Viajar Com Pouco É Investimento

Como um mochilão com sérias restrições financeiras pode ser um incrível investimento a médio e longo prazo

Idealizando | por Aldo Lammel

Na caçamba de um caminhão de pêssegos no Perú — 2015 — @aldolammel, CC BY-NC

Para a esmagadora maioria, viajar é sinônimo de férias e gastos, onde desembolsamos quantias cada vez mais pesadas para viajarmos em formatos comerciais, quadradinhos, com voo, hotel, café da manhã, traslado, tudo incluso, fazendo-nos atentos ao relógio e a carteira mesmo estando em férias, tentando tirar os pensamentos do escritório. São pacotes prontos para o consumo e que um par de dias depois retornarmos para casa satisfeitos com a experiência vivida e com novas fotografias que são, na verdade, versões ligeiramente diferentes das imagens de outros milhares de turistas que compraram o mesmo pacote. A ilusão de se ter vivido algo único. Isto se chama turismo, um modelo de viagem acessível e o jeito mais comum de se conhecer o mundo, movimentando a economia de cada canto popular.

Viver o turismo é uma ótima forma de se gastar o dinheiro; é indiscutivelmente mais enriquecedor viver uma viagem de 30 dias do que a compra de um carro novo. Um carro sempre é bom, nos alimentando com a sensação de que estamos prosperando (até porque na cultura do continente americano ter uma máquina própria que te leve do ponto A ao nunca distante ponto B é tão importante quanto ter onde morar), mas a alegria dura tão pouco que parece que se vai assim como o cheirinho de carro novo ou o tempo que a montadora levará para lançar o novo modelo. Já uma viagem você associa a experiência à lugares, pessoas, gastronomia, costumes, idiomas, música, filmes, livros e uma infinidade de possibilidades, todas juntas e misturadas que durarão por toda uma vida e, no mínimo, te tornarão alguém vivido, potencialmente menos careta e — consequentemente — mais propenso a ser alguém interessante até mesmo por quem nunca optaria por fazer o que você faz.

Entretanto, e não pode ser ignorado, uma parte de nós, independente do poder aquisitivo, se identifica mais com viver uma aventura de imersão do que experimentar um breve e — admitamos — superficial momento turístico onde experiências de fato únicas são limitadas queira o turista acertar ou não. Uma viagem agenciada à Paris para conhecer a cultura francesa seria especial? Eu apostaria que sim, no entanto sem me prolongar, a experiência seria inexoravelmente rasa. Primeiro porque Paris não representa em quase nada da cultura francesa e uma semana na França ou em qualquer outro país não dá tempo à ninguém de ver e sentir os aspectos importantes da vida naquela cultura. Ou você discorda de que cruzar um país de ponta-a-ponta dormindo com famílias locais, dividindo seus costumes e conhecendo seus bairros na sua companhia não é a verdadeira experiência de viagem à outra cultura? Optar por hotéis com seus cafés padrões e descobrir a cultura local através de panfletos traduzidos será sempre uma versão acomodada diante dos 70 anos de história da arte de mochilar, escrachando de modo desproporcional as diferenças entre o mochileiro e o turista. O mochileiro é um viajante independente, que organiza suas trips por conta própria, dando ênfase ao conhecimento, a aventura e a diversão durante viagens mais longas, enquanto o turista experimenta viagens curtas e sem abdicar seus costumes e conforto, usando soluções pagas que passam a falsa sensação de liberdade e autonomia.

Viajando Sem Dinheiro: o Investimento

Antes de você e eu conversarmos sobre dinheiro, saiba que ele é necessário porém absolutamente secundário para a sua viagem pelo mundo; daqui a pouco falaremos disto, porém, agora, pense unicamente na palavra “investimento”. Tudo aquilo que na vida onde você dedicou tempo foi um investimento, entretanto nem todos os investimentos, seja ele grande ou pequeno, valem a pena. Se você deu um salto na qualidade da sua vida, foi graças a uma decisão de investir em algo e não apenas um golpe de sorte. Se um dia você se arrependeu de não ter conquistado algo, sem dúvida você culpou-se por algo do passado que você deixou de fazer. Acompanhe o que aconteceu comigo: eu fui contratado pela maior empresa de internet do sul do Brasil e meu projeto inicial foi construir um sistema para a General Motors, porém, como líder de projeto, eu teria de interagir com os engenheiros de uma empresa sediada em Nova Deli, Índia. Meu inglês era nulo e tive que entregar minha autonomia ao meu gestor e ali eu perdia definitivamente a oportunidade de atender outros gigantes globais apenas porque, nos tempos de escola, eu matava todas as aulas de inglês para tocar bateria. Talvez se hoje eu fosse um Rock Star eu diria que aquele investimento foi inteligente, mas não foi!

