, se despede da Kelly e confirma comigo que em dois dias iremos a Porto Alegre deixar a bicicleta e todo o equipamento para facilitar as coisas no dia da largada. A Cacau vai embora e a Kelly e eu, no entardece, aproveitamos para sair de carro e apenas dirigir por ai.

— NÃO!

— Que foi? — pergunto eu à Kelly.

— Não, mexe no rádio! Deixa tocar!

— Eu… vou… — digo excessivamente calmo para provocá-la conforme giro o botão no sentido horário — aumentar… o volume…, minha flor!

Soundgarden na canção “Fell On Black Days” (via Youtube)

No carro toca Soundgarden e algumas bandas de Indie Rock que a Kelly e eu gostamos. Enquanto ela dirige noite adentro e me conta sobre algumas de suas questões amorosas, eu deito o banco do carona e me jogo para trás, prestando atenção na lua cheia parcialmente oculta por nuvens pesadas de chuva torrencial que está por vir. A forma com que o brilho da Lua pinta de prateado as nuvens… E este vento gelado me acertando o rosto… Os pensamentos vão longe…

Viro a cabeça à esquerda e lá está a Kelly, bonita, com seus cabelos à californiana. Sua boca mexe e mexe enquanto dirige, ela deve estar me contando alguma de suas histórias de amor que tenta resolver ou algo do tipo. Estou em um mundo paralelo, um mundo oculto do visível e visível exclusivamente dentro dos pensamentos de um Aldo olhando para as nuvens cinza-prateadas lá em cima. Lá longe…

— O que devo fazer? — me questiona ela.

— Faça o que você achar correto — respondo eu, sem ter a menor ideia sobre o que eu deveria estar conversando.

Ela volta a falar e sua boca abre e fecha, abre e fecha…

Foco no rosto dela, ela e seus vinte e poucos anos, e seus olhos mal piscam ao me contar as coisas de seu coração que a fazem, volta e meia, me olhar rapidamente e voltar no segundo depois para a rodovia à frente iluminada somente pelos faróis do carro a cem quilômetros por hora.

“Dentro de um dia e meio, não verei mais a Kelly por um longo tempo…”, penso eu, mirando a Lua através do vidro entreaberto do meu lado.

— A Andri grávida! — digo baixinho e arrastado, abrindo mais a janela até o vento me bater com força no rosto.

— Quê? — se surpreende negativamente a Kelly, por reflexo tirando o pé do acelerador e nos fazendo sentir o Chevrolet Corsa desacelerar na escuridão da ERS-401. A voz da garota apontada para mim sai de sua garganta com força e incrédula — Tu de sacanagem, ?

Capítulo Quatro — Andri

— Alô — atendi o telefone da minha mesa no escritório, fazendo silêncio e recebendo a notícia — . QUE?

Eu sabia que aquilo mais tarde, menos tarde, aconteceria. Não, não me refiro à ligação sobre a morte do meu pai, me refiro de estar diante do seu caixão e não sentir nada. Absolutamente nada além de pena.

Era verão do recém chegado ano de 2013, faltavam poucas semanas para meus 29 anos. Eu estava de pé, fitando o caixão do meu pai e me dizendo que nunca o havia visto dormir e naquele momento eu estava aos seus pés, o observando nunca mais acordar. “Ele morreu sem nem ter me dado a chance de ser filho”, eu me disse com triste indiferença ali. Ele nunca brigou comigo, nunca levantou a voz, nunca me disse que eu estava errado e que deveria repensar meu comportamento. Ele nunca muitas coisas. Eu nem conseguia me recordar de uma gargalhada que ele conseguiu arrancar de mim. É louco porque eu rio de tudo… Quando ele ia me ver, sabia o roteiro em detalhes. O primeiro momento era um “você está bem”, o segundo íamos almoçar em algum restaurante barato e, no terceiro, ele me levava para casa e me mostrava as fotos em papel de como ele era feliz viajando pelo Brasil como sei lá o que ele fazia. Eu gostava de dizer que ele era arquiteto enquanto na verdade não passava de um homem sem carreira, vivendo sem profissionalismo do grande talento para a pintura que tinha. Um desperdício. “Vinícius”, ele me chamava pelo segundo nome, “o pai tem de ir agora, tá bem?” e embora ele ia para eu voltá-lo a vê-lo dentro de três ou quatro anos. Era sempre assim.

