Que semana corrida! Puts! Sem tempo para nada. Além das provas na faculdade, véspera de big evento do trampo, e a Comunicação fervendo de demandas. Jornadas e cooperação prorrogadas e, tempo que é bom: cada vez menor. Ontem, todos (jornalistas e aprendizes de), no ebulir das tarefas e da fome, resolvemos pedir sanduíche para o “almoço”. Foco! Uma das supervisoras para pra resolver a urgência. Todos os pedidos anotados, todas as observações feitas (a minha, para retirar a alface e o palmito do sanduíche de frango com cheddar, alface e palmito), ok!, meia-hora até chegar e, até lá, muito trabalho pra dar conta.
Pão sírio + frango + cheddar. Não poderia haver outra combinação menos prática nesta vida. Trinta folhas de guardanapo não foram suficientes para evitar a lambança causada pela ausência de talheres durante a refeição feita na mesa de trabalho. Com muita cautela – em vão –, em 10 minutos metade do sanduíche já tinha acabado com a minha fome. “Alguém aceita? Tá limpinho! Só comi o pedaço de cá, óh!”. Dou-lhe uma, dou-lhe duas... – a colega estagiária arremata a metade da metade –, dou-lhe três! “Uma pena, mas, vai ter que ir para o lixo”.
Comentei com os colegas, rapidamente, o quanto é horrível jogar comida fora sabendo que pessoas morrem, com maior frequência do que possamos imaginar, por não terem “lixo” como esse. Com outras trinta folhas de guardanapos, limpei a sujeira da mesa, a boca, as mãos, a cadeira e tudo mais onde aquele cheddar foi parar, coloquei por cima do restante do sanduíche e, no momento de jogar na lixeira, o peso na consciência. O assunto “desperdício” rolou por um tempo e, uma outra supervisora, Julianna, fez uma ressalva antes que eu jogasse o resto do sanduíche , já cheio de guardanapos sujos por cima, no lixo: “Coloca dentro de um saquinho separado. Também odeio jogar comida fora, mas, quando eu preciso, sei que mesmo que a gente ache um absurdo e se recuse a acreditar, alguém, muito provavelmente, vai comer esse resto em algum lixão por aí. Então, coloca num saquinho”.
Parei alguns segundos e, mesmo ainda atônito com a recomendação, separei em outro saquinho e joguei no lixo. Voltamos ao trabalho, cumpri meu expediente – com direito a inevitável hora-extra –, e fui para casa. O saquinho, óbvio, não saiu da minha cabeça. Horas e horas me sufocando. Meu mundinho-cor-de-rosa, onde os lixões têm uma Mãe Lucinda do João Emanuel Carneiro para preparar comida para os catadores, não tinha mais nenhum respaldo de inocência para existir: há gente (GENTE!!!) que come o meu lixo. E isso não tirou meu sono pela tarde, mas tirou meu apetite à noite. Simplesmente não consegui lidar com a informação que, antes, ignorava. E todos ignoram. Temos que viver nossas vidas, afinal, não é mesmo? “O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”. Tudo bem, Mario Quintana, mas as pessoas (PESSOAS!!!) continuarão comendo o meu lixo. LIXO: o que não presta mais.
Difícil lidar com a assimilação de uma informação tão pesada. Difícil lidar com a assimilação de uma informação tão pesada sabendo que nem é tão pesada assim, se comparada a todos os problemas sociais da humanidade. Mais novo, eu que tanto amo a noite e venero a lua, cheguei a pedir, em poema chinfrim, que esta se retirasse de vez e não mais me mostrasse as tragédias ao relento que no breu iluminara. Era isso: eu apenas não queria ter conhecimento. Durante o dia, atenta e forte, a sociedade maquia boa parte desses hematomas e, sob seus óculos de sol, enxerga apenas o meu mundinho-cor-de-rosa com a Mãe Lucinda da novela. Ou o que um futuro colega de profissão editor de um jornal “x” escolhe ser relevante para o conhecimento do público. E, eu que não sei fazer contas nem tenho parâmetros matemáticos para nada, sei que 99,9% das vezes, se competente for, ele saberá que a história da Mãe Lucinda é de maior interesse que o morto de fome. O morto de fome, literalmente. E essa expressão, tão corriqueira, talvez seja utilizada na mesma estatística como dito popular e como índice de mortalidade.
Em nada esses milhares de caracteres irão ajudar e, em algum tempo, se eu tiver sorte, também estarei suprimindo os mortos de fome para informar sobre os desfechos e efeitos de telenovelas. Mas, de repente, quem sabe, você que está aqui, lendo, sinta o mesmo tormento que me fez vomitar essa tristeza, toda vez que for jogar uma comida fora, e se lembre da recomendação da Julianna: coloca num saquinho separado. Por que cantar “...é gente humilde, que vontade de chorar” não alimenta. Nem Chico, nem eu, nem toda a boa intenção dos bem-intencionados com as políticas públicas mudará, tão cedo, a realidade da fome (e das mortes) causada pela ausência de míseras migalhas de comidas não encontradas. É cruel, é humano, e é a realidade: eu me preocupo com a minha vida, a Julianna com a dela, você com a sua e, nesse tempo, pessoas morrem por não terem comida. Bem do nosso lado. A recomendação da Julianna é, na verdade, uma das que mais ouvimos, desde sempre: se não puder ajudar, não atrapalha.
Escrito em 20 de novembro de 2012
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