Registrando a Sua Viagem

Uma viagem é feita de experiências, mas também de anotações, fotografias e filmagens de uma grande aventura pelo mundo

Planejando | por Aldo Lammel


Fotografar, filmar, escrever. Armazenar, revisar e publicar. Quem pretende documentar sua viagem, principalmente a tornando pública de alguma forma, precisará de uma câmera fotográfica confiável e de um dispositivo para processar fotografias e textos, como um bom tablet ou, melhor, um laptop leve com um par de acessórios e softwares para registrar e armazenar momentos únicos da viagem. Embora hoje tenhamos a tecnologia digital a nossa disposição, registrar nossas aventuras é tão antigo e importante quanto poderíamos imaginar, desde os desenhos de 17 mil anos de idade nas paredes de uma caverna na França, retratando uma tarde de caça, até o emblemático Diário de Anne Frank durante a Segunda Guerra Mundial. Tanto os desenhos de Lascaux quanto o diário da menina judia holandesa, dão forma ao espaço, ao tempo e aos pensamentos de quem um dia registrou talvez apenas para si, mas que hoje alimentam àqueles com fome do mundo a volta. Se ainda tu tens dúvidas se vale a pena documentar sua viagem mesmo que somente pra você, reflita se daqui a vinte e cinco anos você sorriria ao ler o quão excitado ficou ao ver com seus próprios olhos o lugar que sempre quis estar; reflita se daqui a vinte e cinco anos você gostaria de reviver os detalhes de um amor na estrada; reflita se daqui a vinte e cinco anos você ainda estará aqui para contar a seus netos crescidos quem foi o seu avô, a sua avó. Uma vez o poeta de rua, em sua loucura de pisar na grama a roubar rosas, disse nos versos da música que, enquanto uns vivem para deixar bens, há quem vive para deixar saudades.

Fotografar & Filmar: câmera

No mundo ideal você levaria várias câmeras para extrair todos os momentos de uma aventura: uma Action Cam com lente Eye-Fish para acoplá-la na sua cabeça, no seu peito, no guidão da bike, fazer selfies diferenciadas e embaixo d'água; uma câmera compacta de lente plana para filmagens de takes com ou sem zoom sem as distorções indesejadas da Action Cam; uma poderosa DSLR para fotos da mais alta qualidade disponível, incluindo possibilidade de fotos noturnas com a ajuda de um tripé; um celular com boa qualidade de captura de imagens para aquelas publicações triviais na internet; e, porque não, assim como eu, uma câmera fotográfica dos anos 70 que opere com filme em rolo e uma Super8 para filmar? O mundo ideal é tão lindo…

Minha primeira câmera da viagem, uma Sony que não suportou o estresse da viagem.

Como minha verba era limitadíssima, eu tinha dinheiro apenas para uma câmera compacta e celular. Li bastante e recordei da minha experiência com câmeras para ter a certeza que estava com as melhores opções para a verba que eu tinha em mãos. A versatilidade de uma boa câmera compacta e a necessidade de um celular por motivos adversos, fizeram esta dupla ser a minha escolha.

Meu kit de filmagem/fotografia na volta ao mundo — Canon PowerShot ELPH 340 HS / 4.5–54.0 mm 12X + 3 baterias + tripé de mesa articulado+ selfie-stick + leitor de cartão USB + Cartão de memória com 32GB + Celular qualquer com Android e uma tela grande. Posteriormente, durante a viagem, adicionei uma Pentax com filme em rolo.

Sobre as baterias e memórias — Baterias extra e cartões de memória extra. Assim que chegar em um lugar com energia elétrica, você tem de ter o costume de por tudo para carregar. É um processo que em mim é automático de tanto repetir e de ter medo de chegar em um lugar interessante ou em um acontecimento fantástico e não ter como registrar para mim e/ou para meu projeto. Cartão de memória é o que eu menos uso em minha câmera já que nela tem um de 32 Giga o qual nunca estive perto de não ter espaço, porém assim que sinto que tenho muitas fotos e vídeos no cartão, o descarrego no laptop onde dou continuidade para o material: renomeando os arquivos, editando quando necessário e armazenando-os na nuvem e/ou HD externo.

Manutenção das câmera—Fique ligado no principal inimigo da sua câmera na viagem, principalmente se for do tipo compacta ou DSLR que possuem várias áreas móveis: poeira. Eu perdi câmera por causa de um deserto. Enrole a câmera em papel-filme cuidando, no caso das compactas com zoom, para não obstruir a projeção da lente assim que ela for ligada. Limpe-as com frequência caso contrário elas irão morrer em menos de 10.000 km de viagem de bicicleta ou um ano de viagem.

Edição dos vídeos — Para a edição dos vídeos do Mochila & Bike, sempre usei laptop MacBook White 2010 associado ao software nativo para edição de vídeos, o iMovie. Tanto o computador quando o software não simples, porém, conhecendo ambos, você entende suas limitações e facilita as coisas. Porém o poder de processamento do laptop é o maior responsável por você conseguir trabalhar com vídeos. Nos dias em que o clima superava os 28ºC, eu não podia editar vídeos, mesmo tendo tudo em mãos. A temperatura do laptop ultrapassava os 80ºC e eu o desligava antes de queimá-lo de vez. Então antes de ficar garimpando o melhor software para editar vídeos que talvez tu não necessites de mais recursos que o singelo iMove oferece, invista em um laptop com tela não maior de 15 polegadas com o máximo de memória RAM possível e com um processador que trabalhe bem em altas-temperaturas.