E ele vivia a menos de 100 quilômetros de mim, isto que sempre me machucou. Ele não estava comigo por opção.

— Oi — uma voz feminina e jovem chegou em meu ouvido direito.

Juntando-se à mim defronte ao caixão, uma jovem, medindo 1,68, pele morena, magra, cabelo e olhos negros. Talvez 18 anos.

— Você é o Vinícius? — ela se dirigiu à mim.

Assenti com a cabeça.

— O pai sempre me falava muito de ti.

Deixei a garota falar, tentando imaginar se ela era uma prima, ou filha de algum amigo da família, ou qualquer outra coisa, tudo o que não compreendi porque ela usou “o pai me falava de ti”. Que grau de parentesco é este se eu era filho-único?

— Eu não sabia que você estava no Brasil, se não eu já tinha te lig_ _ _

— Desculpa, qual é teu nome? — perguntei atordoado e interrompendo a garota enquanto estávamos rodeados de pessoas cochichando para manter o silêncio no ambiente.

Nossa, é verdade. Sou Andri.

— Andri, eu nunca estive fora do Bra_ _ _ — me abrevio pondo a mão em minha própria testa e fechando os olhos, tentando reorganizar meus pensamentos — Desculpa, o que você é do meu pai, mesmo?

Ela sorrio com o cenho arqueado e contraído horizontalmente ao centro, dando-se ar de ternura.

— Nós somos irmãos — murmurou ela.

Minha cabeça apagou todo e qualquer registro de como foi o desfecho do funeral após eu descobrir que potencialmente eu tinha uma irmã 10 anos mais nova. A ironia é que lembro com clareza do nosso primeiro encontro na praça de alimentação de um shopping em Porto Alegre onde nos demos a chance de entender toda essa bagunça surreal.

— Ele sempre me disse que você vivia nos Estados Unidos — comentou Andri sentada ao meu lado na mesa do restaurante. Sua voz era suave e carregada de sotaque porto-alegrense — , e quando te procurei na internet, nunca achei nada.

Eu não tinha como buscar pela Andri, até dias antes eu não sabia de sua existência, porém ela, ela poderia… Não, não poderia ter me encontrado e levei algum momento para perceber o tamanho da confusão.

— Claro — eu exclamei fitando os pratos na mesa — , você me conhecia pelo meu segundo nome e deduziu que meu sobrenome fosse o dele. Nossa, que bagunça tudo isso…

— Vinícius Azevedo e não Aldo Lammel — ela disse baixinho, catatônica, mas com um sorriso magistral indo e vindo de acordo com os detalhes da conversa. Ela comentou contente — . Tenho de me acostumar a te chamar de Aldo.

— Você pode me chamar do jeito que te agrada mais.

— De mano?

Ali, na mesa, ela e eu demos o segundo passo pra construirmos a nossa família, uma família que antes de tudo aquilo era eu e minha mãe para mim; a Andri e sua mãe para ela. Conversamos sobre como as coisas poderiam ser saudáveis dali por diante se trabalhássemos juntos, contudo a nossa base precisaria ser a vontade irrefutável de não querermos entender os motivos que levaram o nosso pai a privar ela e eu de uma infância e adolescência mais bonita, porque o que motivou ele, se perdeu para sempre.

Os olhos da Andri era como esferas brilhantes sob a companhia de um sorriso magistral em seu rosto. Volta e meia ela me perguntava se ela poderia me abraçar. Que pergunta…

“Eu tenho uma irmã, cara”, era tudo o que eu me dizia pelos próximos meses.