Anos depois, decidi por viajar pelo mundo para realizar meus projetos pessoais, um deles, aprender idiomas na marra. Assim que meu mochilão começou e eu cruzei a primeira fronteira, Brasil-Uruguai, eu realmente não sabia dizer nada além de “si” e “no” no espanhol, porém no momento em que entrei naquele novo país e posteriormente na Argentina, me vi sozinho, sem grana, tendo que buscar ajuda para encontrar um lugar para tomar banho, comer algo quente, lavar minhas roupas, usar internet e até mesmo para interagir e não me sentir solitário na estrada. Comecei a arriscar uma frase aqui e anotar outra nova expressão ali. Logo nas primeiras semanas eu já tinha alguma conversação e poucos meses depois já estava entrando em assuntos complexos, técnicos e até mesmo literalmente sonhando em espanhol. Além de viajar, aprender inúmeras outras coisas que me tornariam alguém indiscutivelmente mais interessante e com maiores chances de ser um indivíduo divertido e criativo, eu tinha aprendido a falar espanhol tão rápido quanto qualquer curso de idiomas poderia me propor. E a custo zero.

Num planeta de 509 milhões de quilômetros quadrados, já bem otimistas cada um de nós vive toda a vida num espaço de 248 mil. E é nesta zona não maior do que o estado de São Paulo que supostamente temos de encontrar nossos desejos a ter, experiências a viver, sucesso a alcançar e amores a descobrir. Não vejo nada de errado em escolher uma vida bem fixada com o mínimo de incertezas pela frente, porém o perigo está em tomar essa decisão sem nunca ter olhado o que há além daquelas montanhas no horizonte. Se estão corretas as afirmações de que somos o resultado das nossas experiências e o mundo é dos mais preparados, não faz qualquer sentido viver apenas o que está no alcance dos braços. E se as afirmações estiverem equivocadas, se questione se a própria aventura em si não poderia ser, além de divertida, lhe ensinar algo de valor.

Aldo Lammel — 2017 — Mochila & Bike

Durante a travessia da Cordilheira dos Andes do lado argentino para o lado chileno, o frio da altitude, cansaço por estar empurrando a bicicleta o dia inteiro montanha acima e a fome, intensificaram minhas emoções e eu mentalizava "será que ninguém poderia me ajudar, caralho?" embora eu não estivesse pedindo ajuda. No seguindo dia tentando vencer transpor a segunda maior cadeia de montanhas do mundo, eu já pedia água nos povoados por onde eu parava, mas ainda era incapaz de pedir ajuda com comida ou lugar para dormir. Segui subindo as montanhas até que cheguei no topo e lá, o frio estava abaixo de zero e eu não tinha comida, nem água e tampouco lugar para ficar. Naquele ponto eu ainda não sabia que minha barraca devidamente montada era possível enfrentar temperaturas muito mais baixas confortavelmente. Fiquei assustado, vendo as casas com luzes acessas e pessoas comendo além das janelas, chaminés expelindo fumaça e eu lá fora imaginando como deveria estar quentinho em um lugar abrigado com lareira ou fogão à lenha. Fiquei tão bravo com minha própria situação que comecei a bater em porta em porta com o maior sorriso no rosto que eu podia mentir e assim, depois de quatro tentativas em lugares diferentes, um montanhista me convidou para dormir e, antes disso, comer algo quente com um copo de água. Depois daquele dia, saber quando e como pedir ajuda, vender minha viagem aos outros num espaço de tempo limitadíssimo e me comunicar diante de tanta ignorância linguística, se tornou cada vez mais fácil para mim até que as desvantagens foram se diluindo, meu conhecimento nas culturas por onde eu viajava aumentava e as barreiras do idioma foi desaparecendo.