Escrever

Se você viu o filme "On The Road", lembrará da história do jovem escritor trancado por semanas dentro de um quarto, jogando suas memórias de viagem em uma máquina de escrever. É possível que eu faria o mesmo, mas tive sorte de ter a internet e aplicativos de sincronização à disposição. Mesmo que tu não tenhas pretensão de compartilhar seus pensamentos e experiências de viagem com outras pessoas, considere ainda assim escrever para recordar com vivacidade no futuro, como se teus textos fossem um tipo de poupança das recordações, onde o risco de perder os detalhes — o que torna tudo tão especial — seja mínimo.

Um blog com o Medium.com ou Wordpress.com, mesmo que você não o divulgue para o mundo, tem tudo que você precisa: salva seus rascunhos, nenhum texto é perdido, pode organizá-los, você terá controle de versão sobre o que escreve e poderá anexar outras mídias digitais da forma que achar melhor. Quem precisa de um processamento de texto mais agressivo, geralmente quem está escrevendo um livro, recomendo o Evernote. É um aplicativo gratuito que dispõe de uma suite completa de processamento de texto, sincronizando todo seu material tanto na nuvem quanto em teus dispositivos, perfeito para fazer anotações off-line e, ao voltar a estar online, ter tudo sincronizado com segurança.

Armazenar

Não ignore esta questão: como será armazenado as fotos, textos e vídeos da viagem? Tudo bem, você pode deixar tudo dentro da sua câmera até que ela não tenha mais espaço ou seja extraviada, com você desesperado. Eu já perdi uma semana incrível de viagem, mas nada se compara ao que passou com um colombiano que conheci no Equador que teve todos seus dispositivos furtados, incluindo seu disco externo, perdendo um ano de viagem por cinco países. Ele estava com os olhos marejados, sentado na mesa, fumando um cigarro atrás do outro, se perguntando porque o roubaram. Eu, mesmo que angustiado pelo sofrimento do amigo, me perguntava porque o infeliz não pôs seus arquivos na nuvem.

Armazenando fotografias — Eu armazeno minhas fotos no Flickr.com, um serviço para amantes da fotografia. Lá, você tem 1TB de espaço grátis, o que é o suficiente para guardar mais de 100 mil fotografias em altíssima qualidade. No Flickr, suas fotos estarão disponíveis para você no tamanho original, podendo inclusive organizá-las por álbum, adicionar descrições, configurar a licença da fotografia e, além de outras coisas, lá no Flickr você terá as datas que as fotografias foram feitas e por mais que isto pareça apenas um pormenor qualquer, estas datas te ajudarão a recordar cada momento, principalmente se você pensa em escrever suas histórias. Quando eu tiro as fotos do cartão da câmera, meu único trabalho é arrastar as fotos para dentro do site do Flickr, separá-las por álbum e dizer quais podem ser públicas e quais não. Ao longo dos dias, vou preenchendo as informações das fotos mais importantes. As fotos que não seleciono como fotos para o álbum da viagem, eu não as apago; as jogo para uma pasta no meu laptop onde o Dropbox.com monitora e salva na nuvem tudo que está dentro para que, no futuro, eu tenha tempo de olhar cada clique com mais cuidado.

Armazenando vídeos — Armazenar vídeos é um gigantesco desafio para quem é nômade, ainda mais manipulando pouco ou nenhum dinheiro. Um vídeo de qualidade, em alta-definição, por exemplo com 10 minutos de filmagem, tu já tens mais de 1GB de dados. Como durante a volta ao mundo eu não posso me dar o luxo de ter internet todos os momentos e tampouco uma conexão de qualidade, decidi guardar todos os arquivos de filmagem dentro de um HD Externo que não sai de perto de mim além de contratar o serviço anual do Dropbox para salvar meus vídeos mais importantes. Uma solução mais barata é jogar os vídeos no Youtube e torná-los privados caso você não tenha interesse de publicá-los porém é uma solução apenas para quem não trabalhará com um volume considerável de vídeos já que o Youtube não é um cloud storage e sim um streaming.

Armazenando textos — Já as minhas anotações de viagem estão protegidas de duas formas. Os textos que ainda estou escrevendo, estão no meu Evernote (que sincroniza com todos meus dispositivos gratuitamente) e os textos já publicados, estão protegidos pelo excelente serviço de blog do Medium.com onde também existe um controle de versões dos seus textos.

Em fevereiro de 2016, meu blog foi hackeado e todos os textos foram apagados criminosamente e, por meu descuido, alguns textos eu tinha atualizado diretamente no Medium, não os atualizando no Evernote. Ainda assim, fiz uma busca no Google pelos meus textos e eles ainda apareciam nos resultados. Fui em cada link e cliquei na opção “Ver em cache” e meus textos estavam lá, armazenados pelo sistema de busca do Google. Moral da história: ter seus textos na nuvem/internet é uma excelente forma gratuita de ter suas coisas protegidas pela nuvem porque perder um registro, uma reflexão, uma memória importante, é muito, muito, muito ruim.

Mas não esqueça de você

Ainda que você tenha os melhores dispositivos e ferramentas, são os seus sentidos que determinarão quando é hora de fotografar, de filmar, de escrever e de simplesmente não fazer nada, apenas experimentar para si só. Como Argus Caruso me disse sobre sua volta ao mundo de bicicleta, "depois de um tempo na estrada, os objetivos foram mudando (…), percebia que já não conseguia sequer digerir tanta novidade. Acabava de conhecer pessoas e lugares incríveis e (…) outras pessoas e lugares incríveis apareciam outra e outra vez".

Planeje como você fará seus registros, não os ignore, contudo nunca perca a noção de que por maior que seja a vontade de registrar, nada se igualará ao momento que tudo esteja acontecendo. Te dê a chance de viver coisas incríveis sem lápis, sem câmeras, sem nada, apenas você vivendo aquilo e registrando exclusivamente na memória.

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