O Aldo estava completamente apaixonado. No início imaginei que seria difícil para a Laís, minha ex-namorada, aceitar do dia pra noite que outra menina passasse a dormir no meu apartamento, a estar comigo pelos parques, fazendo fotografias e tomando chimarrão, mas a Laís era madura e foi quem mais me apoiou a não perder tempo. Fui conhecendo a Andri, percebendo como a menina de 18 anos podia ser surpreendentemente madura e de postura naturalmente doce e sapeca ao mesmo tempo.

Andri e eu (Andri Azevedo, Todos os direitos reservados)

— E a faculdade? — eu perguntei enquanto tomávamos chimarrão no Parque Moinhos de Vento.

— Tenho de fazer o vestibular — ela respondeu aérea — … E o trabalho lá no escritório tá bem puxado, mano.

Eu experimentara pela primeira vez o que é ter preocupação genuína pela decisão alheia, como se as decisões dela impactassem à mim. Eu tinha uma irmã mais nova para orientar se assim ela quisesse. O bizarro disso é que, quando eu tinha 18 anos, tudo o que eu fazia era tocar bateria, jogar video-game e brigar de socos e ponta-pés nos corredores da escola.

Minha irmã cresceu no ambiente mais frágil de Porto Alegre, na Ilha da Pintada, muito diferente da realidade da zonas nobres onde fui criado em Charqueadas e onde vivo em Porto Alegre. Tudo o que pude prometer pra mim mesmo foi que eu seria um porto seguro para essa garota; que eu não cometeria o erro do meu pai em não vê-la crescer. Enquanto a Andri falava qualquer coisa na grama do Parque Moinhos de Vento, eu só me ordenava ser um bom irmão; eu verdadeiramente queria ser um bom irmão, mesmo a Andri tendo o pior chulé da cidade. Puta que pariu!

Ai, Aldo, não posso acreditar que ela grávida tão cedo… — ao volante, Kelly tem sua voz arrastada pelo peso da notícia.

— Eu também não— digo à Kelly, mantendo meu olhar para além da janela do passageiro. Continuo — . Ela tem só 2o anos, na idade de estudar, ter um namorado em cada canto, de viajar de carona pra praia no final de semana… E agora vai trocar tudo isso pra cuidar de um bebê…

Kelly diz hesitosa enquanto cruzamos a ERS-401 a noite em alta velocidade — Ela… Ela pensou em… Você sabe…

— Tirar? A gente conversou a respeito. É incrível Kelly, ela assustada, e o fato de eu percebê-la assim me deixa menos preocupado, afinal de contas, é sinal que ela tá com os pés no chão… — digo eu, me virando à Kelly antes de seguir — E não, ela não quer tirar essa criança. Embora ela esteja longe de preparada financeiramente pra ter o bebê, a Andri é a pessoa mais amorosa que eu conheço. Se tem uma coisa que tenho certeza sobre ela é que ela será uma ótima mãe, mas... Só não precisava ser agora, bem quando eu não estarei aqui…

Kelly dá uma inesperada e sutil risada de espanto.

— Que foi?

— Essa história de vocês dois parece uma novela mexicana — comenta a motorista, deixando a piada lhe vir — . Agora tu precisa de alguma nova história caliente pra deixar essa novela mais interessante…

Tiro meus tênis, giro o botão de volume do rádio e ponho os pés sobre o painel do passageiro do Corsa.

— Fica quietinha e dirige.

Algumas horas depois, defronte ao portão de casa e já do lado de fora do carro, me abaixo para conseguir ver a Kelly dentro do Corsa, pondo minhas mãos na janela do carona que está totalmente aberta. Olho para os lados pensativo.

— Não é nem 1:00. Tem certeza que quer ficar em casa?

— É que uma pessoa vai chegar aqui — eu justifico.

A Kelly começa a sorrir calada, me fitando do volante do Chevrolet.