Isto foi apenas um exemplo do investimento que é uma expedição internacional, muito mais do que aprender novos idiomas ou o aprimoramento da sua postura como indivíduo. Uma viagem de mochilão sem dinheiro é um empreendimento de construção de novas habilidades; recursos estes que abrirão à ti novas portas no mercado de trabalho e nos relacionamentos interpessoais. Enquanto o argentino é mestre na arte de mochilar em nível global, o vendo viajar sem um tostão, o brasileiro ainda enxerga o mochilão como válvula-de-escape para seus problemas e não como um movimento inteligente de aprimoramento pessoal o que, por sinal, é exatamente o que uma viagem de imersão é. Ou você acha que por ter decidido viajar por um ano de sua vida vai te desqualificar em uma boa vaga de emprego apenas porque você tem um ano a menos de experiência que os demais candidatos? Se você for descartado, será por outro motivo e não por isso. Até porque viajar por um ano pelo mundo com tantas limitações financeiras adicionará fluência não apenas em um novo idioma, mas também em como você expressa sua vontade por algo. O mesmo vale a quem quer empreender. Viajar com pouco te faz buscar soluções o tempo todo, você se obriga a ter melhores decisões e tua resposta a problemas se torna muito mais eficaz. Ainda assim é preciso saber que um mochilão sem dinheiro não te credenciará com caráter ou astúcia, porém é um forte indicador de quão arrojado você pode ser naquilo que tu se propuseste a fazer. As limitações econômicas lhe ajudarão a vencer a timidez, te farão a recodificar seu ego, o deixando maleável ao ter de pedir ajuda à quem tem menos do que você, e sólido como aço ao ter de se fazer ouvir por quem nem mesmo lhe mira nos olhos. Você acelera seu amadurecimento intelectual e moral diante as novas realidades. Você descobrirá em si novas habilidades e conhecerá intimamente tuas próprias limitações, se dando a chance de fazer algo para desenvolver-se com mais precisão.

Sem Dinheiro, Mas Com Estratégia

Olhando para tua própria história, tu lembrarás do dia em que seus amigos lhe convidaram para sair e você os respondeu “Não posso, sem dinheiro”? O conceito “sem dinheiro” não significa que você não tenha nada. A expressão está muito mais conectada com a escassez do que com a inexistência. Mais para frente, te ensinarei a obter muita coisa de graça durante seu mochilão, contudo você tem de estar ciente de que, quando o assunto é saúde, você precisará de algum recurso financeiro emergencial para que você tenha condições de viajar sem estar alucinado atrás de comida ou apavorado porquê está ficando doente e se vê sozinho. Se você pesquisar, encontrará diversos aventureiros que viajam absolutamente sem dinheiro, dependendo unicamente do que as pessoas dão a eles. Minha viagem nunca teve como objetivo uma prova de sobrevivência, e sim uma busca por experiências divertidas, nostálgicas ou que eu sinta que poderão ter funções práticas no meu futuro. Nem uma, nem algumas; muitas vezes fiquei sem qualquer dinheiro, com zero! E ficar sem dinheiro por absoluto no outro lado do mundo e sozinho te põe em uma situação de muito desconforto, terá muitas saídas, porém, repito, de muita angústia que não lhe agregará muita coisa. Assim, daqui para frente, te ajudarei a construir uma viagem ao seu estilo, com ou sem o apoio de uma bicicleta, porém usando métodos, táticas e estratégias para você mochilar usando dinheiro exclusivamente para comer. E até mesmo isto te ajudarei a algumas vezes obter de graça.

Sacrificio Inicial

Assim que você decidir por viajar, terá de conseguir equipamentos, roupas, documentação, plano de saúde, etc, e é óbvio que se tu não tens algo, terá de comprar ou conseguir com seus contatos; o importante é saber que para viajar pelo mundo sem dinheiro, você terá de fazer um investimento e isto significa sacrificar-se agora durante o planejamento. Trabalhei durante 10 anos com projetos para multinacionais para te afirmar que se tu fores relaxado agora, você não viajará com autonomia. Um conselheiro não está aqui para lhe agradar, mas para pôr teus pés no chão e lhe ajudar a atingir teus interesses. O que posso lhe adiantar agora é que se você não estiver trabalhando para adquirir o básico para sua viagem e pagar seus custos (comida, higiene, luz, internet, coisas do tipo) durante os meses de planejamento, você terá grandes dificuldades. Como eu pedi demissão do meu trabalho para dedicar-me 100% ao projeto, abri mão do meu salário e o pouco dinheiro que eu tinha, comprei parte do meu equipamento. Todos os meses dos 17 que fiquei em casa dedicado ao Mochila & Bike eu fazia bicos poucos dias da semana para ter dinheiro para pagar luz, internet e condomínio. Cancelei todos os serviços desnecessário, inclusive o plano de telefonia do meu celular; e a comida minha família me enviava potes com comida para eu ir me mantendo a maior parte do tempo. Moral da história é que tu tens de considerar este período de planejamento como um investimento ou tu não irás coçar o saco olhando para o teto pensando em destinos e aguardando um dia tu dizer "ok, vou para a estrada hoje". Você montará seu roteiro e cronograma, verá documentações, pesquisará preços de equipamentos e uma infinidade de pesquisas que vão surgindo naturalmente no seu caminho e, acredite, você precisará de tempo e algum dinheiro para construir seu mochilão ao longo de meses a fio, talvez anos de estrada.