Ai, Aldo… Tu e essas namoradas misteriosas — ela faz silêncio, mas então pergunta — É a Penha, não é?

— Boa noite, Kelly — dou as costas para ela e entro portão adentro.

— Beijo — ela diz, estalando os lábios em um beijo à distância.

Kelly arranca o automóvel e logo depois chega outro carro. Ouço o som de um motor sendo desligado, vou até o portão, mas a garota já o abriu e vem subindo as escadarias da frente de casa. Ela se aproxima de mim no topo. Sorrindo, ela tira de dentro de sua bolsa algo oculto em sua mão enquanto a outra pega minha mão e a abre, expondo minha palma entre nós dois.

— Quero que você guarde isso com carinho — diz a moça.

Reparo no que ela pôs na minha palma. É uma pedra-rosada… E a madrugada do dia 29 foi muito bonita.

Me resta um dia.

30 de Janeiro de 2015.

A mãe e eu mal nos olhamos. Sinto que se eu fizer contato visual com ela, a DeJota desabará. Nos últimos dias a taxa de aproximação dela à mim para beijar minha testa aumentou drasticamente. Hoje é dia de levar a Garibaldi, minha magrela, para Porto Alegre com todo o equipamento necessário para a viagem acontecer.

A Cacau, chega de carro aqui em casa. Colocamos tudo no automóvel, assumo o volante para partimos de Charqueadas a Porto Alegre e a loirona do meu lado põe o melhor da música eletrônica que eu passara à ela nestes últimos meses de Brasil. Aliás, as melhores festas que fiz nos últimos meses, sem dúvida foram as que estive com a Cacau, a garota que, de um lance, se tornara uma de minhas melhores amigas. E assim, no banco do carona, ela me entrega seu sorriso mais largo, quase infantil; pergunta se estou pronto para a reta final e eu sorrio de volta, arrancando a EcoSport na direção da capital gaúcha.

Os 140 quilômetros por hora que o Ford está fazendo na parte plana da ERS-401 são a mistura perfeita de irresponsabilidade calculável com a anestesia que a música nos trás, uma ansiedade que flui na corrente sanguínea e diz para o pé afundar cada vez mais o acelerador. A Cacau é uma mulher que fala pouco e topa tudo que invento. Minutos atrás, ela não sabia que iria a Porto Alegre comigo, tampouco com o seu carro. Pedi ajuda à ela agora, uma hora atrás depois que acordei da zoeira da última madrugada. A grande parte das besteiras e festas que fiz em 2014, lá estava ela, a Cacau, sempre comigo e sempre se expondo do meu lado por causa das minhas excentricidades que não vem ao caso agora. Quando a olho, de praxe ela sorri e me manda beijos à distância. De fato, ela pouco fala quando estamos sozinhos. Os trinta minutos que levamos de Charqueadas a Porto Alegre eu basicamente dirigi e ouvi música enquanto ela, virada para a janela do carona, assistia a paisagem, na maioria do tempo rural, passar e ficar para trás. Hoje ela está aqui comigo como sempre, mas especialmente hoje ela está diferente, ainda mais introspectiva.

— Amanhã eu tô indo embora e tu ao invés de me aproveitar vai ficar ai, quieta?

Ela vira na minha direção vem com suas ideias que acabam me estimulando a seguir seus conselhos, mais ou menos quando ela me disse que se eu ficasse pelado na TV seria legal. Ela e seus conselhos…

Vamo gravar um vídeo falando que tu estás levando a Garibaldi pra Porto — ela fala rápido e empolgada, continuando — Depois tu coloca no site! Claro! Eu filmo!

Depois de deixar a Garibaldi e os outros equipamentos em Porto Alegre, estou com o carro da Cacau estacionado na frente de casa outra vez.

— Porque você não vai na despedida amanhã? — pergunto eu olhando para a nuca da garota que insiste em olhar para a janela ao seu lado.

— Porque não! — numa típica resposta da loira de olhos verdes e recém pós-graduada, cheia de personalidade — Despedida é sempre uma merda.

Comento mais alguma coisa com ela, saímos os dois do Ford, nos abraçamos e assim meu maior presente do ano passado, a própria Cacau, vai embora, arrancando com seu carro sem me deixar qualquer expectativa de que isso não foi o nosso adeus oficial. Ela é sempre imprevisível e no fundo eu adoro isto nela.

Já anoitecendo, na minha última noite em casa, deixo o computador da DeJota configurado com o Skype e tudo que ela precisará para conversar comigo, mas a mãe não quer mexer no computador. Com o controle remoto do televisor em mãos, ela troca de canais compulsivamente, numa tentativa de não dormir e esperar eu procurá-la para dormir, como nos velhos tempo, no chão do seu quarto. São 22:30, abro a porta do quarto e a vejo deitada e com semblante sério, sem desviar o olhar do televisor de catorze polegadas fixado no alto da parede. Me aproximo e deito ao seu lado e, num abraço lateral nela, aqui permanecemos. Me esforço, mas ambos desabam em pranto, tem muitas coisas acumuladas até porque há muito tempo isto não acontecia de sentirmos ao mesmo tempo a pressão de um momento único para os dois. Me levanto, a gente não pode aceitar a melancolia, contudo permaneço ao seu lado e sentado, pego uma de suas mãos e começo a lhe dizer porque não deveríamos nos maltratar desta forma. A medida que os minutos passam, fica evidente que não há como remediar e a única coisa a fazer com sinceridade entre nós é simplesmente sorrir um para o outro e pôr toda esta saudade por antecipação e preocupações, pra fora.

A mãe me diz que não irá no evento de despedida em Porto Alegre. Ela prefere não expor fragilidade para os outros e eu a entendo e a respeito por isso. Em uma filha de alemão da Boêmia, é uma atitude totalmente previsível e coerente com os valores que ela defende. E aqui, no seu quarto e ao nosso modo, deixamos o ego de lado e apenas choramos juntos, sorrindo e rindo com os olhos contraídos e o pranto nos vindo sem piedade. É um dos momentos mais lindos da minha vida.

Estou no meu quarto, sozinho. Preciso de um tempo, tenho oito horas antes do meu relógio despertar para dizer que é hora de ir.

Sem aviso, meu celular toca.

— ALDO — grita a Penha do outro lado da linha — , estou aqui com o Maurício na frente do Live. Queres que eu vá ai te pegar?

Consulto os ponteiros do tempo outra vez. É madrugada da minha partida, a mãe está dormindo depois do tranquilizante que tomou e eu anseio por qualquer distração que relaxe a ansiedade que pulsa em mim. A Penha é uma garota que conheci tem pouco tempo, é daquelas pessoas que te põe para frente, conversa de igual pra igual e com ela os temas sempre são leves. O Maurício é o típico cara que te faz rir a todo instante, o conheço desde que tínhamos oito anos mais ou menos, sem dúvida estar com eles é o que mais preciso agora.

Eae, Penha! Claro, chega aqui em casa então — respondo ao telefone.

Já no Live, puxo uma cadeira e me concentro no show do AC/DC que passa no telão do bar. A música é alta e abafa meus pensamentos. Vejo alguns amigos, cumprimento todos, damos algumas risadas prevendo como será minha viagem e logo volto para casa.

Quando me deito, reparo no celular. É uma mensagem de voz da Andri. Dou play e começo a chorar com a mais pura alegria de ter essa menina na minha vida.

Me restam quatro horas.

O áudio do vídeo é a mensagem da Andri.