Os custo de preparação, que não tem nada a ver com os custos totais da sua viagem, é tão variável que seria perda de tempo eu cotar para você, entretanto um mochileiro que pretende viajar de carona, por exemplo, terá um custo entre mil a três mil reais com seus equipamentos de viagem além dos custos para se estar em casa trabalhando em seu projeto (caso você pague as contas e sua alimentação onde vive) e do plano de saúde que eu particularmente não comprei, mas recomendo que você o tenha durante sua trip. Sites como o World Nomads oferecem planos de saúde para mochileiros que trocaram de país o tempo todo com uma cobertura fantástica e por um preço muito interessante. Já mochileiros que vão encarar a estrada com a ajuda de uma bicicleta, exatamente como eu fiz para a volta ao mundo, o custo pode ser muito maior, entre três a dez mil reais totais, mas sem contabilizar plano de saúde e custos pré-viagem (luz, internet, alimentação, higiene pessoal). “Aldo, mas o que eu preciso comprar então?”, você me pergunta e eu lhe digo “Calma o coração!” Um passo de cada vez pois isto veremos quando iniciarmos o planejamento. Por ora estamos apenas idealizando sua viagem.

Como Ter Dinheiro Durante a Viagem

Agora esqueça o dinheiro para comprar coisas antes da viagem e pense apenas no dinheiro que você pode obter quando sua viagem já estiver acontecendo. É incrível como nós nos adaptamos, somos genuinamente bons em encontrar caminhos para chegar onde queremos quando estamos fora da zona de conforto. Te digo que existem inúmeras formas de ter pelo menos um pouco de grana na sua conta bancária durante a viagem, como, por exemplo: alugando seu apartamento (como no meu caso); um apoio financeiro de alguma marca/loja; uma mesada familiar; crowd-funding; doações (extremamente variável, cuidado); dentre outros, inclusive fazendo bicos durante sua viagem. No início da minha viagem pelo mundo cheguei a fazer um bom dinheiro com consultorias digitais para meus antigos clientes no Brasil além de quando precisava de comida e abrigo no alto de um vulcão no Equador, fui até um hostel e disse que podia ajudá-los a atrair gringos que frequentemente passavam pela frente do hostel mas nunca entravam. Assim, tive comida e um lugar quentinho para dormir por duas noites antes de eu seguir minha viagem. Nunca me imaginei fazendo isto, porém, como eu disse, somos muito adaptáveis diante da necessidade, por mais que nossas limitações pessoais digam antecipadamente que não dará certo.

Conclusão

No momento que você pisa fora de casa, novas oportunidades surgiram a medida que você avança milha após milha, e nestas portas que se abrirão, um leque de novas ideias lhe ocorrerá e, na necessidade, você fará acontecer, é impressionante! Não tema a desistência! Desistir faz parte, mas obrigue-se a sentir vergonha dela. Temer a sua falha faz bem, te mantém no rumo que você desenhou. Muito mais pessoas estão viajando pelo mundo, pessoas que não tiveram nem sequer uma ínfima fração de informações que tu estás adquirindo aqui. Eu tive de partir do zero absoluto e consegui. Com um mar de informações neste manual somado aos conteúdos audiovisual do M&B, você tem sua trilha bem iluminada. Mesmo que o assunto dinheiro seja preocupante e a ideia de viajar sem ele seja assustadora, cada vez mais você perceberá por si só o tamanho do investimento que você está começando a fazer ao apostar nos seus sonhos. E isto inclui uma grande aventura ao redor do mundo.

Um dia, durante ou após a viagem, recordando de como você a iniciou, tu perceberás teu próprio crescimento e terá bem diante dos teus olhos de como uma viagem pelo mundo tomada de restrições financeiras foi um dos teus melhores investimentos.

País-Basco, Espanha — 2016 — Aldo Lammel, CC BY-NC

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