Capítulo Final — O mundo da pílula vermelha

A mãe está na cozinha, me esperando com o café pronto… Ela veste uma “máscara” de “tudo bem” e eu procuro fazer o mesmo. Em dez minutos o carro que me levará a Porto Alegre, chegará, a mãe se acomoda no sofá e eu, fazendo muito mais por ela do que por mim, deito em seu colo, um costume antigo que há algum tempo não praticava. Ela mexe em meu cabelo enquanto miro às paredes e móveis da sala, porém concentrado apenas no timbre da voz da DeJota. A buzina surge nos dizendo que é hora de ir. Na porta de casa, antes de ela ser aberta, nos abraçamos e eu tento segurar o máximo que consigo, contudo outra vez, mais uma vez, as lágrimas me vem sutilmente. A mãe, bem mais baixa do que eu, olha um pouco para cima com olhos repletos de amor abundante. Lágrimas, medos e felicidade sintetizados em olhos castanhos-claro de uma senhora prestes a completar setenta e dois anos.

— Diz pra tua irmã vir aqui para casa quando ela quiser, viu? — sugere minha mãe que tem um carinho indescritível pela Andri como se sua filha fosse.

Eu sorriu sem mostrar os dentes e desfaço em seguida ao me aproximar da DeJota ainda mais.

— A Andri vai precisar muito da gente!

A DeJota me escuta e balança a cabeça.

— Vá — a voz dela sai falhada, a definição de uma mãe emocionada, embora indiscutivelmente forte, extremamente forte — , dê o teu melhor, guri, e seja prudente.

Eu digo que sim com um rápido balançar de cabeça enquanto nos encaramos imediatamente um diante do outro.

— Te amo e volta logo pra me contar tudinho depois, meu garotão — ela me dá dois tapas amorosos no rosto, deixando sua palma esquerda repousada no meu rosto.

Na visão periférica, vejo o Maurício, a Penha e o Ingo nos assistindo de dentro do carro, eles desembarcam, abrem o portão e começam a subir as escadas. Não tenho tempo de me sentir constrangido, eu sei, porém a ideia de me verem tão frágil me perturba, eu não quero ser frágil na frente dos outros… Simples!

“Não chora, não chora, não chora”, digo à mim.

— Claro, mãe — falo surpreendentemente firme — , fica tranquila que logo, logo, em casa.

— Não, filho — ela me contesta com um sorriso tomado de emoção — , não vai ser logo, mas eu vou aqui te esperando.

— Preciso ir — falo deixando minhas mãos escorregarem dos braços da minha mãe pela última vez, sem abraços, sem delongas, me virando para as escadas, descendo o lance único de escada na velocidade em que as lágrimas rolam pelo meu rosto, não pude evitar.

Meus três amigos abraçam a DeJota forte e a enchem de frases bonitas e sorrisos que a fazem sorrir com felicidade verdadeira.

Entramos todos no carro e aqui, do banco de trás, enxergo através do vidro lateral traseiro esquerdo, minha mãe lá no topo das escadas de casa, me abanando e dizendo coisas que não consigo ouvir daqui de dentro. Abro a porta a minha direita mais uma vez e fico em pé. Por cima do teto do carro, vejo a DeJota e digo com força que a amo, agora sem esconder, sem me censurar, mas ainda assim não me faço demorar. Por fim, retorno ao interior do Volkswagen cinza da Penha e peço para ela ir logo.

Vamo nessa, galera! — falo engasgado, embora eu tenha conseguido cessar o pranto.

Agora me restam apenas duas horas e meia para tudo começar. O carro arranca e eu engulo à seco todo o sentimento de saudade, medo e felicidade pelo o que está por vir, tudo liquidificado dentro dos meus olhos certamente avermelhados e brilhantes que miram a paisagem além dos vidros do carro, jogando toda a emoção sentida para o mais longe possível. Em escala diferente, estou fazendo o que a Cacau talvez fizera no dia anterior ao ir comigo a Porto Alegre, com a sensação de que passará muito tempo até voltar a ver alguém que lhe faz bem.

Me chamo Aldo Lammel e que, tanto você quanto eu, façamos desta viagem o combustível que nos alimente de curiosidade e amadurecimento, lembrando todos os dias que caçar sonhos sempre será um exercício doloroso de desapego.

Que eu faça tudo isso valer a pena.

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